3 de março de 2017

Capítulo quinze

NA MANHÃ SEGUINTE, abro os olhos e vejo a silhueta de alguém bem na cabeceira da cama.
Acabou. Saí, quebrei as regras e agora vou morrer.
Mas não sem lutar.
Antes de a figura ter qualquer chance, voo para fora da cama, pronta para me defender. Meus músculos enrijecem e aquela vibração agradável revive dentro de mim. Mas, em vez de um assassino, o que vejo é um uniforme vermelho. E reconheço a mulher que o veste.
Walsh parece a mesma de antes, embora eu certamente não pareça. Ela está ao lado de um carrinho de metal repleto de chás, pães e qualquer outra coisa que eu poderia querer no café da manhã. Uma criada sempre zelosa, mantém a boca fechada, mas seus olhos parecem gritar.
Ela observa minha mão, as famigeradas centelhas que se formam entre meus dedos. Chacoalho a mão e esfrego os tendões até fazê-las desaparecer.
— Sinto muito — exclamo, afastando-me. Ainda assim, ela não fala. — Walsh...
A criada, porém, continua ocupada com a comida, até que, para minha grande surpresa, seus lábios se movem sem produzir som, formando quatro palavras que começo a decorar como uma oração, ou maldição: Vermelhos como a aurora.
Antes que eu possa reagir, antes que possa assimilar o choque, Walsh enfia uma xícara de chá na minha mão.
— Espere...
Tento segurá-la, mas ela desvia e se inclina numa reverência:
— Lady — despede-se secamente para terminar a conversa.
Deixo que vá. Assisto à sua saída até não sobrar nenhum vestígio seu além do eco das palavras não pronunciadas.
Walsh também é da Guarda.
A xícara de chá está fria. Estranhamente fria.
Quando olho, descubro que não contém chá, mas água. E, no fundo da xícara, um pedaço de papel sangra tinta. A tinta se solta num pequeno redemoinho conforme leio. A água a leva, apaga qualquer traço até sobrar apenas um líquido acinzentado e um papelzinho em branco.
Não existem provas do meu primeiro ato de rebelião.
É fácil memorizar a mensagem. Tem apenas uma palavra.
Meia-noite.
Saber que tenho um elo aqui tão perto com o grupo deveria ser um alívio, mas, por algum motivo, sinto calafrios. Talvez as câmeras não sejam as únicas a me vigiar no Palacete.
Esse não é o único bilhete à minha espera. Meu novo horário repousa sobre o criado-mudo, escrito na caligrafia irritantemente perfeita da rainha.

Seu horário mudou.
6h30 — Café da manhã
7h — Treinamento
10h — Protocolo
11h30 — Almoço
13h — Protocolo
14h — Aulas
18h — Jantar

Lucas a conduzirá para todos os compromissos. O horário não é negociável.
S. M. R., Rainha Elara

— Então finalmente botaram você no treinamento? — Lucas provoca, deixando à mostra um raro orgulho enquanto me acompanha para a primeira sessão. — Ou você se saiu muito bem ou muito mal.
— Um pouco dos dois.
Mais pra mal, penso ao lembrar do episódio de ontem. Sei que o novo horário é obra de Cal, mas não esperava que ele agisse tão rápido. Para ser sincera, estou empolgada com o treinamento. Se for um pouco parecido com o que vi Cal e Maven fazerem — especialmente a parte dos poderes —, não tem como eu não ficar pra trás. Mas ao menos vou ter com quem conversar. E, se tiver muita sorte, Evangeline ficará de cama com uma doença grave pelo resto de sua vida miserável.
Lucas balança a cabeça e começa a rir.
— Esteja pronta. Os instrutores são famosos por conseguir dobrar até os soldados mais fortes. Não vão aceitar bem sua insolência.
— E não vou aceitar bem ser dobrada — rebato. — Como foi seu treinamento?
— Bem, fui direto para o Exército aos nove anos, então minha experiência foi diferente — ele responde. Seus olhos escurecem com a lembrança.
— Aos nove anos?
A ideia me parece impossível. Com poderes ou não, isso não pode ser verdade.
Mas Lucas dá de ombros como se não fosse nada.
— A frente de batalha é o melhor lugar para treinar. Até os príncipes receberam treinamento no front.
— Mas você está aqui agora — digo, com os olhos fixos no uniforme de Lucas, no preto e prata dos agentes de segurança. — Não é mais soldado.
Pela primeira vez, o sorriso seco dele desaparece completamente.
— Você acaba sentindo o peso — ele reconhece, mais para si que para mim. — Os homens não foram feitos para ficar muito tempo na guerra.
— E os vermelhos? — pergunto sem pensar.
Bree, Tramy, Shade, meu pai, o pai de Kilorn. E milhares de outros. Um milhão de outros.
— Eles suportam a guerra melhor que os prateados? — pressiono.
Chegamos no corredor que dá para a sala de treinamento. Lucas finalmente responde, com desconforto perceptível:
— É assim que o mundo funciona. Os vermelhos servem, os vermelhos trabalham, os vermelhos combatem. É nisso que são bons. Nasceram para isso.
Tenho que morder a língua para conter um grito.
— Nem todo mundo é especial — ele conclui.
A raiva ferve em mim, mas não digo uma palavra contra Lucas. Perder a calma, mesmo com ele, não vai provocar sorrisos.
— Posso ir sozinha daqui — digo secamente.
Ele nota que estou incomodada e fecha um pouco a cara. Quando volta a falar, sua voz sai baixa e rápida, como se não quisesse ser ouvido.
— Não posso me dar ao luxo de questionar — ele sussurra. Seus olhos pretos, cheios de significado, penetram nos meus. — Nem você.
Sinto o coração apertado, aterrorizado por essas palavras e seu significado oculto. Lucas sabe que minha história é bem maior do que lhe contaram.
— Lucas...
— Não cabe a mim fazer perguntas.
Ele franze a testa com a intenção de me fazer compreender, de me deixar mais tranquila.
— Lady Titanos — diz, fazendo o título soar mais firme que nunca, como se agora ele também fosse meu escudo, e não apenas a arma da rainha.
Lucas não fará perguntas. Apesar dos olhos pretos, do sangue prata e do sobrenome Samos, não vai puxar a cortina capaz de acabar com a minha existência.
— Atenha-se ao horário. — Ele se afasta mais formal que nunca. Com a cabeça, sinaliza para a porta onde um criado vermelho espera. — Volto ao fim do treinamento.
— Obrigada, Lucas — é só o que consigo dizer. Ele me deu muito mais do que imagina.
O criado me entrega um traje justo com listras roxas e prata. Ele indica uma saleta onde rapidamente troco minha roupa habitual pelo macacão. Me lembra as roupas velhas que eu usava em Palafitas, já gastas pelo tempo e pelo uso, mas suficientemente justas para não me deixar lenta.
Quando entro no salão de treinamento, tenho de cara a sensação dolorosa de estar sob o olhar de todos. Isso para não falar das dúzias de câmeras. O chão é macio, como um elástico, e amortece cada passo meu. Uma claraboia imensa se abre sobre nós para revelar o céu azul de verão, cheio de nuvens tentadoras. Escadas espiraladas ligam os diversos ambientes fechados, cada um a uma altura diferente e com equipamentos diferentes. Há muitas janelas. Sei que uma delas dá para a sala de aula de Lady Blonos. Não faço ideia de onde dão as outras ou de quem nos observa por trás delas.
Eu deveria estar tensa por adentrar um salão cheio de guerreiros adolescentes, todos mais treinados que eu. Em vez disso, penso no insuportável picolé de ossos e metais conhecido como Evangeline Samos. Sua boca abre para destilar seu veneno antes de eu conseguir chegar no meio do salão.
— Já completou as aulas de protocolo? Finalmente dominou a arte de sentar de pernas cruzadas? — ela zomba ao descer da máquina de levantamento de peso.
Seu cabelo prateado está preso numa trança complicada. Tenho vontade de cortá-la fora, mas as lâminas de metal mortalmente afiado em sua cintura me detêm. Como eu, como todos, ela veste um macacão decorado com as cores da sua Casa. O preto e o prata lhe dão um ar fatal.
Sonya e Elane vão para o lado dela, as duas com o mesmo sorriso malicioso. Agora, em vez de me intimidar, parecem dedicadas a bajular a futura rainha.
Faço um esforço para ignorar as três e, quando dou por mim, já estou à procura de Maven. Ele está sentado no canto, isolado dos outros. Pelo menos podemos ficar sozinhos juntos.
Sussurros me seguem, mais de uma dúzia de adolescentes nobres observam meus passos em direção ao príncipe. Alguns me saúdam com a cabeça na tentativa de parecer educados, mas a maioria parece desconfiada. As garotas estão ainda mais tensas; afinal, realmente tirei um dos príncipes delas.
— Demorou, hein? — brinca Maven quando me sento ao seu lado. Não está enturmado com o grupo, e parece querer continuar assim. — Se não conhecesse você, diria que está tentando ficar longe de nós.
— Só de uma pessoa em particular — respondo, lançando um olhar a Evangeline.
Ela está perto da parede onde ficam os alvos, rodeada de gente. Lá, exibe-se para os aduladores com um desempenho impressionante. Suas facas cantam pelo ar e se cravam bem no meio dos alvos.
Pensativo, Maven me encara enquanto a observo.
— Quando voltarmos à capital, você não a verá muito — cochicha. — Ela e Cal vão fazer uma turnê pelo país para cumprir seus deveres. E nós teremos os nossos.
A perspectiva de ficar bem distante de Evangeline me empolga, mas também me lembra de que o relógio corre contra mim. Logo serei forçada a deixar para trás o Palacete, o vale perto do rio e minha família.
— Você sabe quando vocês... — começo a dizer e em seguida me corrijo. — Quer dizer, quando nós vamos voltar para a capital?
— Após o Baile de Despedida. Já falaram sobre isso para você?
— Sim, sua mãe comentou... E Lady Blonos está tentando me ensinar a dançar — falo baixinho, envergonhada. De fato, ela tentou me ensinar uns passos ontem, mas acabei caindo sozinha. — Entenda bem: tentando.
— Não se preocupe. Estaremos livres da pior parte.
A ideia de dançar me causa pânico, mas engulo o medo.
— Com quem fica a pior parte?
— Cal — diz Maven sem hesitar. — Meu irmão mais velho vai ter que beijar um monte de anéis e dançar com um monte de meninas chatas. Lembro do ano passado.
Ele faz uma pausa para rir das recordações. Então retoma.
— Sonya Iral passou a noite inteira atrás dele para interromper as danças e arrastá-lo para um programa mais divertido. Precisei intervir e suportar duas músicas com ela para dar um descanso a Cal.
A ideia dos irmãos unidos contra uma legião de garotas desesperadas me faz rir. Imagino o que já tiveram de fazer para safar o outro. Conforme meu sorriso aumenta, o de Maven diminui.
— Pelo menos dessa vez ele levará Samos a tiracolo. As outras não ousarão incomodá-los.
Faço uma careta ao lembrar suas unhas afiadas apertando meu braço.
— Pobre Cal.
— E como foi a visita ontem? — pergunta Maven sobre o passeio até minha antiga casa.
Então Cal não contou nada. Mas respondo do único jeito que consigo descrever os acontecimentos:
— Difícil.
Agora minha família sabe o que sou, e Kilorn se jogou na cova dos leões. E, claro, Shade morreu.
— Um dos meus irmãos foi executado um pouco antes da dispensa — completo.
Ele senta um pouco mais perto. Imagino que vá ficar um pouco constrangido, afinal, a culpa é do seu povo. Mas não. Em vez disso, põe sua mão sobre a minha.
— Meus sentimentos, Mare. Ele com certeza não mereceu.
— Não mesmo — a voz sai fraca. Recordo o verdadeiro motivo da morte do meu irmão.
Estou no mesmo caminho.
Maven me encara fixamente, como se tentasse ler o segredo em meu rosto. Pela primeira vez, fico feliz por ter aulas com Blonos. Do contrário, pensaria que Maven era capaz de ler mentes como a mãe. Mas não. Ele é só um ardente. Poucos prateados herdam o poder da mãe, e ninguém jamais teve mais que um poder. Assim, meu segredo, minha nova aliança com a Guarda Escarlate, é só meu.
Aceito a mão que ele estende para me ajudar a levantar. Ao nosso redor, os outros se aquecem, a maioria correndo ou se alongando pelo salão. Alguns, no entanto, são mais impressionantes. Elane some e reaparece, manipulando a luz ao seu redor até desaparecer completamente do meu campo de visão. Um dobra-ventos — Oliver, da Casa Laris — cria um redemoinho em miniatura entre as mãos e levanta nuvenzinhas de poeira. Sonya troca golpes com Andros Eagrie, um rapaz baixo, mas forte, de dezoito anos. Sonya é silfo — o que significa rapidez e habilidade — e deveria ser capaz de vencer o oponente sem dificuldade. Andros, porém, defende cada um dos seus golpes numa dança violenta. Os prateados da Casa Eagrie são observadores, capazes de ver o futuro imediato, e Andros no momento usa seu poder ao máximo. Nenhum dos dois parece levar vantagem. Na verdade, estão disputando um jogo em que o equilíbrio conta mais que a força.
Imagine o que são capazes de fazer fora de um treinamento. Tão fortes, tão poderosos. E aqui estão apenas os jovens. Com isso minha esperança evapora, dando lugar ao medo.
— Fila — diz uma voz tão baixa que parece um suspiro.
Meu novo instrutor entra sem emitir um som. Cal está ao seu lado, e atrás dos dois vem um telec da Casa Provos. Como um bom soldado, Cal sincroniza seus passos com os do instrutor, que parece minúsculo e nada de mais comparado ao porte físico do príncipe. Há algumas rugas em sua pele pálida, e seu cabelo é branco como sua roupa, um testemunho de sua verdadeira idade e de sua casa. Casa Arven, a Casa silenciadora, me lembro ao repassar de cabeça minhas aulas. Trata-se de uma das principais Casas, cheia de poder, força e tudo aquilo em que os prateados acreditam. Chego mesmo a lembrar dele antes de me tornar Mareena Titanos, quando ainda era criancinha. Ele supervisionava todas as execuções transmitidas a partir da capital. Era senhor dos vermelhos e até dos prateados sentenciados à morte. Agora entendo por que o escolheram para isso.
A garota Haven reaparece num estalo, repentinamente visível mais uma vez, ao passo que o minitornado se desfaz nas mãos de Oliver. As facas de Evangeline despencam e até eu sinto uma bolha de calma me envolver e reduzir minha percepção da eletricidade.
Tudo obra de Rane Arven, o instrutor, o carrasco, o silenciador. Ele é capaz de reduzir prateados àquilo que mais odeiam: um vermelho. Pode desligar seus poderes. Pode torná-los normais.
Admirada, nem me movo, e Maven é quem me puxa para meu lugar atrás dele na fila. Cal encabeça a fileira com Evangeline ao seu lado. Pela primeira vez, não está interessada em mim. Seus olhos permanecem fixos em Cal, que endireita o corpo, aparentemente bem à vontade em seu posto de autoridade.
Arven não perde tempo me apresentando à turma. Na verdade, mal parece notar que ingressei na aula.
— Corrida — ordena com sua voz áspera e baixa.
Legal. Algo que sou capaz de fazer.
Largamos em fila e damos voltas no salão com a maior calma e tranquilidade. Aperto um pouco o passo até ultrapassar Evangeline, desfrutando um pouco do exercício que tanta falta me fazia. Agora só vejo Cal ao meu lado, ditando o ritmo para o resto da turma. Ele me encara e sorri. De fato, consigo correr bem e até gosto.
É estranho pisar no chão amortecido, que faz meus passos quicarem. Por outro lado, o sangue a pulsar no corpo, o suor e o ritmo são bem familiares. Se fecho os olhos, posso fingir que estou de volta ao vilarejo, com Kilorn ou meus irmãos. Ou mesmo sozinha. Simplesmente livre.
Isso até um pedaço da parede se deslocar e me acertar bem no estômago.
O objeto me nocauteia no ato e fico estatelada no chão. O que mais dói, porém, é meu orgulho. A manada de corredores passa ao redor, e Evangeline sorri satisfeita ao me ver caída. Só Maven diminui o passo e espera até que eu o alcance.
— Bem-vinda ao treinamento — ele brinca ao me ver passar pelo obstáculo.
Por todo o salão, outras partes das paredes começam a se deslocar e formar barreiras para os corredores, que vão superando uma atrás da outra. Estão acostumados já. Cal e Evangeline puxam o grupo passando por cima ou por baixo de cada um dos obstáculos que aparecem.
Pelo canto do olho, noto que o telec Provos controla as partes da parede e as move. Até ele parece me dirigir um sorriso malicioso.
Tenho que me segurar para não dar um tapa nele e continuar a correr. Maven segue à minha frente, mas nunca mais que um passo, o que por algum motivo me deixa furiosa. Aperto o ritmo até correr e saltar o melhor que posso. Só que Maven não é como os agentes do vilarejo: não é fácil fazê-lo comer poeira.
Terminadas as voltas, Cal é o único que não suou. Até Evangeline está acabada, apesar de fazer de tudo para não aparentar. Estou ofegante, mas orgulhosa de mim mesma. Apesar do mau começo, consegui acompanhar o exercício.
O instrutor Arven nos examina por uns instantes. Seus olhos se detêm sobre mim antes de se voltar para o telec.
— Os alvos, por favor, Theo — pede, mais uma vez quase aos sussurros. Meus poderes voltam como se alguém escancarasse uma janela para deixar entrar o sol.
Com um gesto, o assistente telec faz o chão se abrir para revelar a estranha arma que vi da janela da sala de Blonos. Só então percebo que não se trata de uma arma. É apenas um cilindro, que se move puramente por causa do poder do telec, não graças a uma tecnologia estranha e superior. Os prateados só têm seus poderes e nada mais.
— Lady Titanos — murmura Arven me fazendo estremecer. — Parece que você possui um poder interessante.
Ele pensa no raio, nos arcos lilás de destruição, mas penso, na verdade, no que Julian disse ontem. Não apenas manipulação. Eu crio. Sou especial.
Todos os olhares se fixam em mim, mas expresso concentração e junto minhas forças.
— Interessante, mas não inédito, instrutor — digo. — Estou muito ansiosa para aprender mais sobre ele.
— Pode começar agora — diz o instrutor.
O telec atrás dele tensiona o corpo e um dos alvos esféricos voa pelo ar, mais veloz do que eu acreditava ser possível.
Controle. Repito as palavras de Julian. Foco.
Desta vez, consigo sentir o tranco ao sugar a eletricidade do ar e de algum lugar dentro de mim. Ela se manifesta em minhas mãos na forma de pequenas faíscas. Mas a bola cai no chão antes de eu conseguir projetar o raio, dissipando-se em faíscas. Ouço a risadinha de Evangeline atrás de mim. Quando me viro para encará-la, meus olhos encontram os de Maven.
Ele inclina a cabeça bem de leve e me incentiva a tentar de novo. Ao seu lado, Cal cruza os braços. Seu rosto sombrio não demonstra suas emoções.
Outro alvo gira pelos ares. As faíscas aparecem mais rápido agora, vivas e brilhantes quando o alvo atinge o ápice de sua trajetória. Como fiz na aula de Julian, cerro o punho e, sentindo a violência do poder dentro de mim, atiro.
O raio faz uma bela parábola destruidora no ar e atinge o alvo em queda. Diante de tamanho poder, se desfaz em pó e fagulhas ao atingir o chão.
Não consigo evitar um sorriso de satisfação. Atrás de mim, Maven e Cal aplaudem, acompanhados de um punhado de gente. Evangeline e suas amigas com certeza não fazem o mesmo, parecendo até insultadas por minha vitória.
Já o instrutor Arven não diz nada, nem me dá os parabéns. Simplesmente encara o resto da classe e chama:
— Próximo.


O instrutor faz de tudo para esgotar a turma. Nos força a uma rodada atrás da outra de exercícios para calibrar nossos poderes. Eu, claro, sou a pior em todos, mas consigo perceber uma melhora. Ao fim da sessão, estou encharcada de suor e com dores em toda parte. A aula com Julian acaba sendo uma bênção, pois posso sentar e recuperar a força. Mas mesmo que o treino da manhã não tivesse acabado comigo, logo será meia-noite. Quanto mais rápido o tempo passa, mais próxima do horário fico. Mais próxima de tomar meu destino nas próprias mãos.
Julian não nota minha tensão, provavelmente por estar debruçado numa pilha de livros recém-encapados. Cada um tem a grossura de dois dedos e uma etiqueta elegante indicando um ano. E só. Nem imagino do que tratam.
— O que são estes livros? — pergunto com a mão num deles.
Ao abrir, dou de cara com uma mistura bagunçada de listas: nomes, datas, locais e causas de morte. A maioria menciona apenas hemorragia, mas também há doença, asfixia, afogamento e outros detalhes mais peculiares e sangrentos. Meu sangue gela nas veias quando percebo exatamente o que leio.
— Uma lista de mortos.
Julian confirma.
— Com cada uma das pessoas que morreram em combate na guerra com Lakeland.
Shade. Isso faz meu almoço se revirar no estômago. Algo me diz que seu nome não estará em nenhum livro. Desertores não recebem a honra de uma linha de tinta. Com raiva, me atento ao abajur que ilumina a leitura. A eletricidade dentro dele é um chamado tão familiar para mim quanto minha própria pulsação. Sem nada na cabeça, passo a acender e apagar a luz, que pisca em sincronia com meu coração exausto.
Julian nota a luz oscilante e, com os lábios apertados, pergunta secamente:
— Algo de errado, Mare?
Está tudo errado.
— Não gostei da mudança de horário — respondo, e paro de brincar com o abajur. Não é mentira, mas também não é verdade. — Não vamos mais poder treinar.
Ele apenas dá de ombros, e o gesto faz suas vestes amareladas se agitarem. Parecem estar mais encardidas, como se Julian estivesse se transformando num pergaminho, numa das páginas dos seus livros.
— Pelo que ouvi, você necessita de mais orientação do que posso lhe dar — comenta.
Essas palavras me fazem ranger os dentes, e eu as mastigo bem antes de cuspir de volta.
— Cal contou para você o que aconteceu?
— Sim — Julian responde sem emoção. — E ele tem razão. Não o culpe por isso.
— Posso culpar Cal pelo que quiser — bufo ao me lembrar dos livros e guias de guerra e morte espalhados por seu quarto. — Ele é como todos os outros.
Julian abre a boca para dizer alguma coisa, mas pensa duas vezes e, no último instante, volta aos livros.
— Mare, eu não chamaria o que fazemos de treino. Além disso, você se saiu muito bem nos exercícios de hoje.
— Você viu? Como?
— Pedi para assistir.
— Quê?!
— Não importa — diz Julian com os olhos cravados em mim. Sua voz se torna repentinamente melódica, como acordes profundos e calmantes.
Mais relaxada, concordo com ele.
— Não importa — repito. Embora Julian já não esteja falando, o eco de sua voz ainda paira no ar como uma brisa tranquilizadora. — O que vamos fazer hoje, Julian?
Ele sorri, divertido.
— Mare.
Sua voz volta ao normal, simples e familiar. Desfaz os ecos como se uma nuvem se dissipasse.
— Mas o que... o que foi isso?
— Suponho que Lady Blonos não falou muito da Casa Jacos nas aulas — diz, ainda sorridente. — Surpreende-me você nunca ter perguntado.
Realmente, nunca pensei em qual seria o poder de Julian. Sempre achei irrelevante, pois ele não era tão pomposo como os outros. Ao que parece, eu estava bem longe da verdade. Ele é muito mais forte e perigoso do que jamais imaginei.
— Você pode controlar as pessoas. Você é igual a ela.
A possibilidade de Julian, um simpatizante da causa vermelha, uma boa pessoa, ser idêntico à rainha me estremece.
Ele não deixa se abalar com a acusação e volta a se concentrar no livro.
— Não, não sou. Meu poder não chega nem perto do dela. Nem minha brutalidade — explica, entre suspiros. — Nos chamam de cantores. Ou pelo menos chamariam, se existisse mais de nós. Sou o último da minha Casa e, bem, o último do meu tipo. Não consigo ler mentes, nem controlar pensamentos, nem falar dentro da sua cabeça. Mas consigo cantar: desde que a pessoa me escute e eu consiga encará-la nos olhos, posso levá-la a fazer o que quiser.
O horror invade meu corpo. Até Julian.
Devagar, recuo para deixar um espaço entre nós. Ele percebe, claro, mas não se irrita.
— Você tem razão em não confiar em mim — fala em tom baixo. — Ninguém confia. Por isso meus únicos amigos são as palavras escritas. Mas não uso meu poder senão quando absolutamente necessário, e nunca o usei para maldades. — Julian pausa um instante, solta uma gargalhada sombria e conclui: — Se quisesse mesmo, poderia chegar ao trono na base da conversa.
— Mas você não fez isso.
— Não. Nem minha irmã, não importa o que os outros digam.
A mãe de Cal.
— Ninguém parece falar muito sobre ela. Não para mim, ao menos.
— As pessoas não gostam de falar de rainhas mortas — dispara, para em seguida desviar o olhar discretamente. — Mas falavam durante a sua vida. Coriane Jacos, a rainha cantora.
Nunca vi Julian assim, nunca. No geral, ele é calmo, tranquilo, um pouco obcecado talvez, mas nunca nervoso. Nunca magoado.
— Ela não foi escolhida pela Prova Real, sabia? — prossegue. — Não como Elara, Evangeline ou mesmo você. Não. Tibe se casou com minha irmã porque a amava. E ela o amava.
Tibe. Chamar Tiberias Calore VI, rei de Norta, Chama do Norte, por qualquer nome com menos de oito sílabas soa absurdo. Mas ele também foi jovem um dia. Era como Cal, um menino nascido para se tornar rei.
— A odiavam por ser de uma Casa inferior, porque não tínhamos força ou autoridade ou qualquer uma das besteiras que essa gente valoriza — Julian não para, ainda com o olhar distante. — Quando minha irmã se tornou rainha, ameaçou mudar tudo isso. Era gentil, compassiva, uma mãe capaz de criar Cal para ser o rei de que este país precisava, para unir a todos nós. Um rei que não temeria mudanças. Mas isso nunca aconteceu.
— Sei como é perder um irmão — comento baixo ao me lembrar de Shade.
Não parece verdade. É como se todos estivessem mentindo e agora ele estivesse em casa, feliz e seguro. Em algum lugar, o corpo decapitado do meu irmão repousa como prova.
— Só descobri ontem à noite. Meu irmão morreu na guerra.
Julian finalmente se volta para mim, com o olhar opaco.
— Sinto muito, Mare. Não percebi.
— Nem ia perceber. O Exército não relata as execuções em seus livrinhos.
— Execução?
— Deserção — a palavra tem gosto amargo, como uma mentira. — Embora eu saiba que ele jamais faria uma coisa dessas.
Após um longo silêncio, Julian põe a mão em meu ombro e diz:
— Parece que temos mais em comum do que você imagina, Mare.
— O que quer dizer?
— Também mataram minha irmã. Ela ficou no caminho deles e foi eliminada. E... — O tom de voz diminui. — Farão de novo, com qualquer um que julguem necessário remover. Mesmo Cal, mesmo Maven e especialmente você.
Especialmente eu. A menininha elétrica.
— Pensei que você quisesse mudar as coisas, Julian.
— E de fato quero. Mas isso leva tempo, planejamento e muita sorte.
Ele me encara de alto a baixo, como se soubesse de algum modo que já dei o primeiro passo rumo ao caminho das trevas.
— Não quero que você perca o controle da situação — aconselha.
Tarde demais.

11 comentários:

  1. •Uau. Estou amando o livro! E também super shippo Maven e Mare! S2
    •Que solidão a única a comentar até agora.

    ~Amy

    ResponderExcluir
  2. Mare até agora não deu nenhum sinal que gosta do maven, são tão fofinhos juntos

    ResponderExcluir
  3. Se no meio da Guarda vermelha existir prateados, Julian e Lucas definitivamente seria um deles. (se não são)

    ResponderExcluir
  4. A Mare se juntando a Guarda Escarlarte me lembrou tanto jogos vorazes hehe

    ResponderExcluir
  5. seguro morreu de velho.desconfio de todos.E para deixar registrado, shippo Cal e Mare kkkkkk

    ResponderExcluir
  6. Q estranho to desconfiando de todo mundo menos dá Mare
    Ninguém passa nenhuma confiança pra mim principalmente esse Julian
    Ele poderia muito bem cantar para a evangeline se matar
    Ass:milly*-*

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)