13 de março de 2017

Capítulo dezessete

— ME MATE.
As palavras queimam na minha boca, rasgando o que deve ser uma garganta em carne viva de tanto gritar.
Fico à espera do gosto de sangue. Não, não fico à espera de nada. Só da morte.
Mas, à medida que meus sentidos retornam, percebo que não sou apenas carne e ossos. Sequer estou sangrando. Estou inteira, embora com certeza não sinta nada. Num ápice de força de vontade, abro os olhos na marra. Mas, em vez de Maven e seus carrascos, encontro olhos verdes familiares.
— Mare.
Kilorn não me dá chance de respirar fundo. Seus braços envolvem meus ombros, apertando-me contra seu peito, me levando de volta à escuridão. Não consigo evitar um tremor no corpo com a lembrança da sensação de fogo e eletricidade nos meus ossos.
— Está tudo bem... — cochicha.
Algo no seu jeito de falar me tranquiliza. Sua voz sai grave e trêmula. Ele se recusa a me soltar, mesmo quando recuo involuntariamente. Ele sabe qual é o desejo no meu coração, mesmo quando meus nervos desgastados não conseguem lidar com isso.
— Acabou. Você está bem. Está de volta.
Permaneço imóvel por um momento, enroscando os dedos nas dobras da camisa velha dele. Me concentro em Kilorn para não precisar sentir meu corpo tremer.
— De volta? — sussurro. — De volta para onde?
— Deixe-a respirar, Kilorn.
Outra mão, tão quente que só pode ser a de Cal, toma meu braço. Ele me segura firme, com uma pressão cuidadosa e controlada, suficiente para me despertar.
Isso me ajuda a nadar para fora do pesadelo e retornar completamente para o mundo real. Me inclino para trás devagar, me afastando de Kilorn para ver onde exatamente estou despertando.
Estamos no subsolo, a julgar pelo cheiro úmido e terroso, mas não é mais um dos túneis de Farley. Estamos bem longe de Harbor Bay, se meu sentido elétrico não falha. Não consigo sentir um pulso sequer, o que implica que estamos bem longe da cidade. Trata-se de um abrigo, cavado diretamente no solo, camuflado pela floresta e pela própria forma como foi construído.
Obra de vermelhos, sem dúvida; provavelmente usado pela Guarda Escarlate.
Tudo aqui parece vagamente róseo. As paredes e o chão estão sujos, e o teto inclinado é feito da própria terra, reforçada com escoras de metal enferrujado. Nenhuma decoração. Na verdade, não há praticamente nada. Alguns sacos de dormir — o meu entre eles —, pacotes de ração, uma lanterna desligada e algumas caixas de suprimentos do jato são as únicas coisas que consigo enxergar. Minha casa em Palafitas era um palácio perto disto aqui, mas não reclamo.
Suspiro, aliviada, feliz por estar longe do perigo e daquela dor ofuscante.
Kilorn e Cal me deixam correr os olhos pelo cômodo vazio e tirar minhas próprias conclusões. Eles parecem desfigurados pela preocupação, parecem ter envelhecido em poucas horas. Não consigo deixar de notar as olheiras escuras e as rugas profundas de ambos, me perguntando o que os teria machucado dessa maneira. A luz que vaza pelas janelas estreitas é vermelha e alaranjada. Esfriou; é a noite chegando.
O dia acabou. E nós perdemos. Wolliver Galt está morto, um sanguenovo sacrificado por Maven. Ada também, pelo que sei. Falhei com ambos.
— Onde está o jato? — pergunto, tentando levantar.
Mas ambos estendem os braços para me impedir, mantendo-me bem enrolada no saco de dormir. Agem com um cuidado surpreendente, como se eu fosse quebrar ao menor toque.
Kilorn me conhece melhor e é o primeiro a notar minha irritação. Volta a sentar sobre os calcanhares, abrindo um pouco de espaço para mim. Olha para Cal e assente, contrariado, permitindo que o príncipe explique.
— Não conseguimos voar muito no... estado em que você estava — diz, desviando o olhar do meu rosto. — Conseguimos percorrer algumas dezenas de quilômetros até você deixar o jato instável como uma lâmpada sobrecarregada. Quase fritou tudo. Tivemos que interromper o voo e sair a pé para nos esconder na floresta até você melhorar.
— Desculpa. — É a única coisa que passa pela minha cabeça, mas ele faz um gesto com a mão para que eu me cale.
— Você abriu os olhos, Mare. É tudo o que importa para mim — Cal diz.
Uma onda de exaustão ameaça me derrubar, mas resisto. Então o toque de Cal deixa o meu braço e sobe para o meu pescoço. Tenho um espasmo com a sensação, surpresa, e o encaro com olhos arregalados e questionadores. Mas ele se concentra na minha pele, em algo nela. Seus dedos traçam linhas estranhas, angulosas, que se ramificam no meu pescoço e descem até minha coluna. Não sou a única a notar.
— O que é isso? — Kilorn resmunga. Seu olhar fulminante deixaria a rainha Elara orgulhosa.
Minha mão se junta à de Cal e também sente a saliência na minha nuca. Riscos imperfeitos, grandes e sinuosos.
— Não sei o que é — digo.
— Parecem... — Cal hesita, correndo o dedo por uma marca particularmente longa. Seu toque faz minhas entranhas gelarem. — Cicatrizes, Mare. Cicatrizes de choque.
Eu me desvencilho da mão dele e me forço a levantar.
Para a minha surpresa, bambeio sobre as pernas, estupidamente fracas, mas Kilorn está perto para me segurar.
— Calma — ele censura, sem soltar meus punhos.
— O que aconteceu em Harbor Bay? O que... o que Maven fez comigo? Foi ele, não foi?
A imagem da coroa negra arde na minha mente, como se tivesse sido marcada com um ferrete. E as novas cicatrizes são exatamente isso. Marcas. As marcas dele em mim.
— Ele matou Wolliver e armou uma armadilha para nós — digo. — E por que vocês estão tão rosados?
Como sempre, Kilorn ri da minha raiva. Mas seu riso sai oco, forçado, mais por mim do que por ele.
— Seu olho — ele diz, roçando o dedo na minha bochecha esquerda. — Você rompeu um vaso.
Ele tem razão, percebo, fechando um olho e depois o outro. O mundo é drasticamente diferente visto pelo olho esquerdo, tingido de vermelho e rosa em nuvens que só podem ser sangue. A dor da tortura de Maven também fez isso comigo.
Cal não levanta conosco. Em vez disso, inclina-se para trás, apoiado nas mãos. Desconfio que ele sabe que meus joelhos ainda estão fracos e que vou cair de novo.
Ele tem um jeito de saber essas coisas, e isso me deixa irritada demais.
— Sim, Maven se infiltrou em Harbor Bay — ele responde em tom burocrático. — Não fez uma entrada grandiosa para que não soubéssemos, e foi atrás do primeiro sanguenovo que conseguiu encontrar.
Bufo ao lembrar. Wolliver tinha apenas dezoito anos.
Sua única culpa foi ter nascido diferente. Ser igual a mim.
O que ele poderia ter sido?, me pergunto, lamentando o soldado que perdemos. Qual era o seu poder?
— Tudo que Maven precisou fazer foi esperar — Cal continua, e um músculo da sua bochecha se contrai. — Teria capturado todos nós se não fosse Shade. Ele nos tirou de lá, mesmo com a concussão. Às custas de alguns saltos e muitas situações críticas, mas conseguiu.
Solto um suspiro lento e aliviado.
— Farley está bem? — pergunto. Cal baixa a cabeça, confirmando. — E eu ainda estou viva.
Kilorn me aperta mais forte.
— Não sei como.
Levo a mão até o peito e a pele sob a camisa se retrai de dor. Enquanto o resto do meu pesadelo e dos outros terrores infligidos ao meu corpo vão embora, a marca de Maven ainda é bem real.
— Doeu muito? Isso que ele fez com você? — Cal pergunta, fazendo Kilorn lançar uma careta irritada para ele.
— As primeiras palavras dela em quatro dias foram “me mate”, caso não se lembre — ele dispara. Cal não pisca. — É claro que o que aquela máquina fez doeu.
O clique.
— Máquina? — pergunto, atônita, olhando para os dois. — Calma, quatro dias? Apaguei por tanto tempo assim?
Quatro dias dormindo. Quatro dias de nada. O pânico expele todos os pensamentos e dores remanescentes, subindo pelas minhas veias como água gelada.
Quantos não morreram enquanto estive presa dentro da minha própria cabeça? Quantos não estão pendurados em árvores e estátuas agora?
— Por favor, digam que vocês não passaram esse tempo todo cuidando de mim. Por favor, digam que fizeram alguma coisa.
Kilorn ri.
— Considero manter você viva uma coisa bem importante.
— Quero dizer que...
— Sei o que você quer dizer — ele replica, por fim abrindo um espaço entre nós.
Com o pouco de dignidade que ainda me resta, volto a sentar sobre o saco de dormir e luto contra a vontade de grunhir.
— Não, Mare, não ficamos de braços cruzados — Kilorn se volta para a parede e se apoia na terra batida para ver o que há fora da janela. — Fizemos bastante coisa.
— Continuaram a caça. — Não é uma pergunta, mas Kilorn faz que sim com a cabeça. — Até Nix?
— O tourinho veio bem a calhar — Cal diz, tocando a sombra de um ferimento no queixo. Ele conheceu a força de Nix pessoalmente. — E também é muito bom na hora de convencer. Ada também.
— Ada? — pergunto, surpresa com a menção de uma sanguenova que devia estar morta. — Ada Wallace?
Cal confirma.
— Depois que Crance escapou dos Piratas, ele a tirou de Harbor Bay. Saíram da mansão do governador pouco antes de os homens de Maven invadirem o lugar. Estavam esperando no jato quando chegamos.
Por mais feliz que esteja em saber que ela sobreviveu, não deixo de sentir uma pontada de raiva.
— Então você a jogou de novo aos lobos. Ela e Nix... os dois! — Cerro o punho contra o calor do saco de dormir, na tentativa de encontrar conforto. — Nix é um pescador — retomo. — Ada é uma criada. Como puderam deixar essas pessoas correrem um perigo tão grande?
Cal baixa os olhos, envergonhado com a minha bronca. Mas Kilorn ri na janela, virando o rosto na direção da luz evanescente do pôr do sol. Ela o mergulha num vermelho profundo, como se ele estivesse coberto de sangue. Meu olho ferido está me enganando, mas a cena me faz tremer. A risada dele, seu jeito habitual de desconsiderar meus medos, é o que mais me assusta.
Até mesmo agora o pescador não leva nada a sério. Ele vai rir até acabar numa cova.
— Achou graça em alguma coisa?
— Você lembra daquele patinho que Gisa trouxe para casa? — ele pergunta, o que me pega desprevenida. — Ela tinha uns nove anos acho, e tirou o bicho da mãe. Tentou dar sopa para ele. — Ele interrompe o relato, na tentativa de sufocar outro riso. — Você lembra, Mare?
Apesar do sorriso, seus olhos duros e incisivos tentam me fazer compreender.
— Kilorn... — suspiro. — Não temos tempo para isso.
Mas ele continua, inabalável, andando de um lado para o outro.
— Não demorou muito até a mãe aparecer. Só umas horas talvez até ela começar a rodear a parte de baixo da casa, com os outros patinhos atrás. Fizeram um barulhão. Bree e Tramy tentaram afugentá-los, não tentaram?
Lembro disso tão bem quanto Kilorn. Observava da varanda enquanto meus irmãos jogavam pedras na pata. Ela aguentou firme, chamando o filho perdido. E o patinho respondeu, se revirando no colo de Gisa.
— No fim, você fez Gisa devolver o bichinho — Kilorn retoma. — “Você não é uma pata, Gisa, não é para vocês ficarem juntos”, você disse. E então você devolveu o patinho para a mãe e observou todos irem embora. Os patos em fila, de volta para o rio.
— Estou esperando para descobrir o que isso tem a ver com a minha pergunta.
— Tudo — Cal murmura, e a voz dele reverbera grave no peito. Soa quase surpreso.
Os olhos de Kilorn desviam para o príncipe por um instante para lhe oferecer o menor dos agradecimentos.
— Nix e Ada não são patinhos, e você com certeza não é a mãe deles. Eles sabem se virar. — Kilorn diz. Em seguida, abre um sorriso malicioso e volta para as piadas de sempre: — Já você, está um bagaço.
— E eu não sei?
Tento sorrir para ele, só um pouco, mas alguma coisa repuxa a pele do meu rosto, que por sua vez retorce o meu pescoço e minhas novas cicatrizes. Dói quando falo, e arde terrivelmente quando faço qualquer esforço.
Outra coisa que Maven me arrancou. Como ele deve estar feliz em pensar que não posso mais sorrir sem sentir uma dor ardente.
— Farley e Shade estão com eles, pelo menos? — pergunto afinal.
Os rapazes confirmam, em sincronia, e quase rio da cena. Geralmente eles agem como dois opostos. Kilorn é ágil, enquanto Cal é bruto. Kilorn tem cabelo dourado e olhos verdes, enquanto o cabelo de Cal é escuro e seus olhos de fogo vivo. Mas aqui, na luz evanescente, atrás da película de sangue que atrapalha minha visão, ambos começam a se parecer.
— Crance também — Cal acrescenta.
Pisco, perplexa.
— Crance? Ele está aqui? Está... com a gente?
— Não é como se tivesse outro lugar para ir — Cal diz.
— E vocês... confiam nele?
Kilorn se escora na parede e enfia as mãos no bolso.
— Ele salvou Ada, e ajudou a resgatar os outros nos últimos dias. Por que não confiaríamos nele? Porque é um ladrão?
Como eu. Como eu era.
— Justo — cedo, mas mesmo assim não consigo esquecer o custo de confiar nas pessoas erradas. — Mas não dá para ter certeza.
— Você nunca tem certeza — Kilorn bufa, irritado.
Ele esfrega o sapato na terra, querendo dizer mais, mas sabendo que é melhor não.
— Ele saiu com Farley agora. Não é um companheiro de ronda ruim — Cal acrescenta para apoiar Kilorn.
Quase entro em estado de choque.
— Vocês dois estão concordando em alguma coisa? Em que mundo acordei?
Um sorriso verdadeiro rasga o rosto de Cal, assim como o de Kilorn.
— Ele não é tão ruim quanto você faz parecer — Kilorn diz, espichando a cabeça na direção do príncipe.
Cal ri. Solta um ruído suave, manchado por tudo o que veio antes.
— Digo o mesmo.
Dou umas pancadinhas no ombro de Cal, só para me certificar de que ele é de verdade.
— Acho que não estou sonhando.
— Graças às minhas cores, não — Cal murmura. Não está mais sorrindo. Ele corre a mão pelo queixo, coçando a barba fina. Não se barbeia desde Archeon, desde a noite em que testemunhou a morte do pai. — Ada é mais útil que os criminosos, acredita?
— Acredito. — Um redemoinho de poderes lampeja na minha cabeça, um mais forte que o outro. — O que ela faz? — pergunto em seguida.
— Nada que eu tenha visto antes — ele admite. Sua pulseira solta faíscas, que logo se convertem numa bola de fogo agitada. Ele a deixa na mão por um instante, sem chamuscar a manga da camisa, antes de jogá-la num pequeno poço cavado no meio do chão. O fogo emite luz e calor, substituindo o sol poente. — Ela é inteligente, incrivelmente inteligente. Lembra de cada palavra de cada livro da biblioteca do governador.
E, simples assim, minha visão de outro guerreiro se esvai.
— Útil — comento, amarga. — Vou fazer questão de pedir para nos contar uma história mais tarde.
— Falei para você que ela não ia entender — Kilorn diz.
Mas Cal insiste:
— Ela tem uma memória perfeita, uma inteligência perfeita. Cada momento de cada dia, cada rosto que já viu, cada palavra que ouviu. Ela lembra. Cada revista médica, livro de história ou mapa que já leu. E o mesmo vale para conhecimentos práticos.
Por mais que preferisse um criador de tempestades, sou capaz de compreender o valor de uma pessoa assim.
Se ao menos Julian estivesse aqui... Passaria dia e noite estudando Ada, tentando entender um poder tão estranho.
— Conhecimento prático? Como um treinamento?
Algo semelhante a orgulho passa pelo rosto de Cal.
— Não que eu seja instrutor, mas faço o que posso para ensiná-la. Ela já está atirando muito bem. E terminou de ler o manual do Abutre hoje de manhã.
Solto um suspiro.
— Ela consegue pilotar o jato?
Cal dá de ombros e sua boca se curva num sorriso.
— Levou os outros de jato para Cancorda e deve voltar logo. Mas, até lá, você precisa descansar.
— Descansei por quatro dias. Vocês é que têm que descansar — rebato, estendendo a mão para chacoalhar o ombro de Cal. Ele nem se mexe com o meu empurrão reconhecidamente fraco. — Vocês parecem zumbis.
— Alguém precisava garantir que você continuasse respirando — Kilorn fala num tom leve, e outra pessoa talvez pensasse que é brincadeira, mas sei que não é bem assim. — Seja lá o que Maven fez com você, isso não pode acontecer de novo.
A lembrança da dor ainda está próxima demais. Não consigo deixar de encolher o corpo ao me imaginar passando por aquilo de novo.
— Concordo.
A consciência de que Maven detém um novo poder nos paralisa. Até Kilorn, que está sempre se mexendo e andando, fica imóvel. Olha pela janela, pela muralha da noite que se aproxima.
— Cal, você tem alguma ideia do que fazer caso ela depare com aquilo de novo?
— Se vou assistir uma palestra, talvez precise de um pouco de água — digo, de repente sentindo minha garganta esturricada. Kilorn praticamente pula do lugar perto da parede, ansioso por ajudar; o que me deixa a sós com Cal e com seu calor.
— Acho que era um aparelho sonador. Modificado, claro — Cal diz.
Então seus olhos se desviam de novo para o meu pescoço, para as cicatrizes de eletricidade que sobem e descem pela minha coluna. Com uma familiaridade chocante, ele corre o dedo sobre elas, como se pudessem nos oferecer alguma pista. A parte inteligente de mim quer afastá-lo, impedir o príncipe de fogo de examinar minhas marcas, mas a exaustão e a necessidade sobrepujam qualquer pensamento. O toque dele suaviza tanto meu corpo como meu coração. É prova de que mais alguém está comigo, que não estou mais sozinha no abismo.
— Testamos uns sonadores nos lagos uns anos atrás. Eles emitem ondas de rádio. Causaram um desastre nos navios de Lakeland, tornando toda a comunicação entre eles impossível. E fez o mesmo conosco. Todos tiveram que navegar às cegas.
Os dedos dele roçam mais baixo, seguindo um ramo retorcido de cicatriz pela minha escápula.
— Imagino que o sonador dele emite ondas elétricas ou ruídos em alta magnitude — ele continua. — Suficientes para te incapacitar, para te deixar cega e voltar seus raios contra você mesma.
— Construíram isso muito rápido. Só se passaram dias desde o Ossário — cochicho em resposta. Qualquer coisa mais alta que um sussurro pode despedaçar essa paz frágil.
Cal detém a mão e a espalma contra a minha pele.
— Maven se virou contra você bem antes do Ossário.
Sei disso. Sei com cada gota do meu sangue. Algo se liberta dentro de mim, se quebrando, me permitindo dobrar as costas e enterrar o rosto entre as mãos. Todos os muros que levanto para afastar minhas lembranças se desfazem em pó. Quando o calor de Cal se enrosca em mim, quando seus braços envolvem meus ombros, quando sua cabeça se apoia no meu pescoço, eu me apoio nele. Deixo que ele me proteja, embora tenhamos jurado na cela de Tuck que não faríamos mais isso. Não passamos de distrações um para o outro, e distrações podem matar. Mas minhas mãos se fecham sobre as dele, nossos dedos se enlaçam, até nossos ossos se emaranham. O fogo está apagando, as chamas estão se reduzindo a brasa. Mas Cal ainda está aqui. Nunca vai me deixar.
— O que ele disse para você? — ele pergunta baixo.
Me afasto um pouco para deixá-lo ver. Com a mão trêmula, abaixo a gola da camisa, mostrando-lhe o que Maven fez. Seus olhos se arregalam ao pousarem sobre a marca: um M anguloso queimado na minha pele. Ele observa por um longo tempo e sinto que seu ódio é capaz de me incendiar de novo.
— Ele disse que era um homem de palavra — conto. Isso é o suficiente para fazer Cal desviar o olhar da minha mais nova cicatriz. — Que sempre me encontraria... e me salvaria — digo, soltando uma gargalhada vazia. A única pessoa de quem Maven precisa me salvar é dele mesmo.
Com mãos delicadas, Cal ajeita minha camisa e esconde a marca de seu irmão.
— Já sabíamos disso. Agora pelo menos sabemos o motivo real.
— Hã?
— Maven mente com a mesma facilidade com que respira, e a mãe dele o mantém na coleira — Cal começa, arregalando os olhos como se suplicasse para eu compreender. — Está caçando sanguenovos não para proteger o trono, mas para ferir você. Para encontrar você — ele continua, cerrando o punho sobre a coxa. — Maven quer você mais do que qualquer coisa no mundo.
Bem que Maven poderia estar aqui agora, para que eu pudesse arrancar seus olhos horríveis e assustadores.
— Bom, ele não pode me ter — afirmo, com plena consciência das consequências disso, e Cal também.
— Nem se isso puder acabar com a matança? Nem pelos sanguenovos?
Lágrimas despontam nos meus olhos.
— Não vou voltar para ele. Por ninguém.
Espero seu julgamento, mas, em vez disso, ele sorri e baixa a cabeça, envergonhado com a própria reação.
Também estou.
— Pensei que fôssemos perder você. — Ele escolheu bem as palavras e formulou a frase com cuidado. Me inclino para a frente e apoio a mão sobre seu punho. É toda a segurança que ele precisa para continuar: — Pensei que eu fosse perder você. Tantas vezes...
— Mas ainda estou aqui — digo.
Ele toma meu pescoço entre as mãos, como se não acreditasse em mim. Lembro vagamente do toque de Maven, mas contenho a vontade de me retrair. Não quero que Cal me solte.
Estou fugindo há tanto tempo. Desde antes de tudo isso começar. Mesmo nos tempos de Palafitas, já fugia. Para evitar minha família, meu destino, qualquer coisa que não quisesse sentir. E ainda fujo. Daqueles que querem me matar. E daqueles que querem me amar.
Quero tanto parar. Quero tanto ficar quieta, sem me matar nem matar ninguém. Mas é impossível. Preciso seguir em frente. Preciso me machucar para me salvar, machucar os outros para salvar outros. Machucar Kilorn, machucar Cal, machucar Shade e Farley e Nix e todos que são burros o bastante para me seguir. Estou fazendo-os fugitivos também.
— Vamos lutar contra ele — Cal diz. Seus lábios se aproximam, quentes a cada palavra. Suas mãos me apertam mais forte, como se, a qualquer momento, alguém fosse me tirar dele. — É isso que planejamos fazer, e é isso que vamos fazer. Vamos formar um exército, e então matá-lo. Ele e a mãe.
Matar um rei não mudará nada. Outro vai assumir o lugar. Mas é um começo. Se não conseguimos fugir de Maven, temos que forçá-lo a parar. Pelos sanguenovos.
Por Cal. Por mim.
Sou uma arma feita de carne, uma espada coberta de pele. Nasci para matar um rei, para acabar com um reino de terror antes mesmo de começar pra valer. Fogo e eletricidade elevaram Maven, e fogo e eletricidade vão derrubá-lo.
— Não vou deixar que ele te machuque de novo.
Sua respiração me faz tremer. O que é uma sensação estranha, já que estou cercada de um calor abrasador.
— Acredito em você — minto.
Porque sou fraca, me viro nos braços dele. Porque sou fraca, pressiono os lábios contra os dele, à procura de algo que me faça parar de fugir, que me faça esquecer.
Ambos somos fracos, ao que parece.
Suas mãos escorregam pela minha pele e sinto um tipo diferente de dor, mais profunda que meus nervos.
Dói como um peso oco, vazio. Sou uma espada nascida do raio, deste fogo... e do fogo de Maven. Um deles já me traiu, e o outro pode ir embora a qualquer momento. Mas não temo ter o coração partido. Não temo a dor.
Apego-me a Cal, Kilorn, Shade, para salvar todos os sanguenovos que puder, porque tenho medo de acordar no vazio, num lugar onde meus amigos e familiares não existem mais e não passo da única luz de relâmpago na escuridão de uma tempestade solitária.
Se sou uma espada, sou uma espada de vidro, e já me sinto prestes a estilhaçar.

11 comentários:

  1. Finalmente !!!!!
    Esses dois estavam loucos pra se pegar hahaha

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  2. E a Mare menosprezando o poder da Ada, se ela tivesse um pouquinho a mais de inteligência, não estaria atolada nessa m**da toda.

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    1. KKKKKKKKKK PURA VERDADE, QUERO CONHECER LOGO ESSA ADA.

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    2. voces tem que pensar que eles tao em guerra e ela estava apostando em alguem que pudesse lutar em campo. mas ela propria admitiu que é um poder impresionante

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  3. Também, a equipe estar precisando de um cérebro potente.

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  4. Mary não percebe q usa a inteligência não precisa da força bruta

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  5. aaaaaaaaaaaaaaaté que enfim! eu to morrendo com essa tensão entre os dois, finalmente se pegaram. ~polly~

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    1. Até que enfim! <3

      Apaixonada por livros

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  6. Uma cena tão esperada como essa e essa leprosa dessa Mare estraga o clima, só pensa em usar os outros. Destruir todo mundo só pra mantê-la viva. Que pensamentos mais sádicos e egoístas !
    Ass: Déborah Alana

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  7. Cal usou palavras parecidas a do irmão. Fiquei com medo. Mas espero que sejam verdadeiras.
    Vitória Fábrica

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Boa leitura :)