15 de março de 2017

Capítulo dezessete

Mare

SÃO NECESSÁRIOS VÁRIOS DIAS para voltar a Archeon. Não por causa da distância. Não porque o rei de Lakeland trouxe nada menos que mil pessoas com ele, incluindo cortesãos, soldados e até criados vermelhos. Mas porque todo o reino de Norta de repente tem motivo para comemorar. O fim de uma guerra e um casamento próximo. O comboio sem fim de Maven serpenteia pela Estrada de Ferro e depois pela Estrada Real. Prateados e vermelhos aparecem para comemorar, implorando para ver seu rei. Maven sempre atende, parando para encontrar multidões com Iris ao seu lado. Apesar do ódio profundo que devemos ter por Lakeland, a multidão se curva diante dela. Ela é uma curiosidade e uma bênção. Uma ponte. Até mesmo o rei Orrec recebe as boas-vindas calorosas, com aplausos educados e reverências respeitosas. Um antigo inimigo é transformado em aliado durante a longa estrada adiante.
É o que Maven diz em cada lugar.
— Norta e Lakeland agora estão unidas, vão encarar juntas a longa estrada adiante. Contra todos os perigos que ameaçarem nossos reinos. — Ele está falando da Guarda Escarlate. Ele está falando de Corvium. Ele está falando de Cal, das Casas rebeldes, de qualquer coisa e qualquer um que possa ameaçar seu tênue poder.
Não há ninguém vivo para lembrar dos dias anteriores à guerra. Meu país não conhece a paz. Não é surpresa que a usem para confundi-lo. Quero gritar na cara de todo vermelho que encontro. Quero gravar as palavras no meu corpo para que todos vejam. Armadilha. Mentira. Conspiração. Não que minhas palavras signifiquem alguma coisa a essa altura. Faz muito tempo que sou fantoche de outra pessoa. Não tenho mais voz. Só minhas ações, e elas estão muito limitadas pelas circunstâncias. Eu me desesperaria se pudesse, mas meus dias de lamentar acabaram há muito tempo.
Tiveram que acabar. Ou então eu viraria uma boneca de pano arrastada por uma criança, completamente vazia.
Vou fugir. Vou fugir. Vou fugir. Não ouso sussurrar essas palavras. Elas percorrem minha mente, no mesmo ritmo dos meus batimentos cardíacos.
Ninguém fala comigo durante a viagem. Nem mesmo Maven. Ele está ocupado analisando a noiva. Tenho a sensação de que ela sabe que tipo de pessoa seu prometido é, e está preparada para isso. Espero que se matem.
As torres de Archeon são familiares, mas não me consolam. O comboio se dirige para a prisão que conheço muito bem. Atravessa a cidade, subindo as ruas íngremes até a Praça de César e o Palácio de Whitefire. O brilho do sol chega a cegar contra o céu azul-claro. É quase primavera. Estranho. Parte de mim achava que o inverno duraria para sempre, como meu aprisionamento. Não sei se tenho estômago para assistir às estações mudando de dentro da minha jaula real.
Vou fugir. Vou fugir. Vou fugir.
Ovo e Trio me tiram do veículo e me conduzem até a escadaria de Whitefire. O ar está quente, úmido, com um cheiro fresco e limpo. Mais alguns minutos na luz do sol e talvez eu comece a suar sob a jaqueta escarlate e prateada. Mas em alguns segundos estou dentro do palácio de novo, andando sob lustres caríssimos. Eles não me incomodam tanto, não depois da minha primeira e única tentativa de fuga. Na verdade, quase me fazem sorrir.
— Feliz por estar em casa?
Fico surpresa tanto por me dirigirem a palavra quanto com a pessoa que o faz. Resisto ao ímpeto de fazer uma reverência, mantendo as costas retas quando paro para olhar para ela. Os Arven também param, perto o suficiente para me agarrar se precisarem. Sinto seu poder sugar um pouco da minha energia. Seus guardas estão tão alertas quanto os meus, prestando atenção no corredor à nossa volta. Acho que ainda consideram Archeon e Norta território inimigo.
— Princesa — respondo. O título tem um gosto amargo, mas não vejo utilidade nenhuma em afrontar mais uma noiva de Maven.
Seu traje de viagem é de uma simplicidade enganadora. Só uma calça e uma jaqueta azul-escura, justa na cintura para revelar sua silhueta. Nada de joias ou coroa. Seu penteado é simples, com o cabelo puxado para trás em uma única trança preta. Ela passaria por uma prateada normal. Rica, mas não da realeza. Até seu rosto é neutro. Sem sorriso ou desdém. Não mostra nenhuma opinião clara sobre a garota elétrica algemada. É um contraste chocante e inconveniente com os nobres que conheço. Não sei nada sobre ela. Pode até ser pior que Evangeline. Ou Elara. Não faço ideia de quem seja essa jovem ou do que ela pensa sobre mim. Isso me deixa inquieta.
E Iris percebe.
— Não, imagino que não — ela continua. — Me acompanha?
Ela estende a mão, convidativa. Meus olhos talvez tenham saltado da órbita, mas aceito seu convite. Ela impõe um ritmo rápido, mas não impossível, obrigando as duas escoltas a nos seguir pelo salão de entrada.
— Apesar do nome, Whitefire parece um lugar frio. — Iris olha para o teto. Os lustres se refletem em seus olhos cinza, fazendo-os brilhar. — Eu não ia gostar de ficar presa aqui.
Dou uma risada no fundo da garganta. A coitada vai ser rainha de Maven. É certamente a pior forma de prisão que consigo imaginar.
— Eu disse algo engraçado, Mare Barrow? — ela ronrona.
— Não, alteza.
Seus olhos passeiam por mim. Demoram em meus pulsos, nas mangas longas que escondem minhas algemas. Devagar, ela encosta em uma delas e respira fundo. Apesar da Pedra Silenciosa e do medo instintivo que ela inspira, a princesa não recua.
— Meu pai também tem animais de estimação. Talvez seja típico dos reis.
Há alguns meses, eu teria estourado. Não sou um animal de estimação. Mas ela não está errada. Então dou de ombros.
— Não conheci tantos reis assim.
— Três reis para uma garota vermelha nascida de dois ninguéns. É de se perguntar se os deuses te amam ou te odeiam.
Não sei se rio ou desdenho.
— Não existem deuses.
— Não em Norta. Não para você. — Sua expressão se suaviza. Ela olha por cima do ombro, para os muitos cortesãos e nobres que se aproximam. A maioria não faz questão de esconder que está observando. Se isso a incomoda, a princesa não demonstra. — Me pergunto se podem me ouvir num lugar profano como este. Não há nem um templo. Preciso pedir a Maven que construa um para mim.
Muitas pessoas estranhas passaram pela minha vida. Mas todas têm pedaços que consigo entender. Emoções que conheço, sonhos, medos. Olho para a princesa Iris e percebo que, quanto mais ela fala, maior minha confusão fica. Ela parece inteligente, forte, segura, mas por que alguém aceitaria se casar com um monstro? Com certeza sabe quem ele realmente é. E não pode ter sido a ambição cega que a trouxe até aqui.
Ela já é princesa, filha de um rei. O que quer? Se é que teve escolha. Essa falação sobre deuses é ainda mais confusa. Não acreditamos neles. Como poderíamos?
— Você está memorizando meu rosto? — ela pergunta em voz baixa enquanto tento entendê-la. Tenho a sensação de que faz o mesmo comigo, observando-me como se eu fosse uma obra de arte complicada. — Ou só tentando roubar mais alguns momentos fora da cela? Se for o segundo, não a culpo. Se for o primeiro, não se preocupe: acho que vai me ver bastante.
De qualquer outra pessoa, isso soaria como uma ameaça. Mas não acho que Iris ligue para mim a esse ponto. Pelo menos não parece do tipo invejosa. Isso exigiria que ela nutrisse qualquer sentimento por Maven, o que duvido muito.
— Me leve até a sala do trono.
Meus lábios se contorcem, querendo sorrir. Geralmente as pessoas aqui fazem pedidos que na verdade são ordens. Iris é o contrário. Sua ordem parece um pedido.
— Está bem — resmungo, deixando meus pés nos guiarem.
Os Arven não ousam me tirar dali. Iris Cygnet não é Evangeline Samos. Contrariá-la poderia ser considerado um ato de guerra. Não consigo conter um sorriso por cima do ombro para Trio e Ovo. Os dois me olham irritados. Isso me faz sorrir ainda mais, mesmo com a pontada nas cicatrizes.
— Você é um tipo estranho de prisioneira, srta. Barrow. Não tinha percebido que, além de retratá-la como uma lady nas transmissões, Maven exige que você seja uma o tempo todo.
Lady. O título nunca se aplicou a mim e nunca vai se aplicar.
— Sou apenas uma cadelinha bem-vestida e amarrada.
— É muito peculiar o rei mantê-la assim. É uma inimiga do Estado, uma peça valiosa de propaganda, mas por algum motivo é tratada quase como parte da realeza. Mas os meninos são mesmo estranhos com seus brinquedos. Principalmente os que costumam perder as coisas. Eles as seguram com mais afinco.
— E o que você faria comigo? — pergunto. Como rainha, Iris tem minha vida nas mãos. Pode acabar com ela, ou pior. — Se estivesse no lugar dele?
Iris se esquiva da pergunta com destreza.
— Jamais cometerei o erro de tentar me colocar na cabeça dele. Não é um lugar onde qualquer pessoa sensata deveria estar. — Ela ri para si mesma. — Imagino que a mãe dele passava muito tempo lá.
Por mais que Elara odiasse minha mera existência, acho que odiaria Iris ainda mais. A jovem princesa é formidável, no mínimo.
— Você tem sorte de nunca ter conhecido a antiga rainha.
— E agradeço a você por isso — ela responde. — Embora espere que não vire uma tradição. Sei bem que até cadelinhas mordem. — Ela pisca para mim, seus olhos cinza e penetrantes. — Você morde?
Não sou idiota de responder. “Não” seria uma mentira deslavada. “Sim” poderia me render mais um inimigo real. Ela sorri diante do meu silêncio.
Não é uma caminhada longa até o grande cômodo de onde Maven rege o país.
Depois de tantos dias diante das câmeras, obrigada a assistir sanguenovos prometendo lealdade a ele, conheço o lugar intimamente. Em geral, o salão fica cheio de assentos, mas eles foram retirados durante nossa ausência, restando apenas o trono cinza e ameaçador. Iris olha para ele quando nos aproximamos.
— Uma tática interessante — murmura quando o alcançamos. Como fez com minha algema, ela corre o dedo pelos blocos de Pedra Silenciosa. — Necessária, também. Com tantos murmuradores permitidos na corte.
— Permitidos?
— Eles não são recebidos na corte de Lakeland. Não podem adentrar os muros da capital, Detraon, muito menos o palácio sem os acompanhantes apropriados. Nenhum murmurador tem permissão de chegar a seis metros do monarca — Iris explica. — Na verdade, não conheço nenhuma família que tenha tal poder no meu país.
— Eles não existem?
— Não no lugar de onde venho. Não mais.
A insinuação fica no ar como fumaça.
Ela se afasta do trono, balançando a cabeça de um lado para o outro. Não gosta de alguma coisa que vê. Seus lábios se contraem em uma linha fina.
— Quantas vezes você sentiu o toque de um Merandus na cabeça?
Por um segundo, tento me lembrar. Idiota.
— Mais vezes do que posso contar — respondo, dando de ombros. — Primeiro Elara, depois Samson. Não sei quem era pior. Hoje sei que a rainha entrava na minha cabeça sem eu saber. Mas ele… — Minha voz falha. A memória é dolorosa, e sinto uma pressão nas têmporas. Massageio para que a dor passe. — Você sente cada segundo.
O rosto dela fica cinzento.
— Tantos olhos neste lugar — ela diz, observando primeiro meus guardas e depois as paredes com câmeras de segurança que vigiam cada centímetro do salão, nos acompanhando. — Podem assistir à vontade.
Devagar, ela tira a jaqueta e a dobra sobre o braço. A camisa embaixo é branca, fechada até a garganta, mas com as costas abertas. Iris vira, com a desculpa de analisar a sala do trono. Na verdade, está se mostrando. Suas costas são musculosas, poderosas, esculpidas em linhas longas. Tatuagens pretas a cobrem desde a nuca, descendo pelo pescoço e passando pelos ombros até a base da coluna. Raízes, penso de início. Mas erro. São espirais de água, ondulando e se derramando sobre sua pele em linhas perfeitas. Elas se mexem com a princesa, como uma coisa viva. Finalmente Iris vira e olha para mim. O sorriso mais discreto está em seus lábios.
Ele desaparece assim que ela vê além de mim. Não preciso virar para saber quem está se aproximando, quem lidera os muitos passos que ecoam no mármore e dentro do meu crânio.
— Eu teria prazer em mostrar o lugar para você, Iris — Maven diz. — Seu pai está se instalando em seus aposentos, mas tenho certeza de que não se importaria de nos conhecermos melhor.
Os guardas Arven e os de Lakeland dão um passo para trás, abrindo espaço para o rei e seus sentinelas. Uniformes azuis, brancos, vermelho-alaranjados. As silhuetas e cores estão tão arraigadas em mim que os reconheço de canto de olho. Nenhum tanto quanto o jovem rei pálido. Sinto sua presença tanto quanto o vejo, seu calor saturante ameaçando me engolir. Ele para a alguns centímetros de mim, perto o suficiente para me pegar pela mão se quiser. Estremeço ao pensar nisso.
— Eu adoraria — Iris responde, inclinando a cabeça de um jeito estranho. A reverência não é fácil para ela. — Estava apenas falando com a srta. Barrow sobre a… — Iris procura a palavra certa, olhando para o trono imponente — decoração.
Maven dá um sorriso curto.
— Uma precaução. Meu pai foi assassinado, e já sofri minha cota de atentados também.
— Um trono de Pedra Silenciosa teria salvado seu pai? — ela pergunta com inocência.
Uma corrente de calor pulsa no ar. Como Iris, também sinto a necessidade de tirar a jaqueta, com receio de que o temperamento de Maven me faça suar.
— Não, meu irmão decidiu que cortar sua cabeça era a melhor opção — ele responde sem rodeios. — Não há muita defesa contra isso.
Aconteceu aqui neste palácio. A alguns corredores e cômodos daqui, subindo as escadas que dão para um lugar sem janelas e com paredes à prova de som. Quando os guardas me arrastaram até lá, eu estava atordoada, morrendo de medo de que Maven e eu fôssemos executados por traição. Em vez disso, o rei acabou partido em dois. A cabeça, o corpo, uma onda prateada espalhada entre os dois. Então Maven assumiu a coroa. Cerro os punhos ao lembrar.
— Que horror — Iris murmura. Sinto seus olhos em mim.
— Sim. Não foi, Mare?
O toque repentino de sua mão em meu braço queima como sua marca. Quase perco o controle, e olho para ele de soslaio.
— Sim — me obrigo a responder entredentes. — Um horror.
Maven concorda com a cabeça, cerrando a mandíbula para que o rosto se contraia. Não acredito que ele tem a ousadia de parecer taciturno. Triste, até. Não está nem um nem outro. Não pode estar. A mãe arrancou dele as partes que amavam o pai e o irmão.
Queria que tivesse arrancado a parte que me amava também, mas ela apodrece, nos envenenando com sua úlcera. Uma praga se alimenta do cérebro de Maven e de cada pedacinho dele que poderia ser humano. Maven sabe disso. Sabe que alguma coisa está errada, algo que não pode consertar com nenhuma habilidade ou poder. Ele está partido, e não há curandeiro nesta terra capaz de deixá-lo inteiro.
— Bom, antes que eu a leve para conhecer meu lar, há mais alguém que gostaria de conhecer minha futura esposa. Sentinela Nornus, por favor. — Maven faz um gesto em direção ao soldado. Ao seu comando, o sentinela em questão vira um borrão de chamas alaranjadas e vermelhas, correndo até a entrada e de volta em um segundo. Um lépido. Em seus trajes, parece uma bola de fogo.
Figuras seguem atrás dele. As cores de sua Casa são familiares.
— Princesa Iris, este é o chefe da Casa Samos e sua família — Maven diz, fazendo um gesto com a mão entre a nova e a antiga noiva.
Evangeline se destaca em um contraste gritante às roupas simples de Iris. Me pergunto quanto tempo ela demorou para criar o líquido prateado fundido que envolve cada curva de seu corpo como alcatrão reluzente. Nada de coroas e tiaras agora, mas as joias compensam, e muito. Usa correntes prateadas no pescoço, nos pulsos e nas orelhas, finas como uma linha de costura e cravejadas de diamantes. A aparência do irmão também está diferente, sem sua armadura ou as peles de sempre. Sua silhueta continua ameaçadora, mas Ptolemus se parece mais com o pai agora, vestido em um veludo preto perfeito com uma corrente prateada brilhante. Volo vem à frente dos filhos, com alguém que não reconheço ao seu lado. Mas posso adivinhar quem é. Neste instante, compreendo um pouco mais Evangeline. Sua mãe é uma visão assustadora. Não por ser feia. Pelo contrário, a mulher tem uma beleza severa. Ela deu a Evangeline seus olhos pretos expressivos e sua pele de porcelana, mas não o cabelo liso de corvo e a figura delicada. Parece que eu poderia destruir essa mulher sem dificuldades, com algemas e tudo. Deve ser parte de sua encenação. Ela usa as cores de sua própria Casa, preto e verde-esmeralda, com o prateado de Samos para revelar suas alianças. Viper. A voz de Lady Blonos ecoa na minha cabeça. Preto e verde são as cores da Casa Viper. A mãe de Evangeline é uma animos. Conforme se aproxima, seu vestido cintilante entra em foco. Percebo por que Evangeline insiste tanto em vestir seu poder. É tradição de família.
A mãe não está usando joias. Está usando cobras.
Nos pulsos, em volta do pescoço. Finas, pretas, movendo-se devagar, as escamas brilhando como óleo. Partes iguais de medo e agitação correm pelo meu corpo. Quero correr para o meu quarto, trancar a porta e ficar o mais longe possível dessas criaturas sinuosas. Mas elas se aproximam a cada passo que a mulher dá. E eu achava que lidar com a Evangeline fosse ruim.
— Lord Volo; sua esposa, Larentia da Casa Viper; seu filho, Ptolemus; e sua filha, Evangeline. Membros estimados e valiosos da minha corte — Maven explica, gesticulando para cada um deles. Ele sorri abertamente, mostrando os dentes.
— Sinto muito por não termos sido devidamente apresentados antes. — Volo dá um passo à frente para pegar a mão estendida de Iris. Com a barba prateada recém-aparada, é fácil ver a semelhança com os filhos. Ossos fortes, traços elegantes, nariz longo e lábios permanentemente curvados em um sorriso desdenhoso. Sua pele parece mais pálida em contraste com a de Iris quando beija sua mão. — Fomos chamados para cuidar de assuntos em nossas terras.
Iris abaixa a cabeça, com graça desta vez.
— Desculpas não são necessárias, meu senhor.
Por cima daquelas mãos entrelaçadas, Maven olha para mim. Ele levanta uma sobrancelha, entretido. Se eu pudesse, perguntaria a ele o que prometeu — ou como ameaçou a Casa Samos. Dois reis Calore lhes escorregaram pelos dedos. Tanta conspiração e armação para nada. Sei que Evangeline não amava Maven, nem ao menos gostava dele, mas foi criada para ser rainha. Seu direito lhe foi roubado duas vezes. Ela falhou consigo mesma e, pior, com sua Casa. Pelo menos agora tem outra pessoa para culpar que não eu.
Evangeline olha na minha direção, os cílios pretos e longos. Eles se agitam por um tempo enquanto seus olhos oscilam, indo de um lado para o outro como o pêndulo de um relógio antigo. Dou um pequeno passo para me afastar de Iris. Agora que a filha de Samos tem uma nova rival para odiar, não quero passar a impressão errada.
— E você era noiva do rei? — Iris solta a mão de Volo e cruza os dedos.
Os olhos de Evangeline desviam de mim para encarar a princesa. Pela primeira vez, ela tem uma oponente à altura. Talvez eu tenha sorte e Evangeline dê um passo em falso, ameaçando Iris como costumava me ameaçar. Tenho a sensação de que a princesa não vai tolerar uma só palavra intimidadora.
— Por um tempo, sim — Evangeline responde. — E de seu irmão antes dele.
A princesa não se surpreende. Imagino que Lakeland seja bem informada sobre a realeza de Norta.
— Bom, fico feliz que tenham retornado à corte. Vamos precisar de muita ajuda na organização do casamento.
Mordo o lábio com tanta força que quase tiro sangue. Antes isso do que rir alto quando Iris joga sal nas feridas abertas dos Samos. Na minha frente, Maven vira a cabeça para esconder uma risada.
Uma das cobras sibila, um som baixo impossível de confundir. Mas Larentia logo se curva numa reverência, fazendo o tecido de seu vestido cintilante dançar.
— Estamos à sua disposição, alteza — ela diz. Sua voz é profunda, grossa como xarope. Diante de nossos olhos, a cobra mais gorda, que está em volta de seu pescoço, sobe até sua orelha e seu cabelo. Repulsivo. — Seria uma honra ajudar como pudermos. — Espero que ela acotovele Evangeline para que concorde, mas a Viper se volta para mim tão rápido que não tenho tempo de desviar o olhar. — Existe algum motivo para essa prisioneira me encarar?
— Nenhum — respondo, rangendo os dentes.
Larentia considera meu contato visual um desafio. Como um animal. Ela dá um passo à frente, diminuindo a distância entre nós. Temos a mesma altura. A cobra em seu cabelo continua sibilando, enrolando-se e descendo até sua clavícula. Os olhos do animal, brilhantes como joias, encontram os meus, e sua língua preta bifurcada lambe o ar, lançando-se entre as presas longas. Embora consiga me controlar, engulo em seco.
Tenho sede de repente. A cobra continua me encarando.
— Dizem que você é diferente — Larentia murmura. — Mas seu medo tem o mesmo cheiro que o de qualquer outro rato vermelho que já tive a infelicidade de conhecer.
Rato vermelho. Rato vermelho.
Ouvi isso tantas vezes. Pensei isso sobre mim mesma. Vindo dos lábios dela, tem algum impacto em mim. O controle que lutei tanto para manter, que preciso manter se quero continuar viva, ameaça ruir. Respiro fundo, me obrigando a ficar calma. As cobras continuam sibilando, enrolando-se umas nas outras em negros emaranhados de escamas. Algumas são longas o suficiente para me alcançar se a mulher ordenar.
Maven suspira baixo.
— Guardas, acho que está na hora da srta. Barrow voltar para o quarto.
Viro antes mesmo que os Arven possam chegar até mim, retirando-me na suposta segurança de sua presença. Essas cobras…, penso comigo mesma. Não consigo suportá-las. Não é de surpreender que Evangeline seja terrível, com uma mãe dessas.
Enquanto me retiro para meus aposentos, sou acometida por uma sensação desagradável. Alívio. Gratidão. A Maven.
Esmago essa vil explosão de emoção com toda a raiva que tenho. Ele é um monstro. Não sinto nada além de ódio pelo rei. Não posso permitir que nada além disso, nem mesmo pena, surja dentro de mim.
PRECISO FUGIR.


Dois longos meses se passam.
O casamento de Maven será dez vezes maior que o Baile de Despedida, ou mesmo que a Prova Real. Nobres prateados invadem a capital, trazendo comitivas de todos os cantos de Norta. Até aqueles que o rei exilou. Maven se sente seguro o suficiente com sua nova aliança para permitir que inimigos sorridentes entrem por sua porta. Embora a maioria tenha sua própria casa na cidade, muitos se acomodam em Whitefire, a ponto de o palácio parecer prestes a explodir. Sou mantida em meu quarto na maior parte do tempo. Não me importo. É melhor assim. Mesmo em minha cela, consigo sentir a tempestade iminente de um casamento. A união tangível entre Norta e Lakeland.
O pátio embaixo da minha janela, vazio durante todo o inverno, floresce em uma primavera repentina, verde e quente. Nobres passeiam por entre as magnólias a um ritmo preguiçoso, alguns de braços dados. Sempre cochichando, sempre conspirando ou fofocando. Queria conseguir ler os lábios. Poderia aprender alguma coisa além de quais Casas estão unidas, com suas cores mais vibrantes à luz do sol. Maven teria que ser um tolo para pensar que não estão conspirando contra ele e sua noiva. E o rei é muitas coisas, mas não é bobo.
A velha rotina que eu costumava ter nos primeiros meses de isolamento — acordar, comer, sentar, gritar e repetir tudo no dia seguinte — não me serve mais. Tenho maneiras mais úteis de passar o tempo. Não há caneta e papel, e nem peço por isso. Não há motivo para deixar anotações. Em vez disso, fico vendo os livros de Julian, virando as páginas despreocupada. Às vezes me prendo a rabiscos em sua caligrafia.
Interessantecuriosocorrobora o volume IV. Palavras inúteis com pouco significado. Passo os dedos pelas letras mesmo assim, sentindo a tinta seca e o relevo deixados pela caneta há muito tempo. É o suficiente de Julian para me manter pensativa, lendo as entrelinhas e imaginando as palavras ditas em voz alta.
Ele rumina sobre um volume em especial, fino mas denso. Sua lombada está estourada, e as páginas estão cheias de observações. Quase posso sentir o calor de sua mão que alisou as páginas esfarrapadas.
Sobre as origens, a capa diz em letras pretas, e em seguida vêm os nomes de uma dúzia de eruditos prateados que escreveram os muitos ensaios e artigos dentro do pequeno livro. A maior parte é complexa demais para eu entender, mas folheio mesmo assim. Nem que seja por Julian.
Ele destacou uma passagem específica, dobrando o canto da página e sublinhando algumas frases. Algo sobre mutações, mudanças. O resultado de armas antigas que já não temos e não podemos mais criar. Um dos eruditos acredita que elas criaram os prateados. Outros discordam. Alguns mencionam deuses, talvez os mesmos de Iris.
Julian deixa sua própria opinião clara no fim da página.

É estranho que tantos deles se considerassem deuses ou escolhidos de um deus. Abençoados por algo maior. Elevados ao que somos. Quando todas as provas apontam para o contrário. Nossos poderes vieram da corrupção, de uma praga que matou a maioria. Não fomos escolhidos, mas amaldiçoados.

Pisco para as páginas e fico pensando. Se prateados são amaldiçoados, o que são os sanguenovos? Pior? Ou Julian está errado? Somos escolhidos também? E para quê?
Homens e mulheres muito mais inteligentes do que eu não sabem a resposta. Além disso, tenho coisas mais urgentes com que me preocupar.
Planejo enquanto tomo café da manhã, mastigando devagar enquanto considero tudo o que sei. O casamento real será o caos organizado. Segurança extra e mais guardas do que sou capaz de contar, mas ainda assim uma boa chance. Criados por toda parte, nobres bêbados, uma princesa estrangeira para distrair as pessoas que geralmente se concentram em mim. Eu seria idiota de não tentar alguma coisa. Cal seria idiota de não tentar alguma coisa.
Olho para as páginas que tenho nas mãos, para o papel branco e a tinta preta. Nanny tentou me salvar e acabou morta. Uma vida desperdiçada. E eu, egoísta, quero que eles tentem de novo. Porque, se continuar aqui, vou ter que passar o resto da vida alguns passos atrás de Maven, vendo seus olhos assombrados, as partes que lhe faltam e o ódio que sente por todas as pessoas deste mundo — todas as pessoas menos…
— Pare — sussurro para mim mesma, lutando contra o ímpeto de deixar o monstro que bate à porta do meu pensamento entrar. — Pare.
Memorizar a planta de Whitefire é uma boa distração, à qual costumo recorrer. Saindo da minha porta, esquerda, esquerda, atravesso uma galeria de estátuas, esquerda de novo descendo uma escada em espiral… Traço o caminho até a sala do trono, o salão de entrada, a sala de jantar, diversas salas de estudo e do conselho, os aposentos de Evangeline, o antigo quarto de Maven. Memorizei cada passo que dei aqui dentro. Quanto melhor eu conhecer o palácio, melhor minha chance de escapar quando a oportunidade surgir. Com certeza Maven vai se casar com Iris na Corte Real ou na própria Praça de César. Nenhum outro lugar comporta tantos convidados e guardas. Não consigo ver a Corte da minha janela e nunca entrei lá, mas pensarei nisso quando a hora chegar.
Maven não me arrastou para perto dele desde que voltamos. Ótimo, digo a mim mesma. Um quarto vazio e dias de silêncio são melhores do que suas palavras enfastiosas. Ainda assim, sinto uma pontada de decepção toda noite ao fechar os olhos.
Estou sozinha; com medo; sou egoísta. Me sinto esvaziada pela Pedra Silenciosa e pelos meses que passei aqui, no fio da navalha outra vez. Seria tão fácil deixar que as partes quebradas de mim caíssem. Seria tão fácil deixá-lo me montar de novo como bem entender. Talvez, em alguns anos, nem pareça mais uma prisão.
Não.
Pela primeira vez em algum tempo, jogo o prato contra a parede, gritando. O copo de água é o próximo. Ele explode em fragmentos cristalinos. Coisas quebradas fazem com que eu me sinta um pouco melhor.
Minha porta se abre em meio segundo e os Arven entram. Ovo é o primeiro a chegar até mim, mantendo-me na cadeira. Ele me segura firme, impedindo que eu levante.
Agora sabem que não devem me deixar chegar perto dos cacos enquanto limpam tudo.
— Talvez vocês devessem me dar utensílios de plástico — zombo. — Parece uma ideia melhor.
Ovo quer me bater. Seus dedos se enterram em meus ombros, provavelmente deixando hematomas. A Pedra Silenciosa faz a dor aumentar. Meu estômago se revira quando percebo que nem lembro como é não sentir dor e angústia constantes.
Os outros guardas varrem os pedaços, sem sentir o vidro contra suas mãos enluvadas. Só quando eles desaparecem e sua presença latejante se extingue consigo ter força para ficar de pé. Irritada, fecho com força o livro que não estava lendo.
Genealogia da nobreza de NortaVolume IX, a capa diz. Inútil.
O livro com capa de couro se encaixa perfeitamente entre seus irmãos na prateleira, os volumes VIII e X. Talvez eu tire os outros da estante e os reorganize, gastando alguns segundos das horas intermináveis.
Em vez disso, acabo no chão, tentando me alongar um pouco mais do que ontem. Minha velha agilidade não passa de uma memória, restringida pelas circunstâncias. Tento mesmo assim, esticando os dedos da mão em direção aos pés. Os músculos das minhas pernas queimam, uma sensação melhor do que a dor. Busco a dor física. É uma das únicas coisas que me fazem lembrar de que estou viva dentro desta concha.
Os minutos escorrem lentamente e o tempo se alonga comigo. Lá fora, a luz muda conforme nuvens primaveris perseguem umas às outras na frente do sol.
A batida na porta é suave, indecisa. Ninguém jamais se preocupou em bater, e meu coração pula. Mas logo a adrenalina morre. Um salvador não bateria à porta.
Evangeline entra, sem esperar um convite.
Não me mexo, paralisada por uma onda súbita de medo. Preparo as pernas para correr se necessário.
Ela olha para mim de cima, sua figura arrogante de sempre em um casaco longo e cintilante e uma calça justa de couro. Por um instante, ela fica parada, e trocamos olhares em silêncio.
— Você é tão perigosa que eles não podem nem deixar que abra uma janela? — Evangeline fareja o ar. — Está fedendo aqui.
Meus músculos tensionados relaxam um pouco.
— Se está entediada vá tagarelar na jaula de outra pessoa — resmungo.
— Talvez mais tarde. Mas neste momento você pode ser útil.
— Não estou nem um pouco a fim de ser o alvo para seus dardos.
Ela estala os lábios.
— Ah, não os meus.
Com uma mão, ela me pega embaixo do braço e me levanta. Assim que seu braço entra no domínio da Pedra Silenciosa, sua manga cai, atingindo o chão em estilhaços de metal reluzente. A manga se recompõe e cai de novo, mexendo-se em um ritmo irregular e estranho enquanto Evangeline me obriga a sair do quarto.
Não reluto. Não vejo por quê. Então ela alivia a pegada que estava me machucando e me deixa andar sozinha.
— Se queria levar o animal de estimação para passear, era só pedir — provoco, massageando meu mais novo machucado. — Você não tem uma rival nova para odiar? Ou é mais fácil provocar uma prisioneira do que uma princesa?
— Iris é muito calma para o meu gosto — ela devolve. — Você pelo menos ainda tenta morder.
— Que bom saber que te entretenho.
O corredor se retorce adiante. Esquerda, direita, direita. A planta de Whitefire está mais clara na minha cabeça. Passamos a tapeçaria com uma fênix em vermelho e preto, as bordas cravejadas de pedras preciosas. Então uma galeria de estátuas e pinturas dedicadas a César Calore, o primeiro rei de Norta. Além dela, descendo um lance de escadas de mármore, fica o que chamo de Salão de Batalha. Uma passagem longa iluminada por claraboias, as paredes dos dois lados dominadas do chão até o teto por duas pinturas monstruosas, inspiradas na Guerra de Lakeland. Mas Evangeline não me leva para além das cenas de morte e glória. Não vamos descer para o pátio. Os corredores ficam mais ornamentados, mas com menos demonstrações de opulência enquanto me conduz para os aposentos reais. Um número crescente de pinturas banhadas a ouro de reis, políticos e guerreiros me veem passar, a maioria com o cabelo preto característico dos Calore.
— Então o rei Maven deixou que vocês pelo menos mantivessem seus aposentos? Embora tenha tirado sua coroa?
Seus lábios se retorcem, mas em um sorriso.
— Viu só? Você nunca decepciona. Boa, Mare Barrow.
Nunca estive diante destas portas antes. Mas posso adivinhar para onde levam. Grandes demais para servirem a qualquer outra pessoa que não o rei. Madeira branca laqueada, detalhes dourados e prateados, cravejada de madrepérola e rubi. Evangeline não bate desta vez; simplesmente abre as portas. Deparamos com uma antessala opulenta, protegida por seis sentinelas. Eles se eriçam com nossa presença, levando a mão às armas, com os olhos penetrantes por trás das máscaras reluzentes.
Evangeline não hesita.
— Digam ao rei que Mare Barrow está aqui para vê-lo.
— O rei está indisposto — um deles responde. Sua voz transborda poder. Um banshee. Ele poderia nos deixar surdas com um grito se quisesse. — Vá embora, Lady Samos.
Evangeline não demonstra medo e passa a mão por sua longa trança preta.
— Digam a ele — ela repete. Não precisa mudar o tom de voz ou rosnar para parecer ameaçadora. — O rei vai querer saber.
Meu coração pula dentro do peito. O que ela está fazendo? Por quê? Na última vez que decidiu desfilar comigo por Whitefire, acabei nas mãos de Samson Merandus e minha mente foi estraçalhada. Ela tem um plano. Ela tem motivos. Se eu soubesse quais são, poderia fazer o oposto do que espera.
Um dos sentinelas cede. É um homem largo, com músculos evidentes mesmo sob as camadas do uniforme flamejante. Ele vira o rosto, as joias pretas da máscara reluzindo.
— Um momento, Lady Samos.
É insuportável estar nos aposentos de Maven. É como afundar em areia movediça. Afundar no oceano, cair de um penhasco. Mande-nos embora. Mande-nos embora.
O sentinela volta rápido. Quando faz sinal para os companheiros, meu estômago revira.
— Por aqui, Barrow — ele acena para mim.
Evangeline me dá um empurrão discreto, pressionando a base da minha coluna. Vou em frente.
— Apenas Barrow — o sentinela completa, olhando para os Arven.
Eles e Evangeline ficam no lugar, me deixando passar. Os olhos dela parecem escurecer, mais pretos do que nunca. Sou tomada por uma vontade repentina de agarrá-la e levá-la comigo. Encarar Maven sozinha, aqui, de repente é aterrorizante.
O sentinela, provavelmente um forçador Rhambos, não precisa me tocar para me conduzir na direção certa. Atravessamos uma sala inundada pela luz do sol, estranhamente vazia e pouco decorada. Não há cores da Casa, não há pinturas, esculturas ou mesmo livros. O antigo quarto de Cal era uma confusão, com diversos tipos de armaduras, seus preciosos manuais e até um tabuleiro de jogos. Pedaços dele espalhados por toda parte. Maven não é o irmão, não tem nenhum papel para representar, não aqui, e o quarto reflete o garoto vazio que realmente é.
Sua cama é estranhamente pequena, feita para uma criança, embora o quarto tenha sido projetado para abrigar algo muito, muito maior. As paredes são brancas, sem adornos. As janelas são a única decoração e dão para um canto da Praça de César, o rio Capital e a ponte que um dia ajudei a destruir. Ela atravessa a água, ligando Whitefire ao lado leste da cidade. Folhagens ganham vida em todas as direções, salpicadas de flores.
Devagar, o sentinela limpa a garganta. Olho para ele e tremo quando percebo que vai me abandonar também.
— Por ali — diz, apontando para mais uma porta.
Seria melhor se alguém me arrastasse. Se o sentinela apontasse uma arma na minha cabeça e me obrigasse a atravessar. Poder culpar outra pessoa pelo meu avanço faria com que doesse menos. Mas sou só eu. Tédio. Curiosidade mórbida. A dor constante da solidão. Vivo em um mundo que está encolhendo constantemente, onde a única coisa na qual posso confiar é a obsessão de Maven. Como as algemas, funciona como um escudo e uma morte lenta e sufocante.
As portas abrem para dentro, deslizando sobre o chão de mármore branco. Há espirais de vapor no ar. Não saem do rei, mas da água quente à sua volta, leitosa por causa do sabonete e de óleos perfumados. Ao contrário da cama, a banheira é grande, com pés como garras prateadas. Ele descansa os cotovelos nas bordas da porcelana impecável, passando os dedos preguiçosos pela água.
Maven me acompanha com o olhar quando entro, os olhos elétricos e letais. Nunca o vi tão vulnerável e irritado. Uma garota mais esperta viraria e sairia correndo. Em vez disso, fecho a porta atrás de mim.
Não há cadeiras, então fico em pé. Não sei bem para onde olhar, então me concentro em seu rosto. Seu cabelo está bagunçado, encharcado. Cachos pretos se agarram à sua pele.
— Estou ocupado — ele sussurra.
— Você não precisava me deixar entrar. — Quero retirar as palavras assim que as pronuncio.
— Precisava, sim — ele diz, cheio de significado. Então pisca, interrompendo nosso olhar. Joga a cabeça para trás, encostando-a na porcelana para ficar encarando o teto. — Do que você precisa?
De uma saída, de perdão, de uma boa noite de sono, da minha família. A lista é longa, sem fim.
— Evangeline me arrastou até aqui. Não quero nada de você.
Ele faz um barulho baixo na garganta. É quase uma risada.
— Evangeline. Meus sentinelas são uns covardes.
Se Maven fosse meu amigo, eu o avisaria para não subestimar uma filha da Casa Samos. Em vez disso, seguro a língua. O vapor gruda na minha pele, febril.
— Ela trouxe você aqui para me convencer.
— A quê?
— Casar com Iris, não casar com Iris. Certamente não te trouxe para tomar chá.
— Não.
Evangeline vai continuar conspirando até que ele coloque a coroa na cabeça de outra garota. Ela foi criada para isso. Assim como Maven foi feito para outras coisas, mais terríveis.
— Ela acha que o que sinto por você pode atrapalhar meu discernimento. Tola.
Me retraio. A marca na minha clavícula queima embaixo da camisa.
— Ouvi que você voltou a quebrar coisas — ele continua.
— Você não tem bom gosto para louças.
O rei sorri para o teto. Um sorriso malicioso. Como o do irmão. Por um segundo, o rosto dele é o de Cal, suas características oscilando. Com um choque, percebo que, no total, passei mais tempo com Maven do que com Cal. Conheço o rosto dele melhor que o do irmão.
Ele se vira, fazendo a água se agitar quando tira um braço da banheira. Desvio o olhar para o chão. Tenho três irmãos e um pai que não anda. Passei meses dividindo um buraco com uma dúzia de homens e garotos fedorentos. O corpo masculino não me é estranho. Isso não significa que eu queira ver mais de Maven do que o necessário. De novo me sinto sobre areia movediça.
— O casamento é amanhã — ele diz finalmente. Sua voz ecoa no mármore.
— Ah.
— Você não sabia?
— Como poderia saber? Ninguém me mantém informada.
Maven dá de ombros. A água se agita mais uma vez, revelando mais de sua pele branca.
— Bom, é claro que você não ia voltar a quebrar coisas por minha causa, mas… — Ele para e olha para mim. Meu corpo formiga. — Foi bom fantasiar.
Se não houvesse consequências, eu gritaria e arrancaria seus olhos. Diria a Maven que, embora tenha passado pouco tempo com seu irmão, ainda lembro de cada batimento que compartilhamos. Seu corpo pressionado contra o meu enquanto dormíamos, sozinhos, compartilhando pesadelos. Sua mão em meu pescoço, pele na pele, me fazendo olhar para ele enquanto caíamos do céu. Seu cheiro. Seu gosto. Eu amo seu irmão, Maven. Você estava certo. Você é apenas uma sombra, e quem olha para as sombras quando tem o fogo? Quem escolheria um monstro no lugar de um deus? Não posso ferir Maven com meus raios, mas posso destruí-lo com minhas palavras. Cutucar seus pontos fracos, abrir suas feridas. Deixá-lo sangrar e cicatrizar em algo ainda pior.
As palavras que consigo dizer são bem diferentes.
— Você gosta da Iris? — pergunto.
Ele passa a mão na cabeça, irritado, como uma criança.
— Como se isso tivesse alguma relevância.
— Bom, ela é seu primeiro relacionamento desde que sua mãe morreu. Vai ser interessante ver como isso vai se desenrolar sem o veneno de Elara na sua cabeça. — Batuco os dedos no corpo. As palavras o atingem devagar, e ele mal mexe a cabeça. Concordando. Sinto uma pitada de pena, mas luto contra esse sentimento com todas as minhas forças. — Vocês ficaram noivos há dois meses. Parece rápido, mais rápido do que seu noivado com Evangeline, pelo menos.
— É o que acontece quando um exército inteiro depende de você — ele diz, incisivo. — O povo de Lakeland não é famoso pela paciência.
Dou risada.
— E a Casa Samos é tão complacente?
Um canto de sua boca se ergue, uma lembrança daquele sorriso. Ele brinca com um dos braceletes, rodando o círculo prateado em volta do pulso fino.
— Eles têm sua utilidade.
— Achava que Evangeline teria te transformado em uma almofada de alfinetes a esta altura.
Seu sorriso se alarga.
— Se ela me matar, perde qualquer chance que ainda possa acreditar que tenha, por menor que seja. Não que seu pai fosse permitir. A Casa Samos mantém uma posição de grande poder, mesmo que Evangeline não seja rainha. Mas que rainha ela teria sido…
— Posso imaginar. — O pensamento me faz tremer. Coroas de agulhas, adagas e lâminas; sua mãe trajando cobras e seu pai segurando as cordas da marionete que seria Maven.
— Eu não — ele admite. — Não de verdade. Mesmo agora, só a vejo como a rainha de Cal.
— Você não precisava ter escolhido Evangeline…
— Bom, eu não podia escolher quem eu queria, podia? — ele estoura. Em vez de calor, sinto o ar à nossa volta ficar frio. O bastante para que arrepios percorram minha pele enquanto Maven me olha, com aqueles olhos de um azul vívido e ardente. O vapor no ar some com a corrente de ar frio, removendo a fraca barreira entre nós.
Tremendo, me obrigo a ir até a janela, dando as costas para ele. Do lado de fora, as magnólias balançam na brisa leve, suas flores brancas, creme e rosadas à luz do sol.
Uma beleza tão simples não tem lugar aqui sem ser corrompida pelo sangue, pela ambição ou pela traição.
— Você me jogou na arena para morrer — digo devagar. Como se algum de nós pudesse esquecer. — Você me mantém acorrentada em seu palácio, vigiada noite e dia. Você me deixa definhar, adoecer…
— Acha que gosto de te ver assim? — ele resmunga. — Acha que quero mantê-la prisioneira? — Sua respiração se agita. — É o único jeito de te manter comigo. — A água se agita enquanto ele gesticula.
Me concentro no som da água, e não em sua voz. Embora saiba o que ele está fazendo, embora possa sentir que está me encurralando ainda mais, não consigo evitar que me afunde cada vez mais. Seria fácil demais me deixar afogar. Parte de mim quer fazer isso.
Mantenho os olhos na janela. Pela primeira vez estou feliz com a dor familiar da Pedra Silenciosa. É um lembrete inegável do que Maven é, e do que seu amor por mim significa.
— Você tentou matar todo mundo que eu amo. Matou crianças. — Um bebê manchado de sangue, com um bilhete no pequeno pulso. A lembrança é tão vívida que poderia ser um pesadelo. Não tento afastá-la. Preciso recordar essas coisas. Preciso ter em mente quem ele é. — Por sua causa, meu irmão está morto.
Viro para Maven, deixando uma risada dura e vingativa escapar. A raiva clareia minha mente.
Ele senta de maneira brusca, o peito nu quase tão branco quanto a água da banheira.
— E você matou minha mãe. Levou meu irmão. Meu pai. No segundo em que caiu neste mundo, a engrenagem começou a rodar. Minha mãe olhou dentro da sua mente e viu uma oportunidade. A chance que estava esperando. Se você não tivesse… Se você nunca… — Ele tropeça nas palavras, que vêm mais rápido do que pode conter. Então aperta os dentes, segurando as mais condenatórias. Outro suspiro de silêncio. — Não quero saber como as coisas seriam.
— Eu sei — rebato. — Eu teria acabado em uma trincheira, destruída ou destroçada ou mal sobrevivendo, como uma morta-viva. Eu sei o que teria me tornado, porque um milhão de pessoas vive o que eu viveria. Meu pai, meus irmãos e tantos outros.
— Sabendo o que sabe agora… você voltaria atrás? Escolheria aquela vida? Recrutamento, sua cidade lamacenta, sua família, o garoto do rio?
Tantos estão mortos por minha causa, por causa do que sou. Se fosse só uma vermelha, só Mare Barrow, eles estariam vivos. Shade estaria vivo. Meus pensamentos se demoram nele. Trocaria tantas coisas para tê-lo de volta. Sacrificaria a mim mesma mil vezes. Então penso nos sanguenovos encontrados e salvos. Nas rebeliões. Na guerra terminada. Prateados atacando uns aos outros. Vermelhos se unindo. Tive impacto em tudo isso, por menor que tenha sido. Erros foram cometidos. Eu cometi. Muitos para contar. Estou a um mundo de distância da perfeição, ou mesmo do bem.
Mas a verdadeira questão corrói meu cérebro. A que Maven realmente está perguntando. Você abriria mão do seu poder pela chance de voltar no tempo? Tenho a reposta na ponta da língua.
— Não — sussurro. Me aproximei dele sem me dar conta, a mão apoiada em um dos lados da banheira de porcelana. — Não, eu não voltaria atrás.
A confissão queima pior que o fogo, consumindo minhas entranhas. Odeio Maven pelo que me faz sentir, pelo que me faz perceber. Me pergunto se seria rápida o bastante para machucá-lo. Cerrar o punho e acertar seu queixo com a algema dura.
Curandeiros de pele podem fazer dentes crescer de novo? Eu não viveria para descobrir.
Ele olha para mim.
— Quem conhece a escuridão faz qualquer coisa para permanecer na luz.
— Não aja como se fôssemos iguais.
— Iguais? Não. — Ele balança a cabeça. — Mas talvez… estejamos quites.
— Quites? — Mais uma vez quero atacá-lo. Usar minhas unhas, meus dentes para abrir sua garganta. A insinuação me corrói. Quase tanto quanto o fato de que ele pode estar certo.
— Perguntei a Jon se ele conseguia ver futuros que não existiam mais. Ele disse que os caminhos estavam sempre mudando. Uma mentira fácil. Permitia que me manipulasse de uma maneira que nem Samson conseguiria. Quando ele me levou até você… Bem, eu não discuti. Como ia saber o veneno que você seria?
— Se sou um veneno, é só se livrar de mim. Pare de torturar a nós dois!
— Você sabe que não posso fazer isso, por mais que eu queira. — Seus cílios tremulam e ele desvia o olhar. Para algum lugar onde nem eu consigo alcançá-lo. — Você é como Thomas. É a única pessoa com quem me importo. A única pessoa que me lembra que estou vivo. Que não estou vazio. Nem sozinho.
Estou vivo. Não estou vazio. Nem sozinho.
Cada confissão é uma flecha, acertando cada terminação nervosa até meu corpo arder em um fogo gelado. Odeio que Maven seja capaz de dizer essas coisas; odeio que sinta o que eu sinto, tema o que eu temo. Odeio, odeio. E se pudesse mudar quem sou, o que penso, mudaria. Mas não consigo. Se os deuses de Iris existem, eles sabem o quanto tentei.
— Jon não me dizia sobre os futuros perdidos… os que não são mais possíveis. Mas eu penso neles… — Maven murmura. — Um rei prateado, uma rainha vermelha. Como as coisas teriam sido? Quantos ainda estariam vivos?
— Seu pai não. Nem Cal. E eu com certeza não.
— Sei que é só um sonho, Mare — ele explode, como uma criança corrigida na sala de aula. — Qualquer janela que um dia tivemos, por menor que fosse, está fechada.
— Por sua causa.
— Sim — ele diz com suavidade, admitindo. — Sim.
Sem interromper o contato visual, Maven tira o bracelete que solta faíscas do pulso.
O movimento é lento, deliberado, metódico. Ouço quando ele encosta no chão e oscila, o metal prateado batendo no mármore. O outro logo o segue. Ainda me olhando, ele relaxa na banheira e joga a cabeça para trás, expondo o pescoço. Ao meu lado, minhas mãos se contorcem. Seria tão fácil. Envolver com meus dedos morenos seu pescoço pálido. Jogar todo meu peso sobre ele. Forçando para baixo. Cal tem medo de água. Maven também? Eu poderia afogá-lo. Matá-lo. Deixar a água da banheira ferver nós dois. Ele está me desafiando a fazer isso. Parte dele talvez queira que eu faça. Ou poderia ser mais uma das mil armadilhas em que caí. Outro truque de Maven Calore.
Ele pisca e respira fundo, se livrando de alguma coisa que estava bem no fundo de si. Então o encanto se quebra e o momento se vai.
— Você será uma das damas de Iris amanhã. Aproveite.
Mais uma flecha me acerta em cheio.
Queria ter mais um copo para jogar na parede. Dama do casamento do século. Nenhuma chance de escapar. Terei que ficar diante de toda a corte. Guardas por toda parte. Olhos por toda parte. Quero gritar.
Use a raiva. Use a fúria, tento dizer a mim mesma. Em vez disso o sentimento só me consome e vira desespero.
Maven faz um gesto preguiçoso com a mão aberta.
— A porta é ali.
Tento não olhar para trás enquanto saio, mas não consigo me conter. Maven está olhando para o teto, os olhos vazios. Ouço Julian na minha cabeça, sussurrando as palavras que escreveu.
Não fomos escolhidos, mas amaldiçoados.

25 comentários:

  1. Só eu que tava esperando uma pegação? Tô aqui pensando como um ardente entra em contato com a água sem se ferir?

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    1. Eu tbm tava esperando... Nossa q decepção. .

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    2. Siiiiimm ❤ sério...N consigo odiar ele... se peguem logo pohaa

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    3. Ué, pq a água feriria? Ardentes não são feitos de fogo, não se machucam ou morrem por causa da água.

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    4. Esses dois deveriam se pegar logo e ela esquecer Cal o patético kkk

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    5. AFF, concordo, sou #TeamCal, mas uma pegação desses dois...😍

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  2. Nãooo... eu estava imaginando momentos Calorosos

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  3. Eu também tava esperando uma pegação! Aah, Maven *-*

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  4. Enquanto Cal queima com a pegação o Maven queima com os momentos tensos. Senhor! Estou me abanando aqui. Não sei porque ela não assume logo que ama ele, é mais fácil aceitar do que negar uma idéia. Além do mais os relacionamentos amorosos dela sempre arranca algo dela em troca.
    E eu estou começando a shippar ela com a Evangeline...

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    1. O quê? Evangeline?😂😂😂😂😂😂😂

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    2. Pensei que era só eu, a louca, que tava shippando

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  5. Me sinto ate traindo o Cal querendo q a Mare e o Maven se pegassem, amo o Maven gnt

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    1. Como o Tio Julian disse "Todo mundo pode Trair todo mundo"...

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  6. Queria que tivesse rolado uns amassos 😥 já que o Cal é um babaca também. Me sinto meio mal 😂😂😂😂 pq ele torturou ela e tals , matou muitas pessoas e tals , mas é impossível não flertar com o lado negro nesse caso.

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  7. Prefiro Cal do que Maven '-'

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  8. EU ACHEI QUE A EVANGELINE IA SE DECLARAR.KKKKKK. ESSE LIVRO TA MUITO SEM PEGAÇÃO NAM

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    1. Concordo, e o último tb. Se eu fosse ela, e passas noites dormindo com Cal, mimhas roupas já tinham queimado no fogo dele😂😂😂😂😍 digo o msm Do Maven

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    2. Morri 😂😂😂😂😂😂😂

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  9. Acho que ela o ama pq o entende em muitos aspectos. Quando você realmente entende seu inimigo, parte de você passa a amalo também.
    Simmm o livro ta precisando de uma pegação kkkkkk mas nao quero que Mare fique com Maven, quero ela com o Cal, acho ele mto mais macho!

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  10. tipo o lado mais sombrio morfeu e jeb

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  11. Mano do céu, é esse pega que não rolou ???????
    Ass: Déborah A.
    Ps: aqui é team Cal.

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  12. fiquei com pena do maven . queria pegação só pra ela ter certeza que ama Cal.

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Boa leitura :)