15 de março de 2017

Capítulo dezenove

Evangeline

ELE ESTÁ ATRASADO, e meu coração bate forte, disparando. Luto contra a onda de medo, transformando-a em combustível. Usando a nova energia, estilhaço a moldura dourada de retratos por todo o corredor do palácio. Elas se transformam em fragmentos afiados mortais. O ouro é um metal fraco. Macio. Maleável. Inútil em uma batalha de verdade. Deixo que caiam. Não tenho tempo ou energia para desperdiçar.
As placas de ródio perolado nos meus braços e pernas vibram com a adrenalina, as bordas brilhantes ondulando como mercúrio. Prontas para se tornar o que eu precisar para sobreviver. Uma espada, um escudo, uma faca. Não estou em perigo direto, não neste momento. Mas se Tolly não chegar em um minuto, irei atrás dele, e então certamente estarei.
Ela prometeu, digo a mim mesma.
Parece idiota, o desejo de uma criança boba. Eu devia ser mais esperta do que isso.
O único laço no meu mundo é o de sangue; a única verdade é a família. Um prateado seria capaz de sorrir e concordar com outra Casa, mas quebrar a promessa no minuto seguinte. Mare Barrow não é prateada — deveria ter menos honra do que qualquer um de nós. E deve ao meu irmão, a mim, menos do que nada. Seria justificável que matasse todos nós. A Casa Samos não foi gentil com a garota elétrica.
— Temos um cronograma, Evangeline — Wren resmunga perto de mim. Ela coloca uma mão no peito, fazendo o máximo para não piorar uma queimadura já séria. A curandeira de pele não foi rápida o bastante para evitar todo o poder de Mare. Mas fez o que precisava ser feito, isso é tudo o que importa. Agora a garota elétrica está livre para causar tanto estrago quanto quiser.
— Vou dar a ele mais um minuto.
O corredor parece se estender à minha frente, ficando mais longo a cada segundo. Deste lado do palácio, mal conseguimos ouvir a batalha na praça. As janelas dão para um pátio tranquilo, apenas com nuvens tempestuosas no céu. Se eu quisesse, poderia fingir que este é só mais um dia do meu tormento habitual. Todos sorrindo com suas presas, circundando um trono cada vez mais letal. Eu achava que o fim da rainha seria o fim do perigo. Não costumo subestimar a maldade de ninguém, mas com certeza o fiz com Maven. Ele tem mais da mãe do que qualquer um de nós tinha percebido, além de sua própria monstruosidade.
Mas não preciso mais sofrer nas mãos desse monstro, graças às minhas cores.
Quando estivermos em casa, vou mandar um presente para a princesa de Lakeland por assumir meu posto ao seu lado.
Maven já deve estar longe, levado à segurança por seu trem. Eu deixei os recém-casados no Tesouro. Mas a obsessão nojenta de Maven por Mare talvez tenha sido mais forte. É impossível prever o que o garoto vai fazer quando ela está envolvida. Até onde sei, pode ter voltado para encontrá-la. Pode estar morto. Com certeza espero que esteja. Isso tornaria os próximos passos infinitamente mais fáceis.
Conheço minha mãe e meu pai muito bem para me preocupar com eles. Ai da pessoa, prateada ou vermelha, que desafiar meu pai no combate. E minha mãe tem seu próprio plano de contingência. O ataque ao casamento não foi surpresa para nenhum de nós. A Casa Samos está preparada. Contanto que Tolly siga o plano. Meu irmão tem dificuldade de abandonar a luta e é impulsivo. Outro homem impossível de prever. Não devemos ferir os rebeldes ou impedir seu progresso de forma alguma. São ordens do meu pai, e espero que meu irmão obedeça.
Vamos ficar bem. Respiro fundo, me agarrando a essas três palavras. Elas não acalmam meus nervos. Quero me livrar deste lugar. Quero ir para casa. Quero ver Elane de novo. Quero que Tolly surja pelo corredor a salvo e inteiro.
Mas ele mal pode andar.
— Ptolemus! — grito, esquecendo todos os medos menos um quando ele aparece.
Seu sangue se destaca, em contraste com a armadura de metal preto, a prata espalhada pelo peito como tinta. Sinto o gosto do ferro, o cheiro penetrante do metal. Sem pensar, puxo sua armadura, trazendo-o com ela. Antes que caia, encosto meu peito no dele, servindo de apoio. Ele está quase fraco demais para ficar de pé, quanto mais correr. Um terror congelante atravessa minha espinha.
— Você está atrasado — sussurro, recebendo um sorriso dolorido em resposta. Meu irmão está bem o suficiente para manter o senso de humor.
Wren começa a tirar as placas da armadura, mas não é tão rápida quanto eu. Com mais um movimento brusco das mãos, o metal cai de seu corpo com alguns ecos estridentes. Meus olhos voam até o peito de meu irmão, esperando ver um ferimento sério. Não há nada além de alguns cortes superficiais, nenhum deles grave o suficiente para abater alguém como ele.
— Perda de sangue — Wren explica. A curandeira de pele coloca meu irmão de joelhos, segurando seu braço esquerdo no ar, e ele reclama de dor. Fico firme ao seu lado, agachada com ele. — Não tenho tempo para curar isto.
Isto. Corro os olhos pelo braço de Ptolemus, pela pele branca, agora cinza e preta com os ferimentos abertos. Termina em um toco sangrento, brusco. Ele perdeu a mão.
Um corte limpo no pulso. Sangue prata escorre preguiçoso das veias partidas, apesar das parcas tentativas de cobrir a ferida.
— Você tem que curar — Ptolemus diz entredentes, sua voz rouca em agonia.
Concordo, mexendo a cabeça fervorosamente.
— Wren, só vai levar alguns minutos.
Todo magnetron já perdeu pelo menos um dedo. Brincamos com facas desde que aprendemos a andar. Sabemos quão rápido podemos ser regenerados.
— Se ele quiser usar essa mão de novo, vai ouvir o que estou dizendo — ela responde. — É muito complicado para fazer com pressa. Posso selar a ferida por enquanto.
Ele solta mais um gemido reprimido, sufocando a ideia e a dor.
— Wren! — imploro.
Ela não cede.
— Por enquanto!
Seus belos olhos, com o cinza dos Skonos, penetram nos meus, em advertência. Vejo temor ali, e não é para menos. Há alguns minutos ela me viu assassinar quatro guardas e libertar uma prisioneira da Coroa. É cúmplice da traição da Casa Samos.
— Está bem. — Aperto os ombros de Tolly, implorando que ouça. — Por enquanto. Assim que estivermos fora de perigo, ela vai consertar você.
Ele não responde, só assente com a cabeça enquanto Wren começa a trabalhar. Tolly olha para o outro lado, incapaz de assistir à pele crescer em seu pulso, selando as veias e os ossos. É rápido. Dedos escuros dançam por sua pele pálida enquanto ela fecha a ferida. É fácil recriar pele, ou pelo menos foi o que me disseram. Nervos e ossos são mais complexos.
Tento ao máximo distraí-lo.
— Quem foi?
— Outro magnetron. De Lakeland. — Cada palavra sai com dificuldade. — Ele me viu deixando a batalha e me cortou antes que eu pudesse reagir.
Os nobres de Lakeland. Idiotas naquela terra congelada. Sisudos naquele azul horrível. E pensar que Maven trocou o poder da Casa Samos por eles.
— Espero que tenha retribuído o favor.
— Ele não tem mais cabeça.
— Serve.
— Pronto — Wren diz, finalizando o trabalho no pulso. Ela corre as mãos pelo braço do meu irmão, descendo em seguida até a base da coluna. — Vou estimular sua medula e os rins, aumentando a produção sanguínea o máximo que posso. Mas você vai continuar fraco.
— Tudo bem, contanto que eu consiga andar. — Ele já parece mais forte. — Me ajude a levantar, Evie.
Obedeço, colocando seu braço bom sobre meus ombros. Ele é pesado, quase um peso morto.
— Você precisa comer menos sobremesa — resmungo. — Vamos, venha comigo. — Tolly faz o que pode, forçando um pé depois do outro. Muito mais lento do que eu gostaria. — Muito bem — falo baixo, estendendo a mão na direção da armadura descartada. Ela se achata e forma uma folha de aço. — Sinto muito, Tolly.
Faço com que ele deite sobre ela, usando meu poder para erguer o aço como uma maca.
— Eu posso andar… — ele protesta, sem forças. — Você precisa da sua concentração.
— Então se concentre por nós dois — respondo. — Os homens são inúteis quando estão feridos, não são?
Mantê-lo no ar compromete um pouco do meu poder, mas não todo. Corro o mais rápido que posso, com uma mão controlando a folha de metal. Ela me acompanha em uma corrente invisível, e Wren segue do outro lado.
Sinto todo o metal dentro dos limites da minha percepção. Noto cada pedaço conforme avançamos, arquivando-os por instinto. Fios de cobre — um garrote para estrangulamento. Fechaduras e dobradiças — dardos ou balas. Caixilhos de janelas — adagas de vidro com cabos de aço. Meu pai costumava me testar, até que isso se tornou natural. Passei a não conseguir mais entrar em um cômodo sem categorizar suas armas. A Casa Samos nunca é pega de surpresa.
Meu pai planejou nossa fuga de Archeon. Passando pelos quartéis e descendo as colinas ao norte até chegar aos barcos esperando no rio. De metal, construídos para serem especialmente velozes e silenciosos. Sob nosso controle, vão cortar a água como agulhas cortam a pele.
Estamos atrasados, mas só alguns minutos. No meio do caos, horas vão se passar até alguém da corte de Maven perceber que a Casa Samos desapareceu. Não duvido que outras Casas aproveitem a oportunidade, como ratos fugindo num naufrágio. Maven não é o único com um plano de fuga. Na verdade, não ficaria surpresa se cada Casa tivesse um. A corte é um barril de pólvora com o pavio cada vez mais curto e um rei que cospe fogo. Só um idiota não esperaria uma explosão.
Meu pai sentiu os ventos mudarem no momento que Maven parou de escutá-lo, assim que ficou claro que se aliar ao rei Calore seria nossa ruína. Sem Elara, ninguém é capaz de segurar Maven. Nem mesmo meu pai. Então aquela gentalha da Guarda Escarlate ficou mais organizada, tornando-se uma ameaça real, não só uma inconveniência. Eles pareciam crescer a cada dia. Operando em Piedmont e Lakeland, além dos boatos de uma aliança com Montfort mais a oeste. São muito maiores do que qualquer um de nós imaginava, mais organizados e determinados do que qualquer revolta de que se tenha memória. Enquanto isso, meu noivo infeliz perdia o controle.
Do trono, de sua sanidade, de qualquer coisa que não fosse Mare Barrow.
Ele tentou se livrar dela, ou pelo menos foi o que Elane me contou. Maven sabia tanto quanto qualquer um de nós do perigo de sua obsessão. Mate-a. Acabe com isso. Livre-se do seu veneno, ele costumava murmurar. Elane ouvia sem ser percebida, quieta num canto de seus aposentos. Eram só palavras. Ele não conseguia se separar da vermelha. Então foi fácil colocá-la no seu caminho — e tirá-lo do rumo. Como balançar um pano vermelho na frente de um touro. Ela era seu furacão, e cada empurrão deixava-o mais perto do olho da tempestade. Achei que ela seria uma ferramenta fácil de usar. Um rei distraído torna a rainha mais poderosa.
Mas Maven me tirou de um posto que era meu por direito. Elane, minha adorável sombra invisível, contava-me tudo o que se passava durante o dia sob o disfarce da noite. Eram relatórios bastante detalhados. Ainda posso senti-los, murmurados contra minha pele com a lua como única testemunha. Elane Haven é a garota mais linda que já vi, e fica ainda mais bonita sob a luz da lua.
Depois da Prova Real, prometi a ela uma coroa de consorte. Mas esse sonho desapareceu com o príncipe Tiberias, assim como a maioria dos sonhos desaparece com o amanhecer. Putinha. Foi assim que Maven se referiu a ela depois do atentado contra sua vida. Quase o matei bem ali.
Balanço a cabeça, me concentrando na missão atual. Elane pode esperar. Elane está esperando, como meus pais prometeram. A salvo na nossa casa, escondida em Rift. Os pátios dos fundos de Archeon se abrem em jardins floridos, que por sua vez são delimitados pelos muros do palácio. Algumas cercas de ferro forjado protegem as flores e os arbustos. Boas para lanças. A patrulha da muralha e dos jardins costumava ser composta de guardas de várias Casas — dobra-ventos Laris, silfos Iral, observadores Eagrie —, mas as coisas mudaram nos últimos meses. Laris e Iral opõem-se ao reinado de Maven, ao lado da Casa Haven. E, com a batalha ferrenha e o próprio rei em perigo, os outros guardas do palácio estão espalhados. Olho para cima através da folhagem, das flores de magnólia e das cerejeiras claras em contraste com o céu escuro. Figuras de preto rondam os baluartes de diamante.
Só a Casa Samos vigia a muralha.
— Primos de ferro!
Eles viram na direção da minha voz, respondendo.
— Primos de aço!
O suor escorre pelo meu pescoço conforme o muro se aproxima. Devido ao medo, devido ao esforço. Só mais alguns metros. Eu me preparo, engrossando o metal perolado das botas, endurecendo os últimos passos.
— Você consegue levantar? — pergunto a Ptolemus, estendendo a mão para Wren enquanto falo.
Com um gemido, ele levanta da maca, obrigando-se a ficar de pé.
— Não sou criança, Eve. Posso andar dez metros.
Para provar o que diz, o aço preto retorna ao seu corpo em escamas reluzentes. Se tivéssemos mais tempo, apontaria os pontos fracos de sua armadura, que costuma ser perfeita. Buracos nas laterais, costas finas. Mas só aceno com a cabeça.
— Você primeiro.
Ele ergue o canto da boca, tentando sorrir, para diminuir minha preocupação.
Suspiro aliviada quando meu irmão dispara pelo ar até o topo do muro. Nossos primos lá em cima o pegam habilmente, atraindo-o com seu próprio poder.
— Nossa vez.
Wren agarra meu tronco, protegida embaixo do meu braço. Inspiro, focando na sensação do metal curvado sob meus dedos dos pés, subindo pelas pernas, em volta dos ombros. Suba, digo à armadura.
Pow.
A primeira sensação que meu pai me fez memorizar foi a de uma bala. Dormi com uma no pescoço durante dois anos. Até que se tornou tão familiar para mim quanto minhas cores. Consigo reconhecê-las a cem metros de distância. Conheço seu peso, sua forma, sua composição. Um pedaço tão pequeno de metal é a diferença entre a vida de outra pessoa e a minha morte. Pode me matar ou meu salvar.
Pow, pow, pow. As balas explodindo são como agulhas, afiadas, impossíveis de ignorar. Estão vindo de trás. Meus pés tocam o chão novamente enquanto minha atenção aumenta e minhas mãos se levantam para formar um escudo contra o súbito ataque.
Balas perfurantes, cápsulas de cobre com núcleo de tungstênio e pontas cônicas, desviam diante dos meus olhos, caindo inofensivas na grama. Mais uma rajada vem de pelo menos uma dúzia de armas. Levanto o braço para me proteger. O trovão dos tiros abafa a voz de Tolly gritando lá de cima.
Cada bala esbarra em meu poder, gastando mais um pouco dele, de mim. Algumas param no ar; outras amassam. Lanço tudo o que posso para criar um casulo de segurança. De cima do muro, Tolly e meus primos fazem o mesmo. Eles aliviam meu esforço o suficiente para que eu seja capaz de ver quem está atirando contra mim.
Trapos vermelhos, olhares duros. A Guarda Escarlate.
Cerro os dentes. Seria fácil lançar as balas que estão na grama contra seus crânios. Em vez disso, manipulo o tungstênio como se fosse lã, transformando-o em fios brilhantes o mais rápido possível. É incrivelmente pesado e forte, por isso demanda muita energia. Mais uma gota de suor desce pela minha coluna.
Os fios formam uma rede, acertando os doze rebeldes de frente. No mesmo movimento, arranco as armas de suas mãos, estilhaçando-as. Wren se agarra a mim, segurando firme, e sinto que estou sendo puxada para trás e para cima, deslizando pelo diamante perfeito.
Tolly me pega, como sempre.
— E agora descemos — ele murmura. Sua mão está esmagando meu braço.
Wren engole em seco, se inclinando para a frente para olhar. Ela arregala os olhos.
— Um pouco mais alto desta vez.
Eu sei. São trinta metros de precipício escarpado, depois sessenta caminhando sobre pedras para chegar à beira do rio. À sombra da ponte, meu pai disse.
No jardim, os rebeldes se debatem, tentando se libertar da minha rede. Sinto quando a puxam e empurram, e o metal ameaça se partir. Isso me tira a concentração.
Tungstênio, digo a mim mesma. Preciso praticar mais.
— Vamos — digo.
Atrás de mim, o metal vira poeira. Uma coisa pesada e forte, mas quebradiça. Sem a mão de um magnetron, quebra antes de se curvar.
A Casa Samos não fará mais nenhum dos dois.
Não vamos quebrar e não vamos mais nos curvar.


Os barcos cortam a água silenciosamente, deslizando pela superfície. Estamos indo rápido. Nosso único obstáculo é a poluição da Cidade Cinzenta. O fedor fica no meu cabelo, ainda preso à minha pele mesmo depois de passarmos pela segunda barreira de árvores. Wren sente meu desconforto e coloca a mão no meu pulso descoberto. Seu toque curativo limpa meus pulmões e acaba com a exaustão. Empurrar aço pela água fica cansativo depois de um tempo.
Minha mãe se debruça na lateral do meu barco, com a mão dentro do Capital, que flui. Alguns bagres sobem com seu toque, os bigodes se entrelaçando em seus dedos. Os animais viscosos não a incomodam, mas eu tremo de nojo. Ela não fica preocupada com o que eles contam, o que significa que não sentem ninguém nos seguindo. Seu falcão também se mantém alerta no céu. Quando o sol se puser, será substituído por morcegos. Como eu esperava, ela não tem nenhum arranhão, nem meu pai. Ele está de pé na proa do barco principal, ditando nosso caminho. Uma figura preta em contraste com o rio azul e as colinas verdes. Sua presença me acalma mais do que o vale tranquilo.
Ninguém fala nada durante vários quilômetros. Nem nossos primos, que costumam ser tagarelas insuportáveis. Eles se concentram em descartar os uniformes. Emblemas de Norta flutuam atrás de nós, enquanto as medalhas e as insígnias brilhantes como joias afundam na escuridão. Conquistadas a duras penas com sangue Samos, marcas de nossa aliança e lealdade. Agora perdidas nas profundezas do rio e do passado.
Não pertencemos mais a Norta.
— Então está decidido — sussurro.
Atrás de mim, Tolly endireita a coluna. Seu braço ainda está enfaixado.
Wren não se arrisca a regenerar a mão inteira no rio.
— Houve alguma dúvida?
— Havia alguma escolha? — minha mãe vira para olhar por cima do ombro. Ela se movimenta com a graça de um gato, alongando-se no vestido verde-claro. As borboletas se foram há muito tempo. — Poderíamos controlar um fraco, mas não dá para lidar com a loucura. Assim que Iral decidiu se opor a ele, o jogo foi decidido. E ao escolher a princesa de Lakeland — ela revira os olhos — o próprio Maven cortou o último laço entre nossas Casas.
Quase dou risada na cara dela. Ninguém decide nada pelo pai. Mas não sou burra o suficiente para rir de minha mãe.
— Então as outras Casas vão nos apoiar? Sei que o papai estava negociando isso. — Enquanto deixava os filhos sozinhos, à mercê da corte cada vez mais volátil de Maven. Mais palavras que jamais ousaria dizer em voz alta a qualquer um dos dois.
Minha mãe as sente mesmo assim.
— Você se saiu bem, Eve — ela fala baixinho, colocando a mão no meu cabelo. Alguns fios prateados correm por seus dedos molhados. — E você também, Ptolemus. Entre aquela bagunça em Corvium e a rebelião das Casas, ninguém duvidou da nossa lealdade. Vocês nos compraram um tempo valioso.
Mantenho o foco no aço e na água, ignorando seu toque gelado.
— Espero que tenha valido a pena.
Até hoje, Maven enfrentou várias rebeliões. Sem a Casa Samos, sem nossos recursos, nossas terras, nossos soldados, não poderia ter vencido. Mas até hoje ele não tinha Lakeland. Agora não faço ideia do que vai acontecer. E não gosto nem um pouco dessa sensação. Minha vida tem sido um exemplo de planejamento e paciência. O futuro incerto me assusta.
A oeste, o sol afunda vermelho nas colinas. Vermelho como o cabelo de Elane.
Ela está esperando, digo a mim mesma mais uma vez. Está segura.
Sua irmã não teve tanta sorte. Mariella sofreu uma morte triste, esvaziada pelo murmurador Merandus. Eu o evitei o máximo que pude, feliz por não saber nada dos planos do meu pai.
Vi a profundidade de sua tortura em Mare. Depois do interrogatório, ela tremia na presença dele como um cachorro chutado. Foi minha culpa. Eu forcei a mão de Maven. Sem a minha interferência, talvez ele nunca tivesse deixado o murmurador fazer o que queria — mas também teria se afastado completamente de Mare. Não teria ficado tão cego por ela. Mas acabou ficando, como eu esperava, e a trouxe para perto. Eu queria que afundassem um ao outro. Seria fácil. Dois inimigos com uma única âncora. Mas ela se recusou a ceder. A garota de que me lembro, a criada aterrorizada que se fingia de nobre e acreditava em todas as mentiras, teria se submetido a Maven meses atrás. Mas Mare estava usando uma máscara diferente. Obedecia suas ordens, sentava ao seu lado, levava uma vida sem liberdade ou poder. E ainda assim mantinha seu orgulho, seu fogo, sua raiva. Sempre ali, queimando em seus olhos.
Tenho que respeitá-la por isso. Apesar de ter tirado tanto de mim.
Mare era um lembrete constante do que eu deveria ter sido. Uma princesa. Uma rainha. Nasci dez meses depois de Tiberias. Fui criada para me casar com ele. Minhas primeiras memórias são das cobras da minha mãe sibilando em meus ouvidos, sussurrando seus murmúrios e promessas. Você é filha das presas e do aço. Para que foi criada, se não para governar? Cada lição na sala de aula ou na arena era uma preparação. Seja a melhor, a mais forte, a mais inteligente, a mais mortal e a mais esperta. A mais digna. E eu fui tudo isso.
Reis não são famosos por sua bondade ou compaixão. A Prova Real não tem o objetivo de produzir casamentos felizes, mas filhos fortes. Com Cal, eu teria os dois. Ele não teria feito com que eu me arrependesse nem tentaria me controlar. Seus olhos eram gentis e atenciosos. Ele era mais do que esperei a vida inteira. E eu o tinha conseguido com cada gota de sangue derramado, todo o meu suor, todas as minhas lágrimas de dor e frustração. Com cada sacrifício daquilo que meu coração queria ser.
Na noite anterior à Prova Real, sonhei com como seria. Meu trono. Meus filhos reais. Subjugada a ninguém. Nem mesmo ao meu pai. Tiberias seria meu amigo e Elane minha amante. Ela se casaria com Tolly, como planejado, garantindo que nunca nos separássemos.
Então Mare entrou em nossas vidas e soprou esse sonho como se fosse feito de areia.
Um dia, cheguei a pensar que o príncipe faria o impensável. Ia me dispensar pela Titanos perdida com modos estranhos e um poder mais estranho ainda. Em vez disso, ela foi um peão mortal e tirou meu rei do tabuleiro. Os caminhos do destino têm curvas inesperadas. Me pergunto se aquele vidente sabia sobre hoje. Ele ri do que vê? Queria ter botado as mãos nele, uma vez que fosse. Odeio não saber.
Nas margens adiante, gramados bem cuidados surgem. As pontas da grama estão tingidas de dourado e vermelho, dando às casas à beira do rio um brilho encantador. A nossa também está próxima, só mais um quilômetro adiante. Dali vamos seguir para o oeste. Em direção ao nosso verdadeiro lar.
Minha mãe nunca respondeu minha pergunta.
— E então? Papai conseguiu convencer as outras Casas? — pergunto.
Ela estreita os olhos e seu corpo inteiro se tensiona. Está se enrolando como uma de suas cobras.
— A Casa Laris já estava do nosso lado.
Disso eu sabia. Além de controlar a maior parte da frota aérea de Norta, os dobra-ventos governam Rift. Na verdade, sob nosso comando. São fantoches famintos, dispostos a qualquer coisa para manter nossas minas de ferro e carvão.
Elane. Casa Haven. Se eles não estiverem do nosso lado…
Lambo os lábios, secos de repente. Cerro os punhos. O barco ronca sob meus pés.
— E…
— Iral não concordou com os termos, assim como mais da metade dos Haven. — Minha mãe bufa. Ela cruza os braços sobre o peito, como se tivesse sido insultada. — Não se preocupe, Elane não é o problema. Por favor, pare de esmagar o barco. Não estou a fim de nadar o último quilômetro.
Tolly segura meu braço de leve. Respirando fundo, percebo que minha tensão sobre o aço estava muito forte. A proa se altera, recuperando a forma.
— Perdão — sussurro rápido. — Só estou… confusa. Achei que todos já tivessem concordado com os termos. Rift se rebelará abertamente. Iral traz a Casa Lerolan e toda a Delphie. Um estado inteiro se separando.
Minha mãe olha além de mim, para meu pai. Ele vira o barco em direção à margem, e eu o sigo. Nossa casa surge por entre as árvores, iluminada pelo crepúsculo.
— Houve uma discussão sobre títulos.
— Títulos? — desdenho. — Que idiota. Qual pode ser o argumento deles?
O aço atinge a pedra, batendo no muro de contenção que corre pela margem. Me concentro para segurar firme o metal contra a corrente. Wren ajuda Tolly a descer primeiro, pisando no tapete viçoso de grama. Minha mãe fica observando, seu olhar demorando na mão que não está ali enquanto meus primos descem.
Uma sombra cai sobre nós duas. Meu pai. Ele está em pé atrás dela. Um vento leve ondula sua capa, brincando com as camadas de seda preta e linha prateada. Escondido sob ela está um terno de cromo azul tão fino que poderia ser líquido.
— “Não vou me ajoelhar diante de outro rei ganancioso” — ele sussurra. A voz do meu pai sempre foi macia como veludo, mortal como um predador. — Foi o que Salin Iral disse.
Ele se abaixa, oferecendo a mão à minha mãe. Ela aceita e desce habilmente do barco, que nem se mexe, controlado pelo meu poder.
Outro rei.
— Pai…
A palavra morre em minha boca.
— Primos de ferro! — ele grita, ainda olhando para mim.
Atrás dele, nossos primos dobram um joelho. Ptolemus não os acompanha, olhando tão confuso quanto eu. Membros de uma Casa não ajoelham uns para os outros. Não assim.
Eles respondem em uníssono, suas vozes ecoando.
— Reis de aço!
Rapidamente, meu pai estende a mão, pegando meu pulso antes que meu choque faça o barco tremer.
Seu sussurro é tão baixo que quase não ouço.
— Para o reino de Rift.

16 comentários:

  1. Evangeline me surpreendeu kk

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  2. Nossa... Isso tá muito Game Of Thrones

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    1. pensei nisso tambem shuauhsauhsa

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  3. — Quem foi?
    — Outro magnetron. De Lakeland. — Cada palavra sai com dificuldade. — Ele me viu deixando a batalha e me cortou antes que eu pudesse reagir.
    Os nobres de Lakeland. Idiotas naquela terra congelada. Sisudos naquele azul horrível. E pensar que Maven trocou o poder da Casa Samos por eles.
    — Espero que tenha retribuído o favor.
    — Ele não tem mais cabeça.
    — Serve.
    ISSO É QUE COVERSA DE IRMÃOS NORMAIS

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  4. SERIA A CASA GREYJOY KKKKKKK, ESTAO ATÉ NOS BARCOS JA, KKKKK

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    1. Não. Seriam a Casa Martell. "Insubmissos. Não quebrados. Não curvados."

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  5. Eita, sinto o cheiro de couro hahahah

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  6. caramba evanveline foi demais

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  7. Adorei a narração da Eve! melhor que a cameron
    principalmente o momento familia entre ela e Ptolemus :)
    gente, ta parecendo o Brasil.
    Sai o Maven (Dilma) pra entrar o Samos (Temer).
    SÓ DIGO UMA COISA BEM IDIOTA QUE PENSEI DO NADA: Não devemos temer o Temer, e a casa Samos no poder vai mudar muita coisa, inclusive o que "somos"
    bem nada a ver kkkk
    Legal, não sabia que Evangeline gostava de mulher...
    Nada contra '-' ~polly~

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    1. Rolando de rir com seu comentário polly, definitivamente o melhor kkk

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  8. EEEEEEEITA PÔ, ela curte mesmo uma mulher kkkkk
    Não consigo odiar a Evangeline pq só consigo imaginá-la como Celeste. Aí lá no fundo eu gosto da Evangeline. :(
    E tb preferi ela narrando do q a Cameron .
    Ass: Déborah A.

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    1. Tbm sinto uma pitada de Celeste no ar 😂

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    2. Achei que era só eu 😂
      Desde que esse livro começou, sabia que, de alguma forma, ela ajudaria a Mare.

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  9. Amei a narração de Eve. Ela ser amante de Elane tem tudo a ver com o jeito dela.😄😍

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  10. ela gosta de mulher :O achei mesmo que ela gostava do Cal, qnd li ela dizer que a Elane era sua amante me surpreendi

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Boa leitura :)