13 de março de 2017

Capítulo dezenove

DEPOIS DE TRÊS DIAS DE FRACASSO, sem encontrar nada além de sanguenovos mortos, viajamos para Templyn. É uma cidadezinha tranquila na estrada para Delphie, em sua maior parte residencial, com vastas propriedades prateadas e algumas fileiras espremidas de casas vermelhas à margem do rio. Senhores e criados.
Templyn é traiçoeira: não tem florestas enormes, túneis ou ruas lotadas para nos escondermos. Normalmente, usaríamos Shade para atravessar a muralha, mas ele não está conosco hoje. Torceu a perna ontem, o que piorou a situação do músculo ainda em fase de recuperação.
Então eu o obriguei a ficar. Cal também não está aqui; preferiu ficar dando aula, então Ada precisou pilotar o Abutre. E ela ainda está lá, confortável no assento, lendo como sempre. Tento não ser afobada e liderar como Cal, mas me sinto estranhamente só sem ele e o meu irmão.
Nunca estive sem os dois numa missão de recrutamento, e hoje será o meu teste. Quero mostrar aos outros que não sou apenas uma arma, mas alguém disposta a lutar com eles.
Por sorte, temos uma nova vantagem impressionante: um sanguenovo chamado Harrick, resgatado das pedreiras de Orienpratis duas semanas atrás. Essa é sua primeira missão, e esperamos que seja tranquila. O homem é tímido e inquieto, com os músculos definidos típicos de um pedreiro. Farley e eu fazemos questão de ficar ao lado dele, em vigilância discreta, caso ele decida sair correndo. Os outros — Nix na minha frente e Crance dirigindo a carroça — estão mais preocupados com a estrada adiante.
Nossa carroça entra na fila, atrás dos mercadores e trabalhadores rumo ao centro da cidade. As mãos de Crance seguram forte as rédeas do nosso cavalo roubado, uma égua velha e malhada, cega de um olho e com um casco ruim. Mas ele a faz avançar, acompanhando o ritmo dos outros, tentando não chamar atenção. A entrada da cidade surge diante de nós, um portão aberto ladeado por colunas intrincadas de pedra. Uma bandeira está presa entre as colunas, o estandarte de uma Casa. Listras vermelhas e laranja, quase se misturando à primeira luz da manhã. Casa Lerolan, de oblívios, governadores desta região de Delphie. Desvio o olhar, lembrando dos três oblívios mortos; três Lerolan assassinados no atentado no Palacete do Sol. O pai, Belicos, assassinado por Farley e pela Guarda Escarlate.
E os filhos gêmeos, ainda quase bebês, despedaçados pela explosão que se seguiu.
Os rostos dos mortos foram estampados por todo o reino, em cada transmissão, outra propaganda prateada. A Guarda Escarlate mata crianças. A Guarda Escarlate precisa ser destruída.
Lanço um olhar para Farley, me perguntando se ela sabe o significado da bandeira, mas ela está atenta aos soldados à frente. Assim como Harrick. Os olhos dele estão quase cerrados pela concentração, e suas mãos trêmulas se fecham. Com calma, toco seu braço para encorajá-lo.
— Você consegue — murmuro.
Ele abre o menor dos sorrisos e endireito o corpo para lhe passar segurança. Acredito no poder dele; ele tem treinado sempre que pode, mas precisa acreditar em si mesmo.
Nix fica tenso e seus músculos se destacam sob a camisa. Farley é menos transparente, mas sei que não vê a hora de pegar a faca na bota. Não vou demonstrar medo, pelo bem de Harrick.
Os agentes de segurança são responsáveis pelo portão, lançando olhares inquisidores a cada um que passa. Examinam seus rostos e pertences, sem se incomodar em checar os cartões de identidade. Esses prateados não ligam para o que está escrito num pedaço de papel: suas ordens são encontrar meus companheiros e eu, não um fazendeiro longe do seu vilarejo. Logo será a vez da nossa carroça, e o suor no buço de Harrick é o único indício de que ele está fazendo alguma coisa.
Crance para a égua e a carroça ao comando de um agente. Mantém os olhos baixos, respeitosos e submissos, enquanto o oficial o encara. Como esperado, nada o faz perder o controle. Crance não é um sanguenovo nem um colaborador antigo. Maven não está caçando ele. O agente começa a contornar a carroça e olhar para dentro.
Nenhum de nós ousa se mover, nem mesmo respirar. Harrick não é capaz de mascarar o som, apenas a visão. Por um instante, os olhos do agente encontram os meus, e começo a pensar que Harrick falhou. Mas, após um segundo de parar o coração, ele segue adiante, satisfeito. Não consegue nos ver.
Harrick é um tipo extraordinário de sanguenovo. É capaz de criar ilusões, miragens, fazer as pessoas verem o que não existe. E nos escondeu, tornando-nos invisíveis, tornando nossa carroça vazia.
— Você está transportando ar, vermelho? — o agente pergunta com um sorriso odioso.
— Vim retirar uma carga para Delphie — Crance responde, dizendo exatamente o que Ada mandou. Ela passou o dia anterior estudando as rotas de comércio. Com apenas uma hora de leitura, já se tornou perita nas importações e exportações de Norta. — Lã, senhor.
Mas o agente já se afastou, sem querer saber.
— Siga — ele diz, gesticulando com a mão enluvada.
A carroça avança, e a mão de Harrick agarra a minha, apertando firme. Retribuo o aperto na hora, numa súplica para que ele aguente, que continue se esforçando, que sustente a ilusão até estarmos dentro de Templyn, longe do portão.
— Mais um minuto — sussurro. — Estamos quase lá.
Desviamos da via principal antes de entrar no mercado, cortando por ruelas quase vazias com casas e lojas vermelhas humildes. Os outros estão de olhos abertos, cientes do que estamos procurando, enquanto fixo a atenção em Harrick.
— Quase lá — digo novamente, esperando estar certa.
Daqui a pouco a força dele vai vacilar. A nossa ilusão vai se desfazer e ficaremos expostos no meio da rua. As pessoas aqui são vermelhas, mas com certeza vão denunciar uma carroça que de repente aparece cheia dos fugitivos mais procurados do país.
— Esquerda — Nix grunhe, e Crance obedece, conduzindo a carroça na direção de uma casa de madeira com cortinas carmesins. Apesar de o sol estar brilhando no céu, há uma vela acesa à janela. Vermelhos como a aurora.
Há um beco ali perto, limitado pela casa da Guarda Escarlate e duas outras, vazias e abandonadas. Não faço ideia de onde estão os moradores, mas provavelmente fugiram das Medidas ou foram executados por tentar. É cobertura suficiente para mim.
— Agora, Harrick — digo. Ele responde com um suspiro longuíssimo. A ilusão se desfaz. — Parabéns!
Não perdemos um segundo sequer para descer da carroça e nos esgueirar até a casa da Guarda, usando o beiral do telhado para nos esconder como podemos.
Farley assume a liderança e bate três vezes na porta lateral, que logo é aberta, mostrando apenas escuridão lá dentro. Farley entra sem hesitar, e a seguimos.
Minhas pupilas se ajustam rápido, e me impressiono com a semelhança com a minha casa em Palafitas. É simples, bagunçada, só tem dois cômodos, assoalho de madeira irregular e janelas encardidas. Não há muitas lâmpadas; muitas devem ter sido vendidas para comprar comida, e as existentes estão quebradas.
— Capitã — chama uma voz. Uma mulher bem mais velha, de cabelo cinza metálico, aparece na janela e sopra a vela. Seu rosto é marcado pela idade, e suas mãos, por cicatrizes. Ao redor do punho, uma tatuagem familiar: uma única faixa vermelha, igual à do velho Will Whistle.
Assim como em Harbor Bay, Farley franze a testa e aperta a mão da mulher.
— Não sou...
Mas a mulher a corta com um gesto.
— Segundo o coronel, mas não segundo o Comando. Eles têm outros planos para você.
Comando. A mulher nota meu interesse e inclina a cabeça em saudação.
— Mare Barrow. Meu nome é Ellie Whistle.
Arqueio as sobrancelhas.
— Whistle? — pergunto. — Você é parente de...
Ellie me interrompe antes que eu possa concluir.
— Provavelmente não. Whistle quase sempre é apelido. Quer dizer que sou contrabandista. Assobiadores, é o que somos.
Realmente. O trailer velho de Will Whistle estava cheio de bens contrabandeados e roubados, muitos deles levados por mim mesma.
— Sou da Guarda Escarlate também — Ellie acrescenta.
Disso, pelo menos, eu sabia. Farley manteve contato com a sua gente ao longo das últimas semanas, pessoas fora da jurisdição do coronel que pudessem nos ajudar e guardar segredo sobre nossas ações.
— Muito bem — digo a ela. — Estamos aqui por causa da família Marcher. — Dois membros dessa família, para ser precisa. Tansy e Matrick Marcher, gêmeos, de acordo com a data de nascimento. — Eles precisam sair da cidade — acrescento. — Em uma hora, se possível.
Ellen ouve com um ar atento e burocrático. Muda de posição e vejo uma ponta de pistola na cintura dela. Ela olha para Farley, que confirma com a cabeça. Então faz o mesmo.
— Posso fazer isso.
— Suprimentos também — Farley adiciona. — Aceito comida, se você tiver, mas roupas de inverno serão mais úteis.
Outro aceno.
— Com certeza vou tentar — Ellie diz. — Apronto o que puder para vocês o mais rápido possível. Mas talvez precise de uma mãozinha.
— Eu ajudo — Crance se oferece. O físico dele certamente vai acelerar o processo.
Não consigo acreditar na disposição de Ellie, e Farley também não. Trocamos olhares enquanto a senhora começa a trabalhar, abrindo armários e levantando tábuas do assoalho, revelando compartimentos ocultos pela casa inteira.
— Obrigada pela cooperação — Farley agradece por cima do ombro com uma desconfiança discreta.
Também estou desconfiada, observando cada movimento de Ellie. Apesar de idosa, ela é ágil, e me pergunto se estamos realmente a sós nesta casa.
— Como eu disse, recebo ordens do Comando. E as ordens eram claras. Ajudar a capitã Farley e a garota elétrica a todo custo — ela diz, sem se importar em olhar para nós.
Ergo as sobrancelhas, chocada, mas positivamente surpresa.
— Você vai ter que me deixar a par disso — sussurro para Farley. Mais uma vez, a aparente organização e dimensão da Guarda Escarlate me impressionam.
— Mais tarde — ela responde. — E a família Marcher?
Enquanto Ellie explica como chegar ao endereço, vou até Harrick e Nix.
Embora seja a primeira missão de Harrick, para Nix não é novidade. Perdi a conta de quantas vezes ele me acompanhou em terreno hostil, e sou muito grata por isso.
— Prontos, rapazes? — pergunto, espalmando as mãos. Nix faz o máximo para assumir um ar durão, de veterano. Mas não deixo de perceber o brilho de medo nos olhos de Harrick. — Não vai ser tão difícil quanto entrar — continuo. — Serão menos pessoas, os agentes não vão se dar ao trabalho de olhar dessa vez. Você consegue.
— Obrigado, erm, Mare — ele diz, para em seguida endireitar o corpo e sorrir para mim, apesar de sua voz vacilar ao dizer meu nome. Retribuo o sorriso.
A maioria deles não sabe como me chamar. Mare, srta. Barrow, garota elétrica, alguns até dizem lady. O apelido magoa, mas não tanto quanto o título. Não importa o que eu faça, não importa o quanto eu tente ser um deles, os sanguenovos me enxergam como algo à parte. Seja líder ou leprosa, sou sempre uma estranha. Sempre separada.
No beco, Crance começa a carregar a carroça, sem se dar ao trabalho de nos observar quando desaparecemos com a elegância de um sombrio prateado. Mas, diferente dos sombrios, Harrick não é só capaz de mexer com a luz e criar claros e escuros: ele pode invocar a imagem que quiser. Uma árvore, um cavalo, uma pessoa inteira. Agora que estamos na rua, ele nos disfarça de vermelhos obscuros, com rostos sujos e capuzes. Passamos despercebidos até entre nós mesmos. Ele me diz que isso é mais fácil do que nos fazer desaparecer, e uma alternativa melhor em multidões. Assim, ninguém fica confuso por trombar com o nada.
Farley segue em frente, seguindo as coordenadas de Ellie. Precisamos atravessar a praça do mercado sob os olhos de muitos agentes de segurança, mas ninguém nos detém. Meu cabelo voa na brisa leve e cobre meus olhos com uma cortina loira. Quase caio no riso. Cabelo loiro... em mim.
A casa dos Marcher é pequena. O segundo andar foi construído às pressas e parece prestes a cair sobre nós.
Mas o jardim dos fundos é agradável, apesar das trepadeiras enormes e das árvores desfolhadas. No verão, deve ser espetacular. Atravessamos o espaço, fazendo o máximo para evitar pisar nas folhas secas.
— Estamos invisíveis agora — Harrick cochicha.
Quando olho na direção dele, percebo que desapareceu.
Sorrio, embora ninguém possa ver.
Alguém se aproxima da porta dos fundos e bate.
Nenhuma resposta, nem mesmo um ruído lá dentro.
Podem estar fora, trabalhando. Farley solta uns palavrões baixos.
— Esperamos? — cochicha. Não consigo enxergá-la, mas vejo nuvens de respiração pairando ao redor de onde seu rosto está.
— Harrick não é uma máquina — digo, falando por ele. — Vamos esperar lá dentro.
Vou até a porta, trombando com o ombro de Farley ao passar, e me abaixo diante da fechadura. É simples, do tipo que consigo abrir com a mão nas costas. Em questão de segundos, sou saudada por um clique familiar e agradável.
A porta abre com um rangido. Fico imóvel, à espera do que pode estar lá dentro.
Como a casa de Ellie, está tomada pela escuridão, aparentemente abandonada. Ainda assim, espero mais um pouco, à escuta. Nada se mexe lá dentro, e não sinto tremores de eletricidade. Ou os Marcher não têm cota ou não têm sequer energia elétrica. Satisfeita, gesticulo para que os outros entrem, mas nada acontece. Eles não enxergam você, sua idiota.
— Entrem — cochicho, e sinto Farley nas minhas costas.
Assim que a porta se fecha, reaparecemos. Sorrio para Harrick, mais uma vez grata pelo seu poder e energia, mas o cheiro da casa me faz ficar séria de novo.
O ar está parado, poeirento, um pouco rançoso. Corro o dedo pela mesa da cozinha e arranco quase um centímetro de pó.
— Talvez tenham fugido. Muita gente fugiu — Nix logo sugere.
Algo atrai minha atenção, o menor dos cochichos.
Não é uma voz, mas uma faísca, tão suave que quase não notei. Está vindo de um cesto perto da lareira, coberto com um trapo sujo e vermelho. Deixo-me ser arrastada por esse pequeno farol.
— Não gosto disso. Precisamos voltar para a casa da Ellie. Harrick, se recomponha e se prepare para outra ilusão — Farley ordena, o mais baixo que pode.
Meus joelhos raspam nas pedras da lareira quando me agacho perto do cesto. O cheiro fica mais forte. Não deveria fazer isso. Sei que não vou gostar do que estou prestes a descobrir. Eu sei, mas não consigo me segurar.
Retiro o trapo. O tecido está grudento, mas mesmo assim eu o puxo, revelando o que está embaixo. Depois de um segundo, atordoada, me dou conta do que estou vendo.
Caio de costas e começo a me arrastar, a resfolegar, a quase gritar. As lágrimas descem mais rápido do que jamais imaginei ser possível. Farley é a primeira a vir para o meu lado. Ela me envolve nos braços e me segura firme.
— O que foi? Mare, o que...
Ela para de falar de repente, engasgando com as palavras. Ela viu o que eu vi. E os outros também. Nix quase vomita, e fico surpresa por Harrick não desmaiar.
No cesto está um bebê, de não mais que alguns dias.
Morto. Não por abandono ou negligência. O trapo está tingido de sangue. A mensagem é de uma clareza nojenta: os Marcher estão mortos.
Uma das mãozinhas minúsculas, dura com a rigidez da morte, segura um dispositivo extremamente pequeno.
Um alarme.
— Harrick — sibilo por entre as lágrimas. — Nos esconda.
A boca dele se abre em confusão, e agarro sua perna em desespero.
— Nos esconda.
Ele desaparece diante dos meus olhos, no momento exato.
Os agentes aparecem nas janelas e arrombam todas as portas, com armas à mão, gritando.
— Você está cercada, garota elétrica! Renda-se! — rugem um depois do outro, como se a repetição fizesse alguma diferença.
Em silêncio, me arrasto para baixo da mesa da cozinha. Só espero que os outros façam o mesmo.
Nada menos que doze agentes se juntam na casa, marchando de um lado para o outro. Quatro se separam e vão para o andar de cima, um par de botas se detém diante do bebê. A mão livre do agente treme, e tenho certeza de que ele está olhando para o minúsculo cadáver. Depois de um momento, ele vomita na lareira.
— Calma, Myros — diz um dos outros, puxando-o.
— Coitadinho... — acrescenta, ao passar pelo bebê. — Algo no andar de cima?
— Nada! — um deles responde, descendo a escada.
— Alarme falso.
— Tem certeza? O governador vai nos esfolar vivos se estivermos errados.
— Você está vendo alguém aqui, senhor?
Quase solto um gemido quando o agente se abaixa na minha frente. Seus olhos percorrem toda a parte de baixo da mesa, procurando. Sinto uma leve pressão na perna: é um dos outros. Não ouso sequer devolver o cutucão e prendo a respiração.
— Não, não estou — o agente diz finalmente ao levantar. — Alarme falso. De volta aos postos.
Eles saem com a mesma rapidez com que entraram, mas não solto um suspiro até muito tempo depois, quando já não ouço mais seus passos. Então respiro fundo, trêmula, enquanto Harrick desfaz a ilusão e todos reaparecemos num piscar de olhos.
— Muito bem — Farley solta, dando tapinhas no ombro de Harrick. Como eu, ele mal consegue falar, e precisa de ajuda para levantar.
— Eu podia ter acabado com eles — Nix resmunga, rolando para fora da parte de baixo da escada. Em seguida, avança até a porta a passos curtos, já com a mão na maçaneta. — Mas não quero estar aqui quando voltarem.
— Mare?
Farley toca meu braço com uma delicadeza incomum para ela.
Quando me dou conta, estou de pé diante do bebê, olhando. Não havia bebês na lista de Julian, nenhuma criança abaixo dos três anos. Este não era um sanguenovo, não de acordo com os nossos registros ou quaisquer outros que Maven possa ter em mãos. A criança foi assassinada simplesmente por estar aqui. Por nada.
Com determinação, tiro o casaco. Não vou deixar essa criança assim, apenas com o próprio sangue servindo de cobertor.
— Mare, não. Vão saber que estivemos aqui...
— Que saibam.
Ponho o casaco sobre o bebê, lutando com todas as forças contra o desejo de me deitar ao lado dele e não levantar mais. Meus dedos roçam seu punho minúsculo e frio.
Há algo embaixo dele. Um bilhete. Em silêncio, enfio o papel no bolso rapidamente antes que os outros possam ver.
Quando voltamos para Ada e o jato, tomo coragem para ler. É de ontem.
Ontem. Por tão pouco...

22 de outubro
Um envelope cruel, eu sei. Mas necessário. Você deve saber o que está fazendo, o que está me obrigando a fazer com essa gente. Cada corpo é uma mensagem para você e para o meu irmão. Rendam-se, e isso vai parar. Rendam-se, e eles vão viver.
Sou um homem de palavra.
Até nosso próximo encontro,
Maven


Chegamos no Furo ao cair da noite. Não consigo comer, não consigo falar, não consigo dormir. Os outros comentam o que aconteceu em Templyn, mas ninguém se arrisca a me fazer perguntas. Meu irmão tenta, mas me afasto, retirando-me para as profundezas do nosso esconderijo. Me encolho no buraco estreito que é o meu quarto, me convencendo de que preciso ficar sozinha por um tempo. Normalmente, odeio esse dormitório solitário, odeio me separar dos outros. Agora, odeio ainda mais, mas não tenho forças para me juntar a eles.
Em vez disso, espero todos dormirem para sair andando sem rumo. Levo um cobertor que não ajuda nada contra o frio. Nem o de fora, nem o que está dentro de mim.
Digo a mim mesma que é a temperatura baixa que me leva até o quarto dele, não a sensação de vazio no peito.
Não o abismo congelado que cresce a cada fracasso.
Não o bilhete que queima meu bolso e minha cabeça.
O fogo dança no chão, confinado por um círculo perfeito de pedras. Apesar da forma estranha de seu corpo, percebo que ele está acordado. Seus olhos parecem chamas vivas, mas não iradas. Nem confusas.
Com uma mão, ele abre os cobertores do saco de dormir e se afasta para o lado, abrindo espaço para mim.
— Está frio aqui dentro — digo.
Acho que ele entende o que quero dizer de verdade.
— Farley me contou — ele murmura quando me aconchego. Passa a mão pela minha cintura, com delicadeza e ternura, sem qualquer outra intenção a não ser me confortar. A outra mão pressiona minhas costas, espalmada sobre as cicatrizes. Estou aqui, é o que quer dizer.
Quero lhe contar a proposta de Maven. Mas de que adiantaria? Ele apenas a recusaria, como eu, e eu teria que juntar a vergonha da sua recusa à minha. Só lhe traria dor, o verdadeiro objetivo de Maven. E não posso deixar Maven nos vencer assim. Ele já me dominou. Não vai dominar Cal.
De algum modo, adormeço. E não sonho.

6 comentários:

  1. Por favor não se rende tem mais gente, mais sanguenovos precisando de você e se você for ele morrem mesmo assim é lembrar todo mundo pode trair todo mundo" ele vai lhe trair de novo

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  2. AHHHH, SEM SEGUNDAS INTENTENÇÕES.....SEI....

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  3. gente so eu to horrorizada com o fato do bebe ?????

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  4. Um bebê gente? O bichinho é ruim hein!

    Flavia

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  5. AI QUE DÓ DO BEBÊ MEU DEUS...
    LIVRO E VIDA DE LEITOR É FODA, FAZ A GENTE SE HORRORIZAR E LAMENTAR COM ALGO QUE NÃO ACONTECEU ~POLLY~

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  6. E esse final, heim? Hmm... kkkkk

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Boa leitura :)