15 de março de 2017

Capítulo quatro

Cameron

AINDA NÃO CONSIGO ACREDITAR que sobrevivemos. Sonho com isso às vezes. Vejo o momento em que levaram Mare embora, seu corpo segurado firme por dois forçadores gigantescos. Eles estavam de luvas para se proteger da eletricidade, mas ela nem tentou usá-la depois do acordo. Sua vida em troca da nossa. Eu não esperava que o rei Maven fosse cumprir. Não com seu irmão exilado em jogo. Mas cumpriu. Ele a queria mais do que queria o resto de nós.
Mesmo assim, acordo dos pesadelos de sempre, com medo de que Maven e seus caçadores tenham voltado para nos matar. Os roncos dos outros no quarto afugentam o pensamento.
Tinham me avisado que o novo quartel-general seria uma maldita ruína, mas eu estava esperando algo mais parecido com Tuck. Um lugar abandonado, isolado mas funcional, reconstruído em segredo com as regalias de que uma revolução pode precisar. Eu odiava Tuck. Os galpões e os soldados que pareciam guardas, mesmo sendo vermelhos, me lembravam demais do presídio de Corros. A ilha era como outra prisão para mim. Outra cela em que era obrigada a entrar, dessa vez por Mare Barrow em vez de um oficial prateado. Mas em Tuck, pelo menos, eu tinha o céu sobre mim. Podia sentir a brisa fresca. Em comparação a Corros, à Cidade Nova e a isto, Tuck era um luxo.
Agora, trememos de frio nos túneis de concreto de Irabelle, uma fortaleza da Guarda Escarlate nos arredores de Trial, em Lakeland. As paredes parecem congeladas ao toque, e pingentes de gelo pendem das salas sem aquecimento. Alguns dos oficiais da Guarda passaram a seguir Cal de um lado para o outro, só para aproveitar o calor que irradia. Faço o contrário, evitando sua pesada presença o máximo que posso. O príncipe prateado não me serve de nada e ainda me olha de maneira acusatória.
Como se eu pudesse tê-la salvado.
Meu poder mal treinado não chegava nem perto de ser suficiente. Você tampouco ajudou, alteza, quero gritar para ele toda vez que nos cruzamos. Sua chama não foi páreo para o rei e seus caçadores. Além disso, Mare fez sua escolha. Se é para ter raiva de alguém, que seja dela.
A garota elétrica nos salvou, e por isso sou grata. Ainda que seja uma hipócrita egoísta, não merece o que deve estar passando.
O coronel deu ordens para evacuar Tuck assim que conseguimos mandar uma mensagem de rádio para ele. Sabia que o interrogatório de Mare Barrow levaria diretamente à ilha. Farley conseguiu levar todos em segurança, fosse em barcos ou no enorme jato de carga roubado do presídio. Nós fomos obrigados a viajar por terra por conta própria, do local da queda do jato até o ponto de encontro com o coronel, na fronteira. Digo obrigados porque, mais uma vez, me disseram o que fazer e aonde ir.
Antes estávamos voando para o Gargalo na tentativa de resgatar uma legião de soldados crianças. Meu irmão era um deles. Mas nossa missão precisou ser abandonada. Por enquanto, me diziam toda vez que eu criava coragem de me recusar a dar mais um passo para longe do front.
A lembrança faz meu rosto arder. Eu deveria ter seguido em frente. Eles não teriam me impedido. Não tinham como. Mas tive medo. Estávamos muito perto da linha de trincheiras, e me dei conta do que significava marchar sozinha. Teria morrido em vão.
Mesmo assim, não consigo me livrar da vergonha. Fui embora e abandonei meu irmão de novo.
Demorou semanas para todos se reunirem. Farley e seus oficiais chegaram por último. Acho que o pai dela, o coronel, passou todos os dias em que ela esteve fora andando de um lado para o outro pelos corredores gelados da nossa nova base.
Pelo menos o cárcere de Barrow tem alguma utilidade. A distração de uma prisioneira como ela, sem falar do caos fervilhante em Corvium, paralisou toda a movimentação das tropas em volta do Gargalo. Meu irmão está seguro. Bom, tão seguro quanto um menino de quinze anos com uma arma e um uniforme pode estar. Com certeza mais seguro do que Mare.
Não sei quantas vezes vi o discurso de Maven. Cal assumiu um canto da sala de controle para passá-lo de novo e de novo depois que chegamos. Na primeira vez, acho que nenhum de nós se atreveu a respirar. Todos temíamos o pior. Achávamos que íamos ver Mare ser decapitada. Os irmãos dela estavam fora de si, lutando contra as lágrimas. Kilorn mal conseguia olhar, escondendo o rosto entre as mãos. Quando Maven declarou que uma execução seria um destino bom demais para ela, Bree quase desmaiou de alívio. Mas Cal continuou vendo em um silêncio ensurdecedor, as sobrancelhas franzidas em concentração. No fundo, ele sabia, como todos nós, que algo muito pior que a morte esperava por Mare Barrow.
Ela se ajoelhou diante de um rei prateado e ficou imóvel enquanto ele colocava uma coleira em volta de sua garganta. Não disse nada, não fez nada. Deixou que o rei a chamasse de terrorista e assassina diante de toda a nação. Parte de mim queria que ela tivesse gritado, mas sei que não podia sair da linha. Só ficou encarando todo mundo ao redor, os olhos indo e voltando entre os prateados que preenchiam o espaço. Todos queriam chegar perto dela. Caçadores em volta de uma grande presa.
Apesar da coroa, Maven não parecia muito majestoso. Apenas cansado, talvez doente, certamente com raiva. Talvez porque a menina ao seu lado tivesse acabado de assassinar sua mãe. Ele puxou a coleira de Mare e a obrigou a entrar. Ela conseguiu lançar um último olhar por cima do ombro, com os olhos arregalados, à procura. Mas outro puxão a levou embora de vez e não vimos seu rosto desde então.
Mare Barrow está lá e eu estou aqui, apodrecendo, congelando, passando os dias consertando equipamentos mais velhos do que eu. Tudo um maldito lixo.
Aproveito um último minuto no beliche para pensar no meu irmão gêmeo, onde ele está, o que está fazendo. Morrey. Somos parecidos só de rosto. Era um menino doce nos becos cruéis da Cidade Nova, sempre doente por causa da fumaça de fábrica. Não quero imaginar o que o treinamento militar fez com ele. Dependendo de para quem você perguntasse, os técnicos eram considerados valiosos demais ou fracos demais para o Exército. Até a Guarda Escarlate se intrometer, matar meia dúzia de prateados e obrigar o velho rei a agir. Nós dois fomos recrutados, mesmo tendo emprego. Mesmo com só quinze anos. As malditas Medidas decretadas pelo pai de Cal mudaram tudo. Fomos selecionados e levados para longe de nossos pais, para ser soldados. Separaram nós dois quase imediatamente. Meu nome estava numa lista e o dele não.
Antes, eu era grata por ter sido eu a enviada para Corros. Morrey nunca teria sobrevivido àquelas celas. Agora, queria poder estar em seu lugar. Ele estaria livre e eu, na linha de frente. Por mais que eu peça ao coronel por outra tentativa de resgatar a Legiãozinha, ele sempre diz não.
Então é melhor pedir de novo.
Já me acostumei com o peso do cinto de ferramentas, fazendo barulho a cada passo. Ando com determinação suficiente para impedir quem quiser me deter. Na maior parte do tempo, os corredores estão vazios. Ninguém me vê passar comendo o pãozinho do café da manhã. Os outros capitães e suas unidades devem estar em patrulha de novo, vigiando Trial e a fronteira. À procura de vermelhos, talvez, os que tiveram a sorte de chegar ao norte. Alguns vêm aqui para se juntar a nós, mas são sempre pessoas em idade militar ou trabalhadores com habilidades úteis para a causa. Não sei para onde as famílias são enviadas: os órfãos, os mais velhos. Aqueles que só atrapalhariam. Assim como eu. Fico no caminho de propósito. É o único jeito de receber qualquer atenção.
O cubículo — quero dizer, escritório — do coronel é no andar de cima dos dormitórios. Nem me dou ao trabalho de bater na porta, tentando a fechadura antes. Ela se vira fácil, revelando uma sala minúscula e deprimente com paredes de concreto, alguns armários trancados e uma mesa ocupada.
— Ele está na sala de controle — Farley diz, sem levantar os olhos dos papéis. Suas mãos estão manchadas de tinta, e há manchas no nariz e embaixo de seus olhos vermelhos. Ela está debruçada sobre o que parecem ser comunicações da Guarda, mensagens e ordens codificadas. Do Comando, isso eu sei, lembrando dos rumores constantes sobre os níveis superiores. Ninguém sabe muito sobre eles, muito menos eu. Ninguém me fala nada a menos que eu pergunte dezenas de vezes.
Franzo a testa diante do seu estado. A mesa esconde sua barriga, mas já dá para notar. Seu rosto e seus dedos estão inchados. Sem falar nos três pratos de comida empilhados.
— Talvez seja uma boa ideia dormir de vez em quando, Farley.
— Talvez. — Ela parece irritada com a minha preocupação.
Beleza, ignore. Com um suspiro baixo, volto para a porta, deixando-a para trás.
— Avise o coronel que Corvium está no limite — Farley acrescenta, com a voz firme e constante. Uma ordem, mas também outra coisa.
Olho para ela por cima do ombro, com uma sobrancelha erguida.
— Como assim?
— As revoltas estão tomando conta, há relatos esporádicos de oficiais prateados aparecendo mortos, e os depósitos de munição desenvolveram o péssimo hábito de explodir. — Ela sorri ao dizer isso. Quase. A verdade é que não sorri desde a morte de Shade Barrow.
— Parece obra nossa. A Guarda Escarlate está na cidade?
Finalmente ela ergue os olhos.
— Não que a gente saiba.
— Então as legiões estão voltando. — A esperança se acende forte e brutal no meu peito. — Os soldados vermelhos…
— Milhares deles estão posicionados em Corvium. E vários se deram conta de que estão em número muito maior do que seus oficiais prateados. Quatro vezes maior, no mínimo.
Quatro vezes maior. De repente, minha esperança azeda. Já vi com meus próprios olhos o que os prateados são capazes de fazer. Fui sua prisioneira e adversária, capaz de enfrentá-los apenas por causa do meu poder. Quatro vermelhos contra um único prateado ainda é suicídio. Ainda é uma derrota total. Mas Farley parece discordar. Ela nota meu desconforto e o alivia da melhor maneira que pode. Transformando uma navalha em faca.
— Seu irmão não está na cidade. A Legião Adaga ainda está atrás das linhas do Gargalo.
Presa entre um campo minado e uma cidade em chamas. Fantástico.
— Não é com Morrey que estou preocupada. — Agora. — Só não entendo como pretendem tomar a cidade. Eles podem estar em maior número, mas os prateados são… prateados. Algumas dezenas de magnetrons podem matar centenas de pessoas sem pestanejar.
Penso em Corvium. Só vi imagens em vídeos curtos, trechos tirados das transmissões dos prateados ou filmagens de relatórios filtrados pela Guarda Escarlate. É mais uma fortaleza do que uma cidade, envolta por muralhas de pedras pretas, um monólito que dá para os desertos estéreis da guerra ao norte. A Cidade Nova também tinha muralhas e muitos oficiais supervisionando nossa vida. Estávamos em milhares também, mas nossas revoltas eram chegar tarde no turno ou sair escondido depois do toque de recolher. Não havia muito a fazer. Nossa vida era insignificante como fumaça.
Farley volta para o trabalho.
— Só repita para ele o que eu disse. O coronel vai saber o que fazer.
Aceno com a cabeça, fechando a porta enquanto ela tenta, sem sucesso, conter um bocejo.


— Preciso calibrar os receptores de vídeo. Ordens da capitã Farley…
Os dois guardas na porta da central de controle se afastam antes que eu termine a mentira que conto sempre. Os dois desviam os olhos e sinto meu rosto queimar.
Os sanguenovos assustam as pessoas tanto quanto os prateados, talvez até mais. Vermelhos com habilidades são igualmente imprevisíveis, poderosos e perigosos aos olhos dos outros.
Quando chegamos aqui e outros soldados vieram, os rumores sobre mim e os demais se espalharam feito uma doença. A velha consegue trocar de rosto. O que vive tremendo pode cercar os outros de ilusões. A técnica mata uma pessoa com o pensamento. É péssimo ser temida. O pior de tudo é que entendo. Somos diferentes e estranhos, com poderes que nem os prateados têm. Somos fios desencapados e máquinas defeituosas, ainda aprendendo sobre nós mesmos e nossas habilidades. Quem sabe o que pode acontecer?
Engulo em seco o velho desconforto e entro na sala seguinte.
A central de controle normalmente zumbe, cheia de telas e equipamentos de comunicação, mas agora está estranhamente silenciosa. Noto apenas um radiodifusor, cuspindo uma longa fita de papel com uma mensagem codificada. O coronel está diante da máquina, lendo à medida que as informações chegam. Suas sombras costumeiras, os irmãos de Mare, estão sentados perto dele, agitados feito coelhos. O quarto ocupante da sala é tudo de que eu precisava para saber o assunto do relatório que chega.
Mare Barrow.
Afinal, por que outro motivo Cal estaria aqui?
Ele mantém a cara fechada, como sempre, com o queixo pousado nos dedos entrelaçados. Longos dias no subterrâneo tiveram seu impacto, empalidecendo sua pele já branca. Para um príncipe, ele realmente se deixa abater em tempos de crise. Agora, parece precisar de um banho e um barbeador, além de uns tapas bem dados na cara para sair dessa letargia. Mas Cal ainda é um soldado. Seus olhos me identificam antes dos outros.
— Cameron — ele diz, fazendo o possível para não rosnar.
— Calore. — Ele não passa de um príncipe exilado. Não há necessidade de títulos.
A menos que eu realmente queira irritá-lo.
Tal pai, tal filha. O coronel Farley não tira os olhos do comunicado, mas me cumprimenta com um suspiro dramático.
— Vamos poupar nosso tempo, Cameron. Não tenho homens suficientes nem uma boa oportunidade para tentar resgatar uma legião inteira.
Faço com a boca as palavras dele ao mesmo tempo que as pronuncia. O coronel me diz o mesmo quase todo dia.
— Uma legião de crianças mal treinadas que Maven vai massacrar quando tiver a chance — rebato.
— Como você vive me lembrando.
— Porque você precisa ser lembrado! Senhor — acrescento, quase me contorcendo com a palavra. Não fiz nenhum juramento à Guarda, por mais que me tratem como integrante do seu clubinho.
Os olhos do coronel se estreitam numa parte da mensagem.
— Ela foi interrogada.
Cal se levanta tão rápido que derruba a cadeira.
— Merandus?
Uma vibração de calor pulsa pela sala e sinto uma onda de enjoo. Não por causa de Cal, mas por Mare. Pelos terrores pelos quais ela está passando. Abalada, levo as mãos à nuca, puxando o cabelo escuro e crespo.
— Sim — o coronel responde. — Um homem chamado Samson.
O príncipe solta uma série de palavrões bem criativos para alguém da realeza.
— O que isso quer dizer? — Bree, o musculoso irmão mais velho de Mare, se atreve a perguntar.
Tramy, o outro irmão sobrevivente, franze a testa e responde:
— Merandus é a família da rainha. Eles são murmuradores… leitores de mente. Vão partir Mare no meio para nos encontrar.
— E por diversão — Cal murmura num tom grave. Os dois irmãos ficam vermelhos com o que isso implica. Bree pisca para conter lágrimas ferozes e repentinas. Quero tocar seu braço, mas me seguro. Já vi gente demais se encolher diante do meu toque.
— Mare não sabe de nada de nossas operações fora de Tuck, que foi completamente abandonada — o coronel diz rápido.
É verdade. Eles abandonaram Tuck com uma velocidade ofuscante, deixando para trás tudo o que ela sabia. Até mesmo os prateados que capturamos em Corros — ou resgatamos, dependendo de para quem você pergunta — foram deixados na costa. Era perigoso demais ficar com eles; estavam em um número grande demais para controlar.
Estou com a Guarda Escarlate há apenas um mês, mas já conheço seus bordões de cor. Vamos nos levantar, vermelhos como a aurora, claro, e Saiba só o que precisa saber. O primeiro é um grito de guerra, o segundo um aviso.
— O que quer que ela revele a eles vai ser secundário no máximo — o coronel acrescenta. — Nada de importante sobre o Comando e pouco sobre nossas negociações fora de Norta.
Ninguém liga, coronel. Mordo a língua antes de retrucar. Mare é uma prisioneira. E daí se eles não conseguirem nada sobre Lakeland, Piedmont ou Montfort?
Montfort. A nação distante governada por uma democracia, num equilíbrio igualitário entre vermelhos, prateados e sanguenovos. Um paraíso? Faz tempo que descobri que isso não existe. É provável que agora eu saiba mais sobre aquele país do que Mare, com os gêmeos Rash e Tahir se vangloriando o tempo todo. Não sou idiota a ponto de confiar na palavra deles. Sem falar que é pura tortura conversar com os dois, que vivem terminando as ideias e frases um do outro. Às vezes quero usar meu silêncio em ambos, para cortar o poder que une suas mentes numa só. Mas isso seria crueldade, além de burrice. As pessoas já desconfiam dos sanguenovos sem ver uma disputa de poder entre nós.
— O que eles vão descobrir realmente importa agora? — eu me obrigo a dizer entredentes. Felizmente, o coronel me compreende. Tenha o mínimo de decência diante dos irmãos dela, coronel.
Ele só pisca, com um olho bom e o outro destruído.
— Se não conseguem aguentar as informações, não venham para a sala de controle. Precisamos saber o que tiraram dela no interrogatório.
— Samson Merandus é um lutador de arena, ainda que não tenha motivo para isso — Cal diz em voz baixa. Tentando ser gentil. — Gosta de usar seu poder para causar dor. Se é ele que está interrogando Mare, então… — Cal tropeça nas palavras, relutante a falar. — É uma tortura, pura e simplesmente. Maven a entregou a um torturador.
Até mesmo o coronel parece abalado com essa ideia.
Cal fita o chão, em silêncio por um longo momento.
— Nunca pensei que Maven faria isso com ela — ele murmura por fim. — Acho que Mare também não.
Então vocês são idiotas, meu cérebro grita. Quantas vezes o menininho perverso precisa trair vocês para aprenderem?
— Precisa de mais alguma coisa, Cameron? — o coronel Farley pergunta. Ele enrola a mensagem. O restante claramente não é para os meus ouvidos.
— É a respeito de Corvium. Farley disse que está no limite.
O coronel pisca.
— Foram essas as palavras dela?
— Sim.
De repente, não sou mais o foco da sua atenção. Seus olhos se voltam para Cal.
— Então está na hora de avançar.
O coronel parece ansioso, mas o príncipe exilado não poderia estar mais relutante. Continua imóvel, sabendo que qualquer contração pode revelar o que sente de verdade.
Só que a falta de movimento é igualmente reveladora.
— Vou ver o que consigo encontrar — ele se esforça em dizer, afinal. Parece suficiente para o coronel, que acena com o queixo antes de voltar a atenção para os irmãos de Mare.
— É melhor avisar a família de vocês — ele diz, se fazendo de bonzinho. — E Kilorn também.
Eu me remexo, desconfortável ao vê-los digerir a notícia dolorosa sobre a irmã e aceitar o fardo de transmiti-la ao resto da família. As palavras de Bree travam, mas Tramy tem força suficiente para falar pelo irmão mais velho.
— Sim, senhor — ele responde. — Mas não sei por onde Warren anda ultimamente.
— Tente nos galpões dos sanguenovos — sugiro. — Ele vive por lá.
De fato, Kilorn passa a maior parte do tempo com Ada. Depois da morte de Ketha, ela assumiu a árdua tarefa de ensiná-lo a ler e escrever. Mas desconfio que fique conosco porque não tem mais ninguém. Os Barrow são a coisa mais próxima que tem de família e eles não passam de um bando de fantasmas agora, assombrados por lembranças. Nunca nem vi os pais de Mare. Ficam na deles, no fundo dos túneis.
Nós quatro somos dispensados pelo coronel, saindo juntos da sala de controle numa fila única desconcertante. Bree e Tramy se distanciam logo, seguindo para os aposentos da família do outro lado da base. Não tenho inveja deles. Lembro como minha mãe gritava quando eu e meu irmão fomos levados embora. Não sei o que dói mais: não ter notícia nenhuma dos filhos quando se sabe que eles estão em perigo, ou receber notícias do sofrimento deles aos poucos.
Não que eu vá descobrir. Não há lugar para filhos, muito menos filhos meus, neste mundo cruel e arruinado.
Dou um pouco de espaço para Cal, mas logo mudo de ideia. Temos quase a mesma altura, e não é difícil alcançar seu passo afobado.
— Se seu coração não estiver nisso, você vai causar a morte de muita gente.
Ele gira, quase me fazendo cair de bunda com a velocidade e a força de seu movimento. Já vi seu fogo, mas nunca com tanta força quanto a chama que arde em seus olhos.
— Cameron, meu coração está literalmente nisso — ele sibila, entredentes.
Palavras apaixonadas. Uma declaração de amor. Mal consigo me impedir de revirar os olhos.
— Guarde isso para quando a trouxermos de volta — resmungo. Quando, não se. Ele quase botou fogo na sala de controle quando o coronel negou seu pedido de buscar formas de mandar mensagens para Mare dentro do palácio. Não quero que derreta o corredor por eu ter escolhido mal as palavras.
Cal começa a caminhar de novo, com o passo duas vezes mais largo, mas não sou tão fácil de ser deixada para trás quanto a garota elétrica.
— Só estou tentando dizer que o coronel tem seus próprios estrategistas… pessoas no Comando… oficiais da Guarda Escarlate que não têm — procuro o termo apropriado — lealdades conflitantes.
Ele bufa alto, fazendo seus ombros largos subir e descer. Está na cara que qualquer aula de etiqueta que fez era menos importante que seu treinamento militar.
— Me mostre um oficial que saiba tanto quanto eu sobre os protocolos dos prateados e o sistema de defesa de Corvium e sairei desta bagunça com o maior prazer.
— Tenho certeza de que deve ter alguém, Calore.
— Quem lutou ao lado dos sanguenovos? E conhece suas habilidades? E sabe como usar vocês melhor numa batalha?
Fico indignada com o tom de voz dele.
— Usar? — cuspo a palavra. E é isso mesmo. Lembro daqueles de nós que não sobreviveram a Corros. Sanguenovos recrutados por Mare Barrow, que ela prometeu proteger. Em vez disso, Mare e Cal nos jogaram no meio de uma batalha para a qual não estávamos preparados, e ficou claro que ela não era capaz de proteger nem a si mesma. Nix, Gareth, Ketha e outros da prisão que eu nem conhecia. Dezenas de mortos, descartados como peças num jogo de tabuleiro.
Sempre foi assim com os senhores prateados e foi assim que Cal aprendeu. Vencer a todo custo. Com sangue vermelho.
— Você sabe o que quero dizer.
Bufo.
— Talvez seja por isso que não estou exatamente confiante.
Pega leve, Cameron.
— Escuta — continuo, mudando de tática. — Eu botaria fogo em todo mundo aqui se isso significasse ter meu irmão de volta. Por sorte, essa não é uma decisão que preciso tomar. Mas você… você tem essa opção. Quero ter certeza de que não vai escolhê-la.
É verdade. Estamos aqui pelo mesmo motivo. Não por obediência cega à Guarda Escarlate, mas porque ela é nossa única esperança de salvar quem amamos e perdemos.
Cal abre um sorriso malicioso, o mesmo pelo qual Mare era apaixonada, embora só o faça parecer ainda mais tonto.
— Não me venha com essa conversinha, Cameron. Estou fazendo o possível para nos manter longe de outro massacre. — Seu semblante fica duro. — Acha que são só os prateados que não pensam em nada além da vitória? — ele sussurra. — Já vi os relatórios do coronel. Vi a correspondência com o Comando. Ouvi coisas. Vocês estão cheios de gente que pensa exatamente igual. Eles vão queimar todos nós para conseguir o que querem.
Pode ser verdade, penso, mas pelo menos o que querem é justiça.
Penso em Farley, no coronel, nos soldados jurados à Guarda Escarlate e nos refugiados vermelhos que eles protegem. Já os vi transportar pessoas para o outro lado da fronteira com meus próprios olhos. Entrei em um jato que voou rumo ao Gargalo com a intenção de resgatar uma legião de soldados crianças. Eles têm objetivos com altos custos, mas não são prateados. Matam, mas não sem motivo.
A Guarda Escarlate não é pacífica, mas não há lugar para paz neste conflito. Não importa o que Cal pense sobre os métodos e o sigilo deles; é o único jeito de ter esperança de lutar contra os prateados e vencer. O povo do príncipe exilado é o responsável por isso tudo.
— Se está tão preocupada com Corvium, não vá — ele diz, dando de ombros.
— E perder a chance de sujar as mãos de sangue prateado? — retruco. Não sei se estou fazendo uma piada de mau gosto ou uma ameaça direta contra ele. Minha paciência se esgotou de novo. Já tive que lidar com as reclamações de uma para-raios ambulante. Não vou aturar o mau humor de um príncipe emburrado.
Seus olhos ardem novamente com fúria e calor. Não sei se sou rápida o bastante para incapacitá-lo com meu poder. Seria uma luta e tanto. Fogo contra silêncio. Quem queimaria?
— Engraçado você vir me dizer para tomar cuidado com a vida dos outros. Lembro que fez todo o possível para matar naquele presídio.
Um presídio em que fui mantida. Faminta, esquecida, obrigada a ver as pessoas ao redor definharem e morrerem porque nasceram… erradas. E, mesmo antes de entrar em Corros, eu era prisioneira de outra cadeia. Sou filha da Cidade Nova, recrutada para o Exército desde o dia em que nasci, condenada a levar uma vida em sombras e cinzas, à mercê do sinal de troca de turno e do horário da fábrica. É claro que tentei matar aqueles que me mantiveram cativa. Faria tudo de novo se tivesse a chance.
— Tenho orgulho disso — digo, decidida.
Cal perde a esperança comigo. Isso fica claro. Que bom. Não tem discursinho nenhum que vá me convencer a pensar como ele. Duvido que alguém mais dê ouvidos.
Cal é um príncipe de Norta. Exilado, sim, mas diferente de nós nesse sentido. Seu poder também é útil, mas ele é uma arma que mal é tolerada. Suas palavras não vão muito longe. Ninguém o ouve. Muito menos eu.
Sem avisar, ele segue por uma passagem menor, uma das várias escondidas no labirinto que é Irabelle. O caminho tem uma leve inclinação rumo à superfície. Deixo que vá, sem entender. Não tem nada naquela direção. Apenas passagens vazias, abandonadas.
Mas algo me incomoda. Ouvi coisas, ele disse. A desconfiança se acende em meu peito enquanto ele se afasta, seu corpo largo ficando menor a cada segundo.
Por um momento, hesito. Cal não é meu amigo. Mal estamos do mesmo lado.
Mas é irritantemente nobre. Não vai me ferir.
Então vou atrás dele.
O corredor está obviamente sem uso, atolado de porcarias, escuro onde as lâmpadas queimaram. Mesmo à distância, a presença de Cal aquece o ar abafado a cada segundo que passa. Chega a ser uma temperatura agradável e faço uma nota mental de conversar com outros técnicos refugiados. Talvez a gente possa encontrar um jeito de aquecer as passagens inferiores usando ar pressurizado.
Meus olhos percorrem os fios encapados ao longo do teto, contando-os. Há mais do que o necessário para alimentar algumas poucas lâmpadas.
Continuo atrás, observando enquanto Cal empurra alguns páletes de madeira e placas de metal. Há uma porta atrás, e noto que os cabos correndo no alto entram no cômodo.
Quando desaparece, fechando a porta atrás de si, me atrevo a olhar com mais atenção.
Consigo ver a confusão de fios com mais clareza. Um circuito de rádio. Bem diante do meu nariz. O emaranhado de fios pretos que significa que a sala lá dentro tem o poder de se comunicar além das muralhas de Irabelle.
Mas com quem ele poderia estar em contato?
Meu primeiro instinto é contar para Farley ou Kilorn.
Mas se Cal acha que o que quer que esteja fazendo vai impedir que eu e milhares de outros invistam num ataque suicida em Corvium, é melhor deixar que continue.
Torço para não me arrepender disso.

31 comentários:

  1. Ra sabia q ela tava grávida pena q o Shade morreu😭😭

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    1. Verdade!!! To tristr até hoje...
      Sera que é menino ou menina????♡♡♡

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    2. Ai meu coração, uma criança sem pai...Ainda sofro com o Shade :'(
      Não vou com a cara da Cameron, mas concordo com ela em algumas coisas. ~polly~

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    3. onde diz isso? que ela está grávida?

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    4. Teve dicas no livro anterior, Mare não percebeu. E nesse capítulo, Cameron nota os sinais: "Franzo a testa diante do seu estado. A mesa esconde sua barriga, mas já dá para notar. Seu rosto e seus dedos estão inchados. Sem falar nos três pratos de comida empilhados."

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    5. Gente, socorro KKKKK, pensei que ela tava ganhando peso e só. Nunca advinharia que ela tá grávida, só quando a criança nascesse, provavelmente.

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  2. Não consigo mesmo gostar dessa Cameron...

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  3. Queria que a autora tivesse escrito pontos de vistas tanto do Cal quanto do Maven seria muito bom ver o que se passa em suas mentes

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  4. Está insuportável ler as palavras dessa Cameron, aff...

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  5. Fico feliz em saber que não sou a única a odiar essa Cameron

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    1. sofrendo pela morte de Shade até hoje buáá.... amei a cameron..s2

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  6. Queria ter a opção de "Não suporto a Cameron".

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  7. Por um momento, hesito. Cal não é meu amigo. Mal estamos do mesmo lado.
    Mas é irritantemente nobre. Não vai me ferir.

    Cal sendo Cal....

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  8. SÓ EU GOSTO DA CAM? GOSTO DO PONTO DE VISTA DELA, E NÃO VEJO A HORA DE LER O PONTO DE VISTA DOS OUTROS SE TIVER...

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  9. Pelo jeito sou a única que gosta da Cameron. Ela é revoltada com razão. Um pouco tbm é a idade. rs

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  10. "— Se seu coração não estiver nisso, você vai causar a morte de muita gente.
    Ele gira, quase me fazendo cair de bunda com a velocidade e a força de seu movimento. Já vi seu fogo, mas nunca com tanta força quanto a chama que arde em seus olhos.
    — Cameron, meu coração está literalmente nisso — ele sibila, entredentes."
    Suspirando❤

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  11. "— Se seu coração não estiver nisso, você vai causar a morte de muita gente.
    Ele gira, quase me fazendo cair de bunda com a velocidade e a força de seu movimento. Já vi seu fogo, mas nunca com tanta força quanto a chama que arde em seus olhos.
    — Cameron, meu coração está literalmente nisso — ele sibila, entredentes."
    Suspirando ❤

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  12. Eu n a odeio, mas Cameron é irritante e sem noção. Ela simplesmente n entende que isso é uma guerra, que pessoas vão morrer pela causa e, que não se pode salvar todo mundo! É CLARO que o coronel é frio, ele TEM que ser. Imagina se ele fosse chorar por todas as perdas, e tentar salvar todos... A revolução jamais aconteceria. Tempos difíceis trazem escolha difíceis. Essa garota é sem noção, eu queria chegar perto dela e gritar que o mundo não é um conto de fadas.

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  13. Eu gosto da Cameron, ela é sincera e ponto.
    Gostei da autora ter exposto o ponto de vista dela,espero que tenha de Cal e Kilorn (sou apaixonada por Kilorn 😍).

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  14. Pelo o que a GE tá lutando afinal, pela soberania vermelha ou igualdade pra todos. Pq os pensamentos da Cam são de soberania vermelha e isso vai dá em que??? Não gosto nem desgosto dessa menina, mas em meio a uma gerra a ingenuidade e a ignorância dela vai acabar lascando todos.

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  15. Será que o bebê de Shade vai tervalhgum poder?

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  16. Eu achava Cameron tão irritante, mas agora é bom ler o que ela acha, parece Mare revoltada antes de tudo isso...
    Gostaria muito que tivesse partes em que Cal falasse.

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  17. — Nunca pensei que Maven faria isso com ela — ele murmura por fim. — Acho que Mare também não.
    Então vocês são idiotas, meu cérebro grita. Quantas vezes o menininho perverso precisa trair vocês para aprenderem
    Meu Deus penso assim desde a primeira traição dele...

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  18. Acho que a Farley ta grávida mesmo!
    MDS!!!
    #lutoeternoshade

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  19. Sou a unica que fica em depressão toda vez que a Farley aparece no livro. Serio, to feliz pelo bebê mas to muito chorona pelo Shade. EU ODEIO A CAMERON! SÓ NOIS PODEMOS FALAR MAL DA MARE E DO CAL!!!! Ô MINININHA IRRITANTE. SÓ SABE RECLAMAR, RECLAMAR, RECLAMAR. MAIS INSUPORTAVEL QUE A EADLYN SCHREAVE. ESPERO QUE VC MORRA!!!
    OPS: exagerei. 😆

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  20. Eu devo ser a única que odeia mas não odeia a Cameron. Tipo, essa garota é meio chata, reclama atoa, é super temperamental; mas pelo menos o ponto de vista dela é inteligente.

    As minhas suspeitas sobre a Farley estavam certas. Será que o neném vai ter algum poder? Tipo invisibilidade e tal?

    Espero que o livro também tenha a guerra vista por Cal e por Maven.

    ~Jak~

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Boa leitura :)