13 de março de 2017

Capítulo onze

DE ACORDO COM O MAPA, Coraunt fica seis quilômetros ao norte, situada na intersecção do rio Regente com a extensa estrada do Porto. Aparentemente não passa de um entreposto comercial, um dos últimos vilarejos antes de a estrada do Porto adentrar o interior do país, contornando os pântanos intransponíveis rumo à fronteira norte. Dentre as quatro grandes vias de Norta, a estrada do Porto é a mais movimentada, pois liga Delphie, Archeon e Harbor Bay. Isso a torna a mais perigosa, mesmo que estejamos tão ao norte. Um número desconhecido de prateados — militares ou não — pode estar viajando. E ainda que não estejam ativamente à nossa procura, não há nenhum prateado no reino que não reconheça Cal. A maioria tentaria prendê-lo; alguns com certeza tentariam matá-lo na hora.
E conseguiriam, digo a mim mesma. Essa verdade deveria me assustar, mas, pelo contrário, me sinto revigorada. Maven, Elara, Evangeline e Ptolemus Samos: apesar do poder e da influência, são todos vulneráveis.
Podem ser derrotados. Só precisamos das armas certas.
Pensar nisso me faz ignorar a dor dos últimos dias com mais facilidade. Meu ombro não dói tanto, e o silêncio da floresta me faz perceber que o zumbido na minha cabeça está diminuindo. Mais uns dias e não vou lembrar mais do grito do banshee. Até mesmo a minha mão, inchada por acertar a cara de Kilorn hoje, quase não dói.
Shade salta entre as árvores; seu contorno vem e vai, como a luz das estrelas atrás das nuvens. Ele se mantém próximo, sem nunca sair do nosso campo de visão. De vez em quando, sussurra indicando uma curva na trilha ou uma vala, quase sempre para ajudar Cal. Enquanto Kilorn, Shade e eu fomos criados no meio de bosques, ele cresceu em palácios e acampamentos militares.
Nenhum desses lugares o preparou para cruzar uma floresta à noite — prova disso são os barulhos de galhos se quebrando e os tropeções ocasionais. Cal está acostumado a abrir caminho com fogo, a avançar sobre os obstáculos com base apenas na força.
Kilorn abre um sorriso reluzente a cada tropeço do príncipe.
— Cuidado aí — ele diz, puxando Cal para longe de uma rocha escondida nas sombras. Cal afasta a mão do pescador com facilidade, mas é só o que faz, ainda bem.
Até chegarmos no riacho.
Os galhos das árvores formam arcos sobre as margens, e as folhas roçam umas nas outras por cima da água. A luz das estrelas cintila, iluminando o riacho que serpenteia pela floresta para se unir ao Regente. É estreito e não dá para adivinhar a profundidade. Pelo menos a corrente parece suave.
É provável que Kilorn se sinta mais confortável na água do que na terra. Ele pula, ágil, na parte rasa. Joga uma única pedra no meio do riacho e fica à escuta do ploft.
— Dois metros, talvez um pouco mais — diz, depois de um momento. É o suficiente para cobrir minha cabeça. — Quer que a gente construa uma balsa para você? — ele acrescenta com um sorriso malicioso para mim.
Nadei no Capital — um rio de verdade, três vezes mais fundo e dez vezes mais largo — pela primeira vez aos catorze anos. Para mim, mergulhar no meio do riacho e afundar a cabeça na água escura e fria não é nada. A proximidade do mar traz um vago gosto de sal.
Kilorn faz o mesmo, sem hesitar; suas braçadas bem treinadas o levam para a outra margem em segundos. Fico surpresa por ele não se exibir um pouco mais, dando piruetas ou prendendo a respiração por vários minutos. Quando chego do outro lado, percebo o motivo.
Shade e Farley estão na margem oposta com os olhos na água adiante. Se contorcem na tentativa de conter as risadas enquanto observam o príncipe na parte rasa.
O riacho está na altura dos tornozelos de Cal, passando gentilmente, como uma carícia materna. Mas ele logo cruza os braços, tentando esconder as mãos trêmulas.
— Cal? — chamo em voz alta, com cuidado para não gritar. — Tudo bem?
Já encostado num tronco de árvore, Kilorn torce o nariz na escuridão. Baixa o zíper do casaco e dá um jeito no tecido ensopado com prática e eficiência.
— Vamos lá, Calore! Você sabe pilotar um jato mas não sabe nadar? — o pescador diz.
— Eu sei nadar — Cal replica, irritado. Ele se obriga a dar mais um passo no riacho, que agora bate nos joelhos. — Só não gosto.
Claro que não gosta. Cal é um ardente, controlador de chamas, e nada o enfraquece mais do que a água. Ela o deixa indefeso, impotente... tudo o que lhe ensinaram a odiar, temer e combater. Lembro como ele quase morreu na arena. Encurralado por Lord Osanos, cercado por um globo flutuante de água que nem mesmo ele conseguia evaporar. Deve ter se sentido num caixão, num túmulo líquido. Pergunto a mim mesma se ele também pensa nisso, se a lembrança faz o riacho tranquilo parecer mais com um oceano revolto e infinito.
Meu primeiro instinto é nadar de volta e o ajudar na travessia. Só que isso causaria uma crise de riso tão grande em Kilorn que nem Cal seria capaz de suportar, e uma briga no meio da floresta é a última coisa de que precisamos.
— Inspire pelo nariz, Cal — digo.
Quando ele levanta a cabeça e nossos olhares se cruzam sobre o riacho, aceno minimamente a cabeça para lhe dar apoio. Expire pela boca. Só estou devolvendo o conselho que ele mesmo me deu. Ele fica mais calmo.
Ele dá mais um passo à frente, então outro e mais outro, o peito arfando a cada respiração profunda. Então ele está nadando, batendo pernas e braços pelo riacho como um cão gigante. Kilorn chacoalha numa gargalhada silenciosa, tapando a boca. Atiro umas pedras na direção dele, o que faz ele se calar por tempo suficiente para que Cal chegue à parte rasa e saia rápido da água. Um pouco de vapor se desprende de sua pele, causado pelo calor da vergonha.
— Fr... fria — balbucia, sacudindo a cabeça para não ter que nos encarar. Seu cabelo preto está grudado em sua bochecha prateada. Sem pensar, ajeito as mechas com a mão para lhe dar um penteado mais digno. Ele me olha, dando a entender que minha ação foi uma surpresa agradável.
Então é a minha vez de corar. Combinamos que não haveria distrações.
— Não me digam que vocês também têm medo de água? — Kilorn grita da margem num tom grosseiro.
Farley responde com uma risada e agarra o pulso do meu irmão. Uma fração de segundo depois, os dois aparecem de pé ao nosso lado, secos e sorridentes.
Eles saltaram. Claro.
Shade limpa a garganta e torce minha trança molhada.
— Idiotas — ele diz, com um ar educado.
Se não fosse pela muleta, simplesmente o jogaria no riacho.


Meu cabelo já está quase seco quando chegamos à elevação antes de Coraunt. As nuvens se fecham, cobrindo a lua e as estrelas, mas as luzes do vilarejo são suficientes.
Daquele ponto privilegiado, Coraunt parece Palafitas, construída na boca do rio Regente, no meio de uma encruzilhada. Uma das estradas — que se eleva sutilmente sobre o pântano com seu asfalto impecável — é obviamente a estrada do Porto. A outra cruza de leste a oeste e vira uma pista de terra batida logo depois do vilarejo. Uma torre de vigia aponta para o céu; o facho de luz do topo gira para todos os lados. Sinto arrepios quando passa sobre nós.
— Acha que ele está lá? — Kilorn murmura, se referindo a Nix. Ele observa a quantidade de casas lá embaixo, amontoadas sob a sombra da torre de vigia.
— Nix Marsten. Vivo. Sexo masculino. Nascido em 20 de dezembro de 271 em Coraunt, Costa do Mangue, Estado do Regente, Norta. Residência atual: mesma do nascimento — repito as informações que já decorei, visualizando as palavras na cabeça. — Isso é tudo o que a lista dizia.
Deixo de mencionar a última parte, a que queima como um sinete. “Tipo sanguíneo: não se aplica. Mutação genética, matriz desconhecida.” As palavras seguem cada nome da lista, inclusive o meu. É o marcador que Julian disse ter usado para encontrar essas pessoas, comparando meu sangue com o delas. Agora cabe a mim usar essa informação — torcendo para não ser tarde demais.
Forço a vista na escuridão, tentando enxergar noite adentro. Felizmente, o Regente parece um rio calmo, escuro e silencioso, e as estradas estão vazias. Até o mar parece imóvel como vidro. O toque de recolher está em pleno vigor, conforme ordenado pelas malditas Medidas.
— Não vejo nenhuma embarcação da Marinha. E nenhum tráfego na estrada do Porto — comento.
Cal assente, e meu coração dilata. Com certeza os caçadores de Maven não viajariam sem uma escolta de soldados, o que os tornaria fácil de localizar. Isso deixa duas possibilidades: ainda não chegaram até Nix ou já foram embora faz tempo.
— Não vai ser difícil, mesmo com o toque de recolher — Farley diz. Os olhos dela brilham sobre o vilarejo, examinando cada teto e esquina. Tenho a impressão de que já fez isso antes. — Cidade preguiçosa, polícia preguiçosa. Aposto dez tetrarcas que nem se dão ao trabalho de proteger os registros da cidade.
— Aposta aceita — Shade responde, dando-lhe um cutucão no ombro.
— Nos encontramos lá — Cal diz, apontando para um bosque a quase um quilômetro de distância. É difícil de enxergar no escuro, cercado pelo pântano e pelo mato alto.
É o esconderijo perfeito, mas balanço a cabeça.
— Não vamos nos separar.
— Você prefere entrar no vilarejo em grupo, com nós dois liderando o ataque? Que tal eu simplesmente explodir o posto de segurança enquanto você frita qualquer agente que cruzar nosso caminho? — Cal replica. Faz o máximo para manter a calma, mas soa cada vez mais como um professor impaciente. Igual ao seu tio Julian.
— Claro que não...
— Nenhum de nós dois pode sequer botar os pés naquele vilarejo, Mare. A não ser que você pretenda matar todas as pessoas que virem nossos rostos. Todas as pessoas.
Os olhos dele penetram os meus, querendo que eu compreenda. Todas as pessoas, não apenas agentes de segurança, soldados, ou mesmo civis prateados. Todos.
Qualquer cochicho a nosso respeito, qualquer rumor, e Maven virá correndo. Com sentinelas, soldados, legiões, tudo e todos sob seu poder. Nossa única defesa é ficarmos escondidos e estarmos um passo à frente. E não podemos fazer nenhuma das duas coisas se deixarmos rastros.
— Tudo bem — concordo, com um tom de voz tão frágil quanto me sinto. — Mas Kilorn fica com a gente.
O olhar de Kilorn oscila entre mim e Cal.
— Vai ser bem mais rápido se você parar de bancar minha babá, Mare.
Babá. Acho que estou sendo isso mesmo, embora agora ele seja capaz de pensar, lutar e cuidar de si mesmo. Se ao menos ele não fosse tão tolo, tão obstinado em recusar minha proteção...
— Maven sabe o seu nome — digo a ele. — Seríamos burros de pensar que a foto da sua identificação não foi enviada a todos os oficiais e postos de segurança do país.
Ele fecha a cara.
— E Farley?
— Sou de Lakeland, garoto — Farley responde no meu lugar. Pelo menos estamos juntas nessa.
— Garoto? — Kilorn diz, irritado. — Você tem quase a minha idade!
— Ela é quatro anos mais velha, para sermos precisos — Shade intervém.
Farley apenas encara os dois, entediada.
— Seu rei não tem controle sobre os meus registros, e não sabe meu nome verdadeiro.
— E só vou porque todos me consideram morto — Shade fala, apoiado na muleta. Ele apoia a mão no ombro de Kilorn para acalmá-lo, mas é repelido.
— Ótimo — o pescador resmunga baixo. Sem nem olhar para trás, ele parte em direção ao bosque, rápido e silencioso como um camundongo.
Cal fixa os olhos nele, e o canto da sua boca se contorce de desgosto.
— Alguma chance de largarmos ele por aí?
— Não seja cruel, Cal — respondo, afiada, indo atrás de Kilorn. Faço questão de esbarrar no príncipe ao passar, trombando com meu ombro bom. Não para machucar, mas para comunicar: “Deixe-o em paz”.
Cal me segue de perto, baixando a voz a um cochicho. Os dedos quentes roçam meu braço para me tranquilizar.
— Era brincadeira.
Mas sei que não é verdade. Não é nem um pouco verdade. E o pior de tudo é que me pergunto se ele não tem razão. Kilorn não é soldado, sábio ou cientista. É capaz de tecer uma rede mais rápido do que qualquer um que conheço, mas para que serve isso quando estamos caçando pessoas, não peixes? Não sei que tipo de treinamento ele recebeu na Guarda, mas deve ter durado pouco mais de um mês. Ele sobreviveu ao Palacete do Sol graças a mim, e passou pelo massacre na Praça de César graças à sorte. Sem nenhuma habilidade, com pouco treinamento e ainda menos noção, como pode fazer alguma coisa além de nos atrasar?
Eu o salvei do recrutamento, mas não para isso, não para outra guerra. Parte de mim quer mandá-lo para casa, de volta a Palafitas, para o nosso rio, para a vida que ele conhecia. Ele viveria pobre, desprezado, indesejado, mas viveria. Esse futuro, oculto entre a floresta e o rio, não é mais possível para mim. Mas pode ser possível para ele. É o que desejo para ele.
É loucura deixar Kilorn aqui? Mas como posso abandoná-lo?
Não tenho resposta para nenhuma das perguntas, então afasto os pensamentos.
Eles podem esperar.
Quando olho para trás para me despedir de Shade e Farley, percebo que já foram embora. Um calafrio percorre minhas costas quando imagino uma tocaia em Coraunt. Tiros de metralhadora ecoam na minha cabeça, ainda bem presentes na memória. Não. Com o poder de Shade e a experiência de Farley, nada vai detê-los esta noite. E sem mim, sem a garota elétrica, ninguém vai precisar morrer.
Kilorn é uma sombra entre o mato alto, esquivando-se dos tufos verdes com mãos hábeis. Mal deixa rastros.
Não que isso importe. Com Cal me seguindo a passos largos e esmagando tudo com seu físico corpulento, não adianta nada mascarar a nossa presença. Se tudo der certo, vamos embora bem antes do amanhecer com a companhia de Nix. Se tivermos sorte, ninguém vai dar pela falta de um vermelho, o que nos permitirá ficar à frente de Maven quando ele descobrir o que estamos fazendo.
E o que é que estamos fazendo mesmo? A voz na minha cabeça soa estranha, uma mistura de Julian, Kilorn, Cal e um pouco de Gisa. Ela espeta a minha consciência, cutucando algo que temo demais para admitir. A lista é só o primeiro passo. Localizar os sanguenovos. Depois, o que faremos com eles? O que eu faço?
A frustração me faz andar mais rápido até ultrapassar Kilorn. Mal noto quando ele diminui o ritmo para me deixar passar, ciente de que quero ficar sozinha na frente. O bosque se aproxima a cada segundo, envolto em trevas. Queria mesmo estar sozinha. Não tive um instante de sossego desde que acordei no mersivo. Mas até isso foi fugaz, e o meu silêncio se desfez por causa de Kilorn. Fiquei feliz de vê-lo naquele momento, mas agora gostaria que aquele tempo tivesse sido só meu para poder ensaiar, planejar, lamentar. Para me dar conta do que a minha vida se tornou.
— Vamos dar uma escolha a ele — digo em voz alta, sabendo que nem Cal nem Kilorn se permitiriam ficar tão longe a ponto de não poderem ouvir. — Ele vem conosco ou fica aqui.
Cal encosta numa árvore próxima e relaxa o corpo, mas seus olhos continuam fixos no horizonte. Nada lhe escapa.
— E vamos contar a ele as consequências dessa escolha?
— Se você quiser matar o cara, vai ter que passar por cima de mim — respondo.
— Não vou acabar com a vida de um sanguenovo por ele se recusar a se juntar a nós. Além disso, se ele quiser contar a um policial que estive aqui, terá que explicar o motivo, e isso equivale a uma sentença de morte para o sr. Marsten.
O príncipe entorta a boca; luta contra o ímpeto de grunhir. Mas discutir comigo não vai levar a lugar nenhum, não agora. É óbvio que não está acostumado a seguir ordens.
— Contamos a ele sobre Maven? — ele diz afinal. — Contamos que ele vai morrer se ficar? Que outros vão morrer se Maven localizar você?
Baixo a cabeça em confirmação.
— Contamos tudo o que pudermos e o deixamos decidir quem e o que ele quer ser. Quanto a Maven... — Procuro a coisa certa a dizer, mas as palavras ficam mais escassas enquanto o tempo passa. — Vamos nos manter à frente dele. Acho que isso é tudo o que podemos fazer.
— Por quê? — Kilorn intervém. — Por que dar uma escolha a ele? Você mesma disse que precisamos de todos que conseguirmos. Se esse tal de Nix for metade do que você é, não podemos nos dar ao luxo de deixá-lo ficar.
A resposta é tão simples que toma conta de mim.
— Porque ninguém nunca me deu uma escolha.
Digo a mim mesma que trilharia esse caminho mesmo se soubesse das consequências — salvar Kilorn do recrutamento, descobrir meu poder, me juntar à Guarda, destruir vidas, lutar, matar. Me tornar a garota elétrica.
Mas não sei se é verdade. Sinceramente não sei.


Talvez uma hora tenha se passado com um silêncio tenso e pesado. Para mim é ótimo, já que me dá tempo para pensar, e Cal também se deleita com a tranquilidade. Depois dos últimos dias, ele está tão ávido por descanso quanto eu. Nem mesmo Kilorn ousa fazer piadas. Em vez disso, senta sobre uma raiz retorcida e tece uma rede quebradiça e inútil com feixes de mato. Um sorriso discreto aparece em seu rosto; está entretido com seus velhos e conhecidos nós.
Penso em Nix, que provavelmente será arrancado da calma, talvez amordaçado, com certeza apanhado na rede que eu mesma teci. Será que Farley ameaçaria a vida dele, dos filhos dele, para forçá-lo a vir? Ou será que Shade simplesmente o agarraria pelo punho e saltaria, sugando os dois no enjoo do teletransporte até aterrissarem no bosque? Nascido em 20 de dezembro de 271. Nix tem quase quarenta e nove anos, a idade do meu pai. Será que é como ele, ferido e acabado? Ou está inteiro, à espera de o destruirmos?
Antes de eu cair em uma espiral de perguntas sombrias e malditas, o mato se agita.
Alguém está se aproximando.
O som deixa Cal alerta, levantando da árvore com todos os músculos do corpo tensos, pronto para enfrentar o que sair do mato. Eu meio que espero ver fogo na ponta dos dedos dele, mas, depois de anos de treinamento militar, Cal sabe como agir. No escuro, suas chamas seriam como um farol e alertariam todos os policiais da nossa presença. Para a minha surpresa, Kilorn parece tão vigilante quanto o príncipe. Larga a rede de mato e a esmaga com o pé assim que levanta. Chega até a puxar uma faca da bota, uma laminazinha larga e afiada que antes usava para limpar peixes. A cena me deixa à flor da pele. Não sei quando a faca se tornou uma arma ou quando ele começou a carregá-la no sapato. Provavelmente na época que as pessoas começaram a atirar nele.
Não estou desarmada. O latejar leve no meu sangue é tudo o que preciso; penetra mais que qualquer lâmina, é mais brutal que qualquer bala. As faíscas se acumulam sob a minha pele, prontas. Meu poder tem uma sutileza que o de Cal não tem.
O assobio de um pássaro corta a noite, espalhando-se pelo mato. Kilorn responde da mesma forma, soprando uma melodia grave. Soa como as aves que fazem ninho nas palafitas do nosso vilarejo.
— Farley — ele sussurra, apontando para o mato.
Ela é a primeira a emergir das sombras, mas não a última. Duas figuras a seguem: uma é meu irmão, apoiado na muleta, e a outra é um homem atarracado, musculoso e com uma barriga redonda adquirida com a idade. Nix.
A mão de Cal se fecha ao redor do meu braço, exercendo uma leve pressão. Ele me puxa com cuidado, me fazendo recuar para as sombras mais profundas do bosque.
Acompanho sem hesitar, sabendo que todo cuidado é pouco. No fundo, desejo um pedaço de tecido vermelho para cobrir meu rosto como fizemos em Naercey.
— Tiveram algum problema? — Kilorn pergunta, dando um passo na direção de Farley e Shade. Sua voz soa mais madura, mais controlada que de costume. Mantém os olhos em Nix, acompanhando cada gesto dos dedos redondos e curtos do sanguenovo.
Farley dá de ombros, como se a pergunta fosse um incômodo.
— Foi simples. Mesmo com este aqui mancando — acrescenta, apontando para Shade, voltando-se para Nix em seguida. — Ele não quis brigar.
Apesar da escuridão, vejo as bochechas de Nix corarem.
— Bom, não sou burro, sou? — ele fala, de maneira grossa e direta. Um homem que não quer saber de segredos. Apesar de o seu sangue esconder o maior segredo de todos. — Vocês são da tal Guarda Escarlate. Os policiais me pendurariam pelo pescoço por eu receber vocês em casa. Mesmo que eu não tenha convidado.
— Bom saber — Shade murmura baixo. O brilho nos seus olhos diminui um pouco quando ele me lança um olhar cortante. Só a nossa presença já é suficiente para condenar este homem. — Agora, sr. Marsten...
— Nix — ele diz. Algo reluz em seus olhos, que seguem os de Shade. Ele me descobre nas sombras e força a vista na tentativa de ver meu rosto. — Acho que vocês já sabiam disso.
Kilorn dá um pequeno passo para o lado a fim de me encobrir. O movimento parece inocente, mas Nix franze a testa quando entende o seu real significado. Ele se arrepia, ficando frente a frente com Kilorn. O pescador se destaca com a sua altura, mas Nix não demonstra nem um pouco de medo. Ergue um dedo avermelhado e aponta para o peito de Kilorn.
— Vocês me trouxeram até aqui depois do toque de recolher. Um crime. Agora me digam o motivo ou volto para casa e tento não morrer no caminho.
— Você é diferente, Nix. — Minha voz soa aguda demais, jovem demais. Como explicar? Como dizer a ele algo que gostaria que alguém tivesse me contado? Algo que nem eu mesma entendo direito? — Você sabe que tem alguma coisa estranha em você, uma coisa que você não é capaz de explicar. Pode até achar que tem algo... errado.
Minhas últimas palavras acertam o alvo como uma flecha. O homenzinho rude se agita. O ódio se derrete.
Ele sabe exatamente do que estou falando.
— Sim — diz.
Não me movo, mas faço um gesto pedindo para Kilorn sair da frente. Ele obedece e deixa Nix passar. Ao se aproximar e se juntar a mim nas sombras, meu coração acelera, latejando nos ouvidos como um tambor nervoso e sôfrego. O homem é um sanguenovo, como eu, como Shade. Mais um que compreende.
Nix Marsten não se parece em nada com meu pai, mas ambos têm os mesmos olhos. Não a mesma cor, não o mesmo formato, mas, ainda assim, são iguais. Os dois têm aquele olhar vazio, da perda que o tempo não pode curar. Para o meu horror, a dor de Nix vai ainda mais fundo que a do meu pai, um homem que mal consegue respirar, quanto mais andar. Enxergo isso nos seus ombros caídos, no seu cabelo grisalho malcuidado e nas roupas velhas. Se eu ainda fosse ladra, não me daria ao trabalho de roubar esse homem. Ele não tem mais nada.
Ele também me encara, correndo os olhos pelo meu rosto e meu corpo. Eles se alargam ao perceberem quem sou.
— A garota elétrica.
Mas, quando reconhece Cal ao meu lado, seu choque logo dá lugar à fúria. Para um homem de quase cinquenta anos, Nix é surpreendentemente rápido. Nas sombras, mal vejo quando ele baixa o ombro e investe contra Cal, acertando-o na cintura. Embora tenha metade do tamanho do príncipe, ele o derruba feito um touro, prensando-o contra o tronco robusto de uma árvore, que estala alto com o golpe, sacudindo desde a raiz até os galhos. Meio segundo depois, percebo que é melhor intervir. Cal é Cal, mas não fazemos ideia de quem é Nix ou do que ele é capaz.
Antes de eu conseguir enroscar os braços no pescoço de Nix, o homem encaixa um murro tão potente no queixo de Cal que receio que o tenha quebrado.
— Não me obrigue a fazer isso, Nix — trovejo no ouvido dele. — Não me obrigue.
— Faça o seu pior — Nix rebate enquanto tenta se desvencilhar de mim. Mas seguro firme e aperto seu pescoço. A carne é dura como pedra. Muito bem. Aplico energia suficiente para fazer Nix ceder. Os cabelos dele se arrepiam com o impulso. Minhas faíscas violetas saltam para a pele dele, e fico à espera de que caia para trás, talvez trema um pouco e depois recobre os sentidos. Mas ele parece não sentir nada da minha eletricidade. Só o incomoda um pouco, como uma mosca incomoda um cavalo. Outro choque, mais forte.
E, de novo, nada. Ele se aproveita da minha surpresa para me jogar para trás, e bato forte com as costas numa árvore.
Cal se sai melhor, desviando e se defendendo do máximo de socos que consegue. Mas ele geme de dor cada vez que a mão de Nix o toca, mesmo quando os golpes só o acertam de raspão. Por fim, a pulseira faísca e acende uma bola de fogo em suas mãos. As chamas quebram contra o ombro do sanguenovo como água na pedra. Queimam as roupas, mas deixam a carne intacta.
Pétreo, é a palavra que ecoa na minha mente. Só que esse homem não é isso. A pele dele ainda está corada e macia, e não cinza e dura. Ele é simplesmente impenetrável.
— Parem com isso! — grito no volume mínimo necessário para ser ouvida. Mas a briga, ou melhor, o massacre, continua. Sangue prateado jorra da boca de Cal, manchando os punhos de Nix, negros sob as sombras.
Kilorn e Farley correm à minha frente em passadas duras e sincronizadas. Não sei qual a utilidade deles contra esse rolo compressor humano, e ergo a mão para detê-los.
Shade, porém, chega a Nix antes dos dois, saltando atrás dele. Agarra o homem pelo pescoço, como eu fiz, e eles logo somem. Aparecem a três metros de distância uma fração de segundo depois, e Nix cai no chão com o rosto vagamente verde. Tenta levantar, mas Shade põe a muleta contra o pescoço dele e o imobiliza.
— Se você se mexer, faço de novo — diz, com olhos vivos e ameaçadores.
Nix ergue a mão manchada de prata em rendição. A outra está na barriga, ainda dando voltas por causa da surpresa e da sensação de ser arrastado pelo nada.
Conheço isso bem demais.
— Chega — resfolega. Uma fina camada de suor brilha na testa dele, denunciando a exaustão que começa a bater. Impenetrável, mas não invencível.
Kilorn volta a se estirar sobre a raiz de árvore e junta o que sobrou da sua rede. Sorri consigo mesmo, quase rindo ao ver Cal surrado e sangrando.
— Gostei desse cara — diz. — Gostei muito.
Faço um esforço para levantar, ignorando as velhas dores que eclodem nos meus ossos.
— O príncipe está com a gente, Nix. Está aqui para ajudar, assim como eu.
Ele não se convence. Ajoelha-se na terra e mostra os dentes amarelos. A respiração soa entrecortada e visceral.
— Ajudar? — ele provoca. — Esse prateado maldito ajudou minhas filhas a encontrar a cova mais cedo.
Cal faz o máximo para parecer educado, apesar do sangue escorrendo de seu queixo.
— Senh...
— Dara Marsten. Jenny Marsten — Nix vocifera em resposta. Seu olhar ulminante me atravessa como uma faca. — Legião Martelo. Batalha das Cataratas. Tinham dezenove anos.
Morreram na guerra. Uma tragédia, se não um crime.
Mas que culpa Cal tem?
A julgar pela expressão de pura vergonha no rosto, Cal concorda com Nix. Ao falar, sua voz sai grossa e engasgada de emoção.
— Nós vencemos — ele balbucia, incapaz de encarar Nix nos olhos. — Nós vencemos.
Nix cerra um dos punhos, mas resiste à vontade de atacar.
— Vocês venceram. Elas morreram afogadas no rio, e os corpos desceram pelas cataratas de Maiden. Os coveiros nem conseguiram achar os sapatos delas. O que foi mesmo que disseram na carta? — ele pressiona, e Cal treme. — Ah, sim... que as minhas garotas “morreram pela vitória”, para “defender o rei”. Tinha umas assinaturas caprichadas no pé da página. Do rei, do general da Martelo, e do gênio da estratégia que decidiu que uma legião inteira deveria marchar através do rio.
Todos se voltam para Cal, que queima sob nossos olhares. Ele fica branco, miserável, sangue prateado subindo às bochechas. Lembro de seu quarto no Palacete do Sol, dos livros e manuais repletos de notas e táticas. Aquilo me deu nojo na época, e me dá nojo agora. Nojo de Cal e de mim. Porque esqueci quem ele é de verdade: não apenas um príncipe, não apenas um soldado, mas um assassino. Em outra vida, poderia ter sido eu a marchar para a morte sob suas ordens, ou meus irmãos, ou Kilorn.
— Sinto muito — Cal balbucia. Ele se obriga a levantar os olhos e encarar um pai zangado e triste. Imagino que foi treinado para isso. — Sei que as minhas palavras não querem dizer nada. As suas filhas... todos os soldados... mereciam viver. E o senhor também merece.
Os joelhos de Nix estalam quando ele levanta, mas ele não parece notar.
— Isso é uma ameaça, garoto?
— Um aviso — Cal responde, balançando a cabeça.
— O senhor é como Mare, como Shade — ele diz apontando para nós. — Diferente. Chamamos de sanguenovo. Vermelho e prateado.
— Nunca me chame de prateado — Nix vocifera por entre os dentes.
Isso não impede Cal de se pôr de pé e continuar:
— Meu irmão vai caçar pessoas como o senhor. Planeja matar todos e fingir que jamais existiram. Planeja apagar todos da história.
Algo entala na garganta de Nix, e a confusão toma conta de seus olhos. Ele me encara, à procura de apoio.
— Existem... existem outros?
— Muitos outros, Nix. — Desta vez, toco a pele dele sem intenção de eletrocutá-lo. — Garotas, garotos, velhos e jovens. Espalhados pelo país, esperando para serem encontrados.
— E quando vocês os encontrarem... nos encontrarem... O que acontece?
Abro a boca para responder, mas nada sai. Não pensei no depois.
Farley toma a frente e estende a mão. Nela, há um cachecol vermelho, esgarçado, mas limpo.
— A Guarda Escarlate vai protegê-los, escondê-los. E treiná-los, se desejarem.
Quase desmaio ao ouvir essas palavras, pensando no coronel. A última coisa que ele parece querer são sanguenovos por perto, mas Farley soa tão certa, tão convincente. Como sempre, tenho certeza de que ela tem uma carta na manga, algo que não devo questionar.
Ainda.
Devagar, Nix pega o cachecol e o envolve nas mãos manchadas.
— E se eu recusar? — ele pergunta como quem não quer nada, mas capto o tom metálico sob sua voz.
— Então Shade vai deixar você na sua cama e nunca mais daremos as caras — digo. — Mas Maven vai aparecer. Se não quiser ficar conosco, é melhor fugir para a floresta.
Ele aperta o tecido escarlate com mais força.
— Não é bem uma escolha.
— É sim — insisto, na esperança de que ele perceba que falo sério. Pelo meu próprio bem, pelo bem da minha alma. — Você pode escolher ficar ou vir com a gente. Você sabe melhor do que qualquer um o quanto perdemos. Mas pode nos ajudar a recuperar alguma coisa.
Nix permanece calado por um longo momento. Anda de um lado para o outro, com o cachecol na mão, às vezes lançando um olhar através dos galhos em direção ao farol da torre. A luz dá três voltas completas antes de ele voltar a falar.
— Minhas garotas morreram, minha esposa morreu, e estou cansado do fedor do pântano — ele diz, parando diante de mim. — Estou com vocês.
Em seguida, lança um olhar por cima do meu ombro, e não preciso virar para saber que se dirige a Cal.
— Apenas mantenham esse sujeito longe de mim.

9 comentários:

  1. "Cal fixa os olhos nele, e o canto da sua boca se contorce de desgosto.
    — Alguma chance de largarmos ele por aí?
    — Não seja cruel, Cal "

    Aquele momento: tentar n rir pra n acordar a minha irmã e acabo engasgando.

    Letícia.

    ResponderExcluir
  2. IMPRESSÃO MINHA OU A MARE MENOSPREZA A IMPORTÂNCIA DO KILORN? PÔ O CARA SALVOU ELES, ELA TA AGINDO IGUAL AOS PRATEADOS...

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu simplesmente tenho que concordar, A Mare mudou para egoísta e idiota, agindo como as pessoas que ela tanto menospreza, os prateados eu sinto ódio dela, como assim descartar Kilorn? Que menina tosca.

      ~Amy~

      Excluir
    2. Meu bem, tosca é você. Você leu a história até aqui, viu por tudo o que ela passou e ainda xinga ela? Pelo amor de Deus! Você não aguentaria metade, então fica calada.
      Ela não menospreza o Kilorn. Não. Ela se preocupa com ele. Ele realmente não tem tanto treinamento. Ele realmente teve sorte. Ele não merecia a guerra. Ela queria mudar isso, embora saiba que não pode. Vamos interpretar!

      Excluir
  3. Estou gostando muito, só que falta astúcia da parte de Mare e Amor ao próximo.

    ResponderExcluir
  4. Sim, Mare não devia menosprezar o Kilon ele é de suma importância para todos, se ele não ajudou muito quem dira que ele não tentará, só por que ele não tem poder? ainda não li o próximo cap mas tou doido para continuar.

    ResponderExcluir
  5. Também fiquei revoltada com Mare. Ela se acha,subestima o Kilorn e todos os outros,até Shade que já provou que é TOP ela subestima.
    Pra ela os BONS são apenas ela é Cal.
    Na moral? Às vezes torço pra ela se dar mal só pra aprender 😝😤😤😤😤😤😤😤😤😤😤😤😤😤😤

    ResponderExcluir
  6. Sabe aquele sentimento de amor e ódio? Pois é!
    Mais que inferno de livro que ninguen pode confiar em ninguem, numa hora acontece uma coisa, vc quer matar todo mund9 mais dali a pouco nao foi nada daquilo, e a Mare querendo usar todo mundo mais no final ela q eh usada, sem contar que fico naquela, fica com Cal, nao melhor com Kilorn, nao acho q Cal mesmo, mas o kilorn eh tao gracinha, nao sei mais o que dizer só sentir,
    E nao largo esse livro por nada, to amando essa sofrencia toda kkkk 💙

    ResponderExcluir
  7. Mnw que porra é essa mare, menosprezando o kilorn

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)