13 de março de 2017

Capítulo nove

O ABRIGO PASSA EM LAMPEJOS DE LUZ E COR. Capto apenas vislumbres enquanto Shade age, fazendo-nos saltar através da estrutura. Suas mãos e braços estão firmes, estendidos, oferecendo-se de apoio para nós. Ele é forte o bastante para levar todos, porque ninguém fica para trás.
Vejo uma porta, uma parede, um piso vindo na minha direção. Guardas nos perseguem todas as vezes, gritando e atirando, mas nunca ficamos muito tempo no mesmo lugar. Uma vez, aterrissamos numa sala lotada, estourando de eletricidade, cercada de monitores e equipamentos de rádio. Consigo vislumbrar uma pilha de câmeras no canto antes de os ocupantes reagirem à nossa presença e precisarmos saltar para longe. Em seguida, aperto os olhos para me proteger da luz do sol sob as docas.
Desta vez, os soldados de Lakeland chegam tão perto que consigo distinguir os rostos, pálidos pela luz do entardecer. Então, sinto areia sob os pés. Outro salto, e sinto o concreto. Saltamos mais longe ao ar livre, começando numa ponta da pista de decolagem e sendo teletransportados até o hangar. Shade treme pelo esforço, seus músculos enrijecem, os nervos do seu pescoço se evidenciam. Um último salto nos leva até lá, onde encontramos ar fresco e um silêncio considerável. Quando o mundo finalmente para de girar e nos puxar, tenho a sensação de que vou desmoronar. Ou vomitar. Mas Kilorn me mantém de pé para que eu entenda o motivo de termos vindo tão longe.
Dois jatos ocupam o hangar com suas asas compridas e escuras. Um é menor, construído para um único tripulante, e tem fuselagem prateada e a ponta das asas laranja.
Um Dragão, penso, lembrando de Naercey e dos jatos ligeiros e letais que fizeram chover fogo sobre nós. O maior é de um preto sólido, ameaçador; sua carcaça é grande, sem nenhuma cor identificável. Nunca vi nada igual, e me pergunto se Cal já viu. Afinal, ele será o piloto, a não ser que Farley tenha mais esse truque para tirar da manga. A julgar pela maneira como ela observa o jato, de olhos arregalados, duvido.
— O que vocês estão fazendo aqui?
A voz ecoa estranhamente pelo hangar, reverberando pelas paredes. O homem que aparece debaixo da asa do Dragão não parece um soldado, já que veste macacão cinza em vez do uniforme de Lakeland. As mãos dele estão pretas de óleo, o que revela que é mecânico. Ele nos encara, detendo-se nas bochechas roxas de Kilorn e na muleta de Shade.
— V-vou ter que denunciar vocês aos superiores — diz.
— Denuncie — Farley vocifera, mostrando a capitã que foi um dia. Somando o tom dela à cicatriz e à mandíbula tensa, me surpreende ele não ter desmaiado na hora. — Estamos cumprindo ordens expressas do coronel — ela diz, gesticulando rapidamente para Cal ir até o jato. — Agora abra este hangar.
O mecânico continua a gaguejar enquanto Cal nos guia para a parte de trás do jato. Ao passarmos sob a asa, ele ergue a mão e a desliza pelo metal frio.
— Um Abutre — ele explica baixinho. — Grande e rápido.
— E roubado — complemento.
Ele assente, convicto, chegando à mesma conclusão que eu.
— Da base aérea de Delphie.
Uma manobra de treinamento, foi o que a rainha Elara disse num almoço tempos atrás. Ela desconsiderou os boatos sobre jatos roubados com apenas um movimento do garfo, humilhando a coronel Machantos, agora morta, na frente das outras damas da nobreza.
Pensei que estivesse mentindo, abafando outra ação da Guarda, mas isso também parecia impossível. Afinal, quem seria capaz de roubar um jato? Ou dois?
Aparentemente, a Guarda Escarlate.
A traseira do Abutre se abre abaixo da cauda, criando uma rampa para carga e descarga. A carga, no caso, somos nós. Shade vai primeiro, apoiado na muleta, com o rosto encharcado e pálido de cansaço. Os saltos tiveram seu preço. Kilorn vai atrás, me arrastando junto, e Cal vem logo em seguida. Ainda consigo ouvir o eco da voz de Farley quando entramos e nos orientamos na quase total escuridão.
Duas fileiras de assentos se alinham ao longo das paredes curvadas, cada cadeira com seu cinto pesado. O jato pode transportar pelo menos duas dúzias de homens. Me pergunto quando voou pela última vez e quem carregava. Será que estão vivos? Teremos o mesmo destino que eles?
— Mare, preciso de você aqui — Cal chama ao passar por mim em direção à frente do jato.
Ele solta o corpo sobre o assento do piloto e encara o painel indecifrável de botões, alavancas e instrumentos.
Todos os mostradores e ponteiros estão zerados, e o único ruído vem da batida dos nossos corações. Através do vidro grosso da cabine, avisto a porta do hangar — ainda fechada — e Farley, discutindo com o mecânico.
Suspirando, sento ao lado dele e aperto o cinto.
— O que posso fazer?
As fivelas estalam quando as fecho. Se vamos voar, não quero ficar pulando de um lado para o outro ali dentro.
— Esta coisa usa baterias, mas elas precisam de um tranco, e acho que o mecânico não vai querer colaborar — ele diz, com um leve brilho no olhar. — Faça o que sabe fazer melhor.
— Certo.
Inundo o corpo de determinação, tão forte quanto minha eletricidade. É como acender uma lâmpada ou ligar uma câmera, digo a mim mesma. Só é bem maior, bem mais complicado... e bem mais importante. Me pergunto por um segundo se isso é possível, se meu poder é suficiente para alimentar as baterias do enorme Abutre. Mas a lembrança dos raios roxos e brancos e poderosos ziguezagueando no céu para atingir o Ossário me diz que consigo. Se posso começar uma tempestade, com certeza posso trazer o jato à vida.
Com os braços estendidos, ponho as mãos sobre o painel. Não sei o que procurar, não sinto nada. Meus dedos dançam pelo metal, tentando encontrar qualquer coisa a que me agarrar, qualquer coisa que eu possa usar. As faíscas sobem à minha pele, prontas para serem chamadas.
— Cal — murmuro por entre os dentes, relutante em deixar o pedido escapar.
Ele compreende e trabalha rápido. Enfia a mão por debaixo do painel e puxa alguma coisa. O metal rasga com um chiado agudo, derretido nas pontas, quando Cal arranca a proteção do painel, revelando uma confusão de fios emaranhados. A imagem me faz pensar em veias sob a pele. Só preciso fazê-las bombear a energia. Sem hesitar, enfio a mão pelos fios, deixando minha eletricidade pulsar. As faíscas procuram o caminho sozinhas. Quando meus dedos roçam um fio mais grosso, um cabo redondo e liso que se encaixa perfeitamente na minha mão, não consigo conter o sorriso. Fecho os olhos para me concentrar. Me esforço mais, deixando a energia fluir pelos cabos de alimentação. Ela avança através do jato, se ramificando por diversos caminhos, mas continuo a forçar. Quando a eletricidade atinge o motor e as imensas baterias, seguro o cabo com mais força, cravando as unhas na pele.
Vamos. Me derramo sobre as baterias, inundando-as até alcançar a energia armazenada nelas. Baixo a cabeça, apoio a testa no painel e deixo o metal frio acalmar meu rosto vermelho. Com um último impulso, a represa de energia dentro do jato se rompe, espalhando-se pelas paredes e fios. Não a vejo trazendo vida ao Abutre, mas a sinto por toda a parte.
— Muito bem — Cal diz, apertando meu ombro por um segundo. O toque dele não dura, porque foi isso que combinamos. Nada de distrações, muito menos agora.
Abro os olhos e vejo as mãos dele dançando sobre os controles do painel, girando chaves e botões de uma maneira aparentemente aleatória.
Quando volto a me recostar no assento, sinto outro toque no ombro. Kilorn deixa a mão apoiada com uma delicadeza estranha. Não está olhando para mim, mas para o jato, com o queixo caído e os olhos arregalados, dividido entre encanto e medo.
Seu ar é quase infantil.
Eu mesma me sinto pequena sentada no interior desta máquina, prestes a fazer o que jamais sonhamos ser possível. O pescador e a garota elétrica prestes a voar.
— Será que ela espera que eu arrebente a parede com o jato? — Cal comenta baixo, sem sorrir. Ele olha para trás, à procura do meu irmão. — Shade?
Meu irmão parece a ponto de desmaiar e balança a cabeça, relutante.
— Não consigo saltar coisas tão grandes e... complicadas. Mesmo num dia bom. Dói para ele dizer uma coisa dessas, embora não tenha motivos para se envergonhar. Mas Shade é um Barrow, e não gostamos de admitir nossas fraquezas. — Mas posso buscar Farley — ele continua, levando as mãos para a fivela do cinto.
Kilorn conhece meu irmão tão bem quanto eu, e o empurra de volta no assento.
— Você não serve para nada se estiver morto, Barrow — ele diz, forçando um sorriso amarelo. — Eu abro o portão.
— Não precisa — disparo, olhando fixamente para fora da cabine.
Forço minha energia e, com um chiado intenso e agudo, o portão começa a abrir, erguendo-se do chão num movimento suave e contínuo. O mecânico parece confuso ao ver o dispositivo que controla a porta girando. Enquanto isso, Farley sai em disparada. Ela corre para fora do nosso campo de visão, em direção ao portão. Um feixe de luz do sol a segue, misturado com sombras desiguais e longas. A silhueta de duas dúzias de soldados surge, tapando a entrada do hangar. Não são apenas o pessoal de Lakeland, mas os próprios rebeldes de Farley, marcados por faixas e cachecóis vermelhos.
Todos estão com a arma apontada para o Abutre, hesitantes. Não querem atirar. Para o meu alívio, não reconheço Bree nem Tramy entre eles.
Um dos soldados de Lakeland dá um passo à frente.
É capitão ou tenente, a julgar pelas tiras brancas no uniforme. Grita algo, estende a mão, os lábios indicam a palavra parem. Mas não consigo ouvir nada além do ronco crescente dos motores.
— Vamos! — Farley grita, surgindo na traseira do avião. Ela se joga no assento mais próximo e afivela o cinto com mãos trêmulas.
Cal não precisa escutar duas vezes. Seus dedos dobram de velocidade, girando e apertando botões como se os gestos fossem parte da sua natureza. Mas eu o ouço murmurar consigo mesmo, como se fosse uma oração, os passos que precisa lembrar. O Abutre se projeta para a frente, as rodas se põem em movimento e a rampa traseira sobe para o seu lugar, fechando a aeronave com um chiado pneumático animador. Não há mais como voltar.
— Muito bem, vamos fazer esta coisa voar — Cal diz, recostando-se no assento do piloto com um movimento quase entusiasmado. Sem aviso, ele pega uma alavanca do painel e a empurra para a frente.
E o jato obedece. Segue adiante, rumo aos soldados.
Cerro os dentes, à espera de uma cena brutal, mas eles já estão correndo, fugindo do Abutre e do piloto vingativo.
Arrancamos do hangar, ganhando velocidade a cada segundo, mas deparamos com um caos completo na pista. Veículos aceleram dos galpões na nossa direção, e uma corajosa tropa de soldados atira do alto do hangar.
As balas sibilam no corpo de metal, incapazes de perfurá-lo. O Abutre é feito de um material resistente e continua adiante, fazendo uma curva para a direita que nos chacoalha nos assentos.
Kilorn se dá mal com a manobra, já que não afivelou direito o cinto de segurança. Bate a cabeça contra a parede, xingando enquanto massageia a bochecha inchada.
— Tem certeza de que sabe pilotar esta coisa? — urra, direcionando toda a raiva para Cal.
Com um ar de gozação, Cal acelera mais, fazendo o jato chegar ao limite de velocidade. Pela janela, assisto aos veículos ficando para trás, incapazes de nos acompanhar. À frente, a pista, uma tosca estrada cinza, se aproxima do fim. As colinas verde-claras e as árvores retorcidas nunca pareceram tão ameaçadoras.
— Cal! — chamo, na esperança de que ele me ouça por cima do rugido dos motores. — Cal!
Atrás de mim, Kilorn mexe no cinto de segurança, mas seus dedos estão tremendo demais para fazer qualquer coisa útil.
— Barrow, você ainda tem um salto? — ele grita, com os olhos no meu irmão.
Shade parece não escutar. Ele observa fixamente a pista à frente, e seu rosto está pálido de medo. As colinas se aproximam; estão a segundos de distância agora. Imagino o jato avançando contra elas, firme até capotar e explodir num desastre monumental.
Cal pelo menos sobreviveria.
Mas ele não vai nos deixar morrer. Não hoje. Ele puxa outra alavanca com tanta força que as veias do seu punho saltam da pele. Então as colinas somem, como uma toalha arrancada abruptamente de uma mesa. Já não vejo a ilha, mas o céu azul do outono. Meu fôlego desaparece com a terra, substituído pela sensação de ser erguida no ar. A pressão me faz colar no assento e me dá uma leve dor no ouvido. Atrás de mim, Kilorn abafa um gemido e Shade murmura uns palavrões. Farley não demonstra qualquer reação. Está congelada, os olhos arregalados de choque.
Já experimentei muita coisa estranha nos últimos meses, mas nada se compara a voar. É um contraste gritante: sentir o impulso enorme da aeronave em ascensão e cada giro do motor nos jogando para o céu, enquanto meu próprio corpo permanece tão impotente, passivo e dependente do mecanismo ao meu redor. É pior do que a moto veloz de Cal, mas melhor ao mesmo tempo. Mordo o lábio e faço questão de não fechar os olhos.
Subimos e subimos, sem ouvir nada exceto o ronco dos motores e as marteladas dos nossos corações. Tufos de nuvem deslizam à nossa volta, abrindo-se como cortinas brancas ao se chocarem com a cabine. Não consigo evitar me inclinar para a frente, quase encostando o nariz contra o vidro para ter uma boa visão lá de fora. A ilha agita-se lá embaixo, um verde morto rasgando o azul férreo do mar, encolhendo a cada segundo até eu não poder distinguir mais a pista ou os galpões.
Depois de nivelar o avião, ao atingir sabe-se lá que altitude, Cal gira o assento e se vira para nós. A expressão convencida em seu rosto deixaria Maven orgulhoso.
— E aí? — diz, encarando Kilorn. — Será que sei pilotar esta coisa?
Um “sim” resmungado é tudo que obtém como resposta, mas é o bastante para Cal. Ele vira o assento de novo e pousa as mãos sobre o mecanismo em forma de U no centro do painel. O jato responde ao toque, baixando suavemente à medida que Cal movimenta o U.
Quando se dá por satisfeito, aperta mais alguns botões no console e se recosta no assento, passando a impressão de que vai deixar o avião voar sozinho. Ele até solta o cinto de segurança e o joga para o lado para ficar mais confortável.
— E então, para onde vamos? — ele pergunta para o silêncio da aeronave. — Ou a gente só queria botar as asas de fora?
Estremeço com o trocadilho.
Um estalo ecoa pelo jato quando Kilorn solta uma pilha de papéis nos joelhos. Mapas.
— São do coronel — explica, com os olhos fixos nos meus. Tentando me fazer entender. — Há uma pista de aterrissagem perto de Harbor Bay.
Mas Cal balança a cabeça, como um professor irritado com um aluno burro.
— Você quer dizer o Forte Patriota? — desdenha. — Você quer que a gente aterrisse no meio de uma base aérea de Norta?
Farley é a primeira a levantar do assento, num movimento tão brusco que quase arrebenta as fivelas do cinto.
— Sim, somos completamente idiotas, alteza — ela diz, seca. Então desdobra um dos mapas e praticamente o esfrega no nariz de Cal. — Não é no forte. É o Campo Nove-Cinco.
Cerrando os dentes para não responder à altura, Cal toma o mapa com cuidado e examina as linhas e cores do papel. Depois de um instante, começa a gargalhar.
— O que foi? — pergunto, arrancando o mapa da mão dele. Diferente do pergaminho antigo e indecifrável na velha sala de aula de Julian, este mapa exibe nomes e locais familiares.
A cidade de Harbor Bay domina o sul, beirando o oceano, enquanto o Forte Patriota ocupa uma península que se estende pelo mar. Uma faixa marrom e grossa ao redor da cidade, uniforme demais para ser natural, só pode ser outra barreira de árvores. Como em Archeon, os verdes criaram florestas estranhas para proteger Harbor Bay da poluição. Neste caso, provavelmente para protegê-la de Cidade Nova, a área que abraça a barreira como um cinto, formando uma muralha ao redor da periferia de Harbor Bay.
Outra favela, percebo. Como a Cidade Cinzenta, onde vermelhos vivem e morrem sob um céu cheio de fumaça, forçados a construir transportes, lâmpadas, jatos e toda e qualquer coisa que os prateados são incapazes de compreender. Os técnicos não têm autorização para sair de suas cidades, nem mesmo para se alistar no exército. São capacitados demais para serem perdidos na guerra, ou por causa do livre-arbítrio.
A lembrança da Cidade Cinzenta incomoda, mas saber que ela não é a única abominação do tipo corta ainda mais fundo. Quantos não vivem nos confins daquela favela? Ou dessa? Quantos como eu, aliás?
Sinto o gosto da bile subir pela garganta, mas engulo em seco, me obrigando a desviar o olhar. Examino as regiões vizinhas, quase todas de vilarejos operários, com algumas cidades pequenas aqui e ali e uma floresta densa pontilhada de ruínas abandonadas. Mas não encontro o Campo Nove-Cinco em nenhuma parte do mapa.
Deve ser segredo, como tudo que diz respeito à Guarda Escarlate.
Cal percebe minha confusão e se permite uma última risada.
— Sua amiga quer que eu aterrisse o Abutre na porcaria de uma ruína — diz afinal, batucando de leve no mapa.
Seu dedo indica uma linha pontilhada, o símbolo de uma das enormes estradas dos tempos remotos. Cheguei a ver uma delas uma vez, quando Shade e eu nos perdemos nos bosques perto de Palafitas. Toda rachada pelo gelo de mil invernos e esbranquiçada por séculos de sol, parecia mais uma trilha de pedregulhos do que uma antiga via expressa. Um punhado de árvores crescia bem no meio dela, forçando o caminho através do asfalto. A ideia de pousar um jato num lugar como aquele me dá frio na barriga.
— É impossível — gaguejo ao imaginar todas as formas de morrer ao tentar aterrissar numa estrada velha.
Concordando com a cabeça, Cal tira o mapa da minha mão com um movimento rápido. Ele o abre por inteiro, e seus dedos começam a dançar pelas diversas cidades e rios enquanto os examina.
— Com Mare, não precisamos pousar aqui. Podemos demorar, recarregando as baterias sempre que precisarmos e voando por quanto tempo quisermos, quão longe quisermos — ele diz, dando de ombros. — Ou até as baterias pararem de segurar a carga.
Outro jato de pânico atravessa meu corpo.
— E depois de quanto tempo isso aconteceria?
Ele responde esboçando um sorriso:
— Os Abutres começaram a ser usados há dois anos. Na pior das hipóteses, esta belezinha aqui tem mais dois pela frente.
— Não me assuste desse jeito — reclamo.
Dois anos, penso. Poderíamos dar uma volta ao mundo. Ver Prairie, Tiraxes, Montfort, Ciron... terras que são apenas nomes no mapa. Poderíamos ver tudo.
Mas isso é apenas um sonho. Tenho uma missão, sanguenovos para proteger e uma dívida real a saldar.
— Então, por onde começamos? — Farley pergunta.
— Deixamos a lista decidir. Você está com ela, não está? — pergunto, me esforçando ao máximo para não soar receosa. Se o caderno de nomes de Julian estiver em Tuck, então nosso passeio vai terminar antes mesmo de começar. Não posso dar um passo sequer sem ele.
Kilorn responde no lugar de Farley, sacando o caderno familiar da camisa. Ele o atira na minha direção e eu agarro com um ar desafiador. A capa ainda conserva o calor do meu amigo.
— Peguei do coronel — ele diz, forçando um tom de voz despreocupado. Mas o orgulho, por menor que seja, acaba vazando pelas suas palavras.
— No alojamento dele? — pergunto, lembrando do abrigo debaixo do mar.
Mas Kilorn nega com a cabeça.
— Ele é esperto demais para isso. Deixava trancado no arsenal do galpão, com a chave da corrente dele.
— E você...?
Com um sorriso satisfeito, ele baixa a gola da camisa e revela a corrente de ouro no pescoço.
— Posso não ser um batedor de carteiras tão bom quanto você, mas...
— Já planejávamos roubar o cordão em algum momento — Farley diz —, mas quando prenderam você, tivemos de improvisar. E rápido.
— Ah... — É a minha única reação. Então foi para isso que serviram minhas poucas horas na cela. Confie em mim, Kilorn disse antes de me enganar na porta da cela. Agora me dou conta de que ele fez aquilo pela lista, pelos sanguenovos e por mim. — Muito bom — sussurro.
Kilorn finge que não é nada, mas seu sorriso entrega o quanto está feliz em ouvir isso.
— Sim, muito bom, mas agora fico com isso, se você não se importa — Farley diz com o tom mais doce que já ouvi sair dela.
Ela nem espera Kilorn responder e já estende o braço para pegar a corrente num movimento ligeiro e calculado. O ouro cintila na mão dela, mas logo desaparece dentro de um bolso. Farley repuxa um pouco os lábios, o único indício de como a corrente do pai a afeta. Não, não é dele. Não de verdade. A fotografia na sala do coronel é prova disso. A corrente era da mãe ou da irmã dela, e sabe-se lá por que Farley não está usando agora.
Ao erguer a cabeça, a expressão de Farley está normal, e seu jeito grosseiro reaparece.
— Bom, garota elétrica, quem está mais perto do Nove-Cinco? — ela pergunta, com o queixo esticado na direção do caderno.
— Não vamos pousar no Nove-Cinco — Cal diz firme, mas imperioso.
Tenho que concordar com ele.
Quieto até agora, Shade geme em seu assento. Não está pálido, mas vagamente verde. É quase cômico: ele tira o teletransporte de letra, mas parece que o voo vai acabar com ele.
— O Nove-Cinco não é uma ruína — Shade diz, se esforçando para não vomitar. — Já esqueceu de Naercey?
Cal solta o ar devagar, esfregando o queixo com a mão. A barba dele está começando a despontar, uma sombra escura espalhada pelo maxilar e pelas bochechas.
— Vocês recapearam.
Farley faz um sim devagar com a cabeça e sorri.
— E não dava para dizer isso logo de cara? — reclamo, arrancando o sorriso convencido do rosto dela. — Você sabe que ninguém aqui vai ganhar pontos extras sendo dramático, Diana. Cada segundo que você gasta se sentindo superior pode significar a morte de um sanguenovo.
— E cada segundo que você gasta me questionando, questionando Kilorn e Shade sobre qualquer coisa, até sobre o ar que respira, o efeito é o mesmo, garota elétrica — ela diz, diminuindo a distância entre nós. Ela me cobre com a sua altura, mas não me sinto pequena.
Com a confiança fria forjada por Lady Blonos e pela corte prateada, olho bem para ela sem esboçar nenhum calafrio.
— Me dê motivos para confiar em você, então confiarei.
Até parece.
Depois de um tempo, ela balança a cabeça e recua, abrindo espaço suficiente para eu respirar.
— O Nove-Cinco era uma ruína — ela explica. — E quem for curioso o bastante para visitar o lugar vai ver apenas um trecho de estrada abandonado, dois quilômetros de asfalto que ainda não arrebentaram. — Ela começa a apontar para outras estradas em ruínas no mapa. — Não é o único lugar assim.
Uma rede variada corta o mapa em todas as direções, sempre oculta nas antigas ruínas, mas perto das cidades pequenas e dos vilarejos. “Proteção” é o nome que Farley dá, porque a presença da polícia é mínima e os vermelhos do interior tendem a fingir que não veem nada. Talvez nem tanto agora, com as Medidas em vigor, mas com certeza antes de o rei decidir levar ainda mais crianças.
— O Abutre e o Dragão foram os primeiros jatos que roubamos, mas chegarão mais — ela acrescenta, com um orgulho discreto.
— Não teria tanta certeza disso — Cal responde, sem ser hostil, apenas pragmático. — Depois do roubo em Delphie, vai ser ainda mais difícil entrar numa base, quanto mais numa cabine.
De novo, Farley sorri, totalmente convicta dos segredos que custou a merecer.
— Em Norta, sim. Mas as bases aéreas de Piedmont têm uma segurança lamentável.
— Piedmont? — Cal e eu soltamos ao mesmo tempo.
A nação aliada ao sul é distante demais, mais distante que Lakeland. Deveria estar bem longe do alcance dos agentes da Guarda Escarlate. Dá para acreditar que é possível contrabandear bens de lá; vi as caixas com meus próprios olhos. Mas uma infiltração? Soa... impossível.
Farley discorda.
— Os príncipes de Piedmont estão totalmente convencidos de que a Guarda Escarlate é problema só de Norta. Felizmente para nós, estão equivocados. A cobra tem muitas cabeças.
Mordo o lábio para não soltar uma exclamação de surpresa e conservar o pouco que ainda resta da minha máscara. Lakeland, Norta, e agora Piedmont? Meus sentimentos se dividem entre admiração e medo diante de uma organização tão grande e tão paciente que se infiltrou não apenas em uma, mas em três nações soberanas governadas por reis e príncipes prateados.
Eles não são o bando simplório e desorganizado de fanáticos que imaginei. São uma máquina, grande e bem lubrificada, funcionando por mais tempo do que qualquer pessoa julgava possível.
Onde foi que me meti?
Para evitar que meus pensamentos marejem meus olhos, folheio o caderno com os nomes. Fico mais calma ao ver o nome e o paradeiro de cada sanguenovo em Norta entre os estudos de arqueologia de Julian. Se eu conseguir recrutá-los e mostrar ao coronel que não somos prateados, que não precisam nos temer, então teremos chance de mudar o mundo.
E Maven não terá chance de matar mais ninguém em meu nome. Não vou carregar o peso de mais mortes.
Cal inclina a cabeça para perto de mim, mas não para olhar as páginas do caderno. Em vez disso, observa minhas mãos, meus dedos correndo pela lista. O joelho dele roça no meu, e sinto o calor mesmo através das calças esfarrapadas. Apesar de ele não falar nada, entendo o que quer dizer. Como eu, ele sabe que existem muito mais coisas do que nossos olhos enxergam, mais do que sequer somos capazes de compreender.
Fique atenta, é o que diz seu toque.
Devolvo o cutucão.
Eu sei.
— Coraunt — digo em voz alta, interrompendo o movimento do meu dedo. — Coraunt fica perto da pista Nove-Cinco?
Farley nem se dá ao trabalho de procurar o vilarejo no mapa. Não precisa.
— Perto o bastante.
— O que há em Coraunt, Mare? — Kilorn pergunta, se aproximando do meu ombro. Ele toma cuidado para manter distância de Cal, e pareço um muro entre os dois.
As palavras pesam. Minhas ações podem libertar esse homem. Ou condená-lo.
— O nome dele é Nix Marsten.

19 comentários:

  1. Preocupada com os pais e a irmã dela o.o"

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    1. Pensei o msm,mas os irmãos dela estão lá, então acho q não vão fazar nada mt graver...

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  2. Ai meu kokoro 🤔😣😓

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  3. Nossa tem muitos segredos a guarda escarlate acho q vamos ser surpreendios a cada capitulo

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  4. Eu num sei não, mas eu sei lá.

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  5. Vamo na fé ne!
    Quase matei o Kilorn eu mesma ;u;
    Pode me dar um susto desses naum minino _-_

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  6. Cerro os dentes, à espera de uma cena brutal, mas eles já estão correndo, fugindo do Abutre e do "piloto vingativo". Kkkkkkkk Ri alto !!

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  7. Acho que eles precisam voltar pra família dela logo, estou com mau pressentimento.
    Lá vamos nós convocar mutantes para a escola Xavier! kkk
    ~polly~

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  8. Só eu que não imagino Cal com barba?

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    1. Eu também não! O máximo que imagino é aquela barba rala, de uns dias

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    2. Karina eu amei que VC tenha colocado a saga da rainha vermelha kawaiiiii eu amo esse livro mais só uma pergunta VC coloca Rudo que ta escrito no livro palavra por palavra ou VC modifica algumas palavras?

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    3. Os livros estão iguais aos da editora

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    4. Também n consigo!

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  9. Amo ler esses comentários... KKKKK
    "Lá vamos nós convocar mutantes para a escola Xavier" Esse foi o melhor! KK

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    1. Tbm amo Maisa ! Quem sabe a gente não consegue achar a Dim( n sei escrever o nome dela)

      Apaixonada por livros

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  10. "A cobra tem muitas cabeças." Cuidado garota, é a Hydra
    "Nix" gostei do nome, dá a impressão d q ele vai ser top e imprevisível

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  11. Muito louka essa saga 😱😱😱

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  12. Amando demais 😍😍

    O quarto livro já lançou?

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Boa leitura :)