15 de março de 2017

Capítulo oito

Mare

NÃO DIFICULTO QUANDO OS ARVEN vêm me tirar do tablado. Ovo e Trio me pegam pelos braços, deixando Tigrina e Trevo para trás. Meu corpo fica anestesiado enquanto me escoltam para longe dos outros. O que fiz?, me pergunto. O que isso vai causar?
Em algum lugar, os outros me viram. Cal, Kilorn, Farley, minha família. Eles acompanharam tudo. A vergonha quase me faz vomitar em todo o meu maravilhoso e maldito vestido. Me sinto pior do que quando li as Medidas do antigo rei, condenando inúmeras pessoas ao recrutamento como punição pelos atos da Guarda Escarlate. Mas, na época, todos sabiam que aquilo não era coisa minha. Eu era apenas a mensageira.
Os Arven me empurram adiante. Não pelo caminho que vim, mas para trás do trono, passando por um batente e por cômodos que nunca vi.
O primeiro é claramente mais uma câmara do conselho, com uma longa mesa com tampo de mármore rodeada por mais de dez cadeiras luxuosas. Uma é entalhada em pedra, uma construção fria e cinza. Para Maven. A sala está fortemente iluminada, inundada pelo pôr do sol de um lado. As janelas dão para o oeste, para longe do rio, com vista para as muralhas do palácio e as colinas suaves cobertas pela floresta enevoada.
No ano passado, eu e Kilorn cortamos o gelo do rio para ganhar uns trocados, correndo o risco de nos queimar. Isso durou uma semana, até eu concluir que era um desperdício do nosso tempo. Que estranho perceber que passou apenas um ano. Parece uma vida.
— Com licença — diz uma voz baixa, vindo do único assento nas sombras. Viro na direção da voz e vejo Jon levantar da cadeira, com um livro na mão.
O vidente. Seus olhos vermelhos brilham com uma luz interna que não consigo identificar. Pensei que fosse um aliado, um sanguenovo com uma habilidade tão estranha quanto a minha. Ele é mais poderoso do que um observador, capaz de enxergar mais longe no futuro do que qualquer prateado. Agora, está diante de mim como um inimigo, depois de nos denunciar a Maven. Sinto seu olhar como agulhas incandescentes queimando minha pele.
Ele é a razão pela qual conduzi meus amigos ao presídio de Corros, a razão pela qual meu irmão está morto. Vê-lo manda o torpor gelado embora. Todo o vazio é substituído por um calor elétrico, lívido. Só quero acertar sua cara com o que tiver à disposição. Mas me contento em rosnar.
— É bom ver que Maven não mantém todos os bichinhos de estimação na coleira.
Jon só pisca na minha direção.
— É bom ver que você não está tão cega quanto antes — ele responde quando passo.
Quando o conhecemos, Cal nos avisou que as pessoas ficavam malucas quando conheciam o futuro. Ele tinha total razão e não vou cair nessa armadilha de novo. Viro as costas, resistindo ao impulso de dissecar suas palavras escolhidas com cuidado.
— Pode me ignorar o quanto quiser, srta. Barrow. Não sou problema seu — ele acrescenta. — Só uma pessoa aqui é.
Olho por cima do ombro, meus músculos se movendo antes que meu cérebro possa reagir. É claro que Jon fala antes de mim, roubando as palavras da minha boca.
— Não, Mare, não estou falando de você mesma.
Nós o deixamos para trás, seguindo para onde quer que eu esteja sendo levada. O silêncio é uma tortura tão grande quanto as palavras de Jon, pois não proporciona nenhuma outra distração. Ele está falando de Maven, percebo agora. Não é difícil adivinhar a insinuação. E o alerta.
Partes de mim, partes pequenas, continuam apaixonadas por uma ficção. Um fantasma dentro de um garoto que não consigo desvendar. O fantasma que sentou ao pé da minha cama enquanto eu sofria sonhando. O fantasma que manteve Samson fora da minha mente pelo maior tempo que pôde, adiando uma tortura inevitável.
O fantasma que me ama, do seu jeito perverso.
Sinto esse veneno agindo em mim.
Como desconfio, os Arven não me levam de volta ao quarto. Tento memorizar o caminho, notando portas e passagens que saem das muitas câmaras e salões do conselho nesta ala do palácio. São os apartamentos reais, com cada centímetro mais decorado que o outro. Estou mais interessada nas cores que dominam os cômodos em vez dos móveis em si. Vermelho, preto e prata real. São as cores da Casa Calore reinante. Azul-marinho também, o tom que me dá enjoo. Representa Elara; morta, mas ainda presente.
Finalmente paramos numa biblioteca pequena mas bem abastecida. O sol do fim da tarde entra apesar das cortinas pesadas. Partículas de pó dançam nos raios vermelhos, cinzas sobre uma chama que se apaga. Sinto que estou dentro de um coração, cercada de vermelho-sangue. Percebo que este é o escritório de Maven. Luto contra o impulso de sentar na cadeira de couro atrás da mesa envernizada. Roubar algo dele. Talvez isso faça com que me sinta melhor, mesmo que só por um instante.
Em vez disso, observo o que posso, absorvendo tudo ao redor com olhos arregalados e fascinados. As tapeçarias escarlates trabalhadas com fios pretos e cinza cintilantes estão penduradas entre retratos e fotografias dos ancestrais Calore. A Casa Merandus não é tão evidente aqui, representada apenas por uma bandeira azul e branca pendurada no teto abobadado. As cores das outras rainhas também estão presentes, algumas brilhantes, outras desbotadas, outras esquecidas. Exceto pelo amarelo dourado da Casa Jacos, que não está em lugar nenhum.
Coriane, a mãe de Cal, foi apagada deste lugar.
Procuro fotos rapidamente, embora não saiba ao certo o que estou buscando. Nenhum dos rostos me parece familiar, tirando o do pai de Maven. Sua pintura, maior do que o restante, com seu olhar furioso, sobre a lareira vazia, é difícil de ignorar. Ainda envolta de preto, um sinal de luto. Ele está morto há poucos meses.
Vejo Cal em seu rosto e Maven também. O mesmo nariz reto, as maçãs do rosto altas e o cabelo preto, grosso e brilhante. Traços de família, a julgar pelos outros retratos dos reis Calore. Tiberias V se sobressai por ser impressionantemente bonito. Mas os pintores não são pagos para deixar os retratados feios.
Não é nenhuma surpresa que Cal não esteja representado. Assim como a mãe, ele foi removido. Alguns espaços estão visivelmente vazios e suponho que os ocupava. Afinal, Cal era o primogênito, o filho favorito do rei. Não é nenhuma surpresa que Maven tenha tirado seus retratos. Sem dúvida, botou fogo em todos.
— Como vai a cabeça? — pergunto para Ovo, abrindo um sorriso irônico e vazio.
O silenciador responde com uma encarada e meu sorriso se abre mais. Vou guardar a memória dele estatelado no chão, eletrocutado até desmaiar.
— Acabaram os tremores? — insisto, balançando a mão como se fosse seu corpo. Mais uma vez fico sem resposta, mas seu pescoço fica prateado de raiva. Isso basta para me entreter. — Caramba, hein? Aqueles curandeiros de pele são bons.
— Está se divertindo?
Maven entra sozinho, estranhamente pequeno em comparação com sua figura no trono. Seus sentinelas devem estar por perto, à porta do escritório. Ele não é tolo o bastante para ir a qualquer lugar sem eles. Com a mão, faz um gesto mandando os Arven saírem do aposento. Eles vão rápido, silenciosos como ratos.
— Não tenho muitas oportunidades de entretenimento — digo quando eles desaparecem. Pela milésima vez hoje, amaldiçoo a presença das algemas. Sem elas, Maven estaria tão morto quanto a mãe. Em vez disso, sou obrigada a suportá-lo em toda a sua glória repulsiva.
Ele sorri para mim, gostando da piada sombria.
— É bom ver que nem mesmo eu consigo mudar você.
Para isso, não tenho resposta. São incontáveis as formas como Maven me mudou, destruindo a garota que eu era.
Como desconfiei, ele avança para a mesa e senta com uma graça fria e treinada.
— Preciso pedir desculpas pela minha grosseria, Mare. — Acho que arregalo os olhos, porque ele dá risada. — Já passou mais de um mês desde o seu aniversário e não te dei nada. — Assim como fez com os Arven, ele gesticula para que eu sente à sua frente.
Surpresa, trêmula e ainda em choque pela minha pequena encenação, obedeço.
— Acredite — murmuro —, não preciso de nenhum novo horror que tenha para me dar — murmuro.
Seu sorriso cresce.
— Desse você vai gostar, prometo.
— Não sei por quê, mas duvido muito.
Sorrindo, ele enfia a mão em uma gaveta da escrivaninha. Sem cerimônia, joga um retalho de seda para mim. Preto, bordado com flores vermelhas e douradas. Pego o pano afoita. Obra de Gisa. Passo-o entre os dedos. Ainda parece suave e fresco, embora esperasse algo viscoso, corrompido, envenenado pela posse de Maven. Mas é um pedaço dela. Perfeito em sua beleza feroz, impecável, um lembrete de minha irmã e de nossa família.
Maven me observa virar e revirar a seda.
— Tiramos isso de você quando a prendemos pela primeira vez. Enquanto estava inconsciente.
Inconsciente. Aprisionada em meu próprio corpo, torturada pelo peso do sonador.
— Obrigada — me forço a dizer com rigidez. Como se tivesse motivo para agradecer por qualquer coisa.
— E…
— E?
— Ofereço uma pergunta a você.
Pestanejo, confusa.
— Você pode me fazer uma pergunta e vou responder com sinceridade.
Por um segundo, não acredito nele.
Sou um homem de palavra. Quando quero. Ele falou isso uma vez e se mantém firme. É realmente um presente, se cumprir a promessa.
A primeira pergunta surge sem pensar. Eles estão vivos? Você realmente permitiu que fossem embora e os deixou em paz? Isso quase sai dos meus lábios antes que eu perceba que seria um desperdício. É claro que escaparam. Se Cal estivesse morto, eu saberia. Maven estaria se vangloriando ou alguém teria mencionado. E ele está preocupado demais com a Guarda Escarlate. Se os outros tivessem sido capturados depois de mim, o rei saberia mais e temeria menos.
Maven inclina a cabeça, observando meus pensamentos como um gato observa um rato. Está adorando isso, o que me causa arrepios.
Por que me dar isso? Por que me deixar perguntar? Outra pergunta quase desperdiçada. Porque também sei a resposta. Maven não é quem achei que fosse, mas isso não significa que não conheça partes dele. Consigo adivinhar suas intenções, por mais que queira estar errada. Essa é a forma dele de se explicar. Uma maneira de me fazer entender o que fez e por que continua fazendo. Ele sabe que pergunta vou acabar criando coragem para fazer. É um rei, mas um garoto também, sozinho num mundo criado por suas próprias mãos.
— Até que ponto foi ideia dela?
Ele não pestaneja. Me conhece bem demais para ficar surpreso. Alguma garota mais tola ousaria ter esperança — acreditaria que ele era a marionete de uma mulher má e agora estava abandonado, perdido. Seguindo um caminho que não fazia ideia de como mudar. Por sorte, não sou tão idiota assim.
— Demorei para começar a andar, sabia? — Ele não está olhando para mim, mas para a bandeira azul acima de nós. Ricamente enfeitada com pérolas brancas e pedras preciosas, condenada a juntar pó em memória de Elara. — Os médicos e até meu pai disseram para minha mãe que eu ia me desenvolver no meu próprio tempo. Que aconteceria um dia. Mas “um dia” era tarde demais para ela. Não podia ser uma rainha com um filho lento. Não depois que Coriane dera ao reino um príncipe como Cal, sempre sorridente, falante, risonho e perfeito. Ela mandou despedir minha ama, culpou a mulher pelos meus defeitos e assumiu a tarefa de me fazer ficar em pé. Não lembro disso, mas ela me contou essa história várias vezes. Achava que era prova de seu amor por mim.
Sinto um frio na barriga, embora não entenda o porquê. Algo me diz para levantar, para sair desta sala para os braços dos guardas que me aguardam. Outra mentira, outra mentira, digo a mim mesma. Construída com habilidade, como só ele é capaz.
Maven não consegue olhar para mim. Sinto a vergonha no ar.
Seus olhos perfeitos de gelo lacrimejam, mas faz tempo que me endureci para suas lágrimas. A primeira fica presa em seus cílios escuros, uma gota oscilante de cristal.
— Eu era um bebê e ela entrou na minha cabeça à força. Fez meu corpo levantar, andar e cair. Fazia isso todo dia, até eu começar a chorar quando ela entrava. Até aprender a andar sozinho. Por medo. Mas isso tampouco servia. Um bebê chorando toda vez que sua mãe o abraçava? — Ele abanou a cabeça. — Depois de um tempo, ela extraiu esse medo também. — Seus olhos escurecem. — Assim como muitas outras coisas. Você quer saber até que ponto foi ideia minha? — ele sussurra. — Até certo ponto. O suficiente.
Mas não tudo.
Não suporto mais isso. Com movimentos desequilibrados, pelo peso das algemas e pelo aperto doentio no meu coração, levanto com dificuldade.
— Você não pode continuar botando a culpa nela, Maven — sibilo, andando para trás. — Não minta para mim dizendo que está fazendo isso por causa de uma mulher morta.
Tão rápido quanto suas lágrimas vieram, elas desaparecem. Secas, como se nunca tivessem existido. A rachadura em sua máscara se fecha. Que bom. Não quero ver o garoto atrás dela.
— Não estou mentindo — ele diz devagar, cortante. — Ela está morta agora. Minhas escolhas são só minhas. Disso tenho absoluta certeza.
O trono. Sua cadeira na câmara do conselho. Móveis simples se comparados ao trabalho artístico dos cristais de diamante ou do veludo em que seu pai se sentava. Talhados em blocos de pedra, simples, sem pedras ou metais preciosos. E agora entendo o porquê.
— Pedra Silenciosa. Você toma todas as suas decisões sentado ali.
— Você não faria o mesmo? Com a Casa Merandus olhando tão de perto? — Ele se inclina para trás, pousando o queixo na mão. — Já cansei do que os murmuradores chamam de “conselhos”. Tive isso a vida toda.
— Que bom — desabafo. — Agora você não tem ninguém para culpar por sua maldade.
Um lado da boca dele se ergue num sorriso fraco e condescendente.
— Se é o que você pensa.
Resisto ao impulso de pegar qualquer coisa e tacar na cabeça dele, apagando seu sorriso da face da Terra.
— Se ao menos eu pudesse te matar e pôr um fim nisso tudo.
— Assim você me magoa. — Ele estala a língua, irônico. — E depois o quê? Você fugiria de volta para sua Guarda Escarlate? Para meu irmão? Samson o viu várias vezes nos seus pensamentos. Sonhos. Lembranças.
— Você continua fixado em Cal, mesmo tendo vencido? — É uma carta fácil de jogar. Seu sorriso me irrita, mas o meu também o provoca. Sabemos como alfinetar um ao outro. — É estranho você se esforçar tanto para ser como ele.
É a vez de Maven levantar, as mãos firmes sobre a mesa enquanto se ergue para olhar em meus olhos. Um canto de sua boca se contorce, formando um sorriso amargo de desprezo.
— Estou fazendo o que meu irmão jamais conseguiria fazer. Cal segue ordens, mas não consegue tomar decisões. Você sabe disso tão bem quanto eu. — Seu olhar flutua, encontrando um ponto vazio na parede. Procurando pelo rosto de Cal. — Não importa o quão maravilhoso você pense que ele é, tão sedutor, corajoso e perfeito. Ele seria um rei muito pior do que eu.
Quase concordo. Passei vários meses vendo Cal em cima do muro entre a Guarda Escarlate e seu sangue prateado, recusando-se a matar e recusando-se a nos impedir, nunca escolhendo um lado. Mesmo tendo visto o horror e a injustiça, ele não assumia uma posição. Mas Cal não é Maven. Não é nem de perto tão perverso quanto ele.
— Só ouvi uma pessoa descrever Cal como perfeito. Você — digo com calma. Isso só o enfurece mais. — Acho que tem certa obsessão por ele. Vai botar a culpa disso na sua mãe também?
Era para ser uma piada, mas, para Maven, é tudo menos isso. Seu olhar vacila apenas por um instante. Um instante terrível. Sem querer, sinto meus olhos se arregalarem e meu coração se apertar no peito. Ele não sabe. Realmente não sabe quais partes de sua mente são suas e quais foram criadas por ela.
— Maven — não consigo deixar de sussurrar, com medo do que posso ter descoberto sem querer.
Ele passa a mão no cabelo escuro, puxando os fios até se arrepiarem. Um silêncio estranho se estende, deixando ambos expostos. Sinto como se tivesse entrado onde não deveria estar, invadindo um lugar aonde não queria ir.
— Saia — ele diz finalmente, com a voz trêmula.
Não me movo, absorvendo o que posso. Para usar depois, digo a mim mesma. Não porque esteja atônita demais para sair. Não porque sinto uma onda inacreditável de compaixão pelo príncipe fantasma.
— Eu mandei você sair.
Estou acostumada com a raiva de Cal aquecendo o ambiente. A raiva de Maven congela tudo, e um calafrio percorre minha espinha.
— Quanto mais você os deixar esperando, pior vai ser — diz Evangeline Samos, chegando na melhor e na pior hora.
Ela está resplandecente em sua tormenta usual de metal e espelhos, com a longa capa atrás. Reflete o vermelho da sala, cintilando em carmim e escarlate, brilhando a cada passo. Enquanto a observo, com o coração martelando no peito, a capa se abre e se reformula diante dos meus olhos, cada metade envolvendo uma de suas pernas musculosas. Ela abre um sorriso perverso, deixando que eu observe, enquanto seu vestido se transforma numa armadura imponente. O novo traje também é mortalmente belo, digno de uma rainha.
Assim como antes, não sou problema dela, e Evangeline desvia sua atenção de mim. Ela identifica a tensão no ar e a agitação de Maven. Seus olhos se estreitam. Assim como eu, Evangeline analisa o jovem rei. Assim como eu, vai usar isso a seu favor.
— Maven, você me escutou? — Ela dá alguns passos ousados, rodeando a mesa para ficar ao lado dele. O rei inclina o corpo, fugindo do toque dela. — Os governadores estão esperando, e meu pai também…
Com uma determinação violenta, Maven pega uma folha de papel da mesa. A julgar pelas assinaturas floreadas ao pé da página, deve ser algum tipo de petição. Ele encara Evangeline, estendendo o papel longe do corpo enquanto gira o pulso, soltando faíscas de seu bracelete. Elas acendem em dois arcos de chama, dançando pela petição feito facas quentes na manteiga. O papel se desintegra em cinzas, sujando o chão brilhante.
— Diga ao seu pai e às marionetes dele o que penso da proposta.
Se está surpresa com a atitude dele, Evangeline não demonstra. Em vez disso, suspira e avalia as unhas. Observo-a de soslaio, com total noção de que vai me atacar se eu respirar alto demais. Fico em silêncio, de olhos arregalados, desejando ter notado a petição antes. Desejando saber o que está escrito ali.
— Cuidado, meu querido — Evangeline diz, com a voz nada carinhosa. — Um rei sem apoiadores não é rei.
Ele se aproxima dela, rápido o bastante para pegá-la desprevenida. Os dois têm quase a mesma altura e se encaram praticamente olho no olho. Fogo e ferro. Não acho que ela vá estremecer, não diante de Maven, o menino, o príncipe com quem ela treinava. Maven não é Cal. Mas as pálpebras de Evangeline vacilam, os cílios pretos batendo contra a pele branca e prateada, revelando um laivo de medo que ela quer esconder.
— Não pense que sabe que tipo de rei eu sou, Evangeline.
Ouço sua mãe nas palavras dele, e isso a assusta tanto quanto a mim.
Então, Maven volta os olhos para mim. O menino confuso de um momento atrás desapareceu outra vez, substituído por uma pedra viva e um olhar gélido. O mesmo vale para você, seu rosto diz.
Ainda que não queira mais nada além de sair correndo da sala, continuo plantada ali.
Ele tirou tudo de mim, mas não vou lhe entregar meu medo nem minha dignidade. Não vou fugir agora. Muito menos na frente de Evangeline.
Ela volta a olhar para mim, analisando todo o meu corpo. Memorizando minha aparência. Deve me enxergar por trás do toque da curandeira, os hematomas ganhos em minha tentativa de fuga, as olheiras permanentes. Quando foca na minha clavícula, levo um momento para entender por quê. Seus lábios se abrem apenas um pouco, no que só pode ser surpresa.
Furiosa, envergonhada, puxo a gola do vestido para cobrir a marca. Mas não desvio os olhos dela enquanto faço isso. Evangeline tampouco vai tirar meu orgulho também.
— Guardas — Maven diz finalmente, dirigindo a voz para a porta. Quando os Arven obedecem, estendendo as luvas para me levar, Maven aponta o queixo para Evangeline. — Você também.
Ela não aceita isso bem, claro.
— Não sou uma prisioneira para receber ordens de ir e vir…
Sorrio enquanto os Arven me puxam para longe. A porta se fecha, mas a voz de Evangeline ecoa atrás de nós. Boa sorte, penso. Maven se importa menos com você do que comigo.
Meus guardas apertam o passo, obrigando-me a acompanhar o ritmo. É difícil nesse vestido justo, mas dou um jeito. Agarro firme o pedaço de seda de Gisa, macio contra minha pele. Resisto ao impulso de cheirar o tecido, caçar qualquer resquício da minha irmã. Olho para trás, na esperança de ver quem exatamente está esperando uma audiência com o rei perverso. Em vez disso, vejo apenas sentinelas, com máscaras pretas e uniformes cor de fogo, montando guarda na porta do escritório.
Ela se abre violentamente, estremecendo nas dobradiças antes de bater com um estrondo. Para uma menina criada como nobre, Evangeline tem dificuldade em controlar seu temperamento. Me pergunto se minha antiga instrutora de etiqueta, Lady Blonos, já tentara ensiná-la. A imagem quase me faz rir, trazendo um raro sorriso aos meus lábios. Dói, mas não me importo.
— Guarde seus sorrisinhos, garota elétrica — Evangeline rosna, dobrando a velocidade.
A reação dela só me instiga ainda mais, apesar do perigo. Rio descaradamente enquanto me viro. Nenhum dos guardas diz uma palavra, mas apertam um pouco o passo. Não querem testar uma magnetron louca para arranjar briga.
Evangeline nos alcança mesmo assim, dando a volta por Ovo para se plantar diante de mim. Os Arven param, me segurando entre eles.
— Caso não tenha notado, estou um pouco ocupada — digo, apontando para os guardas que seguram meus braços. — Não tenho muito tempo livre para discussões na minha agenda. Vá incomodar alguém que possa revidar.
Seu sorriso se abre, afiado e brilhante como as escamas de sua armadura.
— Não subestime a si mesma. Você ainda tem muita energia para brigar. — Então, ela se inclina para a frente, invadindo meu espaço como fez com Maven. Uma forma fácil de mostrar que não tem medo. Permaneço firme, me obrigando a não tremer, mesmo quando ela tira uma escama afiada da armadura como uma pétala de flor.
— Torço para isso, pelo menos — Evangeline sussurra.
Com um gesto cuidadoso, ela corta a gola do meu vestido, tirando um pedaço de escarlate bordado. Resisto ao impulso de cobrir o gravado na minha pele, sentindo um rubor ardente de vergonha subir pela minha garganta.
Seus olhos se demoram, traçando as linhas ásperas da marca de Maven. De novo, ela parece surpresa.
— Isso não parece um acidente.
— Mais alguma observação brilhante que gostaria de compartilhar? — murmuro entredentes.
Sorrindo, Evangeline recoloca a escama no corpete.
— Não com você. — É um alívio quando ela recua, deixando alguns centímetros valiosos entre nós. — Elane?
— Sim, Eve? — diz uma voz, vinda de lugar nenhum.
Levo um susto quando Elane Haven se materializa atrás dela, aparentemente do nada. Uma sombria, capaz de manipular a luz, poderosa o bastante para se tornar invisível. Queria saber há quanto tempo está conosco. Será que estava no escritório? Teria entrado com Evangeline ou antes? Talvez tivesse nos observado o tempo todo. Até onde sei, Elane pode muito bem ter sido minha sombra desde o momento em que cheguei aqui.
— Alguém já tentou colocar um sininho em você? — ataco, ao menos para esconder meu desconforto.
Elane abre um sorriso bonito e controlado que não é nem um pouco sincero.
— Uma ou duas vezes.
Assim como Sonya, conheço Elane. Passamos muitos dias juntas no treinamento, sempre em lados opostos. Ela é outra amiga de Evangeline, meninas espertas o bastante para se aliar à futura rainha. Seu vestido e suas joias são de um preto escuríssimo. Não de luto, mas porque são as cores da Casa Haven. Seu cabelo é ruivo como me lembro, um tom de cobre brilhante que contrasta com os olhos escuros e a pele que parece turva, perfeita e impecável. A luz em volta dela é manipulada com cuidado, dando-lhe um brilho celestial.
— Terminamos aqui — Evangeline diz, virando para focar em Elane. — Por enquanto.
Ela me lança um último olhar afiado para deixar isso claro.

22 comentários:

  1. Gente, essa Elara era um monstro, fazer isso com o próprio filho, foi ela que transformou ele.
    Mereceu o fim que teve

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  2. Essa Evangeline tá tramando alguma coisa

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    1. To Achando q eles conseguiram a guerra de casa quantra cãs, cor contra cor.

      Letícia.

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    2. Concordo. Ela tem medo de Mare, pois sabe que ,no fundo, Maven é "louco" por Mare

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  3. Esse Jon é um insuportável

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  4. Já quero que ela mate todo mundo!
    Esse livro me surta!

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  5. E com esse capitulo podemos ver que o Cal é de libra, a Mare é de aries, o Maven de escorpião e a Evangeline é de capricórnio hahahahahahahahaah

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    1. Mare de áries? É estranho, tem algumas coisas que não me identifico com ela, mas até que bate com o signo; e ela faz aniversário em novembro, acho.
      E Evangeline sempre sendo insurpotável, aff! Quero que ela morra, ou então faça uma guerra entre as casas e se mate com os outros. ~polly~

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    2. E gente, que coisa horrível essa Elara! Fiquei até com pena do Maven...
      Acho que a morte não foi o suficiente pra dar um fim nela ;( ~polly~

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    3. Mare faz aniversário em 17 de novembro. É de Escorpião, acho 😅

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    4. Não tem signo que os descreva melhor hasuashushaushasu

      #Val

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  6. mare e cal são escorpianos <3♡♥

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  7. Tô sem palavras. Não sei se chingo a Elara ou Evangeline, tô em dúvida de quem tá me irritando mais. Só sei que tô muitooooo feliz pela morte da elara, nunca imaginei q ficaria tão contente em lê a descrição de um corpo.

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  8. Elara é terrível , quer dizer... era

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  9. concordo elara morta me faz continuar com esperanças

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  10. Manoooooo
    Me mata!!!
    Como eu consigo sentir pena do filho da puta do Maven?
    Como essa autora consegue me fazer ama-lo depois de td q ele fez?

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    1. Nem me fala,acho que vai ter uma reviravolta no final...Ou ele vai conseguir se livrar da influência que sua mãe teve ou vai morrer como ela.

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  11. Essa Mare brinca com o perigo 😂😂

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  12. É errado sentir pena do Maven ? Porque eu sinto, e a Mare o ama, apesar de tudo ele também a ama

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    1. Se for errado, estamos errando juntas


      ~ANNA~

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Boa leitura :)