13 de março de 2017

Capítulo quatro

FARLEY NÃO É TÃO ALTA QUANTO KILORN, mas seus passos são mais rápidos, determinados e difíceis de acompanhar. Faço o possível, quase trotando para seguir o ritmo dela pelo corredor do mersivo. Como antes, os rebeldes saem da frente para abrir caminho, mas agora eles também nos cumprimentam, levando a mão ao peito ou os dedos à testa. Devo admitir que a aparência de Farley impressiona, ostentando todas as cicatrizes e feridas como se fossem joias. Ela parece não se importar com o sangue no jaleco e esfrega as mãos nele, distraída. Parte daquele sangue era de Shade. Ela arrancou a bala no ombro dele com as próprias mãos, sem nem piscar.
— Ele não está trancafiado, se é isso que você pensa — ela diz com um toque de humor, como se a conversa sobre a prisão de Cal fosse uma fofoca qualquer.
Não sou burra a ponto de morder a isca, não agora.
Ela está me analisando, testando a minha reação, a minha fidelidade. Só que não sou mais a garota implorando por ajuda. Já não é tão fácil ler meus pensamentos. Já vivi no fio da navalha, equilibrando uma mentira sobre a outra, me escondendo. Não custa nada fazer o mesmo agora e enterrar bem fundo o que estou pensando.
Então começo a rir, estampando no rosto o sorriso que aprimorei na corte de Elara.
— Dá pra perceber. Não tem nada derretido — replico, apontando para as paredes de metal.
Observo Farley enquanto ela tenta me examinar. Ela mascara bem a própria expressão, mas seus olhos deixam à mostra um vestígio de surpresa. Surpresa e curiosidade.
Não esqueci como ela tratou Cal no trem: algemas, guardas armados e desprezo.
E ele aceitou tudo como um cachorro abandonado. Depois da traição do irmão e do assassinato do pai, ele já não tinha nenhuma vontade de lutar. Não o culpei. Mas Farley não conhece seu coração — nem sua força — como eu. Ela não sabe o quanto ele é perigoso de verdade. Ou o quanto eu sou perigosa, aliás. Mesmo agora, apesar das muitas feridas, sinto a energia lá dentro, chamando a eletricidade que pulsa pelo mersivo. Poderia controlá-lo se quisesse.
Poderia desligar este negócio inteiro. Poderia afogar todos nós. A ideia letal me faz corar, envergonhada por pensar algo assim. Mas ao mesmo tempo me conforta.
Sou a arma mais poderosa numa embarcação cheia de guerreiros, e eles parecem não perceber.
Parecemos fracos porque queremos. Shade se referia à Guarda ao dizer isso, queria explicar os motivos do grupo. Agora começo a me perguntar se ele também não estava tentando transmitir uma mensagem, como as palavras escritas numa carta muito tempo atrás.
O alojamento de Cal fica no fim do mersivo, resguardado do alvoroço do resto da embarcação. A porta está praticamente escondida atrás de um emaranhado de canos e caixas vazias cujos rótulos dizem “Archeon”, “Haven”, “Corvium”, “Delphie” e até mesmo “Belleum”, que fica em Piedmont ao sul. Não sei dizer o que essas caixas continham antes, mas os nomes das cidades prateadas me dão um frio na espinha. Foram roubadas. Farley percebe que estou olhando para as caixas, mas não se dá ao trabalho de explicar. Apesar do nosso acordo precário sobre aqueles que ela chama de “sanguenovos”, ainda não adentrei o círculo mais profundo dos segredos dela. Imagino que Cal tenha algo a ver com isso.
A fonte de energia do mersivo, seja lá qual for — um gerador poderoso, pelo que sinto —, treme sob meus pés e faz meus ossos vibrarem. Torço o nariz de desgosto. Farley pode não ter trancafiado Cal, mas também não está sendo gentil. Entre o ruído e o sacolejo, começo a duvidar que ele tenha conseguido dormir pelo menos um pouco.
— Imagino que este seja o único lugar onde você podia deixá-lo, certo? — pergunto, cravando os olhos naquele canto atulhado.
Ela dá de ombros e esmurra a porta.
— O príncipe não reclamou.
Não esperamos muito, embora eu desejasse um tempo para me recompor. A tranca circular começa a se mover em questão de segundos, com giros rápidos e barulhentos. As dobradiças de ferro rangem, gritam, e Cal abre a porta.
Não me surpreendo ao vê-lo ereto, ignorando as próprias dores. Depois de uma vida inteira se preparando para ser um guerreiro, ele está acostumado com cortes e hematomas. Mas ele não sabe esconder as cicatrizes interiores. Ele evita meu olhar, preferindo focar em Farley, que não percebe ou não quer perceber o coração dilacerado do príncipe. De repente, parece mais fácil suportar minhas próprias feridas.
— Capitã Farley — ele diz, como se ela tivesse vindo importuná-lo à hora do jantar. Usa o tom aborrecido para mascarar a dor.
Farley não suporta essa atitude e joga o cabelo curto para o lado, resmungando. Chega até a pôr a mão na porta como se fosse fechá-la.
— Ah, você não quer visitas? Que grosseria da minha parte!
Fico discretamente feliz por não ter deixado Kilorn nos acompanhar. Ele seria ainda pior com Cal, já que o odeia desde a primeira vez que se encontraram, em Palafitas.
— Farley — chamo por entre os dentes cerrados.
Minha mão interrompe o movimento da porta. Para minha alegria — e desgosto —, Farley recua instintivamente ao meu toque. Logo ela fica com o rosto inteiro vermelho, com vergonha de si mesma e do seu medo. Apesar da fachada de dureza, ela é igual a seus soldados. Tem medo da garota elétrica.
— Acho que nos viramos sozinhos a partir daqui — completo.
O rosto de Farley se contrai, uma pontada de irritação, tanto com ela mesma quanto comigo. Mas ela concorda, grata por se retirar da minha presença. Depois de lançar um último olhar afiado para Cal, dá meia-volta e desaparece pelo corredor. Os berros de suas ordens ecoam por um instante, indecifráveis, mas fortes.
Cal e eu a seguimos com o olhar. Depois, fitamos a parede, o chão, os próprios pés, com medo de nos encarar. Medo de relembrar os últimos dias. A última vez que trocamos olhares na soleira de uma porta rendeu aulas de dança e um beijo roubado.
Talvez tudo isso pertença a outra vida. Porque era mesmo outra vida. Ele dançou com Mareena, a princesa perdida, e Mareena está morta.
Mas as lembranças dela permanecem. Quando entro no compartimento, meu ombro roça o braço firme de Cal, e me lembro da sensação e do cheiro e do gosto dele. Calor, brasas de madeira, nascer do sol. Agora não mais. Cal cheira a sangue, sua pele é como gelo, e digo a mim mesma que não quero sentir o gosto dele nunca mais.
— Estão te tratando bem? — falo primeiro, começando com um assunto fácil.
Uma rápida olhada pelo compartimento limpo, embora pequeno, é resposta suficiente, mas quero quebrar o silêncio.
— Estão — ele responde, ainda parado diante da porta aberta, refletindo se deve fechá-la ou não.
Meus olhos se deparam com um painel aberto na parede, revelando um emaranhado de fios e chaves. Não posso conter um leve sorriso. Cal andou xeretando.
— Você acha isso uma boa ideia? Um fio errado e...
Meu comentário arranca um sorriso fraco dele, mas mesmo assim reconfortante.
— Passei metade da vida lidando com circuitos elétricos. Não se preocupe, sei o que estou fazendo.
Ambos ignoramos o duplo sentido da frase.
Ele finalmente decide fechar a porta, embora a deixe destrancada. Uma mão se apoia contra a parede de metal, espalmada, à procura de algo em que se agarrar. A pulseira de chamas ainda reluz em seu punho, prata cintilante contra um cinza opaco e duro. Ele percebe meu olhar e abaixa a manga da camisa manchada. Acho que ninguém pensou em lhe dar uma muda de roupa.
— Ninguém vai se preocupar comigo enquanto eu ficar no meu canto, acho — ele diz, e volta a mexer no painel aberto. — Até que é bom — ele acrescenta, mas a piada não tem graça.
— Vou garantir que as coisas continuem assim, se é isso que você quer — emendo depressa. Para ser honesta, não faço ideia do que Cal quer no momento. Além de vingança, a única coisa que ainda temos em comum.
Ele me encara com a testa franzida, quase achando graça.
— Ah, a garota elétrica está no comando agora? — Ele não me dá chance de reagir à provocação. Diminui a distância entre nós com um passo largo, estreita o olhar e continua: — Tenho a sensação de que você está tão acuada quanto eu. Só que você parece não perceber.
Meu rosto fica vermelho de raiva — e vergonha — na hora.
— Acuada? Não sou eu que me escondo num armário.
— Não, você está ocupada demais desfilando por aí. — Ele se inclina para a frente e o calor familiar entre nós retorna. — De novo.
Parte de mim sente vontade de dar um tapa na cara dele.
— Meu irmão jamais faria...
— Eu pensava que meu irmão também jamais faria várias coisas, e veja onde fomos parar! — ele interrompe, esbravejando.
Cal abre os braços, exasperado, e as pontas dos dedos tocam as paredes, arranhando a prisão em que ele se encontra. A prisão em que eu o prendi. E ele me aprisionou consigo, quer tenha consciência ou não.
Seu corpo emana um calor cáustico. Sou forçada a recuar um pouco. Meu gesto não passa despercebido.
Ele murcha, deixando os olhos e os braços caírem.
— Desculpa — ele se força a dizer enquanto tira uma mecha de cabelo preto da testa.
— Nunca me peça desculpas. Eu não mereço.
Ele lança um olhar para mim; seus olhos estão escuros e arregalados. Não discute.
Respiro fundo e me apoio na parede oposta. O espaço entre nós se abre como a boca de um animal raivoso.
— Você sabe alguma coisa sobre um lugar chamado Tuck?
Grato pela mudança de assunto, ele se recompõe e se refugia no papel de príncipe. Mesmo sem a coroa, ele tem um ar de nobreza com sua postura perfeita, as mãos atrás das costas.
— Tuck? — ele repete, muito concentrado. A testa franzida cria um sulco entre suas sobrancelhas grossas e escuras. Quanto mais ele demora para falar, melhor me sinto. Se ele não conhece a ilha, poucos devem conhecer. — É para lá que estamos indo?
— É. — Acho. Uma sensação gélida percorre meu corpo quando lembro das lições de Julian, que aprendi a duras penas na corte e na arena. Todo mundo pode trair todo mundo. — De acordo com Shade.
Cal deixa minha incerteza pender no ar, bondoso o bastante para não se aproveitar dela para me provocar.
— Acho que é uma ilha — ele diz afinal. — Uma das várias além do litoral. Não é território de Norta. Nada que dê suporte a uma colônia ou base, nem mesmo para defesa. Lá é puro mar aberto.
Um pouco do peso sobre meus ombros se desfaz.
Estaremos a salvo por um tempo.
— Que bom.
— Seu irmão. Ele é igual a você — Cal diz. Não é uma pergunta. — Diferente.
— Ele é — confirmo. O que mais eu poderia dizer?
— E ele está bem? Lembro que foi ferido.
Mesmo sem um exército, Cal continua a ser um general, preocupado com os soldados e os feridos.
— Ele está bem, obrigada. Levou uns tiros no meu lugar, mas está se recuperando bem.
À menção dos tiros, o olhar de Cal se crava em mim, e ele finalmente se permite me observar. Ele se detém no meu rosto arranhado e no sangue seco ao redor das minhas orelhas.
— E você? — ele pergunta enfim.
— Já passei por coisa pior.
— Sim. Passamos.
Deixamos o silêncio nos envolver. Não ousamos falar mais nada, mas continuamos a nos observar. De repente, fica difícil suportar a presença dele. E, ao mesmo tempo, não quero sair.
Só que o mersivo tem outros planos.
O gerador treme sob meus pés. Seu pulso latejante muda de ritmo.
— Estamos quase lá — murmuro ao sentir a eletricidade fluir e transbordar para outras partes da embarcação.
Cal ainda não sente nada; não tem como. Mas também não questiona meus instintos. Ele conhece meus poderes, melhor do que qualquer outro neste subaquático. Melhor que minha própria família. Por ora, pelo menos. Minha mãe, meu pai, Gisa... todos estão à minha espera na ilha. Vou vê-los em breve. Estão lá.
Seguros.
Mas não sei por quanto tempo ficarei com eles. Não vou poder ficar na ilha, não se quiser fazer algo pelos sanguenovos. Precisarei voltar a Norta, usar tudo e todos que Farley for capaz de pôr ao meu dispor para tentar encontrá-los. A tarefa já começa a parecer impossível; nem quero pensar nisso. Mas minha mente dá voltas mesmo assim, tentando traçar um plano.
Um alarme soa ao mesmo tempo que uma luz amarela começa a piscar sobre a porta de Cal.
— Incrível... — Ouço Cal balbuciar, distraído durante alguns instantes por aquela máquina gigante ao nosso redor. Não duvido que ele tenha sentido vontade de explorar, mas não há lugar para o lado investigativo do príncipe aqui. O garoto que se debruçava sobre manuais e construía motos do zero não tem espaço neste mundo. Eu o matei, assim como matei Mareena.
Apesar da mente de Cal afeita à mecânica e do meu próprio instinto elétrico, não fazemos ideia do que vai acontecer. Quando o mersivo dá uma guinada e sai das profundezas do oceano, o compartimento inteiro pende para o lado. A surpresa nos derruba. Colidimos contra a parede e um contra o outro. Nossas feridas se batem, arrancando suspiros doloridos de ambos. O toque dele dói mais do que qualquer outra coisa; é uma facada profunda da memória, e me afasto como posso o mais rápido possível.
Gemendo, esfrego um dos meus muitos hematomas.
— Onde está Sara Skonos quando precisamos dela? — resmungo, desejando que a curandeira de pele pudesse consertar a nós dois. Ela expulsaria as dores com apenas um toque e nos faria voltar à forma para lutar.
Outra expressão de dor passa pelo rosto de Cal, mas não por causa dos ferimentos. Parabéns, Mare. Excelente trabalho. Mencionar a mulher que sabia que a mãe dele tinha sido assassinada pela rainha. A mulher em quem ninguém acreditava.
— Desculpa. Eu não queria... — tento me justificar.
Ele gesticula para que eu pare e se levanta apoiando um braço contra a parede para não perder o equilíbrio.
— Tudo bem. Ela... — Suas palavras saem pesadas, artificiais. — Escolhi não dar ouvidos a ela. Não quis escutar. A culpa é minha.
Só estive com Sara Skonos uma vez, quando Evangeline quase revelou minha condição para todos durante o treinamento. Julian a convocou — Julian, que a amava — e a observou curar meu rosto ensanguentado e minhas costas roxas. Os olhos de Sara eram tristes, as bochechas ocas, a língua ausente.
Arrancada por causa de palavras pronunciadas contra a rainha, por causa de uma verdade em que ninguém acreditava. Elara matou a mãe de Cal, Coriane, a rainha cantora. A irmã de Julian, a melhor amiga de Sara. E ninguém parecia se importar. Era muito mais fácil fechar os olhos.
Maven também estava lá, odiando Sara a cada respiração. Agora sei que aquilo era uma rachadura no seu escudo, deixando entrever quem ele realmente era por trás das palavras ensaiadas e dos sorrisos bondosos.
Como Cal, não enxerguei o que estava bem diante de mim.
Como Julian, ela já deve estar morta a esta altura.
De repente, as paredes de metal e meus ouvidos tapados tornam-se demais para suportar.
— Preciso sair deste troço.
Apesar do ângulo estranho do compartimento e do zumbido constante na minha cabeça, meus pés sabem o que fazer. Não se esqueceram da lama de Palafitas, das noites que passei em becos nem das pistas com obstáculos do treinamento. Giro a tranca e abro a porta, resfolegando. Mas o ar rançoso e filtrado do mersivo não me oferece nenhum alívio. Preciso do cheiro das árvores, da água, das chuvas de primavera, até mesmo do cheiro quente do verão ou do frio da neve do inverno.
Preciso de qualquer coisa que me lembre do mundo além desta lata sufocante.
Cal me dá uma vantagem antes de me seguir. Seus passos ressoam pesados e lentos atrás de mim. Ele não está tentando me alcançar, mas sim me dar espaço. Se ao menos Kilorn fosse capaz de fazer o mesmo...
Meu amigo se aproxima pela outra ponta do corredor, segurando-se em manivelas e trancas circulares para descer aos poucos pelo mersivo inclinado. Seu sorriso se desmancha quando ele avista Cal, e, em vez de uma expressão severa, demonstra uma indiferença fria. Ele parece achar que ignorar o príncipe vai irritá-lo mais do que a hostilidade escancarada. Ou talvez Kilorn não queira provocar um lança-chamas humano a uma distância tão curta.
— Estamos emergindo — ele diz, me alcançando.
Agarro-me a uma das caixas por perto com mais força e me equilibro.
— Não diga?!
Kilorn abre um sorriso e se encosta na parede à minha frente. Ele bota os pés bem ao lado dos meus, um desafio digno de nota. Sinto o calor de Cal atrás de mim, mas o príncipe também parece adotar o método da indiferença e não diz nada.
Não vou ser uma peça no joguinho dos dois. Já fiz esse papel a minha vida inteira.
— Como está a... Como ela chama mesmo? Lena?
O nome atinge Kilorn como um tapa na cara. O sorriso dele diminui e um canto da boca fica caído.
— Acho que está bem — ele responde.
— Que bom, Kilorn — digo com um sorriso condescendente e lhe dou uma palmadinha no ombro. A distração funciona perfeitamente. — Sempre é hora de fazer novas amizades.
O mersivo se nivela sob nossos pés, mas ninguém tropeça. Nem mesmo Cal, que está longe de ter o mesmo equilíbrio que eu ou as pernas de marinheiro de Kilorn.
Tenso como uma corda esticada, Cal fica à espera de que eu assuma a liderança.
Eu deveria rir só de pensar num príncipe que se põe ao meu dispor, mas estou fria e cansada demais para fazer qualquer coisa que não seja seguir adiante.
Atravesso o corredor seguida por Cal e Kilorn até a confusão de rebeldes que espera ao lado da escada para sair do subaquático. Os feridos vão primeiro, amarrados em macas improvisadas e içados noite adentro. Farley supervisiona tudo com o jaleco ainda mais ensanguentado do que antes. É uma cena horrível: ela aperta as gazes dos curativos, com uma seringa presa entre os dentes. Os piores levam injeções quando passam, uma medicação para amenizar a dor de ser puxado por um tubo estreito. Shade é o último dos feridos, apoiando-se com esforço nos dois rebeldes que caçoaram de Kilorn por causa da enfermeira. Minha vontade é de abrir caminho e ir até ele, mas a multidão está aglomerada demais e não quero chamar mais atenção hoje. Ainda muito fraco para se teletransportar, Shade vai pulando numa perna só, e seu rosto fica vermelho de raiva quando Farley o amarra à maca. Não consigo ouvir o que ela diz, mas ele fica um pouco mais calmo com as palavras. Chega mesmo a dispensar a seringa com um gesto e cerrar os dentes diante da dor esmagadora de ser içado tubo acima.
Assim que Shade chega ao alto em segurança, o processo começa a fluir muito mais rápido. Um atrás do outro, os rebeldes seguem escada acima e o corredor começa a esvaziar.
Muitos são enfermeiros, homens e mulheres caracterizados pelos jalecos brancos com manchas de sangue de intensidade variada.
Não perco tempo gesticulando para que os outros passem à frente, fingindo ser polida como convém a uma dama. Assim que a multidão se abre um pouco e vejo a escada livre, avanço depressa. Cal vem logo atrás, e a presença dele somada à minha afasta os rebeldes como uma faca. Eles recuam rápido, alguns chegam a tropeçar para nos dar passagem. Apenas Farley permanece firme, com uma mão ao redor da escada.
Para minha surpresa, ela acena com a cabeça para Cal e para mim. Para nós dois.
Esse deveria ter sido meu primeiro alerta.
Os degraus da escada fazem meus músculos queimarem, ainda cansados de Naercey, da arena e da minha captura. Consigo ouvir urros estranhos lá de cima, mas isso não me detém. Preciso sair do mersivo o mais rápido possível.
Lanço um olhar por cima do ombro. Minha última visão do subaquático é estranha, vai além de Farley e penetra até o posto médico. Ainda há feridos ali, imóveis debaixo das cobertas. Não, não são feridos, percebo enquanto subo. São os mortos.
Perto do fim da escada, o vento uiva. Umas gotas de água caem. Nada com que se preocupar, penso, até chegar ao topo e ao círculo aberto de escuridão. Uma tempestade ruge tão forte que a chuva incide de lado, praticamente sem tocar o tubo e a escada. Os pingos ardem no meu rosto arranhado e me deixam encharcada em questão de segundos. Tempestades de outono. Ainda assim, sou incapaz de lembrar de uma tempestade tão brutal quanto esta. Ela sopra através de mim, enchendo minha boca de chuva e água salgada do mar. Por sorte, o mersivo está bem ancorado numa doca que mal consigo enxergar e aguenta firme os golpes das ondas cinzentas.
— Por aqui! — uma voz familiar berra no meu ouvido, guiando-me da escada para o convés escorregadio por causa da chuva e da água do mar. A escuridão não me permite distinguir bem o soldado que me conduz, mas o corpo maciço e a voz são fáceis de identificar.
— Bree! — exclamo, apertando a mão dele e sentindo os calos do meu irmão mais velho.
Ele caminha como uma âncora, pesado e lento, e me ajuda a passar do mersivo para o cais, que não está numa situação muito melhor: o metal está carcomido de ferrugem. Mas ele me leva até a terra, e é só isso que importa. Terra e calor, um repouso bem-vindo depois das profundezas frias do oceano e da minha memória.
Ninguém ajuda Cal a sair do mersivo, mas ele se vira bem sozinho. De novo, toma cuidado para manter certa distância, caminhando respeitáveis passos atrás de nós.
Tenho certeza de que ele não esqueceu seu primeiro encontro com Bree, em Palafitas, quando meu irmão foi tudo menos educado. Na verdade, nenhum dos Barrow deu muita importância a Cal, exceto minha mãe e talvez Gisa. Mas não sabiam quem ele era. O reencontro promete ser interessante.
A tempestade torna difícil distinguir Tuck, mas dá para ver que é uma ilha pequena, coberta de dunas e mato tão tumultuosos quanto as ondas. Um relâmpago fulmina a água e ilumina a noite por uns instantes, mostrando a trilha diante de nós. Agora ao ar livre, sem as paredes sufocantes do mersivo ou do subtrem, percebo que não somos nem trinta, contando os feridos.
Eles se dirigem para duas construções baixas de concreto, onde o cais encontra a terra. Algumas estruturas se destacam na colina suave acima de nós, e parecem abrigos ou quartéis. Mas sou incapaz de dizer o que está à frente deles. A próxima explosão de relâmpago é ainda mais perto, e reverbera de um jeito gostoso pelos meus nervos.
Bree, por engano, acha que estou com frio, me puxa para si e passa um de seus pesados braços pelo meu ombro. O peso dele dificulta a caminhada, mas aguento.
O fim do cais não chega rápido o suficiente. Logo estarei debaixo de um teto, seca, sobre chão firme e reunida aos outros Barrow depois de tanto tempo, de um tempo longo demais. Essa perspectiva basta para me fazer enfrentar todo aquele corre-corre debaixo de chuva. Os enfermeiros levam os feridos até um veículo velho, com a caçamba coberta com uma lona à prova d’água. Com certeza é roubado, como todo o resto. Os dois edifícios em terra firme são hangares, e suas portas estão escancaradas o bastante para revelar mais veículos à espera lá dentro. Há até barcos ancorados no cais, balançando com as ondas cinzentas e enfrentando a tempestade. Nada combina — veículos obsoletos de diferentes tamanhos, barcos novos em folha, alguns prateados, outros pretos, um verde. Roubados ou capturados ou ambos. Reconheço em um dos barcos o cinza nublado e o azul, as cores da Marinha de Norta.
Tuck é como uma versão bem maior do velho trailer de Will Whistle: lotado de bugigangas e itens obtidos pelo comércio ilegal ou pelo roubo.
O veículo médico arranca antes de o alcançarmos e sofre para subir a estrada arenosa em meio à chuva.
Apenas a serenidade de Bree me impede de apertar o passo. Como ele não está preocupado com Shade nem com o que há no topo da montanha, tento fazer o mesmo.
Cal não compartilha esse mesmo sentimento e acelera para poder caminhar ao meu lado. A tempestade ou a escuridão ou talvez simplesmente o sangue prateado lhe fazem parecer pálido e assustado.
— Isso não vai durar — ele murmura, baixo o suficiente para que apenas eu escute.
— O que foi, príncipe? — Bree pergunta num tom parecido com um rugido tosco. Eu lhe dou um cutucão nas costelas, mas o único efeito é uma dor no meu cotovelo. — Não importa, logo vamos descobrir.
O tom da voz dele é pior do que as palavras. Frio, brutal, tão diferente do irmão risonho que eu conhecia. A Guarda também o mudou.
— Bree, do que você está falando?
Cal já sabe e para de andar no ato, com os olhos cravados nos meus. O vento bagunça seu cabelo e o faz grudar na testa. Seus olhos cor de bronze escurecem de medo e meu estômago dá um nó diante da cena. De novo não, suplico. Por favor, que eu não tenha caído em mais uma armadilha.
Um dos hangares paira atrás dele. As portas se escancaram, as dobradiças estranhamente silenciosas.
Um monte de soldados, numerosos demais para contar, marcham em sincronia, tão disciplinados quanto qualquer legião. Suas armas estão prontas e seus olhos brilham na chuva. Seu líder bem que podia ser um calafrio, com cabelo loiro quase branco e postura gélida.
Mas ele tem sangue vermelho como o meu — um dos olhos, embaçado de rubro, sangra por trás da retina.
— Bree, o que é isso?! — berro, me lançando à frente do meu irmão com grunhidos viscerais.
Em vez de me responder, ele toma minha mão num gesto brusco. Segura firme, valendo-se da força para me impedir de escapar. Se fosse qualquer outra pessoa, eu lhe daria um bom choque. Mas é meu irmão, não posso e não vou fazer isso com ele.
— Bree, me solta!
— Não vamos machucá-lo — ele diz, e não para de repetir. — Não vamos machucá-lo, prometo.
Então essa jaula não é para mim. Mas isso não me acalma nem um pouco. Quando muito, me deixa mais brava e desesperada.
Ao olhar para trás, deparo com os punhos acesos de Cal, que está com os braços bem abertos para enfrentar o homem do olho vermelho.
— E então? — Cal ruge desafiador, soando mais como um animal do que um homem. Um animal acuado.
Há armas demais, mesmo para Cal. E vão atirar contra ele se for preciso. Talvez seja isso o que queiram: uma desculpa para matar o príncipe caído. Grande parte de mim sabe que eles têm motivo para isso. Cal era um dos que caçavam a Guarda Escarlate; foi o responsável pela morte de Tristan, pelo suicídio de Walsh e pela tortura de Farley. Soldados às ordens dele esmagaram a maior parte das forças rebeldes de Farley. E sabe-se lá quantos ele mandou para a linha de frente da guerra para morrer, trocando a vida de soldados vermelhos por uns quilômetros a mais até Lakeland. Ele não tem qualquer compromisso com a causa. É um perigo para a Guarda Escarlate.
Mas ele é uma arma tão boa quanto eu, que podemos usar no futuro próximo. Será uma tocha para ajudar a dissipar a escuridão na luta dos sanguenovos contra Maven.
— Ele não vai vencer essa briga, Mare — Kilorn diz, escolhendo o pior momento para ressurgir ao meu lado. Ele sussurra no meu ouvido, como se a proximidade pudesse me influenciar. — Ele vai morrer se tentar.
É difícil ignorar essa lógica.
— De joelhos, Tiberias — o homem do olho vermelho diz enquanto dá passos ousados na direção do príncipe flamejante. Vapor começa a subir da silhueta de Cal, como se a tempestade estivesse tentando apagá-lo. — Mãos atrás da cabeça.
Cal não faz nada e estremece à menção do primeiro nome. Ele mantém a postura firme, forte, altiva, apesar de saber que se trata de uma batalha perdida. Antes ele talvez se rendesse na esperança de salvar a própria pele.
Agora ele acredita que sua pele não vale nada.
Aparentemente, só eu penso o contrário.
— Cal, faça o que ele diz.
O vento carrega a minha voz, de modo que todo o hangar é capaz de ouvir. Receio que possam ouvir meu coração também, batendo como um tambor no peito.
— Cal.
Devagar, relutante, uma estátua desmanchando-se em pó, Cal se ajoelha e desfaz o fogo. Ele fez o mesmo ontem, pondo-se de joelhos ao lado do cadáver decapitado do pai.
O homem do olho vermelho abre um sorriso orgulhoso, com dentes brilhantes e retos. Ele se ergue diante de Cal com prazer, desfrutando da visão de um príncipe a seus pés. Desfrutando do poder que isso lhe confere.
Mas eu sou a garota elétrica, e ele não faz ideia do que é o verdadeiro poder.

18 comentários:

  1. Nossa ta ficando bom,to ansiosa pra ver os vermelhos prateados em luta contra Maver e faze-lo pagar junto com a rainha

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  2. Na boa esta na hora do Cal mostrar a essa gente que ele poderia os destruir se quisesse

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  3. Eita, vms pro proximo cap descobrir o que vai acontecer.

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  4. Só eu que tô com a impressão que a Guarda não que igualdade nem uma???

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    1. Estou pensando a mesma coisa, ás vezes fico meio desconfiada em relação a essa Guarda!

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  5. Se eu fosse Cal mostrava quem manda nessa bagaça!

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    1. Lauanda Sanntos, haha eu tbm

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  6. e depois eles te matavam né?

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    1. kkkkkkkkkk

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    2. mas é verdade não é?

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  7. Cal e Mare lutaram sozinhos contra um exercício de prateados, o que é um exercício de vermelhos pra eles? Se quisessem, os dois juntos fariam um estrago ali !

    Flavia

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  8. Só quero ver as caras deles quando o Cal se mostrar forte como ele é!

    Apaixonada por livros

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  9. eles fariam um estrago e daí eles iriam se esconder do Maven aonde?

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  10. não to gostando como eles estão tratando meu Cal, não mesmo :@

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    1. pera q dividindo tem Cal pra toda uma casa e pra td mundo kkkkkk

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  11. Alguém poderia me explicar pf como a mãe de Cal morreu? E como isso tem a ver com a Elara e a Sara! Pf

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    1. A mãe do Cal supostamente se matou. Na verdade a culpada foi Elara, que influenciou os pensamentos da rainha e fez com que ela se matasse. Sarah era amiga de Coriane, e falou contra Elara. Mas como esta se tornara poderosa - rainha - a cudandeira foi punida: teve a língua arrancada para não poder espalhar suas "mentiras"

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Boa leitura :)