13 de março de 2017

Capítulo dezesseis

TENTO NÃO PENSAR NO ROSTO DOS MORTOS. Passar o tempo todo correndo para sobreviver é uma distração eficaz, mas mesmo a ameaça constante de aniquilação não é capaz de bloquear tudo. Algumas perdas são impossíveis de esquecer.
Walsh, Tristan e agora Wolliver ocupam os cantos da minha mente, tão traiçoeiros quanto teias de aranha, fundas e cinzentas. A minha existência foi a sentença de morte deles.
E, claro, há aqueles que matei diretamente, por escolha própria, com minhas próprias mãos. Mas esses não lamento. Não posso pensar no que fiz, não agora. Não quando ainda corremos tanto perigo.
Cal é o primeiro a dar as costas para o corpo bamboleante de Wolliver. Ele já tem seu próprio desfile de rostos, não quer acrescentar outro fantasma à marcha.
— Temos que seguir em frente.
— Não... — Farley se apoia na parede. Aperta a mão contra a boca, soluçando enojada, tentando não vomitar mais uma vez.
— Calma — Shade diz, tocando o ombro dela para acalmá-la. Ela tenta afastá-lo, mas meu irmão fica firme, observando-a cuspir nas flores do jardim. — Vocês tinham que ver isso — acrescenta, lançando um olhar fulminante para Cal e para mim. — É isso que acontece quando falhamos.
Sua raiva é justificável. Afinal, deflagramos uma luta incendiária no coração de Harbor Bay e desperdiçamos a última hora de vida de Wolliver, mas estou cansada demais para levar uma bronca.
— Aqui não é lugar para lições de moral — replico. Estamos num túmulo, e até falar parece errado. — Devíamos tirá-lo de lá.
Antes que eu consiga dar o primeiro passo na direção do cadáver de Wolliver, Cal engancha o braço no meu, me puxando para a direção oposta.
— Ninguém toca no corpo — rosna. Sua voz se parece tanto com a de seu pai que fico chocada.
— O corpo tem nome! — insisto, quando me recomponho. — O fato de o sangue dele não ter a mesma cor do seu não quer dizer que podemos deixá-lo assim!
— Eu vou lá — Farley murmura, esticando os joelhos.
Shade a acompanha.
— Eu ajudo.
— Parem! Wolliver Galt tinha família, não tinha? — Cal insiste. — Onde está?
Ele estende a outra mão para o jardim, indicando as casas vazias e as janelas fechadas à nossa volta. Apesar dos ecos distantes de uma cidade marchando para o anoitecer, a praça está calma e silenciosa.
— Com certeza a mãe dele não o deixaria aqui sozinho, né? — continua. — Ninguém veio lamentar? Nenhum guarda veio cutucar seu corpo? Nem mesmo um corvo veio bicar o cadáver? Por quê?
Eu sei a resposta.
É uma armadilha.
Aperto o braço de Cal até minhas unhas se cravarem na carne quente dele, prestes a explodir em fogo. Um horror semelhante ao meu escapa pelo olhar dele quando ele encara o beco sombrio. Pelo canto do olho, vislumbro uma coroa: aquela que um garoto idiota insiste em usar para ir a qualquer lugar.
E então ouço um clique, um som seco e curto, como um inseto metálico mexendo as patas, pronto para devorar uma refeição suculenta.
— Shade... — balbucio, com a mão esticada para o meu irmão capaz de se teletransportar. Ele vai nos salvar.
Vai nos levar para longe de tudo isso.
Ele não hesita. Se joga na minha direção.
Mas não chega até mim.
Observo, horrorizada, dois lépidos agarrando-o pelos braços e arremessando-o com tudo no chão. Meu irmão bate a cabeça contra a pedra e revira os olhos, inconsciente. Ao longe, escuto Farley gritar conforme os lépidos a arrastam para longe a toda velocidade. Já estão quase passando pelo arco principal da praça quando solto uma rajada elétrica na direção deles e os forço a dar meia-volta. Sinto pontadas de dor no braço, de cima a baixo, como facas brancas de calor. Mas não há nada além das minhas próprias faíscas, e elas não deveriam machucar.
Os cliques continuam, ecoando na minha cabeça, cada vez mais rápidos. Tento ignorar, tento lutar, mas minha vista escurece, manchada, focando e desfocando a cada pontada. O que é isso? Seja lá o que for, está me despedaçando.
Em meio à neblina, vejo duas fogueiras explodirem ao meu redor. Uma, brilhante e ardente; outra, escura, uma serpente de fumaça e fogo. Em algum lugar, Cal está urrando de dor. Corra, acho que é o que diz. E com certeza tento.
Acabo me arrastando pelo pavimento, incapaz de ver mais que alguns centímetros à frente. Mas até isso é difícil. O que é isso? O que é isso? O que está acontecendo comigo?
Alguém me pega pelo braço com uma força penetrante. Meus dedos tentam arranhar a armadura lisa e ricamente gravada.
— Peguei ela — diz uma voz que reconheço.
Ptolemus Samos. Mal consigo ver o rosto dele. Olhos pretos, cabelos prateados, pele da cor da lua.
Com um grito, junto toda a força que consigo e jogo um relâmpago contra ele. Berro tão alto quanto ele, que agarra meu braço enquanto um fogo me inunda as entranhas. Não, não é fogo. Sei como é ser queimada.
Isso é outra coisa.
Um chute acerta meu estômago e me deixo rolar, rolar e rolar, até dar de cara com a terra do jardim, com o rosto arranhado e ensanguentado. O frescor das plantas é um bálsamo momentâneo, e me tranquiliza o bastante para que eu possa voltar a enxergar. Mas, quando abro os olhos, não desejo mais nada senão ficar cega.
Maven está agachado diante de mim, com a cabeça inclinada para o lado feito um cachorrinho curioso com um brinquedo. Atrás dele, a batalha explode, desigual.
Com Shade incapacitado e eu no chão, só Cal e Farley permanecem de pé. Ela está armada agora, mas Ptolemus desvia de todas as balas. Cal derrete qualquer coisa que tente se aproximar, incinerando facas e trepadeiras o mais rápido que pode. Mas não vai durar muito. Estão encurralados.
Quase grito. Escapamos de um problema para encontrar outro.
— Olhe para mim, por favor.
Maven muda de posição, bloqueando a visão da briga mais à frente. Mas não vou lhe dar essa satisfação. Não vou encará-lo, pelo meu bem. Em vez disso, me concentro no clique, nesse som que ninguém mais parece ouvir. As pontadas me atingem a cada segundo.
Maven pega meu queixo e o puxa para cima, me obrigando a olhar para ele.
— Tão teimosa... — Finge lamentar. — Uma das suas características mais intrigantes. Junto com esta — acrescenta, passando o dedo pelo sangue vermelho na minha bochecha.
Clique.
Ele aperta mais forte, provocando uma explosão de dor na minha mandíbula. O clique faz tudo doer, mais e mais e mais. Relutante, encontro os conhecidos olhos azuis no rosto anguloso. Para o meu horror, ele continua igual à lembrança que tenho: o garoto calado, despretensioso, assustado. Não é o Maven dos meus pesadelos, um fantasma de sangue e sombras. É real.
Reconheço a determinação em seus olhos. Eu a vi no convés do navio de seu pai quando velejamos rio abaixo rumo a Archeon, deixando o mundo atrás de nós. Ele me beijou e prometeu que ninguém me machucaria.
— Eu disse que ia encontrar você.
Clique.
As mãos dele passam do meu queixo para a minha garganta e começam a se fechar. O suficiente para impedir minha fala, mas não a respiração. Seu toque queima.
Suspiro, incapaz de puxar ar suficiente para gritar.
Maven. Está me machucando. Pare.
Ele não é a mãe. Não consegue ler meus pensamentos. Minha visão fica turva novamente, escurecendo. Pontinhos escuros nadam diante os meus olhos, expandindo-se e se contraindo a cada clique maldito.
— E eu disse que ia salvar você.
Espero que ele me aperte ainda mais, mas não. A força permanece constante. Sua outra mão desce até minha clavícula, e a palma ardente pressiona minha pele. Ele está me queimando, me marcando como gado. Tento gritar de novo, mas mal consigo soltar um ganido.
— Sou um homem de palavra — ele diz, com a cabeça inclinada novamente. — Quando quero.
Clique. Clique. Clique.
Meu coração tenta seguir o ritmo do clique, batendo frenético, ameaçando explodir se continuar assim.
— Pare... — consigo soltar, com uma mão no ar, desejando meu irmão por perto.
Em vez de Shade, Maven toma a minha mão e a queima também. Cada milímetro do meu corpo arde.
— Basta. — Acho que o ouvi dizer, mas não para mim. — Eu disse basta!
Seus olhos parecem sangrar. São os últimos pontos brilhantes no mundo que escurece à minha volta. Azul-claros, cortando minha visão, desenhando linhas retorcidas de gelo doloroso. Me cercando. Não sinto nada além da queimação.
Essa é a última coisa que lembro antes de um lampejo de luz branca, acompanhada de um estrondo, partir meu cérebro. E meu mundo inteiro virar dor.
A sensação é esmagadora, mas ao mesmo tempo não vem nada. Nada de balas, nada de facas, nada de punhos de fogo ou trepadeiras sufocantes. Esta não é uma arma que eu já tenha enfrentado antes — porque é a minha própria arma. Relâmpago, eletricidade, faísca, uma sobrecarga além dos meus próprios limites. Já invoquei uma tempestade antes, no Ossário, e aquilo me exauriu.
Mas o que está acontecendo agora, seja lá o que Maven está fazendo, está me matando. Está me despedaçando, nervo por nervo, quebrando meus ossos e arrancando meus músculos. Estou mais que destruída debaixo da minha própria pele.
De repente, me dou conta: Foi isso que sentiram? Aqueles que matei? É esta a sensação de morrer eletrocutado?
Controle. Foi o que Julian sempre me disse. Controle.
Mas isso é demais. Sou como uma represa tentando conter um oceano inteiro. Mesmo que pudesse parar essa coisa, seja o que for, não encontraria um meio de superar essa dor explosiva. Não consigo estender o braço, não consigo me mexer.
Estou presa dentro de mim, gritando com os dentes cerrados. Logo estarei morta. Pelo menos isso vai acabar. Mas não acaba. A dor se estende num ataque constante a cada um dos meus sentidos. Ela pulsa, mas nunca diminui. Muda, mas não para. Manchas brancas, mais brilhantes que o sol, dançam na minha frente até uma explosão de vermelho esmagá-las. Tento piscar para afastá-las, para controlar alguma coisa em mim, mas nada parece acontecer. E, se acontecesse, eu não perceberia.
Minha pele já não deve existir mais, carbonizada pelos raios potentes. Talvez eu receba o presente de sangrar até a morte. Seria mais rápido que esse abismo branco.
Me mate. As palavras se repetem, uma e outra vez. É a única coisa que consigo dizer, a única coisa que quero agora. Todos os pensamentos sobre os sanguenovos e Maven e meu irmão e Cal e Kilorn evaporam. Mesmo os rostos que me assombram, os rostos dos mortos, desaparecem.
Queria que voltassem.
Queria não precisar morrer sozinha.

11 comentários:

  1. Que capítulo rápido :O

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  2. UOUUUU QUE DRAMÁTICOOOO, TENSO..PARTIU PROX CAPITULO

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  3. Mare!...vc deveria ter esperado o Shade e ter saido logo dai como o Cal disse sua doida.
    Tati

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  4. WOW, O QUE ACABOU DE ACONTECER?!
    Partiu próximo capítulo. Tá tenso o negócio. ~polly~

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  5. Essa mare tem que aprender a escutar as pessoas. 😓

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  6. Tô chorandoooooo !!!!
    Ass: Déborah Alana

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  7. Por mais que eu queira eu simplesmente NÃO CONSIGO odiar Maven

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  8. Por mais que eu queira eu simplesmente NÃO CONSIGO odiar Maven

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Boa leitura :)