3 de março de 2017

Capítulo dezesseis

DEPOIS DE TANTO TEMPO CONTANDO OS MINUTOS até a meia-noite, entro em desespero. É claro que Farley não pode chegar até aqui. Nem mesmo ela é tão talentosa. Mas esta noite, quando os ponteiros se juntam no número doze, não sinto nada pela primeira vez desde a Prova Real. Nada de câmeras. Nada de eletricidade. Nada. A mais completa queda de energia. Já passei por blecautes antes, tantos que nem posso contar. Mas esse não é acidental. É para mim.
Ligeira, calço as botas — já gastas por semanas de uso — e caminho para a porta. Mal ponho o pé no corredor e Walsh já está ao meu lado. Suas palavras soam rápidas e calmas enquanto ela me conduz através da escuridão proposital.
— Não temos muito tempo — murmura, me dirigindo à escada de serviço.
Está escuro como breu, mas ela sabe aonde vamos e confio nela para chegarmos lá.
— Com sorte, vão levar quinze minutos para religar a força — avisa.
— E se não tivermos sorte? — cochicho na escuridão.
Walsh continua a me puxar escada abaixo até darmos com uma porta, que ela abre com o ombro.
— Nesse caso, espero que você não esteja apegada demais à sua cabeça.
Primeiro vem o cheiro de terra, de pó e água, despertando todas as minhas lembranças de vida no bosque. Mas, ainda que pareça uma floresta, com árvores antigas e retorcidas e diversas plantas tingidas de preto e azul pela lua, estamos recobertos por um teto de vidro. A estufa. Sombras deformadas agitam-se no chão, uma pior que a outra. Imagino sentinelas e seguranças em cada canto escuro, à espera para nos capturar e matar, como fizeram com meu irmão. Mas, em vez dos horríveis uniformes pretos ou flamejantes, não há nada aqui além de flores que crescem sob o céu de vidro e as estrelas.
— Perdão por não me curvar — surge uma voz oculta por um canteiro de magnólias brancas.
Os olhos azuis refletem a lua e ardem na escuridão como um fogo frio. Farley sabe bem como teatralizar as situações.
Como no vídeo, ela usa um cachecol vermelho em volta do rosto para esconder seus traços. Mas a peça não esconde a feia cicatriz que desce pelo seu pescoço até desaparecer sob a gola da camisa. Parece recente, mal começou a sarar. Ela esteve ocupada desde a última vez que a vi. E eu também.
— Farley — digo, saudando-a com um aceno da cabeça.
Ela não retribui o gesto. Não esperava que o fizesse. Nosso encontro é exclusivamente de negócios.
— E o outro? — ela sussurra.
Outro?
— Holland está com ele. Devem chegar a qualquer momento — Walsh murmura, quase sem ar por conta da ansiedade com a chegada de quem estavam esperando.
Mesmo os olhos de Farley brilham.
— Como assim? Quem mais se juntou? — pergunto.
Em vez de responderem, as duas trocam olhares. Um punhado de nomes me vem à cabeça, criadas e criados que apoiariam a causa.
Mas a pessoa a se juntar a nós está longe de ser da criadagem. Sequer é vermelho.
— Maven.
Não sei se grito ou corro quando vejo meu noivo emergir das sombras. Ele é um príncipe, um prateado, um inimigo e, contudo, aqui está, ao lado de uma das líderes da Guarda Escarlate. Seu acompanhante, Holland, um criado vermelho com anos de serviço à família real, parece inflar de orgulho.
— Disse que você não estava só, Mare — diz Maven, sem sorrir.
Suas mãos tremem: ele está uma pilha de nervos. Farley o assusta.
E compreendo o motivo. Ela dá um passo em nossa direção. Carrega uma pistola, mas parece tão nervosa quanto ele. Ainda assim, sua voz não vacila.
— Quero ouvir dos seus lábios, pequeno príncipe. Diga-me o que disse a ele — ordena, balançando a cabeça na direção de Holland.
Maven torce o nariz ao apelido de “pequeno príncipe”. Seus lábios se contorcem de desgosto, mas ele não a repreende.
— Quero me juntar à Guarda — afirma, cheio de convicção.
Com um movimento rápido, Farley engatilha a arma e mira ao mesmo tempo. Meu coração quase para quando ela força o cano contra a testa de Maven. O príncipe, porém, não recua.
— Por quê? — ela silva.
— Porque está tudo errado. O que meu pai faz, o que meu irmão vai fazer, é errado.
Mesmo com uma arma na cabeça ele é capaz de falar com calma, mas um fio de suor escorre pelo seu pescoço. Farley não se afasta, à espera de uma resposta melhor. Confesso que até eu espero o mesmo.
Seu olhar se desloca para mim, e ele engole em seco.
— Aos doze anos, meu pai me enviou para a frente de batalha, para me tornar mais rijo, mais parecido com meu irmão. Como vocês veem, Cal é perfeito. Por que eu não poderia ser igual?
As palavras me causam um aperto no coração. Reconheço a dor nelas. Vivi à sombra de Gisa, e ele à sombra de Cal. Sei como é essa vida.
Farley funga. Quase ri na cara dele.
— Moleques invejosos não têm serventia para mim.
— Quem dera eu estivesse aqui por inveja — murmura Maven. — Passei três anos nos quartéis, acompanhando Cal, oficiais e generais, vendo soldados lutar e morrer numa guerra em que ninguém acredita. Onde Cal enxergava honra e lealdade, eu enxergava burrice. Desperdício. Sangue dos dois lados da linha de batalha, e muito mais do seu povo.
Lembro dos livros no quarto de Cal: táticas e manobras dispostas como num jogo. A recordação me faz tremer, mas o que Maven diz em seguida faz meu sangue gelar nas veias.
— Havia um menino, de apenas dezessete anos. Um vermelho das terras congeladas do norte. Ao contrário dos outros, ele não me reconheceu de imediato. Mesmo assim, me tratou bem. Me tratou como uma pessoa. Acho que foi meu primeiro amigo de verdade.
Não sei se é uma ilusão provocada pela luz da lua, mas lágrimas parecem brilhar nos olhos do príncipe, que continua:
— Seu nome era Thomas, e eu o vi morrer. Poderia tê-lo salvado, mas meus guardas me seguraram. Sua vida não valia como a minha, disseram.
As lágrimas então se desfazem para dar lugar a punhos cerrados e uma vontade de ferro.
— Cal diz que é questão de equilíbrio os prateados dominarem os vermelhos. Ele é uma boa pessoa e será um governante justo, mas não acha que a mudança valha o risco. O que quero dizer é que não sou como os outros. Acho que minha vida vale a de vocês, e a entregaria feliz se isso significar mudança.
Ele é um príncipe e, pior de tudo, é filho da rainha. Talvez o que ele tanto esconde seja isto... seu próprio coração.
Embora Maven faça o máximo para parecer ameaçador, para se manter ereto e evitar que seus lábios tremam, consigo ver o menino por trás da máscara. Parte de mim quer lhe dar um abraço, confortá-lo, mas Farley não deixaria. Quando ela baixa a arma, sem pressa, mas com firmeza, solto o ar que nem sabia que estava segurando.
— O garoto fala a verdade — diz o criado Holland.
Ele dá um passo à frente e fica ao lado de Maven, num estranho ato de proteção.
— Há meses ele se sente assim, desde que voltou da guerra — arremata.
— E você contou sobre nós após algumas noites chorosas? — desdenha Farley, lançando um olhar medonho sobre Holland.
Mas o homem aguenta firme.
— Conheço o príncipe desde a infância. Qualquer pessoa próxima vê que ele mudou — Holland explica. Depois, observa Maven com o canto dos olhos, como que lembrando o menino que já foi, e continua: — Pense que aliado pode ser. A diferença que faria.
Maven é diferente. Sei isso em primeira mão, mas algo me diz que minhas palavras não vão amolecer Farley. Apenas Maven é capaz de fazer isso.
— Jure por suas cores — ela urra.
Segundo Lady Blonos, é um juramento antigo. É como jurar pela própria vida, pela família e pelos futuros filhos, tudo de uma vez. E Maven não hesita.
— Pelas minhas cores — diz, baixando a cabeça —, juro fidelidade à Guarda Escarlate.
Soa como um voto de matrimônio, mas muito mais importante e mortal.
— Bem-vindo à Guarda Escarlate — finalmente diz Farley, tirando o cachecol.
Dou alguns passos silenciosos pelo piso de cerâmica até sentir a mão de Maven na minha. Seu calor já me é familiar.
— Obrigada, Maven — sussurro. — Não sabe o que isso significa para nós. — Para mim, penso.
Qualquer outro se alegraria com a perspectiva de recrutar um prateado, um prateado da realeza. Farley, porém, praticamente não esboça reação.
— O que você pode nos oferecer?
— Informação, inteligência, o que vocês precisarem para continuar com suas operações. Participo do conselho sobre impostos com meu pai...
— Não queremos saber de impostos — dispara Farley, me encarando com ódio, como se fosse culpa minha seu desgosto com o que Maven tem a oferecer. — Precisamos de nomes, locais, alvos. O que acertar e quando causar mais prejuízo. Você consegue isso?
Maven estremece, desconfortável.
— Prefiro uma abordagem menos hostil — fala baixo. — Seus métodos violentos não estão rendendo muitos amigos para vocês.
Farley bufa de raiva e o som ecoa pela estufa.
— Seu povo é mil vezes mais violento e cruel que o meu. Passamos os últimos séculos sob a bota dos prateados e não vamos sair sendo legais.
— Entendo — Maven balbucia.
Dá para ver que pensa em Thomas, em todos que viu morrer. Seus ombros roçam os meus quando ele dá um passo para trás buscando proteção em mim. Farley não deixa o gesto passar batido e quase cai na gargalhada.
— O pequeno príncipe e a menininha elétrica — ela ri. — Vocês se merecem. Um é covarde, a outra...
Antes de prosseguir ela me encara com seus olhos azuis e ardentes.
— Da última vez que vi você, estava cavando lama à procura de um milagre.
— Pois encontrei — afirmo. E, para provar, deixo a eletricidade fluir até a minha mão e projetar uma luz arroxeada sobre nós.
O cenário escuro se agita e membros da Guarda Escarlate surgem em posição de ataque por trás das árvores e arbustos. Seus rostos estão cobertos por cachecóis e bandanas, mas nem tudo está escondido. O sujeito mais alto deve ser Tristan, com seus braços longos. Percebo pelo modo como os vermelhos se posicionam — tensos e prontos para a ação — que estão com medo. Mas o rosto de Farley permanece igual. Ela sabe que aquela gente que veio para defendê-la não tem muita chance contra Maven ou mesmo contra mim. Contudo, não parece nem um pouco intimidada. Para minha grande surpresa, ela finalmente sorri com sua boca assustadora, voraz e cheia de dentes.
— Podemos bombardear e queimar cada centímetro deste país — ela murmura, nos encarando cheia de orgulho. — Mas isso jamais faria o estrago de que vocês são capazes. Um príncipe prateado contra a coroa, uma vermelha com poderes. O que as pessoas dirão quando virem vocês ao nosso lado?
— Pensei que você quisesse... — Maven começa, mas Farley o faz ficar quieto com um gesto.
— Os atentados são apenas um modo de chamar a atenção. Assim que a tivermos, assim que cada prateado deste país desgraçado vir, vamos precisar de algo para mostrar.
Ela baixa a vista como se fizesse cálculos, comparando-nos com seja lá o que tem em mente.
— Acho que vocês dois vão servir muito bem — conclui.
— Como o quê? — pergunto com a voz trêmula, já lamentando o que ela possa responder.
— Como o rosto para nossa gloriosa revolução — ela diz, orgulhosa, levantando novamente o olhar. Seus cabelos dourados brilham ao luar. Por um segundo, Farley parece usar uma coroa cintilante. — A gota d’água para transbordar o copo.
Maven concorda fervorosamente.
— Por onde começamos?
— Bom, acho que já é hora de tirar algo do saco de maldades de Mare.
— O que isso quer dizer? — pergunto, completamente por fora.
Maven, porém, capta facilmente a linha de raciocínio.
— Meu pai tem acobertado os outros ataques da Guarda — explica ele em voz baixa.
Logo me vem à cabeça a coronel Macanthos e seu desabafo no almoço.
— A base aérea, Delphie, Harbor Bay.
Maven confirma.
— Ele diz que foram acidentes, exercícios militares, mentiras. Mas quando você literalmente eletrizou a Prova Real, nem minha mãe foi capaz de arrumar um discurso para abafar o caso. Precisamos de algo assim, algo que ninguém possa ocultar. Para mostrar ao mundo que a Guarda Escarlate é muito perigosa e muito real.
— Mas isso não vai ter consequências? — questiono, com o pensamento no tumulto, nos inocentes torturados e mortos por aquela horda de prateados descontrolados. — Os prateados vão se voltar contra nós e as coisas vão piorar.
Farley vira para o lado, não aguenta me encarar.
— E mais gente vai se juntar a nós — diz. — Mais gente vai perceber que levamos uma vida errada e que podemos fazer alguma coisa para mudar. Passamos tempo demais quietos. É tempo de fazer sacrifícios e seguir adiante.
— Meu irmão foi um dos seus sacrifícios? — disparo, sentindo o ódio acender dentro de mim. — A morte dele valeu a pena para você?
Para seu mérito, Farley não tenta mentir.
— Shade sabia no que estava se metendo.
— E o resto das pessoas? E as crianças, os velhos e quem mais não se alistou na sua “revolução gloriosa”? O que acontece quando os sentinelas começarem a prender e castigar essas pessoas por não encontrarem vocês?
A voz de Maven se levanta, terna e suave.
— Pense na história, Mare. O que Julian lhe ensinou?
Ensinou sobre mortes, sobre o mundo de antes, sobre as guerras. Mas, além disso, num tempo em que as coisas ainda podiam mudar, houve revoluções. O povo se ergueu, os impérios caíram e as coisas mudaram. A liberdade avançou na base de subidas e descidas de acordo com a maré do tempo.
— A revolução precisa de uma faísca para começar — sussurro, repetindo o que Julian diria nas aulas. Até faíscas queimam.
Farley sorri e comenta:
— Você devia saber disso melhor que ninguém.
Mas ainda não estou convencida. A dor de perder Shade, de saber que meus pais perderam um filho, só vai se multiplicar se fizermos isso. Quantos outros Shades morrerão?
Estranhamente, é Maven, não Farley, que tenta me seduzir para a causa.
— Cal acredita que a mudança não vale o custo — diz, com a voz trêmula de nervosismo e convicção. — E um dia será rei. Você vai deixar que esse seja o futuro?
Pela primeira vez minha resposta sai fácil.
— Não.
Farley assente satisfeita e começa:
— Walsh e Holland — diz os encarando — me falaram de uma festinha que vai acontecer aqui.
— O baile — confirma Maven.
— É um alvo impossível — intervenho. — Todos terão seus guardas, a rainha vai saber que algo vai mal...
— Não vai — Maven me corta com um ar de desdém. — Minha mãe não é onipotente, apesar de querer que acreditem no contrário. Mesmo ela possui limites.
Limites? A rainha? A ideia me faz entrar em parafuso.
— Como você diz isso? Você sabe do que ela é capaz...
— Sei que no meio de um baile, com tantas vozes e pensamentos girando ao seu redor, ela será inútil. E, desde que fiquemos longe, não dermos motivo de desconfiança, ela não vai saber de nada. O mesmo vale para os observadores da Casa Eagrie: não imaginam que haverá problemas, logo não os enxergarão.
Maven então se volta para Farley ereto como uma lança e conclui:
— Os prateados são poderosos, mas não são invencíveis. É possível.
Farley concorda tranquila, arreganhando um sorriso.
— Volto a entrar em contato quando as coisas começarem a fluir.
— Posso pedir um favor em troca? — pergunto de última hora agarrando-a pelo braço. — Meu amigo, aquele de que falei quando nos encontramos da primeira vez, quer se juntar à Guarda. Você não pode permitir. Garanta que ele não vai se meter com nada disso.
Delicadamente, ela tira meus dedos do seu braço. Uma nuvem de arrependimento paira em seus olhos.
— Espero que você não esteja se referindo a mim.
Para meu horror, um dos guerrilheiros das sombras dá um passo à frente. O pano vermelho em volta do seu rosto não esconde o par de ombros largos nem a camisa esfarrapada que já vi mil vezes. Mas o olhar de aço e a determinação de um homem feito são inéditos para mim.
Kilorn parece anos mais velho. Guarda Escarlate até os ossos, pronto para lutar e morrer pela causa. Vermelho como a aurora.
— Não... — balbucio ao me afastar de Farley.
Kilorn corre a toda velocidade ao meu encontro.
— Você sabe o que aconteceu com Shade — argumento. — Não entre nisso.
Ele arranca o pano vermelho e se aproxima para me abraçar, mas recuo. Tocá-lo seria uma traição.
— Mare — ele diz —, você não precisa tentar me salvar o tempo todo.
— Mas é o que vou fazer enquanto você não quiser se salvar.
Como ele é capaz de desejar não ser nada além de um escudo humano? Como pode querer isso? Ao longe, algo me faz vibrar por dentro, cada vez mais intenso. Mal noto, porém. Estou mais concentrada em não derramar lágrimas diante de Farley, dos membros da Guarda e de Maven.
— Kilorn, por favor.
Minhas palavras o deixam mais grave, como se fossem mais um insulto do que a súplica.
— Você fez sua escolha. Eu fiz a minha.
— Fiz a escolha por você, para proteger você — emendo.
É impressionante a facilidade com que voltamos ao nosso velho ritmo de troca de farpas. Mas há tanto mais em jogo agora. Não posso simplesmente atirar Kilorn na lama e sair andando.
— Tive que negociar por você.
— Você fez o que acha que vai me proteger, Mare — ele murmura numa voz que parece um rugido baixo. — Então me deixe fazer o que posso para salvar você.
Fecho os olhos e deixo meu coração dolorido assumir o controle. Protejo Kilorn desde a morte de sua mãe, desde que quase morreu de fome na porta de casa. E agora não quer mais meu cuidado, não importa quão perigoso tenha se tornado o futuro.
Devagar, reabro os olhos.
— Faça o que quiser, Kilorn — minha voz sai fria e mecânica. — A energia vai voltar. Temos que sair — aviso.
Sem hesitar, os membros da Guarda Escarlate desaparecem na estufa. Walsh me toma pelo braço. Kilorn também se afasta e segue os outros pelas sombras, mas seu olhar permanece sobre mim.
— Mare — ele chama —, pelo menos me diga adeus.
Mas já estou caminhando ao lado de Maven. Walsh nos guia. Não vou olhar para trás, não depois de ele ter traído tudo o que fiz por ele.


O tempo passa devagar quando esperamos alguma coisa boa. Então é natural que os dias passem voando à medida que o maldito baile se aproxima. Uma semana corre sem qualquer notícia, enquanto Maven e eu permanecemos no escuro conforme o tempo avança. Mais treinamento, mais protocolo, mais almoços sem sentido que quase me fazem chorar. Sempre preciso mentir, louvar os prateados e desprezar meu povo. Só a Guarda me mantém forte.
Lady Blonos me dá uma bronca durante a aula de protocolo. Diz que estou distraída. Não tenho coragem de falar que, distraída ou não, jamais conseguirei aprender os passos de dança que ela tenta ensinar para o Baile de Despedida. Enquanto isso, o antes lamentado treinamento se torna um escape para minha raiva e o estresse, uma chance de eletrizar coisas ou correr até esgotar tudo o que guardo no peito.
Contudo, quando finalmente começo a pegar o jeito da coisa, o estilo do treino muda drasticamente. Evangeline e sua trupe param de me marcar. Em vez disso, passam a se dedicar intensamente ao aquecimento. Até Maven faz alongamento com mais cuidado, como se quisesse se preparar para algo.
— O que houve? — pergunto apontando para o resto da turma. Meu olhar se detém em Cal que, no momento, faz uma série de flexões de braço perfeitas.
— Você vai descobrir num minuto — responde meu noivo com um tom estranho e seco na voz. Arven e Provos chegam, e mesmo eles caminham de um jeito diferente. Em vez de nos mandar correr, Arven se aproxima de nós.
— Tirana — murmura o instrutor.
Uma garota com faixas azuis no macacão — ninfoide da Casa Osanos — endireita a postura. Em seguida, caminha até o centro do salão à espera de algo. Parece ao mesmo tempo empolgada e assustada.
Arven vira para trás e corre os olhos pela turma. Por um segundo, seus olhos pousam sobre mim, mas por sorte param em Maven.
— Príncipe Maven, por favor — pede, indicando o local onde Tirana espera.
Maven assente e ruma na direção da ninfoide. Ambos estão tensos, e suas mãos tremem enquanto esperam seja lá o que for.
De repente, o chão começa a se mover em torno deles. As paredes se afastam para dar lugar a um novo ambiente. De novo, Provos levanta os braços e usa seu poder para transformar o salão de treinamento. Quando a estrutura começa a tomar forma, meu coração dispara. Sei exatamente do que se trata.
Uma arena.
Cal assume o posto de Maven ao meu lado, rápido e silencioso.
— Não vão se machucar — explica. — Arven para a luta antes que haja qualquer ferimento sério. E os curandeiros estão por perto.
— Que reconfortante — é o que consigo comentar.
No centro da arena quase completa, tanto Maven quanto Tirana se preparam para a luta. A pulseira de Maven faísca e fogo arde por mãos e braços. Enquanto isso, gotículas de umidade giram em torno de Tirana fantasmagoricamente. Ambos parecem prontos para o combate.
Meu desconforto deixa Cal alerta.
— Toda essa preocupação é por causa de Maven?
Não mesmo.
— As aulas de protocolo não estão lá muito fáceis agora. — Não é mentira, mas aprender a dançar está em último lugar na minha lista de problemas. — Parece que danço pior do que memorizo a etiqueta da corte.
Para minha surpresa, Cal cai na gargalhada.
— Você deve ser péssima.
— Bom, é difícil aprender sem parceiro — rebato com uma provocação.
— Realmente.
As últimas duas peças da arena se encaixam. Está completa. Maven e sua oponente estão ao centro, isolados do resto de nós por paredes de vidro espesso. Uma miniatura de arena de verdade. Da última vez que vi um duelo entre dois prateados, um deles quase morreu.
— De quem é a vantagem? — pergunta Arven para a classe. Todos os braços se levantam, exceto o meu. — Elane?
A garota ergue a cabeça e fala orgulhosa:
— Tirana tem vantagem. É mais velha, mais experiente — responde como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
As bochechas de Maven ficam brancas de vergonha, embora tente esconder. Elane finaliza:
— E a água vence o fogo.
— Muito bem — elogia Arven para em seguida lançar um olhar desafiador ao príncipe mais jovem, como que à espera de uma reação.
Maven, porém, segura a língua e deixa o fogo crescente falar por si.
— Impressionem-me — declara o instrutor.
Os combatentes colidem como nuvens de tempestade que cospem fogo e chuva num combate entre elementos. Tirana usa a água como escudo impenetrável aos ataques flamejantes de Maven. Sempre que ele se aproxima, desferindo golpes com seus punhos em chamas, volta sem nada além de vapor. A luta parece equilibrada, mas Maven parece estar um pouco à frente de Tirana. Ele está na ofensiva e a mantém contra a parede.
Toda a classe grita palavras de incentivo aos dois guerreiros. Eu costumava achar ridículas exibições como esta, mas confesso que agora é difícil me manter calada. Sempre que Maven ataca e fica perto de finalizar a luta, não consigo segurar e torço como os outros.
— É uma armadilha, Mavey — Cal murmura, mais para si do que para o irmão.
— O que é? O que ela vai fazer?
Cal apenas balança a cabeça e comenta:
— Apenas assista. Ela já ganhou.
Tirana, porém, parece tudo menos uma vencedora. Está espremida contra a parede, fazendo de tudo para manter seu escudo aquático e bloquear um soco atrás do outro.
Não deixo de ver o milésimo de segundo em que literalmente faz a maré virar contra Maven. Agarra-o pelo braço e puxa, de maneira que os dois trocam de posição num piscar de olhos: agora o príncipe é quem se defende, prensado entre água e parede. Só que não pode controlar a água que avança contra si. Nem as tentativas de transformá-la em vapor funcionam: água apenas ferve sobre sua pele em chamas.
Tirana recua e o vê sofrer com um sorriso no rosto.
— Desiste? — pergunta.
Maven solta bolhas pela boca. É sua resposta. Ele desiste.
A água sai de cima dele e volta ao ar como vapor ao som dos aplausos da turma. Um novo gesto de Provos faz uma das paredes da arena abrir. Tirana faz uma leve reverência com a cabeça enquanto Maven, encharcado e arrasado, caminha a passos arrastados para fora do círculo.
— Eu desafio Elane Haven — anuncia Sonya Iral em alto e bom som, rápida para evitar que o instrutor lhe arrume outro par.
Arven concorda e autoriza o desafio para, em seguida, se voltar para Elane. Para minha surpresa, a sombria sorri e caminha tranquilamente para a arena, com tanta leveza que seus cabelos ruivos esvoaçam.
— Aceito o desafio — responde Elane, assumindo seu posto no centro da arena. — Espero que tenha aprendido uns truques novos.
Sonya a segue com os olhos repletos de alegria. Chega até a rir.
— Acha que eu contaria se tivesse?
As duas chegam a rir juntas e trocar sorrisos até Elane Haven desaparecer completamente e agarrar a garganta de Sonya. Sufocando, a Iral respira com dificuldade até conseguir torcer o braço da garota invisível e escapar. A luta logo se transforma num jogo mortal e violento entre gata e rata invisível.
Maven não quer saber de assistir ao embate, irritado com o próprio desempenho.
— Sim? — diz a Cal, que logo inicia um sermão improvisado. Tenho a impressão de que é usual.
— Não encurrale alguém mais forte que você. Isso só deixa a pessoa mais perigosa — começa, pondo o braço em volta do ombro do irmão. — Se você não consegue vencer usando seu poder, vença usando sua cabeça.
— Vou levar isso em conta — murmura Maven, irritado com o conselho, mas aceitando assim mesmo.
— Por outro lado, você está melhorando — Cal fala baixo, dando uns tapinhas nas costas do irmão.
Dá para ver que suas intenções são boas, mas ele acaba soando meio paizão. Surpreendentemente, Maven não reclama com ele. Está acostumado, como eu estava acostumada com Gisa.
— Obrigada, Cal. Acho que ele entendeu — intervenho, falando por Maven.
O príncipe herdeiro não é burro e compreende a mensagem num piscar de olhos. Ele nos deixa para se juntar a Evangeline, não sem antes me lançar um olhar por cima do ombro. Seria melhor não ter ido, assim eu não precisaria ver aquela garota sorrir e fazer caras e bocas. Isso sem falar da dor de barriga que me vem cada vez que ele olha para ela.
Assim que Cal alcança uma distância segura, cutuco Maven com o ombro.
— Sabe, ele está certo... Você tem que ser mais esperto com gente assim.
Diante de nós, Sonya agarra o que parece ser um pedaço de ar e o joga contra a parede. Um líquido prateado jorra pelos ares, e Elane volta a ser visível. Uma torrente de sangue desce do seu nariz.
— Ele sempre está certo quando se trata da arena — Maven resmunga com uma estranha irritação. — Espere e verá.
Do outro lado da arena, Evangeline acha graça na exibição sanguinária. Não sei como consegue assistir às amigas sangrarem na arena.
Os prateados são diferentes, lembro a mim mesma. Suas cicatrizes não duram. Eles não guardam lembranças da dor.
Com curandeiros a postos, a violência tem um sentido diferente para eles. Coluna quebrada, estômago rompido, nada disso importa. Sempre alguém virá curá-los. Não sabem o significado do perigo, do medo e da dor. Só seu orgulho pode ser ferido.
Você é prateada. Você é Mareena Titanos. Você gosta disso.
Os olhos de Cal estão cravados nas garotas, estudando-as como um livro, ou melhor, como uma pintura, não como um conjunto ambulante de sangue e ossos. Sob o preto do seu traje de treinamento, os músculos tensos aguardam sua vez.
E, quando ela chega, entendo o que Maven quer dizer.
O instrutor Arven põe Cal para lutar contra duas pessoas: Oliver, o dobra-ventos, e Cyrine Macanthos, uma jovem que transforma sua pele em pedra. É uma luta só no nome. Apesar da inferioridade numérica, Cal faz ambos de gato e sapato. Derrota um de cada vez: primeiro prende Oliver num furacão de fogo, para depois partir pra cima de Cyrine. Os dois trocam socos. Cyrine parece uma estátua viva, feita de pedra maciça em vez de carne, mas Cal é mais forte. Seus murros racham a pele dela numa série de fendas. Para ele, é só mais um treino, parece até entediado. Para finalizar o combate, Cal produz uma explosão infernal na arena, tão ardente que até Maven recua. Quando o fogo e a fumaça se desfazem, tanto Oliver quanto Cyrine já desistiram. Ambos carregam queimaduras na pele e na carne, mas não gritam de dor.
Cal deixa os dois para trás. Nem se dá ao trabalho de ver a chegada dos curandeiros que vão cuidar deles. Ele me salvou, ele me trouxe para sua casa, quebrou regras por mim. E é um soldado inclemente, herdeiro do trono sangrento.
O sangue dele pode ser prateado, mas seu coração é negro como pele queimada.
Quando seus olhos procuram os meus, faço questão de virar o rosto. Em vez de me deixar enganar por sua ternura, por sua estranha bondade, me apego à lembrança do inferno. Cal é mais perigoso que todos os outros juntos. Não posso me esquecer disso.
Arven dá sequência aos combates e chama mais dois:
— Evangeline, Andros.
O incômodo de Andros é visível, desanimado com as perspectiva ao lutar com Evangeline e perder. Ainda assim, ele caminha obediente até a arena. Para minha surpresa, Evangeline sequer se mexe.
— Não — ela recusa sem medo, imóvel.
Arven volta o rosto para ela. Sua voz se ergue além do sussurro habitual, cortante como navalha:
— O que disse, Lady Samos?
Ela crava os olhos pretos em mim feito facas.
— Eu desafio Mareena Titanos.

24 comentários:

  1. Aii...MDS ...Acho q mare vai perder feio...!!👀

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    1. eu quero é que ela mate essa cobra da evangeline, mais acho que ela vai sangrar e todos vão vê seu sangue vermelho.

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    2. Aninha das kebradas1 de julho de 2017 08:04

      O cap acaba agr!
      Agr em que a coisa toda pega fogo!
      Poxa, que descepissão.

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  2. Acaba com ela Mare!
    Faça com que essa piranha tenha medo de vocÊ!
    ODEIO essa Evangeline :P
    ~polly~

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  3. É bom q a Mare deixe os cabelos dessa vagabunda em pé!
    ~Emy

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  4. Kkkkk mostra pra ela o que a geradora de eletricidade é capaz de fazer com esse projeto de transformer controladadora e mesquinha do Paraguai! Acaba com essa kenga! Kkkk Vaiiii Mare!!

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    1. Projeto de transformer kkkkk,vou aderir esse apelido nos meus chingamentos à vaca da Evangeline.

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  5. OMG!!!!

    Capítulo ótimo *-* Puxa... Eu quero shippar ela com o Maven... Mas não confio nele e.e Ai tem o Cal *-* Mas também não confio nele 😱 Enfim... Os dois são ótimos :3 Por enquanto .-.

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    1. Sakuragome estou na mesma. Não confio em nenhum dos dois, esse Maven parece q tá com armação mas o Cal tb é todo frio , não sei em quem confiar. Ainda não decide meu shippe.
      Ass: Déborah Alana

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  6. Como esse Maven é cínico!

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  7. tipo o que que vai rola se ela sangra na arena... a make até pode cobrir o rubro dela mais não faz o sangue dela se torna prateado... ou faz???

    P.S.: AMANDO O LIVRO!!!

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    Respostas
    1. É com isso que to preocupada, vai que ela sangra na arena...E AÍ??
      X Maysa

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  8. A revolução precisa de uma faísca para começar
    Uma arena
    THG ? <3 <3

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  9. Ela só não pode sangrar na arena, se sangrar vai lascar tudo! !

    Flavia

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  10. F O D E U, se sair sangue dela, já era

    ~Bella~

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  11. DE A SELEÇÃO PASSOU PARA JOGOS VORAZES E DIVERGENTE AO MESMO TEMPO.

    ABElinhaatarefada

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  12. Acaba com ela Mare ! Mostra quem vc é pra essa piranha ( só n sagra , ok? Se n ferra td )

    Ass: Apaixonada por livros

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  13. O Cal tá com ciúme dela se preocupar com o Maven ou foi impressão minha quando ele foi embora olhando pra ela por cima do ombro e tendo olhado pra ela ao final da luta ??? E ela está com ciúme do Cal tb quando diz q sente dor no estômago quando ele olha pra Evangeline ??? QUEM EU SHHIPO SENHOR ????

    Ass: Déborah Alana

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  14. A Mare não pode!
    Ela SANGRA!!!
    😱😱😱

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  15. Fudeu ela ela vai se ferir e mostrar quem é 😨
    Não deixa ela te atacar maré
    Ass: Milly*-*

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  16. Jogos Vorazes este capítulo: faíscas e revoluções, treinos numa arena, etc.
    Por causa disso, vejo um triângulo amoroso com Kilorn como Gale e Maven como Peeta... E depois tem o Cal aí.

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  17. Coisas de metal... Eletricidade. Que pelo condutor a Evangelinne é

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Boa leitura :)