13 de março de 2017

Capítulo quinze

GAIVOTAS ESTÃO EM POLEIRADAS NAS ESTRELAS que decoram cada telhado, nos observando passar pelas sombras frescas do meio-dia. Me sinto exposta sob o olhar das aves, um peixe prestes a ser pescado para o jantar. Cal nos faz manter um ritmo enérgico, e sei que também sente o perigo. Mesmo andando pelos becos, ladeados apenas pelas entradas de serviço e alojamentos de criados, ainda estamos completamente deslocados com nossos capuzes e roupas esfarrapadas. Esta parte da cidade é pacífica, silenciosa, impecável... e perigosa.
Quanto mais avançamos, mais fico tensa. E o pulso de eletricidade se intensifica, latejando em cada casa por que passamos. Chega até a pender sobre nossas cabeças em fios camuflados por trepadeiras ou por toldos de listras azuis. Mas não sinto nenhuma câmera, e os veículos se limitam às ruas principais. Até agora, passamos despercebidos, protegidos por distrações sangrentas.
Cal nos guia depressa pelo que chama de Setor Estrela. Com suas milhares de estrelas nos cem telhados em cúpula, o bairro faz jus ao nome. O príncipe nos guia por vielas, fazendo questão de manter uma distância segura de Ocean Hill até completarmos a volta e chegarmos a uma estrada principal, agitada pelo tráfego.
Uma ramificação da estrada do Porto, se lembro direito do mapa, que liga Ocean Hill e seus anexos à enseada movimentada e ao Forte Patriota mais à frente, estendendo-se sobre a água. Desse ângulo, a cidade inteira surge espalhada à nossa volta numa pintura branca e azul.
Nos enfiamos no meio dos vermelhos que lotam as calçadas. O pavimento branco está abarrotado de veículos militares que variam em tamanho — desde automóveis para duas pessoas até grandes caixas blindadas com rodas —, quase todos marcados com a espada símbolo do exército. Os olhos de Cal brilham sob o capuz, observando cada um deles passar. Já eu estou mais preocupada com os veículos civis. Embora em menor quantidade, eles reluzem e aceleram no meio do trânsito. Os mais impressionantes carregam bandeiras coloridas para indicar a que casa pertencem ou que passageiros estão transportando. Para o meu alívio, não vejo nenhuma bandeira vermelha e preta da Casa Calore, de Maven, nem o branco e azul-marinho da Casa Merandus, de Elara. Pelo menos hoje não preciso esperar o pior.
A multidão que se acotovela na calçada nos força a andar espremidos um contra o outro; Cal à minha direita, Farley à minha esquerda.
— Falta muito? — falo baixo, retraindo o rosto de volta para o capuz.
A imagem do mapa surge turva na minha lembrança, apesar de todo o meu esforço. O vaivém foi demais para que conseguisse me localizar.
Em resposta, Cal estica o queixo na direção de um aglomerado agitado de pessoas e veículos mais à frente.
Engulo em seco ao ver o que, sem dúvida, deve ser o coração de Harbor Bay. A coroa da cidade, cercada de pedras brancas e paredes de diamante. Não consigo enxergar muito do palácio além dos portões azuis com escamas de prata, mas alguns torreões estrelados despontam por cima dos muros. É um lugar bonito, mas frio, cruel e cortante. Perigoso.
No mapa, esta parte parecia não passar de uma praça diante dos portões de Ocean Hill, com acesso à enseada e ao Forte Patriota por uma descida suave. A realidade é muito diferente. Aqui, dois mundos do reino parecem se misturar; vermelhos e prateados convergem por um instante mínimo. Estivadores, soldados, criados e nobres caminham sob a cúpula de cristal que se eleva sobre o pátio gigantesco. Há uma fonte no centro, rodeada de flores brancas e azuis ainda intocadas pelo outono. O sol cintila através da cúpula, filtrando a luz e distribuindo-a em feixes dançantes, coloridos e caóticos. Os portões do forte ficam logo no final da avenida em que estamos, e também brilham com a luz variável da cúpula. Assim como os portões do palácio, foram construídos com maestria: doze metros de altura em bronze e prata, reluzentes e trançados na forma de um peixe gigante saltando. Se não fossem as dezenas de soldados e o meu absoluto terror, talvez eu achasse os portões magníficos.
Eles escondem a ponte mais adiante e o Forte Patriota, longínquo sobre o mar. Cornetas e gritos e gargalhadas são demais para mim, a ponto de eu ter de olhar para baixo para recuperar o fôlego. A ladra em mim desfruta de tamanha confusão, mas o resto de mim se sente temeroso e desgastado, como um fio desencapado que tenta conter suas faíscas.
— Você tem sorte de não ser a Noite da Estrela Solitária — Cal cochicha com um olhar distante. — A cidade inteira explode em festivais.
Não tenho forças para responder, nem quero. A Noite é um feriado prateado, celebrado em memória de uma batalha naval de décadas atrás. Não significa nada para mim, mas basta ver Cal e seu olhar distraído para concluir que para ele é diferente. Viveu a festa nesta mesmíssima cidade, e lembra dela com carinho. Música, risadas e sedas. Talvez fogos de artifício na orla, e um banquete real para encerrar. O sorriso aprovador do pai, as piadas com Maven. Tudo o que perdeu.
Agora é a minha vez de olhar ao longe. Essa vida acabou, Cal. Essas lembranças não deviam mais te deixar feliz.
— Não se preocupe — ele retoma quando sua expressão volta ao normal, balançando a cabeça para desfazer um sorriso triste. — Conseguimos. A central de segurança é logo ali.
O prédio apontado por ele fica na beira da praça agitada, e seus muros brancos contrastam com o emaranhado de veículos abaixo. Parece uma fortaleza bonita, com janelas de vidro grosso e degraus que levam a um terraço rodeado de colunas esculpidas na forma de um rabo de peixe enorme. Passarelas vigiadas pendem do topo das muralhas de diamante de Ocean Hill, unindo a central de segurança ao resto do complexo real. O telhado também é azul, só que não está decorado com estrelas, mas com estacas. Ferros de dois metros com pontas afiadas e perversas. Imagino que sirvam para os magnetrons usarem contra qualquer tipo de ataque. O resto do prédio é igual, coberto de armas prateadas.
Trepadeiras e plantas espinhosas envolvem as colunas e duas piscinas armazenam água escura para os ninfoides.
E, claro, há guardas armados com rifles de longo alcance em cada porta.
Pior que qualquer guarda são os estandartes, tremulando à brisa do mar, pendendo das paredes, pequenas torres e colunas escamadas. Não portam a imagem da lança prateada da segurança, mas a da coroa flamejante. Preta, branca e vermelha, com pontas retorcidas em línguas de fogo. É o símbolo de Norta, do reino, de Maven. De tudo o que tentamos destruir. Há outros estandartes, dourados, onde está o próprio Maven. Ou pelo menos a imagem dele — encarando o infinito, com a coroa do pai e os olhos afiados da mãe.
Parece um garoto jovem, mas forte, um príncipe que se ergue para fazer frente ao maior dos desafios. “VIDA LONGA AO REI” formam as letras gritantes sob cada imagem do seu rosto anguloso e pálido.
Apesar das defesas impressionantes, apesar do olhar assustador de Maven, não consigo conter o sorriso. A central pulsa com a minha própria arma: eletricidade. É mais poderosa do que qualquer magnetron, qualquer verde, qualquer rifle. Está por toda parte. E é minha. Se ao menos eu a pudesse usar de verdade, se ao menos não tivéssemos que nos esconder...
Se. Desprezo essa palavra idiota.
Ela paira no ar, próxima o bastante para que eu a toque. E se não conseguirmos entrar? E se não conseguirmos encontrar Ada ou Wolliver? E se Shade não voltar? A última pergunta queima mais do que as outras. Apesar de os meus olhos estarem acostumados com ruas lotadas, não vejo meu irmão em lugar nenhum.
Deveria ser fácil notá-lo, mancando com a muleta, mas não o encontro.
O pânico intensifica meus sentidos e arranca o mínimo de autocontrole que trabalhei tão duro para cultivar. Preciso morder o lábio para não suspirar alto. Onde está meu irmão?
— Então esperamos? — Farley pergunta, numa voz trêmula que revela o próprio receio. Seus olhos correm de um lado para o outro, à procura. Do meu irmão.
— Acho que nem mesmo vocês dois são capazes de entrar aí sem Shade.
Cal bufa, ocupado demais enquanto examina as defesas para se dar ao trabalho de olhar para Farley.
— Poderíamos entrar com facilidade. Talvez isso implicasse mandar o prédio inteiro pelos ares numa nuvem de fumaça. Não seria uma aproximação sutil...
— Não, não mesmo — comento baixo, ao menos para me distrair.
Mas não importa o quanto eu tente manter o olhar fixo nos meus pés ou nas mãos de Cal, não consigo parar de pensar em Shade. Até agora, jamais duvidei que ele fosse se encontrar com a gente, não de verdade. Ele é capaz de se teletransportar, é a coisa mais rápida que existe, e um punhado de bandidos das docas não deveria ser ameaça para ele. Foi isso que disse a mim mesma na Paltry, quando o deixei. Quando o abandonei. Ele levou um tiro no meu lugar há alguns dias, e eu o joguei para os Piratas como quem joga um cordeiro para os lobos.
Ainda em Naercey, falei para Shade que não confiava nas palavras dele. Acho que ele não deveria confiar nas minhas também.
Enfio os dedos no capuz, tentando massagear os músculos tensos do meu pescoço. Mas não fico nem um pouco aliviada. Agora estamos à toa diante de um autêntico pelotão de fuzilamento, à espera, como franguinhos olhando a faca do açougueiro. E, embora eu tema por Shade, também temo por mim. Não posso ser pega. Não vou.
— Pela entrada dos fundos — digo. Não é uma pergunta. Toda casa tem uma porta, mas também tem janelas, um buraco no telhado ou uma tranca quebrada. Sempre há um jeito de entrar.
Cal franze a testa, perdido pela primeira vez. Nunca é bom mandar um soldado fazer o trabalho de um ladrão.
— É melhor esperarmos Shade — ele diz. — Ninguém vai perceber que ele entrou. Uns minutos a mais...
— Arriscamos a vida de mais sanguenovos a cada segundo desperdiçado. Além disso, Shade não vai ter problemas para nos encontrar mais tarde — argumento, dando os primeiros passos para fora da estrada do Porto, rumo a uma rua lateral. Cal me segue, bufando. — Tudo o que ele precisa fazer é seguir a fumaça.
— Fumaça? — ele questiona, pálido.
— Um incêndio controlado — explico, formulando um plano tão depressa que as palavras mal têm tempo de sair da minha boca. — Algo restrito. Uma parede de fogo grande o bastante para afastá-los. Alguns brutamontes ninfoides não devem ser uma ameaça muito grande para você, e se forem... — Cerro o punho, deixando uma minúscula faísca escapar pela mão. — É para isso que estou aqui. Farley, imagino que você conhece o sistema de registros?
Ela não hesita em confirmar, e seu rosto brilha com uma espécie de orgulho estranho.
— Finalmente — ela murmura. — Não faz sentido carregar vocês dois por aí se não servem para nada.
Os olhos de Cal escurecem de uma maneira terrível, que me faz lembrar do seu falecido pai.
— Vocês sabem o que isso vai acarretar, não sabem? — ele avisa, como se eu fosse uma criança. — Maven vai saber quem fez isso. Vai saber onde estamos. Vai saber o que estamos fazendo.
Rodeio Cal, com raiva por ter que explicar. Com raiva porque ele não confia em mim para tomar qualquer tipo de decisão.
— Faz mais de doze horas que pegamos Nix. Alguém vai perceber o desaparecimento dele, se já não tiverem percebido. Vão informar. Acha que Maven não está de olho em cada um dos nomes da lista de Julian? — Balanço a cabeça. Não sei como não pensei nisso antes. — Maven vai saber o que estamos fazendo assim que ouvir falar do desaparecimento de Nix. Não importa o que fizermos aqui. Depois de hoje, aconteça o que acontecer, a caçada humana vai começar. Vão nos procurar em todas as cidades, dar ordens para nos executar imediatamente. Por que não nos adiantamos aos fatos?
Ele não discute, mas isso não quer dizer que concorda. Em todo caso, não ligo. Cal não conhece este lado do mundo, não conhece as sarjetas e a lama em que precisamos nos jogar. Eu conheço.
— É hora de lutar pra valer, Cal — Farley intervém.
De novo, nenhuma resposta. Ele parece deprimido, enojado até.
— Eles são o meu povo, Mare — sussurra, finalmente. Outro homem gritaria, mas Cal não é do tipo que berra. Seus sussurros costumam queimar; agora, sinto apenas determinação. — Não vou matá-los.
— Prateados — acrescento. — Você não vai matar prateados.
Ele balança a cabeça devagar.
— Não posso.
— Há pouco tempo você estava disposto a acabar com Crance — insisto, com raiva. — Ele também faz parte do seu povo, ou faria, caso você fosse rei. Mas acho que o sangue dele é da cor errada, né?
— É que... — ele gagueja. — É diferente. Se ele fugisse, se fosse capturado, correríamos tanto perigo...
As palavras entalam em sua garganta e se desfazem.
Porque simplesmente não há mais justificativas que ele possa dar. Cal é um hipócrita, puro e simples, não importa quão justo afirme ser. Seu sangue é prateado e seu coração é prateado. E ele jamais valorizará qualquer coisa que não a sua gente.
Vá embora, é o que quero dizer. As palavras têm um sabor amargo. Não consigo empurrá-las para fora. Por mais odiosos que sejam o preconceito e a fidelidade dele, não consigo fazer o que devo. Não consigo deixá-lo ir.
Ele está tão errado, mas não consigo deixá-lo ir.
— Então não mate. — É o que digo, cerrando os dentes. — Mas lembre que ele matou. Meu povo e o seu. Todos seguem Maven agora, e vão nos matar pelo novo rei.
Aponto um dedo ferido na direção da rua e dos estandartes com o rosto de Maven. Maven, que sacrificou prateados para a Guarda Escarlate, para transformar a imagem dos rebeldes em terroristas e destruir os próprios inimigos com um golpe só. Maven, que assassinou todos que me conheciam de verdade na corte. Lucas e Lady Blonos e minhas criadas, todos mortos porque eu era diferente. Maven, que ajudou a matar o próprio pai, que tentou executar o irmão.
Maven, que precisa ser destruído.
Uma pequena parte de mim teme que Cal simplesmente vá embora. Ele poderia desaparecer pela cidade para procurar o pouco de paz que talvez ainda exista no seu coração. Mas não. Seu ódio pode estar enterrado fundo, porém é mais forte do que a razão. Ele vai ter a sua vingança, assim como eu terei a minha.
Ainda que nos custe tudo o que amamos.
— Por aqui. — A voz dele ecoa. Não temos mais tempo para cochichos.
Ao dobrarmos a esquina atrás da central de segurança, aguço os sentidos na direção das câmeras espalhadas pelos muros. Sorrindo, faço força, e elas entram em curto-circuito. Caem, uma a uma, com a minha onda de energia.
A entrada dos fundos é tão impressionante quanto a principal, embora seja menor. Um degrau amplo, como o de um pórtico, dá para o portão gradeado com metal curvado, com apenas quatro soldados de sentinela. Suas armas são reluzentes, bem polidas, mas parecem pesadas em suas mãos. Recrutas novos. Reparo nas fitas coloridas nos braços, símbolos das casas a que pertencem. Um deles nem tem fita: é um prateado de classe inferior, sem família importante e com poderes inferiores aos dos outros três — um banshee da Casa Marinos, um calafrio da Casa Gliacon e um forçador da Casa Greco. Para minha felicidade, não vejo o preto e branco da Casa Eagrie. Nada de olhos para ver o futuro imediato, para saber o que estamos prestes a fazer.
Eles nos veem chegar, e não se dão sequer ao trabalho de se empertigar. Vermelhos não são motivo de preocupação, não para soldados prateados. Como estão enganados...
Apenas quando paramos bem à frente do degrau do portão é que nos notam. O banshee, nada além de um garoto de olhos puxados e bochechas salientes, cospe em nossos pés.
— Continuem andando, ratos vermelhos — vocifera, num tom afiado.
Ignoramos, obviamente.
— Eu gostaria de prestar uma queixa — digo, em voz alta e clara, embora continue com a cabeça baixa. Sinto um calor subindo do meu lado e, pelo canto dos olhos, vejo Cal cerrar os punhos.
Os soldados começam a gargalhar e a trocar sorrisos grotescos. O banshee chega até a dar uns passos adiante para ficar bem perto de mim.
— A segurança não dá ouvidos a gente como você. Vá falar com a Ronda Vermelha.
Mais gargalhadas. A do banshee fere meus ouvidos, ainda sensíveis.
— Acho que estão enrolados em alguma coisa no Jardim Stark — ele conclui entre risos nojentos.
Ao meu lado, Farley enfia a mão no casaco para sentir a faca que carrega consigo. Lanço um olhar fulminante para ela, na esperança de impedi-la de esfaquear alguém antes do momento certo.
Os portões de aço abrem, e um guarda surge no patamar. Ele cochicha algo para os garotos e capto as palavras “câmera” e “quebradas”. Mas o soldado apenas dá de ombros, e seus olhos saltam para as câmeras espalhadas no muro acima de nós. Não encontram nada de errado. Não que pudessem encontrar.
— Sumam daqui — o banshee continua, abanando a mão como se estivesse espantando cães. Ao ver que permanecemos imóveis, ele aperta os olhos, que se tornam dois riscos negros e estreitos. — Ou vou ter que prender vocês por invasão?
Ele espera que nos retiremos como pobres coitados.
Nesses tempos, ser preso significa ser executado. Mas não cedemos. Se esse banshee não fosse um idiota cruel, até sentiria pena dele.
— Pode tentar — digo, levando as mãos ao capuz.
Meu xale cai pelos ombros, agitando-se como asas cinzentas antes de se amontoar aos meus pés. É boa a sensação de erguer a cabeça, de observar o frio reconhecimento espalhando medo pelo rosto do banshee.
Não tenho uma aparência notável. Cabelos castanhos, olhos castanhos, pele castanha. Ferida, exausta até os ossos, pequena, faminta. Sangue vermelho e quente. Não deveria amedrontar ninguém, mas o banshee com certeza está com medo de mim. Conhece o poder que vibra sob minhas feridas. Conhece a garota elétrica.
Ele tropeça no degrau e cai para trás, abrindo e fechando a boca, juntando forças para gritar.
— É... é ela! — O calafrio atrás dele gagueja, apontando para mim. O seu indicador trêmulo logo se transforma em gelo, e não consigo conter o sorriso ao sentir faíscas em volta das mãos. O chiado delas é meu melhor conforto.
Cal entra no espetáculo. Arranca o disfarce com um único e suave movimento, revelando o príncipe que os soldados foram criados para seguir e, mais tarde, ensinados a odiar. A pulseira estala e o fogo se espalha pelo xale, transformando-o numa bandeira flamejante.
— O príncipe! — exclama o forçador, chocado. Ele está atônito, relutante em agir. Afinal, até uns dias atrás, Cal era visto como uma lenda, não como um monstro.
O banshee é o primeiro a se recuperar e procura a arma no chão.
— Prendam eles! Prendam eles! — grita, e todos desviamos da rajada sônica que estilhaça as janelas do outro lado da rua.
A surpresa deixa os soldados lerdos e burros. O forçador não ousa se aproximar e tateia o corpo em busca da pistola, lutando para controlar a própria adrenalina. Um deles, o soldado que tinha acabado de sair, teve o bom senso de correr para a segurança dentro da central. Os quatro restantes são fáceis de lidar. O banshee não tem chance de gritar de novo com o choque que o acerta. A eletricidade penetra pelo seu peito e pescoço antes de subir até o cérebro. Por uma fração de segundo, sinto claramente suas veias e nervos se ramificando como galhos sob a pele. Ele cai duro, num sono sombrio e profundo.
Então, um sopro gelado e violento me desestabiliza.
Viro e deparo com uma muralha de lascas de gelo voando contra mim, controladas pelo calafrio. Elas derretem antes de me atingir, destruídas por uma rajada do fogo de Cal. As chamas logo se voltam para o calafrio e o forçador, cercando os dois para que eu possa terminar o serviço. Dois choques bastam para nocautear ambos, que caem com tudo no chão. O último soldado, o desconhecido, tenta fugir, agarrando-se ao portão.
Farley o segura pelo pescoço, mas ele a faz voar pelos ares. É um telec, mas é fraco, e logo o despacho. Ele se junta aos outros no chão; seus músculos se contorcem levemente por causa dos meus pulsos elétricos. Dou um choque extra no banshee por sua maldade. O corpo dele se debate como um peixe na rede de Kilorn. Tudo isso não leva mais que um instante. O portão ainda está aberto, balançando devagar nas dobradiças enormes. Seguro-o antes de a fechadura travar, enfiando o braço na atmosfera fresca e controlada da central de segurança. Posso sentir o agito da eletricidade nas luzes, câmeras, até na ponta dos dedos. Com um único fôlego firme, desligo tudo, mergulhando a câmara à nossa frente na escuridão.
Cal passa com cuidado por cima dos corpos inconscientes dos soldados, enquanto Farley faz questão de acertar um chute na costela de cada um.
— Pela Ronda — ela cospe ao quebrar o nariz do banshee.
Cal a interrompe antes que ela cause mais estrago, suspirando e passando o braço pelos ombros dela, arrastando-a para dentro do portão. Depois de olhar uma última vez para o céu, entro na central e fecho o portão de metal.
Os corredores escuros e as câmeras desligadas me lembram o Palacete do Sol, quando me esgueirei até os porões do palácio para salvar Farley e Kilorn da morte certa. Mas eu era quase uma princesa na época. Vestia seda e tinha Julian na retaguarda, abrindo caminho ao cantar para cada um dos guardas e dobrá-los à nossa vontade. Foi tudo limpo, sem nenhum derramamento de sangue além do meu. Bem diferente da central de segurança. A minha única esperança é limitar as fatalidades ao mínimo.
Cal sabe aonde ir e assume a liderança, mas não faz nada além de desviar dos guardas que tentam nos parar. Para um brutamontes, ele até que se move com elegância, esquivando-se dos golpes de forçadores e lépidos. Ainda não quer machucar prateados, deixando esse fardo para mim. A eletricidade destrói tanto quanto o fogo, e deixo uma trilha de corpos por onde passamos.
Digo a mim mesma que estão apenas inconscientes, mas no calor da batalha não dá para ter certeza. Não consigo controlar minhas faíscas com a mesma facilidade com que as crio; é provável que tenha matado um ou dois.
Não ligo. Farley também não. Seu facão sobe e desce em meio às sombras escuras. Já pinga sangue prateado quando chegamos ao nosso destino: uma porta comum.
No entanto, não sinto nada comum do outro lado.
Sinto uma máquina vasta, pulsando eletricidade.
— Aqui. A sala de registros — Cal diz, sem tirar os olhos da porta, incapaz de virar para trás e ver o nosso massacre. Ainda assim, ele cumpre a palavra e banha o corredor com suas chamas, criando uma barreira de calor e nos protegendo enquanto trabalhamos.
Forçamos a porta. Espero encontrar montanhas de papel, listas impressas como a que Julian me deu. Em vez disso, dou com uma parede de luzes piscantes, monitores e painéis de controle. Os circuitos oscilam, lerdos com a minha interferência na fiação.
Sem pensar, toco o metal frio para acalmar minha respiração entrecortada. A máquina de registros retribui o gesto e entra num ritmo mais estável. Uma das telas ganha vida e acende em tons nebulosos de preto e branco. Texto pisca no monitor e deixa Farley e eu boquiabertas.
Jamais tínhamos imaginado, quanto mais visto, algo assim.
— Incrível — Farley suspira, arriscando um toque na tela. Seus dedos acompanham o texto numa leitura devagar. Letras grandes formam as palavras “Censo e Registros”, com “Região de Beacon, Estado do Regente, Norta” escrito logo abaixo, numa fonte menor.
— Eles não tinham isso em Coraunt, tinham? — pergunto, querendo saber como ela descobriu o endereço de Nix no vilarejo.
Como esperado, ela faz que não com a cabeça.
— Coraunt mal tinha correio, muito menos um negócio destes.
Sorrindo, ela aperta um dos muitos botões sob a tela brilhante. E outro, e mais outro, e mais um. A tela pisca, e cada vez exibe respostas diferentes. Farley ri como uma criança, e continua a apertar.
Ponho a mão sobre a dela.
— Farley.
— Desculpa — ela diz. — Sua alteza podia dar uma ajudinha aqui?
Cal não recua da porta e gira o pescoço de um lado para o outro, de olho nos guardas.
— Tecla azul. “Busca”.
Aperto o botão antes de Farley. A tela escurece por um instante antes de ficar azul. Três opções aparecem em caixas brancas: “Busca por nome”, “Busca por local”, “Busca por tipo sanguíneo”. Apressada, pressiono o botão com a palavra “Selecionar” e escolho a primeira caixa.
— Digite o nome que você quer e então aperte “Avançar”. Aperte “Imprimir” quando achar o que quer, para ficar com uma cópia em papel — Cal instrui. Mas um palavrão o faz desviar o olhar para um guarda se queimando na barricada de chamas. Ouço um disparo e sinto pena do guarda imbecil que tenta combater fogo com balas. — Rápido — Cal avisa.
Meus dedos pairam sobre as teclas, à procura de cada letra para digitar “Ada Wallace” em movimentos lentos e frustrantes. A máquina vibra novamente e a tela pisca três vezes antes de um texto aparecer. Inclui até uma foto, a mesma do cartão de identidade. Me detenho na imagem da sanguenova, olhando bem para sua pele dourada e para seus olhos suaves. Parece triste, mesmo na imagem minúscula.
Outro disparo ecoa, o que me faz dar um pulo. Volto a concentração para o texto, lendo rapidamente os dados pessoais de Ada. Já sei a data e o local de nascimento, bem como a mutação sanguínea que a transforma em uma sanguenova, como eu. Farley também procura, passando os olhos apressadamente pelas palavras.
— Aqui — anuncio, apontando para a informação que procuramos, mais feliz do que me senti em dias.
Profissão: criada, empregada pelo governador Rem Rhambos. Endereço: Praça Bywater, Setor Canal, Harbor Bay.
— Sei onde é — Farley diz, já com o dedo no botão “Imprimir”. A máquina cospe o papel com as informações do registro de Ada.
O próximo nome sai ainda mais rápido. Wolliver Galt.
Profissão: mercador, empregado pela Cervejaria Galt.
Endereço: Jardim da Batalha com estrada Charside, Setor Três Pedras, Harbor Bay. Então Crance não mentiu quanto a isso, pelo menos. Vou ter que cumprimentá-lo se um dia voltar a vê-lo.
— Terminaram? — Cal grita da porta, e consigo captar a tensão em sua voz. É só uma questão de tempo até os ninfoides virem correndo e a parede flamejante se desfazer.
— Quase — murmuro, batendo nas teclas de novo.
— Essa máquina não serve só para Harbor Bay, serve?
Cal não responde, ocupado demais sustentando a barreira, mas sei que estou certa. Sorrindo, saco a lista do casaco e abro na primeira página.
— Farley, vá para aquela tela.
Ela salta para o terminal ao lado como um coelho, e começa a apertar uma tecla até o painel seguinte acender.
A lista vai trocando de mãos à medida que digitamos um nome atrás do outro, juntando os papéis impressos. Os dez nomes da região de Beacon. A garota das favelas de Cidade Nova, uma avó de setenta anos de Cancorda, gêmeos nas Ilhas Bahrn, e assim por diante. Uma pilha se forma no chão, e cada impressão diz mais do que a lista de Julian seria capaz. Eu deveria ficar empolgada, extasiada com o feito, mas algo sufoca minha felicidade.
Tantos nomes. Tantos para salvar. E estamos avançando muito devagar. Não há como encontrar todos a tempo, não assim. Nem com o jato, os registros e todos os túneis de Farley. Vamos perder alguns. Não há como evitar.
Meus pensamentos se desintegram junto com a parede atrás de mim, que implode numa nuvem de pó, revelando a silhueta angulosa de um homem de carne cinza e rochosa, dura como um tanque de guerra. Pétreo é tudo que consigo pensar antes de ele atacar, pegando Farley pela cintura. A mão dela ainda está agarrada aos formulários impressos, arrancando o papel precioso da máquina. As folhas tremulam atrás dela como uma bandeira branca de rendição.
— Não resista! — o pétreo ruge enquanto a prensa contra a janela do outro lado da sala. A cabeça de Farley bate no vidro, que se estilhaça. Os olhos dela se reviram.
E então uma parede de fogo surge na sala, cercando Cal, que entra como um touro selvagem. Tiro os papéis da mão de Farley e os enfio dentro do casaco com o resto da lista, para não acabarem queimados. Cal trabalha rápido, deixando de lado o juramento de não ferir prateados, e joga o pétreo para longe de Farley, usando as chamas para forçá-lo a se afastar pelo buraco na parede. Depois, aumenta o fogo para impedi-lo de voltar.
Por enquanto.
— Terminaram agora? — vocifera, seus olhos são como carvão em brasa.
Faço que sim e miro a máquina de registros. Ela vibra, triste, como se soubesse o que estou prestes a fazer. Com o punho cerrado, sobrecarrego os circuitos com um pico destruidor que se espalha pela máquina.
Cada uma das telas e luzes piscantes explode numa nuvem de faíscas, apagando as informações pelas quais viemos.
— Terminamos.
Farley se afasta da janela, trôpega, com a mão na cabeça e a boca sangrando, mas ainda inexoravelmente de pé.
— Acho que essa é a hora de fugir.
Um olhar para a janela, a rota de fuga mais óbvia, é o bastante para eu saber que estamos muito alto para pular. E os sons no corredor, gritos e passos em marcha, também não são bom presságio.
— Fugir para onde?
Cal apenas sorri e aponta para o piso encerado de madeira.
— Para baixo.
Uma bola de fogo explode. Perfura a madeira, carbonizando os padrões intricados e a base sólida como os dentes de um cão penetrando a carne. O solo se abre e desmorona sob os nossos pés. Caímos no cômodo abaixo, e depois no outro. Meus joelhos vacilam, mas Cal me agarra pela gola da camisa. Ele me puxa, segurando forte, me arrastando na direção de uma janela.
Ele nem precisa me dizer o que fazer.
Seu fogo e meus raios mandam a grossa vidraça pelos ares. Saltamos e, no início, também voamos. Mas então caímos feio, rolando em uma das passarelas de pedra.
Farley vem logo atrás, aterrissando bem em cima de um guarda atônito. Antes que ele possa sequer reagir, ela o joga da passarela. Um barulho seco e nojento dá a entender que a queda não foi nada agradável.
— Não parem! — Cal urra enquanto levanta.
Numa trovoada de passos, disparamos pela ponte arqueada que liga a central de segurança ao palácio real de Ocean Hill. É menor que Whitefire, mas tão assustador quanto. E tão familiar para Cal quanto o outro.
Ao final da ponte, uma porta começa a abrir, e ouço gritos de mais guardas, mais soldados. Um verdadeiro pelotão de fuzilamento. Em vez de lutar, Cal se lança contra a porta. Suas mãos flamejantes a lacram como um ferro de solda.
Farley hesita, alternando o olhar entre a porta fechada e a ponte de onde viemos. Parece uma armadilha. Pior que uma armadilha.
— Cal...? — ela começa, mas ele a ignora.
O príncipe então estende a mão para mim. Nunca vi seus olhos assim: são pura chama, puro fogo.
— Vou jogar você — ele avisa, sem se preocupar em ser doce. Atrás dele, algo faz a porta lacrada balançar.
Não tenho tempo para discutir nem perguntar nada. Minha mente gira, envenenada pelo pavor, mas agarro seu punho e ele, o meu.
— Exploda quando bater no vidro — Cal diz, confiando que sei o que isso quer dizer.
Ele toma fôlego, e logo estou caindo pelo ar na direção de outra janela. Os vidros refletem o sol, e espero que não sejam diamantes. Um milésimo de segundo antes de descobrir, minhas faíscas fazem o que precisam: destroem a janela com um chiado de cacos brilhantes enquanto a atravesso, caindo num carpete dourado e felpudo, no meio de pilhas de livros com um cheiro familiar de couro e papel velho. É a biblioteca do palácio. Farley é a próxima a atravessar a janela. A mira de Cal é perfeita demais, e ela aterrissa bem em cima de mim.
— De pé, Mare! — ela grita, quase arrancando meu braço ao me puxar para cima. O cérebro dela trabalha mais rápido que o meu e ela dispara para a janela com os braços esticados. Faço o mesmo, como se estivesse em um transe. Minha cabeça está girando.
Acima de nós, guardas e soldados jorram pelas duas extremidades da ponte. No centro, há um inferno de chamas que, por um momento, parece imóvel. Em seguida, percebo que está vindo na nossa direção, correndo, saltando e caindo.
As chamas de Cal se extinguem assim que ele acerta a parede, sem conseguir se agarrar no beiral da janela.
— Cal! — berro, quase me jogando atrás dele.
A mão dele roça a minha. Por um momento capaz de fazer meu coração parar, penso estar prestes a assistir à sua morte. Mas não. Ele está balançando como um pêndulo. Farley o segura firme pelo punho. Ela geme, com os músculos tensionados debaixo da camisa, conseguindo, não sei como, evitar a queda do príncipe de noventa quilos.
— Segura ele! — ela grita, com a mão pálida de tanto esforço.
Em vez de agarrá-lo, lanço um relâmpago para cima, na direção da ponte. Para os guardas e as armas apontadas para Cal — estatelado, ele parece um alvo fácil. Eles se abaixam, e pedaços de pedra estalam. Mais um raio e a ponte cai.
Quero que caia.
— MARE! — Farley berra.
Preciso segurar, preciso puxar. A mão dele encontra a minha, e me aperta com tanta força que quase arrebenta meu punho. Nós o erguemos o mais rápido que conseguimos, trazendo-o por cima do beiral e para trás.
Para o silêncio, para um cômodo cheio de livros inofensivos.
Mesmo Cal parece atônito com a situação. Ele fica deitado por um segundo, com os olhos arregalados e a respiração pesada.
— Obrigado — ele finalmente consegue falar.
— Depois! — Farley rebate. Junto comigo, ela o levanta. — Tira a gente daqui!
— Certo.
Em vez de partir para a sofisticada entrada da biblioteca, ele corre para a lateral do cômodo, para uma parede cheia de estantes. Observa por um momento, procurando alguma coisa, tentando lembrar. Então, com um grunhido, empurra uma das estantes com o ombro até ela deslizar para o lado e abrir uma passagem estreita e íngreme.
— Entrem! — ele grita, me empurrando para dentro.
Meus pés disparam pelos degraus gastos por um século de passos. Corremos por uma escada em espiral suave, descendo, iluminados por uma luminária fraca embaçada pelo pó. As paredes são de pedra antiga e grossa, e se alguém está nos seguindo, definitivamente não consigo ouvir. Tento me situar, mas minha bússola interna está girando rápido demais. Não conheço este lugar, não sei para onde estamos indo. Só posso seguir.
A passagem parece terminar numa parede de pedra e, antes que eu tente abrir caminho com um raio, Cal me afasta.
— Calma — diz, tocando uma pedra um pouco mais gasta que as outras. Devagar, ele cola o ouvido na parede e escuta.
Não ouço nada além do sangue latejando nas orelhas e nossas respirações aceleradas. Cal escuta mais — ou melhor, menos. Seu rosto murcha e ele assume uma expressão sóbria que não consigo interpretar. Não é medo, embora ele tenha todo o direito do mundo de sentir isso. Na verdade, ele demonstra uma calma estranha, e às vezes até fecha os olhos num esforço para ouvir qualquer coisa que venha do outro lado da parede.
Imagino quantas vezes já fez isso, quantas vezes escapou deste mesmo palácio assim. Naquele tempo, os guardas estavam aqui para protegê-lo, para servi-lo. Agora querem matá-lo.
— Não desgrudem de mim — ele sussurra finalmente. — Duas curvas para a direita, uma para a esquerda, na direção do portão.
Farley cerra os dentes.
— Portão? Você quer facilitar para eles?
— É a única saída — ele responde. — Os túneis de Ocean Hill estão fechados.
Ela sorri, cerrando o punho. Suas mãos estão nitidamente vazias; perdeu a faca faz tempo.
— Alguma chance de encontrarmos um arsenal no caminho?
— Quem dera! — Cal desabafa. Então olha para mim, para as minhas mãos. — Vamos ter que bastar.
Só posso assentir. Já enfrentamos coisa pior, digo a mim mesma.
— Pronta? — ele sussurra.
Tensiono a mandíbula.
— Pronta.
A parede gira lentamente. Passamos juntos, tentando evitar que nossos passos ecoem pelo ambiente em que acabamos de entrar. Como a biblioteca, o lugar está vazio e bem mobiliado, e a decoração em amarelo jorra luxo. Tudo parece pouco usado, desprezado, até mesmo as tapeçarias douradas. Cal quase se detém ao ver as cores, mas segue adiante.
Duas curvas para a direita. Passamos por outro corredor e por um estranho closet. Ondas de calor irradiam de Cal, preparando-se para a tempestade de fogo que precisa se tornar. Faço o mesmo, e os pelos do meu braço se eriçam com a eletricidade que quase estala no ar.
Vozes ecoam do outro lado da porta cada vez mais próxima. Vozes e passos.
— Esquerda, agora — Cal fala baixinho. Ensaia pegar a minha mão, mas muda de ideia. Não podemos arriscar; não agora, quando nosso toque é mortal. — Corram.
Cal vai primeiro, e o mundo além da porta pulsa com uma rajada de fogo que se espalha pelo enorme salão de entrada, pelo mármore, pelos carpetes finos até subir pelas paredes douradas. Uma língua de chamas atinge a pintura no alto do salão. Um retrato gigante, recém-acabado. O novo rei. Maven. Ele sorri como uma gárgula, até que o fogo o domina por completo e chamusca a pintura. O calor é demais, e logo os lábios cuidadosamente desenhados começam a derreter e a se contorcer numa careta muito mais adequada àquela alma monstruosa. A única coisa intocada pelo fogo são dois estandartes de seda dourada e empoeirada, pendurados na parede oposta. Não sei a quem pertencem.
Os guardas à nossa espera fogem com os corpos fumegando, tentando não serem queimados vivos. Cal corta pelo fogo, e seus passos abrem um caminho seguro para o seguirmos. Farley se mantém perto, espremida entre nós, cobrindo a boca para não inspirar fumaça.
Os soldados remanescentes, ninfoides ou pétreos, imunes às chamas, não são tão resistentes a mim. Desta vez, são os relâmpagos que explodem e me envolvem numa teia ofuscante de eletricidade. Só me concentro para manter a tempestade longe de Cal e Farley, mas os outros não têm tanta sorte.
Sou uma corredora nata, mas o ar começa a arder nos meus pulmões. A respiração fica cada vez mais difícil, mais dolorosa. Digo a mim mesma que é a fumaça, mas, à medida que me aproximo da entrada grandiosa de Ocean Hill, a dor não desaparece.
Ela apenas se transforma.
Estamos cercados.
Fileiras e mais fileiras de guardas de preto e soldados de cinza bloqueiam a entrada. Todos armados, todos à espera.
— Renda-se, Mare Barrow! — um dos soldados grita. Um ramo florido enrola-se em um braço, enquanto o outro empunha uma arma. — Renda-se, Tiberias Calore! — ele gagueja ao pronunciar o nome de Cal, ainda com dificuldade para se dirigir ao príncipe de maneira tão informal. Em qualquer outra situação, eu começaria a rir.
Entre nós, Farley firma as pernas. Está sem arma, sem escudo, e ainda assim se recusa a ajoelhar. Sua coragem é impressionante.
— E agora? — pergunto baixinho, ciente de que não há resposta.
O olhar de Cal corre de um lado para o outro em busca de uma solução que ele jamais vai encontrar. Por fim, seus olhos pousam em mim. Estão vazios. E sozinhos.
É então que uma mão se fecha delicadamente ao redor do meu punho.
O mundo escurece e sou arrastada por ele, sufocada, confinada, presa por um longo momento.
Shade.
Odeio a sensação de ser teletransportada, mas, naquele momento, comemoro internamente. Shade está bem. E estamos vivos. De repente, estou de joelhos, olhando para os paralelepípedos de um beco frio e escuro longe da central de segurança, de Ocean Hill e da barreira de soldados.
Ouço alguém vomitar ao meu lado — Farley, a julgar pelo som. Imagino que ser teletransportada e bater a cabeça contra uma janela não foram uma combinação boa para ela.
— Cal? — pergunto ao ar, que já está esfriando à luz da tarde. Um tremor leve de medo começa a tomar conta de mim, a primeira vibração de uma onda fria, mas ele responde a alguns metros de distância.
— Aqui — diz, estendendo o braço para tocar meu ombro.
Em vez de apoiar o rosto em sua mão e deixar o calor dele — agora suave — me consumir, recuo. Gemendo, levanto só para ver Shade de pé bem na minha frente, com uma expressão sombria, o rosto contorcido de raiva, e me preparo para uma bronca. Não devia tê-lo abandonado. Foi um erro.
— Sinto... — começo a me desculpar, mas não consigo terminar. Ele me esmaga num abraço e eu o aperto com a mesma força. Ele treme um pouco, ainda preocupado com sua irmã mais nova.
— Estou bem — digo tão baixo que só ele escuta a mentira.
— Não temos tempo para isso — Farley corta, pondo-se de pé. Ela olha para os lados, ainda desequilibrada, mas consegue nos situar. — O Jardim da Batalha fica algumas quadras a leste.
Wolliver.
— Certo — concordo, estendendo o braço para ajudá-la a se firmar. Não podemos esquecer qual é a nossa missão aqui, mesmo depois do nosso fracasso mortal.
Mantenho os olhos em Shade, na esperança de que ele saiba o que trago no coração. Ele apenas balança a cabeça e dispensa minhas desculpas. Não porque não quer aceitá-las, mas porque é bondoso demais para ouvi-las.
— Vá na frente — ele diz para Farley. Seu olhar fica um pouco mais doce ao notar a determinação dela, apesar das feridas e da náusea.
Cal também demora para levantar; ainda não se acostumou com o teletransporte. Recupera-se o mais rápido que pode e nos segue pelas vielas do setor da cidade conhecido como Três Pedras. O cheiro de fumaça ainda está impregnado nele, assim como uma raiva mais profunda. Prateados morreram na central de segurança, homens e mulheres que estavam apenas seguindo ordens. Ordens que já foram de Cal não faz muito tempo. Não é fácil digerir tudo isso, mas ele tem que conseguir. Se quiser ficar com a gente, comigo, tem que escolher um lado.
Espero que escolha o nosso. Espero nunca mais ter que ver aquele olhar vazio novamente.
Três Pedras é um setor vermelho, o que o torna uma região relativamente segura por ora. Farley nos conduz sempre por vielas sinuosas, chegando até a entrar em um ou dois comércios vazios para evitar sermos identificados. Os agentes de segurança gritam e correm pelas vias principais, tentando se reagrupar, tentando compreender o que aconteceu na central. Não estão nos procurando aqui, ainda não. Não sabem o que Shade é, quão longe e rápido ele pode nos levar.
Encostamos numa parede, esperando um agente passar. Está distraído, como todos os outros, e Farley nos mantém nas sombras.
— Sinto muito — sussurro para Shade, sabendo que preciso falar.
De novo, ele balança a cabeça e me cutuca de leve com a muleta.
— Chega disso. Você fez o que precisava fazer. E olha só, estou bem. Nenhum machucado.
Nenhum machucado. Não no corpo, mas e na mente? E no coração? Eu o traí. Traí meu irmão. Assim como alguém que conheço.
Quase cuspo de raiva, querendo expelir a ideia de que tenho alguma coisa em comum com Maven.
— Onde está Crance? — pergunto, tentando me concentrar em outra coisa.
— Eu o livrei dos Piratas. Aí ele seguiu seu caminho. Correu como se estivesse pegando fogo. — Shade aperta os olhos, lembrando. — Enterrou três Marinheiros no túnel. Não tem para onde ir.
Sei como é.
— E você? — ele pergunta, esticando a cabeça vagamente na direção de Ocean Hill. — Depois de tudo aquilo?
Depois de quase morrer. De novo.
— Já disse que estou bem.
Shade aperta os lábios, insatisfeito.
— Certo.
Ficamos num silêncio abafado, esperando Farley voltar a se mexer. Ela continua encostada na parede, mas retoma a marcha quando um bando de crianças saindo da escola passa. Vamos atrás, usando os alunos como cobertura para atravessar a rua larga, entrando em outro labirinto de ruelas.
Por fim, finalmente baixamos a cabeça para passar sob um arco. Ou melhor, os outros baixam; eu passo direto. Mal chegamos ao outro lado quando Shade para do nada, estendendo a mão livre para me impedir de avançar.
— Sinto muito, Mare — ele diz, e seu pedido de desculpas quase me derruba de novo.
— Você sente muito? — pergunto, quase rindo do absurdo. — Sente pelo quê?
Ele não responde, envergonhado. Um tremor que não tem nada a ver com a temperatura percorre meu corpo à medida que meu irmão recua e revela o que existe além do portal.
Há uma praça, claramente feita para os vermelhos.
Jardim da Batalha. É simples, mas conservada, com plantas bem cuidadas e estátuas de guerreiros em pedra cinza por toda parte. A que está no centro é a maior.
Carrega um rifle nas costas e estende um braço escuro pelo ar.
A mão da estátua aponta para o leste.
Uma corda pende dessa mão.
Um corpo pende da corda.
O cadáver não está nu e não usa o medalhão da Ronda Vermelha. É jovem, e sua pele ainda é macia. Foi executado há pouco tempo, provavelmente há uma hora.
Mas a praça está vazia. Não há nenhum guarda, ninguém para chorar sua morte.
Ninguém para vê-lo pender no ar.
Mesmo com o cabelo loiro e sujo cobrindo seus olhos e parte de seu rosto, sei exatamente quem é. Vi sua imagem nos registros, sorrindo para a foto de identificação.
Agora, nunca mais vai sorrir. Eu sabia que isso aconteceria. Eu sabia. Mas isso não torna a dor ou o fracasso mais fácil de suportar.
É Wolliver Galt, um sanguenovo, reduzido a um cadáver.
Choro pelo garoto que nunca conheci, pelo garoto que não fui rápida o bastante para salvar.

13 comentários:

  1. A Mare não entende que o Cal foi criado com essas pessoas. Eles são ruins mas são a família dele o povo dele.
    Ela quer que ele engula essa vida nova feliz.
    Mas ele não é assim.
    Infelizmente ele aprendeu a amar os prateados e ver os vermelhos como servos.
    Ele precisa de tempo para começar a aprender a amar os vermelhos.
    O que os vermelhos fizeram por ele além de o amarrar e o jogar em uma cela?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. E o que os prateados fizeram por Mare? A escravizaram. O que fizeram por todos os vermelhos??

      Vsf Anônimo! É fácil defender Cal. Mas ele é um hipócrita, um traidor e vai escolher o outro lado na primeira oportunidade!

      Excluir
    2. Bom, é difícil para ambos os lados, Cal foi criado, educado para ser assim, querendo ou não os prateados são o povo dele. Ele não tem qualquer vínculo com os vermelhos, é preciso tempo. Agora é verdade que a Mare está praticamente o forçando a aceitar isso, como ela mesma disse, está sendo egoísta mais uma vez porque precisa de Cal.

      Excluir
  2. Mare está sendo muito hipócrita.. ela faz o msm.. nao se importa em matar prateados.. mas nao quer matar vermelhos... os prateados só estão fazendo o que foi mandado.. e o que foi ensinado a eles.. muitos são bons.. como lucas.. que morreu em vão, só por ter sido bom com ela. E ela nao está mem ai em matar os prateados. Por que o Cal tinha que fazer diferente se ela não faz ?!!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. na verdade ela mataria quem entrasse na sua frente. Tanto que temos como exemplo o coronel, ela não teria problemas em feri-lo tanto quanto ferir um prateado, ja cal nem lutou com o prateados que o queriam matar.

      ~ erik

      Excluir
  3. Mas os prateados mataram milhões de vermelhos, chegou a vez deles também.

    ResponderExcluir
  4. Só sei que nada sei. Prateados mataram muitos vermelhos, mas estavam seguindo ordens, MAS mesmo assim são ruins. Vermelhos sofreram por causa deles, e merecem se vingar. É quase uma luta equilibrada.

    "Não tenho uma aparência notável. Cabelos castanhos, olhos castanhos, pele castanha"
    Então ela é morena? ~polly~~

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Também fiquei intrigada,pois estava imaginando ela branca.

      Excluir
  5. Bom, sempre tem os dois lados da moeda. Por um lado entendo Cal e a horas que não gosto de como ela pensa. Mas tbm entendo o que ela está tentando fazer.

    Ps : sou só eu ou mais alguém shippa o Shade e a Diana?

    Apaixonada por livros

    ResponderExcluir
  6. Que tristeza!!!!
    Mare tem que achar os sanguesnovos mais rápido!!!

    ResponderExcluir
  7. A Mare mata os prateados como se não fossem nada, como se não tivesse nenhum bom, como se não fossem pessoas assim como os vermelhos, sendo que eles estão lutando pela igualdade que eu saiba. Ela está sendo igual ao prateados que mataram muitos vermelhos isso sim. Nem pensa que esses que ela acabou de matar ou ferir só estavam cumprindo ordens, que para eles ela induziu Cal a matar o rei, nem pensa que eles não tem culpa de nada, estão apenas trabalhando, não devem pagar pelo que Maven fez... Sei que ela tem seus objetivos, mais está sendo fria e até indo contra eles, afinal como já disse eles querem igualdade, mais ela está tratando todos os prateados como se não fossem nada, e ela age como se fosse melhor que todo mundo. E ainda julga Cal por não querer matar? Aff, e no final, depois de matar vários com frieza, chora por um vermelho que foi morto... Sério isso?

    ResponderExcluir
  8. Eu quero vê quando a Mare não suportar mais o que ela fez, enganado ou não, mas ela fez. A gorota precisa de tempo para si recuperar de todos que matou, diretamente e indiretamente. Quem será que a vai ajudar? Eu espero que seja Cal.😍

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)