3 de março de 2017

Capítulo dezenove

SÃO NECESSÁRIAS HORAS DE PINTURA E ACABAMENTO para fazer de mim a garota que devo ser, mas a sensação é de que tudo demora poucos minutos. Quando as criadas me deixam diante do espelho, solicitando silenciosamente minha aprovação, consigo apenas acenar com a cabeça para a moça que encara meu reflexo. Ele parece lindo e aterrorizado com o que está por vir, aprisionado por correntes brilhantes de seda. Preciso esconder a menina assustada. Tenho que sorrir, dançar e parecer um deles. Com bastante esforço, boto o medo de lado. O medo vai me levar à morte.
Maven me espera ao fim do corredor em seu sombrio uniforme de gala. O preto brilhante destaca seus olhos azuis contra sua pele pálida. Ele não parece nem um pouco assustado. Mas é um príncipe, um prateado. Não vai se abalar.
Ele me estende o braço, que recebo com alegria. Espero que me passe segurança, força ou ambos, mas ao tocá-lo recordo de Cal e da nossa traição. A noite anterior surge nítida, cada um dos suspiros ressoa em minha cabeça. Pela primeira vez Maven não nota meu desconforto.
Pensa em coisas mais importantes.
— Você está linda — comenta, examinando meu vestido.
Não concordo com ele. É um traje tolo, exagerado, uma maçaroca de tecido lilás e joias que reluzem a cada movimento. Pareço um inseto fluorescente. Contudo, devo agir como uma dama esta noite, como a futura princesa. Por isso, sorrio e inclino a cabeça em agradecimento. Não consigo esquecer que os lábios que agora sorriem para Maven beijaram seu irmão ontem à noite.
— Só quero que acabe.
— Não vai acabar hoje, Mare. Vai demorar muito para acabar. Você sabe disso, não?
Ele fala como alguém bem mais velho, bem mais sábio, não como um garoto de dezessete anos. Quando hesito em responder, sem saber direito o que sinto, ele franze a testa e insiste.
— Mare?
Posso notar o tremor em sua voz.
— Está com medo, Maven? — minhas palavras saem fracas, quase num sussurro. — Porque eu estou.
Sua expressão se torna dura como o aço.
— Estou com medo de falhar. Medo de perder esta oportunidade. E medo do que pode acontecer se nada neste mundo mudar. — A determinação faz sua mão esquentar contra a minha. Ele finaliza: — Tudo isso me assusta mais que a morte.
É difícil não se sentir entusiasmada com suas palavras. Ambos inclinamos a cabeça aceitando o que vai acontecer. Como posso dar para trás? Não vou vacilar.
— Vamos nos levantar — ele murmura tão baixo que mal consigo ouvir. Vermelhos como a aurora.
Ele segura minha mão com mais força ao chegarmos no corredor que dá para os elevadores.
Uma tropa de sentinelas guarda o rei e a rainha, ambos à nossa espera. Cal e Evangeline não estão em parte alguma, e quero distância deles. Quanto menos tiver que olhar para os dois juntos, melhor.
Elara veste uma monstruosidade chocante em tons de vermelho, preto, branco e azul, as cores da sua Casa e da Casa do marido. Ela abre um sorriso forçado com os olhos cravados em mim, depois no filho.
— Aqui vamos nós — diz Maven soltando minha mão para se posicionar ao lado da mãe.
Fico com uma estranha sensação de frio sem ele.
— Então, quanto tempo preciso ficar aqui? — ele finge reclamar, interpretando muito bem seu papel.
Quanto mais distraída mantivermos a rainha, maiores serão nossas chances. Uma espiada na mente errada e tudo vira fumaça. E nós morremos por tabela.
— Maven, você não pode simplesmente ir e vir ao seu bel-prazer. Você tem responsabilidades e vai ficar o tempo que for necessário.
Ela então se detém sobre o filho. Acerta seu colarinho, suas medalhas, suas mangas e, por um instante, me faz baixar a guarda. Esta é a mulher que invadiu meus pensamentos, que me arrancou da minha vida: a mulher que odeio. Ainda assim, tem algo de bom: ama o filho. E, apesar de todos os defeitos, Maven a ama.
O rei Tiberias, por outro lado, não demonstra o menor cuidado com Maven. Mal o observa.
— O garoto só está entediado. Seus dias não têm emoção, não como se estivesse no front — afirma, acariciando a barba bem aparada. — Você precisa de uma causa, Mavey.
Naquele breve instante, a máscara de enfado se desprende do rosto de Maven. Eu tenho uma causa, gritam seus olhos. A boca, porém, permanece fechada.
— Cal tem a legião, sabe o que faz, o que quer. Você precisa descobrir o que vai fazer da vida, hein!
— Sim, pai — responde o filho. Embora tente esconder, uma sombra passa por seu rosto.
Conheço bem a expressão. Eu mesma a fazia quando meus pais me diziam por meio de indiretas para ser mais como Gisa, apesar de isso ser impossível. Ia para cama com ódio de mim mesma, desejando ser capaz de mudar, ser talentosa, calma e linda como ela. Nada me magoa mais que esse sentimento. Mas o rei não nota a dor de Maven, assim como meus pais nunca notaram a minha.
— Espero que ajudar a me misturar aos convidados seja uma boa causa para Maven — intervenho, na esperança de desviar o olhar de censura do rei.
Quando Tiberias se volta para mim, Maven deixa escapar um suspiro e um sorriso grato.
— E que bom trabalho ele está fazendo — responde o rei, me encarando. Sei que lhe vem à mente a pobre vermelha que não quis se curvar diante dele. — Pelo que ouço, você é quase uma autêntica dama.
Mas seu sorriso forçado não chega aos olhos. Não há como ocultar sua desconfiança. Ele quis me matar aquele dia na sala do trono, para proteger sua coroa e o equilíbrio do seu país, e acho que esse desejo jamais desaparecerá. Vai me usar como quiser e me matar quando necessário.
— Tive bons ajudantes, meu rei — digo ao fazer uma reverência para demonstrar gratidão pelos elogios. Só que no fundo não me importo com o que ele diz. Sua opinião não vale uma ferrugem da cadeira de rodas do meu pai.
— Estamos todos prontos? — pergunta a voz de Cal, desmanchando meus pensamentos.
Meu corpo reage e se vira no ato para vê-lo chegar. Meu estômago dá voltas, mas não por entusiasmo, nervosismo ou qualquer outra besteira sobre a qual as garotas conversam. Sinto nojo de mim mesma, do que deixei acontecer... do que quis que acontecesse. Os olhos de Cal procuram os meus, mas me volto para Evangeline, agarrada em seu braço. Mais uma vez ela veste trajes metálicos e sorri sem mexer os lábios.
— Majestade — Evangeline murmura, curvando-se numa reverência perfeita.
Tiberias sorri para a noiva do seu filho para em seguida dar uma palmadinha no ombro de Cal e dizer brincalhão:
— Só estávamos à sua espera, filho.
Quando os dois estão lado a lado, é impossível negar a semelhança: mesmo cabelo, mesmos olhos dourados e avermelhados, até a mesma postura. Maven observa com seus olhos azuis e pensativos. Sua mãe ainda o segura pelo braço. Com Evangeline de um lado e o pai de outro, Cal não pode fazer mais do que me encarar. Ele inclina levemente a cabeça. É o único cumprimento que mereço.
Apesar da decoração, o salão de festas tem a mesma aparência de mais de um mês atrás, quando a rainha me meteu neste mundo estranho, descartando oficialmente meu nome e minha identidade. Eles me acertaram, e agora é minha vez de atacar.
Sangue jorrará esta noite.
Mas não posso pensar nisso agora. Preciso permanecer com os outros, conversar com as centenas de membros da corte enfileirados para trocar palavras com a família real e com uma vermelha mentirosa disfarçada. Corro os olhos pela fila à procura dos marcados para morrer, os alvos que Maven passou à Guarda. Reynalda coronelBelicos Ptolemus, o irmão de cabelos prateados e olhos escuros de Evangeline.
Ele é um dos primeiros a nos cumprimentar, de pé bem atrás de seu severo pai que se apressa a saudar a filha. Quando Ptolemus se aproxima de mim, seguro a vontade de vomitar.
Nunca fiz nada mais difícil que olhar nos olhos de um homem prestes a morrer.
— Meus parabéns — ele diz com a voz dura como uma rocha. A mão que me estende é quase tão dura quanto.
Ptolemus não veste uniforme militar, mas um traje de metal preto composto por escamas lisas e brilhantes. É um guerreiro, não um soldado. Assim como seu pai, comanda a guarda da cidade de Archeon, protegendo a capital com seu próprio exército. A cabeça da cobra, foi como Maven o descreveu certa vez. Corte-a e todo o corpo morre. Seus olhos de rapina focam a irmã mesmo enquanto me cumprimenta. Ele me dispensa apressadamente para logo passar por Maven e Cal antes de abraçar Evangeline, em rara demonstração de afeto. Me surpreende que as roupas idiotas dos dois não fiquem presas uma na outra.
Se tudo correr conforme o plano, ele jamais abraçará a irmã. Evangeline perderá um irmão, assim como eu. Embora conheça essa dor, sou incapaz de ter pena dela. Especialmente pela maneira como está agarrada a Cal. Parecem opostos perfeitos: ele com seu simples uniforme enquanto ela cintila como uma estrela em seu vestido de pontas afiadas. Quero matar Evangeline, quero ser Evangeline. Mas não posso fazer nada quanto a isso. Ela e Cal não são problema meu esta noite.
Assim que Ptolemus desaparece e mais pessoas passam diante de nós com sorrisos frios e palavras afiadas, fica mais fácil relaxar. A Casa Iral é a próxima a nos cumprimentar, conduzida pelos movimentos ágeis e indiferentes de Ara, a Pantera. Para minha surpresa, ela se curva diante de mim com um sorriso nos lábios. Mas há algo estranho em seu gesto. Alguma coisa me diz que ela sabe mais do que deixa transparecer. Se retira sem nenhuma palavra e me poupa de outro interrogatório.
Sonya segue sua avó de braços dados com outro alvo: Reynald Iral, seu primo. Maven me disse que ele é o conselheiro financeiro, um gênio que sustenta o Exército graças aos impostos e a acordos de comércio. Se ele morrer, o dinheiro e a guerra também morrem. Troco de bom grado um coletor de impostos por isso. Ao segurar sua mão, não deixo de notar seu olhar gélido e suas mãos suaves. Essas mãos jamais vão me tocar de novo.
Não é fácil não notar a aproximação da coronel Macanthos. A cicatriz em seu rosto se destaca com nitidez, especialmente esta noite em que todos estão tão produzidos. Talvez ela não se importe com a Guarda, mas também não acredita na rainha. Não está disposta a engolir as mentiras que a soberana empurra goela abaixo.
Seu aperto de mão é forte. Pela primeira vez alguém não tem receio de que eu vá quebrar como vidro.
— Toda a felicidade a você, Lady Mareena. Vejo que seu par lhe cai bem — diz, apontando com o queixo para Maven. — Não é como a pomposa da Samos — acrescenta, cochichando brincalhona. — Ela dará uma triste rainha, e você uma princesa feliz, grave minhas palavras.
— Gravadas — replico baixinho. Consigo até forçar um sorriso, muito embora a vida da coronel esteja perto do fim. Não importa quantas palavras gentis ela diga, seus minutos estão contados.
Quando a coronel passa para Maven — apertando sua mão e o convidando para inspecionar as tropas com ela daqui a uma semana mais ou menos —, reparo que ele fica tão abalado quanto eu. Depois que a coronel se afasta, Maven aperta minha mão para me tranquilizar. Sei que ele se arrepende de ter entregue o nome dela, mas como as mortes de Reynald e Ptolemus, a dela também terá um propósito. Valerá a pena no final.
O próximo alvo vem quase do fim da fila, de uma das Casas menores. Belicos Lerolan tem um sorriso alegre, cabelo castanho e roupas com as cores do poente, que são as da sua Casa. Diferente dos outros que cumprimentei esta noite, dá a impressão de ser gentil e amigável. A alegria em seus olhos é tão real quanto seu aperto de mão.
— É um prazer, Lady Mareena — ele inclina a cabeça para me cumprimentar, educado ao extremo. — Espero passar muitos anos ao seu serviço.
Retribuo seu sorriso, fingindo que existem muitos anos à frente, mas é difícil sustentar essa fachada à medida que os segundos passam. Quando sua mulher chega com os gêmeos do casal, tenho vontade de gritar. Os meninos — que não parecem ter sequer quatro anos e ainda gemem feito cachorrinhos — se agarram às pernas do pai. Ele abre um sorriso carinhoso, usado só para eles.
Um diplomata, foi o que disse Maven. Embaixador junto aos nossos aliados de Piedmont, ao sul. Sem ele, nossos laços com esse país e seu Exército serão rompidos, deixando Norta sozinho para lidar com nossa aurora vermelha. Ele é outro sacrifício que devemos fazer, outro nome para jogar fora. E é pai. Um pai que vamos matar.
— Obrigado, Belicos — diz Maven ao apertar sua mão, na tentativa de dispensar os Lerolan antes de eu perder o controle.
Tento falar, mas só consigo pensar no pai que estou prestes a roubar dessas criancinhas. Surge a lembrança de Kilorn chorando a morte do pai. Ele também era pequeno.
— Com licença um segundo, por favor — pede Maven com a voz distante. — Mareena ainda está se acostumando à agitação da corte.
Antes de eu lançar um último olhar ao pai condenado, Maven me leva às pressas para fora.
Algumas pessoas arregalam os olhos para nós. Consigo perceber até o olhar de Cal em nosso encalço. Quase tropeço, mas Maven me mantém em pé, e chegamos enfim à sacada.
Geralmente, o ar fresco me anima, mas duvido que qualquer coisa terá esse efeito agora.
— Filhos — desabafo. — Ele é pai.
Maven me solta e bato contra o parapeito, mas meu noivo não recua. Seus olhos azuis refletem o luar sobre mim, como se fossem feitos de gelo. Ele me agarra pelos ombros e me força a escutar.
— Reynald também é pai. A coronel tem filhos. Ptolemus é noivo da filha dos Haven. Todos têm alguém, todos têm entes queridos para lamentar sua morte.
Dá para notar o esforço que faz para pronunciar as palavras. Está tão arrasado quanto eu.
— Não podemos escolher demais como ajudaremos a causa, Mare. Temos que fazer o que pudermos, não importa o custo.
— Não posso fazer isso a eles.
— E você acha que eu quero fazer? — sussurra com o rosto a milímetros do meu. — Conheço cada um deles. Dói em mim traí-los, mas é necessário. Pense no que a vida deles comprará, o que suas mortes conquistarão. Quantos do seu povo não serão salvos? Achei que compreendesse!
Ele faz uma pausa e cerra os olhos por uns instantes. Quando recupera o controle, leva a mão ao meu rosto e acaricia minha bochecha com os dedos trêmulos.
— Desculpe, é que... — sua voz vacila. — Talvez você não veja no que dará esta noite, mas eu vejo. E sei que vai mudar as coisas.
— Acredito em você — digo, com a voz tênue, pondo a mão sobre a dele. — Só queria que não precisasse ser assim.
Atrás dele, no salão de baile, a fila de recepção chega ao fim. Acabaram-se os apertos de mão e cortejos. A noite realmente começou.
— Mas precisa, Mare. Prometo a você: é necessário.
Por mais que machuque, por mais que faça meu coração sangrar, concordo.
— Certo.
— Vocês dois estão bem aqui fora?
Por um segundo, a voz de Cal soa aguda e estranha, mas ele limpa a garganta e vem se juntar a nós. Seus olhos se detêm sobre meu rosto.
— Você está pronta, Mare?
Maven responde por mim:
— Ela está.
Juntos, deixamos para trás o terraço, a noite e talvez os últimos instantes de paz da nossa vida. Ao cruzarmos as arcadas, sinto o fantasma de um toque no braço: Cal. Olho para trás e o encontro ainda me observando. Seus olhos estão mais sombrios que nunca, fervilhando com alguma emoção que não consigo identificar. Mas, antes que ele possa dizer algo, Evangeline aparece ao seu lado. Sou forçada a desviar o rosto quando ele a toma pela mão.
Maven nos conduz para a área livre no centro do salão.
— Esta é a parte difícil — diz na tentativa de me acalmar.
Funciona um pouco e os calafrios diminuem.
Os primeiros a dançar diante de todos somos nós: os dois príncipes e suas noivas. Outra demonstração de força e poder, a ostentação das duas vencedoras diante de todas as famílias perdedoras. É a última coisa que quero fazer, mas é pela causa. Quando os alto-falantes soltam as primeiras notas da música que tanto odeio, logo percebo que, ao menos, se trata de uma dança já conhecida.
Maven fica chocado ao me ver acertar a posição dos pés.
— Andou ensaiando?
Com o seu irmão.
— Um pouco.
— Você é cheia de surpresas — ele brinca, ainda capaz de sorrir.
Perto de nós, Cal e Evangeline assumem seus postos. Ambos têm a aparência que um rei e uma rainha devem ter: nobres, frios e belos. Quando os olhos de Cal encontram os meus, no exato momento em que seus dedos se enlaçam nos dela, sinto mil coisas ao mesmo tempo, nenhuma delas agradável. Mas, em vez de afogar no ressentimento, chego mais perto de Maven. Ele me olha de alto a baixo com seus olhos azuis. Começamos a dançar. A poucos metros de nós, Cal executa os passos como me ensinou e conduz Evangeline. Ela é bem melhor que eu, toda graciosidade e beleza. Mais uma vez, sinto como se caísse.
Rodopiamos pela pista em sincronia com a música, cercados por espectadores frios. Já consigo identificar os rostos. Conheço as Casas, as cores, os poderes e as histórias. A quem temer, de quem ter pena. Observam com olhos vorazes, e sei por quê. Pensam que somos o futuro, Cal, Maven, Evangeline e mesmo eu. Pensam assistir a um rei e uma rainha, a um príncipe e a uma princesa. Mas se trata de um futuro que pretendo não deixar acontecer.
Em meu mundo perfeito, Maven não precisaria esconder seus sentimentos, e eu não precisaria esconder quem sou de verdade. Cal não teria coroa para usar, nem trono para proteger. Essas pessoas não teriam paredes atrás das quais se esconder.
A aurora chega para todos vocês.
Dançamos ao som de duas outras canções, e então outros casais entram na pista. O turbilhão de cores impede qualquer visão de Cal e Evangeline, e chego a ter a impressão de que Maven e eu estamos a sós. Por um instante, o rosto de Cal paira diante de mim, substitui o do irmão, e penso ter voltado à sala de ontem.
Mas Maven não é Cal, não importa o quanto seu pai deseje isso. Não é soldado, não será rei, mas é mais corajoso. E quer fazer o que é certo.
— Obrigada, Maven — meu sussurro é quase inaudível ao som daquela música horrível.
Ele não precisa perguntar para saber do que falo.
— Não precisa me agradecer.
Sua voz carrega uma estranha gravidade e quase vacila. Seus olhos estão melancólicos.
— Nunca — finaliza.
Este é o momento em que estamos mais próximos; meu nariz está a centímetros do seu.
“Maven saiu como a mãe”, Julian disse uma vez. Não poderia estar mais errado.
Ele nos conduz para a beira da pista de dança, agora apinhada de lordes e suas senhoras. Ninguém notará nossa saída.
— Bebida? — oferece um criado, estendendo-nos uma bandeja com copos cheios de um líquido dourado espumante.
Dispenso-o antes de reconhecer seus olhos verdes. E então preciso morder a língua para não pronunciar seu nome em voz alta. Kilorn.
É estranho, mas o uniforme vermelho lhe cai bem, e pela primeira vez ele deu um jeito de limpar a sujeira do rosto. Parece que o aprendiz de pescador que conheci desapareceu completamente.
— Esta roupa pinica — ele resmunga bem baixo.
Talvez não completamente.
— Bom, você não passará muito mais tempo com ela — comenta Maven. — Está tudo certo?
Kilorn assente, com um olhar que atravessa a multidão.
— Estão todos prontos lá em cima.
Acima de nós, os sentinelas preenchem um patamar que circunda as paredes. Mas acima deles, nos nichos das janelas e nas pequenas sacadas próximas ao teto, há sombras que estão longe de serem sentinelas.
— Você só precisa dar o sinal — complementa Kilorn, ainda com a bandeja de cálices na mão.
Maven emproa o corpo e me toca com o ombro.
— Mare?
É minha vez.
— Estou pronta — confirmo baixo, recordando o plano que Maven me confidenciou umas noites atrás.
Tremendo, deixo a vibração familiar da eletricidade fluir em meu corpo, até sentir cada luz e cada câmera sobre nós. Ergo a taça e bebo com intensidade.
Kilorn rapidamente pega o cálice de volta.
— Um minuto. — Sua voz soa tão definitiva.
Ele e sua bandeja desaparecem num estalar de dedos, se esgueirando pela multidão até que o perco de vista. Corra, rezo, na esperança de que ele seja rápido o bastante. Maven também se retira, encarregado de cumprir sua tarefa ao lado da mãe.
Caminho até o centro da multidão. A sensação da eletricidade está a ponto de explodir. Mas não posso liberá-la ainda. Não até começarem. Trinta segundos.
A figura do rei Tiberias surge diante de mim, sorridente na companhia do filho predileto. Parece estar na terceira taça de vinho e suas bochechas se tingem de prata, ao passo que Cal beberica comedidamente um copo d’água. À minha esquerda, em algum lugar, soa a risada cortante de Evangeline, que provavelmente está com o irmão. Por todo o salão, as pessoas respiram, algumas pela última vez.
Deixo as batidas do meu coração contarem os últimos segundos. Cal me descobre em meio à multidão, abre o sorriso que amo e começa a vir em minha direção. Mas não chegará até mim, não até o ataque acontecer. O mundo desacelera. Sinto apenas a força dentro das paredes. Como no treinamento, como nas aulas de Julian, estou aprendendo a controlá-la.
Quatro disparos ecoam pelo ar ao mesmo tempo que se vê o clarão produzido pelas armas lá no alto.
Os gritos vêm em seguida.

35 comentários:

  1. VERMELHOS COMO A AURORA!
    ~polly~

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    1. Ai meu deus que ansiedade.

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    2. VERMELHOS COMO A AURORA!

      Letícia.

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    3. VERMELHOS COMO A AURORA!


      Denise

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    4. imagina o filme desse livri... show de mais!!!

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  2. Cara!! já disse que não confio no maven ??? pois é, não confio...

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    1. EU TAMBEM NÃO, AS VEZES ELE PARECE MEIO PSICOPATA IGUAL A MAE.

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    2. Somos duas... Por isso, mesmo o achando um fofo, não o shippo com ela :|

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    3. Pra mim ele quer o trono.

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    4. “Maven saiu como a mãe” Essa frase do Julian não sai da minha cabeça, sem falar na "Todo mundo trai todo mundo"... Maven pode ser um lobo em pele de cordeiro.
      X Maysa

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    5. ESTA NA CARA, E NAS ENTRELINHAS QUE VAI DA MERDA PARA ELA POR CAUSA DELE.

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    6. Também não confio nele. A pior coisa foi a Guarda recrutar os dois ao mesmo tempo. Acho que ele está fazendo isso pra seu próprio bem. Não confio em ninguém tão invejoso assim

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    7. Até que enfim achei pessoas que ñ gostam do Maven.... Achei que era só eu

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  3. Infelizmente, não sinto a mesma intensidade e confiança que mare sente, quanto a maven.

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  4. "E vamos nos levantar, vermelhos como a aurora."

    Esse livro é muito LEGAL, NÃO, INCRÍVEL, ESTE LIVRO É INCRÍVEL!!!

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  5. Gente q suspense!! Mavem está fazendo td isso a pedido da mãe ou tem inveja de Cal e quer o trono.. Que duvida!! ~ Deby~~

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  6. Vermelhos como a aurora

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  7. VERMELHOS COMO A AURORA

    Flavia

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  8. Não consigo deixar de pensar que ela está cometendo um erro, confiando em quem não devia, e sei lá, eu não acredito nessa de o sacrifício vai valer a pena, parcem estar a penas substituindo um governante insensível, que não da valor a vjda dos vermelhos, por um governante insensível que não da valor a vida dos pratas, Ela tinha era que ter ouvido Julian quando ele disse que esse é um péssimo geito de fazer uma revolução. Dor so causa dor pelo amor de Tupã esse povo não aprendeu isso ainda?

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  9. Cara, n queria que a coronel e o Belicos morressem. Tanto fazia os outros antipáticos mas, cara, a coronel era legal e poderia ser até um coringa bem vindo. Um dia ela poderia até entrar para a Guarda, ou ao menos ser uma aliada.

    Ass.: Mutta Chase Herondale

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    1. Concordo , os outros até vai , mas ela parece BOA e o Bélicos tbm , que dizer ele é pai e um bom pai. E eu n confio muito no Maven n . Shippoela com o Cal , mas tbm me preocupo se o traidor for ele afinal " td mundo trai td mundo"

      Ass: Apaixonada por livros

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  10. "Observam com olhos vorazes" juro que li jogos vorazes

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  11. Vamos nos levantar, vermelhos como aurora!

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  12. Gente, amo o marvem em alguns momentos, mas desconfio mt dele, principalmente depois q o julian falou aquelas coisas.
    #desconfiada

    Obs: tenho mó medo do kilorn morrer. Os autores sempre matam quem a gente gosta

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  13. Algumas pessoas estão comparando esse ao A Seleção, mas não acho não.
    A Seleção tem mais romance que outra coisa
    Já a Rainha tem mais ação,o romance tá em segundo plano até agora ou até terceiro.Tem as intrigas tbm.
    Tá mais para Jogos Vorazes, Divergente e me atrevo a dizer...Um esboço de GOT .
    TÔ AMANDO 😄😍😍😍

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  14. Será q marven deu aqueles Nones mesmo? Humm muito suspeito.

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  15. Esse vermelho como a aurora não me convence e cont contra Maven.

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  16. VERMELHOS COMO A AURORA!!!!!

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  17. to achando que esse negocio de Guarda Vermelha vai dar merda ou é roubada

    - Larissa

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  18. Eu amo o Marvin, mas nao confio completamente nele!

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Boa leitura :)