15 de março de 2017

Capítulo dez

Mare

RASGO TODOS OS LIVROS NA MINHA ESTANTE, despedaçando-os até não restar nada. As capas se soltam, as páginas se dilaceram. Quero que sangrem. Queria poder sangrar.
Ela está morta e eu não. Porque ainda estou aqui, uma isca numa armadilha, um chamariz para tirar a Guarda Escarlate de seu santuário.
Depois de algumas horas de destruição inútil, percebo que estou errada. A Guarda Escarlate não faria isso. Não o coronel, não Farley, não por mim.
— Cal, seu cretino, seu idiota — digo para ninguém.
Porque é óbvio que isso foi ideia dele. É o que o príncipe aprendeu. Vitória a todo custo. Tomara que não continue a pagar esse preço impossível por mim.
Lá fora, está nevando de novo. Não sinto o frio externo, apenas o meu.


De manhã, acordo na cama, ainda de vestido, embora não lembre de ter levantado do chão. Os livros destruídos também desapareceram, varridos meticulosamente para fora da minha vida. Até os menores pedacinhos de papel despedaçado. Mas as prateleiras não estão vazias. Uma dúzia de volumes de capa dura, novos e velhos, ocupam os espaços. O impulso de destruir todos me consome e levanto aos tropeços, avançando contra eles.
O primeiro que pego está em frangalhos, com a capa arrancada e envelhecida. Acho que era amarela, talvez dourada. Não importa. Abro e pego um maço de páginas, pronta para rasgá-lo em pedaços como fiz com os outros.
A letra familiar me faz parar. Meu coração salta ao reconhecê-la.
Propriedade de Julian Jacos.
Meus joelhos cedem. Caio com um baque surdo, debruçada sobre o objeto mais reconfortante que vejo em semanas. Meus dedos traçam as linhas de seu nome, desejando que ele pudesse surgir ali, querendo ouvir sua voz em algum lugar além da minha mente. Folheio as páginas, procurando mais evidências dele. Passo os olhos pelas palavras, todas ecoando o conforto que ele me traz. Percorro a história de Norta, de sua formação e de trezentos anos de reis e rainhas prateados. Algumas partes estão sublinhadas. Ele fez anotações. Cada nova interferência de Julian faz meu peito apertar de felicidade. Apesar da minha situação, das cicatrizes dolorosas, sorrio.
Os outros livros são iguais. Todos de Julian, parte de sua coleção muito maior.
Tateio todos como uma menina faminta. Ele preferia os livros de história, mas tinha de ciências também. Até um romance. Esse tem dois nomes dentro. De Julian, para Coriane. Encaro as letras, a única evidência da mãe de Cal em todo o palácio. Coloco-o de volta com cuidado, demorando os dedos na lombada intacta. Ela nunca leu. Talvez não tenha tido a chance.
No fundo, odeio que esses livros me façam tão feliz. Odeio que Maven me conheça a ponto de saber o que me dar. Porque sem dúvida isso veio dele. O único pedido de desculpa que poderia oferecer, o único que eu poderia aceitar. Mas não aceito. É claro que não. Tão rápido quanto veio, meu sorriso se desfaz. Não posso me permitir sentir nada além de ódio quando se trata do rei. Suas manipulações não são tão perfeitas quanto as da mãe, mas ainda assim as sinto e não vou me deixar levar por elas.
Por um segundo, considero despedaçar os livros como fiz com os outros. Mostrar a Maven o que penso do seu presente. Mas simplesmente não consigo. Meus dedos se demoram nas páginas, tão fáceis de rasgar. E então os coloco na prateleira com cuidado, um por um.
Não vou destruí-los, então me contento em fazer isso com o vestido, despedaçando o tecido incrustado de rubis em volta do meu corpo.
Alguém como Gisa deve ter feito a roupa. Uma criada vermelha com mãos habilidosas e olho de artista costurou perfeitamente algo tão belo e terrível que apenas uma prateada poderia usar. Esse pensamento deveria me deixar triste, mas é apenas raiva que corre no meu sangue. Não tenho mais lágrimas. Não depois de ontem.
Quando o traje seguinte é entregue por Trevo e Tigrina, ambos de cara amarrada, visto sem hesitar ou reclamar. A blusa é pontilhada por um tesouro de rubis, granadas e ônix, com longas mangas pendentes riscadas de seda preta. A calça também é um presente, larga o bastante para parecer quase confortável.
A curandeira Skonos vem na sequência. Concentra seus esforços nos meus olhos, curando o inchaço e a dor de cabeça latejante causados pelas lágrimas de frustração da noite anterior. Assim como Sara, ela é quieta e habilidosa; seus dedos negro-azulados tremulam pelas minhas dores. Ela trabalha rápido. Eu também.
— Você consegue falar ou a rainha Elara também cortou a sua língua?
A curandeira sabe a que me refiro. Seu olhar vacila, os cílios flutuam em piscadas rápidas de surpresa. Mesmo assim, não abre a boca. Foi bem treinada.
— Boa decisão. A última vez que vi Sara foi quando a resgatei de um presídio. Parece que nem perder a língua foi punição suficiente para ela. — Olho atrás dela, na direção de Trevo e Tigrina, que me vigiam. Assim como a curandeira, concentram-se em mim. Sinto o reverberar frio da habilidade deles, pulsando de maneira ritmada com o silenciamento constante das minhas algemas. — Tinha centenas de prateados lá dentro. Muitos das Grandes Casas. Algum amigo de vocês desapareceu recentemente?
Não tenho muitas armas neste lugar. Mas preciso tentar.
— Cala a boca, Barrow — Trevo resmunga.
Fazer com que ela abra a boca já é uma vitória para mim. Pressiono.
— Acho estranho que ninguém se importe que o reizinho seja um tirano com sede de sangue. Mas, enfim, sou vermelha. Não entendo nada do seu povo.
Dou risada quando Trevo, enfurecida, me empurra para longe da curandeira.
— Chega de cura para ela — Trevo sibila, me arrastando da sala. Seus olhos verdes faíscam de fúria, mas também de confusão. Dúvidas. Pequenas fendas em que pretendo meter o dedo.
Ninguém mais deve correr o risco de me resgatar. Preciso fazer isso sozinha.
— Ignore a menina — Tigrina murmura para a colega, com a voz aguda e ofegante, pingando veneno.
— Que honra deve ser pra vocês duas. — Continuo falando enquanto me guiam pelos longos corredores que reconheço. — Ser babá de uma pirralha vermelha. Recolher o prato das refeições, arrumar o quarto. Tudo para que Maven possa ter a bonequinha dele quando quiser.
Isso só as deixa mais furiosas e brutas. Elas apertam o passo, obrigando-me a acompanhar. De repente, viramos à esquerda em vez da direita, para outra parte do palácio de que me lembro vagamente. São os corredores residenciais, onde mora a realeza. Já vivi aqui, mesmo que por pouquíssimo tempo.
Meu coração acelera quando passamos por uma estátua numa alcova que eu imediatamente reconheço. Meu quarto — meu antigo quarto — fica a poucas portas de distância. O de Cal e o de Maven também.
— Não tão falante agora — Trevo diz, com a voz parecendo distante.
Raios de luz atravessam as janelas, reforçados pelo reflexo na neve recente. Isso não me consola. Consigo lidar com Maven na sala do trono, em seu escritório, quando estou à mostra. Mas sozinha — sozinha de verdade? Sob minhas roupas, sua marca ainda queima.
Quando paramos numa porta e entramos num salão, percebo que estou errada. O alívio toma conta de mim. Maven é rei agora. Seus aposentos não são mais aqui. Mas os de Evangeline, sim.
Ela está sentada no centro do salão estranhamente vazio, cercada por pedaços de metal retorcido. Eles variam em cor e material — ferro, bronze, cobre. Suas mãos trabalham diligentes, moldando flores de cromo, curvando-as numa fita trançada de ouro e prata. Outra coroa para sua coleção. Outra coroa que ela ainda não pode usar.
Dois criados aguardam seus comandos. Um homem e uma mulher, com roupas simples, marcadas com as cores da Casa Samos. Levo um choque ao me dar conta de que são vermelhos.
— Deixem-na apresentável, por favor — Evangeline diz, sem se dar ao trabalho de erguer os olhos.
Os vermelhos obedecem, levando-me para o único espelho na sala. Enquanto olho, percebo que Elane também está aqui, relaxando num longo sofá sob um raio de sol feito um gato contente. Ela me encara sem dúvida ou medo, apenas com desinteresse.
— Podem esperar lá fora — Elane diz quando quebra o contato visual, voltando-se para minhas guardas Arven. Seu cabelo ruivo reflete a luz, ondulando como fogo líquido. Embora eu tenha uma desculpa para minha aparência horrível, ainda me sinto envergonhada na presença dela.
Evangeline faz um aceno e as Arven saem em fila. Ambas lançam olhares descontentes na minha direção. Guardo-os para apreciar depois.
— Alguém poderia me explicar o que está acontecendo? — pergunto à sala silenciosa, sem esperar resposta.
As duas dão risada, trocando olhares incisivos. Aproveito a oportunidade para avaliar a sala e a situação. Tem outra porta ali, que provavelmente leva ao quarto de Evangeline. As janelas estão todas fechadas para nos proteger do frio. O aposento dela dá para um pátio que reconheço e me dou conta de que minha cela deve ficar do outro lado, de frente para o quarto dela. A descoberta me dá um calafrio.
Para minha surpresa, Evangeline derruba sua obra com estrépito. A coroa se despedaça, incapaz de manter a forma sem a habilidade dela.
— É dever da rainha receber convidados.
— Bom, eu não sou convidada e você não é rainha, então…
— Se ao menos seu cérebro fosse tão rápido quanto sua boca — ela retruca.
A vermelha pestaneja, estremecendo como se nossas palavras pudessem feri-la. Na verdade podem, e decido ser menos idiota. Mordo o lábio para impedir que outros pensamentos tolos escapem, deixando que os dois criados trabalhem. O homem cuida do meu cabelo, escovando-o e enrolando-o numa espiral, enquanto ela cuida do meu rosto. Ela usa blush, sombra preta e um vermelho chamativo nos meus lábios. Uma visão espalhafatosa.
— Isso basta — Elane diz atrás dela. Os vermelhos recuam rápido, deixando as mãos caírem e abaixando a cabeça. — Não pode parecer bem tratada demais. Os príncipes não vão entender.
Meus olhos se arregalam. Príncipes. Convidados. Na frente de quem vão me fazer desfilar agora?
Evangeline nota. Ela bufa alto, lançando uma flor de bronze contra Elane. A flor se crava na parede sobre a cabeça dela, que parece não ligar. Apenas solta um suspiro sonhador.
— Cuidado com o que você fala, Elane.
— Ela vai descobrir daqui a pouco, querida. Que mal tem? — Elane levanta das almofadas, estendendo os braços e pernas longos, que brilham com sua habilidade. Os olhos de Evangeline acompanham todos os seus movimentos, aguçando-se quando Elane atravessa a sala até mim.
Ela surge ao meu lado no espelho, olhando meu rosto.
— Você vai se comportar hoje, não vai?
Me pergunto quanto tempo demoraria para Evangeline me esfolar se eu desse uma cotovelada nos dentes perfeitos de Elane.
— Vou.
— Que bom.
E então ela desaparece, apagada da visão, mas não do tato. Ainda sinto sua mão sobre meu ombro. Um alerta.
Olho onde estava o corpo de Elane, na direção de Evangeline. Ela se levanta do chão, com o vestido se estendendo à sua volta, líquido como mercúrio. Talvez até seja mercúrio.
Quando vem na minha direção, não consigo deixar de me encolher. Mas a mão de Elane me impede de me mexer, obrigando-me a permanecer firme e deixar que Evangeline se debruce sobre mim. Ela ergue um canto da boca. Gosta de me ver assustada. Quando levanta a mão e estremeço, sorri abertamente. Mas, em vez de me bater, ajeita uma mexa de cabelo atrás da minha orelha.
— Não se engane, isso é tudo para o meu bem — ela diz. — Não para o seu.
Não faço ideia do que está falando, mas concordo com a cabeça.


Evangeline não nos guia na direção da sala do trono, mas para os cômodos privados do conselho. Os sentinelas que protegem as portas parecem mais imponentes que de costume. Quando entro, percebo que também estão guardando as janelas. Uma precaução adicional depois da infiltração de Nanny.
Da última vez que passei por esta sala, estava vazia exceto por Jon. Ele ainda está aqui, quieto em seu canto, despretensioso ao lado de meia dúzia de outras pessoas.
Estremeço ao ver Volo Samos, uma aranha quieta de preto ao lado do filho, Ptolemus. Obviamente, Samson Merandus também está aqui. Ele me encara e abaixo os olhos, evitando seu olhar como se pudesse me proteger da memória dele rastejando dentro do meu cérebro.
Penso que vou encontrar Maven sozinho na ponta da mesa de mármore, mas dois homens estão ao seu lado. Ambos vestem peles pesadas e camurça, prontos para suportar o frio ártico embora estejamos bem protegidos do inverno. Eles têm a pele escura, de um preto-azulado como pedra polida. O homem à direita tem pedrinhas de ouro e turquesa cravejadas nas voltas intrincadas de suas tranças, enquanto o da esquerda possui longos cachos cintilantes cobertos por uma coroa de flores talhadas em quartzo branco. Da realeza, obviamente. Mas não da nossa. Não de Norta.
Maven ergue a mão, apontando para Evangeline enquanto se aproxima. Sob a luz do sol de inverno, ela cintila.
— Minha noiva, Lady Evangeline da Casa Samos — ele diz. — Ela foi crucial na captura de Mare Barrow, a garota elétrica, líder da Guarda Escarlate.
Evangeline representa seu papel, fazendo uma reverência. Os dois abaixam a cabeça em resposta, com movimentos longos e fluidos.
— Nossos parabéns, Lady Evangeline — diz aquele com a coroa. Ele estende a mão, buscando a dela. Evangeline deixa que beije seus dedos, radiante com a atenção.
Quando me encara, percebo que quer que eu me junte a ela. Obedeço, relutante. Intrigo os dois recém-chegados, que me observam com fascínio. Me recuso a abaixar a cabeça.
— É essa a garota elétrica? — diz o outro príncipe. Seus dentes cintilam brancos como a luz contra sua pele escura como a noite. — É ela que está causando tantos problemas? E você deixa que viva?
— É óbvio que deixa — diz seu compatriota. Ele levanta e percebo que deve ter mais de dois metros de altura. — É uma isca maravilhosa. Mas fico surpreso que os terroristas não tenham tentado um resgate de verdade, se ela é tão importante quanto você diz.
Maven dá de ombros, exalando uma satisfação silenciosa.
— Minha corte é bem protegida. Infiltrações são quase impossíveis.
Olho de soslaio para ele, encontrando seus olhos. Mentiroso. Maven quase chega a sorrir, como se fosse uma piada interna entre nós. Resisto ao velho impulso de cuspir na cara dele.
— Em Piedmont, nós a faríamos marchar pelas ruas — diz o príncipe com a coroa de quartzo. — Para mostrar aos cidadãos o que acontece com gente como ela.
Piedmont. A palavra ecoa como um sino na minha cabeça. Então os príncipes são de lá. Vasculho o cérebro, tentando lembrar o que sei sobre o país. Fica na fronteira sul e é aliado de Norta. É governado por um conjunto de príncipes. Sei disso por causa das aulas de Julian. Mas sei de outras coisas também. Lembro que encontrei remessas em Tuck, provisões roubadas de Piedmont. E a própria Farley insinuou que a Guarda Escarlate estava se expandindo para lá, com a intenção de espalhar a revolução pelo aliado mais próximo de Norta também.
— Ela fala? — o príncipe continua, alternando o olhar entre Maven e Evangeline.
— Infelizmente — ela responde com um sorriso perverso e afiado.
Os príncipes riem e Maven também. O resto da sala segue o exemplo, bajulando seu soberano.
— Vocês não queriam ver a prisioneira, príncipe Daraeus e príncipe Alexandret? — Maven passa os olhos por eles. Representa com orgulho o papel de rei, apesar dos dois nobres terem o dobro da sua idade e do seu tamanho. De alguma forma, ele os encara. Elara o treinou muito bem. — Agora viram.
Alexandret, já muito perto, me pega pelo queixo com as mãos macias. Não sei qual é sua habilidade. Não faço ideia do medo que deveria sentir dele.
— De fato, majestade. Mas temos algumas perguntas, se tiver a bondade de permiti-las.
Embora formule a frase como um pedido, não é nada menos do que uma exigência.
— Majestade, já lhe contei o que ela sabe — Samson ergue a voz em sua cadeira, debruçando-se sobre a mesa para apontar para mim. — Nada na mente de Mare Barrow escapou da minha busca.
Eu concordaria com a cabeça, mas a mão de Alexandret me mantém imóvel. Ergo os olhos para ele, tentando deduzir exatamente o que quer de mim. Seus olhos são abismais, indecifráveis. Não conheço esse homem e não encontro nada nele que possa usar. Minha pele se arrepia ao seu toque e sinto falta da minha eletricidade para nos distanciar. Por cima do ombro dele, Daraeus se move para ver melhor. As pedrinhas de ouro refletem a luz do inverno, enchendo seu cabelo de um brilho fascinante.
— Rei Maven, gostaríamos de ouvir da boca dela — Daraeus diz, aproximando-se dele. Então sorri, com tranquilidade e carisma. Daraeus é bonito e se aproveita disso.
— É uma exigência do príncipe Bracken, você entende. Precisamos de alguns poucos minutos.
Alexandret, Daraeus, Bracken. Gravo esses nomes na memória.
— Perguntem o que quiserem. — As mãos de Maven seguram firme a beira do assento. Nenhum deles para de sorrir e nada nunca me pareceu tão falso. — Agora mesmo.
Depois de um longo momento, Daraeus aceita. Ele inclina a cabeça em uma reverência respeitosa.
— Muito bem, majestade.
Então seu corpo se turva, movendo-se tão rápido que mal consigo ver os movimentos. De repente, ele surge ao meu lado. Lépido. Não pode saltar como meu irmão, mas é rápido o bastante para fazer um choque de adrenalina percorrer meu corpo. Ainda não sei o que Alexandret consegue fazer. Apenas torço para que não seja um murmurador, para que eu não tenha de enfrentar aquela tortura outra vez.
— A Guarda Escarlate está operando em Piedmont? — Alexandret pergunta enquanto se assoma sobre mim, os olhos escuros fixos nos meus. Ao contrário de Daraeus, ele não sorri.
Fico no aguardo da pontada familiar de outra mente invadindo a minha. Nunca chega. As algemas — elas não permitem que nenhuma habilidade penetre meu casulo de silêncio.
Minha voz embarga.
— O quê?
— Quero ouvir o que sabe sobre as operações da Guarda Escarlate em Piedmont.
Todos os interrogatórios a que fui submetida foram realizados por um murmurador. É estranho que alguém faça perguntas livremente e confie nas minhas respostas em vez de entrar na minha cabeça. Imagino que Samson já tenha contado aos príncipes tudo o que descobriu comigo, mas eles não confiam no que ele diz. Por isso querem verificar se nossas histórias batem.
— A Guarda Escarlate é boa em guardar segredos — respondo, com os pensamentos turvos. Estou mentindo? Estou jogando mais lenha na fogueira de desconfiança entre Maven e Piedmont? — Não me deram muitas informações sobre as operações deles.
— Suas operações. — Alexandret franze a sobrancelha, formando uma ruga funda no centro da testa. — Você era a líder deles. Me recuso a acreditar que possa ser tão inútil para nós.
Inútil. Há dois meses, eu era a garota elétrica, uma tempestade em forma de gente. Mas, antes, eu era exatamente isso. Inútil para tudo e todos, até para meus inimigos.
Nos tempos de Palafitas, odiava isso. Agora, fico grata. Sou uma péssima arma para ser empunhada por um prateado.
— Não sou líder deles — digo. Atrás de mim, ouço Maven se agitar na cadeira. Torço para que esteja se contorcendo. — Nunca conheci os líderes.
Ele não acredita em mim. Tampouco acredita no que lhe falaram antes.
— Quantos dos seus agentes estão em Piedmont?
— Não sei.
— Quem financia suas atividades?
— Não sei.
Começa como um formigamento nos meus dedos. Uma sensação minúscula. Nem agradável nem incômoda. Como quando o braço fica dormente. Alexandret não solta meu queixo em momento algum. As algemas vão me proteger dele, digo a mim mesma. Têm que me proteger.
— Onde estão o príncipe Michael e a princesa Charlotta?
— Não sei quem são essas pessoas.
Michael, Charlotta. Mais nomes para memorizar. O formigamento continua, agora em meus braços e pernas. Solto o ar entredentes.
Seus olhos se estreitam em concentração. Me preparo para uma explosão de dor causada pela habilidade a que ele vai me sujeitar, seja qual for.
— Você teve algum contato com a República Livre de Montfort?
O formigamento é suportável. O que dói mesmo é o aperto no meu queixo.
— Sim — deixo escapar.
Então ele recua, me soltando com um sorriso desdenhoso. Olha para meus punhos, então ergue a manga com força para ver minhas amarras. O formigamento em meus braços e pernas diminui. O príncipe fecha a cara.
— Majestade, gostaria de questioná-la sem as algemas de Pedra Silenciosa.
— Outra exigência disfarçada de pedido.
Desta vez, Maven nega. Sem minhas algemas, sua habilidade seria ilimitada. Deve ser muito forte para ter penetrado mesmo que um pouco por minha jaula de silêncio. Eu seria torturada. De novo.
— Não, alteza. Ela é perigosa demais para isso — Maven diz com um breve aceno da cabeça. Apesar de todo o meu ódio, sinto alguma gratidão. — E, como você disse, ela é valiosa. Não posso deixar que a destrua.
Samson não tenta esconder a repulsa.
— Alguém deveria fazer isso.
— Tem mais alguma coisa que eu possa fazer por vossas altezas ou pelo príncipe Bracken? — Maven insiste, falando mais alto que seu primo diabólico. Ele levanta da cadeira, usando uma mão para alisar o uniforme cravejado de medalhas e distintivos de honra. Mas mantém a outra no assento, como uma garra em volta do braço de Pedra Silenciosa. É sua âncora e seu escudo.
Daraeus faz uma reverência profunda pelos dois príncipes, sorrindo de novo.
— Ouvi boatos de um banquete.
— Por incrível que pareça — Maven diz com um sorriso viperino para mim —, dessa vez os boatos são verdadeiros.


Lady Blonos nunca me ensinou como entreter a realeza de uma nação aliada. Já vi banquetes antes, bailes, uma Prova Real que estraguei sem querer, mas nunca nada como isso. Talvez porque o antigo rei não se importasse tanto com as aparências, mas Maven é sua mãe encarnada. Parecer poderosos os torna poderosos. Hoje ele segue a lição à risca. Seus conselheiros, seus convidados de Piedmont e eu estamos sentados a uma mesa longa, de onde dá para ver todo o resto.
Nunca pus os pés neste salão de festa antes. A sala do trono, as galerias e as salas de banquete do resto de Whitefire parecem minúsculas perto dele. Acomoda facilmente toda a corte reunida, todos os nobres e suas famílias. O aposento tem três andares e janelas enormes de cristal e vidro colorido, representando as cores de cada uma das Grandes Casas. O resultado é uma dezena de arco-íris cobrindo o piso de mármore e granito preto; cada raio de luz forma um prisma que vai mudando de acordo com as faces de diamante dos lustres esculpidos em forma de árvores, pássaros, raios de sol, constelações, tempestades, incêndios, furacões e dezenas de outros símbolos da força prateada. Eu passaria toda a refeição admirando o teto se não fosse pela minha situação precária. Pelo menos não estou ao lado de Maven desta vez. Os príncipes vão ter que suportá-lo hoje. Mas Jon está à minha esquerda e Evangeline, à minha direita.
Mantenho os cotovelos bem próximos do corpo, sem querer tocar em nenhum deles por acidente. Ela pode me esfaquear e ele pode vir com mais alguma premonição nauseante.
Por sorte, a comida é boa. Me obrigo a comer e a ficar longe do licor. Criados vermelhos circulam e nenhum copo fica vazio. Depois de dez minutos tentando chamar a atenção de algum deles, desisto da tentativa. Eles são espertos e não estão dispostos a arriscar a vida olhando na minha direção.
Mantenho os olhos fixos à frente, contando as mesas e as Grandes Casas. Estão todas aqui. A Casa Calore é representada apenas por Maven. Ele não tem nenhum outro parente que eu conheça, mas desconfio que devem existir. Assim como os criados, devem ser espertos o bastante para evitar sua fúria invejosa e seu frágil controle do trono.
A Casa Iral parece menor, apagada apesar de seus trajes vibrantes, azuis e vermelhos. Não há muitos deles e me pergunto quantos não foram enviados ao presídio de Corros. Ou quantos fugiram da corte. Sonya ainda está aqui, porém, com a postura elegante e treinada, mas estranhamente tensa. Ela trocou o uniforme de agente por um vestido de gala cintilante e está sentada ao lado de um homem mais velho, com um colar resplandecente de rubis e safiras. Provavelmente o novo líder da Casa, visto que sua predecessora, a Pantera, foi assassinada por um homem sentado a poucos metros de distância. Queria saber se Sonya contou à família o que falei sobre sua avó e Ptolemus.
Queria saber se eles dão a mínima.
Levo um sobressalto quando Sonya ergue os olhos incisivos, fixando-os nos meus. Ao meu lado, Jon solta um suspiro longo e baixo. Pega sua taça de vinho escarlate com uma mão e deixa a faca na mesa com a outra.
— Mare, pode me fazer um favorzinho? — ele diz, com calma.
Até sua voz me enoja. Viro para ele com todo o veneno e desprezo que consigo.
— O quê?
Algo estala e uma dor queima na minha bochecha, cortando a pele, queimado a carne. Me retraio com a sensação, caindo de lado, me encolhendo feito um animal assustado. Meu ombro colide com Jon e ele se inclina para a frente, derrubando água e vinho sobre a toalha de mesa elegante. Sangue também. Muito sangue. Eu o sinto, quente e úmido, mas não olho para baixo para ver a cor. Meus olhos estão em Evangeline, levantando da mesa com o braço estendido.
Uma bala tremula no ar diante dela, mantida imóvel. Imagino que seja igual à que cortou minha bochecha — e poderia ter causado um estrago muito maior.
Seu punho se cerra e a bala ricocheteia de volta para onde veio, seguida por lascas de aço frio que saem explodindo do vestido dela. Observo horrorizada conforme vultos azuis e vermelhos trespassam a tempestade metálica, desviando, caindo, evitando os golpes. Eles chegam a pegar pedaços dos projéteis de metal dela e os atirar de volta, recomeçando o ciclo numa dança reluzente e violenta.
Evangeline não é a única a atacar. Os sentinelas avançam, subindo na mesa alta, formando uma muralha diante de nós. Seus movimentos são perfeitos, graças a anos de treinamento incansável. Mas há buracos nas suas fileiras. Alguns tiram as máscaras, jogando de lado os uniformes flamejantes. Eles se voltam uns contra os outros.
As Grandes Casas fazem o mesmo.
Nunca me senti tão exposta, tão indefesa, e isso é dizer muito. À minha frente, deuses estão duelando. Meus olhos se arregalam, tentando ver tudo. Tentando entender isso. Nunca imaginei algo assim. Uma batalha de arena no meio de um salão de festa. Joias em vez de armaduras.
Iral, Haven e Laris com seu amarelo vibrante parecem estar do mesmo lado. Eles se protegem, ajudam uns aos outros. Os dobra-ventos de Laris lançam os silvos de Iral de um lado para o outro do salão com rajadas fortes, usando-os como flechas vivas enquanto os Iral atiram com armas de fogo e lançam facas com uma precisão letal. Os Haven desapareceram por completo, mas alguns sentinelas à nossa frente caem, derrubados por ataques invisíveis.
E o resto… o resto não sabe o que fazer. Alguns — Samos, Merandus, a maioria dos guardas e sentinelas — se agrupam na mesa alta, correndo para defender Maven, que não consigo ver. Mas a maioria recua, surpresa, traída, sem querer chafurdar nessa bagunça e arriscar a própria vida. Eles se defendem e mais nada. Observam para ver a direção da maré.
Meu coração salta no peito. Esta é minha chance. No meio do caos, ninguém vai me notar. As algemas não me tiraram os instintos ou talentos de ladra.
Me ergo do chão, sem me preocupar com Maven nem ninguém. Concentro-me apenas no que está à minha frente. A porta mais próxima. Não sei aonde leva, mas vai me tirar daqui, e isso basta. Enquanto corro, pego uma faca da mesa e começo a agir, tentando abrir as algemas.
Alguém foge à minha frente, deixando um rastro de sangue escarlate. Manca, mas se move rápido e entra por uma porta. Jon, percebo. Está escapando. Ele vê o futuro. Certamente sabe a melhor saída daqui.
Não sei se vou conseguir acompanhar seu ritmo.
A resposta surge depois de apenas três passos, quando um sentinela me apanha. Ele puxa meus braços para trás, me segurando firme. Resmungo como uma criança irritada, exasperada de frustração, enquanto minha mão deixa a faca cair.
— Não, não, não — ouço Samson dizer quando entra no meu caminho. O sentinela me segura tão forte que nem consigo me encolher. — Isso não pode acontecer.
Agora entendo do que se trata. Não é um resgate. Não para mim. É um golpe, uma tentativa de assassinato. Eles vieram atacar Maven.
Iral, Haven e Laris não vão conseguir ganhar esta batalha. Estão em menor número e sabem disso. Estão preparados para isso. Os Iral são estrategistas e espiões. Seu plano é bem executado. Já estão fugindo pelas janelas estilhaçadas. Observo, estupefata, enquanto se lançam no céu, pegando carona nos vendavais que os levam para longe. Nem todos conseguem escapar. Os lépidos de Nornus capturam alguns, assim como o príncipe Daraeus, apesar da longa faca cravada em seu ombro. Imagino que os Haven já tenham partido há muito tempo também, embora um ou dois ressurjam no meu campo de visão, sangrando, morrendo, atacados pelo massacre de um murmurador Merandus.
O próprio Daraeus ergue o braço e segura alguém pelo pescoço. Quando ele aperta, um Haven aparece.
Os sentinelas que viraram a casaca, todos das Casas Laris e Iral, tampouco conseguem fugir. Estão ajoelhados, furiosos mas sem medo, determinados. Sem máscara, não parecem tão aterrorizantes.
Um som gorgolejante atrai nossa atenção. O sentinela se vira, deixando que eu veja o centro do que antes era a mesa de banquete. Uma multidão se aglomera onde estava a cadeira de Maven, alguns de guarda, outros ajoelhados. Entre as pernas deles, eu o vejo.
Sangue prateado borbulha de seu pescoço, escorrendo por entre os dedos do sentinela mais próximo, que tenta manter a pressão num ferimento de bala. Os olhos de Maven se reviram e sua boca se move. Ele não consegue falar. Não consegue gritar.
Um som úmido e abafado é tudo o que é capaz de emitir.
É bom que o sentinela continue me segurando. Senão, eu poderia correr até ele. Algo dentro de mim quer se aproximar. Se para terminar o serviço ou consolá-lo durante a morte, eu não sei. Desejo as duas coisas em igual medida. Quero olhar em seus olhos e vê-lo me deixar para sempre.
Mas não consigo me mover e o jovem rei simplesmente não morre.
A curandeira de pele Skonos, a mesma que me curou, ajoelha ao seu lado. Acho que o nome dela é Wren. Pequena e ágil como um passarinho, ela estala os dedos.
— Tirem a bala; eu cuido dele! — a curandeira grita. — Tirem, agora!
Ptolemus Samos se agacha, abandonando a vigília. Ele contorce os dedos e a bala sai do pescoço de Maven, provocando um novo esguicho prateado. O jovem rei tenta gritar, mas engasga com o próprio sangue.
Com a testa franzida, a curandeira de pele trabalha, mantendo as duas mãos na ferida. Ela se curva como se apoiasse o peso sobre ele. Deste ângulo, não dá para ver a pele de Maven, mas o sangue para de jorrar. A ferida que deveria tê-lo matado se fecha. Músculos, veias e carne se reconstroem, novos em folha. Não fica nenhuma cicatriz além da memória.
Depois de um longo momento assustado, Maven levanta de um salto e chamas explodem de ambas as mãos, fazendo seu séquito recuar. A mesa diante dele vira, empurrada pela força e pela fúria de sua chama. Cai numa pilha estrondosa, espirrando poças de álcool que queimam em chamas azuis. O resto pega fogo, alimentado pela raiva de Maven. E, penso eu, por seu pavor.
Só Volo tem coragem de se aproximar do rei nesse estado.
— Majestade, precisamos tirá-lo daqui…
Com os olhos perversos, Maven se vira. Sobre ele, as lâmpadas nos lustres explodem, derramando chama em vez de faíscas.
— Não tenho motivos para fugir.
Tudo isso em poucos momentos. O salão de festa está em frangalhos, cheio de copos partidos, mesas tombadas e alguns corpos mutilados.
O príncipe Alexandret está entre eles, caído morto em seu lugar de honra com um buraco de bala entre os olhos.
Não lamento sua perda. A habilidade dele era causar dor.


Obviamente, sou a primeira que interrogam. Eu deveria estar acostumada a essa altura.
Exausta, emocionalmente esgotada, caio no chão frio de pedra quando Samson me libera. Respiro com dificuldade, como se tivesse acabado de correr. Tento desacelerar meu coração, parar de ofegar, me segurar a qualquer resquício de dignidade e bom senso. Estremeço quando os Arven recolocam minhas algemas; depois, levam a chave para longe. É um alívio e um fardo ao mesmo tempo. Um escudo e uma jaula.
Dessa vez, voltamos para as câmaras grandiosas do conselho, o salão circular em que vi Walsh morrer para proteger a Guarda Escarlate. Aqui tem mais espaço para julgar as dezenas de assassinos capturados. Os sentinelas seguram os prisioneiros com força, sem permitir qualquer movimento. Maven encara todos do alto de sua cadeira, entre Volo e Daraeus, que parece dividido entre a tristeza e uma fúria raivosa. O outro príncipe de seu país morreu, abatido numa tentativa de assassinato contra Maven. Uma tentativa que, infelizmente, fracassou.
— Ela não sabia nada disso. Nem sobre a revolta das Casas nem sobre a traição de Jon — Samson diz ao salão. A câmara terrível parece pequena, com a maioria das cadeiras vazias e as portas bem trancadas. Apenas os conselheiros mais próximos de Maven permanecem, de vigia, com as engrenagens girando na cabeça.
De sua cadeira, Maven observa com desdém. Ser quase assassinado não parece abalá-lo.
— Não, isso não foi obra da Guarda Escarlate. Eles não agem dessa forma.
— Você não tem como saber isso — Daraeus retruca, deixando para trás seus sorrisos e boas maneiras. — Diga o que quiser, mas não sabe nada sobre eles. Se a Guarda Escarlate se aliou com…
— Corrompeu — Evangeline vocifera de seu lugar, ao lado esquerdo de Maven. Ela não tem uma cadeira no conselho nem um título para chamar de seu e precisa ficar em pé, apesar dos vários assentos vazios. — Deuses não se aliam a insetos, mas podem ser infectados por eles.
— Belas palavras de uma bela garota — Daraeus diz, desprezando-a por completo. Evangeline fica furiosa. — E o resto?
Com um gesto de Maven, o próximo interrogatório começa energicamente. Trio segura firme uma sombria Haven para não fugir. Sem sua habilidade, ela parece apagada, um eco de sua bela Casa. Seu cabelo ruivo está mais escuro, mais opaco, sem o brilho escarlate costumeiro. Quando Samson coloca a mão em sua testa, ela solta um grito agudo.
— Ela está pensando na irmã — Samson diz sem nenhum sentimento além de tédio, talvez. — Elane.
Eu a vi há poucas horas, deslizando pelo salão de Evangeline. Não deu nenhum indício de que sabia de um assassinato iminente. Mas nenhum bom estrategista daria.
Maven também sabe disso. Ele encara Evangeline, furioso.
— Soube que Lady Elane escapou com a maior parte da Casa dela e fugiu da capital — o rei diz. — Você tem alguma ideia de aonde podem ter ido, minha querida?
Ela mantém o olhar à frente, como se caminhasse sobre uma corda que vai se afinando. Mesmo com o pai e o irmão ali, acho que ninguém poderia salvá-la da ira de Maven caso ele estivesse inclinado a estourar.
— Não, por que eu saberia? — Evangeline diz, distraída, examinando as unhas que mais parecem garras.
— Porque ela é noiva do seu irmão e também sua putinha — o rei responde, direto.
Se sente vergonha ou mesmo arrependimento, Evangeline não demonstra.
— Ah, isso. — Ela chega a zombar, desprezando a acusação. — Como poderia arrancar alguma informação de mim? Você se esforça tanto para me manter longe dos conselhos e da política. No máximo, Elane lhe fez um favor me entretendo.
A discussão me faz lembrar de outro rei e de outra rainha: os pais de Maven, discutindo depois que a Guarda Escarlate invadiu uma festa no Palacete do Sol. Um atacando o outro, deixando feridas profundas a serem exploradas mais tarde.
— Então se submeta ao interrogatório, Evangeline, e veremos — ele dispara, apontando com a mão cheia de joias.
— Nenhuma filha minha vai se submeter a nada — Volo declara, embora mal pareça uma ameaça. É apenas um fato. — Ela não participou de nada disso e defendeu você com a própria vida. Sem a ação rápida de Evangeline e do meu filho… Bom, simplesmente dizer isso seria traição. — O velho patriarca franze a testa, enrugando a pele branca, como se o pensamento fosse repulsivo. Como se ele não fosse celebrar caso Maven morresse. — Longa vida ao rei.
No meio do salão, a Haven rosna, tentando empurrar Trio. Ele segura firme, mantendo-a de joelhos.
— Sim, longa vida ao rei! — ela diz, olhando feio para nós. — Tiberias VII! Longa vida ao rei!
Cal.
Maven levanta, batendo os punhos nos braços da cadeira. Penso que o salão vai pegar fogo, mas nenhuma chama brota. Não há como. Não enquanto ele está sentado em Pedra Silenciosa. Seus olhos são as únicas chamas acesas. E, então, devagar, com um sorriso maníaco, o rei começa a rir.
— Tudo isso… por causa dele? — Maven diz, sorrindo perversamente. — Meu irmão assassinou o rei, nosso pai, ajudou a assassinar minha mãe e agora tenta me assassinar. Samson, pode continuar. — Ele inclina a cabeça para o primo. — Não tenho dó nem piedade quando se trata de traidores. Muito menos traidores idiotas.
O restante se vira para ver o interrogatório, para ouvir a Haven revelando segredos de sua facção, seus objetivos, seus planos. Substituir Maven pelo irmão. Tornar Cal o rei que ele nasceu para ser. Fazer tudo voltar a como era antes.
Durante todo o processo, não tiro os olhos do garoto no trono. Ele mantém a máscara. O maxilar cerrado, os lábios pressionados numa linha fina e impiedosa. Os dedos imóveis, as costas eretas. Mas seu olhar vacila. Ele parece distante. E, em sua gola, surge um leve tom cinza, tingindo seu pescoço e a ponta de suas orelhas.
Maven está aterrorizado.
Por um segundo, isso me deixa feliz. Então me lembro: os monstros são mais perigosos quando estão assustados.

25 comentários:

  1. Eu acho que isso é tudo obra da Evangeline pq ela prefere o Cal como marido kkkkk pq ele é mais fácil de controlar, menos maníaco e gato pra caralho.

    ResponderExcluir
  2. Já fazia tempo que eu suspeitava que a Evangeline fosse homossexual ou bissexual e agora se confirmou só achei bem moderno ela pegar a cunhada. Povo evoluído

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Né, bastante! E Ptolemus fica de boas, ainda...
      Tipo Tiberias V, vivendo na corte com o amante, elevando-o à posição de príncipe, sentado lá em cima junto com a rainha... Muito evoluídos

      Excluir
    2. Ka vc me explica seu comentario q eu n entendi a parte final por favor?

      Excluir
    3. Boiei, quem é o amante de Tiberias V? Eu n lembro.

      Excluir
    4. Vc leu A Canção da Rainha? Tiberius Calore V era gay. Seu amante se sentava à mesa real - a mulher de um lado do rei, o amante, do outro

      Excluir
  3. Sempre soube q a Evangeline curtia outro lado

    ResponderExcluir
  4. Que povo moderno esse da casa Samos kkkkkk

    ResponderExcluir
  5. GENTE NÃO SEI POR QUE MAS QUANDO PENSO EM EVANGELINE ME VEM A DAKOTA FANNING A MENTE, ACHO QUE SERIA PERFEITO....

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Nossa, não consigo imaginá-la assim. Na minha cabeça, Evangeline tem cabelos pretos e olhos pretos

      Excluir
    2. O cabelo dela é prata, e ela é muito branca então a Dakota ficaria bem pra personagem na minha opinião. Mas na minha mente a Evangeline também tem cabelo preto! Kkkkkk

      Flavia

      Excluir
    3. Na minha mente mente, a Evangelina é a Katniss :/ não sei por que.
      ~polly~
      — Não, por que eu saberia? — Evangeline diz, distraída, examinando as unhas que mais parecem garras.
      — Porque ela é noiva do seu irmão e também sua putinha — o rei responde, direto." kkkkk

      Excluir
    4. Dakota JÁ tá velha pra fazer Evangeline, eles variam idade entre 17 e 20 anos...

      Excluir
    5. Karina, tbm imagino a Evageline com cabelos pretos.

      Excluir
  6. Eu acho que Cameron e a princesa Charlote e o irmão gêmeo dela é o príncipe Charles

    ResponderExcluir
  7. Ah gente num acho que ele quis dizer putinha nesse sentido, só como alguem que vivia bajulando a Eve. Quanto ao Tiberias V, ele escolheu se casar com a Coriane por amor e não pela prova real.
    #Rapha.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Quem casou com a Coriane foi o Tibérias VI e não o V.

      Excluir
  8. Todo mundo odeia o Maven kkkkkkk

    ResponderExcluir
  9. Tô com um sério medo de no final do livro o Maven se redimir e ficar com a Mare, SÉRIO. Porque ô Casalinho pra se amar, um amor doentio, destrutivo, mas q ambos sentem.

    Esse capítulo foi babadooooooo.
    Não tô entendendo qual é a do Jon, ele salvou a Mare não foi ???? Se ele não tivesse falado com ela, ela não teria se virado na direção dele e a bala ao invés de pegar de raspão teria pegado em cheio e matado ela.

    Só veeeem tretas. Só vem, tá massa.

    Ass: Déborah Alana. Vida longa ao rei Tiberias Calore VII o/

    ResponderExcluir
  10. Porque ela é noiva do seu irmão e também sua putinha — o rei responde, direto

    E o irmão e ela nem se abateram
    Tá parecendo o Olimpo com TD mundo se pegando desse jeito kkkkkk

    ResponderExcluir
  11. Acho que o termo "putinha"significou alguém que bajula e a seguia pra cima e pra baixo. Mas...tudo pode acontecer...

    ResponderExcluir
  12. "Porque ela é noiva do seu irmão e também sua putinha — o rei responde, direto." 😆PUTINHA? ele flou isso mesmos? 😂😂😂😂😂😂

    ResponderExcluir
  13. O Jon ve o futuro ve tudo o que podia ser e tudo que é, todas as possibilidades. Tudobo que seria e nao foi. Mudando constantemente de acordo com as decidoes alheias. Ve o desastre e nao impede, apenas observa. Podia ter evitado, mas prefiriu ficar calado e assistir. Jon é um pseudônimo para Victoria Aveyard.

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)