13 de março de 2017

Capítulo oito

AS PERNAS DA CADEIRA DE METAL ARRANHAM O CHÃO — é o único som na cela quadrada. Deixo a outra cadeira como está, de ponta-cabeça e torta, depois de ter sido jogada contra a parede. Antes de eu chegar aqui, Cal deu um verdadeiro showzinho com as duas cadeiras e a mesa, agora amassadas. Há apenas uma rachadura na parede, logo abaixo da janela, onde a quina da mesa acertou. Para mim, não adianta nada ficar jogando móveis. Em vez de gastar energia, eu a conservo, e sento no centro do cômodo. Cal anda de um lado para o outro em frente à janela, mais animal que homem. Cada milímetro do seu corpo anseia por fogo.
Kilorn já saiu há muito tempo, ao lado do seu novo amigo, o coronel.
E sou vista exatamente como sou: um peixe burro migrando de um anzol para o outro sem nunca aprender a lição. Mas perto do Palacete do Sol, de Archeon e do Ossário, isto aqui parece até férias, e o coronel não é nada comparado à rainha ou a uma fileira de carrascos.
— Melhor você sentar — digo a Cal, que enfim começa a cansar da sua sede de vingança. — A não ser que esteja planejando gastar o chão até abrir um buraco para fugir.
Ele fecha a cara, irritado, mas para de andar. Em vez de pegar uma cadeira, se escora na parede num ato infantil de contestação.
— Estou começando a achar que você gosta de prisões — ele diz, batendo o nó dos dedos contra a parede devagar. — E que tem o pior gosto do mundo para homens.
Isso me fere mais do que eu gostaria. Sim, eu gostava de Maven bem mais do que gostaria de admitir, e Kilorn é meu amigo mais próximo. E ambos são traidores.
— Você também não é muito bom em escolher amigos — disparo, mas meu golpe não o abala. — E não tenho nenhum gosto para homens. Isto aqui não tem nada a ver com isso. — As palavras se embaralham, saem inadequadas e atrapalhadas.
— Nada? — ele ri, quase entretido. — Quem foram as duas últimas pessoas que nos trancaram numa cela? — Como não respondo, envergonhada, ele continua: — Reconheça: você tem muita dificuldade para separar a cabeça do coração.
Levanto tão rápido que a cadeira cai no chão.
— Não aja como se não amasse Maven, como se não tivesse deixado o seu coração falar mais alto em relação a ele — falo.
— Ele é meu irmão! Claro que estava cego! Claro que não imaginei que ele iria matar o nosso... o nosso pai. — A voz dele vacila com a lembrança, me deixando entrever o filho esfarrapado e destruído por baixo da fachada de guerreiro. — Cometi erros por causa dele. E cometi erros por sua causa — Cal acrescenta em voz baixa.
Eu também. O pior foi quando dei a mão a ele e o deixei me arrastar para fora do quarto, para uma dança e um turbilhão adiante. Deixei a Guarda matar inocentes por Cal, para evitar que ele fosse para a guerra, para evitar que ficasse longe de mim.
Meu egoísmo teve um custo horrível.
— Não podemos mais fazer isso. Tomar decisões erradas um pelo outro — murmuro, encobrindo o que realmente quero dizer, o que há dias venho tentando dizer a mim mesma. Cal não é um caminho a ser escolhido ou desejado por mim. Cal é apenas uma arma, algo para eu usar, ou para os outros usarem contra mim. Devo me preparar para as duas coisas.
Depois de um longo momento, ele faz que sim com a cabeça. Fico com a impressão de que ele me vê do mesmo jeito.
A umidade do galpão se intensifica, juntando-se ao frio que ainda penetra meus ossos. Normalmente eu começaria a tremer, mas estou me acostumando à sensação.
Acho que deveria me acostumar a ficar sozinha também.
Não no mundo, mas aqui dentro, no coração.
Parte de mim quer rir da nossa condição. De novo, estou lado a lado com Cal numa cela, esperando para descobrir o que o destino nos reserva. Mas, desta vez, meu medo está misturado à raiva. Não será Maven que vai tripudiar sobre mim hoje, mas o coronel, o que me deixa imensamente grata. Nunca mais quero ser obrigada a suportar as provocações de Maven. Até pensar nele dói.
O Ossário era escuro e vazio, uma prisão mais profunda. Maven destacava-se nitidamente com sua pele pálida, seus olhos brilhantes, suas mãos à procura das minhas. Na minha lembrança contaminada, tudo isso oscila entre dedos suaves e garras afiadas.
Ambos querem me ver sangrar.
Uma vez eu lhe disse para esconder seu coração.
Você devia ter escutado.
Essas foram as últimas palavras dele para mim, antes de nos condenar à morte.
Queria que não tivesse sido um conselho tão bom.
Solto o ar aos poucos, na esperança de expelir as lembranças junto. Não funciona.
— Então, o que vamos fazer, general Calore? — pergunto, apontando para as paredes que nos aprisionam. Só agora enxergo os contornos discretos no canto, os blocos quadrados um pouco mais escuros que o resto, fixados no canto das paredes.
Cal deve estar tentando repelir pensamentos tão dolorosos quanto os meus.
Depois de um longo momento, contente com a distração, endireita rapidamente a outra cadeira e a empurra até um dos cantos. Ele sobe nela, quase batendo a cabeça no teto, e corre a mão pela Pedra Silenciosa — a coisa mais perigosa para nós na ilha, capaz de nos causar mais danos que qualquer arma.
— Como conseguiram isto? — ele balbucia enquanto seus dedos tentam descobrir alguma saliência. Mas a pedra é lisa e está perfeitamente inserida na parede. Suspirando, desce da cadeira com um pulo e se volta para a janela. — A nossa melhor chance é quebrar o vidro. Não temos como nos livrar das pedras.
— É mais fraca — digo, com os olhos fixos na Pedra Silenciosa, que parece me encarar de volta. — No Ossário, me sentia sufocada. Esta aqui está longe de ser ruim daquele jeito.
Cal dá de ombros.
— Não há muitos blocos, mas são o bastante.
— Roubados?
— Com certeza. Existe uma quantidade limitada de Pedras. E só o governo pode usar, por motivos óbvios.
— Verdade... Em Norta.
Ele inclina a cabeça, perplexo.
— Acha que vieram de outro lugar?
— Cargas contrabandeadas chegam aqui de toda parte. Piedmont, Lakeland e outros lugares. Você não viu nenhum soldado aqui embaixo? O uniforme?
Cal balança a cabeça.
— Não desde que aquele bastardo de olho vermelho me escoltou para cá ontem.
— Eles o chamam de coronel. É o pai da Farley.
— Eu sentiria pena dela, mas a minha família é infinitamente pior.
Esboço um sorriso, quase achando graça.
— Eles são de Lakeland, Cal. Farley, o coronel e todos os soldados dele. O que significa que há mais de onde eles vieram.
Uma expressão confusa paira em seu rosto.
— Isso... não é possível. Já vi as frentes de batalha com os próprios olhos. Não há como passar.
Ele faz uma pausa, olha para as mãos e desenha um mapa inútil no ar. Não faz sentido para mim, mas ele o conhece em detalhes.
— Os lagos estão bloqueados nas duas margens — ele retoma. — O Gargalo está completamente fora de questão. Transportar bens e suprimentos é uma coisa, mas pessoas... é impossível. Não nessa magnitude. Precisariam ter asas para atravessar o fronte.
Tomo fôlego apressada, na velocidade do pensamento que me vem à mente. O pátio de concreto, o hangar imenso no fim da base, a estrada larga que não leva a lugar nenhum.
Não é uma estrada.
É uma pista de decolagem.
— Acho que eles têm.
Para minha surpresa, um sorriso largo e sincero brota no rosto de Cal. Ele se volta para a janela e lança um olhar para o corredor vazio.
— A educação deles deixa muito a desejar, mas a Guarda Escarlate vai dar muita dor de cabeça ao meu irmão.
Logo também começo a sorrir. Se é assim que o coronel trata seus supostos aliados, adoraria ver o que faz com os inimigos.
A hora do jantar chega e logo passa, marcada apenas por um senhor grisalho de Lakeland que nos traz uma bandeja de comida. Ele gesticula para que a gente se afaste e olhe para a parede do fundo. Não obedecemos, e continuamos perto da janela.
Depois de um grande impasse, o homem se retira, devorando nosso jantar com um sorriso no rosto. Mas isso não me incomoda nem um pouco. Cresci com fome. Posso encarar algumas horas sem comer. Cal, por outro lado, fica pálido quando nosso jantar vai embora, seguindo o prato de peixe cinzento com os olhos.
— Se você queria comer, devia ter me falado — reclamo, retornando ao meu assento. — Você não vai servir para nada se estiver morto de fome.
— É isso que quero que pensem — ele responde, com um leve brilho no olhar. — Acho que vou desmaiar depois do café amanhã e descobrir se os médicos deles são bons de briga.
É um plano no mínimo frágil, e torço o nariz em reprovação.
— Tem alguma ideia melhor?
— Não — respondo, seca.
— Foi o que pensei.
— Hunf.
A Pedra Silenciosa tem um efeito estranho sobre nós.
Ao retirar a coisa em que mais nos apoiamos — nossos poderes —, somos forçados a ser pessoas diferentes.
Para Cal, isso implica ser mais inteligente, calculista. Já que não pode contar com o fogo, ele apela para a mente.
Mas, a julgar pela ideia fraca, parece que inteligência não é muito seu forte.
As mudanças em mim não são tão evidentes. Afinal, vivi dezessete anos de silêncio, sem conhecer o poder oculto dentro de mim. Agora pareço de novo aquela garota impiedosa e egoísta que fazia qualquer coisa para salvar a própria pele. Se o homem de Lakeland voltar com outra bandeja, é melhor estar preparado para sentir minhas mãos na sua garganta e, se eu conseguir sair desta cela, meus raios em seus ossos.
— Julian está vivo. — Não sei de onde vêm essas palavras, mas de repente elas pendem no ar, frágeis como flocos de neve.
Cal levanta a cabeça na hora, com um brilho súbito no olhar. A perspectiva de que seu tio ainda respira o anima quase tanto quanto a ideia de liberdade.
— Quem disse?
— O coronel.
Agora é a vez dele soltar um “hunf”.
— Acho que acredito nele. — Ganho um olhar de desprezo, mas continuo: — O coronel acha que Julian era parte da armadilha de Maven, que é outro prateado que me traiu. É por isso que não acredita na lista.
Cal assente; seu olhar está distante.
— A lista de outros como você.
— Farley os chama... nos chama de sanguenovos.
— Bom — ele suspira —, só serão chamados de “mortos” se não sairmos daqui depressa. Maven vai caçar todos.
Direto, mas verdadeiro.
— Por vingança? — pergunto.
Para a minha surpresa, Cal balança a cabeça.
— Ele é um rei que sucede um pai assassinado. Não é a situação mais estável para começar um reinado. As Grandes Casas, Samos e Iral especialmente, agarrariam qualquer oportunidade de enfraquecê-lo. E a descoberta dos sanguenovos, depois que Maven denunciou você publicamente, com certeza o enfraqueceria.
Embora Cal tenha sido criado como um soldado, treinado em acampamentos de guerra, também cresceu para ser rei. Pode não ser tão ardiloso quanto Maven, mas entende de política como poucos.
— Então cada pessoa que nós salvarmos vai prejudicá-lo, não só no campo de batalha mas também no reinado — digo.
Ele abre um meio sorriso e apoia a cabeça contra a parede.
— Você está dizendo bastante “nós” nas frases, não?
— Te incomoda? — pergunto, sondando o terreno.
Se eu trouxer Cal para a busca pelos sanguenovos, talvez tenhamos uma chance real de superar Maven.
Um músculo na bochecha dele se contrai, o único indício de indecisão. Mas, antes que ele consiga responder, ouvimos o barulho familiar de botas. Cal bufa de irritação com a volta do coronel. Quando ele começa a levantar, minhas mãos disparam para puxá-lo de volta ao assento.
— Não levante para ele — cochicho, recostando na cadeira.
Cal faz o que digo e, mais calmo, cruza os braços diante do peito largo. Agora, em vez de esmurrar a janela e atirar mesas contra as paredes, assume um ar resignado, sereno, uma montanha de carne à espera para esmagar quem se aproximar demais. Se ao menos ele realmente pudesse fazer isso... Se não fosse a Pedra Silenciosa, ele seria um inferno flamejante, queimando mais que o próprio sol. E eu seria uma tempestade.
Em vez disso, estamos reduzidos a nossos ossos, a dois adolescentes choramingando numa jaula.
Faço o possível para me manter impassível quando o coronel aparece na janela. Não quero lhe dar a satisfação da minha raiva, mas quando Kilorn aparece atrás dele, com uma expressão fria e severa, sinto o impulso de levantar. Agora é a vez de Cal me segurar, e ele aperta de leve a minha perna, me mantendo sentada.
O coronel passa apenas um momento nos observando, como se quisesse memorizar a cena do príncipe e da garota elétrica presos. Sou tomada pelo ímpeto de cuspir na janela, mas me contenho. O coronel então desvia o olhar e gesticula com os dedos longos e tortos, ordenando que alguém se aproxime. Ou seja trazido.
Ela luta como um leão, forçando os guarda-costas do coronel a erguerem-na no ar. O punho de Farley acerta um deles no queixo, e ele a solta, caindo estatelado. Ela empurra o outro contra a parede do corredor, esmagando o pescoço dele entre o cotovelo e a janela de outra cela. Os golpes da capitã são brutais, desferidos para infligir o máximo de dano possível, e já começo a ver manchas roxas aparecendo nos captores.
Mesmo assim, eles tomam cuidado para não machucá-la, fazendo o máximo para apenas contê-la.
Imagino que seja ordem do coronel — quer manter a filha presa, mas não quer machucá-la.
Para a minha tristeza, Kilorn não fica parado. Quando os guardas conseguem prensar Farley contra a parede, um segurando cada braço e perna, o coronel faz um gesto para o pescador. Com mãos trêmulas, ele saca uma caixa cinza e fosca. Dentro dela, seringas reluzem.
Não consigo ouvir a voz dela através do vidro, mas é fácil ler seus lábios. Não. Pare.
— Kilorn, pare! — Quando percebo, já estou na janela, sentindo a superfície lisa do vidro nas mãos.
Começo a bater na vidraça para chamar a atenção dele.
— Kilorn!
Mas, em vez de me ouvir, ele estufa o peito e me dá as costas para que eu não veja seu rosto. Já o coronel faz o contrário, e me encara em vez de olhar a seringa sendo cravada no pescoço da filha. Algo estranho se agita no fundo do seu olho bom. Arrependimento, talvez?
Não, este homem não tem dúvidas. Fará o que for necessário, com quem quer que seja.
Depois de cumprir seu papel, Kilorn recua, e a seringa vazia desponta em sua mão. Ele espera, observando Farley investir contra os captores. Mas os movimentos dela ficam lentos, e suas pálpebras começam a fechar à medida que a droga surte efeito.
Por fim, ela desmorona em cima dos guardas de Lakeland, inconsciente, e eles a arrastam para a cela em frente à minha. Em seguida, deitam-na, fecham a porta e a trancam, como fizeram com Cal, como fizeram comigo.
Escuto o fecho da porta dela travar e, ao mesmo tempo, o da minha abrir.
— Estão mudando a decoração? — o coronel pergunta com uma fungada, notando a mesa amassada.
Kilorn vem logo atrás. Enfia a caixa de seringas de volta no bolso do casaco como se avisasse: “Para vocês, se passarem dos limites”. Para evitar meu olhar, ele se concentra na caixa enquanto a porta se fecha atrás deles.
Dois guardas vigiam do lado de fora.
Cal os encara com uma expressão assassina. Não duvido que esteja pensando em todas as formas como poderia matar o coronel, procurando a mais dolorosa. O coronel também sabe disso, e saca uma pequena pistola do coldre. Ele a segura como quem não quer nada, como uma serpente enrolada à espera do momento certo para dar o bote.
— Sente, por favor, srta. Barrow — ele diz, gesticulando com a arma.
Obedecer a ordem é como me render, mas não tenho escolha. Sento, deixando Kilorn e o coronel assomarem sobre nós. Se não fosse pela arma e pelos guardas no corredor, vigiando de perto, teríamos uma chance. O coronel é alto, mas é velho, e as mãos de Cal se encaixariam perfeitamente na garganta dele. Eu teria que enfrentar Kilorn sozinha, me aproveitando das feridas ainda abertas para derrubá-lo. Mas, ainda que superássemos os dois, a porta permaneceria fechada, e os guardas continuariam lá fora. A luta não valeria absolutamente nada.
O coronel sorri, como se lesse meus pensamentos.
— Melhor ficar sentada.
— Você precisa de uma arma para manter duas crianças na linha? — Devolvo a provocação, espichando o queixo na direção da pistola. Nenhuma alma no mundo ousaria chamar Cal de criança, mesmo sem poderes. Só o seu treinamento militar já é o suficiente para torná-lo mortal, algo que o coronel sabe muito bem.
Ele ignora o insulto e planta os dois pés diante de mim, de modo que seu olho sangrento me encara profundamente.
— Você tem sorte por eu ser um homem liberal, sabia? Muitos por aí não o deixariam viver — ele diz, olhando brevemente para Cal antes de voltar para mim. — E alguns matariam até você.
Olho para Kilorn, na esperança de que ele perceba de que lado está. Ele se agita como um menininho. Se fôssemos crianças de novo e tivéssemos o mesmo tamanho, eu lhe daria um soco bem na boca do estômago.
— Não foi pelo prazer da minha companhia que você me deixou vivo — Cal diz para acabar com o drama do coronel. — Pelo que vai me trocar?
A reação do coronel é a única confirmação de que preciso. Ele força o maxilar e enrijece de raiva. Ele queria que as palavras saíssem de sua própria boca, mas Cal estragou seu momento.
— Trocar — balbucio, quase sibilando. — Você vai trocar uma das melhores armas que tem? Qual o tamanho da sua burrice?
— Não é grande o bastante para achar que ele lutaria do nosso lado — o coronel responde. — Não. Essa esperança idiota eu deixo para você, garota elétrica.
Não morda a isca. É o que ele quer. Ainda assim, preciso de toda a minha força para não encarar Cal. Na verdade, não sei com quem a lealdade dele está nem por quem ele vai lutar. Só sei contra quem ele vai lutar: Maven. Alguns diriam que isso nos deixa do mesmo lado, mas sei que não é bem assim. A vida e a guerra não são simples desse jeito.
— Muito bem, coronel Farley — digo.
A menção ao sobrenome o deixa agitado. Sua cabeça se move levemente, e sei que ele está lutando contra a vontade de olhar na direção da cela com a filha inconsciente. Isso doeu, percebo, guardando a constatação para usar mais tarde.
Mas o coronel devolve na mesma moeda.
— O rei ofereceu um acordo — ele diz, e suas palavras são como facas prestes a arrancar sangue da minha pele. — Em troca do príncipe exilado, o rei Maven concordou em restabelecer a idade de recrutamento. Voltaremos a dezoito, em vez de quinze. — Ele baixa os olhos e a voz ao mesmo tempo. Por um breve momento, vislumbro o pai que existe nele debaixo de sua aparência brutal. Ele deve estar pensando nas crianças enviadas à morte. — É uma boa proposta.
— Boa até demais — digo rápido, com um tom de voz duro e forte o bastante para disfarçar meu medo. — Maven nunca vai honrar esse acordo. Nunca.
À minha esquerda, Cal suspira devagar. Ele junta a ponta dos dedos, revelando os muitos cortes e arranhões adquiridos nos últimos dias. Contrai cada um deles, uma distração da verdade que quer evitar.
— Mas vocês não têm escolha — Cal diz, com as mãos enfim calmas. — Rejeitar a proposta significa condenar todos eles.
— Verdade — o coronel concorda. — Coragem, Tiberias. Sua morte salvará milhares de crianças inocentes. Elas são a única razão para você ainda respirar.
Milhares. Milhares valem Cal, com certeza. Mas algo no fundo do meu coração — nessa parte emaranhada e fria de mim mesma que estou começando a conhecer bem demais — discorda. Cal é guerreiro, líder, matador, caçador. E você precisa dele.
Em vários sentidos.
Os olhos de Cal brilham. Se não fosse a Pedra Silenciosa, sei que as mãos dele estariam em chamas. Ele se inclina um pouco para a frente com o lábio retorcido, mostrando dentes retos e brancos. Sua expressão é tão agressiva e animalesca que penso que vou ver presas.
— Sou o seu rei legítimo, filho de uma família prateada secular — ele afirma, fervendo. — A única razão para você ainda respirar é o fato de eu não ser capaz de queimar o oxigênio desta cela.
Nunca ouvi Cal fazer uma ameaça tão visceral que me corta por dentro. E o coronel, geralmente calmo e resignado, também sente o golpe. Ele recua depressa, quase tropeçando em Kilorn. E, assim como Farley, sente vergonha do medo. Por um momento, o rosto e o olho vermelho se fundem, e ele fica parecendo um tomate com braços e pernas. Mas o coronel é durão e espanta o medo com um único e controlado gesto. Ele corre a mão pelo cabelo loiro quase branco, amassando-o sobre a cabeça chata, e guarda a arma com um suspiro satisfeito.
— Seu barco parte esta noite, alteza real — ele avisa, estalando o pescoço. — Meu conselho é que se despeça da srta. Barrow. Duvido que algum dia volte a vê-la.
Fecho a mão ao redor do assento, pressionando o metal tosco e frio. Se ao menos meu nome fosse Evangeline Samos... eu enrolaria esta cadeira no pescoço do coronel até ele sentir o gosto do ferro e o outro olho sangrar.
— E quanto a Mare?
Como Cal consegue, logo depois de receber a própria sentença de morte, ser tão burro para se preocupar comigo?
— Ela será vigiada — Kilorn intervém, falando pela primeira vez desde que entrou na cela. Sua voz fraqueja, como esperado. O covarde tem todos os motivos para temer. Para me temer, inclusive. — Ficará presa, mas não será ferida.
Desgosto cintila no rosto do coronel. Suponho que ele me quer morta também. Não sei quem poderia se sobrepor à vontade dele. O misterioso Comando de Farley, talvez, seja lá quem for.
— É isso que vão fazer com as pessoas como eu? — disparo, sentindo o corpo levantar da cadeira. — Os sanguenovos? O próximo que vão trazer para cá é Shade? Vão jogá-lo numa jaula como se fosse um bicho de estimação? Até ele aprender a obedecer?
— Isso depende dele — o coronel responde sem se abalar e cada palavra me atinge como um chute no estômago. — Ele tem sido um bom soldado. Por enquanto. Assim como o seu amigo aqui — acrescenta, apoiando a mão no ombro de Kilorn e transbordando orgulho paterno, algo que Kilorn nunca conheceu. Depois de tanto tempo órfão, mesmo um pai horrível como o coronel deve parecer bom. — Sem ele, jamais teria tido a desculpa, a oportunidade de prendê-la.
A única coisa que consigo fazer é fulminar Kilorn com os olhos, na esperança de feri-lo tanto quanto ele me feriu.
— Como você deve estar orgulhoso...
— Ainda não — o pescador responde.
Se não fossem nossos anos em Palafitas, nossas muitas horas roubando e escapando como ratos, eu jamais teria notado. Mas Kilorn é previsível, pelo menos para mim.
Quando ele inclina o corpo, arqueando as costas e empinando o quadril, parece natural. Mas não há nada natural no que está tentando fazer. A parte de baixo de seu casaco pende para a frente, deixando à mostra a caixa de seringas, que escorrega rápido e perigosamente entre o tecido e sua barriga.
— Opa — Kilorn engasga, desvencilhando da mão do coronel quando a caixa escapa. Ela se abre ainda no ar e cospe as seringas. Elas batem no chão e espirram o líquido nos nossos pés. Qualquer um pensaria que todas se quebraram, mas meus olhos rápidos percebem que uma ainda está intacta, semioculta na mão fechada de Kilorn.
— Droga, garoto — o coronel diz, abaixando sem pensar duas vezes. Ele tenta pegar a caixa na esperança de salvar alguma coisa, mas acaba ganhando uma agulha na jugular.
O fator surpresa oferece a Kilorn os segundos necessários para esvaziar a seringa na veia do coronel.
Assim como Farley, ele luta, acertando um soco poderoso na cara do pescador, que voa até bater na parede oposta.
Antes que o coronel consiga dar mais um passo, Cal corre da cadeira e prensa o homem contra a janela. Os soldados de Lakeland observam atônitos do lado de fora, com as armas inúteis preparadas. Afinal, não podem abrir a porta, não podem arriscar soltar os monstros da jaula.
A combinação das drogas com o peso de Cal nocauteia o coronel. Ele desliza vidro abaixo, joelhos cedendo, e desaba de maneira degradante. De olhos fechados, ele parece bem menos ameaçador, normal até.
— Ai! — É o som que vem de Kilorn enquanto massageia a bochecha que já começa a inchar. Drogado ou não, o coronel é capaz de desferir um soco devastador. Sem hesitar, vou rápido até Kilorn. — Não é nada, Mare. Não se preocupe...
Só que não quero consolar ninguém. Meu punho acerta a outra bochecha, tão forte que sinto seus ossos no nó dos dedos. Ele urra e vacila sob o impacto do meu soco, quase perdendo o equilíbrio.
Ignorando a dor no punho, esfrego a mão.
— Agora sim. — Então eu o abraço, envolvendo-o pela cintura. Ele se contrai, esperando mais dor, mas logo relaxa o corpo.
— Eles pegariam você aqui embaixo de qualquer jeito. Achei que eu seria mais útil se não estivesse na cela ao lado — ele diz, suspirando. — Falei para você confiar em mim. Por que não acreditou?
Fico sem resposta.
Perto da janela, Cal bufa alto, nos trazendo de volta ao presente.
— Não quero criticar sua coragem, mas seu plano vai além de botar esse saco de lixo para dormir? — ele pergunta, cutucando o corpo do coronel com o pé e apontando para a janela.
Os guardas ainda nos observam.
— Só porque não sei ler não quer dizer que eu seja burro — Kilorn responde em um tom levemente cortante. — Olhe pela janela. Deve chegar a qualquer segundo.
Dez segundos, para ser exata. Esperamos exatamente dez segundos até um vulto familiar surgir num piscar de olhos. É Shade, com uma aparência bem melhor do que a que vi na enfermaria de manhã: está de pé, com um suporte na perna machucada e nada mais que curativos no ombro. Ele empunha a muleta como uma clava e acerta os dois guardas antes que eles percebam o que está acontecendo. Como dois sacos vazios, eles caem no chão com uma expressão estúpida no rosto.
A tranca da cela se abre com um eco maravilhoso, e Cal corre como um raio para abrir a porta. Assim que sai da cela, ele respira fundo o ar do corredor. Não fico para trás, e suspiro alto quando o peso da Pedra Silenciosa se desfaz. Com um sorriso, faço faíscas brotarem nos dedos e as observo estalando e serpenteando pela minha pele.
— Estava com saudade — murmuro para as minhas melhores amigas.
— Você é estranha, garota elétrica.
Para a minha surpresa, Farley está escorada contra a porta aberta da sua cela, a calma em pessoa. Não parece nem um pouco afetada pelas drogas — se é que surtiram algum efeito.
— É a vantagem de fazer amizade com as enfermeiras — Kilorn diz, dando tapinhas no meu ombro. — Um sorriso simpático foi suficiente para distrair Lena e enfiar uma seringa inofensiva na caixa.
— Ela vai ficar de coração partido quando descobrir que você foi embora — Farley responde, fazendo bico. — Coitada.
Kilorn apenas desdenha e me lança um olhar.
— Não é problema meu.
— E agora? — Cal diz, deixando seu lado soldado vir à tona. Ele enrijece os ombros sob as roupas esfarrapadas e vira a cabeça de um lado para o outro, observando o corredor.
Shade responde estendendo o braço, com a palma virada para o teto.
— Agora saltamos — diz ele.
Sou a primeira a agarrar seu braço. Seguro firme.
Ainda que não possa confiar em Kilorn, em Cal e em mais ninguém, posso confiar no poder. Na força. Na energia. Com o fogo de Cal, a minha tempestade e a velocidade de Shade, nada nem ninguém pode nos parar.
Enquanto estivermos juntos, jamais seremos presos de novo.

18 comentários:

  1. Ó *-*

    Alguém tinha reclamado das personagens feminas no livro... Mas a Farley é phoda *-*

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  2. Karina me desculpa por não comentar, é que eu leio muito apressadamente, rsrs.

    Esse livro é muito bom (:

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    1. Hahah sem problemas, Carla! O importante é ler e gostar :3

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  3. Kilorn traiu Mare, estou muito feliz, pois estava com muita raiva dele.
    Farley é show

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  4. — Ai! — É o som que vem de Kilorn enquanto massageia a bochecha que já começa a inchar. Drogado ou não, o coronel é capaz de desferir um soco devastador. Sem hesitar, vou rápido até Kilorn. — Não é nada, Mare. Não se preocupe...
    Só que não quero consolar ninguém. Meu punho acerta a outra bochecha, tão forte que sinto seus ossos no nó dos dedos. Ele urra e vacila sob o impacto do meu soco, quase perdendo o equilíbrio.
    Ignorando a dor no punho, esfrego a mão.
    — Agora sim. — Então eu o abraço, envolvendo-o pela cintura. Ele se contrai, esperando mais dor, mas logo relaxa o corpo.
    KKKKK
    BEM FEITO KILORN
    ~POLLY~

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    1. Eu com meus amigos de verdades...

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  5. Ai meu core se aliviou. .. pensei que Kilorn fosse um traidor sem coração! Fiquei feliz!

    Flavia

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    1. Então somos duas, Flavia! Que grande alívio...

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  6. A Mare tá um porre !!!! Muito chata ao extremo. Só fica dizendo que é poderoso e que não sei mais o que. Tá pior que os prateados que são só força e poder. Alguém dá um CHOQUE de realidade nela, please ! Só quer saber de USAR o Cal como se ele fosse apenas uma amar e não uma pessoa que, estupidamente, tem sentimentos por ela.
    Ass: Déborah Alana.

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    1. Concordo! Ela tá se achando muito!! Alguém dá um soco nela pfv?!

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  7. Pensei que só eu tinha notado isso. Tomara que ela quebre a cara por se achar e pensar no Cal como uma arma!!!!!!!!!!!!

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  8. Ufa ja tava pegando birra do kilorn

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  9. Kara que susto, pensei que Kirlon fosse mesmo um traira, qur maravilha. E ka entre nós essa Mare tá muito se achando as pregas de odete, fala serio né!!!

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  10. tenho ate medo de dizer alguma coisa, ao contrario do primeiro livro que ate achei meio previsível, esse me surpreende a casa momento.
    ADORANDOOOOOOO

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  11. JA TÔ VENDO UMA FAMÍLIA!!!!!!!!!!!;

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  12. UUHHHHH Farley melhor personagem!!!!!!! Dalhe garota

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• Não dê SPOILER!
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Boa leitura :)