3 de março de 2017

Capítulo nove

LADY MAREENA TITANOS, filha de Lady Nora Nolle Titanos e Lord Ethan Titanos, general da Legião de Ferro. Herdeira da Casa Titanos. Mareena Titanos. Titanos.
Meu novo nome ecoa em minha cabeça enquanto as criadas vermelhas me preparam para o massacre iminente. As três trabalham com rapidez e eficiência, nunca conversam. Também não fazem perguntas, embora devam ter vontade. Não fale nada. Elas não têm autorização para conversar comigo, e com certeza não têm autorização para falar sobre mim com ninguém. Nem sobre as coisas estranhas — vermelhas — que com certeza notam.
Por muitos e agonizantes minutos elas tentam me tornar apropriada: tomo banho, me vestem, me transformam na bonequinha que devo ser. O pior é a maquiagem, especialmente o produto branco e grosso que aplicam à minha pele. Usam três potes para cobrir o rosto, o pescoço, o colo e os braços com esse pó úmido e brilhante. Ao me encarar no espelho, fico com a impressão de que todo o calor foi sugado de meu corpo, como se o pó ocultasse a temperatura da minha pele. Respiro fundo quando me dou conta de que não posso mais corar, de que preciso esconder o rubor da minha pele, o sangue vermelho. Vou fingir que sou prateada e de fato, quando terminam de pintar meu rosto, fico bem parecida com uma. A nova pele pálida, os olhos e lábios escurecidos me dão um ar frio, cruel, uma lâmina viva. Pareço prateada. Pareço linda. E odeio isso.
Quanto vai durar? Estou prometida a um príncipe. Soa loucura até em pensamento.
Nenhum prateado em sã consciência casaria com você, quanto mais um príncipe de Norta. Nem para acalmar uma rebelião nem para esconder sua identidade nem para nada.
Então por que fazer isso?
Quando as criadas me pegam e me enfiam num vestido de gala, tenho a sensação de ser um cadáver vestido para o funeral. Sei que não estou longe da verdade. Vermelhas não casam com príncipes prateados. Jamais usarei coroa e sentarei no trono. Algo vai acontecer, um acidente talvez. Uma mentira me levanta e, um dia, outra vai me derrubar.
O vestido é de tons de lilás escuro salpicados com prata, todo feito de seda e bordados.
Todos as Casas têm uma cor. A imagem do arco-íris de famílias me vem à mente. As cores de Titanos, minha Casa, devem ser lilás e prata.
Uma das criadas toca meus brincos, na tentativa de arrancar o último pedacinho da minha antiga vida. Surto de medo.
— Não toque neles!
A moça dá um salto para trás e pisca atônita. As outras duas congelam com meu grito.
— Perdão, eu...
Um prateado não pediria desculpas.
Limpo a garganta e me recomponho.
— Deixe os brincos — minha voz sai forte e dura. Nobre. — Você pode trocar tudo, menos os brincos.
As três peças de metal barato — cada uma de um irmão — não vão a lugar algum.
— A cor combina com você.
Olho para trás e dou com as criadas curvadas em reverências idênticas. De pé, diante delas, está Cal. De repente fico feliz com o fato de a maquiagem cobrir o vermelho das minhas bochechas.
Com um movimento rápido da mão ele as dispensa, e elas correm do quarto como ratos fugindo do gato.
— Sou meio nova nessa coisa de realeza, mas não sei se você deveria estar aqui. No meu quarto — digo, forçando o máximo de desdém que consigo na minha voz. Afinal, a culpa por eu estar nessa bagunça é toda dele.
Cal dá uns passos em minha direção enquanto eu, por instinto, dou um passo para trás. Meus pés enroscam na bainha do vestido e tenho que escolher entre ficar parada ou levar um tombo.
Não sei o que desejo menos.
— Vim pedir desculpas, algo que não há como fazer durante uma audiência.
Ele interrompe sua fala ao perceber meu desconforto. Um músculo se contrai em seu rosto. Cal me examina com o olhar, talvez recordando a garota perdida que tentou bater sua carteira há apenas uma noite. Não pareço com ela em nada agora.
— Sinto muito ter envolvido você nisso, Mare.
— Mareena — o nome até soa errado. — É assim que me chamo agora, lembra?
— Que bom que Mare é um apelido adequado.
— Não acho nada em mim adequado.
Os olhos de Cal me atravessam, e minha pele arde sob seu olhar.
— O que achou de Lucas? — ele diz afinal, recuando educadamente.
O guarda Samos, o primeiro prateado decente que conheci aqui.
— Ele é normal, acho. Talvez a rainha resolva trocá-lo se eu revelar como foi gentil comigo.
— Ele é um homem bom. Sua família o considera fraco por essa bondade — Cal comenta. Seus olhos escurecem um pouco, como se conhecesse a sensação. — Mas ele a servirá bem e com justiça. Garanto.
Que prestativo. Ele me deu um carcereiro gentil. Dobro a língua. De nada adiantaria ironizar sua misericórdia.
— Obrigada, alteza.
Seus olhos tornam a brilhar, e um sorriso surge em seus lábios.
— Você sabe que meu nome é Cal.
— E você sabe meu nome, não? — interrogo, amarga. — Sabe de onde venho.
Ele mal confirma com a cabeça, como que envergonhado.
— Você precisa cuidar deles.
Minha família. Seus rostos surgem em minha mente, já tão distantes.
— De todos eles, por quanto tempo puder.
— Claro que cuidarei.
Antes de continuar, o príncipe dá um passo na minha direção, preenchendo o espaço entre nós.
— Sinto muito — diz mais uma vez.
As palavras ressoam na minha cabeça e evocam uma lembrança.
A parede de fogo. A fumaça sufocante. Sinto muito. Sinto muito. Sinto muito.
Foi Cal que me capturou ontem, que evitou minha fuga deste lugar terrível.
— Sente muito por ter acabado com minha única chance de escapar deste lugar?
— E você iria passar pelos sentinelas, pela segurança, pelas muralhas, pela floresta, chegar a Palafitas e esperar até que a rainha em pessoa saísse à sua caça? — ele responde, impassível diante da acusação. — Detê-la foi o melhor para você para sua família.
— Eu teria conseguido. Você não me conhece.
— Sei que a rainha reviraria o mundo para encontrar a menininha elétrica.
— Não me chame assim. — O apelido dói mais que o nome falso a que ainda estou me acostumando. — É assim que sua mãe me chama.
Ele solta uma gargalhada amarga.
— Ela não é minha mãe. É mãe de Maven, não minha.
A tensão em seu rosto mostra que é melhor encerrar o assunto.
— Ah — é tudo o que consigo dizer. A voz sai fraca e logo se desfaz num eco tênue contra a abóbada do quarto.
Observo ao redor pela primeira vez desde minha chegada. O quarto é mais elegante do que qualquer lugar que já tenha visto na vida: mármore e vidro, seda e plumas. A luz mudou, assumindo a cor alaranjada do pôr do sol. A noite chega. E, com ela, o resto da minha vida.
— Acordei esta manhã como uma pessoa — balbucio, mais para mim do que para ele —, e agora tenho que ser outra pessoa completamente diferente.
— Você consegue.
Ele se aproxima mais uma vez. Seu calor preenche o ambiente de um jeito que irrita minha pele. Mas não levanto a cabeça. Não.
— Como você sabe?
— Porque você precisa.
Ele morde o lábio, passando os olhos sobre mim.
— Este mundo é tão perigoso quanto belo — começa. — Quem não é útil, quem comete erros, pode ser descartado. Você pode ser descartada.
E serei. Algum dia. Mas essa não é a única ameaça diante de mim.
— Então, o instante em que eu der um passo em falso pode ser meu último?
Ele não fala, mas posso ver a resposta em seu olhar. Sim.
Levo a mão até minha cinta de prata e a aperto mais um pouco. Se fosse um sonho, eu acordaria. Mas não. É real.
— E eu? E... — estendo as mãos, olhando espantada para aquelas coisas infernais — ... isto?
Cal responde com um sorriso.
— Acho que você vai aprender a lidar.
Ele ergue a mão. Há um dispositivo estranho em seu punho, uma espécie de bracelete com duas pontas de metal que faz um clique e solta faíscas. Em vez de desaparecer num piscar de olhos, as faíscas brilham até se transformar num fogo vermelho e produzir uma explosão de calor.
Ele é um ardente. É um príncipe, e um príncipe perigoso. Mas as chamas desaparecem tão rápido quanto vieram. Permanecem apenas o sorriso encorajador de Cal e a vibração das câmeras, escondidas em algum lugar, observando tudo.


Os sentinelas mascarados que observo pelo canto do olho são um lembrete constante da minha nova posição. Sou quase uma princesa, noiva do segundo solteiro mais cobiçado do país. E sou uma mentira. Cal já saiu há muito tempo, deixando-me a sós com os guardas. Lucas não é mau, mas os outros são severos e calados, nunca me encaram nos olhos. Os guardas, incluindo Lucas, são guardiões que me mantêm aprisionada sob minha própria pele. Uma pele vermelha atrás de uma cortina prateada que não pode jamais ser aberta. Se eu cair, se escorregar, morro. E outros morrerão por causa da minha falha.
Conforme me escoltam até o banquete, repasso a história que a rainha enfiou na minha cabeça, o belo conto que narrei à corte. É simples, fácil de lembrar, mas ainda me faz tremer.
Nasci na frente de batalha. Meus pais foram mortos num ataque ao acampamento. Um soldado vermelho me salvou dos escombros e me levou para sua casa, pois sua mulher sempre quis uma filha. Criaram-me num vilarejo chamado Palafitas, e vivi na ignorância dos meus direitos de nascença e dos meus poderes até esta manhã. Agora, fui devolvida ao meu lugar de direito.
Sinto náuseas só de pensar. Meu lugar de direito é em casa, com meus pais, Gisa e Kilorn. Não aqui.
Os sentinelas me conduzem por um labirinto de passagens nos andares superiores do palácio. Como o Jardim Espiral, a arquitetura é toda de curvas de pedra, vidro e metal, que aos poucos o inclinam para baixo. Os cristais de diamante estão em todo canto, revelando uma vista capaz de tirar o fôlego: o mercado, o vale e as florestas além. Dessa altura, posso avistar as montanhas que desconhecia se erguerem à distância e recortarem o sol com sua sombra.
— Os últimos dois andares são os aposentos reais — Lucas explica, apontado para um corredor espiralado e íngreme. O sol brilha forte e salpica luz sobre nós. — O elevador nos levará até o salão de festas. É logo ali.
Lucas estende o braço e para diante de uma parede de metal. Enxergamos nosso reflexo nela perfeitamente. Desliza para o lado com um aceno do guarda.
Os sentinelas nos conduzem para dentro de uma caixa de metal sem janelas e com pouca luz. Forço-me a respirar, muito embora minha vontade seja sair daquele caixão de metal gigante.
Pulo de susto quando o tal elevador começa a mover-se. Meu coração dispara, minha respiração fica irregular e arregalo os olhos na expectativa de ver os outros reagirem da mesma maneira. Mas ninguém parece se incomodar com o fato de a caixa onde estamos estar despencando. Apenas Lucas percebe meu desconforto e então diminui um pouco a velocidade.
— O elevador sobe e desce para que não precisemos andar. Este lugar é muito grande, Lady Titanos — ele sussurra com um pequeno sorriso.
Alterno medo e admiração durante nossa descida, e respiro aliviada quando Lucas abre as portas. Avançamos pelo corredor espelhado por onde corri de manhã. Os espelhos quebrados já foram consertados. Parece que não aconteceu nada.
Quando a rainha Elara surge ao fim do caminho — com sua própria escolta de sentinelas a tiracolo —, Lucas desaba numa reverência. As roupas dela agora são pretas, vermelhas e prateadas, as cores do marido. O cabelo loiro e a pele pálida lhe dão uma aparência assombrosa.
Ela me segura pelo braço e me puxa para si conforme caminhamos. Seus lábios não se mexem, mas escuto sua voz ecoar em minha cabeça mesmo assim. Desta vez, não sinto dor ou náuseas, mas a impressão de que alguma coisa está errada permanece. Quero gritar, arrancá-la da minha mente. Mas não há nada que possa fazer a não ser odiá-la.
Os Titanos eram uma família de oblívios. Sua voz soa onipresente. Podiam explodir as coisas com um toque, como a Lerolan da Prova Real. Quando tento lembrar da garota, Elara projeta uma imagem dela diretamente no meu cérebro. É apenas um flash, uma vaga figura, mas ainda assim distingo uma jovem de laranja explodindo rochas e areia como se usasse bombas. Sua mãe, Nora Nolle, era uma tempestuosa como o restante da Casa Nolle. Os tempestuosos podem controlar o clima até certo ponto. Não é comum, mas a união de ambos resultou no seu poder único de controlar a eletricidade. Não diga mais nada caso alguém pergunte.
O que você realmente quer de mim? Minha voz vacila mesmo na minha cabeça.
Seu riso aparece dentro da minha cabeça; é a única resposta que obtenho.
Lembre-se da pessoa que você dever ser, e lembre-se bem, ela continua, ignorando minha pergunta. Você está fingindo que é uma prateada de sangue criada como vermelha. Você é agora vermelha na cabeça, prateada no coração.
Um calafrio de pensamentos percorre meu corpo.
De hoje até o fim dos seus dias, você precisa mentir. Sua vida depende disso, menininha elétrica.

10 comentários:

  1. Sinto muita pena dela, coitada.

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  2. Não consigo decidir se amo ou odeio essa rainha.

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  3. Essa rainha me lembra a Cersei de game of thrones

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    1. Cersei com um poder desses não precisaria explodir ninguém. Pensando bem com um poder desse nem se quer haveria um jogo do trono... quem seria louco de ir contra ele??? ainda bem que ela não tem.

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  4. Ameeeiiii esse Cal eles tem que arranjar um jeito de ficar juntos <3 <3

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Boa leitura :)