13 de março de 2017

Capítulo dezoito

O PROBLEMA DO CALOR É QUE NÃO IMPORTA quanto frio você sinta, não importa o quanto você precise se esquentar, no final, o calor sempre fica excessivo.
Lembro dos muitos invernos que passei com uma fresta da janela aberta, deixando o frio cortante entrar para combater o fogo ardendo na sala do andar de baixo. Algo no ar gelado me ajudava a dormir. E agora o suspiro profundo da brisa de outono me ajuda a ficar calma, me ajuda a esquecer Cal sozinho no abrigo. Eu não devia ter feito aquilo, penso, pressionando a mão contra minha pele febril. Ele não é apenas uma distração, é também uma desilusão amorosa que vai acontecer a qualquer momento. A lealdade dele é, no mínimo, instável. Um dia ele vai partir ou morrer ou me trair como tantos outros já fizeram. Um dia, ele vai me magoar.
O sol já se pôs completamente; o céu se tinge de tons cada vez mais escuros de vermelho e laranja.
Provavelmente. Não posso confiar nas cores que enxergo. Não posso mais confiar em muita coisa.
O abrigo está localizado no topo de um morro, no meio de uma clareira enorme cercada pela floresta. Tem vista para um vale sinuoso cheio de árvores, lagos e uma neblina constante e volátil. Cresci na floresta, mas este lugar é tão estranho para mim quanto Archeon ou o Palacete do Sol. Não existe nada criado por humanos até onde nossos olhos alcançam, nem sinal de um vilarejo madeireiro ou de uma vila rural. Mas imagino que exista alguma pista de pouso escondida por perto, se é que o jato ainda pode ser usado. Devemos estar bem no interior da região selvagem de Norta, bem ao norte, longe de Harbor Bay. Não conheço bem o Estado do Regente, mas aqui parece a região de Greatwoods, dominada pela mata, pelos mares de montanhas verdes e por tundras congeladas, que fazem fronteira com Lakeland. A população é esparsa e vive governada pelos calafrios da Casa Gliacon. Um lugar maravilhoso para se esconder.
— Terminou seu assunto com ele?
Kilorn é pouco mais que uma sombra apoiada contra o tronco de um carvalho cujos galhos se abrem para o céu. Um jarro d’água jaz esquecido aos seus pés. Não preciso ver seu rosto para saber que está irritado. Posso ouvir muito bem.
— Não seja deselegante — digo. Estou acostumada a lhe dar ordens, mas a frase soa como um pedido.
Como esperado, ele me ignora e continua a resmungar.
— Acho que todos os boatos têm um fundo de verdade. Mesmo aqueles que o traste do Maven espalhou. “Mare Barrow seduziu o príncipe para matar o rei.” É um choque saber que ele está mais ou menos certo. — Kilorn dá alguns passos tortos para a frente, o que me lembra um silfo Iral rondando antes de dar o golpe final. E ele dá: — Porque o príncipe com certeza está seduzido.
— Se você não parar de falar, vou te transformar numa bateria.
— É melhor você arrumar ameaças novas — ele diz com um sorriso desafiador. Está tão acostumado com as minhas intimidações que duvido que eu seja capaz de assustá-lo com alguma coisa, mesmo que seja a minha eletricidade. — Ele é um homem poderoso, em todos os sentidos da palavra. Não me entenda mal, estou feliz por você estar segurando as rédeas dele.
Não consigo deixar de soltar uma gargalhada.
— Feliz? Você está pura e simplesmente com ciúmes! Não está acostumado a dividir. E não gosta de ser inútil.
Inútil. A palavra o rasga. Posso notar pelo movimento do pescoço dele. Ele se ergue na minha frente, bloqueando as estrelas que começam a nascer brilhantes no céu.
— A pergunta é: você também está enfeitiçada? Ele está te usando do mesmo jeito que você o usa?
— Não uso ninguém. — Estou mentindo, e nós dois sabemos. — E você não sabe do que está falando.
— Você tem razão — ele concorda baixo.
A surpresa quase me derruba. Em mais de dez anos de amizade, nunca ouvi essas palavras da boca de Kilorn Warren. Ele é teimoso como uma mula, convencido demais, um desgraçado cara de pau na maior parte do tempo. Mas agora, no alto deste morro, ele não é nada do que já foi. Parece pequeno e fraco, um brilho da minha antiga vida que oscila rapidamente para o nada.
Aperto uma mão na outra para segurar a vontade de tocar meu amigo como prova de que ele ainda existe.
— Não sei o que aconteceu quando você era Mareena. Não estava lá para te ajudar a passar por aquilo. Não vou dizer que entendo ou que sinto muito. Não é o que você precisa.
Mas é exatamente o que quero, para poder sentir raiva dele, para não precisar ouvir o que ele está prestes a dizer. Pena que Kilorn me conhece tão bem.
— A melhor coisa que posso fazer é dizer a verdade, ou pelo menos o que acho que é a verdade. — Embora a voz dele saia firme, seus ombros sobem e descem junto com a respiração pesada e difícil. Ele está assustado. — Cabe a você acreditar em mim ou não.
Meus lábios se contraem, deixando escapar um sorriso dolorido. Estou muito acostumada a ser arrastada por aí, a ser manipulada pelas pessoas mais próximas. Até Kilorn é culpado disso. Mas agora ele me dá a escolha que desejo há tanto tempo. Uma escolha, por menor que seja. Ele confia que tenho capacidade para escolher, ainda que eu não tenha.
— Estou ouvindo.
Ele começa a falar mais alguma outra coisa, e então para. As palavras entalam, se recusando a sair. E por um segundo, seus olhos verdes parecem estranhamente úmidos.
— O que foi, Kilorn? — pergunto com um sussurro.
— O que foi? — ele repete, balançando a cabeça.
Depois de um longo momento, algo se parte dentro dele.
— Sei que você não sente o mesmo que eu. Em relação a nós.
Sou tomada por uma vontade louca de bater a cabeça contra uma rocha. Nós.
Parece uma idiotice falar sobre isso, uma grande perda de tempo e energia. Mas, mais do que isso, é vergonhoso e desconfortável. Minhas bochechas ardem, vermelhas.
Nunca quis ter esta conversa com ele.
— E tudo bem — ele continua, antes que eu o interrompa. — Você nunca me viu como eu te vejo, nem em Palafitas, antes de tudo isso acontecer. Pensei que um dia, talvez, mas... — Ele dá de ombros. — Você simplesmente não consegue me amar.
Quando eu era a Mare Barrow de Palafitas, pensava a mesma coisa. Imaginava o que aconteceria se eu sobrevivesse ao serviço militar e visse o que o futuro me reservava: um casamento de amizade com o pescador de olhos verdes, filhos para amar, uma casa pobre em Palafitas. Parecia um sonho naquela época, uma impossibilidade. E ainda é. Sempre será. Não amo Kilorn, não do jeito que ele quer. Jamais amarei.
— Kilorn... — balbucio, dando um passo em sua direção. Mas ele dá dois para trás. — Kilorn, você é meu melhor amigo; é parte da minha família.
O sorriso dele escorre tristeza.
— E sempre serei, até o dia que morrer.
Não mereço você, Kilorn Warren.
— Sinto muito — falo, engasgando. Nem sei o que mais posso dizer. Nem sei do que estou me desculpando.
— Não é algo que você seja capaz de controlar, Mare — ele responde, ainda distante. — Não podemos escolher quem amamos. Bem que eu gostaria, mais que qualquer outra coisa.
Me sinto destroçada. Minha pele ainda está quente do abraço de Cal, ainda se lembra do toque dele apenas uns minutos atrás. Mas, bem no fundo, contra todas as fibras do meu ser, penso além da clareira, nos olhos cor de gelo, na promessa vazia e no beijo a bordo de um navio.
— Você pode amá-lo o quanto quiser, não vou impedir. Mas, por mim, pelos seus pais, pelo resto de nós, por favor, não o deixe controlar você.
De novo, penso em Maven. Mas Maven está longe, uma sombra nas margens do mundo. Ele pode estar tentando me matar, mas não vai me controlar, não mais. Kilorn deve estar se referindo ao outro irmão, ao filho caído da Casa Calore.
Cal. Meu escudo contra as cicatrizes e os pesadelos. Ele é um guerreiro, não um político ou um criminoso. Não tem capacidade para manipular ninguém, muito menos eu. Simplesmente não faz parte da natureza dele.
— Ele é prateado, Mare. Você não sabe do que ele é capaz, nem o que ele quer de verdade.
Duvido que o próprio Cal saiba. O príncipe exilado está mais à deriva do que eu, sem criados ou aliados além de uma garota elétrica temperamental.
— Ele não é o que você pensa — digo. — Não importa a cor do sangue dele.
O rosto de Kilorn assume uma expressão leve, claramente de desprezo.
— Você não leva isso a sério.
— Não levo — digo, triste. — Eu sei. E isso torna as coisas muito mais difíceis. Antes, eu acreditava que o sangue era tudo no mundo, a diferença entre a luz e a escuridão, uma divisão irrevogável e intransponível. Tornava os prateados poderosos, frios e brutais, desumanos até, quando comparados aos meus irmãos vermelhos. Mas pessoas como Cal, Julian e até mesmo Lucas me mostraram como eu estava errada. Os prateados são humanos como nós, cheios dos mesmos medos e esperanças. Não estão livres do pecado, mas também não estamos. Nem eu estou.
Se ao menos fossem os monstros que Kilorn pensa que são, se ao menos  as coisas fossem tão simples... No fundo do meu coração, invejo o ódio teimoso de Kilorn. Gostaria de poder compartilhar dessa ignorância. Mas já vi e sofri demais.
— Vamos matar Maven. E a mãe dele — acrescento, com uma segurança gélida. Matar o fantasma, matar a sombra. — Com a morte deles, os sanguenovos estarão a salvo.
— E Cal estará livre para recuperar o trono, para fazer tudo voltar ao que era antes.
— Isso não vai acontecer. Ninguém o deixaria voltar ao trono. Vermelho ou prateado. E, até onde sei, ele não quer.
— Mesmo? — Detesto o sorrisinho que se desenha no rosto de Kilorn. — De quem foi a ideia? De matar Maven? — Como não respondo, seu sorriso aumenta. — Foi o que pensei — ele conclui.
— Obrigada pela sinceridade, Kilorn.
Minha gratidão o pega desprevenido, surpreendendo-o tanto quanto me surpreendeu. Ambos mudamos muito nos últimos meses. Não somos mais o garoto e a garota de Palafitas, prontos para discutir por todo e qualquer assunto. Esses dois eram apenas crianças, e desapareceram para sempre.
— Vou lembrar do que você disse, claro — falo.
Minhas aulas nunca foram tão úteis, me ajudando a dispensar Kilorn sem magoá-lo.
Como uma princesa faria com um criado.
Mas Kilorn não se deixa vencer facilmente. Ele estreita os olhos até virarem dois riscos verde-escuros penetrando minha máscara de cortesia. Parece tão enojado que penso que vai cuspir.
— Um dia, em breve, você vai se perder — ele sussurra. — E não vou estar ao seu lado para te trazer de volta.
Dou as costas para o meu amigo mais antigo. As palavras dele machucam, e não quero ouvi-las, por mais que façam sentido. As botas dele pisam forte na terra dura à medida que ele se distancia e me deixa ali, parada, olhando para as árvores. Ao longe, o jato chia ao retornar para nós.
Ficar sozinha é o maior de todos os meus medos.
Então por que faço isso? Por que afasto as pessoas que amo? O que há de errado comigo?
Não sei.
E não sei como mudar.


Reunir um exército é a parte fácil. Os registros de Harbor Bay nos levam a todos os sanguenovos nas cidades e vilarejos da região de Beacon, desde Cancorda e Taurus até os portos semialagados das Ilhas Bahrn. A lista de Julian nos ajuda na expansão, até que todas as partes de Norta estão em nossas mãos. Mesmo Delphie, a cidade mais ao sul do reino, está a apenas algumas horas de distância de jato.
Cada povoado, por menor que seja, recebeu mais tropas de soldados prateados com ordens para nos pegar e nos entregar ao rei. Mas eles não conseguem vigiar todos os alvos ao mesmo tempo, e Maven ainda não é forte o bastante para sequestrar centenas de pessoas de um dia para o outro. Atacamos ao acaso, sem padrão, e geralmente os pegamos desprevenidos. Às vezes temos sorte, e eles nem fazem ideia de que entramos na cidade.
Shade prova sua utilidade dia após dia, assim como Ada e Nix. O poder dela nos ajuda a encontrar caminhos ao redor das muralhas das cidades; o dele nos ajuda a atravessá-las.
Mas uma hora tudo sempre chega em mim. Sou sempre eu a confrontar cada um dos sanguenovos, explicar o que são e que tipo de ameaça representam para o rei.
Então lhes ofereço uma escolha, e eles sempre escolhem viver. Sempre nos escolhem.
Distribuímos salvo-condutos às famílias, encaminhando os que ficaram para trás aos vários santuários e bases operados pela Guarda Escarlate. Pelo Comando, como Farley diz, cada vez mais misteriosa. Alguns são até mandados a Tuck, atrás da segurança do coronel. Ele pode odiar sanguenovos, mas Farley me garante que ele não vai rejeitar vermelhos de verdade.
Os sanguenovos que encontramos estão assustados, outros raivosos, mas alguns ficam surpresos, geralmente as crianças. A maioria não sabe o que é. Mas alguns sabem, e já são assombrados pelas mutações do nosso sangue.
Na periferia da cidade de Haven encontramos Luther Carver, um menino de oito anos, de cabelo preto e fino, pequeno para a idade, filho de um carpinteiro. Encontramos Luther na oficina do pai, dispensado da escola para aprender a profissão. Levo pouco tempo para convencer o sr. Carver a me deixar entrar, embora ele observe Cal e até Nix com desconfiança. O menino se recusa a me encarar; seus dedos minúsculos agitados de nervoso. Ele treme quando falo com ele, e insiste em me chamar de garota elétrica.
— Seu nome está na lista porque você é especial, diferente — conto a ele. — Você sabe do que estou falando?
O menino sacode a cabeça com violência; sua franja comprida balança de um lado para o outro. Mas o pai está de pé atrás dele, como um guardião. Solene e devagar, ele faz que sim com a cabeça.
— Tudo bem, Luther, não é motivo nenhum para ter vergonha — digo, estendendo a mão por sobre a mesa, sobre a marchetaria certamente feita por Carver.
Mas os dedos do garoto não se deixam tocar. Recuam para o colo, para fora do meu alcance.
— Não é nada pessoal — Carver diz, pousando a mão sobre o ombro do filho para tranquilizá-lo. — Luther não... Ele só não quer fazer mal a vocês. Isso vem e vai... Está piorando, como viram. Mas vocês vão ajudar, não vão? — O infeliz parece sofrer, e sua voz quase falha.
Meu coração sofre por ele, e me pergunto o que meu pai faria nessa situação.
Diante de pessoas que entendem seu filho, que podem ajudar, mas que precisam levá-lo embora.
— Você sabe por que ele é assim? — Carver pergunta.
Eu mesma já me fiz essa pergunta muitas vezes, e já a ouvi de quase todos os sanguenovos. Mas ainda não tenho resposta.
— Sinto muito, mas não sei, senhor. Sabemos apenas que os poderes vêm de uma mutação, algo inexplicável no nosso sangue.
Penso em Julian e nos seus livros, na sua pesquisa.
Ele nunca chegou a me ensinar mais sobre o Cisma, o momento da antiguidade quando o sangue prateado se separou do vermelho, resultando no mundo de hoje. Suponho que um novo Cisma tenha começado, com sangues como o meu. Ele estava me estudando antes de ser capturado, estava tentando descobrir a resposta para essa pergunta. Mas não teve chance de encontrá-la.
Cal muda de posição e, quando ele contorna a mesa, espero ver a máscara intimidante que ele sempre veste.
Em vez disso, abre um sorriso bondoso, tão largo que quase chega aos olhos. Então se ajoelha para encarar Luther nos olhos. O menino fica fascinado, atônito não apenas pela presença do príncipe, mas também por receber a sua atenção total.
— Alteza — ele chia, e até tenta fazer uma reverência.
Atrás do menino, o pai não demonstra a mesma etiqueta e franze a testa. Príncipes prateados não são seus visitantes prediletos.
Ainda assim, o sorriso de Cal aumenta, e seus olhos estão fixos no menino.
— Por favor, me chame de Cal — ele diz, estendendo a mão. De novo, Luther se afasta, mas Cal parece não se importar. Na verdade, aposto que já esperava por isso.
Luther cora, e suas bochechas vibram em um tom vermelho-escuro adorável.
— Desculpa.
— Não foi nada — Cal responde. — Na verdade, eu fazia a mesma coisa quando era pequeno, um pouco menor que você. Mas eu tinha muitos, muitos professores. E eu precisava deles também — acrescenta, com uma piscadela. Apesar do medo, o menino sorri um pouco. — Mas você só tem o seu pai, não é?
O menino engole em seco, e sua pequena garganta vacila. Então faz que sim.
— Eu tento... — Carver diz, segurando o ombro do filho novamente.
— Entendemos, senhor — digo a ele. — Mais que qualquer um.
A curiosidade de Luther é maior que a timidez, e o menino cutuca Cal com o sapato.
— O que deixava você com medo?
Diante dos nossos olhos, as mãos espalmadas de Cal se acendem numa chama quente e agitada. Mas também estranhamente bela. Um fogo lento e dançante, amarelo e vermelho, preguiçoso nos movimentos. Se não fosse pelo calor, pareceria uma obra de arte, não uma arma.
— Não sabia controlar isso — Cal diz, deixando a chama brincar entre seus dedos. — Tinha medo de queimar as pessoas. Meu pai, meus amigos, meu... — A voz dele quase trava. — Meu irmão mais novo... Mas aprendi a fazer o fogo me obedecer, a não machucar as pessoas que eu queria proteger. E você também pode aprender, Luther.
Enquanto o garoto observa, fascinado, seu pai não parece tão convencido. Mas este não é o primeiro pai que encontramos, e estou preparada para a sua próxima pergunta.
— Esses que você chama de sanguenovos... eles podem fazer isso também? Podem... controlar o que são?
Minhas próprias mãos se cobrem com teias de faíscas, cada uma formando um raio perfeito de luz roxa antes de desaparecer por completo na minha pele, sem deixar vestígios.
— Sim, podemos, sr. Carver.
Com uma velocidade surpreendente, o homem pega um vaso de uma prateleira e o posiciona na frente do filho. Dentro dele, uma planta — uma samambaia talvez — brota da terra. Qualquer outra criança ficaria confusa, mas Luther sabe exatamente o que o pai quer.
— Vá em frente, garoto — ele incentiva, com uma voz doce e gentil. — Mostre o que precisa de conserto.
Antes que eu possa me arrepiar com a frase, Luther estende a mão trêmula. Seus dedos roçam de leve a ponta de uma das folhas da samambaia, num movimento preciso.
Nada acontece.
— Tudo bem, Luther — Carver diz. — Pode mostrar para eles.
O garoto tenta de novo, com a testa franzida de concentração. Desta vez, ele pega a samambaia pelo caule e a segura na mãozinha. Devagar, a planta se curva ao toque dele, escurecendo, se dobrando sobre si: morrendo. Enquanto assistimos a cena, atônitos, Carver pega outra coisa na prateleira do fundo e joga no colo do filho: um par de luvas de couro.
— Cuidem bem dele — diz. Seus dentes cerram, apertados, para conter a tempestade em seu coração de pai. — Prometam que vão cuidar bem dele.
Ele não treme quando aperto sua mão.
— Eu lhe dou a minha palavra, sr. Carver.
Só quando voltamos ao abrigo — que começamos a chamar de Furo — me permito um momento sozinha.
Para pensar, para dizer a mim mesma que a mentira foi bem contada. Não posso prometer com certeza que aquele menino ou que os outros como ele vão sobreviver ao que está se aproximando. Mas definitivamente espero que ele sobreviva, e vou fazer tudo o que posso para isso acontecer.
Mesmo que o poder terrível desse menino seja causar a morte.


As famílias dos sanguenovos não são as únicas a fugir. As Medidas tornaram a vida dos vermelhos bem difícil, pior do que nunca, levando muitos deles às florestas e fronteiras em busca de um lugar onde não fossem forçados a trabalhar até morrer ou enforcados por dar um passo em falso. Alguns estão a poucos quilômetros do nosso acampamento, seguindo para o norte, rumo a uma fronteira já tingida pela neve do inverno que se aproxima. Kilorn e Farley querem ajudá-los, oferecer comida e remédios, mas Cal e eu rejeitamos essa ideia. Ninguém pode saber onde estamos, e os vermelhos em marcha não são exceção, apesar do seu destino cruel. Vão caminhar para o norte até encontrarem a fronteira com Lakeland. Alguns serão forçados a se juntar às legiões que sustentam a linha de frente. Outros podem ter a sorte de passar, para sucumbir ao frio e à fome na tundra, em vez de morrerem baleados numa trincheira.
Meus dias se tornam parecidos. Recrutar, treinar, repetir. A única coisa que muda é o clima, à medida que o inverno se aproxima. Agora, bem antes do amanhecer, quando acordo, o chão está coberto de uma camada grossa de neve. Cal precisa aquecer o jato todos os dias para liberar as rodas e engrenagens congeladas. Ele nos acompanha até o próximo sanguenovo quase sempre, pilotando o jato. Mas, às vezes, ele fica, pois prefere ensinar. Ada o substitui nesses dias, pilotando tão bem quanto ele, tendo aprendido com velocidade e precisão sem iguais. E o conhecimento que tem de Norta — de tudo, na verdade —, desde os sistemas de esgoto até as rotas de suprimentos, é impressionante. Não consigo sequer imaginar como o cérebro dela é capaz de armazenar tanta coisa e ainda ter espaço para mais. Ela é uma maravilha para mim, bem como todo sanguenovo que encontramos.
Quase todos são diferentes, e seus poderes, estranhos. Estão muito além do que qualquer prateado é capaz de fazer e do que posso imaginar. Luther segue com suas tentativas cuidadosas de controlar seu poder, murchando desde brotos até árvores. Cal acha que ele pode usar esse poder para curar a si mesmo, mas ainda temos que descobrir como. Outra sanguenova, uma idosa que pede para ser chamada de Nanny por todos, parece capaz de mudar a aparência física. Deu a nós um belo susto quando decidiu dançar valsa pelo acampamento disfarçada de rainha Elara. Apesar da idade, espero poder usá-la em alguma missão em breve.
Ela se esforça ao máximo no treinamento de Cal, aprendendo a atirar e usar facas junto com os outros.
Isso torna o acampamento um lugar bem barulhento, claro, o que com certeza chamaria atenção mesmo no interior de Greatwoods. Mas uma mulher chamada Farrah, a primeira recrutada depois de Ada e Nix, é capaz de manipular o som. Ela absorve as ondas das explosões e dos disparos, sufocando-as de modo que nenhum eco se espalha pelo vale.
À medida que os sanguenovos expandem seus poderes, aprendendo a controlá-los como eu, começo a ter esperança. Cal é um excelente professor, sobretudo para as crianças. Elas não têm os mesmos preconceitos dos mais velhos e passam a segui-lo pelo acampamento ao final do treino. Graças a isso a presença do príncipe exilado começa a agradar os sanguenovos mais velhos. É difícil odiar Cal quando ele está rodeado por crianças implorando por outra aula. Até Nix parou de olhá-lo com raiva, embora ainda se recuse a fazer qualquer coisa com Cal que não seja bufar na cara dele.
Não sou tão talentosa quanto o príncipe, e chego a temer os treinos da manhã e do fim da tarde. Quero culpar o meu cansaço pelo desconforto. Gasto metade dos meus dias recrutando gente, viajando até o próximo nome da lista, mas não é só isso. Simplesmente sou uma péssima instrutora.
Trabalho mais com Ketha, cujo poder é mais físico e parecido com o meu. Ela não é capaz de criar eletricidade ou qualquer outro elemento, mas pode destruir. Como um oblívio prateado, ela consegue explodir objetos, estourá-los em nuvens impactantes de fumaça e fogo. Enquanto oblívios comuns ficam restritos às coisas que conseguem tocar, Ketha não tem essa limitação.
Ela espera pacientemente, focando na pedra em minha mão. Faço o máximo para não me encolher diante de seu olhar explosivo, ciente do que é capaz de fazer.
Na curta semana desde que a encontramos, ela passou da destruição de bolas de papel, folhas e galhos para pedras sólidas. Como os outros sanguenovos, tudo o que precisa é de uma chance real de revelar seu verdadeiro eu. Então seus poderes também se revelam, como animais finalmente saindo da jaula.
Os outros se mantêm bem longe enquanto ela treina, deixando o canto mais distante da clareira livre para a gente. Eu não posso fazer o mesmo.
— Controle — digo, e ela assente.
Gostaria de ter mais a oferecer; minhas instruções são terrivelmente pobres. Eu mesma só tenho um mês de treinamento nas costas, boa parte dado por Julian, que nem era instrutor de verdade, para começo de conversa.
Além disso, esse treinamento era incrivelmente pessoal, e tenho dificuldade em explicar minhas intenções para Ketha com precisão.
— Controle — ela repete.
Seu olhar se estreita, intensificando o foco. É estranho; seus olhos cor de barro não têm nada de notável, apesar do poder que contêm. Assim como eu, Ketha vem de um vilarejo à beira de um rio, e pode passar por uma irmã mais velha ou uma tia minha. De acordo com os registros, ela era professora.
Quando jogo a pedra para cima com toda a força que tenho, lembro do instrutor Arven e do seu treinamento. Ele nos fazia atingir alvos com nossos poderes, para aperfeiçoar nossa mira e concentração. No Ossário, me tornei o alvo dele, e ele quase me matou. Ainda assim, aqui estou eu copiando seus métodos. Fico com a impressão de que isso é errado. Mas funciona.
A pedra se desmancha em pó no ar, como se uma microbomba tivesse explodido dentro dela. Ketha bate palmas, e me obrigo a fazer o mesmo. Me pergunto se ela vai se sentir diferente quando seus poderes forem testados contra carne, e não pedra.
Imagino que posso pedir para Kilorn nos trazer um coelho para descobrirmos.
Só que ele está mais distante a cada dia. Assumiu a responsabilidade de alimentar o acampamento, e passa a maior parte do tempo pescando e caçando. Se não estivesse tão preocupada com meus próprios afazeres, recrutando e treinando, tentaria livrá-lo disso.
Mas mal tenho tempo para dormir, quanto mais para convencer Kilorn a voltar a ser parte do rebanho.


Quando a primeira nevasca cai, já temos vinte sanguenovos morando no acampamento, desde velhas criadas até meninos agitados. Por sorte, o abrigo é maior do que eu imaginava no começo, estendendo-se por trás da montanha num labirinto de câmaras e túneis. Alguns ambientes têm claraboias, mas a maioria é escura, então também temos que roubar lanternas em cada lugar que visitamos. Durante a primeira nevasca, o Furo oferece abrigo para todos os vinte e seis de nós dormirem confortáveis, e ainda tem espaço para mais. A comida é abundante, graças a Kilorn e Farrah, que o torna um caçador silencioso e mortal. Cada leva de recrutas vem acompanhada de mais suprimentos, desde roupas de inverno, fósforos e até um pouco de sal. Farley e Crance usam suas conexões no mundo do crime para conseguir o que precisamos, mas às vezes recorremos ao bom e velho roubo. Em um mês, já somos uma máquina bem treinada e escondida.
Maven não nos encontrou, e nos mantemos de olho nele do melhor jeito que podemos. Os quadros de anúncios e os jornais facilitam a tarefa. O rei visita Delphie. Rei Maven e Lady Evangeline revistam as tropas no Forte Lencasser. Turnê da coroação atravessa o Estado do Rei. As manchetes dão a localização precisa, e sabemos o que isso quer dizer. Sanguenovos mortos em Delphie, Lencasser e em todo lugar que ele visita. A sua suposta turnê de coroação não passa de mais uma fachada para ocultar um desfile de execuções.
Apesar de todos os nossos poderes e truques, não somos rápidos o bastante para salvar todos. Para cada sanguenovo que encontramos e trazemos para o acampamento, há outros dois pendendo de forcas, “desaparecidos” ou sangrando na sarjeta. Alguns corpos trazem indícios de uma morte realizada por magnetrons: pessoas espetadas ou estranguladas por barras de ferro.
Ptolemus está, sem dúvida, aproveitando a luz do rei para brilhar, embora Evangeline talvez também esteja. Logo ela será rainha, e com certeza vai fazer de tudo para manter Maven bem próximo. Antes, eu ficaria furiosa com isso, mas agora não sinto nada além de pena pela jovem magnetron. Maven não é Cal, e vai matá-la se julgar necessário. Assim como está matando os sanguenovos. As mortes mantêm suas mentiras vivas, nos mantêm na condição de fugitivos. Maven errou nos cálculos. Ele acha que uma quantidade certa de cadáveres vai me fazer voltar.
Mas não vou voltar.

21 comentários:

  1. Vai sim... Para matar esse de graçado! !!!

    ResponderExcluir
  2. Mare,tá assustando todo mundo se eu fosse uma sanguenova e ela vinhesse com o mimimi dela eu ia mandar ela de f*der

    ResponderExcluir
  3. E essa Evangeline, sempre querendo o poder e chamar atenção, igual ao irmão dela. Meu Deus, eu peguei muito ódio dela desde o primeiro livro
    Tomara que Maven não seja bonzinho com ela...
    ~polly~

    ResponderExcluir
  4. Nossa, a Mare tá enchendo meu saco. No início do 1° livro eu a amava, mas com o passar do tempo... Ela é muito prepotente e hipócrita! Virando o que sempre desprezou. O pior é que é ela quem narra a história. Mds, só o Cal me faz continuar. Espero que ela mude, volte a parecer com a do início.

    ResponderExcluir
  5. Também to achando ela um porre tomare q mude nos próximos capitulos

    ResponderExcluir
  6. Respostas
    1. Concordo. Ela tá sendo realista e
      Lógica . Humana . É preciso matar ? Mate e siga com o objetivo ! Tô amando essa personagem .

      Excluir
    2. Exatamente! As pessoas não entendem que não dá pra salvar todo mundo e que qualquer vacilo e fraqueza dela, eles podem perder tudo. Mare tem que se manter realista e mesmo tendo que ver muitas mortes, seguir com o objetivo.

      Excluir
  7. Só continuo lendo pelo cal, pq se dependesse dá mare tinha parado no 1 livro.

    ResponderExcluir
  8. Essa Mare ta um porre! Se tornou uma verdadeira prateada

    ResponderExcluir
  9. Cara tô com medo da Mare se tornar uma ELARA d vida... Já viram a sinopse desse livro? "Essa é uma jornada perigosa, e Mare precisará tomar cuidado para não se tornar exatamente o tipo de monstro que ela está tentando deter".

    ResponderExcluir
  10. "Outra sanguenova, uma idosa que pede para ser chamada de Nanny por todos, parece capaz de mudar a aparência física. Deu a nós um belo susto quando decidiu dançar valsa pelo acampamento disfarçada de rainha Elara. Apesar da idade, espero poder usá-la em alguma missão em breve."

    Morri de tanto rir kkkk Melhor parte!!!
    Só eu fiquei imaginando a Elara entrando do nada no acampamento dançando valsa em fez de matar todo mundo???
    Melhor, imagina como deve ter sido a reação de todos ao verem a "Elara" doida dançando no meio do acampamento kkkk
    Tô chorando de tanto rir 😂😂😂😂

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ela teve sorte de não morrer com a Mare paranoica do jeito que ta kkkkk Se fosse eu tinha dado umas 20 descargas elétricas nela antes de perceber que na vdd era uma senhora

      Excluir
    2. Tbm to morrndo de ri. Gostaria que ela tivesse narrado esse episódio e não apenas sitalo 😂😄😃

      Excluir
  11. amei os poderes dos sanguenovos perfeitos para usar contra os poderes dos prateados, podem murchar as plantas que eles controlam ou abafar o gritos dos banches(não sei como escreve) já outros são semelhantes.
    será que vão ser todos diferentes ou terão iguais como os prateados?

    ResponderExcluir
  12. Uma pergunta: Ninguém toma banho nesse livro???

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. As pessoas não costumam falar sobre tomar banho, fazer xixi, escovar os dentes... De vez em quando cita, mas não é comum

      Excluir
  13. Ixi mare tu ta um porre
    Se tornando td aquilo que ta tentando destruir

    ResponderExcluir
  14. Eu realmente não to gostando da Mare ela ficando egoísta, hipócrita e psicopata por mais que não dê pra salvar todas as vidas ela trata isso tudo de um jeito horrivel como se uma vida ali ou uma vida aqui nao fosse fazer falta. Ela realmente acha que o único caminho é matar e matar. E pelo amor dos livros ela passou por tanta coisa e tirou ums lição disso mas uma lição tão errada que ela ta virando aqui que ela não queria.

    ~Cam

    ResponderExcluir
  15. Eu tô pensando com meus botões: será q a fuga deles na ilha tuck era um plano do coronel p q o cal fique do lado deles e ajude a procurar os sanguenovoz?
    Pq oval n falava em momento algum q ia ajudar... E o coronel não deixaria ninguém escapar dele assim... Eu vejo o coronel como um homem ditatorial...ao viajando aki

    ResponderExcluir
  16. Acho que o que a Mare está fazendo é nescessário ,não há outro jeito de cumprir seus objetivos . Olha o mundo em que vivemos hoje e pensa em quantas histórias parecidas aconteceram pra estarmos aqui .quantas guerras ,destruiçoes e morte

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)