15 de março de 2017

Capítulo doze

Mare

MESES ATRÁS, quando os prateados fugiram do Palacete do Sol, assustados pelo ataque da Guarda Escarlate contra seu precioso baile, foi um ato unido. Partimos juntos, descendo o rio em sucessão para nos reagrupar na capital. Agora é diferente.
As exonerações de Maven vêm em blocos. Não fico sabendo de nada, mas noto os números diminuindo. Alguns conselheiros mais velhos ausentes. O tesoureiro real, alguns generais, membros de diversos conselhos. Dispensados de seus postos, dizem os boatos. Mas sei que não é bem assim. Eles eram próximos de Cal, próximos do pai dele. Maven é esperto em não confiar neles e implacável em suas destituições. Não os mata nem faz com que desapareçam. Não é idiota a ponto de deflagrar mais uma guerra entre as Casas. Mas é uma medida decisiva, para dizer o mínimo. Derrubar obstáculos como peças de um tabuleiro de xadrez. Os resultados são mesas que parecem bocas desdentadas. Buracos surgem, mais a cada dia. A maioria dos que são convidados a se retirar são mais velhos, homens e mulheres com lealdades antigas, que lembram mais e confiam menos no novo rei.
Há quem comece a falar em Corte das Crianças.
Muitos nobres foram embora, expulsos pelo rei, mas seus filhos e filhas foram deixados para trás. Uma exigência. Um alerta. Uma ameaça.
Reféns.
Nem mesmo a Casa Merandus escapa de sua paranoia crescente. Apenas a Casa Samos continua completa, sem que nenhum membro seja vítima das demissões tempestuosas do rei.
Os que ficam são devotados. Ou pelo menos fingem bem.
Deve ser por isso que, agora, Maven me convoca com mais frequência. Deve ser por isso que o vejo tanto. Sou a única em quem pode confiar. A única que realmente conhece.
Maven lê os relatórios no café da manhã, passando os olhos de um lado para o outro da página com uma velocidade intensa. É inútil tentar lê-los. Ele toma cuidado para mantê-los do seu lado da mesa. Quando termina, deixa-os virados e fora do meu alcance. É Maven que leio em vez dos relatórios. Ele não se dá ao trabalho de se cercar de Pedra Silenciosa, não aqui em sua sala de jantar particular. Mesmo os sentinelas esperam do lado de fora, posicionados em todas as portas e ao lado das janelas altas. Eu os vejo, mas eles não conseguem nos ouvir, como é a intenção de Maven. Seu uniforme está desabotoado, seu cabelo parece desgrenhado, e ele não usa a coroa a essa hora da manhã. Acho que é seu pequeno santuário, um lugar onde pode se iludir e se sentir seguro.
Maven quase parece o menino que eu imaginava ser real. O príncipe mais novo, satisfeito com sua posição, sem o fardo da coroa.
Pela beirada da taça de água, vejo todos os tiques e lampejos em seu rosto. Os olhos estreitos, a tensão no maxilar. Más notícias. As olheiras voltaram e, embora ele coma o suficiente para duas pessoas, devorando os pratos à nossa frente, parece ter definhado nos últimos dias. Eu me pergunto se tem pesadelos com a tentativa de assassinato. Com sua mãe, morta pelas minhas mãos. Com seu pai, morto por obra sua. Com seu irmão, no exílio, uma ameaça constante. Engraçado, Maven se dizia a sombra de Cal, mas Cal é a sombra agora, rondando todos os cantos do reinado frágil.
Há relatórios do príncipe exilado por toda parte, tão onipresentes que até eu fico sabendo deles. Cal foi avistado em Harbor Bay, Delphie, Rocasta; tem até informações duvidosas que insinuam que ele fugiu para Lakeland. Sinceramente, não sei qual dos rumores é verdade, se é que algum tem fundamento. Até onde sei, ele pode estar até em Montfort. Pode ter fugido para a segurança de uma terra distante.
Por mais que este seja o palácio de Maven, o mundo de Maven, vejo Cal em tudo. Nos uniformes imaculados, no treinamento dos soldados, nas velas flamejantes, nos retratos nas paredes e nas cores das Casas. Um salão vazio me lembra das aulas de dança. Se olho para Maven pelo canto do olho, consigo me iludir. Afinal, eles são meios-irmãos. Têm traços em comum. O cabelo escuro, os traços elegantes do rosto nobre. Mas Maven é mais pálido, mais afiado, um esqueleto em comparação, em corpo e alma. Ele está esgotado.
— Você encara tanto que fico achando que consegue ler pelo reflexo nos meus olhos — Maven diz de repente. Ele vira a página para baixo, escondendo o conteúdo e ergue os olhos.
Sua tentativa de me pegar de surpresa falha. Em vez disso, continuo passando uma quantidade vergonhosa de manteiga na torrada.
— Se ao menos eu pudesse ver alguma coisa nos seus olhos… — respondo. — Mas você é vazio.
Ele não se retrai.
— E você é inútil.
Reviro os olhos e bato as algemas distraidamente contra a mesa de café da manhã. Metal e pedra ecoam contra a madeira, como uma batida na porta.
— Nossas conversas são tão agradáveis.
— Se você prefere seu quarto… — ele alerta. Mais uma ameaça vazia que faz todos os dias. Nós dois sabemos que isto é melhor que a alternativa. Pelo menos agora posso fingir que estou fazendo algo de útil e ele pode fingir que não está completamente sozinho nesta prisão que construiu para si mesmo. Para nós dois.
É difícil dormir aqui, mesmo com as algemas, o que significa que tenho muito tempo para pensar.
E planejar.
Os livros de Julian não são apenas um consolo, mas uma ferramenta. Ele continua me ensinando, embora estejamos a sabe-se lá quantos quilômetros de distância. Nos volumes bem preservados, há lições a serem aprendidas e usadas. A primeira — e mais importante — é dividir para conquistar. Maven já está fazendo isso por mim.
Agora devo retribuir o favor.
— Você pelo menos está procurando Jon?
Maven chega a ficar surpreso com a pergunta, a primeira menção ao sanguenovo que aproveitou a tentativa de assassinato para escapar. Até onde sei, ele não foi capturado.
Parte de mim sente rancor. Jon fugiu, mas eu não. Ao mesmo tempo, estou contente. Ele é uma arma que quero longe de Maven Calore.
Depois de uma fração de segundo, o rei se recupera e volta a comer. Enfia um pedaço de bacon na boca, deixando a etiqueta de lado.
— Nós dois sabemos que ele não é fácil de encontrar.
— Mas você está procurando.
— Ele tinha conhecimento de um ataque contra seu rei e não fez nada — Maven declara, prático. — Isso é o mesmo que assassinato. Até onde sabemos, pode ter conspirado com as Casas Iral, Haven e Laris.
— Duvido. Se ele tivesse ajudado, teriam sido bem-sucedidos. É uma pena.
Maven ignora a farpa, continuando a ler e comer.
Inclino a cabeça, deixando o cabelo escuro cair sobre o ombro. As pontas cinzentas estão se espalhando, subindo apesar dos esforços da minha curandeira. Nem a Casa Skonos consegue curar o que já está morto.
— Jon salvou minha vida.
Seus olhos azuis encontram os meus, rígidos.
— Segundos antes do ataque, ele chamou minha atenção. Me fez virar a cabeça. Senão… — Toco a bochecha, onde a bala passou de raspão em vez de destroçar meu crânio. O ferimento cicatrizou, mas não foi esquecido. — Devo representar um papel no futuro que ele enxerga, seja lá qual for.
Maven se concentra no meu rosto. Não nos meus olhos, mas no lugar onde a bala teria atingido minha cabeça.
— Não sei por quê, mas você é uma pessoa difícil de deixar morrer.
Pelas aparências, forço um riso curto e amargurado.
— Qual é a graça?
— Quantas vezes você tentou me matar?
— Só aquela.
— E o sonador foi o quê? — Meus dedos tremem com a lembrança. A dor do aparelho ainda está fresca na minha memória. — Só parte de um jogo?
Outro relatório se agita sob o sol, virado para baixo. Ele lambe o dedo antes pegar o próximo. Tudo trabalho. Tudo aparências.
— O sonador não foi projetado para matar. Só para incapacitar você, se fosse necessário. — Uma expressão estranha perpassa seu rosto. Quase arrogante, mas não exatamente. — Nem fui eu que construí aquela coisa.
— Claro. Você não é muito criativo. Foi Elara?
— Na verdade, foi Cal.
Ah. Antes que eu possa evitar, abaixo a cabeça e desvio o olhar, precisando de um momento sozinha. A traição arde dentro de mim, mesmo que por um segundo. Não adianta nada ter raiva agora.
— Não acredito que ele não te contou. — Maven insiste. — Ele normalmente se orgulha tanto de si. É uma coisa brilhante mesmo. Mas não ligo para o aparelho. Mandei destruir aquilo. — Seus olhos estão fixos no meu rosto. Sedentos por uma reação. Não deixo meu semblante mudar, apesar do salto súbito no meu coração. O sonador foi destruído. Mais um presentinho, mais uma mensagem do fantasma. — Mas pode ser reconstruído facilmente. Cal fez a gentileza de deixar o projeto quando fugiu com seu bando de ratinhos vermelhos.
— Escapou — murmuro. Pare. Não deixe ele te abalar. Fingindo desinteresse, mexo na comida no prato. Faço o possível para parecer magoada, como Maven quer que eu esteja, mas não vou me permitir sentir isso de fato. Tenho que seguir o plano. Mudar o rumo da conversa para onde quero. — Você o obrigou a ir embora. Tudo para poder assumir seu lugar e fazer exatamente o que ele faria.
Assim como eu, Maven força uma risada para esconder como está irritado.
— Você não faz ideia do que Cal teria feito com a coroa na cabeça.
Cruzo os braços, recostando de volta na cadeira. Está tudo correndo como o planejado.
— Sei que ele teria se casado com Evangeline Samos, continuado a combater uma guerra inútil e a ignorar um país cheio de gente furiosa e oprimida. Soa familiar?
Maven pode ser uma cobra em forma humana, mas nem ele tem resposta para isso. O jovem rei dá um tapa no relatório à sua frente. Rápido demais. O relatório vira, apenas por um segundo, então ele o esconde de volta. Vejo apenas algumas palavras de relance. Corvium. Mortos e feridos. Maven me vê olhar e solta um suspiro irritado.
— Como se fosse te ajudar — ele diz baixo. — Você não vai a lugar nenhum, então por que se importa?
— Acho que você está certo. Não vou durar muito mesmo.
Ele vira a cabeça. A preocupação franze sua testa, como eu pretendia. Como necessito.
— Por que diz isso?
Olho para o teto, examinando o friso elaborado e o lustre sobre nós. Chameja com pequenas lâmpadas elétricas. Se ao menos eu as pudesse sentir.
— Você sabe que Evangeline não vai me deixar viver. Quando virar rainha… será meu fim. — Minha voz estremece e coloco todo o meu medo nas palavras. Tomara que dê certo. Ele tem que acreditar em mim. — É o que ela quis desde o dia que apareci em sua vida.
Maven me encara.
— Acha que não vou te proteger?
— Acho que você não tem como. — Meus dedos beliscam o vestido. Não é tão bonito quanto os feitos para a corte, mas é bastante elaborado. — Nós dois sabemos como é fácil matar uma rainha.
Sinto ondas de calor no ar enquanto ele continua a me encarar, me desafiando a enfrentar seus olhos. Meu instinto natural é encarar de volta, mas viro o rosto, me recusando a isso. Só vai deixá-lo mais furioso. Maven adora um público. O momento se estende e me sinto despida diante dele, presa no caminho de um predador. É isso que sou aqui. Estou enjaulada, amarrada, encoleirada. Tudo o que tenho é a minha voz e pedaços de Maven que torço para serem reais.
— Ela não vai encostar em você.
— E quanto a Lakeland? — Ergo a cabeça novamente. Lágrimas de raiva e frustração brotam nos meus olhos, não de medo. — Quando destroçarem seu reino já em ruínas? O que vai acontecer quando vencerem essa guerra infinita e transformarem seu mundo em pó? — Solto um suspiro trêmulo. As lágrimas caem livremente agora. Precisam cair. Tenho que dar tudo de mim para convencer. — Acho que vamos acabar juntos no Ossário, executados lado a lado.
Pela maneira como fica pálido, como a pouca cor deixa seu rosto, sei que ele pensa o mesmo. Isso o atormenta sem parar, como uma ferida aberta. Então giro a faca.
— Você está à beira de uma guerra civil. Até eu sei disso. De que adianta fingir que há uma possibilidade de eu sair viva daqui? Ou Evangeline me mata ou a guerra.
— Já falei que não vou deixar isso acontecer.
O rosnado que solto contra ele não precisa ser falso.
— Em que vida posso confiar em qualquer coisa que saia da sua boca de novo?
Quando ele levanta, o frio que se acumula na minha barriga tampouco é falso. Enquanto dá a volta na mesa, aproximando-se de mim com passos largos e elegantes, contraio todos os músculos para não estremecer. Mas não consigo evitar. Me preparo para um soco quando ele pega meu rosto nas mãos perturbadoramente macias, com ambos os polegares firmes sob minha mandíbula, a poucos centímetros da minha jugular.
Seu beijo queima mais do que sua marca.
A sensação dos lábios dele nos meus é o pior tipo de violação. Mas, pelo meu objetivo, mantenho os punhos cerrados no colo. Cravo as unhas na minha pele em vez da dele. Maven precisa acreditar no que seu irmão acreditou. Precisa me escolher, como tentei fazer com Cal antes. Mesmo assim, não tenho forças para abrir a boca.
Meu maxilar continua firmemente fechado.
Ele termina o beijo e torço para que não veja minha pele rejeitar seu toque. Em vez disso, seus olhos buscam os meus, atrás da mentira que escondo bem guardada.
— Perdi todas as outras pessoas que já amei.
— E de quem é a culpa?
Não sei como, mas ele consegue tremer mais do que eu. Dá um passo para trás, me soltando, e arranha os próprios dedos. Fico espantada porque reconheço a ação. Faço o mesmo. Quando a dor dentro de mim é tão terrível que preciso de outra para me arrancar dela. Maven para quando nota que estou olhando, apertando as mãos ao lado do corpo com o máximo de força que consegue.
— Ela me fez abandonar muitos dos meus hábitos — ele admite. — Mas não foi bem-sucedida com esse. Algumas coisas sempre voltam.
Ela. Elara. Vejo seu trabalho diante de mim. O menino que ela transformou em rei com uma tortura que chamava de amor.
Maven volta a sentar devagar. Continuo encarando firme, sabendo que isso o incomoda. Eu o desequilibro, embora não entenda exatamente por quê.
Perdi todas as outras pessoas que já amei.
Não sei por que estou incluída nessa frase, mas esse é o motivo para continuar viva.
Com cuidado, volto a conversa na direção de Cal.
— Seu irmão está vivo.
— Infelizmente.
— E você não o ama?
Maven não se dá ao trabalho de erguer os olhos, mas eles estão fixos num único ponto do próximo relatório. Não porque esteja surpreso ou triste. Parece mais confuso do que qualquer coisa, um garotinho tentando resolver um quebra-cabeça em que faltam muitas peças.
— Não — ele diz finalmente, mentindo.
— Não acredito em você — digo, balançando a cabeça.
Porque lembro como eles eram. Irmãos, amigos, criados juntos contra o resto do mundo. Nem mesmo Maven consegue ignorar algo assim. Nem Elara podia quebrar esse tipo de laço. Não importa quantas vezes Maven tentou matar Cal, ele não pode negar o que os dois já foram.
— Acredite no que quiser, Mare — o jovem rei responde. Assim como antes, finge um ar de desinteresse enquanto tenta violentamente me convencer de que isso não significa nada para ele. — Tenho certeza absoluta que não amo meu irmão.
— Não minta. Também tenho irmãos. É complicado, especialmente entre mim e minha irmã. Ela sempre foi mais talentosa, mais doce, mais inteligente, melhor em tudo. Todo mundo a prefere — murmuro meus antigos medos, tecendo-os numa teia para Maven. — Ouça a voz da razão. Perder uma pessoa… perder um irmão… — O ar me falta e minha mente viaja. Continue. Use a dor. — Dói mais que tudo.
— Shade. Certo?
— Não pronuncie o nome dele — retruco, esquecendo por um momento o que estou tentando fazer. A ferida é muito recente e ainda está em carne viva. Maven ignora.
— Minha mãe dizia que você sonhava com ele. — Estremeço com a lembrança e com a ideia de Elara dentro do meu cérebro. Ainda consigo senti-la, arranhando as paredes do crânio. — Mas acho que não eram sonhos coisa nenhuma. Era ele de verdade.
— Ela fazia isso com todo mundo? — pergunto. — Nada ficava a salvo dela? Nem mesmo os seus sonhos?
Ele não responde. Insisto.
— Você já sonhou comigo?
De novo, eu o machuco sem perceber. Maven baixa o olhar, concentrando-se no prato vazio diante dele. Ergue a mão para pegar o copo de água, mas muda de ideia. Seus dedos tremem por um segundo antes de escondê-los, longe da minha vista.
— Não sei — ele diz finalmente. — Nunca sonho.
Zombo.
— Isso é impossível. Até para alguém como você.
Algo sombrio, triste, perpassa seu rosto. Seu maxilar fica tenso e Maven parece ter um nó na garganta, tentando engolir palavras que não deveria dizer. Elas saem mesmo assim. Suas mãos ressurgem, batendo fracamente na mesa.
— Eu tinha pesadelos. Ela tirou isso de mim quando era garoto. Como Samson disse, minha mãe era uma cirurgiã. Arrancava tudo o que não convinha.
Nas últimas semanas, uma raiva feroz e inflamada substituiu o vazio gelado que eu sentia. Mas, enquanto Maven fala, o frio retorna. Percorre meu corpo como um veneno, uma infecção. Não quero ouvir o que ele tem a dizer. Suas desculpas e explicações não significam nada para mim. Ainda é um monstro, sempre um monstro. No entanto, não consigo me impedir de ouvir. Porque eu também poderia ser um monstro. Se a oportunidade se apresentasse. Se alguém me quebrasse, como Maven foi quebrado.
— Meu irmão. Meu pai. Sei que já os amei. Eu me lembro disso. — Suas mãos se cerram em volta da faca de manteiga. Ele encara o gume cego. Não sei se quer usar a faca contra si mesmo ou contra a mãe morta. — Mas já não sinto isso. Esse amor não existe mais. Por nenhum deles. Por quase nada.
— Então por que me manter aqui? Se você não sente nada. Por que não me mata e acaba com isso de uma vez?
— Era difícil para ela apagar… certos tipos de sentimento — Maven admite, olhando nos meus olhos. — Tentou fazer isso com meu pai, para que esquecesse Coriane. Só piorou as coisas. Além disso — ele murmura —, ela sempre disse que era melhor ter o coração partido. A dor deixa você mais forte. O amor enfraquece. Ela estava certa. Aprendi isso antes de te conhecer.
Outro nome perdura no ar, tácito.
— Thomas.
Um menino no front de guerra. Outro vermelho perdido para uma guerra inútil. Meu primeiro amigo de verdade, Maven me disse certa vez. Noto agora as entrelinhas. As coisas não ditas. Ele amava o menino como diz me amar.
— Thomas — Maven repete. Ele aperta a faca mais forte. — Eu senti… — O jovem rei franze a testa, e rugas fundas se formam entre seus olhos. Leva a outra mão à têmpora, massageando uma dor que não entendo. — Ela não estava lá. Nunca o conheceu. Não sabia. Ele nem era um soldado. Foi um acidente.
— Você disse que tentou salvar Thomas. Que os guardas te impediram.
— Uma explosão no quartel-general. Os relatórios disseram que foi trabalho de Lakeland. — Em algum lugar, o tique-taque do relógio marca o passar dos minutos. O silêncio se estende enquanto ele decide o que dizer, até onde deixar a máscara cair. Mas já caiu. Maven está exposto como só acontece comigo. — Estávamos sozinhos. Eu perdi o controle.
Vejo isso na minha mente, preenchendo o que ele não consegue se obrigar a me contar. Um depósito de munições talvez. Ou mesmo um gasoduto. Ambos só precisam de uma faísca para matar.
— Eu não queimei. Ele, sim.
— Maven…
— Nem minha mãe conseguiu arrancar essa memória. Nem ela conseguiu me fazer esquecer, por mais que eu implorasse. Queria que tirasse essa dor de mim, e ela tentou muitas vezes. Em vez disso, só ficou pior.
Sei o que ele vai dizer, mas peço mesmo assim.
— Me deixe ir, por favor.
— Não.
— Então vai me deixar morrer também. Como fez com ele.
A sala crepita de calor, fazendo um fio de suor escorrer pela minha coluna. Maven levanta tão rápido que derruba a cadeira. Ela atinge o chão com um estrépito. Ele bate um punho no tampo da mesa, antes de jogar tudo no chão: pratos, copos e relatórios. Os papéis flutuam por um momento, suspensos no ar antes de cair na pilha de cacos de cristal e porcelana.
— Não — Maven murmura furioso enquanto sai da sala, tão baixo que quase não o ouço.
Os Arven entram e me seguram pelos braços, me arrastando para longe da mesa. Os papéis estão fora do meu alcance.


Fico surpresa ao descobrir que o cronograma normalmente meticuloso de Maven de audiências e reuniões da corte é suspenso pelo resto do dia. Acho que nossa conversa teve um efeito mais forte do que eu esperava. A ausência dele me confina no quarto, com os livros de Julian. Eu me obrigo a ler, pelo menos para bloquear as lembranças da manhã. Maven é um mentiroso de talento e não confio numa única palavra dele.
Mesmo se estivesse falando a verdade. Mesmo se for um produto da intromissão de sua mãe, uma flor com espinhos obrigada a crescer de determinada forma. Isso não muda nada. Quando o conheci, fui seduzida por sua dor. Ele era o menino na sombra, um filho esquecido. Eu me reconheci nele. Sempre atrás de Gisa, a estrela cintilante do mundo dos meus pais. Sei agora que foi proposital. Ele me enganou quando era príncipe, me atraindo para sua armadilha. Agora, estou na prisão do rei. Mas ele também está. Minhas correntes são as Pedras Silenciosas. As dele são a coroa.

Norta foi forjada a partir de reinos menores, variando em tamanho desde o reino de Rift, dos Samos, à cidade-Estado de Delphie. César Calore, um lorde prateado de Archeon e estrategista talentoso, uniu a fraturada Norta contra a ameaça iminente da invasão conjunta de Piedmont e Lakeland. Depois de se coroar rei, casou sua filha Juliana com Garion Savanna, nobre príncipe de Piedmont. Esse ato consolidou uma aliança duradoura entre a Casa Calore e Piedmont. Muitos descendentes da linhagem Calore e de Piedmont conservaram a aliança com casamentos nos séculos seguintes. O rei César trouxe uma era de prosperidade para Norta e, por isso, os calendários consideram o início de seu reinado como a demarcação da Nova Era, ou NE.

Preciso reler o parágrafo três vezes. Os livros de história de Julian são muito mais densos do que os que eu usava na escola. Meus pensamentos estão sempre vagando.
Cabelo preto, olhos azuis. Lágrimas que Maven se recusa a demonstrar, mesmo para mim. Será outra atuação? O que vou fazer se for? O que vou fazer se não for? Meu coração se parte por ele; meu coração se endurece contra ele. Continuo a ler para evitar os pensamentos.

Por outro lado, as relações entre Norta, recém-fundada, e a extensa Lakeland se deterioraram. Depois de uma série de guerras na fronteira com Prairie no século II da Nova Era, Lakeland perdeu um território agrícola vital na região de Minnowan, além do controle do Grande Rio (também conhecido como Miss). Após a guerra, os impostos e a ameaça de fome e revolta vermelha forçaram a expansão ao longo da fronteira de Norta. Conflitos foram despertados em ambos os lados.
Para evitar mais derramamento de sangue, o rei Tiberias III de Norta e o rei Onekad Cygnet de Lakeland se encontraram em uma cúpula histórica na interseção das cataratas de Maiden. As negociações logo fracassaram e, em 200 NE, ambos os reinos declararam guerra, cada um culpando o outro pelo colapso das relações diplomáticas.

Não consigo deixar de rir. Nada mudou.

Conhecida como “Guerra de Lakeland” em Norta ou “Agressão” em Lakeland, o conflito continua ativo no momento da escrita deste livro. Cerca de quinhentos mil prateados mortos foram contabilizados, a maioria na primeira década de guerra.
Não são mantidos registros precisos dos soldados vermelhos, mas as estimativas sugerem mais de cinquenta milhões de mortos, com mais que o dobro de feridos. O número de vítimas vermelhas de Lakeland e de Norta é proporcionalmente igual quando se considera o tamanho de sua população.

Levo mais tempo do que gostaria de admitir, mas faço as contas na cabeça. Quase cem vezes mais vermelhos morreram. Se este livro fosse de qualquer pessoa que não Julian, eu o jogaria fora com fúria.
Um século de guerra e derramamento de sangue em vão.
Como é possível mudar algo assim?
Pela primeira vez, me pego contando com a habilidade de Maven de distorcer e manipular. Talvez ele consiga ver um caminho — forjar uma saída — que ninguém nunca imaginou antes.

22 comentários:

  1. Eu tenho um pouco de dó do Mavin, parece que a culpa é toda da mãe dele q não aguentava ficar em segundo

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    1. A mãe dele atrapalhou ele sem duvida,mas como ficou claro nesse capitulo ela não era invencível,não podia manipular todos os pensamentos dele,se ele quisesse poderia ter batido o pé e dito não

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  2. Complicado shippar Mare c/Cal ou Maven, pois ambos lhe fazem ou lhe fizeram mal de alguma forma e ela tbm não foi muito ética c/os 2. Casais bem complicados, mas ainda assim atraentes

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  3. Sofro pelo Maven </3 não consigo não amar ele!

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  4. Fiquei com pena de Maven, eu ainda tenho esperança de que ele seja uma pessoa boa! Ele só é assim por causa da bruxa da Elara. Que raiva! Sinceramente não sei quem eu shippo.

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  5. não da p escolher um csal p shippar Mare ja machucou os dois e os dois ja machucaram ela n consigo pensar que um é pior que o outro e não consigo deixar de amar o Maven

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  6. Amo Maven com a Mare <3
    Sempre me atraio pelos personagens quebrados (:

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  7. De certa forma o Maven me lembra o Voldemort com esse problema com a família, tanto os dois não tem culpa de serem quem são, mas ambos têm culpa de continuarem no mesmo caminho.
    Lembrando (ou dando Spoiler (Não deveria ser Spoiler, né gente!?)) o Voldemort é fruto de uma relação onde o pai foi enfeitiçado por uma poção do amor, por culpa da mãe ele nasceu sem sentimentos.

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    1. Sério isso? Se um casal que não se ama tem filhos, estes nascem sem sentimentos e desalmados como Voldemort?

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    2. Concordo com vc,ele não teve escolha sobre o caminho em que estava,mas sem duvida ele escolheu continuar trilhando esse caminho.

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  8. Cara, eu não consigo não shippar ela e o Maven. Tou doida, só pode!

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  9. Slá tá difícil shippar Mare , Maven não dá pra confiar, Cal é mais ou menos, Kilorn ela disse q n gosta :p

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    1. O Kilorn é da Gisa!

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    2. Né! Finalmente um livro onde acontece isso 🌚

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  10. Gente eu entendi errado ou quando a Mare diz que o Maven amava o Thomas como ama ela, significa que o Maven era apaixonado pelo Thomas?

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    1. Foi o que entendi também

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    2. Sim, tb entendi q o Maven é bissexual, assim como a Evangeline

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  11. "Pela primeira vez, me pego contando com a habilidade de Maven de distorcer e manipular. Talvez ele consiga ver um caminho — forjar uma saída — que ninguém nunca imaginou antes."

    Ela é maluca! Só pode! Ainda acha que o rei tem a solução....
    Fantasiou legal!!!

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  12. Me preparo para um soco quando ele pega meu rosto nas mãos perturbadoramente macias, com ambos os polegares firmes sob minha mandíbula, a poucos centímetros da minha jugular.
    Seu beijo queima mais do que sua marca."
    kkkkk um dia ela cede, aposto.
    #KILORN+GISA
    #MARE+??? #MAVENOUCAL? ~polly~
    NINGUÉM É PERFEITO. TODO MUNDO PODE TRAIR TODO MUNDO.

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  13. #TeamCal Quero que a Mare fique com o Cal. E espero que ela fuja logo desse Palácio!

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Boa leitura :)