3 de março de 2017

Capítulo quatro

JÁ FIZ ISSO MIL VEZES: observar a multidão como um lobo vigia um rebanho de ovelhas. À procura dos fracos, dos lentos, dos tolos. Só que, agora, pareço mais a presa. Posso escolher um lépido, que me pegará em um piscar de olhos; ou, ainda pior, um murmurador, que vai sentir minha presença a um quilômetro de distância. Até a garotinha telec tem vantagem sobre mim se as coisas derem errado. Assim, tenho que ser mais rápida do que nunca, mais esperta do que nunca e ter mais sorte do que nunca. É enlouquecedor. Felizmente, ninguém presta atenção em mais uma criada vermelha, outro inseto perambulando aos pés dos deuses.
Volto para a praça. Deixo meus braços penderem frouxos do lado do corpo, embora estejam preparados. Normalmente esse é meu jogo: caminhar pelas partes mais congestionadas da multidão e deixar minhas mãos apanharem bolsas e carteiras como as aranhas apanham moscas. Não sou burra a ponto de tentar isso aqui. Em vez disso, sigo a multidão ao redor da praça. Minha visão não está mais ofuscada pelo cenário fantástico ao redor. Enxergo além dele: as fendas entre as rochas e os agentes de segurança em uniforme preto atrás de cada sombra. O impossível mundo prateado surge mais nítido. Eles mal olham um para o outro e nunca sorriem. A menina telec parece cansada de brincar com o bicho estranho, e os mercadores nem pechincham. Apenas os vermelhos parecem vivos, cruzando aqui e ali com homens e mulheres lentos e bem de vida. Apesar do calor, do sol e dos sinais luminosos, nunca vi um lugar tão frio.
O que mais me preocupa são as câmeras de vídeo escondidas nas fachadas e vielas. Há apenas algumas no meu vilarejo, perto da sede da segurança ou da arena. Mas aqui elas estão em todos os comércios. Consigo ouvi-las mexer, como que para recordar com firmeza: Alguém mais observa você aqui.
A maré de pessoas me conduz pela avenida principal, por tavernas e cafés. Prateados sentam-se do lado de fora para observar a multidão passar enquanto desfrutam suas bebidas matinais. Alguns assistem a vídeos em monitores presos na parede ou pendurados em arcos.
Cada um exibe algo diferente, de antigas lutas na arena a noticiários e programas coloridos que não consigo compreender. Todos se misturam em minha cabeça. O som agudo dos monitores e o chiado distante da imagem zunem em meus ouvidos. Como eles aguentam, não sei. Mas os prateados sequer piscam diante dos vídeos, como se os ignorassem por completo.
O Palacete projeta uma sombra tênue sobre mim, e de novo me pego admirando, tola. Mas então um som repetitivo me tira do transe. No começo, parece a sirene da arena, aquela que usam para dar início às Efemérides, mas é diferente. Um pouco mais grave e pesado. Sem pensar, volto-me para a direção do barulho.
No bar perto de mim, todos os monitores exibem a mesma transmissão. Não se trata de um pronunciamento real, mas de um plantão de notícias. Até os prateados param e assistem com um silêncio extasiado. Quando o ruído termina, a reportagem começa. Uma loira de cabelos volumosos — prateada, sem dúvida — surge na tela assustada, e começa a ler uma ficha:
— Prateados de Norta, pedimos desculpas pela interrupção. Há treze minutos houve um ataque terrorista na capital.
Os prateados ao meu redor soltam um suspiro seguido de resmungos temerosos. Só consigo esfregar os olhos, descrente. Ataque terrorista? Contra os prateados? Isso é possível?
— Ocorreram explosões concentradas em prédios governamentais no oeste de Archeon. Segundo relatos, a Corte, a Casa do Tesouro e o Palácio de Whitefire foram danificados, mas nem a Corte nem a tesouraria estavam em sessão esta manhã.
A loira então sai de cena para dar lugar à imagem de um prédio em chamas. Agentes de segurança evacuam edifícios enquanto ninfoides lançam água nas labaredas. Curandeiros, identificados por uma cruz preta e vermelha no braço, correm de um lado para o outro.
— A família real não estava na residência de Whitefire e não há mortes confirmadas até o momento. O rei Tiberias deve se dirigir à nação dentro de uma hora.
Um prateado perto de mim cerra o punho e soca o balcão, produzindo uma teia de rachaduras no tampo de pedra sólida. Um forçador.
— Foi Lakeland! Estão perdendo no norte, então vêm nos assustar no sul!
Alguns se juntam às provocações para maldizer Lakeland.
— Tínhamos que varrer essa gente do mapa, avançar até Prairie! — ressoa outro prateado.
Muitos vibram em acordo. Precisei de toda a minha força para não pular em cima desses covardes que jamais estarão na frente de batalha ou enviarão seus filhos para o combate. A guerra prateada deles é paga com sangue vermelho.
Parte de mim se alegra com as próximas imagens transmitidas: a fachada de mármore do tribunal pulverizada por explosões, uma muralha de diamante sob uma bola de fogo. Os prateados não são invencíveis. Têm inimigos, inimigos capazes de feri-los e, pela primeira vez, não estão escondidos atrás de um escudo de vermelhos.
A âncora retorna, mais pálida do que nunca. Alguém sussurra umas palavras por trás da câmera enquanto ela repassa as fichas. Suas mãos tremem.
— Aparentemente uma organização assumiu a responsabilidade pelo atentado em Archeon — ela diz, gaguejando um pouco.
Os gritos dos homens no bar cessam rapidamente. Todos estão ansiosos para escutar.
— Um grupo terrorista autointitulado Guarda Escarlate divulgou esse vídeo há alguns instantes.
— Guarda Escarlate?
— Que diabos é...?
— É alguma piada?
Outras perguntas confusas ecoaram pelo balcão. Ninguém nunca ouviu falar da Guarda Escarlate.
Mas eu ouvi.
Foi assim que Farley se referiu a si mesma. A ela e Will. Mas ambos são contrabandistas, não terroristas ou homens-bomba, ou seja lá o que diz o noticiário. É coincidência. Não podem ser eles.
No monitor, uma imagem terrível me aguarda. Uma mulher diante de uma câmera trêmula. Uma bandana vermelha cobre seu rosto, deixando à mostra apenas seu cabelo dourado e os olhos azuis e vivos. Numa das mãos, uma pistola; na outra, uma bandeira vermelha esfarrapada. No peito, um medalhão de bronze no formato de um sol despedaçado.
— Somos a Guarda Escarlate e defendemos a liberdade e a igualdade de todos os seres humanos... — a mulher diz.
Reconheço a voz. Farley.
— ... a começar pelos vermelhos.
Não é preciso ser um gênio para saber que um bar lotado de prateados zangados e violentos é o último lugar em que uma garota vermelha gostaria de estar. Mas não consigo me mover. Não consigo desgrudar os olhos do rosto de Farley.
— Vocês se consideram os donos do mundo, reis, deuses. Mas seu império está no fim. Enquanto não nos reconhecerem como humanos, como iguais, a guerra baterá à porta das suas casas. Não nos campos de batalha, mas nas suas cidades. Nas suas ruas. Onde vocês moram. Vocês não nos veem, e por isso já estamos em todo lugar.
Sua voz ressoa com autoridade e ponderação nas últimas palavras.
— E nós vamos nos levantar. Vermelhos como a aurora.
Vermelhos como a aurora.
O vídeo termina. O monitor volta a exibir a apresentadora, agora de queixo caído. Urros crescentes sufocam o resto do noticiário à medida que os prateados ao redor do balcão recuperam a voz. Gritam contra Farley. Chamam-na de terrorista, assassina, diabo vermelho.
Antes de seus olhos recaírem sobre mim, já estou de volta à rua.
Só que, por toda a avenida, da praça até o Palacete, os prateados fervilham, vindos dos bares e cafés. Tento arrancar a fita vermelha do meu punho, mas ela não solta. Outros vermelhos desaparecem nos becos e corredores, na tentativa de fugir, e eu, que não sou burra, vou atrás. Quando encontro um beco, a gritaria começa.
Contra todos os meus instintos, viro para trás e vejo um vermelho erguido pelo pescoço. Ele suplica à agressora prateada:
— Por favor, não sei nem quem são essas pessoas!
— O que é a Guarda Escarlate? — a prateada grita na cara dele.
Reconheço a mulher. É uma das ninfoides que brincava com as crianças há menos de meia hora.
— Quem são eles?
Antes do pobre vermelho conseguir responder, um bloco de água o acerta no rosto. A ninfoide levanta a mão e a água se reúne novamente para mais um golpe. Prateados aglomeram-se em torno da cena, rindo e torcendo. O vermelho gagueja e tosse, tenta recuperar o ar. Ele reforça sua inocência a cada segundo, mas a água continua atingindo-o. A ninfoide, com os olhos repletos de ódio, não dá sinais de que vai parar. Ela atrai para si água de todas as fontes, de todos os copos, e lança contra ele, de novo e de novo.
Vai afogá-lo.


O toldo azul é meu farol, meu guia em meio ao pânico das ruas enquanto desvio tanto de vermelhos quanto de prateados. Geralmente, o caos é meu melhor amigo e deixa meu trabalho de ladra bem mais fácil. Ninguém dá pela falta de um porta-moedas quando está fugindo de uma multidão. Mas minha prioridade não é mais Kilorn e as duas mil coroas. Só consigo pensar em pegar Gisa e sair da cidade, que com certeza vai se tornar uma prisão. Se fecharem os portões... Não quero nem pensar em ficar presa aqui, cercada por muralhas de vidro, sem ter como chegar à liberdade.
Os agentes correm para cima e para baixo nas ruas. Não sabem o que fazer ou quem proteger. Alguns juntam vermelhos e os forçam a ajoelhar. Os coitados tremem e imploram. Repetem várias vezes que não sabem de nada. Posso apostar que sou a única pessoa na cidade inteira que ouviu falar da Guarda Escarlate antes de hoje.
Uma punhalada de medo atravessa meu corpo. Se for capturada, se contar a eles o pouco que sei, o que farão à minha família? A Kilorn? A Palafitas?
Eles não podem me pegar.
Me escondo atrás das barracas e corro o mais rápido que posso. A rua principal virou uma zona de guerra, mas mantenho o olhar adiante, fixo no toldo azul depois da praça. Passo em frente à joalheria. Desacelero. Uma joia bastaria para salvar Kilorn. Uma fração de segundo parada e... uma chuva de estilhaços de vidro arranha meu rosto. Na rua, um telec crava os olhos em mim e mira novamente. Não lhe dou chance e disparo. Escorrego por debaixo de cortinas e barracas, os braços estendidos até voltar à praça. Quando me dou conta, já estou com o pé encharcado, cruzando a fonte na corrida.
Uma onda azul e espumante me joga para o lado, nas águas agitadas. Nada muito fundo, meio metro, mas a água parece chumbo. Não consigo andar, não consigo nadar, não consigo respirar. Mal consigo pensar. Minha mente só consegue gritar “ninfoide” e lembro do pobre vermelho na avenida, se afogando em pé. Bato a cabeça no fundo de pedra e vejo estrelas, faíscas, até que minha visão clareia. Tenho a sensação de que cada centímetro da minha pele está eletrificado. A água muda ao meu redor, volta ao normal e finalmente atinjo a superfície da fonte. O ar invade meus pulmões, queimando o nariz e a garganta. Não ligo: estou viva.
Mãos pequenas e fortes me agarram pelo colarinho na tentativa de me tirar da fonte. Gisa. Meus pés desgrudam do fundo e vamos ao chão juntas.
— Temos que ir — grito enquanto tento ficar em pé.
Gisa já está correndo na minha frente, rumo ao Portal do Jardim.
— Que perspicaz! — ela berra por cima do ombro.
Não consigo deixar de dar mais uma olhada na praça antes de segui-la. A multidão prateada transborda de todas as portas, revistando as barracas com a voracidade de lobos. Os poucos vermelhos restantes se encolhem no chão e imploram por misericórdia. Na fonte de onde acabei de escapar, um ruivo boia com o rosto para baixo.
Meu corpo estremece. Cada nervo queima enquanto ambas avançamos na direção do Portal.
Gisa segura minha mão e abre caminho para nós em meio à multidão.
— Dezesseis quilômetros até nossa casa — ela murmura. — Você conseguiu o que precisava?
Sinto o peso da vergonha recair sobre meus ombros ao responder que não. Não deu tempo. Mal tinha conseguido retornar à avenida quando o plantão começou. Não havia nada que pudesse fazer.
O rosto de Gisa mostra pequenas rugas de preocupação.
— A gente pensa em algo — ela afirma com uma voz tão desesperada como a minha.
Mas os portões já despontam diante de nós, mais próximos a cada segundo que passa. Encho-me de tristeza. Assim que estiver do outro lado, assim que sair, Kilorn estará perdido para sempre.
E acho que é por isso que ela faz o que faz.
Antes de eu conseguir detê-la, agarrá-la ou empurrá-la, as mãozinhas espertas de Gisa deslizam pela mochila de uma pessoa. Mas não uma pessoa qualquer: um prateado em fuga. Um prateado com olhar de chumbo, cara de invocado e ombros largos que gritam “Não mexa comigo”. Gisa pode ser uma artista com a agulha e a linha, mas não é batedora de carteiras. O prateado leva apenas um segundo para notar o que está acontecendo. E então alguém a ergue do chão.
É o mesmo prateado. Dois deles. Gêmeos?
— Não é um bom momento para começar a bater carteiras — os dois dizem em uníssono. E então já são três, quatro, cinco, seis, e fecham uma roda ao nosso redor. Multiplicam-se. É um clonador.
A multidão dá um nó na minha cabeça.
— Ela não teve a intenção. É só uma criança boba...
— Sou só uma criança boba! — Gisa berra enquanto tenta chutar o clone que a segura.
Eles riem juntos, uma gargalhada aterrorizante.
Corro na direção de Gisa e tento puxá-la, mas um deles me joga de volta para o chão. O impacto contra o piso duro faz o ar fugir dos meus pulmões. Fico recuperando o ar, capaz apenas de ver outro gêmeo botar o pé na minha barriga e me imobilizar.
— Por favor... — gemo, mas ninguém escuta. O zumbido na minha cabeça se intensifica à medida que as câmeras viram para focar a confusão. Sinto mais uma vez meu corpo eletrificado, agora por medo do que pode acontecer à minha irmã.
Um agente de segurança — o mesmo que nos deixou entrar pela manhã — se aproxima com a arma em punho.
— O que é isso? — rosna, encarando os prateados idênticos.
Um por um, eles fundem-se novamente até restar somente dois: o que segura Gisa e o que me prende no chão.
— Uma ladra — um deles diz, balançando minha irmã. Tenho que reconhecer que ao menos ela não gritou.
O policial a reconhece. Sua dureza se transforma em consternação numa fração de segundo.
— Você conhece a lei, menina.
Gisa abaixa a cabeça.
— Sim.
Luto o máximo que posso para tentar impedir o que está para acontecer. Som de vidro quebrando, luzes piscando: um monitor perto de nós é destruído pelo tumulto. Nem isso impede o policial de agarrar minha irmã e pôr a mão dela no chão.
Minha voz sai por vontade própria, unindo-se ao ruído do caos:
— Fui eu! Foi minha ideia! Me castiguem!
Mas eles não ouvem. Não se importam.
Posso apenas observar o policial deitar minha irmã ao meu lado. Seus olhos fixam-se nos meus enquanto ele desce a coronha da arma e esmaga os ossos da mão que ela usa para costurar.

11 comentários:

  1. Que violência, esses pratas não prestam!
    ~polly~

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  2. NOSSA, ESTOU GOSTANDO MUITO DO LIVRO, MAS PÔ, CARACA, ELES SAO DESPRESIVEIS.

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  3. Q cretinos de loko tira suas patas dele seu filho da put*

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  4. Lasco tudo agora!!!

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  5. Que violência desses vermelhos man....

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  6. Aí. ... que ódio desses prateados! !

    Flavia

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  7. OMG...E AGORA? "A MÃO QUE ELA USA PARA COSTURAR"!!!!!! DROGAA
    x Maysa
    ***

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  8. Tô bem passada. Não acredito. Um ato impensado e acaba com nossa vida.
    Ass: Déborah Alana.

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  9. E agora ela não vai poder costurar!
    E a guerra ganhou três soldados
    -Gisa
    -Kilorn
    -Mare

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    Respostas
    1. Gisa só tem 14 anos. Ainda n pode ir para a guerra...(acho)

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Boa leitura :)