13 de março de 2017

Capítulo doze

VOLTAMOS PELO MEIO DAS ÁRVORES SEM UM ARRANHÃO SEQUER. Nada nos seguiu, exceto a brisa do mar e as nuvens.
Mas não consigo me livrar do temor agitando meu coração.
Embora Nix quase tenha partido o crânio de Cal, até que foi fácil recrutá-lo.
Fácil demais. E, se aprendi alguma coisa nos últimos dezessete anos, principalmente no último mês, é que nada é fácil. Tudo tem um preço.
Se Nix não é uma armadilha, então com certeza é um perigo. Todo mundo pode trair todo mundo.
Assim, apesar de ele lembrar meu pai, apesar de ser pouco mais que um punhado de cabelos grisalhos e de luto, apesar de ser como eu, fecho o coração para este homem de Coraunt. Eu o salvei de Maven, lhe contei o que é, e o deixei fazer sua própria escolha. Agora, preciso seguir em frente e fazer o mesmo por outros. Só o próximo nome importa.
A luz das estrelas ilumina as árvores e me permite uma olhada rápida no caderno. Começo a folhear as páginas já familiares da lista de Julian. Há alguns próximos, concentrados ao redor da cidade de Harbor Bay. Dois estão dentro dos perímetros da cidade, e um na favela de Cidade Nova. Como chegaremos até eles não sei ao certo. A cidade com certeza será murada, como Archeon e Summerton, e as restrições de acesso às favelas dos técnicos são ainda piores que as Medidas.
Então me lembro: muros e barreiras não se aplicam a Shade. Para nossa sorte, ele está cada vez melhor, e depois de uns dias já não precisará mais da muleta. Aí ninguém poderá nos deter. Aí talvez possamos até vencer.
Esse pensamento me deixa emocionada e confusa ao mesmo tempo. Como seria o mundo depois? Imagino onde eu estaria. Em casa, provavelmente, com minha família, perto da floresta, num lugar onde pudesse ouvir o rio. Com Kilorn por perto, claro. E Cal? Não sei onde ele vai escolher ficar quando tudo acabar.
Na escuridão da noite, é fácil deixar a mente divagar.
Estou acostumada com florestas, e não preciso me concentrar muito para não tropeçar em raízes e folhas.
Por isso, divago enquanto caminho, pensando nas possibilidades. Um exército de sanguenovos. Farley liderando a Guarda Escarlate. Uma rebelião vermelha de verdade, desde as trincheiras do Gargalo até os becos da Cidade Cinzenta. Cal sempre disse que uma guerra de todos contra todos não valia a pena, que a perda de vermelhos e prateados seria grande demais. Espero que esteja certo. Espero que Maven veja o que somos, do que somos capazes, e perceba que não pode ganhar.
Mesmo ele não é tolo. Mesmo ele sabe quando está destruído. Pelo menos, espero que saiba. Porque, até onde sei, Maven nunca foi derrotado. Não no que realmente importa. Cal ganhou o pai, os soldados, mas Maven ganhou a coroa. Ganhou cada uma das batalhas significativas.
E, se tivesse tempo, teria me ganhado também.
Eu o vejo na sombra de cada árvore, um fantasma se erguendo contra o temporal no Ossário. A água escorre pela coroa de ferro, dentro dos olhos, da boca, pelo colarinho, até o abismo gélido que é seu coração inútil. E então se tinge de vermelho, deixando de ser água. É o meu sangue agora. Ele abre a boca para prová-lo; seus dentes são pontiagudos, navalhas reluzentes de osso branco.
Pisco para afastar a imagem do príncipe traidor.
Farley sussurra os detalhes a respeito do verdadeiro objetivo da Guarda. Nix é um homem esperto, mas, como todos sob o domínio do rei da coroa flamejante, foi alimentado com mentiras. Terrorismo, anarquia, sanguinários: são essas as palavras que usam para descrever a Guarda. Mostram crianças mortas no Atentado Rubro, ruínas inundadas da ponte em Archeon... tudo para convencer o país da nossa suposta perversidade. Enquanto isso, o verdadeiro inimigo senta no trono com um sorriso.
— E ela? — Nix cochicha, lançando um olhar para mim. — É verdade que induziu o príncipe a matar o rei?
A pergunta de Nix me corta como uma lâmina tão afiada que espero ver a faca cravada no meu peito. Mas as minhas dores podem esperar. Mais à frente, Cal se detém, e o subir e descer dos seus ombros largos indica que está respirando fundo para se controlar.
Apoio a mão no braço dele, querendo acalmá-lo do mesmo jeito que ele me acalma. Sua pele arde sob meus dedos, quase quente demais.
— Não, não é — digo a Nix, forçando uma voz firme. — Não foi isso que aconteceu.
— Então a cabeça do rei saiu rolando sozinha? — ele pergunta, rindo, esperando que todos caiam na gargalhada. Mas até Kilorn tem o bom senso de ficar quieto e não sorrir. Ele sabe o que é a dor de perder os pais.
— Foi Maven — Kilorn grunhe, para a surpresa de todos. A expressão em seu rosto é de pura raiva. — Maven e sua mãe, a rainha. Ela é capaz de controlar a mente das pessoas. E... — Sua voz falha, ele não quer continuar. A morte do rei foi horrível demais, mesmo sendo um homem que odiávamos.
— E? — Nix insiste, arriscando uns passos na direção de Cal. Eu o faço parar com um olhar severo, e ele se detém a alguns centímetros, ainda bem. Mas seu rosto se retorce numa careta arrogante; está ansioso para ver o príncipe sofrer. Sei que tem seus motivos para torturar Cal, mas isso não quer dizer que vou deixar.
— Continue andando — murmuro tão baixo que só Cal pode ouvir.
Mas, em vez de andar, Cal dá meia-volta. Sinto seus músculos tensos ao tocá-lo. Parecem ondas quentes avançando num mar sólido.
— Elara me forçou a fazer aquilo, Marsten — ele diz finalmente, os olhos de bronze cravados nos de Nix, desafiando-o a dar mais um passo. — Ela se infiltrou na minha cabeça e tomou posse do meu corpo. Mas deixou minha mente ficar. Deixou que eu assistisse a meus braços tomando a espada do meu pai e separando a cabeça dele do pescoço. E depois contou ao mundo que era aquilo que eu queria desde o começo. — Após uma pausa, ele acrescenta num tom mais suave, como um lembrete a si mesmo: — Ela me fez matar o meu pai.
Parte da malícia de Nix se desfaz, o suficiente para revelar o humano por baixo dela.
— Eu vi as fotos — ele murmura, como que pedindo desculpas. — Saíram em todos os lugares, em todas as telas da cidade. Achei... que fossem...
Os olhos de Cal disparam para as árvores, mas ele não vê as folhas. Está olhando para o passado, para algo mais doloroso.
— Ela também matou minha mãe. E vai matar todos nós se deixarmos.
As palavras vêm duras e ásperas, como uma espada enferrujada serrando a carne. Saboreio-as bem antes de pronunciar:
— Não se eu a matar primeiro.
Por mais habilidoso que seja, Cal não é violento. Ele pode matar uma pessoa de mil maneiras diferentes, pode queimar um vilarejo, mas não vai apreciar nada disso.
Por isso, suas próximas palavras me pegam de surpresa.
— Quando chegar a hora, decidimos na moeda — ele diz, me encarando.
Seu fogo brilhante realmente ficou mais sombrio.
Quando saímos da floresta, um breve calafrio percorre meu corpo. E se o Abutre não estiver lá? E se fomos localizados? E se, e se, e se. Mas o jato está exatamente onde o deixamos, quase invisível na escuridão, confundindo-se com a pista preta e cinza.
Resisto à vontade de correr para a segurança dele e me obrigo a manter o passo ao lado de Cal. Não muito perto, porém. Nada de distrações.
— Fiquem de olhos abertos — Cal avisa em voz baixa, mas firme, à medida que nos aproximamos. Ele não tira os olhos do jato, à procura de qualquer indício de uma armadilha.
Faço o mesmo, olhando bem para a rampa traseira ainda abaixada sobre a pista, aberta para o ar da noite. O interior parece vazio, mas as sombras dentro do Abutre são densas demais. É impossível ver através delas a essa distância.
Precisei de muita energia e concentração para ligar o jato inteiro, mas as lâmpadas são outra história. Mesmo a dez metros, é fácil atingir a fiação, dar uma carga e iluminar o interior do jato com um brilho forte e súbito.
Nada se move lá dentro, mas os outros reagem, surpresos com a explosão de luz.
Farley chega a puxar a pistola do coldre preso à perna.
— Sou eu — digo, gesticulando. — O jato está vazio.
Acelero o passo. Não vejo a hora de entrar, de ser envolta pela carga crescente de eletricidade que se intensifica a cada passo. Quando ponho o pé na rampa, é como se recebesse um abraço caloroso. Corro a mão pela parede, traçando os contornos do painel de metal.
Mais energia flui de mim, vazando das lâmpadas, correndo pelos cabos até as enormes células de bateria sob meus pés, fixadas debaixo de cada asa. Elas vibram em uníssono, distribuindo a própria energia, e ligando o que não liguei. O Abutre desperta.
Nix suspira atrás de mim, encantado com o gigantesco jato de metal. Ele provavelmente nunca viu um tão de perto, muito menos entrou. Viro para trás, na expectativa de vê-lo contemplando os assentos ou a cabine, mas seus olhos estão cravados em mim. Ele cora e baixa a cabeça numa espécie de reverência trêmula.
Antes que eu possa dizer o quanto esse tipo de coisa me incomoda, ele se dirige para um dos assentos e observa o cinto de segurança com um ar perdido.
— Vou ganhar um capacete? — ele pergunta. — Se vamos sair voando, quero um capacete.
Rindo, Kilorn senta ao lado, prendendo o próprio cinto e o de Nix com dedos ágeis e rápidos.
— Nix, acho que você é o único aqui que não precisa de capacete.
Ambos soltam uma risadinha baixa. Se não fosse por mim e pela Guarda Escarlate, Kilorn acabaria igual a Nix: um velho surrado, sem nada para deixar no mundo além dos próprios ossos. Agora, torço para que tenha a chance de envelhecer, sentir dores nos joelhos e cultivar uma barba grisalha. Se ao menos Kilorn me deixasse protegê-lo...
Se ao menos não fizesse questão de se jogar na frente de toda bala que vem na sua direção...
— Então ela é mesmo a garota elétrica. E este aqui é... — Ele aponta para o outro lado do jato, para Shade, em busca de uma palavra para descrever o poder do meu irmão.
— Saltador — Shade sugere, acenando respeitosamente com a cabeça. Em seguida, ajusta o cinto o mais apertado que pode, pálido diante da perspectiva de outro voo.
Farley não parece tão abalada e mantém um olhar firme voltado para as janelas da cabine.
— Saltador. Muito bem. E você, garoto? — Nix pergunta, cutucando Kilorn com o cotovelo, sem perceber que o sorriso do meu amigo começa a murchar. — Qual o seu poder?
Afundo no assento para não ver qualquer traço de dor no rosto de Kilorn. Mas não sou rápida o suficiente.
Percebo uma ponta de rubor nas suas bochechas, seus ombros tensos, seus olhos apertados e uma careta. O motivo é óbvio. A inveja se agita em cada milímetro do corpo dele, espalhando-se rápida como uma infecção.
Nunca tinha pensado que Kilorn quisesse ser como eu ou como um prateado. Ele tem orgulho do próprio sangue, sempre teve. Até ficou com raiva de mim na primeira vez que viu no que me transformei. “Você é um deles?”, atacou com uma voz áspera e estranha. Estava com muita raiva. Mas por que essa raiva agora?
— Eu pego peixes — ele diz, forçando um sorriso vazio. Sua voz está cheia de amargura, que se alimenta com o nosso silêncio.
Nix é o primeiro a falar, depois de dar um tapinha no ombro de Kilorn.
— E eu, caranguejos — diz, balançando os dedos como se fossem patas. — Fiz isso a vida inteira.
Um pouco do desconforto de Kilorn vai embora, se escondendo atrás de um meio sorriso. Ele vira para o lado para ver os dedos de Cal se movendo pelo painel de controle, aprontando o Abutre para outro voo. Sinto a reação do jato, a energia fluindo para os motores nas asas, que começam a girar, ganhando cada vez mais potência.
— Ótimo — Cal diz, finalmente quebrando o silêncio desconfortável. — Para onde vamos agora?
Levo um segundo para me dar conta de que ele está falando comigo.
— Ah... — começo, tropeçando nas palavras. — Os nomes mais próximos estão em Harbor Bay. Dois dentro da cidade, um nas favelas.
Espero mais agitação diante da perspectiva de invadir uma cidade prateada cercada por um muro, mas Cal apenas faz que sim com a cabeça.
— Não vai ser fácil — avisa, com os olhos de bronze refletindo as luzes piscantes do painel.
— Estou muito contente por você estar aqui para nos dizer o que já sabemos — replico, seca. — Farley, você acha que conseguimos?
Ela assente, e sua máscara de resignação quebra para deixar entrever um pouco de sentimento. Entusiasmo. Ela batuca os dedos na coxa. Fico com a impressão doentia de que ela considera tudo isso parte de um jogo.
— Tenho vários amigos em Harbor — diz. — As muralhas não serão um problema.
— Então para Harbor — Cal diz, num tom sombrio nada reconfortante.
Também não é reconfortante o nó que se forma no meu estômago quando o jato arranca para a frente e os pneus gritam pelos quilômetros da pista escondida. Desta vez, quando despontamos em direção ao céu, fecho bem os olhos. Entre o ronco tranquilo dos motores e a consciência de não ser necessária por enquanto, caio no sono com uma facilidade assustadora.
Durmo e acordo várias vezes, sem jamais sucumbir à escuridão silenciosa de que minha mente tanto precisa.
Alguma coisa no jato me deixa ligada; meus olhos não se abrem, mas meu cérebro nunca apaga por inteiro. Me sinto como Shade, fingindo dormir, captando segredos sussurrados. Mas os outros estão quietos. A julgar pelos roncos estrondosos de Nix, estão desmaiados. Apenas Farley está acordada. Escuto-a soltar o cinto e ir para o lado de Cal com passos quase inaudíveis por causa dos motores do jato. Então cochilo.
Desfruto de uns minutos de descanso antes de a voz grave de Farley me trazer de volta.
— Estamos sobrevoando o mar — ela murmura, confusa.
Os ossos do pescoço de Cal estalam quando ele se vira. O príncipe não notou a aproximação dela de tão concentrado que estava.
— Que observadora você — ele diz, depois de se recuperar.
— Por que estamos sobre o mar? Harbor é ao sul, não a leste...
— Porque temos energia de sobra para contornar o litoral, e eles precisam dormir. — Seu tom sai contaminado por uma espécie de medo. Cal odeia água. Fazer isso deve ser um martírio para ele.
Farley bufa, e sua voz sai áspera da garganta.
— Eles podem dormir quando pousarmos. A próxima pista também está escondida.
— Ela não pode. Não com os sanguenovos por aí. Vai andar até cair, e não podemos deixar isso acontecer.
Uma pausa longa. Ele deve estar encarando-a fixamente, tentando convencê-la com os olhos, não com a boca. Sei por experiência própria que esse método pode ser bem eficaz.
— E quando você dorme, Cal?
A voz dele baixa, não em volume, mas no tom.
— Eu não durmo. Não mais.
Quero abrir os olhos. Quero dizer para ele fazer o retorno, para se apressar. Estamos perdendo tempo aqui no mar, queimando segundos preciosos que podem significar a vida ou a morte dos sanguenovos de Norta.
Mas a minha raiva surge misturada com exaustão. E frio.
Mesmo perto de Cal, um forno ambulante, sinto o toque assustador do gelo na carne. Não sei de onde vem, só sei que chega em momentos de silêncio, quando estou parada, pensando em tudo o que fiz e no que fizeram comigo. O gelo se concentra onde deveria ficar o meu coração, ameaçando me partir ao meio. Meus braços se recolhem no peito, tentando parar a dor. Funciona um pouco, e sinto um calorzinho voltar para mim. Mas, onde o gelo derrete, fica apenas o vazio. Um abismo. E não sei como tapá-lo.
Vou sarar. Preciso.
— Sinto muito — ele murmura, quase baixo demais para ser ouvido. Ainda assim, alto o suficiente para evitar que eu volte a dormir. Mas essas palavras não são para mim.
Algo esbarra no meu braço. É Farley, que se aproxima para ouvi-lo.
— Pelo que fiz com você. Antes. No Palacete do Sol. — A voz dele quase falha. Cal carrega o próprio gelo. A lembrança do sangue congelado, de Farley sendo torturada nas celas do palácio. Ela se negou a trair os companheiros, e Cal a fez sofrer por isso. — Não espero que você aceite qualquer tipo de desculpa, e você não deveria...
— Aceito — ela diz, de maneira brusca, mas sincera. — Também cometi erros naquela noite. Todos cometemos.
Apesar dos olhos fechados, sei que ela está me observando.
Sinto seu olhar, carregado de arrependimento e determinação.


O impacto das rodas contra o concreto me acorda num solavanco que me faz quicar no assento. Abro os olhos só para fechá-los logo em seguida, desviando o rosto do feixe luminoso que entra pelas janelas da cabine.
Os outros estão bem despertos, conversando baixinho, e me viro para vê-los.
Estamos atravessando a pista — cada vez mais devagar, mas ainda em movimento —, e Kilorn salta para o meu lado. Acho que suas pernas de marinheiro servem para alguma coisa, porque o balanço do jato não parece afetá-lo nem um pouco.
— Mare Barrow, se eu pegar você cochilando mais uma vez, vou te denunciar ao posto de segurança — ele diz, imitando a antiga professora que dividimos até ele fazer sete anos e partir para se tornar aprendiz de pescador.
Ergo o olhar para ele, sorrindo com a lembrança.
— Aí vou dormir no tronco, professora Vandark. — É a minha resposta, que o faz engasgar de tanto rir.
À medida que desperto, percebo que há alguma coisa me cobrindo. Um tecido macio, surrado, de cor escura.
O casaco de Kilorn. Ele o puxa antes que eu possa reclamar, e sinto frio.
— Obrigada — murmuro, enquanto ele o veste de novo.
Ele apenas dá de ombros.
— Você estava toda arrepiada.
— Vai ser puxado chegar em Harbor. — Cal fala alto, sobrepondo o ronco dos motores que ainda não pararam de girar. Sem jamais tirar os olhos da pista, o príncipe guia o jato até sua parada completa. Como o Campo Nove-Cinco, a suposta ruína, é totalmente deserto, cercado por uma floresta. — Quinze quilômetros pela mata e então os subúrbios — acrescenta, para em seguida virar a cabeça na direção de Farley. — A não ser que você tenha mais alguma carta na manga?
Ela ri sozinha e desafivela o cinto.
— Está aprendendo, é?
Com um gesto rápido, ela escancara o mapa do coronel sobre os joelhos.
— Podemos reduzir para oito quilômetros se formos pelos túneis velhos e evitarmos totalmente os subúrbios.
— Outro subtrem? — pergunto. A ideia me enche de esperança e pavor. — É seguro?
— O que é um subtrem? — Nix resmunga, com a voz distante.
Não vou perder tempo explicando o que é o tubo de metal que deixamos para trás em Naercey. Farley também o ignora.
— Não há nenhum estacionado em Harbor, não ainda, mas o túnel passa bem debaixo da estrada do Porto. Isto é, se ainda não foi fechado. Foi?
Ela olha para Cal, mas ele nega com a cabeça.
— Não deu tempo. Quatro dias atrás ainda pensávamos que os túneis estavam arruinados e abandonados. Não estão nem mapeados. Mesmo com todos os forçadores à disposição, seria impossível que Maven tivesse bloqueado todos a esta altura — Cal explica. Sua voz vacila sob o peso dos pensamentos.
Sei o que está lembrando.
Apenas quatro dias. Quatro dias desde que Cal e Ptolemus descobriram Walsh nos túneis sob Archeon.
Quatro dias desde que assistimos ao suicídio dela para proteger os segredos da Guarda Escarlate.
Para me distrair da lembrança dos olhos opacos e sem vida de Walsh, estico-me para fora do assento, flexionando os músculos e anunciando, com palavras que soam como ordens sem querer:
— Vamos nos mexer.
Decorei a próxima relação de nomes. Ada Wallace.
Nascida em 1º de junho de 290 em Harbor Bay, Beacon, Estado do Regente, Norta. Residência atual: mesma do nascimento. E o outro, também listado em Harbor Bay: Wolliver Galt. Nascido em 20 de janeiro de 302. Mesmo ano que Kilorn. Mesmo dia até. Mas não é Kilorn. É um sanguenovo, outra mutação rubro-prata para Kilorn invejar.
Contudo, é estranho ver que meu amigo não guarda nenhum rancor de Nix. Na verdade, parece mais amistoso que de costume, rodeando o homem mais velho como um cachorrinho. Os dois conversam em voz baixa, estreitando laços com base na experiência comum de terem crescido pobres, vermelhos e sem esperança.
Quando Nix fala de redes e nós, um assunto chato que Kilorn adora, mudo o foco para conseguir deixar todo o resto em ordem. Parte de mim quer se juntar a eles, discutir o valor de um nó de laço duplo em vez da melhor estratégia de infiltração. Isso me daria a sensação de normalidade. Porque não importa o que Shade diga: somos tudo, menos normais.
Farley já está se mexendo. Ela joga o casaco marrom-escuro por cima dos ombros e enfia o cachecol vermelho por baixo para esconder a cor. Em seguida, começa a separar as rações dos nossos estoques. Ainda não estão baixas, mas memorizo que, se tiver chance, preciso tentar roubar alguma coisa durante a jornada.
Armas são outra história: só temos seis no total, e roubar mais não vai ser fácil. Três rifles, três pistolas. Farley já tem um de cada: o rifle de cano longo está pendurado nas costas, na diagonal, e a pistola vai na cintura. Ela dormiu com as armas presas a si, como se fizessem parte de seu corpo. Então é uma surpresa vê-la soltando-as e devolvendo-as ao armário na parede.
— Você vai desarmada? — É a pergunta atropelada de Cal, que mantém o próprio rifle à mão.
Em resposta, ela levanta a calça e revela um facão escondido na bota.
— Harbor é uma cidade grande. Vamos levar o dia inteiro para achar a dupla de Mare, e talvez a noite inteira para tirá-los de lá. Não vou me arriscar levando uma arma de fogo sem registro. A segurança me executaria no ato. Posso brincar com a sorte nos vilarejos, onde a vigilância é menor, mas não em Harbor — ela acrescenta, voltando a esconder a faca. — Me surpreende você não conhecer as próprias leis, Cal.
O rosto dele fica prateado; até a ponta de suas orelhas ficam brancas de vergonha. Por mais que tentasse, Cal nunca teve cabeça para leis e política. Esse era domínio de Maven, sempre foi.
— Em todo caso, considero você e a garota elétrica armas melhores do que pistolas — Farley diz, lançando olhares afiados para nós dois.
Quase chego a ouvir os dentes de Cal rangerem de raiva e frustração.
— Eu disse a você que não podemos... — ele começa, e eu nem preciso ouvir as palavras resmungadas para saber qual é o seu argumento.
Somos as pessoas mais procuradas do reino, somos um perigo para todos, vamos botar tudo a perder.
Embora meu primeiro ímpeto seja ouvir Cal, o segundo, constante, é não confiar nele. Porque ele não é especialista em se infiltrar... E eu sou. Enquanto ele discute com Farley, começo a me preparar discretamente para os túneis e Harbor Bay.
Lembro do lugar, o vi nos livros de Julian, e puxo com cuidado os mapas de Farley. Ela nem nota o gesto sutil, ainda discutindo com Cal.
Shade se intromete para tomar o partido dela, e assim as três matracas me deixam livre para sentar em silêncio e planejar.
O mapa de Harbor do coronel é mais atualizado que o de Julian, e mais detalhado também. Assim como Archeon foi erguida em volta da enorme ponte que a Guarda Escarlate destruiu, Harbor Bay tem seu centro na enseada em forma de arco. A maior parte da cidade é artificial, formando uma curva perfeita demais entre o mar e a terra. Verdes e ninfoides ajudaram a construir a cidade e a enseada, revezando-se em enterrar e alagar as ruínas do que havia antes lá. E, no meio da enseada, estendendo-se por cima da água, está uma pista cheia de dutos, patrulhas do exército e trechos estreitos. A pista separa o civil Porto Aquariano do Porto de Guerra, que faz jus ao nome, e leva até o Forte Patriota, instalado sobre uma área de terra murada no meio da enseada. O forte é considerado o mais valioso do país, a única base a servir as três forças armadas. O Patriota é lar dos soldados da Legião de Beacon, assim como das esquadrilhas da frota aérea. A água no Porto de Guerra é funda o suficiente até para os maiores navios, constituindo-se um ancoradouro essencial para a Marinha de Norta. O forte parece intimidador até no mapa. Tomara que Ada e Wolliver estejam fora de suas muralhas.
A cidade em si se espalha ao redor da enseada, amontoando-se entre as docas. Harbor Bay é mais velha que Archeon, e incorpora as ruínas antigas. As vias formam um emaranhado imprevisível de curvas e encruzilhadas. Se comparada à malha ordenada da capital, Harbor parece um punhado de fios enrolados. O que é perfeito para malandros como nós. Algumas ruas chegam a descer até o subsolo, conectando-se à rede de túneis que Farley parece conhecer tão bem. Embora não vá ser fácil retirar dois sanguenovos de Harbor Bay, não parece impossível. Especialmente se alguns blecautes pipocarem pela cidade no momento exato.
— Você tem todo o direito de ficar aqui, Cal — digo, erguendo a cabeça do mapa. — Mas desta vez não vou ficar esperando sentada.
Ele interrompe a fala e se volta para mim. Por um momento, me sinto uma pilha de combustíveis prestes a ser incendiada.
— Então espero que esteja pronta para fazer o necessário.
Pronta para matar todos que me reconhecerem.
Qualquer pessoa que me reconhecer.
— Estou.
Minto muito bem.

10 comentários:

  1. primeira a comentar!!!!!
    Gente eu acho que o Shade dava logo os "pulos" dele a Mare convence os sangesnovos e pronto! Não precisa dessa complicação toda.
    E Mare beja logo o Cal e para de ser tão babaca, porque você não é a única especial e nem tão poderosa assim a ponto de diminuir tudo e todos!

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  2. Só eu que achei os detalhes do pimeiro livro, parecidos com os da seleção,ou eu sou loke mesmo?

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    1. Eu também kkk

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    2. achei a mesma coisa!!!!!

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    3. A autora falou que se inspirou um pouco em "A Seleção"

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  3. Mare acha que é a mais poderosa como se fosse a rainha, isso me irrita um pouco, Farley é a minha preferida, com ela não tem frescura e nem nada disso. Cal e Mare não adianta ficar com essa raiva um do outro! Os dois já estão no fundo do poço, se amem e se beijem logo. Gostei do Nix

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  4. Gente....me esclarecam,pois até agora não conseguir entender ainda...Mare ama Cal ou Maven? Uma hora parece amar Cal, em outro momento ela diz que Maven a teria ganhado...tô boiando !!

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    1. Sinceramente? Ela não ama nenhum dos dois. Mas gosta de ambos

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Boa leitura :)