3 de março de 2017

Capítulo dezessete

— ABSOLUTAMENTE NÃO! — troveja Maven. — Ela só tem duas semanas de treino. Você vai parti-la ao meio.
Em resposta, Evangeline apenas dá de ombros e abre um sorriso preguiçoso. Seus dedos dançam sobre sua perna, e quase os sinto perfurar minha pele como garras.
— E daí se partir? — Sonya intervém, e acho que vejo um quê da sua avó brilhar em seus olhos. — Os curandeiros estão aqui. Ninguém vai se machucar de verdade. Além disso, se ela quer treinar conosco, pode muito bem fazer direito, não?
Ninguém vai se machucar de verdadeMas a cor do meu sangue será exposta para todo mundo ver. Estou tão nervosa que ouço as batidas do meu próprio coração, mais rápidas a cada segundo que passa. Os holofotes projetam sua luz intensa sobre o ringue, sobre mim. Será difícil esconder meu sangue, e todos vão me ver como sou: a vermelha, a mentirosa, a ladra.
— Gostaria de poder observar mais algumas lutas antes de entrar no ringue, se não se importam — respondo com o máximo de esforço para parecer prateada. Mas minha voz vacila, e Evangeline percebe.
— Com medo de lutar? — ela provoca, gesticulando com desdém. Uma de suas facas, uma coisinha de nada, um dente de prata, gira ameaçadora em volta do seu punho. — Pobre menininha elétrica.
Sim, quero gritar. Sim, tenho medo. Mas prateados não admitem essas coisas. Eles têm seu orgulho, sua força — e só.
— Quando eu lutar, vai ser para ganhar — respondo à altura. — Não sou idiota, Evangeline, e ainda não sou capaz de ganhar.
— O treino fora do ringue só leva você até certo ponto, Mareena — Sonya insinua, vendo por trás da minha mentira. — Não concorda, instrutor? Como espera ganhar um dia se não tenta?
Arven sabe que há algo diferente em mim, um motivo para meu poder e minha força. Mas não faz ideia do que é, e seu rosto revela certa curiosidade. Ele também quer me ver no ringue. Meus únicos aliados, Cal e Maven, trocam olhares preocupados, pensando em como me proteger nesse campo minado. Será que não esperavam por isso? Será que não sabiam que chegaríamos a este ponto?
Ou talvez planejavam isso desde o começo. Uma morte acidental em treinamento, uma morte adequada para a menina estranha. Outra mentira para a rainha contar. É uma armadilha em que entrei porque quis.
Será o fim do jogo. E todos que amo terão perdido.
— Lady Titanos é filha de um herói de guerra morto e vocês não param de provocá-la — resmunga Cal dirigindo um olhar firme para as garotas.
Elas mal o notam e quase riem de sua defesa ridícula. Ele pode ser um lutador nato, mas péssimo nas palavras.
Sonya fica ainda mais animada e se deixa levar por sua natureza insinuante. Se Cal é um guerreiro no ringue, ela é um soldado dos discursos, e torce suas palavras com uma facilidade impressionante.
— A filha de um general tem que se sair bem na arena. Na verdade, Evangeline é que deveria temer.
— Ela não foi criada por um general, não seja tola — Maven replica.
Ele é muito melhor que o irmão nesse tipo de coisa. Ainda assim, não posso deixá-lo vencer minhas batalhas. Não contra estas garotas.
— Não vou lutar — repito. — Desafie outra pessoa.
Evangeline abre outro sorriso, deixando seus dentes brancos e afiados à mostra, e meus velhos instintos soam como um alarme. Mal tenho tempo de me jogar no chão quando uma de suas facas corta os ares, passando pelo lugar onde estava minha bochecha segundos antes.
— Eu desafio você — ela insiste.
Mais um faca voa em direção ao meu rosto. Outras flutuam do seu cinto, prontas para me cortar em pedacinhos.
— Evangeline, pare... — Maven grita enquanto Cal se põe ao meu lado com os olhos repletos de preocupação.
Meu sangue lateja de adrenalina. Minha pulsação está tão alta que mal ouço o que o príncipe me sussurra.
— Você é mais rápida. Faça Evangeline correr. Não tenha medo.
Outra faca cruza os ares e se enterra no chão, perto dos meus pés.
— Não a deixe ver seu sangue — é o último conselho de Cal.
Por trás dele, vejo Evangeline dar voltas como uma leoa enquanto as facas giram em torno do seu punho. Neste instante, compreendo que nada nem ninguém vai detê-la. Nem mesmo os príncipes. E não posso lhe dar a chance de vencer. Não posso perder.
Um raio elétrico escapa de mim e lampeja pelo ar às minhas ordens até acertar minha oponente no peito. Ela voa para trás e bate contra o muro da arena. Contudo, em vez de ficar zangada, Evangeline me olha satisfeita.
— Vai ser rápido, menininha elétrica — caçoa ao limpar umas gotas de sangue prata do rosto.
À nossa volta, os outros alunos recuam olhando ora para mim, ora para ela. Pode ser a última vez que me veem com vida.
Não, penso melhor. Realmente não posso perder.
Aumento a concentração e apuro meu sentido elétrico até ele ficar tão forte que mal noto o deslocamento das paredes ao redor. Num estalar de dedos, Provos realinha a arena e nos prende no ringue. A vermelha contra o monstro prateado e sorridente.
Ainda com o risinho irritante no rosto, Evangeline faz subir do chão pequenas e afiadas lâminas que tomam forma de acordo com sua vontade. Elas giram, vibram e se encaixam num pesadelo vivo. Evangeline pôs de lado as facas habituais para vir com esta nova tática. As peças de metal, inventos dela, se movem pelo chão até pararem a seus pés. Cada uma tem oito pontas afiadas e cruéis, que tremem à espera de serem soltas para me retalhar. Aranhas. Só de vê-las já sinto suas patas horríveis encostarem na minha pele.
A eletricidade ganha vida em minhas mãos e dança entre meus dedos. As luzes começam a piscar à medida que sugo a energia do salão como uma esponja. A eletricidade percorre meu ser, mostras do meu poder — e da minha necessidade. Não vou morrer aqui.
Do outro lado da parede de vidro Maven sorri, mas seu rosto pálido mostra o medo. Cal o acompanha e não se move. Um soldado não pisca enquanto a batalha não estiver ganha.
— De quem é a vantagem? — pergunta Arven. — De Mareena ou Evangeline?
Ninguém ergue a mão. Nem mesmo as amigas de Evangeline. Em vez disso, elas trocam olhares e apenas observam nosso poder aumentar.
O sorriso de Evangeline se transforma numa careta de irritação. Está acostumada a ser a favorita, a ser temida por todos. E agora está mais irada que nunca.
Mais uma vez, as luzes piscam e meu corpo vibra como um fio sobrecarregado. Sob o lusco-fusco, as aranhas marcham com as patas de metal em terrível sincronia.
No momento, sinto apenas medo, força e picos de energia na veia.
Sombra e luz se alternam, mergulhando ambas numa estranha batalha de cores dançantes. Meus raios estouram na escuridão em branco e lilás; cada explosão destrói uma das aranhas de Evangeline. O conselho de Cal ecoa em minha cabeça e procuro me movimentar sempre; nunca fico parada no mesmo lugar tempo o bastante para receber um ferimento. Evangeline se move entre suas criaturas e desvia dos meus raios o melhor que pode. As pontas metálicas fincam no meu braço, mas o traje de couro aguenta firme. Ela é rápida, mas sou mais, mesmo com as aranhas escalando minhas pernas. Por um segundo, sinto sua trança prateada passar por entre meus dedos antes que eu possa agarrá-la. Mas eu a faço correr. Estou ganhando.
Por entre chiados metálicos e gritos dos colegas, ouço Maven pedir aos berros que eu acabe com ela. As luzes continuam a piscar, tornando difícil enxergar onde Evangeline está. Contudo, por um breve instante, sinto como é ser um deles. A força e o poder absolutos, a consciência de que sou capaz de fazer o que milhões não conseguem. Para Evangeline, este é um dia comum, e agora é minha vez. Vou ensinar a ela o que é medo.
Um punho me acerta na lombar e provoca ondas de dor pelo meu corpo inteiro. Meus joelhos tremem em agonia e caio. Evangeline sorri com o rosto envolto por um véu de cabelos prateados bagunçados.
— Como eu disse — provoca. — Vai ser rápido.
Minhas pernas se movem sozinhas numa manobra que já usei mais de cem vezes nos becos de Palafitas. Até em Kilorn, uma ou duas vezes. Engancho o pé na perna dela e puxo para a frente, o que a faz despencar. No segundo seguinte já estou em cima dela, apesar da dor excruciante nas costas. Minhas mãos estalam de eletricidade a cada vez que colidem contra seu rosto. Os nós dos meus dedos chegam a doer, mas não paro. Quero ver o doce sangue prata.
— Quem dera para você que fosse rápido — urro, continuando os golpes.
No entanto, através dos lábios já inchando, Evangeline consegue rir. O som da sua gargalhada logo é superado por outro, um chiado metálico. Ao nosso redor, as aranhas caídas e eletrocutadas pulsam de volta à vida. Seus corpos de metal se refazem e se juntam para formar uma terrível fera.
A criatura se move com uma velocidade incrível e logo me arranca de cima de Evangeline. Agora sou eu quem está imobilizada. Aquela pilha ondulante de lâminas de metal sobre mim.
Minhas mãos já não faíscam, exaustas e medrosas. Nem os curandeiros serão capazes de me salvar depois disso.
Uma ponta afiada roça meu rosto, fazendo brotar sangue vermelho e quente. Ouço meu próprio grito, não de dor, mas de derrota. É o fim.
E então um braço flamejante tira o monstro de cima de mim e o queima até não restar nada além de cinzas. Mãos fortes me põem de pé e puxam meus cabelos para a frente para esconder a mancha vermelha que expõe minha mentira. Eu me viro para Maven, deixando que me acompanhe para fora da sala de treinamento. Tremo dos pés à cabeça, mas as mãos me mantêm firme e me conduzem. Um curandeiro vem em minha direção, mas Cal o dispensa com um gesto e esconde meu rosto do homem.
Antes de as portas se fecharem atrás de nós, ouço os berros de Evangeline e a voz de Cal, geralmente calma, parecendo um trovão.


Quando finalmente sou capaz de falar, minha voz vacila:
— As câmeras. As câmeras podem ver.
— Elas são operadas por sentinelas que juraram fidelidade à minha mãe. Acredite: não é com elas que deveríamos nos preocupar agora — Maven diz, meio atrapalhado com as palavras.
Ele me segura pelo braço com força, como se temesse que alguém me tirasse dele. Sua mão paira diante do meu rosto, e ele limpa meu sangue com a manga da camisa. Se alguém vir...
— Leve-me até Julian.
— Julian é um idiota — ele resmunga.
No fim do corredor, avistamos alguns nobres que passeiam pelo palácio. Maven então me conduz pela passagem de serviço para evitar cruzar com eles.
— Julian sabe quem sou — cochicho novamente e agarro seu braço, com a mesma força com que prendia o meu. — Ele saberá o que fazer.
Maven me lança um olhar estranho, conturbado, mas acaba concordando. Quando chegamos, o sangramento parou, mas meu rosto ainda está péssimo.
Julian abre a porta à primeira batida, distraído como sempre. Para minha surpresa, porém, fecha a cara ao ver Maven.
— Príncipe Maven — saúda, para depois se curvar numa reverência rija, quase ultrajante.
Maven não responde. Apenas me empurra para a sala atrás de Julian.
O professor dispõe de um punhado de pequenos cômodos que a escuridão e a falta de circulação de ar deixam ainda menores. As cortinas fechadas bloqueiam o sol da tarde, e os papéis soltos deixam o chão escorregadio. Uma chaleira assovia sobre um pedaço de metal eletrizado que faz as vezes de fogão. Não é de admirar que eu nunca o tenha visto fora das aulas. Aparentemente, tem aqui tudo de que precisa.
— O que houve? — pergunta enquanto aponta algumas cadeiras empoeiradas para que nos sentemos. Evidentemente, não faz muita sala. Eu me sento, mas Maven se recusa e permanece de pé.
Puxo meu cabelo para o lado como se fosse uma cortina e revelo a bandeira vermelha e viva da minha identidade.
— Evangeline exagerou — explico.
Julian muda de posição, desconfortável. Mas não sou eu o motivo, é Maven. Ambos trocam olhares hostis não sei bem por quê. Por fim, ele volta o rosto para mim novamente.
— Não sou curandeiro, Mare. O máximo que posso fazer é limpar os ferimentos.
— Não disse? — Maven fala. — Ele não pode fazer nada.
Julian aperta os lábios
— Encontre Sara Skonos — ordena com o rosto sério, esperando que Maven se mova.
Nunca vi Maven tão bravo, nem mesmo com Cal. Mas, na verdade, nem ele nem Julian sentem raiva: é ódio. Um despreza o outro completamente.
— Vá, meu príncipe. — O título soa como uma ironia vindo da boca de Julian.
Maven finalmente aceita e se retira.
— Por que isso? — pergunto baixo apontando primeiro para Julian e depois para a porta.
— Não é o momento — ele responde.
O cantor então me entrega um paninho branco para limpar o rosto. As manchas vermelho-escuras do meu sangue estragam o tecido completamente.
— Quem é Sara Skonos?
Mais uma vez, Julian hesita ao responder.
— Uma curandeira de peles. Ela vai cuidar de você — suspira. — E é uma amiga. Uma amiga discreta.
Não sabia que Julian tinha outros amigos além de mim e dos livros, mas não questiono.
Quando Maven retorna à sala instantes depois, já consegui limpar meu rosto bem, embora ainda esteja grudento e inchado. Terei que esconder alguns hematomas amanhã e nem quero saber como estão minhas costas. Com cuidado, toco o calombo crescente que o soco de Evangeline produziu.
— Sara não... — Maven pausa, ponderando as palavras. — Sara não seria minha escolha para este serviço.
Antes que eu consiga perguntar por quê, a porta se abre e revela a mulher que, suponho, seja Sara. Ela entra em silêncio e quase não levanta os olhos. Diferente dos Blonos — os curandeiros de sangue —, sua idade está estampada orgulhosamente em seu rosto, nas bochechas murchas e rugas. Parece ter a mesma idade que Julian, mas seus ombros caídos me dizem que já viveu bem mais.
— Prazer em conhecê-la, Lady Skonos — cumprimento tranquilamente, como se perguntasse as horas. Talvez as aulas de protocolo estejam dando resultado afinal.
Mas Sara não responde. Em vez disso, ajoelha diante da minha cadeira e toma meu rosto entre suas mãos ásperas. Seu toque é fresco, como a água que cai sobre uma queimadura de sol, e seus dedos deslizam sobre o inchaço em meu rosto com uma delicadeza surpreendente.
Antes que eu possa falar das minhas costas, uma das mãos escorrega até a contusão e algo como gelo atravessa minha dor. Tudo termina em questão de instantes, e me sinto bem novamente. Melhor, na verdade: minhas antigas dores e cicatrizes também desapareceram por completo.
— Obrigada — digo, mas, de novo, não obtenho resposta.
— Obrigado, Sara — Julian sussurra.
Os olhos cinzentos da curandeira penetram nos do cantor. Sua cabeça se inclina num minúsculo aceno. Julian estende o braço e suas mãos se tocam quando ele a ajuda a se levantar. Os dois se movem como parceiros de dança ao som de uma música que ninguém mais pode ouvir.
A voz de Maven quebra o silêncio.
— Isto é tudo, Skonos.
A tranquilidade amena de Sara se converte numa raiva quase transparente. Ela solta a mão de Julian e se arrasta até a porta como um animal ferido. A porta bate à sua saída e chacoalha os mapas emoldurados em suas prisões de vidro. As mãos de Julian continuam a tremer bem depois de ela ter ido embora, como se ainda sentisse sua presença.
Ele tenta esconder, mas não consegue: Julian a amou algum dia, e talvez ainda a ame. Ele olha para a porta como um homem assustado à espera de que ela volte.
— Julian?
— Quanto mais tempo vocês ficarem desaparecidos, mais as pessoas vão começar a comentar — ele murmura, gesticulando para que saiamos.
— Concordo — diz Maven, que vai rumo à porta pronto para abri-la e me empurrar para fora.
— Você tem certeza de que ninguém viu? — pergunto com as mãos sobre minha bochecha limpa e suave.
Maven faz uma pausa para pensar.
— Ninguém que contaria — responde enfim.
— Os segredos não duram muito por aqui — sussurra Julian. Sua voz vibra com uma raiva incomum. — Sua alteza bem sabe.
— Você precisa saber a diferença entre segredos — Maven rebate — e mentiras.
Sua mão se fecha em meu braço e me puxa de volta ao corredor antes que eu possa perguntar o que houve. Não vamos muito longe quando uma figura familiar interrompe nossa caminhada.
— Algum problema, querido?
A rainha Elara, uma visão em seda, dirige-se a Maven. Estranhamente, está só, sem sentinelas para protegê-la. Seus olhos se detêm sobre a mão do filho, ainda na minha. Pela primeira vez, não a sinto tentar invadir meus pensamentos. Ela está na cabeça de Maven, não na minha.
— Nada que eu não possa resolver — Maven responde, segurando-me com mais força, como se eu fosse uma âncora.
Ela franze a testa. Não acredita numa só palavra do filho, mas não o questiona. Duvido que questione alguém: ela conhece todas as respostas.
— Melhor se apressar, Lady Mareena, ou vai se atrasar para o almoço — fala por entre os dentes, finalmente pondo seus olhos fantasmagóricos em mim. Desta vez, sou eu que me agarro em Maven. — E tome mais cuidado nos seus treinamentos. É difícil tirar manchas de sangue vermelho.
— Você sabe bem — disparo ao me lembrar de Shade —, porque, não importa o quanto tente esconder, posso ver o sangue nas suas mãos.
Ela arregala os olhos, surpresa com minha explosão. Acho que ninguém jamais falou com ela assim, o que me dá a sensação de ser uma conquistadora. Mas não por muito tempo.
De repente, meu corpo enrijece e se projeta para trás, se estatelando com tudo contra a parede da passagem de serviço. Ela me faz dançar como se eu fosse uma marionete. Sinto todos os ossos do corpo chacoalharem. Meu pescoço vai para trás até estalar, até eu ver algumas estrelas azuis.
Não, não são estrelas. São olhos. Os olhos dela.
— Mãe! — grita Maven, mas sua voz soa distante. — Mãe, pare!
Uma mão se fecha em volta da minha garganta. É a única coisa que me mantém de pé depois de eu ter perdido o resto de controle que tinha sobre meu corpo. Seu hálito doce — doce demais para suportar — me inebria.
— Você nunca mais vai falar assim comigo — diz Elara, irritada demais para ter o cuidado de cochichar dentro da minha cabeça.
Ela aperta ainda mais meu pescoço, de modo que sou incapaz de concordar, mesmo se quisesse.
Por que ela simplesmente não me mata?, me pergunto enquanto tento recobrar o fôlego. Se sou um fardo tão pesado, um problema. Por que não me mata?
— Basta! — urra Maven.
O calor da sua raiva pulsa pelo corredor. Apesar das sombras nebulosas atrapalharem minha visão, consigo enxergar o momento em que Maven a afasta de mim com força e bravura impressionantes.
A influência do poder da rainha sobre mim se desfaz, e me apoio na parede para não cair.
Elara também quase vai ao chão, tamanho seu choque. Agora seu olhar furioso se fixa em Maven, o próprio filho que se levanta contra ela.
— Retome seu horário, Mare — rosna Maven, sem tirar os olhos da mãe.
Sem dúvida, Elara grita dentro de sua cabeça, reprovando-o por ter me protegido.
— Vá!
O ambiente tremula com o calor que a pele de Maven irradia. Me vem à cabeça o temperamento reservado de Cal. Aparentemente, o irmão mais novo também esconde um fogo, até mais potente, e não quero estar perto quando explodir.
Saio a passos largos; quero me ver longe da rainha o mais rápido possível. Mas não deixo de lançar um último olhar à cena: um diante do outro, como duas peças no tabuleiro de um jogo que sou incapaz de compreender.


De volta ao quarto, encontro as criadas à minha espera, caladas, com outro vestido brilhante nos braços. Enquanto uma delas me veste com aquele espetáculo de seda e joias lilás, as outras ajeitam meu cabelo e minha maquiagem. Como sempre, não dizem uma palavra, apesar da manhã ter me deixado com cara de louca e estressada.
O almoço é complicado. Geralmente as mulheres fazem as refeições juntas para conversar sobre os próximos casamentos e todas aquelas besteiras de que as ricas gostam. Hoje é diferente. Voltamos ao terraço com vista para o rio, e os uniformes vermelhos circulam entre a multidão. Há, porém, bem mais uniformes militares do que de costume. Até parece que estamos comendo com uma legião inteira de soldados.
Cal e Maven também estão presentes, ambos com suas medalhas reluzentes no peito, conversando e sorrindo com os convidados. Enquanto isso, o rei em pessoa aperta a mão de alguns soldados, todos jovens trajando uniformes cinza com insígnias prateadas. Bem diferentes das fardas vermelhas esfarrapadas que meus irmãos e os outros vermelhos receberam ao ser recrutados. Esses prateados vão para a guerra, mas não para lutar de verdade. São filhos e filhas de gente importante e, para eles, a guerra é só mais um lugar para visitar. Outro passo no seu treinamento. Para nós, para a versão antiga de Mare, é um caminho sem volta. O destino final.
Ainda assim, preciso cumprir minha obrigação: sorrir, apertar suas mãos e agradecer sua coragem. As palavras têm gosto amargo, e chega um momento em que me refugio da multidão num canto meio escondido pelas plantas. O ruído da multidão ecoa sob o sol do meio-dia, mas consigo respirar de novo. Por um segundo, ao menos.
— Está tudo bem?
Cal surge diante de mim com um ar de preocupação, mas, estranhamente, tranquilo ao mesmo tempo. Gosta de estar rodeado de soldados; suponho que seja seu hábitat natural.
Apesar do meu desejo de sumir, endireito a postura e respondo:
— Não sou fã de concursos de beleza.
O príncipe franze a testa.
— Mare, eles vão para a frente de batalha. Achei que você, mais que os outros, gostaria de lhes proporcionar uma despedida decente.
A gargalhada me escapa como uma rajada de vento.
— Que época da minha vida faz você pensar que eu me importo com esses mimadinhos indo para a guerra como se saíssem de férias?
— O fato de terem escolhido ir não faz deles menos corajosos.
— Bom, espero que aproveitem as barracas, os suprimentos, as folgas e o monte de coisas que meus irmãos nunca receberam. Duvido que os soldados voluntários precisarão se preocupar com um botão sequer.
Embora pareça prestes a gritar comigo, Cal engole essa vontade. Agora que conheço melhor seu gênio, fico surpresa por ele ser capaz de se controlar.
— Esta é a primeira legião inteiramente prateada a ir para as trincheiras — ele diz sem alterar o tom de voz. — Vão lutar ao lado dos vermelhos, vestidos de vermelho, servindo com os vermelhos. Lakeland não vai saber quem são quando chegarem ao Gargalo. E, quando as bombas caírem, quando o inimigo tentar romper a linha, vai receber mais do que esperava. A Legião das Sombras pegará todos.
Não sei se fico empolgada ou assustada.
— Original — é meu comentário.
Cal, porém, não se gaba. Pelo contrário, até parece triste.
— Foi você quem me deu a ideia.
— Quê?
— Quando você caiu no meio da Prova Real, ninguém soube o que fazer. Tenho certeza de que o Exército de Lakeland também vai reagir assim.
Tento falar, mas não consigo emitir um som. Jamais servi de inspiração para nada, quanto mais para manobras de combate. Cal me encara como se quisesse falar mais, mas também se cala. Nenhum de nós sabe o que dizer.
Um garoto do treinamento, o dobra-ventos Oliver, aproxima-se de nós. Põe uma mão no ombro de Cal enquanto a outra segura firme sua bebida. Ele também está de uniforme. Outro que vai para a guerra.
— Que negócio é esse de se esconder, Cal? — brinca, apontando para a multidão ao redor. — Perto dos soldados de Lakeland, este batalhão é fácil!
Cal me observa. Seu rosto se tinge de prata.
— Encaro os soldados de Lakeland a qualquer hora — responde, sem tirar os olhos dos meus.
— Você vai com eles?
Oliver responde por Cal, com um sorriso muito escancarado para um garoto prestes a partir para a guerra.
— Se vai? Cal é nosso líder! Vai conduzir a própria legião até o front.
Devagar, o príncipe se desvencilha de Oliver. O dobra-ventos bêbado não parece notar e continua.
— Será o mais jovem general da história, e o primeiro príncipe a lutar no front.
E o primeiro a morrer, sopra a voz em minha cabeça. Contra meus instintos, levo a mão ao braço de Cal, que não desvia. Agora, não parece um príncipe ou um general, não parece nem um prateado, mas o garoto do bar, aquele que tentou me salvar.
Minha voz sai baixa, mas firme.
— Quando?
— Quando vocês partirem para a capital, depois do baile. Vocês vão para o sul — murmura —, e eu para o norte.
Ondas frias de choque descem pelo meu corpo, como quando Kilorn me disse pela primeira vez que ia para a guerra. Mas Kilorn é um pescador, um ladrão, alguém que sabe sobreviver, escapar pela tangente. Não é como Cal. Ele é um soldado. Vai morrer se necessário. Dará o sangue por sua guerra. E por que isso me assusta? Não sei. Por que me importo? Não consigo dizer.
— Com Cal na frente de batalha, a guerra finalmente vai terminar. Com ele, venceremos! — Oliver diz com seu sorriso idiota.
De novo, ele põe a mão sobre o ombro de Cal, mas desta vez o príncipe o puxa de lado e o conduz de volta à festa. Fico só.
Alguém empurra uma bebida gelada na minha mão e seco o copo num único gole.
— Calma — sussurra Maven. — Ainda pensando na manhã de hoje? Conferi com os sentinelas. Ninguém viu seu rosto.
Só que essa é a última das minhas preocupações ao observar Cal cumprimentar o pai. Ele bota no rosto um sorriso maravilhoso, uma máscara que apenas eu consigo transpassar.
Maven segue meu olhar e capta meus pensamentos.
— Ele quis fazer isso. Foi escolha dele.
— Isso não quer dizer que tenho que gostar.
— Meu filho, o general! — troveja o rei Tiberias, e sua voz orgulhosa atravessa o burburinho da festa.
Por um segundo, quando puxa Cal para si e passa um braço sobre o filho, esqueço que ele é o rei. Quase entendo a necessidade de agradá-lo que Cal sente.
O que não daria para minha mãe me olhar assim quando eu não era nada além de uma ladra? O que não daria agora?
O mundo é prateado, mas também cinza. Não existem o preto e o branco.


Quando alguém bate à minha porta durante a noite, bem depois do jantar, espero encontrar Walsh e outra xícara de chá com uma mensagem secreta. Mas não. Quem vem é Cal. Sem uniforme nem armadura, parece o menino que realmente é: dezenove anos recém-completos, no limiar do destino ou da grandeza. Ou de ambos.
Me encolho no pijama, sentindo muita falta de um roupão.
— Cal? Do que precisa?
Ele dá de ombros e abre um sorrisinho.
— Evangeline quase matou você no ringue hoje.
— E daí?
— E daí que não quero que ela mate você na pista de dança.
— Que parte perdi? A gente vai ter que lutar no baile também?
Ele ri encostado no batente da porta. Mas seus pés não pisam no meu quarto, como se ele não pudesse. Ou não devesse. Você é a futura esposa do irmão dele, diz minha consciência. E ele vai para a guerra.
— Se souber dançar direito, acho que não — ele responde.
Lembro de ter comentado que sou incapaz de dançar, ainda mais com as aulas terríveis de Blonos, mas no que Cal poderia ajudar? E por que ajudaria?
— Acontece que sou um excelente professor — ele acrescenta com um sorriso malicioso.
Meu corpo treme quando me estende a mão.
Sei que não devo. Sei que devo fechar a porta e não seguir por esse caminho.
Mas ele vai partir para a guerra, para a morte, talvez.
Trêmula, ponho a mão na sua e o deixo me conduzir para fora do quarto.

24 comentários:

  1. Eu shippo :)
    #caleena

    PS:Se tiver alguém que saiba fazer um shipp melhor, por favor me avise. ~polly~

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    1. O shipp é o nome da protagonista de Trono de Vidro

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    2. aiii meu Deeeus ... morrendo de amores bem aqui agora *_*

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  2. Ai meu Zeus ;-; Não sei quem eu shippo T-T

    Acho o Maven um fofo *-* Mas tenho medo dele ser um traidor :| Obedecendo a mãe dele pra chegar no comando do exército vermelho :s Ficaria bem decepcionada com isso :< Mas acontece c.c

    E o Cal xD Ele é tão general que tenho medo que ele faça alguma mérlim e me desaponte tb i.i Mas acho que é maus seguro esse shipp 😶😶😶

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    1. Cara tipo o cal salvou ela de ser uma ladra, é então super apoio ela de ficar com ele e tomara que ele termine o noivado com a cobra da evangeline.

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    2. Eu shippo o Cal por que Maven é bonzinho demais e parece estar tramando ate por que fez ela pensar mal de Cal, se ele fosse mesmo um vilão não acho que seria revelado agora mais Maven daria uma bela revelação. Cal tambem esta sempre presente em tudo e transparente enquanto Maven esconde muitas coisas aos poucos reveladas

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  3. Caleena ou Maveena?

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    1. Maveena, com certeza!

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    2. Melhor esperar mais um pouquinho. .. Não tô levando fé ainda...😐😞

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  4. Também fico dividida. Quero shippar com o Maven, mas ainda não confio nele!

    Flavia

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  5. Acho ela com o Maven uns fofos , mas shippoela com o Cal aí fico apreensiva se ele vai trair ela !

    Ass: Apaixonada por livros

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  6. MAAAAAANO DO CÉU. Maxon, America são vocês ??????
    Ass: Déborah Alana

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  7. Quando VC lê MAXON ao invés de MAVEN...

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  8. TO MUITO CONFUSA, NÃO SEI SE EU QUERO ELA COM OS PRÍNCIPES OU O AMIGO DELA,NUNCA FIQUEI TÃO CONFUSA EM UM SHIPPO KKKKKKKKKKKKKKKK <3

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  9. Amo ela com o Maven, mas não confio inteiramente nele.

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  10. Queria tanto shippar ela com o Maven, mas não confio nele...

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  11. Tá, não confio no Maven , para mim só quer roubar o trono do irmão. Não confio em ninguém, nem no Cal, mais já super torço por esse casal, muitoooooooo fofo gente, como não torcer por isso?

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  12. Não confio em nenhum dos irmãos mas esse momento foi fofo.
    Alguém mas achou q Mare devia perguntar a Farley oq vai acontecer depois dá guerra depois de conseguir a igualdade para os vermelhos? Pra isso ela vai ter q Matar muitos prateados dá realeza, mas o depois? Ainda não teria vários reinos para conquistar?
    E Farley seria a rainha dos vermelhos?
    Queria q ela tivesse perguntado o real objetivo de Farley para os vermelhos até pq é um privilégio Mare com seu poder ao seu lado
    Ass: Milly
    (Acho q eu tô e viajando na maionese pq isso deve ser respondido nos próximos livros) espero *-*
    mas alguém pensou nisso?

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Boa leitura :)