3 de março de 2017

Capítulo dois

NOSSA CASA É PEQUENA, mesmo para os padrões de Palafitas, mas ao menos temos uma boa vista. Antes dos ferimentos, durante uma das licenças do Exército, meu pai construiu uma casa tão alta que podíamos avistar o outro lado do rio. Mesmo através da neblina do verão, é possível ver as clareiras que antes formavam uma floresta, destinada ao esquecimento pelos machados. Parecem uma doença, mas as colinas intocadas ao norte e ao oeste tranquilizam nossa memória: há muito mais lá fora. Além de nós, além dos prateados, além de tudo o que conheço.
Subo a escada da minha casa escalando os degraus de madeira deformados pelas mãos que sobem e descem diariamente. Dessa altura, vejo alguns barcos que percorrem o rio com bandeiras brilhantes hasteadas. Prateados. São os únicos ricos o bastante para usar transporte privado. Enquanto desfrutam de veículos com rodas, lanchas e até jatinhos para rasgar os céus, não temos mais que os próprios pés ou bicicletas, se tivermos sorte.
O destino dos barcos deve ser Summerton, a pequena cidade da casa de verão do rei que se enche de vida nessa época. Gisa esteve lá hoje para ajudar a costureira de quem é aprendiz. Durante as visitas do rei, as duas sempre vão à feira de lá para vender seus produtos aos mercadores e nobres prateados que seguem a família real como filhotinhos. O palácio em si é conhecido como Palacete do Sol. Teoricamente é uma maravilha, mas nunca o vi. Não sei por que a família real possui uma segunda casa, principalmente se o palácio na capital é tão incrível. Só que, como todos os prateados, eles não agem por necessidade. São movidos pelo desejo. E o que desejam, conseguem.
Antes de abrir a porta para o caos habitual, acaricio a bandeira que tremula na varanda. Três estrelas vermelhas, uma para cada irmão, sobre um fundo amarelado. E há espaço para mais. Espaço para mim. A maioria das casas possui bandeiras como esta, algumas com faixas negras em vez de estrelas, um silencioso lembrete dos filhos mortos.
Dentro de casa, minha mãe transpira à beira do forno enquanto mexe um guisado. Meu pai observa-a da cadeira de rodas. Gisa borda na mesa, produzindo algo belo e requintado, inteiramente fora da minha compreensão.
— Cheguei — anuncio a ninguém em particular.
Meu pai responde com um aceno e minha mãe move a cabeça. Gisa não levanta o olhar do seu retalho de seda.
Solto meu saco de bens roubados do lado dela, deixando as moedas tilintarem o máximo possível.
— Acho que consegui o bastante para um bolo decente no aniversário do papai. E mais baterias, suficientes para durar um mês.
Gisa olha o saco e fecha a cara de desgosto.
— Um dia as pessoas virão aqui e tomarão tudo o que você tem.
— Inveja não é do seu feitio, Gisa — retruco, dando-lhe tapinhas na cabeça. Imediatamente, suas mãos sobem até seu cabelo ruivo, perfeito e brilhante, e o ajeitam de volta num coque meticuloso.
Sempre quis ter o cabelo dela, embora nunca tenha dito isso. Enquanto seu cabelo é como o fogo, o meu é castanho como um rio, como costumamos dizer. Escuro na raiz e desbotado nas pontas; as cores desvanecem com o desgaste da vida em Palafitas. A maioria das mulheres deixa o cabelo curto para esconder as pontas grisalhas. Eu não. Gosto de lembrar que até meu cabelo sabe que a vida não deveria ser assim.
— Não estou com inveja — ela bufa antes de retomar o trabalho. Ela borda flores de fogo, como se cada uma fosse uma bela chama de pontos sobre a seda negra e brilhante.
— Que bonito, Gi.
Deixo minha mão contornar uma das flores, maravilhada com o toque sedoso. Gisa lança-me um olhar e abre um sorriso gentil que revela até seus dentes. Apesar das brigas, ela sabe que é minha pequena estrela.
E todo mundo sabe que a invejosa sou eu, Gisa. Não sei fazer nada além de roubar daqueles que realmente fazem alguma coisa.
Assim que deixar de ser aprendiz, ela poderá abrir sua própria loja. Prateados virão de todo lugar para comprar seus lencinhos, bandeiras e roupas. Gisa conquistará o que poucos vermelhos têm e viverá bem. Ela cuidará dos nossos pais e contratará meus irmãos e eu como seus ajudantes para nos tirar da guerra. Um dia Gisa nos salvará apenas com uma linha e uma agulha.
— Minhas meninas... Como o dia e a noite — murmura minha mãe. Ela não quer ofender, mas é uma verdade espinhosa. Gisa é talentosa, linda e doce. Eu sou mais durona, nas palavras de mamãe. O fundo escuro para a luz de Gisa. Acredito que nossos únicos pontos em comum sejam os brincos compartilhados e as lembranças dos nossos irmãos.
Meu pai está ofegante em seu canto e bate no próprio peito. É comum, já que ele só tem um pulmão de verdade. Por sorte, um médico vermelho habilidoso o salvou, substituindo o pulmão destruído por um dispositivo que respira pelo meu pai. Não foi invenção dos prateados, que não precisam dessas coisas. Eles têm os curandeiros, que não perdem seu tempo salvando vermelhos, nem mesmo para manter os soldados na linha de frente vivos. A maioria fica nas cidades, prolongando a vida dos velhos prateados, consertando fígados destruídos pelo álcool e coisas do gênero. Assim, somos forçados a depender de um mercado negro de invenções se tivermos problemas. Alguns inventos são idiotas e muitos não funcionam. Mas um metal ruidoso salvou a vida de meu pai. Sempre escuto seu tique-taque, pequenos pulsos que mantêm meu pai respirando.
— Não quero bolo.
— Bom, então diga o que quer, pai. Um relógio novo ou...
— Mare, não considero novo algo que você arrancou do pulso de alguém.
Antes de uma nova guerra eclodir na casa dos Barrow, minha mãe tira o guisado do fogo.
— O jantar está servido.
Quando põe a panela na mesa, o vapor vai em minha direção.
— O cheiro está ótimo, mãe — Gisa mente.
Meu pai não tem o mesmo tato e abre um sorriso amarelo diante da refeição.
Não quero ser exigente, então forço um pouco da carne goela abaixo. Para minha surpresa, não está tão ruim quanto de costume.
— Você usou a pimenta que eu trouxe?
Em vez de assentir e sorrir, agradecida por eu ter notado, minha mãe cora e não responde. Sabe que a pimenta é roubada, como tudo que eu trago para casa.
Gisa faz uma careta de desânimo e olha para o prato, desconfiando do rumo da conversa. Talvez você pense que a essa altura eu deveria estar acostumada, mas a reprovação deles ainda me incomoda.
Minha mãe solta um suspiro e enterra a cabeça entre as mãos.
— Mare, eu reconheço seu gesto... Só queria que...
— Que eu fosse como Gisa? — completo a frase.
Minha mãe sacode a cabeça. Outra mentira.
— Não, claro que não. Não é minha intenção.
— Certo.
Certo mesmo é que o vilarejo inteiro deve ter sentido a amargura da minha fala. Esforço-me ao máximo para minha voz não desandar num choro:
— É o único jeito de ajudar vocês antes... antes de eu ir embora.
Menções à guerra são uma maneira rápida de chegar ao silêncio. Até meu pai respira silencioso. Minha mãe vira a cara com as bochechas vermelhas de raiva. Sob a mesa, a mão de Gisa enlaça a minha.
— Sei que você faz o que pode, pelos motivos certos — balbucia minha mãe. Custa-lhe muito dizer isso, mas me serve de conforto mesmo assim.
Fico de boca fechada e apenas concordo com a cabeça.
Então Gisa pula da cadeira, como se tivesse levado um choque.
— Ai, quase esqueci! Passei no correio na volta de Summerton. Havia uma carta de Shade.
É como se tivesse soltado uma bomba. Meus pais, atrapalhados, pegam o envelope encardido que Gisa tira do bolso do casaco. Deixo ambos manusear a carta, examiná-la. Nenhum dos dois sabe ler, então tentam concluir algo a partir do próprio papel. Meu pai cheira a carta na tentativa de adivinhar sua origem.
— Pinheiros. Sem fumaça. Isso é bom. Ele está longe do Gargalo.
O Gargalo é a faixa de terra bombardeada que liga Norta a Lakeland, onde ocorre a maior parte das batalhas. É lá que os soldados passam quase todo o tempo, encolhendo-se atrás de trincheiras fadadas a explodir ou avançando bravamente em ofensivas que acabam em massacres. O resto da fronteira é formado por lagos, embora a parte ao extremo norte seja de tundra, fria e desolada demais para ser disputada. Meu pai feriu-se no Gargalo anos atrás, quando uma bomba caiu sobre sua unidade. Agora o Gargalo está tão destruído por décadas de guerra que a fumaça das explosões forma uma neblina permanente e nada brota ali. O solo está morto e cinza, e assim será com o futuro da guerra.
Ele finalmente me passa a carta, e eu a abro, sôfrega e ao mesmo tempo receosa do que Shade tem a dizer.

Querida família, estou vivo. É óbvio.

Isso arranca uma risadinha de meu pai e de mim, e até um sorriso de Gisa. Minha mãe não se impressiona, embora Shade comece todas as cartas assim.

Recuamos da frente de batalha, como o papai farejador deve ter adivinhado. É bom voltar aos acampamentos principais. Tudo é vermelho como a aurora aqui; mal dá para ver os oficiais prateados. Sem a fumaça do Gargalo, dá até para ver o sol se levantar cada dia mais forte. Mas não ficarei muito por aqui. O comando planeja reorganizar a unidade de combate nos lagos, e nós fomos destinados a um dos novos navios de guerra. Conheci uma médica transferida de outra unidade; ela disse que conhece Tramy e que ele está bem. Foi atingido por estilhaços na retirada do Gargalo, mas se recuperou bem. Sem infecções, sem sequelas.

Minha mãe suspira alto, balançando a cabeça:
— Sem sequelas... — ironiza.

Ainda nada de notícias de Bree, mas não me preocupo. Ele é o melhor entre nós e logo receberá sua licença quinquenal. Vai estar em casa em breve, mãe, então pare de se preocupar. Nada mais a relatar, ao menos nada que eu possa escrever numa carta.
Gisa, não seja exibida demais, apesar de ter motivos para isso. Mare, não seja tão chata o tempo todo e pare de bater naquele Warren. Pai, tenho orgulho de você. Sempre. Amo todos. Seu filho e irmão favorito, Shade.

Como sempre, as palavras de Shade penetram fundo no meu peito. Quase consigo ouvir sua voz se me esforçar bastante. E então a luz sobre nós começa a oscilar.
— Ninguém usou os vales de energia que eu trouxe ontem? — pergunto um pouco antes de a luz apagar de vez e nos deixar na escuridão. Meus olhos tentam se ajustar e mal enxergo minha mãe balançar a cabeça.
— Podemos não repetir a discussão? — Gisa resmunga enquanto afasta a cadeira e se levanta. — Vou pra cama. Tentem não gritar.
Mas não gritamos. Parece que meu mundo é assim: cansada demais para lutar. Meus pais retiram-se para o quarto, deixando-me sozinha na mesa. Normalmente eu sairia um pouco de casa, mas não estou com disposição para nada além de ir dormir.
Subo outra escada até o sótão, onde Gisa já está roncando. Ela dorme como ninguém; apaga depois de mais ou menos um minuto, enquanto eu levo horas para cair no sono. Deito no beliche, feliz simplesmente por estar ali, segurando a carta de Shade. Como percebeu meu pai, o cheiro de pinheiros é forte.
O som do rio é agradável: a água resvala nas pedras da margem e parece cantar para que eu durma. Até a velha geladeira — um troço enferrujado que costuma chiar ao ponto de me dar dor de cabeça — não me incomoda esta noite. Mas então um pio de passarinho interrompe meu mergulho no sono. Kilorn.
Não. Vai embora.
Outro pio, mais alto. Gisa vira um pouco na cama e enfia a cabeça no travesseiro.
Resmungando baixo, com ódio de Kilorn, rolo o corpo para fora da cama e escorrego escada abaixo. Qualquer um tropeçaria na bagunça da sala, mas me equilibro como ninguém após anos de experiência fugindo dos agentes. Um segundo depois já estou descendo a escada da palafita. A lama bate na altura do meu joelho. Kilorn está à minha espera, misturado às sombras em torno da casa.
— Tomara que você goste de olhos roxos, porque é o que vou fazer com você depois dessa...
Sua expressão me interrompe.
Ele esteve chorando. Kilorn não chora. Os nós dos dedos sangram, e aposto que em algum lugar uma parede também está machucada. Apesar do incômodo, apesar de ser tarde da noite, não consigo deixar de sentir preocupação, medo até, por ele.
— O que é isso? O que houve?
Sem pensar, tomo sua mão entre as minhas. Posso sentir seu sangue sob meus dedos.
— O que aconteceu? — pergunto de novo.
Ele demora para responder, como se juntasse forças. Fico aterrorizada.
— Meu mestre... caiu. Morreu. Não sou mais aprendiz.
Tento disfarçar o espanto, mas ecoa em minha respiração. Apesar de não haver necessidade, apesar de saber o que Kilorn quer dizer, ele continua:
— Não terminei o aprendizado e agora... — ele engasga com as palavras. — Tenho dezoito anos. Os outros pescadores têm aprendizes. Não trabalho. Não posso arranjar um trabalho.
As palavras seguintes são como uma faca no meu coração. Kilorn toma fôlego nervoso, enquanto eu desejo não precisar ouvi-lo.
— Vão me mandar pra guerra.

12 comentários:

  1. Karina ... O capítulo UM n está disponível.. acho q teve algum erro

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  2. Karina, o primeiro capítulo está com erro e não abre a página. Arrume please 🙏

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  3. Pelo menos ela terá alguém pra ir junto (mesmo que a guerra seja ruim e eles não mereçam).
    ~polly~

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  4. Eu não acredito nisso. Ele vai ser mandado pra lutar?

    Achei o Shade um pouco engraçado.

    Coitada da Mare. Ela só está tentando ajudar.

    Adorei o capitulo.

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  5. Respostas
    1. Estou exatamente assim kkkkk
      ~Maluca por livros~

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  6. Pensei que depois de A Seleção não me impolgaria com nenhum livro tão cedo, mas esse livro é massa!!!

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  7. Só eu que acho a Mare uma mistura de Katniss e América? Tô amando ela! 😍

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  8. O QUÊEEE? Não acredito, como assim o Kilorn vai para a guerra? Por favor me digam que nada vai acontecer com ele.
    X Maysa
    ***

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  9. Comu assim genti q q tá acontecenu

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Boa leitura :)