15 de março de 2017

Capítulo dezoito

Mare

PELA PRIMEIRA VEZ, não sou o objeto de tortura. Se tivesse a oportunidade, agradeceria a Iris por me permitir ficar num canto e ser ignorada. Evangeline ocupa o lugar que era meu. Ela tenta parecer calma, indiferente à cena à nossa volta. O resto da comitiva da noiva fica olhando para ela, a garota a quem deveriam servir. A qualquer momento, espero que se enrole como uma das cobras da mãe e comece a sibilar para cada pessoa que ousar chegar perto de sua cadeira dourada. Afinal, esses aposentos costumavam ser dela.
O ambiente foi redecorado para sua nova ocupante. Adornos azul-claros nas paredes, flores frescas em água cristalina e muitas fontes delicadas o tornam inconfundível. A princesa de Lakeland reina aqui.
No centro do salão, Iris está rodeada de criados vermelhos habilidosos. Mas ela não precisa de grande ajuda para ficar bonita. Suas maçãs do rosto salientes e seus olhos escuros já são magníficos sem maquiagem. Uma criada trança seu cabelo preto formando uma coroa, prendendo-o com grampos de safira e pérola. Outra esfrega um pó reluzente para tornar um rosto já belo algo etéreo e extraordinário. Seus lábios são de um roxo profundo, perfeitamente desenhados. Seu vestido, branco com a bainha azul cintilante, destaca sua pele escura com um brilho igual ao céu momentos depois do pôr do sol. Embora a aparência devesse ser minha última preocupação, me sinto como uma boneca descartada ao lado dela. Estou de vermelho de novo, um vestido simples em comparação às joias e os brocados de sempre. Se eu estivesse mais saudável, talvez parecesse bonita também. Não que me importe. Não devo brilhar e nem quero — e, perto de Iris, com certeza não vou.
Evangeline não poderia ser um contraste maior nem se tentasse — e com certeza tentou. Enquanto Iris é a noiva jovem e corada, Evangeline aceitou o papel de garota desprezada e deixada de lado. Seu vestido é de um metal tão iridescente que poderia ser feito de pérolas, com penas brancas afiadas e prata incrustada em todo o tecido.
Suas próprias criadas a rodeiam, dando os toques finais. Ela fica encarando Iris o tempo todo, e seus olhos pretos sequer piscam. Só quando a mãe chega ao seu lado Evangeline perde o foco, para desviar das borboletas verde-esmeralda decorando a saia de Larentia. Suas asas batem preguiçosas, como se estivessem sob a brisa. Um lembrete discreto de que são coisas vivas, presas à Viper apenas por seu poder. Espero que ela não pretenda sentar.
Já vi casamentos antes, lá em Palafitas. Cerimônias simples. Algumas palavras e uma festa apressada. As famílias pechinchavam para conseguir comida suficiente para os convidados, e os que passavam assistiam ao show. Kilorn e eu tentávamos pegar as sobras, se houvesse alguma. Enchíamos os bolsos com salgadinhos e saíamos para comer. Não acho que vou fazer isso hoje.
Estarei focada em segurar a cauda de Iris e minha sanidade.
— Lamento que mais pessoas da sua família não possam estar aqui, alteza.
Uma mulher mais velha, com o cabelo completamente grisalho, se distancia das várias prateadas à espera de Iris. Ela cruza os braços na frente de um uniforme preto imaculado. Ao contrário da maioria dos oficiais, tem poucas medalhas, mas ainda assim são impressionantes. Nunca a vi antes, embora exista algo familiar em seu rosto.
De onde estou, enxergo apenas seu perfil e não consigo juntar as peças.
Iris inclina a cabeça para a mulher. Atrás dela, duas criadas posicionam o véu cintilante.
— Minha mãe é a regente de Lakeland. Deve estar sempre no trono. E minha irmã mais velha, sua herdeira, não quer deixar nosso reino.
— Compreensível, em tempos tão tumultuosos. — A mulher mais velha faz uma reverência, mas não tão baixa quanto se esperaria. — Meus parabéns, princesa Iris.
— Muito obrigada, majestade. Fico feliz que tenha se juntado a nós.
Majestade?
A mulher mais velha se vira, dando as costas para Iris enquanto as criadas terminam seu trabalho. Seus olhos caem em mim, estreitando-se. Ela acena. Uma pedra preciosa preta gigante brilha em seu dedo anelar. Uma de cada lado, Tigrina e Trevo me empurram para a frente, levando-me até a mulher que de alguma forma tem um título.
— Srta. Barrow — a mulher diz. Ela é robusta, com a cintura larga, e uns bons centímetros mais alta do que eu. Olho para seu uniforme, procurando por cores para descobrir de que Casa pode ser.
— Majestade? — respondo, usando o título. Soa como uma pergunta, e é mesmo.
Ela abre um sorriso entretido.
— Queria ter te conhecido antes. Quando estava disfarçada de Mareena Titanos, e não reduzida a este… — ela toca meu rosto com leveza, me fazendo recuar — trapo. Talvez então pudesse entender por que meu neto jogou meu reino fora por você.
Seus olhos são cor de bronze. Dourado-avermelhados. Eu os reconheceria em qualquer lugar.
Apesar da festa de casamento ao nosso redor, das nuvens de seda e perfume, me sinto de volta àquele momento em que um rei perdeu a cabeça e um filho perdeu o pai.
E essa mulher perdeu os dois.
Das profundezas da memória, dos momentos desperdiçados com livros de história, me lembro de seu nome. Anabel, da Casa Lerolan. Rainha Anabel. Mãe de Tiberias VI. Avó de Cal. Agora vejo sua coroa, ouro rosé e diamantes aninhados no cabelo bem preso. Pequena comparada ao que a realeza costuma esbanjar.
Ela afasta a mão. Melhor. Anabel é uma oblívia. Não quero seus dedos perto de mim. Poderiam me destruir com um toque.
— Sinto muito pelo seu filho. — O rei Tiberias não era um homem gentil, nem comigo, nem com Maven, nem com mais da metade de seu reino, que vivia e morria como escravos. Mas ele amava a mãe de Cal. Amava seus filhos. Só era um homem fraco.
O olhar dela nunca vacila.
— Estranho, já que você ajudou a matá-lo.
Não há acusação em sua voz. Não há raiva.
Ela está mentindo.


A Corte Real não tem cor. São só paredes brancas e colunas pretas, mármore, granito e cristal, devorando uma multidão em arco-íris. Nobres atravessam as portas, com vestidos, ternos e uniformes tingidos de todos os tons. Os últimos se apressam para entrar antes que a noiva e sua comitiva comecem a marchar pela Praça de César.
Centenas de prateados se aglomeram do lado de fora, comuns demais para merecer um convite. Esperam em manadas, dos dois lados de um caminho aberto e assegurado por números iguais de guardas de Norta e Lakeland. As câmeras estão lá, elevadas em plataformas. Todo o reino vai acompanhar o evento.
Do meu lugar privilegiado, na entrada de Whitefire, posso observar tudo por cima do ombro de Iris.
Ela fica quieta, nem um fio de cabelo fora do lugar. Serena como águas calmas. Não sei como aguenta. Seu pai segura seu braço, o traje azul-cobalto contra a manga branca de seu vestido de noiva. Hoje sua coroa é de prata e safira, combinando com a dela. Eles não se falam, estão concentrados no caminho à frente.
A cauda do vestido parece líquida nas minhas mãos. De uma seda tão fina que pode escorregar pelos meus dedos. Seguro firme, para evitar chamar mais atenção do que o necessário. Pela primeira vez, estou feliz por Evangeline estar ao meu lado. Ela segura a outra ponta da cauda. A julgar pelos sussurros das damas, a cena é quase escandalosa. Todos se concentram nela, não em mim. Ninguém presta atenção na garota elétrica sem seus raios. Evangeline tira aquilo de letra, com o queixo erguido. Ela não me disse uma palavra. Outra pequena bênção.
Em algum lugar, uma corneta ressoa. A multidão responde, virando para o palácio em sincronia. Sinto o mar de olhos conforme avançamos, até o topo das escadas, descendo, entrando no espetáculo prateado. Da última vez que vi uma multidão aqui, estava ajoelhada e acorrentada, sangrando e ferida, com o coração partido. Todas essas coisas ainda são verdade. Meus dedos tremem. Os guardas ficam sempre por perto, enquanto Tigrina e Trevo seguem atrás de mim em vestidos simples mas apropriados. A multidão se aproxima mais, e Evangeline fica tão próxima de mim que poderia enfiar uma faca entre as minhas costelas sem piscar. Meus pulmões parecem apertados; meu peito se comprime e minha garganta parece fechar. Engulo em seco e me obrigo a respirar fundo. Calma. Me concentro no vestido nas minhas mãos, nos centímetros à minha frente.
Penso sentir uma gota de água cair no rosto. Rezo para que seja chuva, e não lágrimas de nervoso.
— Recomponha-se, Barrow — uma voz sibila, talvez de Evangeline. Como com Maven, sinto uma explosão doentia de gratidão pelo apoio mínimo. Tento afastar o sentimento. Preciso ser racional. Mas, como um cachorro faminto, pego as migalhas que me dão, e o que quer que passe por gentileza nesta jaula solitária.
Minha cabeça gira. Se não fosse pelos meus pés, meus queridos, rápidos e seguros pés, talvez eu tropeçasse. Cada passo é mais difícil que o anterior. O pânico sobe pela minha espinha. Eu me afogo no branco do vestido de Iris. Chego a contar as batidas do meu coração. Qualquer coisa para seguir em frente. Não sei por quê, mas este casamento parece estar fechando mil portas. Maven dobrou sua força e me segura mais firme. Nunca vou conseguir fugir. Não depois disso.
O chão sob meus pés muda. Devagar, lajotas quadradas viram degraus. Bato no primeiro, mas me recomponho, segurando a cauda. Faço a única coisa que ainda consigo fazer: ficar de lado, ajoelhar, me afastar, parecer amarga e faminta nas sombras. O resto da minha vida vai ser assim?
Antes de entrar na Corte, olho para cima. Para além das esculturas de fogo e estrelas e espadas e reis antigos, para além do cristal da cúpula reluzente. Para o céu. Nuvens se acumulam à distância. Algumas já chegam à praça, avançando ritmadas ao vento. Elas se dissipam devagar, esvaindo-se em tufos de nada. A chuva quer cair, mas alguma coisa, provavelmente prateados tempestuosos, controla o clima e não deixa.
Nada pode estragar este dia.
Então o céu desaparece, substituído por um teto abobadado, com arcos de calcário liso envoltos em espirais prateadas com chamas esculpidas. Bandeiras vermelhas e pretas de Norta e azuis de Lakeland decoram os dois lados da antecâmara, como se alguém fosse capaz de esquecer quais reinos estão se unindo. Os sussurros de mil espectadores soam como o zumbido de abelhas, aumentando a cada passo que dou. À frente, a passagem se alarga para o salão central da Corte, um lugar magnífico sob a doma de cristal. O sol atravessa os vidros claros, iluminando o espetáculo abaixo.
Cada assento está ocupado, formando círculos em volta do centro do salão em um anel luminoso de cores cintilantes. A multidão espera, sem fôlego. Não vejo Maven, mas posso adivinhar onde está.
Qualquer outra pessoa hesitaria, nem que fosse um pouco. Não Iris. Ela não sai do ritmo enquanto avançamos para a luz. O som de mil corpos se levantando é quase ensurdecedor, e o barulho ecoa pelo salão. O farfalhar de roupas, a movimentação das pessoas, os sussurros. Fico concentrada na minha respiração, mas meu coração acelera mesmo assim. Quero olhar ao redor, reparar nas entradas, nos corredores, nos pedaços deste lugar que posso usar. Mas mal consigo andar, muito menos planejar mais uma fuga malfadada.
Anos parecem passar antes de chegarmos ao centro. Maven espera, sua capa tão opulenta quanto o vestido de Iris, e quase tão comprida quanto. Ele está impressionante em vermelho e branco, em vez de preto. A coroa é nova, com prata e rubis formando chamas. Ela brilha quando o rei se movimenta, virando a cabeça para olhar a noiva e a comitiva que se aproxima. Seu olhar me encontra primeiro. Eu o conheço bem o bastante para reconhecer o arrependimento. Ele cintila, vivo por um instante, dançando como a chama de uma vela acesa. E, com a mesma facilidade, desaparece, deixando uma fumaça como memória. Odeio Maven, principalmente porque não consigo lutar contra o surto de piedade que sinto pela sombra da chama, agora tão familiar. Monstros são criados. Maven também foi. Quem sabe quem ele poderia ser?
A cerimônia dura quase uma hora, e tenho que ficar em pé o tempo todo ao lado de Evangeline e do restante da comitiva da noiva. Maven e Iris trocam palavras sem parar, juramentos e promessas incitados por um juiz de Norta. Uma mulher de túnica lisa simples fala também. De Lakeland, imagino — quem sabe uma enviada de seus deuses? Mal escuto. Só consigo pensar em um exército vermelho e azul marchando pelo mundo. As nuvens continuam a se aproximar, cada uma mais escura que a anterior sobre a cúpula lá em cima. Todas se desmancham. A tempestade quer cair, mas não consegue.
Sei como é.
— Deste dia até o último, prometo-me a você, Iris da Casa Cygnet, princesa de Lakeland.
Na minha frente, Maven estende a mão. O fogo lambe a ponta dos seus dedos, gentil e frágil como a chama de uma vela. Eu poderia apagá-lo com um sopro se tentasse.
— Deste dia até o último, prometo-me a você, Maven da Casa Calore, rei de Norta.
Iris espelha as ações dele, estendendo a mão. Sua manga branca, com a borda azul-clara, cai graciosamente, expondo mais de seu braço macio que parece absorver a umidade do ar. Uma esfera de água clara e trêmula enche sua mão. Quando ela pega a mão de Maven, um poder destrói o outro sem que ouçamos sequer o barulho do vapor ou da fumaça. Uma união pacífica é feita, selada com um leve encostar de lábios.
Ele não a beija como me beijou. Qualquer fogo que possa ter está muito distante.
Como eu queria estar.
Os aplausos reverberam dentro de mim, altos como um trovão. A maioria das pessoas comemora. Não as culpo. Este é o último prego no caixão da Guerra de Lakeland. Embora milhares, milhões de vermelhos tenham morrido, prateados morreram também. Não os culpo por comemorar a paz.
Mais um barulho quase ensurdecedor quando muitos assentos se movimentam, arrastando-se pela pedra. Hesito, me perguntando se vamos ser pisoteadas pela maré de pessoas querendo parabenizar o casal. Mas os sentinelas estão alertas. Me agarro à cauda de Iris como se minha vida dependesse disso, deixando que seus movimentos rápidos me levem através da multidão de volta à Praça de César.
É claro que, ali, o barulho aumenta dez vezes. Bandeiras tremulam, pessoas gritam e papéis picados caem sobre nós. Abaixo a cabeça, tentando bloquear a confusão. Mas ouço um zumbido no ouvido. Não vai embora, por mais que eu balance a cabeça. Uma das Arven segura meu cotovelo, seus dedos se enterram na minha pele conforme mais pessoas se aproximam de nós. Os sentinelas gritam alguma coisa, instruindo a multidão a manter distância. Maven vira para olhar por cima do ombro, o rosto com um tom prata de animação, nervoso ou ambos. O zumbido se intensifica e preciso soltar a cauda para cobrir os ouvidos. Mas isso só me faz ir mais devagar, me excluindo do círculo de segurança. Iris segue em frente, de braços dados com o novo marido, com Evangeline logo atrás. A multidão nos separa.
Maven me vê parar e ergue uma sobrancelha, os lábios se separando para fazer uma pergunta. Ele diminui o passo.
Então o céu escurece.
Nuvens de tempestade se acumulam, escuras e pesadas, arqueando-se sobre nós como uma fumaça infernal. Raios atravessam as nuvens, brancos, azuis e verdes. Cada um deles irregular, perverso, destrutivo. Não parecem naturais.
Meu coração bate alto o suficiente para silenciar a multidão. Mas não os trovões. O som ecoa em meu peito, tão perto e tão explosivo que sacode o ar. Sinto seu gosto na língua.
Não consigo ver o próximo raio antes de Tigrina e Trevo me jogarem no chão, pouco ligando para os vestidos. Elas seguram meus ombros, imobilizando músculos doloridos com sua força e seu poder. O silêncio inunda meu corpo, rápido e forte o suficiente para arrancar o ar dos meus pulmões. Luto para conseguir respirar. Meus dedos arranham o piso, procurando alguma coisa em que se agarrar. Se conseguisse respirar, daria risada. Esta não é a primeira vez que alguém me joga no chão na Praça de César.
Mais um trovão, mais um raio de luz azul. Mais uma vez o peso do poder das Arven quase me faz vomitar.
— Não a mate, Janny. Não! — Trevo rosna. Janny. O verdadeiro nome de Tigrina. — Vão arrancar nossa cabeça.
— Não sou eu — tento falar. — Não sou eu.
Se Tigrina e Trevo ouviram, não demonstram. Sua pressão nunca diminui, e sinto uma dor constante.
Incapaz de gritar, tento olhar para cima, procurando alguém que possa me ajudar. Procurando Maven. Ele vai fazer isso parar. Me odeio por pensar assim.
Pernas atravessam meu campo de visão, uniformes pretos, trajes de civis, e uniformes vermelho-alaranjados cada vez mais distantes. Os sentinelas continuam se movimentando, mantendo sua formação. Como no banquete que quase terminou em assassinato, entram em ação rapidamente, concentrados em seu único propósito: defender o rei. Mudam de direção, rápido, levando Maven não para o palácio, mas para o Tesouro. Para o trem. Para a fuga.
Mas fuga de quê?
A estranha tempestade não é minha. Os raios não são meus.
— Siga o rei — Tigrina, ou Janny, rosna. Ela me coloca de pé sobre as pernas bambas e quase caio de novo. As Arven não deixam, nem o muro repentino de oficiais uniformizados. Eles me cercam em uma formação de diamante, perfeita para atravessar a multidão crescente. As Arven aliviam seu poder, apenas para que eu possa andar.
Avançamos em sincronia enquanto os raios se intensificam sobre nossas cabeças. Nada de chuva ainda. E não está quente ou seco o suficiente para raios sem tempestade.
Estranho. Se eu conseguisse senti-los. Usá-los. Puxar cada linha irregular que corta o céu e extinguir tudo à minha volta.
A multidão está perplexa. A maioria olha para cima; alguns apontam. Outros tentam se afastar, sem sucesso. Olho para os rostos, procurando uma explicação. Só vejo confusão e medo. Se a multidão entrar em pânico, me pergunto se os agentes de segurança vão conseguir impedir que nos pisoteiem.
Adiante, os sentinelas de Maven aumentam o espaço entre nós, empurrando as pessoas. Um forçador lança um homem vários metros para trás, enquanto uma telec afasta três ou quatro com um movimento da mão. A multidão abre caminho depois disso, para o rei e a nova rainha em fuga. No meio do tumulto, encontro o olhar de Maven quando ele vira a cabeça para trás me procurando. Seus olhos estão arregalados, de um azul vívido mesmo de tão longe. Seus lábios se movem, gritando alguma coisa que não consigo ouvir por causa dos trovões e do pânico.
— Rápido! — Trevo grita, me empurrando em direção ao espaço vazio entre nós e Maven.
Nossos guardas ficam agressivos e começam a usar seus poderes. Um lépido corre de um lado para o outro, tirando as pessoas do nosso caminho. É um borrão entre os corpos, um turbilhão. E de repente para.
O tiro atinge o lépido entre os olhos. Muito perto para desviar, muito rápido para escapar. Sua cabeça chicoteia para trás em um arco de sangue e massa cinzenta.
Não conheço a mulher segurando a arma. Ela tem cabelo azul, tatuagens azuis irregulares e um cachecol rubro ensanguentado amarrado no pulso. A multidão se retrai à sua volta, chocada por um instante, antes de estourar em pleno caos.
Com uma mão ainda segurando a pistola, a mulher de cabelo azul levanta a outra.
Um raio rasga o céu.
Cai no meio do círculo de sentinelas. Ela tem uma mira mortal.
Meu corpo se tensiona, esperando uma explosão. Em vez disso, o raio azul acerta um arco repentino de água cintilante, correndo pelo líquido sem atravessá-lo. Se espalha e brilha, quase cegando, mas desaparece em um instante, deixando apenas o escudo de água. Sob ele, Maven, Evangeline e até mesmo os sentinelas estão abaixados, as mãos sobre a cabeça. Só Iris está de pé.
A água se acumula em volta dela, retorcendo-se como uma das cobras de Larentia. Cresce a cada segundo, juntando-se tão rápido que sinto o ar secando na minha língua. Iris não perde tempo e arranca o véu. Espero que não chova. Não quero ver o que ela seria capaz de fazer com a chuva.
Guardas de Lakeland estão no meio da multidão, manchas azuis tentando atravessá-la. Agentes de segurança encontram o mesmo obstáculo e ficam presos na confusão. Prateados se atiram para todos os lados. Alguns em direção ao tumulto, outros fugindo do perigo. Estou dividida entre correr com eles e correr em direção à mulher de cabelo azul. Meu cérebro vibra com a adrenalina correndo pelo corpo, lutando com unhas e dentes contra o silêncio que me sufoca. Raios. Ela domina os raios. É uma sanguenova. Como eu. O pensamento quase me faz chorar de felicidade. Se ela não sair daqui, vai acabar morta.
— Corra! — tento gritar. O que sai é um sussurro.
— Leve o rei a um lugar seguro! — A voz de Evangeline ressoa quando ela levanta. Seu vestido logo se transforma em uma armadura, prendendo-se à sua pele em placas peroladas. — Evacuem!
Alguns sentinelas obedecem, puxando Maven para dentro de sua formação. Uma chama fraca centelha em sua mão. Ela treme, revelando seu medo. O resto de sua guarda saca armas ou invoca seus poderes. Um sentinela banshee abre a boca para gritar, mas cai de joelhos, sufocando. Ele agarra a garganta. Não consegue respirar.
Mas por quê? Quem? Os companheiros o arrastam enquanto ele ainda sufoca.
Outro raio atravessa o céu, claro demais para olhar. Quando abro os olhos, a mulher de cabelo azul se foi, perdida no meio da multidão. Tiros salpicam o céu.
Recuperando o fôlego, percebo que nem todos na multidão estão fugindo. Nem todos estão com medo ou confusos. Eles se movimentam de um jeito diferente, com propósito, com motivo, em uma missão. Pistolas pretas brilham, lampejando com os disparos que atingem as costas ou o estômago dos guardas. Facas reluzem na escuridão cada vez maior. Os gritos de medo se tornam gritos de dor. Corpos caem bruscamente sobre a praça.
Lembro das rebeliões em Summerton. Vermelhos caçados e torturados. Um golpe contra os mais fracos. Era desorganizado, caótico, sem qualquer ordem. Isso é o oposto. O que parece um pânico selvagem é o trabalho cuidadoso de algumas dúzias de assassinos em uma multidão de centenas. Com um sorriso, percebo que todos têm algo em comum. Conforme a histeria cresce, cada um veste um cachecol vermelho.
A Guarda Escarlate está aqui.
Cal, Kilorn, Farley, Cameron, Bree, Tramy, o coronel.
Eles estão aqui.
Com todas as minhas forças, jogo a cabeça para trás e acerto o nariz de Trevo. Ela grita, e sangue prateado escorre por seu rosto. Em um instante, Trevo me solta. Levo o cotovelo até o estômago de Tigrina, que ainda me segura, esperando afastá-la. Ela solta meu ombro, mas coloca o braço em volta do meu pescoço e aperta.
Viro, tentando mordê-la. Não consigo. Tigrina aumenta a pressão, ameaçando esmagar minha traqueia. Minha visão escurece e sinto que sou arrastada para trás. Para longe do Tesouro, de Maven, de seus sentinelas. Atravessando a multidão mortal.
Tropeço quando chegamos aos degraus. Chuto sem forças, tentando me segurar em qualquer coisa. Os agentes de segurança desviam dos meus pobres esforços. Alguns se ajoelham, as armas empunhadas, cobrindo a retirada. Trevo reaparece, com a metade inferior do rosto coberta por sangue brilhante.
— Volte por Whitefire. Temos que seguir as ordens — ela sibila para Tigrina.
Tento gritar por ajuda, mas não consigo reunir ar suficiente para fazer barulho. E não vai adiantar nada. Alguma coisa mais alta do que os trovões corta o céu. Duas coisas. Três. Seis. Pássaros de metal com asas de navalha. Dragões? Um Abutre? Mas esses jatos parecem diferentes dos que conheço. Mais brilhantes, mais rápidos. É a nova frota de Maven, provavelmente. À distância, vejo uma explosão de pétalas de fogo vermelho e fumaça preta. Estão bombardeando a praça ou a Guarda Escarlate?
Enquanto as Arven me arrastam para dentro do palácio, outro prateado quase esbarra em nós. Estendo a mão. Talvez ele me ajude.
Samson Merandus me despreza, tirando o braço do meu alcance. Recuo como se seu toque queimasse. Só vê-lo já é suficiente para ter uma dor de cabeça arrasadora. Ele não teve permissão para participar do casamento, mas está vestido para a ocasião, imaculado em um terno azul-marinho e com o cabelo loiro arrumado.
— Se a perderem vou virar vocês do avesso! — ele grita por cima do ombro.
As Arven parecem ter mais medo dele que de qualquer outra pessoa. Concordam com um aceno de cabeça vigoroso, assim como os três agentes restantes. Todos sabem o que um murmurador Merandus é capaz de fazer. Se eu precisava de mais incentivo para fugir, saber que Samson vai destruir a mente delas certamente funciona.
Quando olho para a praça pela última vez, sombras escuras surgem das nuvens, aproximando-se cada vez mais. Mais aeronaves. Essas são pesadas, não foram construídas para a velocidade ou mesmo para o combate. Talvez estejam aterrissando. Não consigo ver direito.
Luto o quanto posso, ou seja, resmungo e me contorço. O poder das Arven deixa os guardas mais lentos, mas só um pouco. Cada centímetro parece difícil de conquistar e inútil. Seguimos em frente, enquanto os corredores de Whitefire se ramificam ao nosso redor. Sei exatamente para onde estamos indo. Em direção à ala leste, a parte do palácio que fica mais próxima do Tesouro. Deve haver uma passagem ali, outro caminho até o trem secreto de Maven. Qualquer esperança de fugir desaparecerá assim que estivermos no subterrâneo.
Três tiros soam, ecoando tão perto que os sinto em meu peito. O que quer que esteja acontecendo na praça, está entrando aos poucos no palácio. Do outro lado da janela, uma chama vermelha surge no ar. Pode ser uma explosão ou uma pessoa. Não sei. Só posso ter esperança. Cal. Estou aqui. Cal. Imagino que ele está do lado de fora, naquele inferno de fúria e destruição. Com uma arma na mão e o fogo na outra, usando toda a sua dor e toda a sua raiva. Se não puder me salvar, espero que pelo menos destrua o monstro que costumava ser seu irmão.
— Os rebeldes estão invadindo Whitefire!
Levo um susto ao ouvir Evangeline Samos. Suas botas batem forte no piso de mármore, e cada passo é o golpe de um martelo raivoso. Sangue prateado mancha o lado esquerdo de seu rosto, e seu penteado elaborado virou uma bagunça, emaranhado pelo vento. Ela cheira a fumaça.
Seu irmão não está em lugar nenhum, mas Evangeline não está sozinha. Wren, a curandeira de pele Skonos que passou tantos dias tentando fazer com que eu parecesse viva, a segue de perto. Provavelmente arrastada para garantir que Evangeline não sofra qualquer arranhão por mais do que um instante.
Como Cal e Maven, Evangeline tem treinamento militar e conhece o protocolo. Ela fica alerta, pronta para reagir.
— A biblioteca do andar de baixo e a galeria antiga foram invadidas. Temos que levá-la por aqui. — Ela aponta o queixo para um corredor perpendicular. Do lado de fora, um raio brilha, refletindo em sua armadura. — Vocês três — Evangeline estala os dedos para os guardas —, tomem a retaguarda.
Meu coração afunda no peito. Ela vai garantir pessoalmente que eu entre no trem.
— Vou matar você um dia — ameaço, ainda nas garras de Tigrina.
Ela nem liga, está muito ocupada dando ordens. Os guardas obedecem satisfeitos, indo para trás para cobrir nossa retirada. Estão felizes por alguém tomar a dianteira no meio dessa bagunça infernal.
— O que está acontecendo lá fora? — Trevo rosna enquanto avançamos. O medo altera sua voz. — Você, conserte meu nariz — ela ordena, agarrando o braço de Wren.
A curandeira Skonos trabalha rápido, colocando o nariz quebrado no lugar com um estalo audível.
Evangeline olha por cima do ombro, não para Trevo, mas para a passagem atrás de nós. Ela escurece enquanto a tempestade lá fora faz o dia virar noite. O medo domina seu rosto. Algo estranho a ela.
— Havia espiões na multidão, disfarçados de nobres prateados. Achamos que são sanguenovos. Fortes o suficiente para segurar a barra até… — Ela verifica uma passagem antes de fazer sinal para irmos em frente. — A Guarda Escarlate tomou Corvium, mas não sabíamos que tinham tantas pessoas. Soldados de verdade, treinados, bem armados. Caíram do céu, como malditos insetos.
— Como eles entraram, com o protocolo de segurança para o casamento? Mais de mil soldados prateados, além dos sanguenovos de estimação de Maven… — Tigrina vocifera. Ela se interrompe quando duas figuras de branco saem por uma porta. O peso de seu poder se fecha sobre mim, fazendo meus joelhos cederem. — Caz, Brecker, nos acompanhem.
Gosto mais de chamá-los de Ovo e Trio. Eles derrapam pelo chão de mármore, correndo para se juntar à minha cela portátil. Se tivesse energia, eu choraria. Quatro Arven e Evangeline. Qualquer resquício de esperança desapareceu. Nem implorar vai adiantar.
— Eles não têm como ganhar. É uma causa perdida — Trevo continua.
— Eles não estão aqui para conquistar a capital. Estão aqui por causa dela — Evangeline retruca com raiva.
Ovo me empurra para a frente.
— Que desperdício.
Viramos mais uma esquina, para o longo Salão de Batalha. Comparado ao tumulto da praça, parece sereno, suas cenas pinceladas de guerra bem longe do caos. Elas parecem crescer, diminuindo todos nós com sua grandeza antiga. Se não fosse pelo som distante de jatos e trovões, poderia me convencer que tudo não passa de um sonho.
— De fato — Evangeline responde. Seus passos falham tão levemente que os outros não percebem. — Que desperdício.
Ela vira com uma graça felina, estendendo as mãos. Vejo a cena em câmera lenta. As placas de sua armadura voam dos pulsos, rápidas e mortais como balas. As bordas brilham, afiando até virarem lâminas. Elas sibilam atravessando ar. E carne.
A suspensão súbita do silenciamento é como se um peso imenso fosse tirado das minhas costas. O braço de Trevo solta meu pescoço e em seguida ela cai.
Quatro cabeças rolam pelo chão, pingando sangue. Os corpos as acompanham, todos de branco, as mãos em luvas de plástico. Seus olhos estão abertos. Não tiveram nem chance. O sangue — o cheiro, a aparência — ataca meus sentidos, e sinto o gosto de bile subindo pela garganta. A única coisa que me impede de vomitar é o medo e a compreensão imediata.
Evangeline não vai me levar até o trem. Vai me matar. Vai acabar com isso.
Ela parece terrivelmente calma depois de ter cortado a cabeça de quatro dos seus. As placas de metal voltam para seus braços, encaixando de volta no lugar. Wren, a curandeira de pele, nem se mexe, olhando para o teto. Ela não vai assistir o que vai acontecer agora.
Não adianta tentar correr. É melhor encarar.
— Entre no meu caminho e vou te matar lentamente — ela sussurra, passando por cima de um cadáver para agarrar meu pescoço. Sinto sua respiração em cima de mim. Quente, com aroma de menta. — Menininha elétrica.
— Então acaba logo com isso — digo entredentes.
Tão perto, percebo que seus olhos não são pretos, mas cinza-escuros como carvão. Olhos de tempestade. Eles se estreitam enquanto ela tenta decidir como me matar. Vai ter que ser com as próprias mãos. Minhas algemas não vão permitir que seu poder toque minha pele. Mas uma única faca resolveria. Espero que seja rápido, embora duvide que tenha misericórdia suficiente para isso.
— Wren, por favor — ela diz, estendendo a mão.
Em vez de uma adaga, a curandeira de pele pega uma chave do bolso do cadáver decapitado de Trio. Ela a coloca na mão de Evangeline.
Fico muda.
— Você sabe o que é isso? — Evangeline pergunta.
Como poderia não saber? Até sonhei com essa chave.
— Vou lhe oferecer um trato — ela continua.
— Vá em frente — sussurro, sem tirar os olhos do pedaço de metal preto. — Faço qualquer coisa por essa chave.
Evangeline agarra meu queixo, me obrigando a olhar para ela. Nunca a vi tão desesperada, nem mesmo na arena. Seus olhos vacilam e seu lábio inferior treme.
— Você perdeu seu irmão. Não quero que tire o meu.
A raiva faz meu estômago se contorcer. Qualquer coisa menos isso. Porque também sonhei com Ptolemus. Cortar sua garganta, destroçá-lo, eletrocutá-lo. Ele matou Shade.
Uma vida por uma vida. Um irmão por um irmão.
Seus dedos se enterram na minha pele, as unhas ameaçando cortar minha carne.
— Minta e eu mato você onde estiver. Depois mato o resto da sua família. — Em algum lugar dos corredores sinuosos do palácio, os ecos de uma batalha aumentam. — Mare Barrow, faça sua escolha. Deixe Ptolemus viver.
— Ele vai viver — resmungo.
— Prometa.
— Prometo que ele vai viver.
Lágrimas se acumulam em meus olhos enquanto ela se movimenta, tirando rapidamente uma algema depois da outra. Evangeline joga cada uma o mais longe que pode. Quando termina, estou chorando.
Sem as algemas, sem a Pedra Silenciosa, o mundo parece vazio. Sem peso. É como se eu pudesse flutuar. Mas a fraqueza ainda me debilita, tenho menos chances que na minha última tentativa de fuga. Seis meses não vão desaparecer em um instante. Tento reunir meu poder, tento sentir as lâmpadas sobre a minha cabeça. Mal capto a corrente passando por elas. Duvido que possa desligá-las, uma ação simples que nunca valorizei.
— Obrigada — sussurro. Jamais imaginei que diria isso a ela.
É uma surpresa para nós duas.
— Você quer me agradecer, Barrow? — Evangeline resmunga, chutando para longe as algemas. — Então mantenha sua palavra. E faça este maldito lugar queimar.
Antes que eu possa dizer que não serei útil, que vou precisar de dias, semanas, meses para me recuperar, Wren coloca as mãos no meu pescoço. Agora entendo por que Evangeline arrastou a curandeira consigo. Não para ela. Para mim.
O calor se espalha pela minha coluna, entra nas minhas veias e nos meus ossos e na minha medula. Pulsa pelo meu corpo tão por completo que quase espero que doa. Caio de joelhos, dominada. O sofrimento desaparece. Os dedos trêmulos, as pernas fracas, o pulso lento — cada resquício da Pedra Silenciosa deixa meu corpo diante do toque da curandeira. Minha cabeça nunca vai esquecer o que aconteceu, mas meu corpo o faz rapidamente.
A eletricidade vem, surgindo do cerne do meu corpo. Cada nervo grita, voltando à vida. Por todo o corredor, as lâmpadas se estilhaçam nos lustres. As câmeras escondidas explodem em faíscas e fios. Wren dá um salto para trás, gritando.
Olho para baixo e vejo roxo e branco. A eletricidade salta entre meus dedos, agitando-se no ar. A tensão é familiar. Meu poder voltou.
Evangeline dá um passo calculado para trás. Seus olhos refletem minhas faíscas. Eles brilham.
— Mantenha sua promessa, garota elétrica.


A escuridão me acompanha.
Cada lâmpada chia e pisca quando eu passo. O vidro estoura, cuspindo eletricidade. O ar vibra como um fio vivo. Ela acaricia minhas mãos abertas e eu estremeço com a sensação de tanto poder. Achei que tinha esquecido como era. Mas é impossível. Posso esquecer quase qualquer outra coisa no mundo, não minha eletricidade. Não quem e o que sou.
As algemas faziam com que andar fosse muito cansativo. Sem elas pesando, parece que posso voar. Em direção à fumaça, ao perigo, ao que pode finalmente ser minha salvação ou meu fim. Não me importa, desde que não fique nesta prisão infernal nem mais um segundo. Meu vestido se agita em trapos rubi, rasgado o suficiente para me permitir correr o mais rápido possível. As mangas ardem, queimando com cada nova explosão de faíscas. Não me contenho agora. Os raios vão para onde querem. Explodem a cada batimento cardíaco. Os raios e faíscas roxos e brancos dançam pelos meus dedos, saindo e voltando para minhas mãos. Meu corpo estremece de prazer. Nunca senti nada tão maravilhoso. Fico olhando para a eletricidade, apaixonada por cada veia. Faz tanto tempo. Tempo demais.
Deve ser assim que caçadores se sentem. A cada esquina que viro, espero encontrar algum tipo de presa. Sigo pela rota mais curta que conheço, atravessando a câmara do conselho, seus assentos vazios me assombrando enquanto corro sobre o selo de Norta.
Se tivesse tempo, eu o destruiria. Partiria cada centímetro da coroa flamejante. Mas tenho uma coroa de verdade para atacar. Porque é isso que vou fazer. Se Maven ainda estiver aqui, se o infeliz não tiver fugido. Vou assistir ao seu último suspiro e saber que ele nunca mais vai poder me manter numa coleira.
Alcanço aos agentes de segurança, que estão de costas para mim. Todos os três mantêm as armas compridas sobre o ombro e o dedo no gatilho enquanto cobrem a passagem. Não sei seus nomes, só suas cores. Casa Greco, todos forçadores. Não precisam de balas para me matar. Um deles poderia quebrar minhas costas, esmagar minhas costelas, abrir meu crânio como uma uva. Sou eu ou eles.
O primeiro ouve meus passos. Ele vira a cabeça, olhando por cima do ombro. Meu raio atinge sua coluna e sobe até seu cérebro. Sinto seus nervos por um segundo. Em seguida, a escuridão. Os outros dois reagem, virando para mim. A eletricidade é mais rápida do que eles, atingindo os dois.
Não diminuo o ritmo, passando por cima dos corpos fumegantes.
O próximo corredor dá para a praça, e os vidros que antes brilhavam agora estão cobertos de cinzas. Alguns lustres estão destruídos no chão, em pilhas retorcidas de ouro e vidro. Há corpos também. Agentes de segurança de uniforme preto, membros da Guarda Escarlate com o cachecol vermelho. O resultado de um breve combate, um dos muitos que compõem a batalha. Abaixo para sentir o pulso da vermelha mais perto de mim. Nada. Seus olhos estão fechados. Fico feliz por não reconhecê-la.
Lá fora, outra explosão de raios azuis atravessa as nuvens. Não consigo não sorrir, embora os cantos da boca repuxem as cicatrizes. Mais uma sanguenova que consegue controlar a eletricidade. Não estou sozinha.
Com movimentos rápidos, pego o que posso dos corpos. Uma pistola e a munição de um agente. O cachecol vermelho da mulher. Ela morreu por mim. Outra hora, Mare, me repreendo, deixando de lado a areia movediça que esse tipo de pensamento é.
Usando os dentes, amarro o cachecol no pulso.
Balas atingem as janelas, uma rajada delas. Recuo instintivamente, me jogando no chão, mas as janelas aguentam firme. Vidraças de diamante. À prova de balas. Estou segura atrás delas, mas também presa.
Nunca mais.
Deslizo pela parede, tentando não ser vista enquanto observo. A visão me faz perder o fôlego.
O que antes era a celebração de um casamento agora é uma guerra. Fiquei impressionada com a rebelião das Casas Iral, Haven e Laris contra o resto da corte de Maven, mas isso é muito maior. Centenas de oficias de Norta, guardas de Lakeland e nobres letais da corte de um lado, e os soldados da Guarda Escarlate do outro. Deve haver sanguenovos entre eles. Tantos vermelhos, mais do que jamais pensei que fosse possível. Há pelo menos cinco para cada prateado, e são claramente soldados. Treinados com precisão militar, desde os equipamentos táticos até a movimentação. Começo a me perguntar como chegaram aqui, então vejo as aeronaves. Seis delas, aterrissadas na praça. Todas cospem soldados, dúzias deles. Esperança e agitação correm pelo meu corpo.
— Um resgate e tanto — sussurro.
E vou garantir que seja bem-sucedido.
Não sou prateada, não preciso de nada à minha volta para usar meu poder. Mas certamente não atrapalha ter mais eletricidade à mão. Fechando os olhos, só por um segundo, convoco cada fio, cada pulso, cada carga, até a estática das cortinas. A energia aumenta ao meu comando. Me abastece, me cura tanto quanto Wren.
Depois de seis meses de escuridão, finalmente sinto a luz.
Clarões roxos e brancos surgem diante dos meus olhos. Meu corpo inteiro pulsa com a eletricidade, a pele vibrando com o prazer dos raios. Continuo correndo. Adrenalina e eletricidade. Sinto como se pudesse atravessar uma parede.
Mais de uma dúzia de agentes de segurança guardam a entrada. Um deles, um magnetron, está ocupado protegendo as janelas com grades feitas dos lustres retorcidos e adornos de ouro das paredes. Corpos e sangue de ambas as cores cobrem o chão. O cheiro de pólvora prevalece. Os agentes protegem o palácio, mantendo a posição. Sua atenção está voltada para a batalha lá fora, para a praça, não para a retaguarda.
Agachada, coloco as mãos sobre o mármore aos meus pés. O toque é frio sob meus dedos. Lanço meus raios contra a pedra, enviando-os pelo chão em uma rajada irregular de eletricidade. Ela pulsa, uma onda, pegando todos de surpresa. Alguns caem, outros são jogados para trás. A força do disparo elétrico ecoa em meu peito. Se é suficiente para matar, não sei.
Só penso na praça. Quando o ar da rua atinge meus pulmões, quase dou risada. Está envenenado com cinzas, mas cheio da eletricidade da tempestade de raios, e parece mais doce do que qualquer outra coisa. Lá em cima, as nuvens pretas trovejam. O som reverbera nos meus ossos.
Lanço raios roxos e brancos pelo céu. Um sinal. A garota elétrica está livre.
Não fico parada. Continuar na escadaria, olhando o tumulto, é um bom jeito de levar um tiro na cabeça. Mergulho na batalha, procurando algum rosto familiar, se não amigável. Pessoas se esbarram ao meu redor. Os prateados foram pegos de surpresa, incapazes de se organizar nas formações treinadas. Só os soldados da Guarda Escarlate demonstram algum tipo de organização, mas ela está se desfazendo rapidamente. Vou em direção ao Tesouro, o último lugar onde vi Maven e seus sentinelas. Faz apenas alguns minutos. Eles ainda podem estar lá, cercados, aguardando. Vou matá-los. Tenho que matá-los.
Balas passam pela minha cabeça assoviando. Sou mais baixa do que a maioria, mas ainda assim me curvo ao correr.
O primeiro prateado a me desafiar diretamente tem trajes de Provos, dourado e preto. Um homem fino com o cabelo ainda mais fino. Ele estende o braço e sou jogada para trás, batendo a cabeça no piso. Sorrio para ele, prestes a gargalhar. Mas de repente não consigo respirar. Minhas costelas se contraem, me apertando. Olho para cima e vejo que está em pé ao meu lado, o punho cerrado. O telec vai esmagar minha caixa torácica.
Raios se levantam para encontrá-lo, brilhando em fúria. Ele desvia, mais rápido do que eu imaginava. Minha visão escurece quando a falta de oxigênio atinge meu cérebro.
Mais um raio do qual o telec desvia.
Está tão concentrado em mim que não percebe o soldado vermelho imenso a alguns metros de distância. Leva um tiro na cabeça. A cena não é bonita. Sangue prata espirra em meu vestido já arruinado.
— Mare! — o vermelho grita, correndo para o meu lado. Reconheço sua voz, a pele escura e os olhos azul-escuros. Quatro outros rebeldes vêm com ele. Fazem um círculo, me protegendo. Com as mãos fortes, ele me ajuda a levantar.
Respiro fundo e tremo aliviada. Quando o amigo contrabandista do meu irmão virou soldado eu não sei, mas agora não é hora de perguntar.
— Crance.
Com uma mão ainda na arma, ele levanta o rádio na outra.
— Aqui é Crance. Estou com Barrow na praça. — O chiado em resposta não é animador. — Repito. Estou com Barrow. — Xingando, ele enfia o rádio no cinto de novo. — Os canais estão uma bagunça. Muita interferência.
— Da tempestade? — Olho para cima de novo. Azul, branco, verde. Aperto os olhos e jogo outro raio roxo na trovoada de cores.
— Provavelmente. Cal nos avisou…
Agarro seu braço com força, fazendo-o se encolher instintivamente.
— Cal. Onde ele está?
— Preciso tirar você…
— Onde?
Crance solta um suspiro, sabendo que não vou perguntar mais uma vez.
— Na batalha, não sei exatamente onde. O ponto de encontro é no portão principal — ele grita na minha orelha, garantindo que eu ouça. — Cinco minutos. Pegue a mulher de verde. Vista isso — ele completa, tirando a jaqueta. Coloco-a sobre o vestido esfarrapado sem discutir. É pesada. — À prova de balas. Pode ajudar.
Meus pés me carregam para longe antes que eu possa agradecer, deixando Crance e sua equipe para trás. Cal está aqui em algum lugar. Deve estar atrás de Maven, como eu. A multidão se movimenta, uma maré mudando rápido. Se não fossem os rebeldes misturados, eu conseguiria atravessá-la. Abriria caminho com um raio. Em vez disso, uso meus antigos instintos. Passos ágeis, prevendo cada onda de caos. Lanço raios na retaguarda, afastando quaisquer mãos. Um forçador me atinge pelo lado, me jogando contra braços e pernas, mas não paro para lutar com ele. Continuo em frente, empurrando, correndo. Minha cabeça grita um nome. Cal. Cal. Cal. Se conseguir chegar até ele, estarei a salvo. Talvez seja mentira, mas é uma mentira boa.
O cheiro de fumaça fica mais forte conforme avanço. A esperança aumenta. Onde há fumaça, há um príncipe de fogo.
Cinzas e fuligem mancham as paredes brancas da Casa do Tesouro. Um dos mísseis arrancou um pedaço do mármore como se fosse manteiga. A pedra está em uma pilha de destroços na entrada, fornecendo boa cobertura. Os sentinelas a usam, sua formação reforçada por guardas de Lakeland e alguns outros com o uniforme roxo do Tesouro. Eles atiram nos rebeldes que se aproximam, usando balas para defender a fuga do rei.
Muitos usam seus poderes. Desvio de alguns corpos congelados ainda de pé, obra violenta de um calafrio da Casa Gliacon. Há sobreviventes, mas de joelhos, sangrando pelas orelhas. Obra de um banshee da Casa Marinos. As evidências do poder mortal dos prateados estão por toda parte. Corpos partidos por metal, pescoços quebrados, crânios amassados, bocas pingando água. Vejo o cadáver especialmente sombrio de alguém que parece ter sido sufocado pelas plantas nascendo em sua boca. Um verde joga um punhado de sementes em alguns soldados da Guarda Escarlate. Diante dos meus olhos, elas explodem como granadas, cuspindo videiras e espinhos em uma explosão verdejante.
Não vejo Cal aqui, ou qualquer outro rosto que reconheça. Maven já deve estar no trem.
Cerrando o punho, jogo tudo o que posso sobre os sentinelas. Meus raios crepitam ao longo dos escombros e os jogam para trás. Vagamente, ouço alguém gritar ordens para que continuem. Os rebeldes fazem isso, disparando sem parar. Mantenho a pressão, mandando mais um raio na direção deles como um chicote.
— Atenção! — uma voz grita.
Olho para cima, esperando um golpe vindo do céu. Jatos dançam pelas nuvens tempestuosas, seguindo uns aos outros. Nenhum deles parece preocupado conosco. Então alguém me empurra para o lado, me tirando do caminho. Viro a tempo de ver uma figura conhecida correndo por um caminho livre, com a cabeça abaixada, blindado da cabeça aos ombros. Ela ganha velocidade, agitando as pernas.
— Darmian!
Ele não me ouve, está muito ocupado correndo até o bloqueio de mármore. Balas ricocheteiam em sua armadura e em sua pele. Um calafrio envia uma explosão de lanças de gelo contra seu peito, mas elas estilhaçam. Se está com medo, não demonstra. Jamais hesita. Cal ensinou isso a ele. No Furo. Quando estávamos todos juntos. Lembro de um Darmian diferente. Era um homem quieto se comparado a Nix, outro sanguenovo que também tinha o poder da pele impenetrável. Nix já está morto há algum tempo, mas Darmian está muito vivo. Rugindo, ele escala o bloqueio de mármore, lançando-se contra dois sentinelas.
Eles o atacam com tudo o que têm. Tolos. É o mesmo que atirar contra um vidro à prova de balas. Darmian responde na mesma moeda, lançando granadas num ritmo impassível. Elas florescem em fogo e fumaça. Sentinelas são lançados para trás, e apenas alguns conseguem suportar a explosão.
Rebeldes saltam sobre os escombros, seguindo Darmian. Muitos passam na sua frente. Os sentinelas não são sua missão. Maven é. Eles invadem o Tesouro, seguindo o rastro do rei.
Conforme corro adiante, meu poder me acompanha. Sinto as luzes do corredor principal do Tesouro, descendo até a pedra sob nossos pés. Meus sentidos saltam pelos fios, mais e mais fundo. Alguma coisa grande está lá embaixo, e seu motor ronrona.
Maven ainda está aqui.
O mármore sob meus pés é fácil de escalar. Avanço pelos destroços de quatro, a mente concentrada lá embaixo. A próxima explosão me pega de surpresa. Sua força me lança para trás em uma onda de calor. A aterrissagem é dura, caio de costas, perdendo o ar, mas agradeço em silêncio à jaqueta de Crance. A explosão se lança sobre mim, perto o suficiente para queimar meu rosto.
Muito grande para uma granada. Muito controlada para uma chama natural.
Levanto desajeitada, obrigando as pernas a me obedeceram enquanto inspiro fundo.
Maven. Eu devia saber. Ele não vai me deixar aqui. Não vai fugir sem seu animal de estimação favorito. Voltou para me acorrentar pessoalmente.
Boa sorte.
A fumaça segue o turbilhão de fogo, deixando a praça já escura nebulosa. Ela me envolve, ficando mais e mais forte a cada segundo. Envio raios pelos meus nervos, deixando que estale em cada centímetro do meu corpo. Dou um passo em direção à silhueta preta e estranha na luz oscilante do fogo. A fumaça rodopia, o fogo lançando longas chamas azuis escaldantes. Cerro os punhos, pronta para usar cada gota de raiva que acumulei em sua prisão. Estava esperando este momento. Maven é um rei esperto, mas não é um soldado. Vou destruí-lo.
Os raios dançam sobre nossas cabeças, mais claros que as chamas. Iluminam o lugar quando o vento sopra, afastando a fumaça para revelar…
Olhos dourado-avermelhados. Ombros largos. Mãos calejadas, lábios familiares, cabelo preto bagunçado e um rosto do qual senti muita falta.
Não é Maven. Todos os pensamentos sobre o rei menino desaparecem em um instante.
— Cal!
Uma bola de fogo sibila no ar, quase acertando minha cabeça. Desvio dela por instinto. A confusão domina meu cérebro. Ele é inconfundível. Cal, ali, de armadura, com uma faixa vermelha amarrada na cintura. Luto contra a necessidade carnal de correr até ele. Preciso de todo o meu controle para dar um passo para trás.
— Cal, sou eu! Mare!
Ele não fala, só vira o corpo, ficando de frente para mim. O fogo à nossa volta se agita e aumenta, se aproximando com uma velocidade impressionante. O calor arranca o ar dos meus pulmões, e respiro a fumaça. Só os raios me mantêm segura, estalando à minha volta em um escudo de eletricidade para impedir que eu queime viva.
Me aproximo de novo, entrando em seu inferno. Meu vestido queima, deixando um rastro de fumaça. Não desperdiço meu tempo precioso ou minhas sinapses tentando entender o que está acontecendo. Já sei.
Seus olhos estão sombrios, fora de foco. Não há reconhecimento neles. Nenhuma indicação de que passamos os últimos seis meses tentando voltar um para o outro. Seus movimentos são robóticos, mesmo considerando seu treinamento militar.
Um murmurador domina sua mente. Não preciso adivinhar qual.
— Sinto muito — sussurro, embora ele não possa me ouvir.
Uma explosão de raios o lança para trás, as faíscas dançando pelas placas de sua armadura. Cal convulsiona, tremendo conforme a eletricidade atinge seus nervos. Mordo o lábio, tentando mais do que nunca andar pela linha tênue que separa a imobilização do ferimento. Me contenho demais. Um erro.
Cal é mais forte do que imaginei. E tem uma grande vantagem sobre mim: estou tentando salvá-lo, enquanto ele está tentando me matar.
Cal luta mesmo com a dor, avançando para cima de mim. Desvio, usando o poder que estava concentrado em imobilizá-lo para me manter a salvo de seu ataque arrasador. Um soco de fogo passa sobre a minha cabeça. Sinto cheiro de cabelo queimado. Outro me acerta na barriga e me derruba. Aproveito a inércia para rolar e levantar de novo, relembrando os velhos truques. Com um gesto, mando outro raio, que sobe por sua perna e chega até a coluna. Cal uiva de dor. O som me destrói por dentro.
Mas o golpe me dá alguma vantagem.
Foco em outra coisa, no rosto diabólico de uma pessoa. Samson Merandus.
Ele deve estar perto o suficiente para mandar Cal atrás de mim. Procuro-o em meio à batalha enquanto corro. Se estiver mesmo aqui, está muito bem escondido. Pode estar olhando do telhado do Tesouro ou das muitas janelas dos prédios adjacentes. A frustração devora minha determinação. Cal está bem aqui. Estamos juntos de novo. E ele está tentando me matar.
O calor de sua fúria lambe meus calcanhares. Mais uma explosão me atinge do lado esquerdo, lançando agulhas de agonia quente pelo meu braço. A adrenalina afoga a sensação rapidamente. Não posso me dar ao luxo de sentir dor agora.
Pelo menos sou mais rápida do que ele. Sem as algemas, cada passo parece mais fácil que o anterior. Deixo a tempestade lá em cima me abastecer, me alimentando da energia elétrica de outra sanguenova em algum lugar. Seu cabelo azul não cruza minha visão novamente. Que pena. Ela seria útil agora.
Se Samson está escondido perto do Tesouro, só preciso tirar Cal de seu alcance. Derrapando, viro para olhar por cima do ombro. Cal ainda está me seguindo, uma sombra azul de fogo e raiva.
— Vem me pegar, Calore! — grito para ele, mandando uma explosão de raios na direção do seu peito. Mais forte que a última, suficiente para deixar uma marca.
Ele vira de lado, desviando, nunca parando de andar. Seguindo meu rastro.
Espero que funcione.
Ninguém ousa entrar no nosso caminho.
Vermelho e azul e roxo, fogo e raio, rasgam a batalha como uma faca. Ele me persegue com a determinação de um cão de caça. E com certeza me sinto caçada pela praça.
Vou em direção ao portão principal, ao ponto de encontro que Crance mencionou. Minha fuga. Não que eu vá fugir. Não sem Cal.
Depois de cem metros, fica claro que Samson está correndo conosco, mas escondido. Nenhum murmurador Merandus tem um alcance tão grande, nem mesmo Elara. Viro para um lado e para o outro, varrendo o banho de sangue. Quanto mais a batalha durar, mais tempo os prateados terão para se organizar. Soldados do Exército em uniformes cinza inundam a praça, conquistando partes dela sistematicamente. A maioria dos nobres recuou para a barreira de proteção militar, embora alguns — os mais fortes, os mais corajosos, os mais sanguinários — continuem lutando. Esperava ver membros da Casa Samos aqui, mas não vejo nenhum magnetron que reconheça.
Tampouco reconheci outros membros da Guarda Escarlate. Nada do coronel, de Farley, Kilorn, Cameron ou dos sanguenovos que ajudei a recrutar. Só Darmian, provavelmente abrindo caminho pelo Tesouro, e Cal, tentando ao máximo me derrotar.
Xingo, desejando principalmente que Cameron estivesse aqui. Ela poderia silenciar Cal, contê-lo por tempo suficiente para que eu encontrasse e matasse Samson. Mas tenho que fazer isso sozinha. Manter Cal à distância, continuar viva e de alguma forma exterminar o murmurador Merandus que nos assola.
De repente, borrões azul-marinho surgem no canto da minha visão.
Longos meses em cativeiro prateado fizeram com que aprendesse as cores das Casas. Lady Blonos despejou seu conhecimento em mim, e agora, mais do que nunca, agradeço por isso.
Viro, mudando de direção com desejo de vingança. Uma cabeça loira se mistura aos soldados prateados, tentando se esconder na formação. Mas ele se destaca, o terno formal em contraste com os uniformes militares. Tudo vai em direção a ele. Todo o meu foco, toda a minha energia. Jogo tudo o que posso ali, soltando raios irregulares contra Samson e o escudo prateado entre nós.
Ele olha para mim e os raios se arqueiam como um chicote. Tem os olhos de Elara, os olhos de Maven. Azuis como gelo, azuis como chamas. Frios e implacáveis.
De alguma forma, minha eletricidade se curva, contornando-o. Desvia, ricocheteando em outra direção. Minha mão acompanha o movimento, meu corpo se mexendo por conta própria enquanto os raios seguem na direção de Cal. Tento gritar, embora avisar um homem controlado seja o mesmo que nada. Mas meus lábios não se mexem. O terror na espinha é a única coisa que sinto. Não o chão sob meus pés, não as novas queimaduras, nem mesmo a fumaça entrando pelo nariz. Tudo desaparece. É tirado de mim.
Por dentro, grito, porque Samson agora me domina. Não consigo fazer nenhum barulho. A sensação do cérebro dele controlando minha mente é inconfundível.
Cal pisca como alguém que acorda de um longo sono. Mal tem tempo de reagir, erguendo os braços para proteger a cabeça da explosão de eletricidade. Algumas faíscas viram chamas, manipuladas pelo seu poder. Mas a maioria atinge o alvo, e ele cai de joelhos com um grito de dor.
— Samson! — Cal grita entredentes.
Percebo minha mão se movimentar em direção ao meu quadril. Ela saca a pistola, que é apontada para minha têmpora.
Os murmúrios de Samson aumentam na minha cabeça, ameaçando bloquear todo o resto.
Aperte o gatilho. Aperte o gatilho. Aperte o gatilho.
Não sinto o gatilho. Não vou sentir a bala.
Cal puxa meu braço para trás, me fazendo virar. Ele arranca a arma da minha mão e a joga no chão. Nunca o vi com tanto medo.
Mate-o. Mate-o. Mate-o.
Meu corpo obedece.
Sou espectadora na minha própria cabeça. Uma batalha furiosa surge diante dos meus olhos e não posso fazer nada a não ser acompanhar. O piso vira um borrão quando Samson me faz correr, batendo de frente com Cal. Atuo como um para-raios humano, me agarrando à sua armadura e atraindo a eletricidade do céu para despejá-la nele.
Dor e medo nublam seus olhos. Sua chama não tem tanta força assim.
Ataco, agarrando seu pulso. Mas o bracelete aguenta firme.
Mate-o. Mate-o. Mate-o.
O fogo me joga para trás. Caio com tudo, os ombros e a cabeça quicando no chão. O mundo gira, e meus membros desengonçados tentam me botar de pé.
Levante. Levante. Levante.
— Fique abaixada, Mare! — ouço um grito vindo da direção de Cal. Sua silhueta dança na minha frente, dividindo-se em três. Talvez seja uma concussão. Sangue vermelho jorra no piso branco.
Levante. Levante. Levante.
Meus pés se mexem sozinhos, dando impulso. Levanto rápido, quase caindo de novo quando Samson me obriga a dar passos vacilantes. Ele encurta a distância entre mim e Cal. Já vi isso antes, há mil anos. Samson Merandus na arena, obrigando outro prateado a cortar as próprias entranhas. Vai fazer o mesmo comigo, depois que me usar para matar Cal.
Tento impedi-lo, mas não sei por onde começar. Tento contrair um dedo que seja, mas nada responde.
Mate-o. Mate-o. Mate-o.
Raios saem das minhas mãos, espiralando na direção de Cal. Erram o alvo, desequilibrados como meu corpo. Ele manda um arco de fogo em resposta, me obrigando a desviar e fazendo com que eu tropece.
Levante. Mate-o. Levante.
Os murmúrios afiados cortam minha mente. Meu cérebro deve estar sangrando.
MATE-O. LEVANTE. MATE-O.
Através das chamas, vejo o borrão azul-marinho de novo. Cal dispara atrás de Samson e derrapa em um joelho, mirando com a pistola.
LEVANTE…
A dor me perpassa como uma onda e caio para trás no mesmo instante que uma bala passa por cima da minha cabeça. Outra, mais perto. Por instinto, lutando contra o zumbido no meu crânio ferido, levanto com dificuldade. Me mexo por vontade própria.
Gritando, transformo o fogo de Cal em raios, as chamas vermelhas se tornando veias de eletricidade roxas e brancas. Formo um escudo enquanto Cal esvazia as balas na minha direção. Atrás dele, Samson ri.
Desgraçado. Vai nos jogar um contra o outro pelo tempo que for necessário.
Lanço os raios o mais rápido que posso, desviando-os em direção a Samson. Se eu conseguisse interromper sua concentração, só por um segundo…
Cal reage, como uma marionete. Ele protege Samson com o corpo largo, recebendo a maior parte do meu ataque.
— Alguém me ajuda! — grito para ninguém. Somos apenas três em uma batalha de centenas, que começa a se definir. Os prateados se organizam, alimentados pelos reforços dos quartéis e do restante das tropas de Archeon. Meus cinco minutos acabaram faz tempo. Qualquer fuga que Crance prometeu já era.
Preciso destruir Samson. Preciso.
Outra explosão de raios, desta vez pelo chão. Ele não tem como desviar.
MATE-O. MATE-O. MATE-O.
Os murmúrios estão de volta, chamando a eletricidade de volta com as próprias mãos. Os raios formam um arco para trás, como uma onda.
Cal abaixa e gira, lançando a perna em um chute. Ele acerta, derrubando Samson.
Seu controle sobre mim se interrompe e lanço mais uma onda elétrica.
Esta acerta os dois. Cal xinga, segurando um grito. Samson se contorce e solta um berro assustado. Ele não está acostumado a sentir dor.
Mate-o…
O murmúrio está distante, fraco. Posso combatê-lo agora.
Cal pega Samson pelo pescoço, erguendo-o só para bater sua cabeça de novo no chão.
Mate-o…
Corto o ar com a mão, lançando um raio. Ele atinge Samson do quadril até o ombro. Sangue prateado jorra do corte.
Me ajude…
O fogo desce pela garganta de Samson, carbonizando suas entranhas. Suas cordas vocais estão destruídas. O único grito que ouço agora está na minha cabeça.
Levo o raio para seu cérebro. A eletricidade frita o tecido em seu crânio como um ovo na frigideira. Seus olhos se reviram, brancos. Quero que a dor dure mais, quero fazê-lo pagar pelas torturas contra mim e tantos outros. Mas ele morre muito rápido.
Os murmúrios desaparecem.
— Acabou. — Respiro aliviada.
Cal olha para cima, ainda ajoelhado sobre o corpo. Seus olhos se arregalam como se estivesse me vendo pela primeira vez. Sinto a mesma coisa. Sonhei tanto com este momento, desejando-o há meses. Se não fosse a batalha, nossa posição precária bem no meio dela, lançaria meus braços em volta do seu pescoço e me enterraria no príncipe ardente.
Em vez disso, ajudo-o a levantar colocando um de seus braços sobre meus ombros.
Ele manca, com espasmos na perna. Estou ferida também, com um corte sangrando na lateral do corpo. Pressiono a mão livre na ferida. A dor fica mais forte.
— Maven está sob o Tesouro. Ele tem um trem — digo enquanto nos afastamos juntos.
Seu braço aperta meus ombros. Ele nos leva em direção ao portão principal, apertando o passo.
— Não vim aqui por ele.
O portão se destaca, largo o suficiente para que três veículos passem lado a lado. Do outro lado, a ponte de Archeon sobre o rio Capital encontra o lado leste da cidade. A fumaça sobe por toda parte, alcançando o céu tempestuoso. Luto contra o ímpeto de virar e correr até o Tesouro. Mas Maven já deve ter fugido. Está fora do meu alcance.
Mais veículos militares avançam para nós enquanto jatos gritam na nossa direção. É muito reforço para combater.
— Qual é o plano, então? — sussurro. Estamos sendo cercados. O pensamento esgota o choque e a adrenalina, me deixando alerta. Tudo isso por mim. Corpos por toda parte, vermelhos e prateados. Que desperdício.
A mão de Cal encontra meu rosto, me fazendo virar para olhar para ele. Apesar da destruição à nossa volta, ele sorri.
— Pela primeira vez, temos um.
Enxergo verde no canto do olho. Sinto outra mão agarrar meu braço.
E o mundo vira nada.

12 comentários:

  1. Evangeline é a prova de que não existe nada mais vingativo e perigoso que uma mulher menosprezada. Esse capitulo foi nitroglicerina pura

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    1. Foi maravilhoso!!!
      Olha a hora e nao consigo parar de ler

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  2. Shadeeee msm poder ou mesma pessoa? Ou sera q n tem nada a ver

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  3. AEEEEEEEEEEEE ATÉ QUE ENFIM!!!! Samson deveria morrer mais lento e doloroso esse desgraçado!

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  4. Passou uns capitulos sem acontecer coisas muitos interessantes, mais esse capitulo foi de tirar o folego

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  5. MEEEEEEEEEU DEUS :O
    ESTOU CHOCADA, QUE CAPÍTULO!!

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  6. Eu to torcendo pra Mare matar a Evangeline e aquele irmão asqueroso dela junto, se ela não quer que ele morra, vai junto.

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  7. Que Capitulo hein!

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  8. gente não acredito que é o shadeeeee!!!!!!

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  9. GRITANDOOO ..... quase enfartei com esse capítulo! !

    Flavia

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  10. AAAAAAA QUE ADRENALINAAAAAAAA
    AMEI!
    RI COM ESSA PARTE:
    MARE: MAVEN.FINALMENTE VOU MATA-LO.
    EU: ISSO AI, MORRA GATO DESGRAÇADO!
    MARE: MAS É CAL.
    EU: OK, PELO MENOS ELES SE ENCONTRARAM DE NOVO E VÃO FUGIR.
    MARE: ELE ESTÁ SENDO CONTROLADO POR SAMSON.
    EU: MAS QUE BOSTA! ~polly~ kkkkkkkk

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Boa leitura :)