13 de março de 2017

Capítulo dois

O AR FICA MAIS DENSO SOB UM MANTO DE CINZAS, o que nos dá alguns segundos para encarar nosso destino iminente. As silhuetas de soldados descem as ruas desde o norte. Ainda não consigo enxergar suas armas, mas um exército prateado não precisa de armas para matar.
Outros membros da Guarda fogem diante de nós, correndo pela avenida desesperados. Talvez consigam escapar provisoriamente, mas para onde? Só há rio e mar à frente. Não há para onde ir, onde se esconder. O exército marcha devagar, em um ritmo estranho, aleatório. Aperto os olhos e me esforço para vê-lo através da poeira. E então me dou conta do que aconteceu, do que Maven fez. O choque da situação me faz faiscar, literalmente, forçando Shade e Kilorn a recuar.
— Mare! — Shade grita, meio surpreso, meio zangado.
Kilorn não diz nada, apenas me observa tremer.
Minha mão se fecha em volta de seu braço e ele não reage. As faíscas já passaram; ele sabe que não vou machucá-lo.
— Vejam — digo, apontando.
Sabíamos que os soldados viriam. Cal nos disse, nos alertou que Maven mandaria uma legião depois dos jatos. Mas nem mesmo Cal poderia ter antecipado isto. Apenas um coração doentio como o de Maven seria capaz de conceber um pesadelo destes.
As figuras na primeira fileira não usam o uniforme cinza dos soldados prateados tão bem treinados por Cal. Na verdade nem são soldados. São criados de casacos vermelhos, xales vermelhos, túnicas vermelhas, calças vermelhas, sapatos vermelhos. Tanto vermelho que poderiam estar até sangrando. E ao redor de seus pés, tinindo contra o chão, correntes de ferro. O som arranha meu corpo, abafa os jatos e os mísseis e até as ordens duras vociferadas pelos oficiais prateados escondidos por trás da barreira vermelha. As correntes são a única coisa que escuto.
Kilorn fica agitado e solta um grunhido. Ele dá um passo à frente e ergue o rifle para atirar, mas a arma treme nas suas mãos. O exército ainda está do outro lado da avenida, longe demais para um tiro preciso mesmo sem um escudo humano. É mais do que impossível.
— Temos que continuar em frente — Shade murmura. Seus olhos ardem de ódio, mas ele sabe o que deve fazer, o que deve ignorar para sobreviver. — Kilorn, venha com a gente agora ou vamos deixar você aí.
As palavras do meu irmão me fazem acordar do transe de horror. Ao ver que Kilorn não se mexe, tomo seu braço e sussurro em seu ouvido na esperança de abafar o ruído das correntes.
— Kilorn — chamo com a voz que usava com minha mãe quando meus irmãos iam para a guerra, quando meu pai tinha uma crise respiratória, quando o mundo estava em pedaços. — Kilorn, não podemos fazer nada por eles.
— Não é verdade. — As palavras sibilam por entre os dentes dele. Ele lança um olhar para trás, para mim. — Você tem que fazer alguma coisa. Você pode salvar essas pessoas...
Para a minha eterna vergonha, balanço a cabeça.
— Não, não posso.
Continuamos correndo. E Kilorn nos segue.
Mais mísseis explodem, cada vez mais rápidos e mais próximos. Mal consigo ouvir alguma coisa além do zunido. Aço e vidro se agitam como capim ao vento, se retorcendo e quebrando até a chuva cortante de prata cair sobre nós. Correr é perigoso demais agora; Shade segura forte meu braço. Ele também agarra Kilorn e nos faz saltar consigo enquanto o mundo desmorona. Sinto frio na barriga cada vez que a escuridão se fecha sobre nós, e a cidade em ruínas vai ficando cada vez mais próxima. Cinzas e pó de concreto atrapalham nossa visão e fica difícil respirar. Vidro se estilhaça numa tempestade reluzente, deixando pequenos cortes no meu rosto e nas minhas mãos, retalhando minhas roupas. Kilorn parece pior do que eu — suas roupas estão vermelhas de sangue fresco —, mas ele continua em frente, com cuidado para não se afastar. O aperto de Shade continua firme, mas ele começa a se cansar, a ficar mais pálido a cada salto. Não fico inerte; uso minhas faíscas para repelir as lascas afiadas de metal das quais nem meu irmão pode nos livrar com seus saltos. Mas não somos o bastante, nem para salvar a nós mesmos.
— Falta muito? — pergunto. Minha voz soa baixo, afogada pela maré da guerra.
Não consigo enxergar mais do que uns metros à frente através da fumaça e do pó. Mas ainda posso sentir. E o que sinto são asas, motores, eletricidade gritando acima de nossas cabeças, mergulhando mais e mais perto de nós. Somos ratos à espera de que os falcões nos arranquem do chão.
Shade nos faz parar. Seus olhos cor de mel vão de um lado para o outro. Por um segundo aterrorizante receio que ele tenha se perdido.
— Esperem — ele diz, com ar de quem sabe algo que não sabemos.
Ele olha para o alto, para o esqueleto de uma estrutura que um dia foi grandiosa. É imensa, mais alta que a maior das torres do Palacete do Sol, maior que a Praça de César em Archeon. Um tremor percorre minha espinha quando percebo que a estrutura... está se mexendo. Para a frente e para trás, de um lado para o outro, oscilando e se contorcendo sobre fundações gastas por séculos de abandono. Diante dos nossos olhos, a construção começa a se inclinar; devagar no começo, como um idoso sentando numa cadeira. E então cada vez mais rápido, desabando sobre nós e à nossa volta.
— Não me soltem! — Shade berra em meio ao estrondo e nos segura mais forte.
Ele passa o braço por cima do meu ombro e me esmaga contra si, com tanta força que quase não suporto. Fico à espera da já desagradável sensação de saltar, mas ela não vem.
Em vez disso, sou saudada por um som mais familiar.
Disparos.
Desta vez, não é o poder, mas a carne de Shade que me salva. Uma bala endereçada a mim o acerta de raspão no braço enquanto outro disparo penetra sua perna. Ele urra angustiado, quase cai na terra rachada sob nós. Sinto a vibração do tiro através dele, mas não tenho tempo para dor. Mais balas cantam pelo ar, rápidas e numerosas demais para lutarmos. Só podemos correr, fugir tanto do prédio desmoronando como do exército prestes a chegar. Os perigos se anulam quando o metal retorcido cai entre nós e a legião. Pelo menos era o que deveria acontecer. A gravidade e o fogo fizeram a estrutura desabar, mas a força dos magnetrons evita que ela nos proteja. Olho para trás e consigo ver uns doze com cabelo prateado e armadura negra, deslocando cada pilar e vergalhão caídos. Não estou perto o bastante para enxergar seus rostos, mas conheço a Casa Samos bem o suficiente. Evangeline e Ptolemus lideram a família, limpando a rua para que a legião possa continuar a investida. Para poderem acabar o que começaram e matar todos nós.
Se ao menos Cal tivesse destruído Ptolemus na arena, se ao menos eu tivesse tratado Evangeline com o mesmo nível de bondade que ela me tratou... Talvez tivéssemos uma chance. Mas a nossa misericórdia tem um custo — nossas vidas, provavelmente.
Seguro meu irmão firme, apoiando-o o melhor que posso. Kilorn faz mais esforço, aguentando boa parte do peso de Shade e o arrastando até uma cratera aberta pelas explosões, ainda fumegante. Pulamos para dentro, aliviados em fugir das balas. Mas não é muito. Não por muito tempo.
Kilorn arfa, gotas de suor brotam na testa dele. Ele rasga uma das mangas da camiseta para estancar a ferida na perna de Shade. A mancha de sangue logo empapa o tecido.
— Você consegue dar um salto?
Shade franze a testa, sentindo não a dor, mas a própria força. Sei bem como é.
Devagar, ele balança a cabeça e seus olhos escurecem.
— Ainda não.
Kilorn murmura um palavrão.
— O que vamos fazer então?
Levo um instante para perceber que a pergunta é para mim, não para meu irmão mais velho, não para o soldado que sabe o que é uma batalha melhor do que eu e Kilorn. Mas na verdade a pergunta não é para mim. Não é para Mare Barrow de Palafitas, a ladra, a amiga. Kilorn procura outra pessoa agora, a pessoa que me tornei dentro do palácio, na arena.
Sua pergunta é para a garota elétrica.
— Mare, o que vamos fazer?
— Me deixar aqui, é isso o que vocês vão fazer! — Shade grunhe com os dentes cerrados, respondendo antes de mim. — Corram para o rio, encontrem Farley. Salto para lá assim que conseguir.
— Não minta para uma mentirosa — digo, me esforçando ao máximo para não tremer. Meu irmão acabou de voltar para mim, como um fantasma que volta da morte. Não posso deixar que ele suma de novo por nada no mundo. — Vamos sair daqui juntos. Todos nós.
A legião em marcha faz o chão tremer. Um breve olhar por cima da cratera me diz que os soldados estão a menos de cem metros e avançam rápido. Consigo ver os prateados entre as lacunas da linha vermelha. A infantaria veste o uniforme cinzento do exército, mas alguns usam armaduras nas cores da família. Guerreiros das Grandes Casas. Avisto pontos azuis, amarelos, negros, marrons e mais. Ninfoides e telecs e silfos e forçadores, os mais poderosos combatentes que os prateados poderiam lançar contra nós.
Eles acham que Cal é o assassino do rei e que sou uma terrorista. E vão botar a cidade inteira abaixo para nos destruir.
Cal.
Apenas o sangue do meu irmão e a respiração vacilante de Kilorn me impedem de pular para fora da cratera. Preciso encontrá-lo, preciso. Se não por mim, pela causa, para proteger a retirada. Ele vale cem bons soldados. É como um escudo dourado. Mas já deve ter desaparecido, escapado, deve ter derretido as correntes e fugido quando a cidade começou a ruir.
Não, ele não fugiria. Ele jamais fugiria deste exército, de Maven, de mim.
Espero não estar enganada.
Espero que ele já não esteja morto.
— Kilorn, levante Shade — ordeno. No Palacete do Sol, a falecida Lady Blonos me ensinou a falar como uma princesa, com a voz fria e rígida, sem dar margem a questionamentos.
Kilorn obedece, mas Shade não perdeu o hábito de contestar:
— Eu só vou atrasar vocês.
— Mais tarde você pede desculpas — replico enquanto o ajudo a ficar de pé. Mal presto atenção neles; meu foco está em outro lugar. — Vão na frente.
— Mare, se você acha que vamos deixar você...
Antes que Kilorn termine, me viro para ele com faíscas nas mãos e determinação no peito. As palavras morrem na boca dele. Ele lança um olhar para o exército, mais próximo a cada segundo. Telecs e magnetrons retiram os destroços da rua e liberam o caminho novamente com chiados ensurdecedores do metal riscando a pedra.
— Corram.
De novo, ele obedece, e Shade não consegue fazer nada além de acompanhá-lo com seus passos mancos. Fico para trás. Enquanto os dois lutam para sair da cratera e partem aos tropeços para o oeste, dou passos cautelosos para o leste. O exército vai parar por minha causa. Tem que parar.
Depois de um segundo de terror, os vermelhos diminuem o ritmo, o tinido das correntes se dissipa à medida que param de se mover. Atrás deles, prateados carregam rifles negros sobre os ombros como se não pesassem nada. Cargueiros de guerra, grandes máquinas com esteiras nas rodas, varrem o solo até se deterem em algum lugar atrás do exército. Posso sentir o poder deles nas veias.
O exército está tão perto agora que consigo ouvir os oficiais berrando ordens:
— A garota elétrica!
— Mantenham a formação! Fiquem firmes!
— Mirem!
— Não disparem ainda!
A pior das ordens é a última, que ecoa pela rua repentinamente silenciosa. A voz de Ptolemus soa familiar, cheia de ódio e fúria.
— Abram caminho para o rei! — ele grita.
Dou um passo vacilante para trás. Eu esperava os exércitos de Maven, mas não Maven em pessoa. Ele não é um soldado como o irmão, e não tem motivo para se meter a liderar um exército. Mas aqui está ele, à espreita, avançando por entre as tropas que se abrem para dar passagem, com Ptolemus e Evangeline logo atrás.
Quando ele dá um passo à frente da linha vermelha, meus joelhos quase cedem. Sua armadura é de um preto brilhante, sua capa é rubra. Algo o faz parecer mais alto agora do que hoje de manhã. E ele ainda ostenta a coroa flamejante do pai, embora o campo de batalha não seja lugar para isso. Suponho que quer mostrar ao mundo o que ganhou com suas mentiras, que prêmio maravilhoso ele roubou. Apesar da distância, posso sentir o calor do seu olhar penetrante e sua raiva fervente, me queimando de dentro para fora.
Não há nenhum ruído além dos jatos assobiando acima de nós; é o único som do mundo.
— Vejo que ainda é corajosa — Maven diz. Sua voz percorre a avenida e ecoa por entre as ruínas, provocadora. — E tola.
Como na arena, não vou lhe dar a satisfação da minha raiva e do meu medo.
— Deveriam chamar você de menininha quieta — ele ri friamente, e seu exército faz o mesmo. Os vermelhos permanecem em silêncio, com os olhos fixos no chão. Não querem ver o que está prestes a acontecer. — Muito bem, quietinha, diga aos ratos dos seus amigos que acabou. Estão cercados. Chame-os e lhes darei uma boa morte de presente.
Mesmo que eu pudesse dar uma ordem assim, jamais o faria.
— Eles já foram embora.
Não minta para um mentiroso... e Maven é o maior mentiroso de todos.
Ainda assim, ele parece hesitante. A Guarda Escarlate já escapou tantas vezes: na Praça de César, em Archeon... Talvez até consigam escapar agora. Que vergonha seria. Que começo desastroso para o reinado dele.
— E o traidor? — A voz de Maven sai mais aguda, e Evangeline se aproxima dele. O cabelo prateado dela reluz como a lâmina de uma navalha, mais brilhante que sua armadura dourada. Mas ele se afasta dela, deixando-a de lado como um gato faz com um brinquedo. — E meu maldito irmão, o príncipe caído?
Ele não escuta a minha resposta, porque não tenho uma.
Maven ri de novo, e dessa vez seu riso é como uma facada no meu coração.
— Ele também abandonou você? Ele fugiu? O covarde mata nosso pai e tenta roubar meu trono para depois fugir de fininho e se esconder? — continua, enojado, atuando na frente de seus nobres e de seus soldados. Para eles, ainda precisa parecer o filho trágico, um rei que jamais quis a coroa, que não quer nada além de justiça para os mortos.
Ergo a cabeça em desafio.
— Você acha que Cal faria uma coisa dessas?
Maven está longe de ser bobo. É perverso, mas não estúpido, e conhece o irmão melhor do que qualquer outra pessoa viva. Cal não é covarde nem jamais será. Maven pode mentir para seus súditos, mas jamais mudará isso. Os olhos do novo rei traem seu coração e ele observa ao redor, examinando becos e travessas que cortam a avenida destruída pela guerra. Cal poderia estar escondido em qualquer lugar, esperando para atacar. Eu mesma poderia ser a armadilha, a isca para atrair a víbora que uma vez chamei de noivo e amigo. O movimento da cabeça faz a coroa escorregar; é grande demais para a cabeça dele. Até o pedaço de metal sabe que não pertence a ele.
— Acho que você está sozinha, Mare — ele diz em tom suave. Apesar de tudo o que fez para mim, ouvir meu nome na boca de Maven me faz arrepiar com a lembrança dos dias passados. Antes, ele o pronunciava com delicadeza e afeto. Agora, como uma maldição. — Seus amigos foram embora. Você perdeu. E você é uma abominação, a única da sua espécie maldita. Será um gesto de misericórdia tirá-la deste mundo.
Mais mentiras, ambos sabemos. Imito sua risada fria. Por um segundo, parecemos amigos de novo. Nada mais longe da verdade.
Um jato circula sobre nós; suas asas quase arranham o topo de uma ruína próxima. Tão perto. Perto demais. Posso sentir seu coração elétrico, seus motores em rotação fazendo-o permanecer no ar. Me esforço para alcançá-lo, como tantas vezes antes. Do mesmo jeito que fiz com as luzes, com as câmeras, com cada fio e circuito desde que me tornei a garota elétrica, assumo o controle do jato... e o desativo.
O jato se inclina e plana por uns instantes nas asas pesadas. A trajetória original previa sobrevoar a avenida, bem acima da legião, para proteger o rei. Agora, a máquina de guerra vai mergulhar de cabeça neles, ultrapassando a linha de vermelhos para colidir com centenas de prateados. Os magnetrons da Casa Samos e os telecs da Casa Provos não são rápidos o bastante para deter o jato, que cai rachando o solo, mandando asfalto e corpos pelos ares. A explosão é ensurdecedora, desorientadora e dolorosa.
Sem tempo para dor, é a frase que se repete na minha cabeça. Não fico para assistir ao caos no exército de Maven. Já estou correndo, levando meu poder elétrico comigo.
Faíscas brancas e arroxeadas servem de escudo para minhas costas e me protegem dos lépidos que tentam me alcançar na corrida. Alguns se chocam contra a eletricidade ao tentar romper o escudo. Caem para trás em pilhas de carne queimada e ossos latejantes. Fico feliz por não conseguir ver seus rostos; do contrário, poderia ter pesadelos com eles. Depois vêm as balas, mas meu zigue-zague me torna um alvo difícil. Os poucos tiros que passam perto fritam no meu escudo, como era para ter acontecido com meu corpo quando caí naquela redoma elétrica na Prova Real. Aquele momento parece tão distante agora. No alto, os jatos voltam a gritar, desta vez com cuidado, mantendo distância. Já seus mísseis não são tão educados.
As ruínas de Naercey resistiram por milhares de anos, mas não sobreviverão ao dia de hoje. Prédios e ruas vêm abaixo, destruídos tanto pelos poderes dos prateados como pelos mísseis. Um ataque com tudo e todos. Os magnetrons retorcem e arrebentam vergalhões de aço, enquanto telecs e forçadores arremessam destroços pelo ar cheio de cinzas. Água brota dos esgotos: são os ninfoides tentando inundar a cidade e expulsar os últimos rebeldes dos esconderijos nos túneis subterrâneos. O vento uiva forte como um furacão graças aos dobra-ventos. Água e lascas de concreto ardem meus olhos em rajadas tão afiadas que quase me cegam. As explosões dos oblívios fazem o solo tremer sob meus pés. Tropeço, confusa. Não costumava cair. Mas desta vez arranho o rosto no asfalto e deixo sangue no chão ao erguer a cabeça. Quando consigo levantar, um banshee prateado solta um grito capaz de arrebentar vidraças e me derruba outra vez. Sou forçada a tapar os ouvidos. Mais sangue, gotas grossas escorrendo rapidamente pelos meus dedos. Mas o banshee que me nocauteou acaba me salvando por acidente.
Assim que caio, outro míssil passa voando sobre mim, tão perto que sinto o ar vibrar. Ele explode perto demais; seu calor pulsa pelo escudo de raios que criei às pressas. Me pergunto se vou morrer sem sobrancelhas. Mas o calor, em vez de me consumir, permanece constante e desconfortável, mas não insuportável. Mãos fortes e ásperas me põem de pé, e cabelos loiros brilham à luz do fogo. Só enxergo o suficiente para distinguir o rosto através da ventania cortante. Farley. Sem arma, com as roupas rasgadas e os músculos trêmulos. Mas ela não me solta.
Atrás dela, uma figura alta e familiar forma uma silhueta escura contra a explosão.
Ele a detém com apenas uma mão. Suas algemas sumiram, derretidas ou jogadas fora. Quando se vira, as chamas aumentam, lambem o céu e a rua destruída, mas nunca nos atinge. Cal sabe exatamente o que faz ao conduzir as labaredas à nossa volta, como um rio contornando uma rocha. Como na arena, ele cria uma muralha ardente de um lado ao outro da avenida, e nos protege do irmão e dos soldados à frente. Mas suas chamas estão fortes agora, alimentadas por oxigênio e ódio. Jorram para cima, tão quentes que a base queima num tom azul fantasmagórico.
Mais mísseis caem, mas, de novo, Cal os contém e os usa para alimentar seu poder. É quase belo assistir seus longos braços se arquearem e girarem, transformando estrago em proteção em um ritmo constante.
Farley tenta me puxar para trás e consegue ser mais forte do que eu. Com as chamas nos defendendo, viro de costas e avisto o rio uns cem metros à frente. Consigo até ver as sombras desajeitadas de Kilorn e do meu irmão, mancando rumo à suposta segurança.
— Vamos, Mare! — Farley ruge, praticamente arrastando meu corpo ferido e enfraquecido.
Por um segundo, me deixo levar. Dói demais pensar com clareza. Mas um rápido olhar para trás me faz compreender o que ela está fazendo, o que ela está tentando fazer com que eu faça.
— Não vou embora sem ele! — grito pela segunda vez hoje.
— Acho que ele está indo muito bem sozinho — ela diz. Seus olhos azuis refletem o fogo.
Já pensei como ela. Pensava que os prateados eram invencíveis, deuses sobre a Terra, poderosos demais para serem destruídos. Mas matei três só hoje de manhã: Arven, o forçador Rhambos e Lord Osanos, o ninfoide. Talvez até mais, com a tempestade elétrica. E eles quase me mataram, e, aliás, quase mataram Cal também.
Tivemos que salvar um ao outro na arena. E precisamos fazer o mesmo agora.
Farley é maior do que eu, mais alta e mais forte, só que sou mais ágil. Mesmo machucada e meio surda. Faço um movimento rápido com o tornozelo, uma rasteira no tempo certo, e Farley perde o equilíbrio e me solta. Imediatamente, viro para a frente com as mãos espalmadas, captando o que preciso. Naercey tem muito menos eletricidade que Archeon ou mesmo Palafitas, mas não preciso sugar a energia de nada agora. Posso criar a minha.
A primeira rajada de água ninfoide atinge as chamas com a força de um maremoto. A maior parte evapora de imediato, mas o resto cai sobre a muralha e extingue as grandes línguas de fogo. Respondo à água com minha própria eletricidade, mirando nas ondas que giram e quebram no ar. Atrás, as legiões prateadas marcham adiante, investindo contra nós. Pelo menos os vermelhos acorrentados foram tirados do caminho e relegados ao final das fileiras. Obra de Maven. Ele não vai deixar que o atrasem.
Os soldados dele encontram meus raios em vez do campo aberto, e, atrás dele, o fogo de Cal renasce das cinzas.
— Recue devagar — Cal diz, gesticulando com a mão aberta.
Imito os passos dele com cuidado para não desviar os olhos do destino iminente. Juntos, nos alternamos para a frente e para trás, protegendo a própria retirada. Quando as chamas dele caem, meus raios se erguem, e vice-versa. Juntos, temos uma chance.
Cal murmura ordens breves: quando andar, quando erguer uma muralha, quando desfazê-la. Ele parece mais exausto do que jamais o vi: veias azuis e pretas marcadas sob a pele lívida, círculos cinza delineando os olhos. Sei que a minha aparência deve estar ainda pior. Mas o ritmo dele evita que gastemos tudo e permite que um pouquinho das nossas forças volte bem quando precisamos.
— Só mais um pouco — a voz de Farley avisa, ecoando atrás de nós. Mas ela não está fugindo. Vai ficar conosco, apesar de ser apenas humana. Ela é mais corajosa do que eu pensava.
— Até onde? — grito por entre os dentes enquanto armo outra rede de eletricidade.
Apesar das ordens de Cal, começo a ficar mais lenta, e alguns escombros atravessam meu escudo. Caem uns metros à frente e se desfazem em pó. Estamos ficando sem tempo.
Mas Maven também está.
Posso sentir o cheiro do rio e do oceano além dele. Intenso e salgado, ele nos convida, mas não faço ideia para quê. Só sei que Farley e Shade acreditam que ele nos salvará das garras de Maven. Quando olho para trás, vejo apenas a avenida terminando na beira do rio. Farley se levanta, à espera, os cabelos curtos se agitando contra o vento quente. Pulem, ela diz sem soltar ruídos antes de mergulhar da beirada da rua destruída.
O que deu nela para pular para o abismo?
— Ela quer que a gente pule — digo a Cal, virando bem a tempo de substituir a barreira dele pela minha.
Ele concorda com um grunhido; está concentrado demais para falar. Como meus raios, as chamas dele estão fracas. Quase conseguimos enxergar os soldados através delas agora. O fogo tremeluzente distorce os traços, transformando olhos em carvões em chamas, bocas em presas sorridentes e homens em demônios.
Um deles caminha até a muralha de fogo e chega perto o suficiente para se queimar. Mas ele não queima. Em vez disso, abre as labaredas como se fossem cortinas.
Apenas uma pessoa é capaz disso.
Maven sacode a capa idiota para tirar as brasas; a seda queima enquanto a armadura aguenta firme. Ele tem a cara de pau de sorrir.
E, de alguma maneira, Cal encontra forças para dar as costas. Em vez de fazer Maven em pedaços com as próprias mãos, agarra meu punho com os dedos quentes.
Corremos juntos, sem nos dar o trabalho de defender nossas costas. Maven não é páreo para nenhum de nós, e sabe disso. Apesar da coroa e do sangue em suas mãos, ainda é jovem demais.
— Corra, assassino! Corra, garota elétrica! Corram rápido e para longe! — O riso dele ecoa pelas ruínas como uma assombração. — Não há lugar em que eu não possa encontrar vocês!
Tenho uma vaga consciência de que meus raios estão falhando, extinguindo-se à medida que me afasto. As chamas de Cal começam a se desfazer, expondo-nos ao resto da legião. Mas já estamos saltando para o rio, três metros abaixo dos prateados.
Caímos, não com um splash, mas com um barulho metálico retumbante. Preciso rolar para não arrebentar os tornozelos, mas mesmo assim sinto uma dor oca e latejante subir pelos ossos. O que é isto? Farley nos espera mergulhada até o joelho no rio gélido, ao lado de um cilindro metálico com a tampa aberta. Sem falar, pula para dentro e desaparece em seja lá o que for que está sob nós. Não temos tempo para discutir ou fazer perguntas e a seguimos cegamente.
Pelo menos Cal tem o bom senso de fechar a tampa atrás de nós, o que bloqueia o rio e a guerra lá em cima. O silvo pneumático indica que estamos hermeticamente fechados. Mas isso não vai nos proteger por muito tempo, não contra a legião.
— Mais túneis? — pergunto sem fôlego, virando a cabeça para Farley. Minha visão fica turva com toda a correria e preciso me apoiar na parede. Minhas pernas tremem.
Como na rua, Farley põe um braço sob meu ombro e carrega meu peso.
— Não. Isto não é um túnel — ela diz, com um sorriso enigmático.
E então eu sinto. Uma espécie de bateria vibrando em algum lugar, só que maior. Mais forte. Pulsa à nossa volta, através do corredor estranho inundado de botões piscantes e luzes baixas e amarelas. Vejo vultos de cachecóis vermelhos se movendo pela passagem, rebeldes escondendo o rosto. Parecem névoas, como sombras rubras.
Com um gemido, todo o corredor estremece e afunda, com o bico para baixo. Na água.
— Um barco. Um barco subaquático — Cal diz. A voz dele está distante, trêmula e fraca, assim como me sinto.
Nenhum de nós consegue dar mais do que alguns passos antes de desabar contra as paredes inclinadas.

13 comentários:

  1. Gente *-*

    E apesar de tudo eles se protegem <3

    Mare e Cal 😍

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  2. Primeira a comentar!!!!������
    Amando a sequência! Muito interessante, já começou pegando fogo, literalmente. Pft, rumo ao próximo capítulo.

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  3. me diz que pelo amor de Deus finalmente eles vão fugir!!!! não agento maissss....

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  4. Eu adoro esta saga!!! #rainhavermelhaforever

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  5. Já começa como: tiro, porrada e bomba !

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  6. adooooooroooooo

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  7. Esse livro ta muitooo legal, mal começou e já tem tiro,porrada e bomba.

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  8. Quem ler o livro escutando unconditionally Vai sentir tudo q a Mare esta sentindo! AMANDOO!

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    1. Caçadora de Sombras27 de setembro de 2017 21:53

      Eu Trono de Vidro ouvindo Unconditionally ❤

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Boa leitura :)