15 de março de 2017

Capítulo onze

Cameron

MESMO SE ACABASSE VIRANDO UM PICOLÉ, preferia ter ficado para trás em Trial. Não por medo, mas para provar meu ponto de vista. Não sou uma arma para ser usada, ao contrário de Barrow. Ninguém tem o direito de me dizer aonde ir ou o que fazer. Estou cheia disso. Já passei a vida inteira assim. Todos os meus instintos me dizem para ficar longe das operações da Guarda em Corvium, uma cidade-fortaleza que engole soldados e cospe seus ossos.
Só que meu irmão, Morrey, está a poucos quilômetros de distância agora, enfiado numa trincheira. Mesmo com minha habilidade, vou precisar de ajuda para chegar até ele. E, se quiser algo dessa Guarda ridícula, vou ter que começar a dar alguma coisa em troca. Farley deixou isso bem claro.
Eu gosto dela, ainda mais depois que pediu desculpa pelo comentário sobre nos “usar”. A garota fala o que pensa. Não se deixa abater, embora tenha todo o direito. Ao contrário de Cal, que fica deprimido pelos cantos, recusando-se a ajudar e depois cedendo quando está a fim. O príncipe me cansa. Não sei como Mare conseguia suportar esse cara e sua incapacidade de escolher um maldito lado — ainda mais quando só há uma opção. Agora mesmo ele está vociferando, alternando entre querer proteger os prateados de Corvium e arrasar a cidade.
— Vocês precisam controlar as muralhas — Cal murmura, diante de Farley e do coronel. Estamos operando a partir do nosso quartel-general em Rocasta, uma cidade fornecedora a poucos quilômetros de nosso objetivo. — Se controlarem as muralhas, podem virar a cidade do avesso… ou derrubá-las completamente. Deixar Corvium inútil. Para todo mundo.
Sem nada para fazer, sento na sala quase vazia, no meu lugar ao lado de Ada. Foi ideia de Farley. Somos duas dos sanguenovos mais visíveis, famosas entre os dois tipos de vermelhos. Incluir-nos nesta reunião manda uma mensagem forte para o resto da unidade. Ada observa com olhos arregalados, memorizando as palavras e os gestos.
Normalmente, Nanny estaria aqui com a gente, mas ela se foi. Era uma mulher pequena, mas deixou um vazio enorme. E sei de quem é a culpa.
Meus olhos queimam as costas de Cal. Sinto o formigamento do meu poder e resisto ao impulso de deixá-lo de joelhos. O príncipe está disposto a nos matar para salvar Mare mas não a matar seus semelhantes para salvar o resto do mundo. Foi escolha de Nanny se infiltrar sozinha em Archeon, mas todo mundo sabe que a ideia não partiu dela.
Farley está tão furiosa quanto eu. Mal consegue olhar para Cal, mesmo quando fala com ele.
— A questão agora é como vamos despachar nossa tropa. Não podemos concentrar todo mundo nas muralhas, por mais importantes que sejam.
— Pela minha contagem, há dez mil soldados vermelhos em Corvium. — Quase rio com a humildade de Ada. Pela minha contagem. A contagem dela é perfeita e todo mundo sabe disso. — O protocolo militar define que deve haver um oficial para cada dez vermelhos, o que significa pelo menos mil prateados dentro da cidade, sem levar em conta as unidades de comando e a administração. Neutralizar os prateados deve ser nosso objetivo.
Cal cruza os braços, duvidando até da inteligência perfeita e indiscutível de Ada.
— Não sei. Nosso objetivo é destruir Corvium, o centro do Exército de Maven. Isso pode ser feito sem… — ele balbucia — sem um massacre de ambos os lados.
Como se ele se importasse com o que acontece com o nosso lado. Como se desse a mínima se algum de nós morresse.
— Como você planeja destruir uma cidade com mil prateados de vigia? — pergunto em voz alta, sabendo que não vou ter resposta. — Vai pedir para ficarem todos sentadinhos sem fazer nada?
— É claro que vamos combater os que resistirem — o coronel intervém. Ele encara Cal, desafiando-o a discordar. — E eles vão resistir. Disso temos certeza.
— Temos, é? — O tom de Cal é de uma arrogância calma. — Membros da própria corte tentaram matar Maven na semana passada. Se há uma divisão entre as Grandes Casas, há uma divisão nas Forças Armadas. Atacá-los diretamente só vai servir para unificar todos, pelo menos em Corvium.
Meu sarcasmo ecoa pela sala.
— Então a gente vai ficar esperando? Deixamos Maven lamber as feridas e se reorganizar? Damos tempo para ele recuperar o fôlego?
— Damos corda para ele se enforcar — Cal retruca. Ele fecha a cara como eu. — Damos tempo para Maven cometer mais erros. Agora está pisando em ovos com Piedmont, seu único aliado, e três das Grandes Casas estão abertamente em revolta. Uma delas simplesmente controla a Força Aérea, a outra tem uma vasta rede de informações. Sem falar que ele ainda tem a gente e Lakeland com que se preocupar. Maven está assustado; está se debatendo. Eu não ia querer estar no trono agora.
— É mesmo? — Farley pergunta, a voz descontraída. Mas as palavras atravessam a sala feito facas. Dá para ver que atingem Cal. A etiqueta real é suficiente para manter seu rosto impassível, mas seus olhos o denunciam. Ardem sob a luz fluorescente. — Não minta pra gente dizendo que não está nem aí para as outras notícias de Archeon. O motivo pelo qual Laris, Iral e Haven tentaram matar seu irmão.
Cal a encara.
— Eles tentaram um golpe porque Maven é um tirano que abusa do poder e mata seus semelhantes.
Bato o punho no braço da cadeira. Desta ele não vai fugir.
— Eles se revoltaram porque querem que você seja o rei! — grito. Para minha surpresa, Cal estremece. Talvez esteja esperando mais do que apenas palavras. Mas mantenho minha habilidade sob controle, por mais difícil que seja. — “Longa vida a Tiberias VII.” Foi o que os assassinos disseram para Maven. Nossos espiões em Whitefire foram bem claros.
Ele solta um longo suspiro frustrado. Parece envelhecido pela conversa. Tem a sobrancelha franzida e o maxilar tenso. Os músculos se sobressaem em seu pescoço e seus punhos são cerrados. Ele é uma máquina prestes a quebrar — ou explodir.
— Não é inesperado — Cal murmura, como se melhorasse alguma coisa. — Era óbvio que haveria uma crise de sucessão em algum momento. Mas não há nenhuma maneira viável de me colocarem de volta no trono.
Farley inclina a cabeça.
— E se conseguissem? — Em silêncio, eu a estimulo. Farley não vai deixar pra lá como Mare fazia. — Se oferecessem a coroa, seu “direito inato”, em troca de pôr um fim nisso tudo… você aceitaria?
O príncipe caído da Casa Calore se endireita para olhar no fundo dos olhos dela.
— Não.
Cal não mente tão bem quanto Mare.


— Por mais que eu odeie admitir, ele está certo em esperar.
Quase engasgo com o chá que Farley me serviu. Rapidamente, coloco a xícara lascada de volta à mesa decrépita dela.
— Você não está falando sério. Como pode confiar nele?
Farley anda de um lado para o outro, atravessando o quarto minúsculo em poucos passos largos. Uma mão massageia as costas conforme se move, aliviando mais uma de suas dores. Seu cabelo está cada dia mais longo, e ela o mantém trançado para trás. Eu ofereceria meu lugar, mas ultimamente ela não senta. Precisa continuar em movimento, para ficar mais confortável e gastar sua energia nervosa.
— É claro que não confio nele — Farley responde, chutando de leve uma das paredes com tinta descascada. A frustração é tão forte quanto suas outras emoções. — Mas tem certas coisas em que podemos confiar. Dá para saber que Cal vai agir de determinada forma quando se trata de certas pessoas.
— Você está falando de Mare.
Óbvio.
— De Mare e de Maven. O afeto por ela rivaliza em tamanho com o ódio por ele. Pode ser nosso único jeito de manter Cal por perto.
— Voto para deixar que vá embora, instigue outros prateados e vire mais uma pedra no caminho de Maven. A gente não precisa dele aqui.
Ela quase solta uma risada, um som amargurado hoje em dia.
— Sim, vou simplesmente dizer pro Comando que expulsamos nosso agente mais famoso. Vai dar muito certo.
— Ele nem está com a gente de verdade…
— Bom, Mare não está com Maven de verdade, mas as pessoas não parecem entender isso também, não é? — Mesmo Farley estando certa, fecho a cara. — Enquanto tivermos Cal, as pessoas vão notar. Por mais que nosso primeiro atentado em Archeon tenha sido um desastre, ainda assim acabamos com um príncipe prateado do nosso lado.
— Uma droga de príncipe inútil.
— Irritante, frustrante, um verdadeiro pé no saco… mas não inútil.
— Ah, não? O que ele fez por nós além de causar a morte de Nanny?
— Nanny não foi obrigada a ir a Archeon, Cameron. Ela fez uma escolha e morreu. Às vezes é assim que funciona.
Apesar de seu tom acolhedor, Farley não é muito mais velha do que eu. Tem no máximo uns vinte e dois anos. Acho que seus instintos maternais já estão se revelando.
— Cal nos faz ganhar pontos com prateados menos hostis, e Montfort tem interesse nele.
Montfort. A misteriosa República Livre. Os gêmeos, Rash e Tahir, descrevem o lugar como um refúgio de liberdade e igualdade, onde vermelhos, prateados e rubros — como chamam os sanguenovos — convivem em harmonia. Um lugar impossível.
Mas, mesmo assim, sou obrigada a acreditar no dinheiro, nos suprimentos e no apoio deles. A maioria dos nossos recursos vem deles de alguma forma.
— O que eles querem? — Mexo o chá, deixando o calor banhar meu rosto. Não é tão frio aqui quanto em Irabelle, mas o inverno ainda penetra no abrigo de Rocasta. — Um garoto-propaganda?
— Algo do tipo. Houve muitas conversas com o Comando. Não tenho acesso à maioria. Eles queriam Mare, mas…
— Ela anda meio ocupada.
A menção de Mare Barrow não afeta Farley tanto quanto a lembrança de Shade, mas uma centelha de dor cobre seu rosto mesmo assim. Ela tenta esconder, claro. Faz o possível para parecer impassível e normalmente consegue.
— Então não tem nenhuma chance de resgatarmos a garota — sussurro. Quando Farley faz que não, sinto uma pontada surpreendente de tristeza no peito. Por mais irritante que Mare possa ser, ainda a quero de volta. Precisamos dela. E, ao longo dos meses, percebi que eu preciso dela. Mare sabe como é ser diferente e estar em busca de seus semelhantes, temer e ser temida. Apesar de ser uma palerma arrogante na maior parte do tempo.
Farley para de andar de um lado para o outro para pegar outra xícara de chá. Está fumegante e enche o quarto com um aroma quente de ervas. Ela não bebe; em vez disso, vai até a janela embaçada no alto da parede, tingida pela luz do dia.
— Não sei como fazer isso com o que temos à disposição. Entrar em Corvium é fácil comparado a Archeon. Precisaria de uma ofensiva total, do tipo que não conseguimos reunir. Muito menos agora, depois de Nanny e da tentativa de assassinato. A segurança na corte vai estar no nível máximo, pior que um presídio. A menos…
— A menos?
— Cal acha que a gente deve esperar. Deixar que os prateados em Corvium se voltem uns contra os outros. Deixar Maven cometer erros antes de agirmos.
— E isso vai ajudar Mare também?
Farley concorda com a cabeça.
— A corte fraca e dividida de um rei paranoico deve tornar uma fuga mais fácil para ela. — Farley suspira, olhando para o chá intocado. — Só ela mesma pode se salvar agora.
É fácil mudar o rumo da conversa. Por mais que eu queira Mare de volta, há outra coisa de que preciso mais.
— O Gargalo fica a quantos quilômetros daqui?
— De novo isso?
— Sempre isso. — Afasto a cadeira para levantar. Sinto que preciso ficar de pé. Tenho a mesma altura de Farley, mas ela sempre parece me olhar de cima. Sou jovem, destreinada. Não conheço muito do mundo fora da minha favela. Mas isso não significa que eu vá ficar aqui seguindo ordens. — Não estou pedindo sua ajuda nem a da Guarda. Só preciso de um mapa e de uma pistola. Faço o resto sozinha.
Ela nem pestaneja.
— Cameron, seu irmão está no meio de uma legião. Não é o mesmo que arrancar um dente.
Cerro o punho ao lado do corpo.
— Você acha que vim até aqui para ficar parada vendo Cal mexer seus pauzinhos? — É um argumento velho a essa altura. Ela me corta sem dificuldade.
— Bom, eu definitivamente não acho que você tenha vindo para morrer. — Seus ombros largos se elevam um pouco, desafiantes. — Porque é exatamente isso que vai acontecer, por mais forte e letal que seja sua habilidade. E, mesmo se você levar uma dúzia de prateados junto, não vou deixar que morra por besteira. Estamos entendidas?
— Meu irmão não é besteira — resmungo. Ela tem razão, mas não vou admitir. Em vez disso, evito seu olhar e viro para a parede. Puxo a tinta descascada, arrancando pedaços com irritação. Uma coisa infantil, mas faz com que me sinta um pouco melhor. — Você não é minha capitã. Não pode me dizer o que fazer com a minha vida.
— É verdade. Sou só uma amiga tentando ressaltar um fato. — Ouço quando ela se move, os passos pesados no piso que range. Mas o toque dela é leve quando roça a mão no meu ombro. Seu movimento é robótico, sem saber direito como consolar outra pessoa. Friamente, me pergunto como ela e o caloroso e sorridente Shade Barrow conseguiam conversar, que dirá dividir a cama. — Lembro do que você falou para Mare. Quando encontramos você. No jato, você disse que a busca dela por sanguenovos, para salvar vocês, era errada. Uma continuação da divisão de sangue. Favorecer um tipo de vermelho em detrimento de outro. E você estava certa.
— Não é a mesma coisa. Só quero salvar meu irmão.
— Como você acha que o resto de nós chegou aqui? — ela zomba. — Para salvar um amigo, um irmão, um pai. Para se salvar. Todos viemos por motivos egoístas, Cameron. Mas não podemos nos deixar distrair por eles. Temos que pensar na causa. No bem maior. E você pode fazer muito mais aqui, com a gente. Não podemos perder você…
Também. Não podemos perder você também. A última palavra paira no ar, tácita. Eu a escuto mesmo assim.
— Você está errada. Não vim por escolha própria. Fui forçada. Mare Barrow me obrigou a acompanhar vocês e todo mundo levou isso na boa.
— Cameron, essa é uma carta que você já usou demais. Faz muito tempo que escolheu ficar. Que escolheu ajudar.
— E o que você escolheria agora, Farley? — Eu a encaro. Ela pode ser minha amiga, mas isso não quer dizer que eu tenha que desistir.
— Como assim?
— Você escolheria o bem maior? Ou Shade?
Quando ela não responde e seu olhar perde o foco, sei qual é a resposta. Percebo que não quero vê-la chorar e dou as costas, dirigindo-me para a porta.
— Preciso treinar — falo sozinha. Duvido que Farley esteja ouvindo.


É mais difícil treinar no abrigo de Rocasta. Não temos muito espaço, sem falar que a maioria dos agentes que conheço ficou em Irabelle. Kilorn, por exemplo. Afoito como é, falta muito para estar preparado para uma batalha de verdade, e ele não tem nenhuma habilidade em que se apoiar. Ficou para trás. Mas minha treinadora, não. Afinal, é prateada e o coronel quer ficar de olho nela.
Sara Skonos espera no porão do pavilhão blindado, num cômodo dedicado aos exercícios dos sanguenovos. Está na hora do jantar, então os outros subiram para comer com os demais. Temos o espaço para nós, embora não precisemos de muito.
Ela está sentada de pernas cruzadas, com as mãos no chão de concreto que combina com as paredes. Seu bloco de anotações também está aqui, pronto para ser usado se necessário. Os olhos dela acompanham minha entrada, o único cumprimento que vou receber. Até agora, não encontramos nenhuma outra curandeira de pele para se juntar a nós, e Sara continua muda. Apesar do tempo de convívio, a visão das bochechas descarnadas dela e da língua decepada ainda me causa arrepios. Como sempre, ela finge não notar e aponta para o espaço à sua frente.
Sento como manda e resisto ao velho impulso de lutar ou fugir.
Ela é prateada. É tudo o que fui criada para temer, odiar e obedecer. Mas não consigo desprezar Sara Skonos como desprezo Julian ou Cal. Não que eu tenha pena dela. Acho que… eu a entendo. Conheço a frustração de saber que está certa e ser ignorada ou punida por isso. Perdi as contas de quantas vezes recebi metade das rações por olhar feio para um supervisor prateado. Por falar fora de hora. Sara fez o mesmo, só que contra uma rainha. Por isso suas palavras foram arrancadas dela para sempre.
Mesmo não podendo falar, ela tem seu jeito de comunicar o que deseja. Bate no meu joelho, me obrigando a encarar seus olhos cinza e turvos. Então abaixa o rosto e coloca a mão no coração.
Sigo os movimentos, sabendo o que ela quer. Imito sua respiração constante e profunda, em sucessão uniforme. Um mecanismo relaxante que ajuda a abafar todos os pensamentos que se agitam na minha cabeça. Isso esvazia minha mente, permitindo que eu sinta o que normalmente ignoro. Minha habilidade zumbe sob a pele, constante como sempre, mas agora me permito notá-la. Não usá-la, mas reconhecer sua existência. Meu silenciamento ainda me é novo e preciso aprender a conhecê-lo como qualquer habilidade recente.
Depois de longos minutos de respiração, ela dá outra batidinha, me fazendo erguer os olhos. Dessa vez, aponta para si mesma.
— Sara, realmente não estou no clima — começo a dizer, mas ela ergue a mão num movimento cortante. Cala a boca, uma mensagem clara como o dia. — É sério. Posso te machucar.
Ela bufa no fundo da garganta, uma das únicas vocalizações que consegue fazer. É quase o som de uma risada. Então aponta para os lábios, abrindo um sorriso sombrio.
Já foi ferida de forma muito pior.
— Tudo bem, eu avisei — suspiro. Eu me mexo um pouco, ajeitando a posição.
Então franzo a testa, deixando que minha habilidade tome conta de mim, aprofundando-se, expandindo-se. Até tocar nela. E o silêncio cair.
Seus olhos se arregalam. É uma pontada no começo, ou pelo menos espero que seja. Estou só treinando. Não pretendo nocauteá-la. Penso em Mare, capaz de invocar tempestades, enquanto Cal consegue criar incêndios, mas os dois têm dificuldade em manter uma conversa simples sem explodir. O controle exige mais prática do que a força bruta.
Minha habilidade se aprofunda e ela ergue um dedo para demonstrar o nível de desconforto. Tento manter o silenciamento no mesmo nível, constante mas firme. É como conter uma maré. Não sei como é a sensação de ser silenciada. A Pedra Silenciosa não funcionou comigo no presídio de Corros, mas sufocou, drenou — e matou lentamente — todas as pessoas à minha volta. Consigo fazer o mesmo. Depois de mais ou menos um minuto, ela levanta o segundo dedo.
— Sara…?
Com a outra mão, ela gesticula para que eu continue.
Lembro da nossa sessão de ontem. No cinco, ela estava no chão. Eu sabia que podia continuar, mas incapacitar nossa única curandeira de pele não é a atitude mais inteligente nem algo que eu queira fazer.
Suas bochechas se colorem, mas a porta do porão se abre antes que ela consiga erguer outro dedo. Minha concentração e meu silêncio se quebram, trazendo um suspiro aliviado dela.
Nós duas nos viramos para ver quem nos interrompe. Enquanto ela abre um raro sorriso, fecho a cara.
— Jacos — murmuro na direção dele. — Estamos treinando, caso não tenha notado.
Um lado de sua boca se contorce, quase retribuindo meu sorriso de desprezo, mas Julian se contém. Assim como o resto de nós, está com uma cara melhor em Rocasta.
As provisões são mais fáceis de obter. Nossas roupas são de melhor qualidade, protegendo contra o frio. A comida é mais substanciosa, os cômodos têm mais aquecimento. A cor de Julian retornou, e seu cabelo grisalho parece mais brilhante. Ele é prateado. Nasceu para gozar de boa saúde.
— Ah, que tolice a minha. Pensei que estavam sentadas no concreto frio por diversão — ele responde. Claramente, as coisas continuam iguais entre nós. Sara olha feio para ele, numa reprimenda fraca, mas Julian relaxa mesmo assim. — Desculpe, Cameron — ele acrescenta rápido. — Só queria contar uma coisa para Sara.
Ela ergue uma sobrancelha, inquisitiva. Quando levanto para sair, Sara me detém e, com um aceno, pede para Julian continuar. Ele sempre obedece quando se trata dela.
— Houve um êxodo da corte. Maven expulsou dezenas de nobres, a maioria antigos conselheiros do pai e aqueles que ainda podiam nutrir lealdade a Cal. Nem acreditei no relatório da espionagem no começo. Nunca vi nada desse tipo.
Julian e Sara se encaram, ambos ponderando o que isso quer dizer. Não dou a mínima para seus velhos amigos, meia dúzia de nobres prateados.
— E Mare? — pergunto alto.
— Continua lá, prisioneira. E qualquer rachadura que podíamos esperar das Casas revoltadas… — Ele suspira, abanando a cabeça. — Maven já está em guerra e agora se prepara para uma tempestade.
Eu me remexo no chão, procurando uma posição mais confortável. Ele estava certo. O concreto frio não é agradável. Que bom que estou acostumada.
— A gente sabia que era impossível resgatar Mare. Qual é a novidade?
— Isso é bom e ruim. Mais inimigos para Maven significa mais oportunidades de agir fora do seu alcance. Mas ele está cerrando as fileiras, recuando, protegendo-se melhor. Nunca vamos chegar ao rei pessoalmente.
Ao meu lado, Sara emite um som baixo na garganta. Ela não pode dizer o que está pensando, então eu digo.
— Nem a Mare.
Julian concorda com o olhar grave.
— Como vai seu treinamento?
Ele muda de assunto rápido, e balbucio uma resposta.
— Da… da melhor maneira possível. A gente não tem muitos professores aqui.
— Porque você se recusa a treinar com meu sobrinho.
— Os outros podem treinar com ele — digo, sem me importar em esconder o sarcasmo na voz. — Mas não tenho como prometer que não vou matar o príncipe, então é melhor manter distância.
Sara solta um resmungo, mas Julian faz um sinal com a mão.
— Não tem problema. Você pode achar que não entendo seu ponto de vista, que não tenho como entender, e tem razão. Mas estou me esforçando, Cameron.
Ainda estamos sentadas no chão, e ele dá um passo hesitante na nossa direção. Não gosto nem um pouco disso e levanto com dificuldade, deixando que meus instintos defensivos tomem conta. Se for para ficar tão perto de Julian Jacos, quero estar preparada.
— Prometo que não precisa ter medo de mim — ele conclui.
— Promessas de prateados não significam nada. — Não preciso gritar. As palavras já são duras o bastante.
Para minha surpresa, Julian sorri. Mas sua expressão é oca, vazia.
— Ah, sei bem disso — ele murmura, mais para si mesmo e para Sara. — Guarde esse ódio. Sara pode discordar, mas vai ajudar você mais do que qualquer coisa, se conseguir usá-lo a seu favor.
Ainda que eu não queira conselhos de um homem como ele, não consigo deixar de gravar isso. Julian treinou Mare. Eu seria idiota se negasse que pode ajudar minha habilidade a crescer. E ódio é algo que tenho de sobra.
— Mais alguma notícia? — pergunto. — Farley e o coronel parecem paralisados. Será trabalho do seu sobrinho?
— Sim, acho que é.
— Esquisito. Pensei que ele estivesse sempre pronto para a briga.
Julian abre aquele sorriso estranho de novo.
— Cal foi criado para a guerra assim como você foi criada para as máquinas. Mas você não quer voltar para a fábrica, quer?
Uma resposta, qualquer resposta, fica presa na minha garganta. Eu era escrava; fui forçada; era tudo o que eu conhecia.
— Não dê uma de espertinho comigo, Julian — é o que sai entredentes.
Ele só dá de ombros.
— Estou tentando entender seu ponto de vista. Se esforce um pouco para entender o dele.
Em qualquer outro dia, sairia da sala a passos furiosos, defensivos. Encontraria refúgio num fusível queimado, num fio desencapado. Em vez disso, volto a sentar, assumindo meu lugar junto a Sara. Julian Jacos não vai me ver fugindo feito uma criança que levou bronca. Já enfrentei supervisores muito piores que ele.
— Vi bebês morrerem sem conhecer o sol. Sem respirar ar fresco. Escravos dos prateados. Você viu? Quando vir, daí pode me dar uma lição de moral sobre pontos de vista, Lord Jacos. — Dou as costas para ele. — Avise quando o príncipe finalmente escolher um lado. E se escolheu o certo. — Faço um sinal para Sara. — Pronta para começar de novo?

42 comentários:

  1. Essa garota já ta me dando raiva

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    1. Ela é muito chata poderia ter narrativa do Maven e do cal, e não dela

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  2. Cameron é muito chata.....pqp 👌👌

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  3. Eu tenho pena do Cal por um lado já que ele foi traído, mas por outro lado... Cal não é bonzinho, não é um anjo e creio que se ele fosse rei as coisas não seriam um mar de rosas. Eu gosto dele, mas ele não é menos pior que Maven

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    1. Ninguém é perfeito né.
      Agora ccompara o Cal e o Marven e dizer que ele não é menos ppior wque o mMarven - essa palavra existe? - é apelação.

      Eu não creio que o Cal mataria o ppróprio pai

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    2. Não estou pedindo sua ajuda nem a da Guarda. Só preciso de um mapa e de uma pistola. Faço o resto sozinha.

      A Mare que eé arrogante ?
      Essa menina se acha demais.
      Acho que só não parei o livro por causa da narrativa da Mare.


      Pois esses pedaços da Cameron dá raiva

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    3. Acho que a Cameron sempre inveja da Mare .




      Ela não faz nada sem falar da Mare

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    4. — Estou tentando entender seu ponto de vista. Se esforce um pouco para entender o dele.

      Boa Julian

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    5. ela e igual a mere no começo...com o irmao em perigo,coração dividido,raiva ,dor magoas ...

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  4. A Cameron é insuportável.

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  5. Alguém da um tiro nessa garota no próximo capítulo!?
    Obrigada de nada.

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  6. Essa Cameron é um saco! Me contorço toda só de ver q a narrativa é dela. Também queria o ponto de vista do Cal, do Maven ou ate mesmo da Evangeline. Mas por que logo a Cameron

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  7. Aff, a Cameron tá precisando de um choque de realidade. Ela fala do Cal, mas também não tem um lado.

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  8. A Cameron diz que a Mare eh arrogante e egoista mais ela tbm eh... so enxerga os proprios objetivos e nd mais

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  9. Vai tomar no 👌 Cameron!!

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  10. A Cameron tem é inveja da Mare ela quer ficar com o Cal por isso a odeia tanto.Enquanto a Mare está no palácio sobre torturasua de Maven ela tá querendo conquistar Cal

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  11. Essa garota me da nos nervos, ele é muito invejosa isso sim!
    Fala que Mare é arrogante e ela já se olhou no espelho pra falar alguma coisa, por favor né!

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  12. A Cameron fica lembrando do Shade. Eu quase choro quando lembro dele. Se essa menina não for MUITO útil eu vou ficar chateada.

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  13. Meu estoque de paciência com essa menina já ta acabando.

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  14. Olha tá dificil,quando ė capitulo da Mare tenho que lidar com ela fazendo draminha de "Ainda tem um pouco do garoto que amei nele",sério toda vez que ela fala isso eu tenho vontade de entrar no livro e socar a cara dela;
    Ai tem os capitulos da Cameron,que ė hipócrita pra caramba,tipo,fala que o Cal não tem um lado quando ela mesma fica assim "eu estou com a guarda//não sou nada daqui,só preciso de ajuda pra resgatar meu irmão"
    E alem disso não tem nenhum capitulo do Cal,sério eu estava muito ansiosa por isso e nem pra ter unzinho😢

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    1. Tou com você, Duda! Tenho vontade de fazer a mesma coisa com a Mare. E a Cameron tá muito o incomoda com o Cal, sei não... Aí tem coisa kkk

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  15. Essa Cameron é muito cabulosa

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  16. nada a ver cameron narrar deveria auternar entre mare para ver o seu ponto de vista entre maven para ver o que se passa na sua mente e o por que dele fazer tudo isso e de cal para ver a incansavel busca por mare

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  17. ela pode ter um poder mais cabuloso e matar o mavem assim vou gostar dela

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  18. "— Você escolheria o bem maior? Ou Shade?"
    Além de arrogante, hipócrita e chata, é MUITO insensível.
    Meu Deus, se coloca no lugar da Mare ou da Farley e pense antes de dizer as coisas. Mas fazer o que, ela tinha que justificar algo né. mesmo assim, acho que ela é muito fechada e mal-humorada. ~polly~

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  19. Queria a narrativa do Cal e não da Cameron! Aff! Acho que essa garota tem uma quedinha pelo Cal, ela sempre foca muito nele. Já estou ficando irritada com as narrativas dela.

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  20. Tô achando seriamente que a Cameron vai se apaixonar pelo Cal, pq não é possível, muita implicância dela com ele. Ela vai ficar apaixonadinhaaa.
    Aaah e os caps narrados por ela são um saco !
    Ass: Déborah Alana.

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  21. Pqp que menina chata! Tá difícil continuar lendo ela reclamando o tempo todo e se revoltado para si mesmo, porque não fala os pensamentos para ninguém, e Ainda Mare tendo sentimentos por aquele nojento do Marvin. Espero que quando soltarem ela o livro fique mais interessante !!

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  22. Quando chega na parte dela, leio bem rápido pra ir pro próximo, porque não aguento, mds 👌😒

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  23. Primeiro reclamam só tinha narrativa da Mare, agora que tem a narrativa da Cameron e da Evangeline reclamam. Quer um personagem perfeito? Leia um conto de fadas infantil.

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    1. Concordo com vc, esse livro e realista apesar de eu n gostar da Mare quando fica lá babando pelo Marven, Cameron so quer ajudar a única coisa que tem na vida o irmão ela so quis dar exemplo para Farley e falou aquilo porque sabe que Shade era importante

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  24. Nao sei nao cameron tem algo que me cativa

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  25. Cameron uma das melhores personagens pra mim <3

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    1. Não gostava muito dela não, a parti dessa capitulo não sei por que passei a gostar mais haha

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  26. Gosto da Cameron. Ela parece bastante com a Mare (em alguns aspectos). Acho ela uma garota forte,e sem papás na língua. Mas para ser franca. Preferia a Narrativa com a Farley. Seria bem interessante ver o ponto de vista dela sobre as coisas, mesmo que ela desmostre sempre. Hahaahaha Enfim, EU não acho que a Autora colocou a Cameron narrando do nada ou pra nada. Tem sempre um porquê, basta vcs procurarem.

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  27. Cansei dessa guria comparando todo mundo com Mare e principalmente comparando si própria com ela. Ela ainda tem a cara de pau de dizer que sente falta da Mare! Depois de dizer e pensar um monte de merde dela. Deusa do céu! O pior é que ela não quê ver de jeito nenhum o ponto de vista dos prateados, por que uma coisa eu sei, poder e dinheiro não afastam sofrimento e dor, só porque você é rico e poderoso não significa que você vai ter uma vida feliz sem sofrer, sem ser manipulado, sem ser escravizado por alguém, sem ter as mesmas dores que o resto do mundo tem. Um prateado pode ser tão vitima quanto um vermelho.

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  28. O garota pertubada... nem ela sabe de que lado quer estar, só dos vermelhos, só dos sangue novos e contra os prateados??

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  29. Eu de começo não curtir Cameron, mas agora estou me adaptando a ela... É como se fosse Mare antes de descobrir o poder que tinha. G

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  30. ela não implica só com o cal é com todos os pratiados, ela e muito desconfiada pq ela estava em uma prisão prateada. já que vocês não gostam da narrativa da cameron então porque leem é só pular pra narrativa da mare. que saco.
    ASS:rosany

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Boa leitura :)