15 de março de 2017

Capítulo dezesseis

Mare

NÃO CONSIGO VER CORVIUM através da camada de nuvens baixas. Fico olhando para lá mesmo assim, os olhos grudados no horizonte que se estende atrás de nós, a leste. A Guarda Escarlate tomou a cidade. Eles a controlam agora. Tivemos que contorná-la, passando longe da cidade hostil. Maven está fazendo de tudo para não chamar atenção para ela, mas nem ele consegue esconder uma derrota tão impressionante. Me pergunto como as novidades serão recebidas no resto do reino. Os vermelhos vão comemorar? Os prateados vão comemorar? Lembro das revoltas que se seguiram a outros ataques da Guarda Escarlate. É claro que haverá repercussões. Corvium é uma declaração de guerra. Finalmente a Guarda Escarlate hasteou uma bandeira que não pode ser simplesmente derrubada.
Meus amigos estão tão perto que tenho a sensação de que poderia correr até eles. Arrancar as algemas, matar os guardas Arven, pular do veículo e desaparecer na escuridão cinzenta, correndo pela floresta invernal. Nesse sonho, eles esperam por mim nas muralhas de uma fortaleza em ruínas. Ver o coronel, com o olho vermelho, o rosto envelhecido e a arma na cintura, é um alívio. Farley está com ele, tão corajosa, altiva e firme quanto lembro. Cameron, usando seu silêncio como um escudo, não uma prisão. Kilorn, tão familiar quanto minhas duas mãos. Cal, com raiva e despedaçado, como eu também estou, as brasas prontas para queimar quaisquer pensamentos sobre Maven na minha cabeça. Imagino pular nos braços deles, implorando que me levem daqui, que me levem para qualquer outro lugar. Que me levem para minha família, para minha casa. Que me façam esquecer.
Não, não esquecer. Seria um pecado. Um desperdício. Conheço Maven como ninguém. Conheço cada canto de seu cérebro, os pedaços que ele não consegue encaixar. E vi em primeira mão sua corte se estilhaçar. Se conseguir escapar, se for resgatada, posso fazer algum bem. Posso fazer valer o preço terrível que paguei com aquele acordo idiota. Posso começar a consertar tantos erros.
Apesar de os vidros do veículo serem bem vedados, sinto cheiro de fumaça. Cinzas. Pólvora. O gosto metálico de um século de sangue. O Gargalo se aproxima a cada segundo, conforme o comboio de Maven avança para o oeste. Espero que meus pesadelos envolvendo esse lugar sejam piores do que a realidade.
Tigrina e Trevo ainda estão ao meu lado, as mãos enluvadas apoiadas nos joelhos. Prontas para me agarrar, prontas para me segurar. Os outros guardas, Trio e Ovo, estão empoleirados lá em cima, presos ao veículo em movimento. Uma precaução, agora que estamos tão perto da zona de guerra. Isso sem falar dos poucos quilômetros que nos separam de uma cidade ocupada pela revolução. Os quatro permanecem alertas como sempre. Tanto para me manter prisioneira como para me manter em segurança.
Lá fora, a floresta que acompanha os últimos quilômetros da Estrada de Ferro se afunila até virar nada. Troncos nus dão lugar a uma terra dura que mal merece a neve. O Gargalo é um lugar feio. Terra cinza e céu cinza se misturam tão perfeitamente que não sei onde um termina e o outro começa. Quase espero ouvir explosões à distância.
Meu pai dizia que sempre dava para ouvir as bombas, mesmo a quilômetros. Acho que não é mais o caso, não se Maven tiver sucesso. Vai terminar uma guerra pela qual milhões morreram. Só para continuar a matança sob outro nome.
O comboio avança em direção à base operacional que se estende à distância, um conjunto de prédios que me faz lembrar da base da Guarda Escarlate em Tuck. Galpões, principalmente. Caixões para os vivos. Meus irmãos viveram aqui. Meu pai também. Talvez eu vá manter a tradição.
Como nas cidades pelas quais já passamos, as pessoas acompanham o rei Maven e seu séquito. Soldados de vermelho, preto, cinza. Estão enfileirados ao longo da avenida principal que corta o Gargalo com precisão militar, todos com a cabeça baixa em sinal de respeito. Nem tento contar quantas centenas vieram. Estou deprimida demais para isso. Só aperto as mãos, com força suficiente para me causar outra dor em que pensar. O oficial prateado ferido em Rocasta disse que Corvium era um massacre.
Não, digo a mim mesma. Não pense nisso. É claro que penso mesmo assim. É impossível evitar os horrores em que não queremos pensar. Massacre. Para ambos os lados. Vermelhos e prateados, a Guarda Escarlate e o exército de Maven. Cal sobreviveu, isso eu sei pelo comportamento do rei. Mas e Farley, Kilorn, Cameron, meus irmãos, o restante? Tantos nomes e rostos que provavelmente atacaram os muros de Corvium. O que aconteceu com eles?
Esfrego os olhos, tentando conter as lágrimas. O esforço me deixa exausta, mas me recuso a chorar na frente de Trevo e Tigrina.
Para minha surpresa, o comboio não para no centro do Gargalo, apesar de haver uma praça que parece perfeita para mais um dos discursos melosos de Maven. Alguns veículos, cada um levando jovens de várias Grandes Casas, se afastam, mas seguimos em frente em alta velocidade. Embora tentem esconder, Tigrina e Trevo ficam mais alertas, os olhos dançando entre as janelas e entre si. Elas não gostam disso. Ótimo. Que tremam.
Por mais coragem que sinta, uma sombra de pavor cai sobre mim também. Maven está louco? Para onde está nos levando? Com certeza ele não conduziria a corte para uma trincheira, um campo minado ou pior. Os veículos aceleram, avançando cada vez mais rápido sobre a estrada de terra batida. À distância, canhões de artilharia e armamentos pesados aparecem em destroços, sombras de ferro retorcidas como esqueletos pretos. Logo cruzamos as primeiras trincheiras, nossos veículos rosnando ao passar por pontes construídas às pressas. Mais trincheiras adiante. Para provisões, apoio, comunicação. Ramificando-se como as passagens do Furo, enterradas sob a lama congelada. Perdi as contas depois de uma dúzia. Ou as trincheiras estão abandonadas ou os soldados estão bem escondidos. Não vejo nem sinal de uniformes vermelhos.
Pode ser uma armadilha. A estratégia de um velho rei para iludir e derrotar um garotinho. Parte de mim quer que seja verdade. Se eu não posso matar Maven, talvez o rei de Lakeland o faça por mim. Casa Cygnet, ninfoides. Governando há centenas de anos. É tudo o que sei sobre o monarca inimigo. Seu reino é como o nosso, dividido pelo sangue, governado por Casas nobres prateadas. E atormentado pela Guarda Escarlate, aparentemente. Como Maven, ele deve estar empenhado em manter o poder a qualquer custo. Até se juntando a um velho inimigo.
A leste, as nuvens se abrem, e alguns raios de sol iluminam a terra dura à nossa volta. Não há árvores até onde consigo ver. Cruzamos as trincheiras da linha de frente e a visão me assusta. Soldados vermelhos se aglomeram em longas fileiras de seis corpos de profundidade, os uniformes coloridos em vários tons de rubro e ferrugem. Eles se acumulam como sangue em uma ferida. Com as mãos nas escadas, tremem de frio. Estão prontos para sair correndo de suas trincheiras em direção à zona mortal do Gargalo se o rei assim comandar. Vejo oficiais prateados entre eles, denunciados pelos uniformes cinza e pretos. Maven é jovem, mas não é burro. Se isso for uma armadilha de Lakeland, ele está preparado para se defender. Imagino que o rei inimigo tenha outro exército esperando, em suas próprias trincheiras do outro lado. Mais soldados vermelhos para descartar.
Quando os pneus de nossos veículos param, Trevo fica ainda mais tensa ao meu lado. Ela mantém os olhos verdes adiante, tentando ficar calma. Um reflexo de suor faz sua testa brilhar, entregando o medo.
A terra desolada do Gargalo é coberta de crateras causadas pelo fogo das artilharias dos dois exércitos. Alguns buracos devem ter décadas. O arame farpado se emaranha na lama congelada. À frente, no primeiro veículo, um telec e um magnetron trabalham em conjunto. Movimentam os braços de um lado para o outro, tirando qualquer obstáculo do caminho do comboio. Pedaços de ferro voam em todas as direções. E, imagino, ossos. Vermelhos morrem aqui há gerações. A terra é formada por seus restos.
Nos meus pesadelos, este lugar se estende para sempre, em todas as direções. Mas, em vez de seguir para o horizonte, o comboio desacelera a menos de um quilômetro da linha de frente. Enquanto os veículos dão a volta, formando uma meia-lua, quase solto uma gargalhada nervosa. Surpreendentemente, de todos os lugares possíveis, estamos indo para um pavilhão. O contraste é chocante. É novo, com colunas brancas e cortinas de seda balançando ao vento. Foi construído com um único propósito. Uma reunião, como aquela há tanto tempo. Quando dois reis decidiram começar uma guerra centenária.
Um sentinela abre a porta do meu veículo, fazendo sinal para que desçamos. Trevo hesita durante meio segundo e Tigrina limpa a garganta, apressando-a. Ando entre elas, escoltada pela terra destruída. Pedras e terra tornam o chão irregular. Rezo para que nada se estilhace sob meus pés. Um crânio, uma costela, um fêmur, uma coluna. Não preciso de mais prova de que estou caminhando por um cemitério sem fim.
Trevo não é a única que está com medo. Até os sentinelas caminham mais devagar, alertas, as máscaras virando de um lado para o outro. Pela primeira vez, pensam na própria segurança além da de Maven. O resto da corte — Evangeline, Ptolemus, Samson — sai dos veículos com cuidado. Mantém os olhos fixos e o nariz enrugado. Sentem o cheiro da morte e do perigo tanto quanto eu. Um passo em falso, um pequeno sinal de ameaça, e vão tentar fugir. Evangeline trocou as peles por uma armadura. O aço desce de seu pescoço até os pulsos e dedos dos pés. Rapidamente, ela livra os dedos das luvas de couro, deixando a pele descoberta no ar gelado. É melhor para uma batalha. Quero fazer o mesmo, não que vá me ajudar. As algemas estão mais fortes do que nunca.
O único que parece despreocupado é Maven. O inverno mortal combina com ele, destaca sua pele de um jeito estranhamente elegante. Até os círculos escuros em volta de seus olhos, lembrando hematomas, lhe conferem uma beleza trágica. Hoje seu traje está mais suntuoso do que nunca. É um rei menino, mas ainda assim rei, prestes a encarar alguém que supostamente é seu maior adversário. A coroa em sua cabeça parece natural agora, ajustada para ficar rente à testa. Cospe chamas de ferro e bronze por cima do cabelo preto brilhante. Mesmo à luz cinzenta do Gargalo, suas medalhas e insígnias brilham, prata, rubi e ônix. Uma capa, de brocado vermelho como chamas, completa o traje e a imagem de um rei impetuoso. Mas o Gargalo consome tudo. O pó cobre suas botas pretas conforme ele avança, lutando contra o instinto de temer esse lugar. Impaciente, ele lança um olhar por cima do ombro, para as dezenas de pessoas que arrastou até aqui. Seus olhos de fogo azul nos aquecem. Temos que ir com ele. Não tenho medo de morrer, então sou a primeira a segui-lo em direção ao que pode ser nosso túmulo.
O rei de Lakeland nos aguarda.
Está sentado em uma cadeira simples e é um homem pequeno em contraste com a bandeira enorme pendurada atrás de si. Ela tem cor de cobalto, com uma flor de quatro pétalas prateada e branca. Veículos de metal azul estão do outro lado do pavilhão, dispostos de modo a espelhar os nossos. Conto mais de uma dúzia na primeira olhada, todos cheios de versões de Lakeland dos sentinelas. Mais deles rodeiam o rei e sua comitiva. Eles não usam máscaras ou capas, mas armaduras táticas com placas brilhantes de safira. Estão de pé, em silêncio, estoicos, os rostos parecendo de pedra esculpida. Cada um é um guerreiro treinado desde o nascimento, ou quase. Não conheço seus poderes nem os dos acompanhantes do rei. A corte de Lakeland não é algo que vi nas aulas com Lady Blonos, séculos atrás.
Conforme nos aproximamos, o rei entra em foco. Fico olhando para ele, tentando ver o homem embaixo da coroa de ouro, topázio, turquesa e lápis-lazúli. Tanto quanto Maven gosta de vermelho e preto, o rei gosta de azul. Afinal, é um ninfoide, um manipulador da água. Combina. Esperava que seus olhos também fossem azuis, mas são cinza, combinando com o cabelo metálico, comprido e liso. Comparo-o ao pai de Maven, o único outro rei que conheci. Ele é muito diferente. Enquanto Tiberias VI era robusto e barbudo, o rosto e o corpo inchados de álcool, o rei de Lakeland é magro, tem a barba feita, olhos atentos e a pele escura. Como acontece com todos os prateados, um tom cinza-azulado esfria sua pele. Quando ele levanta, é gracioso, com movimentos semelhantes aos de um bailarino. Não usa armadura ou uniforme, só um traje cintilante prateado e azul-cobalto, brilhante e sinistro como sua bandeira.
— Rei Maven da Casa Calore — ele diz, inclinando a cabeça assim que Maven entra no pavilhão.
— Rei Orrec da Casa Cygnet — Maven responde com gentileza. Tem o cuidado de se curvar mais que o oponente, com um sorriso firme nos lábios. — Se meu pai estivesse aqui para ver isso…
— Sua mãe também — Orrec diz. O tom não é intimidador, mas Maven levanta os ombros rápido, como se fosse uma ameaça. — Meus pêsames. Você é jovem demais para uma perda tão grande. — Ele tem sotaque, e suas palavras seguem uma melodia estranha. Seus olhos passam por cima do ombro de Maven e por mim, até Samson, atrás de nós em seu azul de Merandus. — Foi informado dos meus… pedidos?
— É claro. — Maven ergue o queixo por cima do ombro. Me encara por um segundo, então seu olhar também desliza até Samson. — Primo, se não se importa, aguarde em seu veículo.
— Primo… — Samson responde com o máximo de protesto que ousa. Mesmo assim, ele para, os pés plantados há vários metros da plataforma do pavilhão. Não há discussão, não aqui. A guarda do rei Orrec está em alerta, e suas mãos vão até as armas. Armas de fogo, espadas, até mesmo o ar à nossa volta. Qualquer coisa que eles possam usar para impedir que um murmurador se aproxime demais de seu rei e de sua mente. Se a corte de Norta também fosse assim…
Finalmente, ele cede. Curva-se, os braços fazendo movimentos precisos e treinados ao lado do corpo.
— Sim, majestade.
Só depois que ele desaparece de vista na direção dos veículos os guardas de Lakeland relaxam. O rei Orrec esboça um sorriso firme, fazendo sinal para que Maven vá até ele. Como uma criança convidada a implorar.
Em vez disso, Maven vai até o assento do outro lado. Não é Pedra Silenciosa, não é seguro, mas ele se senta sem pestanejar. Encosta o tronco e cruza as pernas, deixando a capa cobrir um braço enquanto o outro fica livre. Sua mão balança, deixando o bracelete de chamas bem visível.
O resto de nós fica ao seu redor, tomando assentos opostos à corte de Lakeland. Evangeline e Ptolemus estão à direita de Maven, assim como seu pai. Quando ele se juntou ao comboio, eu não sei. O governador Welle também está aqui, com seus trajes verdes pálidos no cinza do Gargalo. A ausência das Casas Iral, Laris e Haven parece gritante aos meus olhos, mas suas posições são ocupadas por outros conselheiros.
Meus quatro guardas Arven ficam ao meu lado, tão perto que posso ouvir sua respiração. Me concentro nas pessoas à minha frente, de Lakeland. Os conselheiros, confidentes, diplomatas e generais mais próximos do rei. Pessoas a serem temidas tanto quanto ele próprio. Não são feitas apresentações, mas logo percebo quem é mais importante entre eles. Ela se senta ao lado direito do rei, o lugar que Evangeline ocupa atualmente.
Uma rainha muito jovem, talvez? Não, a semelhança é muito grande. Deve ser a princesa, com olhos como os do pai e uma coroa de pedras preciosas azuis impecáveis. Seu cabelo liso e escuro brilha, enfeitado com pérolas e safiras. Fico olhando para ela, que sente meus olhos e encara de volta.
Maven é o primeiro a falar, interrompendo minhas observações.
— Pela primeira vez em um século, estamos de acordo.
— Isso é verdade. — Orrec concorda com a cabeça. A testa coberta de joias reluz sob a fraca luz do sol. — A Guarde Escarlate e todos da sua laia devem ser erradicados. Rápido, antes que a doença se espalhe mais. Antes que vermelhos de outras regiões sejam seduzidos por suas falsas promessas. Ouvi rumores de problemas em Piedmont.
— São apenas rumores. — O rei de coração preto não cede nenhum milímetro a mais do que pretende. — Você sabe como os príncipes são. Sempre discutindo entre si.
Orrec quase sorri.
— De fato. Os lordes de Prairie também são assim.
— Quanto aos termos…
— Não tão rápido, meu jovem amigo. Preciso saber em que estado está sua casa antes de entrar pela porta.
Mesmo de onde estou, consigo sentir Maven ficar tenso.
— Pergunte o que quiser.
— A Casa Iral? A Casa Laris? A Casa Haven? — Os olhos de Orrec passam por nós, atentos a tudo. Seu olhar cai sobre mim, demorando um segundo. — Não vejo nenhum deles aqui.
— E?
— E isso quer dizer que os relatos são verdadeiros. Eles se rebelaram contra seu legítimo rei.
— Sim.
— Em apoio e um exilado.
— Sim.
— E seu exército de sanguenovos?
— Cresce a cada dia — Maven responde. — Mais uma arma que todos devemos aprender a empunhar.
— Como ela. — O rei de Lakeland faz sinal com a cabeça na minha direção. — A garota elétrica é um troféu poderoso.
Minhas mãos agarram meus joelhos. Ele está certo, é claro. Sou pouco mais que um troféu que Maven carrega por aí, usando meu rosto e minhas palavras forçadas para atrair mais pessoas para seu lado. Mas não fico vermelha. Já tive bastante tempo para me acostumar à vergonha.
Se Maven olha para mim, não sei, porque não olho para ele.
— Um troféu, sim, mas um símbolo também — Maven continua. — A Guarda Escarlate é de carne e osso, não são fantasmas. Carne e osso podem ser controlados, derrotados e destruídos.
O rei de Lakeland estala a língua, como se sentisse pena. Rápido, ele levanta, o traje rodopiando ao seu redor, como um rio agitado. Maven levanta também e o encontra no centro do pavilhão. Eles analisam um ao outro, devorando-se. Nenhum dos dois quer ser o primeiro a ceder. Sinto o ar à minha volta pesar: quente, então frio, então seco, então úmido. O furor de dois reis prateados nos rodeia.
Não sei o que Orrec vê em Maven, mas de repente ele cede e estende a mão escura. Anéis reluzem em todos os seus dedos.
— Bem, lidaremos com eles em breve. Com seus prateados rebeldes também. Três Casas não são nada contra o poder de dois reis.
Abaixando um pouco a cabeça, Maven retribui o gesto e aperta a mão de Orrec. Melancólica, me pergunto como foi que Mare Barrow de Palafitas veio parar aqui. A alguns metros de dois reis, vendo mais uma peça da nossa história sangrenta se encaixar. Julian vai enlouquecer quando eu contar. Quando. Porque vou vê-lo de novo.
Vou ver todos de novo.
— Agora, vamos aos termos — Orrec prossegue. Percebo que não largou os dedos de Maven. Os sentinelas também notam. Dão um passo ameaçador à frente em sincronia, os trajes em chamas escondendo incontáveis armas. Do outro lado da plataforma, os guardas de Lakeland fazem o mesmo. Um lado desafiando o outro a dar o passo que vai acabar em um banho de sangue.
Maven não tenta se afastar ou se aproximar. Fica firme, impassível, destemido.
— Os termos são claros — ele responde, com a voz determinada. Não consigo ver seu rosto. — O Gargalo dividido igualmente, as velhas fronteiras mantidas e abertas. Você terá acesso livre ao rio Capital e ao canal Eris…
— Enquanto seu irmão viver, preciso de garantias.
— Meu irmão é um traidor, um exilado. Ele será morto em breve.
— É exatamente isso que quero dizer, garoto. Assim que ele morrer, assim que acabarmos com a Guarda Escarlate… você vai voltar aos velhos hábitos? Aos velhos inimigos? Vai se afogar novamente em corpos vermelhos e precisar de um lugar para jogá-los? — O rosto de Orrec fica sombrio, em um tom cinza e roxo. Seu comportamento frio e indiferente vira raiva. — Controle populacional é uma coisa, mas a guerra, o cabo de guerra sem fim, é mais que loucura. Não vou derramar mais nenhuma gota de sangue prateado porque você não consegue comandar seus ratos vermelhos.
Maven se inclina para a frente, acompanhando a intensidade de Orrec.
— Nosso tratado será assinado aqui e transmitido para todas as cidades, para todos os homens, mulheres e crianças do meu reino. Eles saberão que a guerra acabou. Em toda a Norta, pelo menos. Sei que você não tem as mesmas facilidades em Lakeland, meu velho. Mas confio que vai se esforçar para informar seu reino ultrapassado tanto quanto possível.
Todos estremecem. Os prateados de medo, eu de animação. Destruam-se, minha cabeça sussurra. Virem um ao outro do avesso. Não tenho dúvida de que um rei ninfoide não teria problemas em afogar Maven aqui mesmo.
Orrec mostra os dentes.
— Você não sabe nada sobre meu país.
— Sei que a Guarda Escarlate começou na sua casa, não na minha — Maven cospe de volta. Com a mão livre, ele gesticula, ordenando aos sentinelas que descansem. Tolo, soberbo. Espero que isso o mate. — Não aja como se estivesse me fazendo um favor. Vocês precisam disso tanto quanto nós.
— Então eu quero sua palavra, Maven Calore.
— Você a tem…
— Sua palavra e sua mão. O vínculo mais forte de todos.
Ah.
Meus olhos voam de Maven, preso em um aperto de mão com o rei de Lakeland, para Evangeline. Ela continua sentada, como se estivesse congelada, olhando para o chão de mármore e nada mais. Eu esperava que levantasse e gritasse, que explodisse este lugar em estilhaços. Mas nem se mexe. Até Ptolemus, o irmão que sempre a segue, fica firme onde está. E o pai com as roupas pretas da Casa Samos está pensativo como sempre. Não há nenhuma mudança nele que eu possa perceber. Nenhuma indicação de que Evangeline está prestes a perder a posição que lutou tanto para conquistar.
Do outro lado do pavilhão, a princesa de Lakeland parece feita de pedra. Ela nem mesmo pisca. Sabia que isso ia acontecer.
Um dia, quando o antigo rei disse que Maven teria que se casar comigo, ele demonstrou surpresa. Vociferou e discutiu. Fingiu não saber o que aquilo significava. Como eu, já usou milhares de máscaras e desempenhou milhões de papéis diferentes. Hoje assume o papel de rei, e reis nunca se surpreendem. Se está chocado, não demonstra. Não ouço nada além de firmeza em sua voz.
— Seria uma honra chamá-lo de pai — Maven diz.
Finalmente, Orrec solta sua mão.
— E seria uma honra chamá-lo de filho.
Nenhum dos dois poderia ser mais falso.
À minha direita, a cadeira de alguém se arrasta pelo mármore, seguida depressa por mais duas. Em um alvoroço preto e metálico, a Casa Samos deixa o pavilhão.
Evangeline leva seu pai e seu irmão, sem olhar para trás, as mãos ao lado do corpo. Seus ombros caem e a postura meticulosamente reta parece menor de alguma forma.
Ela está aliviada.
Maven não a vê sair, totalmente concentrado na princesa de Lakeland, sua próxima tarefa.
— Milady — ele diz, curvando-se na sua direção. Ela apenas inclina a cabeça, sem aliviar seu olhar de aço. — Sob o olhar da minha nobre corte, gostaria de pedir sua mão em casamento. — Já ouvi essas palavras antes. Do mesmo garoto. Ditas diante de uma multidão, cada uma delas soando como uma porta se fechando. — Prometo-me a você, Iris Cygnet, princesa de Lakeland. Aceita?
Iris é linda, mais graciosa que o pai. Não é uma bailarina, porém, mas uma caçadora. Ela levanta sobre as pernas longas, uma cascata de veludo macio cor de safira e curvas femininas. Vejo uma calça de couro entre as fendas de seu vestido. Gastas, marcadas nos joelhos. Ela não veio despreparada. Como tantos aqui, não usa luvas, apesar do frio. A mão que estende para Maven é âmbar, com dedos compridos, sem adornos. Seu olhar não vacila, mesmo quando uma névoa se forma no ar, rodopiando em volta de sua mão estendida. Gotículas de vapor se condensando brilham diante dos meus olhos, transformando-se em pedrinhas de água cristalina que refletem a luz ao se mover.
Suas primeiras palavras são em uma língua que não conheço. É o idioma de Lakeland. Dolorosamente belo, uma palavra fluindo até a próxima como uma música, como a água. Então, ela diz na língua de Norta:
— Coloco minha mão na sua e prometo minha vida a você — ela responde, depois de suas próprias tradições e dos costumes de seu reino. — Aceito, majestade.
Maven estende a mão para pegar a dela, o bracelete em seu pulso soltando centelhas com os movimentos. Uma corrente de fogo atinge o ar, serpenteando e rodopiando em volta de seus dedos unidos. Não a queima, embora passe perto. Iris não recua. Não pisca.
E assim uma guerra acaba.

26 comentários:

  1. Definitivamente não confio em Lakeland, assim como não confio em Norta. Bem feito Evangeline perdeu a coroa 2x se tivesse a 3ª podia pedir musica no Fantastico

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    1. Kkkk... e o maven ja ficou noivo 3 vezes!!!
      O que será que vai acontecer agora com a guarda escarlate???

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    2. Como assim 3 vezes?

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    3. pprt, tomara que essa vaca morra logo, ja fez muita merda, mas que ta maneiro ta!

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    4. 1: Mare
      2: Evangeline
      3: Iris

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  2. gente...aiiinnn..não tem como, não consigo parar de amar o Maven...talvez eu tenha algum probleminha!!

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    1. Aaa colega...Eu tbm amo ele... ele é um fofo ❤.. Cal é muito indeciso...mt nhenhenhe... Maven ja tem mais atitudes...tomara q ele fique cm a Mare...ainda shippo ...hehee

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    2. problema nada,impossivel não gostar dele,shipo muito ele com a mare,que ora mim sempre sera mareena!!! imagina os filhos poderosos dos dois.

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  3. Sim vocês tem problema.
    Esqueceram que ele matou a pobre Nancy?

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    1. E o pai, quase a Mare 2x e mandou 5 mil crianças para a linha de frente de uma guerra. Não sei como conseguem amar tanto ele, e tem umas que ainda compara a maldade dele com a de Cal (que na minha opinião, é aniquilada quando comparada com a do Maven). Mas tem gosto pra tudo, né?
      #TeamCal ❤

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  4. AAA...Por favor né Maven,falta mais o que acontecer neste livro, obrigar a Mare a se casar com você de novo??? (Pelo menos a Evangeline tomou no c* e Ptolemus também)

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  5. Desconfiei dessa princesa. Nobre, estilo de caçadora e a guarda escarlate começou em Lakeland, não seria ela do comando?

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  6. Evangelina tomou na b****. Maven é um traira e ainda por cima é mentiroso não confio nele, enquanto Cal é fiel e honesto. #Mare&Cal#

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  7. Maven noivo dnv, eita. Evangeline não gostou muito disso kkkkk

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    1. Perdeu a chance de ser rainha 2x kkkkk

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  8. O gente! Porquê eu não consigo odiar o Maven? Ele me lembra aquela cena de game of thrones quando o Ned Stark morre ;-( eu amo/detesto o Maven como amo/detesto essa cena!

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  9. Fiquei com ciúmes agora , o Mavem vai quebrar a cara com esse contrato

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  10. Maven vai perder feio para o rei de Lakeland pois a guarda vermelha surgiu la e ninguém conhece o comando isso me cheira a treta

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Boa leitura :)