13 de março de 2017

Capítulo dez

O ABUTRE ERA O JATO PESSOAL DO CORONEL, usado para se deslocar de Norta a Lakeland o mais rápido possível. É mais que um meio de transporte para nós. É um tesouro, carregado com armas, suprimentos médicos e até rações de comida do último voo. Farley e Kilorn dividem os itens em pilhas, separando as armas das gazes, enquanto Shade troca o curativo no ombro.
Apesar da perna esticada de um jeito estranho — o suporte impossibilita a flexão —, ele não mostra nenhum sinal de dor. Mesmo sendo menor que meus outros irmãos, ele sempre foi o mais durão da família, atrás apenas do nosso pai, que enfrenta sua agonia constante.
De repente, minha respiração fica entrecortada, sinto como se a garganta e os pulmões fossem apunhalados.
Pai, mãe, Gisa, os garotos. No turbilhão que foi minha fuga, esqueci completamente deles. Assim como aconteceu antes, quando me tornei Mareena, quando o rei Tiberias e a rainha Elara tomaram meus trapos e me ofereceram seda.
Levei horas para lembrar dos meus pais à espera da filha que não retornaria. E agora os deixei esperando de novo. Eles podem estar em perigo pelo que fiz, podem ser alvo da ira do coronel. Enterro a cabeça entre as mãos, xingando. Como pude esquecer deles? Tinha acabado de recuperá-los. Como pude deixar minha família assim?
— Mare? — Cal sussurra, na tentativa de não atrair as atenções para mim. Os outros não precisam me ver encolhida, me culpando a cada respiração.
Você é egoísta, Mare Barrow. Uma menininha boba e egoísta.
O ronco baixo dos motores, antes um consolo lento e constante, torna-se um fardo insuportável. Bate contra mim como as ondas da praia de Tuck, intermináveis, dominadoras, sufocantes. Por um momento, me deixo ser consumida. E então não sinto nada além da eletricidade. Nada de dor, nada de lembranças. Só poder.
Uma mão pousa na minha nuca e alivia um pouco a tensão, forçando seu calor pela minha pele fria. O polegar traça círculos perfeitos e lentos, encontrando um ponto tenso que eu não sabia que existia. Isso ajuda um pouco.
— Você precisa se acalmar — Cal continua, com a voz bem mais próxima dessa vez. Espio pelo canto do olho e o vejo se inclinar para mim, os lábios quase roçando minha orelha. — Os jatos são um pouco sensíveis a tempestades elétricas.
— Certo — digo com dificuldade. — Tudo bem.
A mão dele não se afasta, continua me tocando.
— Inspire pelo nariz, expire pela boca — ele instrui em um tom baixo e reconfortante, como se falasse com um animal assustado. Acho que ele não está de todo errado. Me sinto uma criança, mas aceito o conselho mesmo assim. A cada respiração, me liberto de um pensamento, um mais duro que o outro. Você esqueceu deles. Inspira. Você matou pessoas. Expira. Você deixou as pessoas morrerem. Inspira. Você está sozinha. Expira.
Este último não é verdade. Cal é prova disso, assim como Kilorn, Shade e Farley. Mas não posso me livrar da sensação de que, embora estejam comigo, não há ninguém ao meu lado. Ainda que eu tenha um exército atrás de mim, continuo só.
Talvez os sanguenovos mudem isso. Em todo caso, preciso descobrir.
Devagar, me endireito no assento, e a mão de Cal me segue. Ele a recolhe depois de muito tempo, quando tem certeza de que não preciso mais dele. Sinto um frio súbito no pescoço sem o calor dele, mas sou orgulhosa demais para admitir isso.
Volto o olhar para fora, fixando-o nas nuvens que passam como vultos, no sol que afunda, no mar sob nós. A crista branca das ondas que quebram em uma longa cadeia de ilhas, conectadas por bancos de areia, mangues ou pontes em frangalhos.
Algumas vilas de pescadores e faróis pontilham o arquipélago, aparentemente inofensivos, mas cerro o punho ao vê-las. Talvez haja um vigia. Alguém poderia nos ver.
A maioria das ilhas tem uma baía repleta de barcos. A julgar pelo tamanho e pelas faixas azul-prateadas decorando os cascos, devem ser da Marinha.
— Imagino que saiba o que está fazendo? — pergunto a Cal, ainda com os olhos fixos nas ilhas.
Quem sabe quantos prateados estão lá embaixo à nossa procura? E a baía, lotada de navios, podia esconder inúmeras coisas. Ou pessoas. Como Maven.
Mas Cal parece não se preocupar com nada disso. Coça a barba de novo, os dedos raspando a pele grossa.
— São as Ilhas Bahrn. Nada com que se preocupar. Já o Forte Patriota... — diz, apontando vagamente na direção noroeste. Mal consigo distinguir a costa do continente, coberta por uma neblina dourada iluminada pelo sol. — Vou ficar fora do raio do sensor deles o máximo que puder.
— E quando não puder mais? — Kilorn aparece de repente atrás de nós, de pé, apoiado no encosto do meu assento. Seus olhos correm de um lado para o outro, entre Cal e as ilhas. — Acha que consegue voar mais rápido que eles?
Cal está calmo e confiante.
— Sei que consigo.
Sou forçada a esconder meu sorriso com a manga da camisa, pois sei que isso só aumentaria a raiva de Kilorn.
Nunca voei com Cal antes, mas já o vi em ação na moto. Se ele pilotar o jato com metade do talento que demonstrou guiando aquela máquina mortal de duas rodas, estamos em boas mãos.
— Mas não vou precisar — ele continua, contente com o silêncio de Kilorn. — Todo jato tem um sinal para que os fortes saibam para onde estão indo. Quando entrarmos no raio do sensor, vou mandar um sinal antigo. Se tivermos sorte, ninguém vai averiguar muito.
— Parece arriscado — Kilorn resmunga, à procura de qualquer coisa para furar o plano de Cal, mas o pescador está numa desvantagem lamentável.
— Funciona — Farley intervém sentada no chão. — É assim que o coronel passa quando não consegue voar fora dos sensores.
— E ninguém espera que rebeldes saibam voar — acrescento, na tentativa de aliviar um pouco a vergonha de Kilorn. — Então ninguém vai procurar os jatos no ar.
Para a minha surpresa, Cal fica nitidamente tenso. Ele se levanta num movimento rápido, e deixa a cadeira girando.
— A resposta dos instrumentos está lenta como uma lesma — ele resmunga, numa explicação apressada. Uma mentira mal contada, a julgar pela expressão fechada e sombria em seu rosto.
— Cal? — chamo, mas ele não vira. Ele nem me responde, e parte em silêncio para a traseira do avião. Os outros o observam franzindo a testa, ainda cautelosos em relação a ele.
Só posso assistir perplexa. E agora?
Deixo-o com seus problemas e vou até Shade, ainda estirado no chão. A perna dele parece melhor, sustentada pelo suporte, mas ele ainda precisa da muleta de metal. Afinal, levou dois tiros em Naercey, e não temos um curandeiro de pele para o recompor com um simples toque.
— Quer alguma coisa? — pergunto.
— Não diria não para um pouco de água — ele responde a contragosto. — E comida.
Feliz de poder fazer ao menos uma coisa por ele, pego um cantil e dois pacotes fechados de ração no estoque de Farley. Fico à espera de um escândalo por causa do racionamento de comida, mas ela mal me nota.
Tomou o meu assento na cabine e está observando a janela, maravilhada com o mundo que passa sob nós.
Kilorn fica ao lado dela, sem jamais tocar o assento vazio de Cal. Ele não está a fim de levar uma bronca do príncipe e toma cuidado para manter as mãos longe do painel de controle. Parece uma criança cercada de cacos de vidro, com vontade de tocar, mas consciente de que não pode.
Quase pego um terceiro pacote de ração, já que Cal não come desde que o coronel o trancafiou, mas me detenho quando lanço um olhar na direção da traseira do jato. Cal está de pé, sozinho, fuçando um painel aberto, fazendo de conta que está consertando algo que, na verdade, não está quebrado. Rápido, ele sobe o zíper de um dos uniformes estocados no avião. As roupas esfarrapadas da arena e da execução estão largadas aos seus pés. Agora ele parece ser quem realmente é: um príncipe do fogo, um guerreiro de nascença. Se não fossem as paredes curvas do Abutre, acreditaria estar de volta ao palácio, dançando com ele, como mariposas ao redor de uma vela. Seu peito ostenta um brasão, um emblema preto e vermelho ladeado por um par de asas prateadas. Mesmo à distância, reconheço os pontos escuros, torcidos à semelhança de chamas. A coroa flamejante. Pertenceu ao seu pai, seu avô, e era seu direito de berço. Mas ela lhe foi tomada da pior maneira, com o sangue do pai e a alma do irmão. Por mais que eu odiasse o rei, o trono e tudo o que significavam, não consigo não sentir pena de Cal. Ele perdeu tudo — uma vida inteira, ainda que uma vida errada.
Cal percebe meu olhar, ergue os olhos e fica imóvel por uns instantes. Em seguida, sua mão sobe até o brasão e traça o contorno do seu reino roubado. Com um puxão que me faz tremer, ele o arranca da blusa e o joga de lado. Atrás de sua fachada calma, seus olhos cintilam de ódio. Embora tente esconder, seu ódio sempre borbulha até a superfície, lampejando sob as fissuras da máscara bem ajustada. Deixo-o lá mexendo no painel, consciente de que o mecanismo interno do jato o tranquiliza mais que qualquer palavra que eu possa dizer.
Shade se ajeita, abrindo espaço para eu sentar ao lado dele, e desabo sobre o assento sem muita elegância. O silêncio pesa sobre nós como uma nuvem à medida que passamos o cantil um para o outro neste estranho jantar de família, neste Abutre roubado duas vezes.
— Fizemos a coisa certa, não é? — cochicho, na esperança de obter uma espécie de absolvição.
Embora Shade seja apenas um ano mais velho que eu, sempre confiei em seus conselhos.
Para o meu alívio, ele faz que sim.
— Era só uma questão de tempo até o coronel me jogar na cela com você. Ele não sabe lidar com gente como nós. Nós o assustamos.
— Ele não é o único — comento, desanimada, me lembrando dos olhares desviados e dos cochichos.
Mesmo no Palacete do Sol, onde vivi rodeada por poderes incríveis, continuava a ser diferente. Em Tuck, eu era a garota elétrica. Respeitada, reconhecida e temida.
— Pelo menos os outros são normais.
— A mamãe e o papai?
Confirmo com a cabeça, estremecendo com a menção a eles.
— E Gisa também, e os garotos. São vermelhos de verdade, então ele não pode... não vai fazer nada contra eles, né? — digo.
Pensativo, Shade morde a ração, uma barra de cereais prensados insossa e seca que o deixa coberto de migalhas.
— Se tivessem nos ajudado, a história seria diferente. Mas como não sabiam nada da nossa fuga, eu não me preocuparia. O jeito como partimos... — Ele perde um pouco o fôlego, como eu. — Foi o melhor para eles. O papai acabaria nos ajudando, a mamãe também. Pelo menos Bree e Tramy são leais à causa o suficiente para escaparem de qualquer suspeita. Sem falar que nenhum dos dois é tão brilhante assim para fazer uma coisa dessas. — Depois de uma pausa para pensar, meu irmão conclui: — Duvido que mesmo os soldados de Lakeland sejam capazes de jogar uma idosa, um aleijado e a pequena Gisa numa cela.
— Ótimo — emendo, um pouco aliviada.
Limpo as migalhas na camisa dele com a mão.
— Não gosto que você os chame de normais — ele retoma, segurando meu punho. Sua voz baixa de repente. — Não há nada de errado com a gente. Somos diferentes, mas não errados. E, com certeza, não somos melhores.
Somos tudo, menos normais, tenho vontade de dizer, mas as palavras duras de Shade me fazem desistir.
— Você tem razão, Shade — digo, assentindo, torcendo para que ele não perceba minha frágil mentira.
— Como sempre.
Ele ri e termina o jantar com uma mordida enorme.
— Você não quer escrever isso para registrar? — brinca, soltando o meu braço.
Seu sorriso é tão familiar que até dói. Dou um sorriso falso para contentá-lo, mas os passos pesados de Cal logo desmancham minha expressão.
Ele cruza conosco com passadas largas, pula a perna esticada de Shade, olhando fixamente para a cabine.
— Vamos entrar na faixa do sensor logo — ele diz, sem se dirigir a ninguém em particular, mas o aviso nos faz entrar em ação.
Kilorn deixa a cabine aos tropeços, como um garotinho afugentado. Cal o ignora por completo. O foco dele é o jato, nada mais. Ao menos por enquanto, a aversão entre os dois fica em segundo plano.
— Eu poria o cinto — Cal acrescenta, olhando por cima do ombro e encontrando meus olhos enquanto se acomoda no assento do piloto. Ele aperta o cinto com uma precisão maquinal e o ajusta com puxões rápidos e decididos. Ao seu lado, Farley faz a mesma coisa, assumindo temporariamente o meu assento sem dizer uma palavra. Não que eu me importe. Foi aterrorizante assistir à decolagem... Só posso imaginar como o pouso será assustador também.
Shade é orgulhoso, mas não é burro, e deixa que eu o ajude a se levantar. Kilorn o apoia pelo outro lado e, juntos, o deixamos de pé. Feito isso, Shade se vira com facilidade e afivela o cinto com a muleta sob o braço.
Ocupo o assento ao lado dele, e Kilorn se acomoda no que vem depois do meu. Dessa vez, meu amigo prende o cinto firme e se agarra às barras de segurança, prevendo o pior.
Me concentro no cinto, com uma estranha sensação de segurança ao senti-lo firme contra o corpo. Você acaba de se amarrar a um pedaço de metal voador. É verdade, mas, nos próximos minutos, a vida e a morte dependem apenas do piloto. Sou apenas uma passageira neste voo.
Na cabine, Cal se ocupa com dezenas de chaves e alavancas, preparando o jato para o que vem depois, seja lá o que for. Ele estreita os olhos, desviando o rosto dos raios de luz intensa do poente. O sol faz com que os contornos do príncipe pareçam chamas, envolvendo-o em luz vermelha e laranja que bem poderiam vir de seu próprio fogo. Penso em Naercey, no Ossário, nos treinos, quando Cal deixava de ser um nobre e se tornava um incêndio. Naquele tempo, eu ficava chocada, surpresa a cada vez que ele revelava seu lado brutal.
Agora, não mais. Jamais serei capaz de esquecer o fogo que queima sob sua pele, o ódio que o alimenta, e como ambos são potentes.
Todo mundo pode trair todo mundo, e Cal não é exceção.
Um toque na minha orelha me faz pular na cadeira e me projetar contra as barras de segurança. Viro para o lado e deparo com Kilorn com a mão estendida e um sorriso surpreso no rosto.
— Você ainda tem — ele diz, apontando para a minha cabeça.
Sim, Kilorn, ainda tenho orelha, quero responder, irritada. Mas então me dou conta do que ele está falando.
Dos meus quatro brincos de pedrinhas — rosa, vermelha, violeta e verde. Os três primeiros foram dados pelos meus irmãos, os pares divididos entre mim e Gisa. São presentes agridoces, entregues quando eles foram recrutados pelo exército e deixaram a família. O último foi dado por Kilorn, à beira do apocalipse, antes da Guarda Escarlate atacar Archeon, antes da traição que ainda assombra todos nós.
Os brincos me acompanharam em tudo, desde o recrutamento de Bree até a manobra de Maven, e cada pedra carrega o peso das lembranças.
O olhar de Kilorn se detém sobre o brinco verde, que combina com os olhos dele. Vê-lo o deixa mais calmo, apara as arestas acumuladas ao longo dos últimos meses.
— Claro — respondo. — Eles vão comigo até o túmulo.
— Vamos falar o mínimo possível sobre túmulos, especialmente agora — Kilorn murmura, encarando as barras de segurança mais uma vez.
Desse ângulo, consigo ver seu rosto machucado mais de perto. Um olho roxo por causa do coronel, uma bochecha roxa por minha causa.
— Sinto muito por isso — digo, pedindo desculpas tanto pelas palavras quanto pelo machucado.
— Você já fez coisa pior comigo — Kilorn ri. Ele não está mentindo.
O chiado duro e rouco do rádio destrói o momento de paz. Olho na direção de Cal, que se inclina para a frente, uma mão no manche, outra no bocal do rádio.
— Controle do Forte Patriota, aqui é AB18-72. Origem Delphie, destino Forte Lencasser.
A voz calma e monótona ecoa pelo jato. Nada soa estranho ou minimamente interessante. Esperamos que o Forte Patriota concorde. Cal repete o sinal mais duas vezes, chegando até a parecer entediado ao finalizar. Mas seu corpo mostra que está uma pilha de nervos, e ele mastiga o próprio lábio enquanto espera a resposta.
Os segundos parecem horas enquanto permanecemos à escuta, sem ouvir nada além do chiado do rádio. Do meu lado, Kilorn aperta o cinto de novo, se preparando para o pior. Em silêncio, faço o mesmo.
Quando o rádio estala num prenúncio de resposta, minhas unhas cravam na beirada do assento. Posso ter fé na pilotagem de Cal, mas isso não quer dizer que quero vê-la testada numa corrida contra uma esquadrilha de ataque.
— Recebido AB18-72 — uma voz severa e imponente responde por fim. — Próximo sinal no Controle de Cancorda. Recebido?
Cal solta a respiração devagar, sem conseguir evitar um sorriso.
— Recebido, Patriota.
Mas, antes que eu possa relaxar, o rádio volta a chiar, o que deixa Cal com o queixo tenso. Suas mãos deslizam até o centro do painel e seus dedos colam no manche, decididos. Essa única ação basta para assustar todos nós, até Farley. No assento ao lado, ela observa Cal com olhos arregalados e a boca aberta, como se pudesse sentir o sabor das próximas palavras. Shade faz o mesmo, encarando o rádio no painel, segurando a muleta bem perto.
— Tempestades em Lencasser, cuidado ao se aproximar — a voz diz, depois de um momento tenso e demorado. Ela soa entediada, burocrática, completamente desinteressada. — Recebido?
Desta vez, Cal baixa a cabeça, os olhos semicerrados de alívio. Mal consigo evitar fazer o mesmo.
— Recebido — ele repete no rádio.
O chiado estático cessa com um clique satisfatório. É isso. Estamos acima de qualquer suspeita.
Ninguém fala até que Cal nos olha por cima do ombro, abrindo um sorriso de orelha a orelha.
— Nem suamos — diz, antes de secar com cuidado a fina camada brilhante na testa.
Não consigo deixar de gargalhar com a cena: um príncipe de fogo suando. Cal parece não se importar. Na verdade, sorri ainda mais antes de reassumir os controles.
Até Farley se dá ao luxo de esboçar um sorriso, e Kilorn balança a cabeça enquanto desenlaça os dedos dos meus.
— Parabéns, alteza — Shade diz, e embora Kilorn use o título como uma ofensa, a palavra soa absolutamente respeitosa nos lábios do meu irmão.
Suponho que seja por isso que Cal sorri e balança a cabeça.
— Meu nome é Cal. E só.
Kilorn limpa a garganta, desdenhando, num volume que só eu posso escutar. E a minha reação é enfiar o cotovelo nas costelas dele.
— Por acaso ser um pouco mais educado vai matar você?
Ele se afasta de mim para evitar outro hematoma.
— Não quero arriscar — responde, sussurrando. E depois fala em voz alta para Cal: — Presumo que não vamos avisar nada para Cancorda, alteza?
Desta vez, meto o calcanhar no pé dele, arrancando um gemido satisfatório.


Vinte minutos depois, o sol já se pôs, e passamos Harbor Bay e as favelas de Cidade Nova, baixando de altitude a cada segundo. Farley mal consegue permanecer sentada, espichando o pescoço para ver o máximo que pode. Só há árvores sob nós, fechando-se para formar as florestas que ocupam a maior parte de Norta. A região é quase igual a Palafitas, como se minha terra natal estivesse logo atrás da próxima colina. Mas Palafitas fica a oeste, a quase duzentos quilômetros. Os rios não são familiares, as estradas são estranhas, e não conheço nenhum dos vilarejos que se amontoam nas margens dos canais. O sanguenovo Nix Marsten mora por ali, e nem desconfia do perigo em que está metido.
Se é que ainda está vivo.
Deveria me preocupar com alguma armadilha, mas não. Não posso. Os sanguenovos me fazem seguir adiante. Não apenas pela causa, mas por mim, para provar que não sou a única com a mutação, que não é só meu irmão que está ao meu lado.
Minha confiança em Maven foi um equívoco, mas não errei com Julian Jacos. Conheço-o melhor que a maioria das pessoas, e Cal também. Como eu, ele sabe que a lista é real, e se os outros discordam, escondem muito bem. Acho que é porque também querem acreditar. A lista dá a esperança de uma arma, uma oportunidade, um meio de conseguir lutar. A lista é uma âncora para todos nós, dando a cada um alguma coisa a que se apegar.
Quando o jato vira na direção da floresta, me concentro no mapa que tenho na mão, para me distrair.
Ainda assim, sinto meu estômago gelar.
— Não acredito — Cal balbucia, olhando além da janela, encarando o que suponho serem as ruínas que se tornaram pista de pouso. Ele muda a posição de uma chave e o assoalho vibra sob meus pés, em sincronia com um zumbido marcante que ecoa pela fuselagem do jato. — Preparem-se para a aterrissagem.
— E o que isso quer dizer exatamente? — pergunto por entre os dentes enquanto olho pela janela e vejo não o céu, mas copas de árvores.
Antes de Cal conseguir responder, o jato inteiro estremece ao atingir uma coisa sólida. Quicamos nos assentos, enganchando os dedos nos cintos à medida que o empuxo nos faz balançar. A muleta de Shade sai voando e acerta o encosto do assento de Farley. Ela nem parece notar, agarrando os braços da poltrona com tanta força que os ossos da mão parecem prestes a saltar.
Seus olhos, grandes e arregalados, sequer piscam.
— Pousamos — ela avisa, num suspiro que mal se pode ouvir com o ronco ensurdecedor dos motores.
A noite cai silenciosa sobre as supostas ruínas.
Apenas o canto distante de um pássaro e o gemido baixo do jato quebram a tranquilidade. Os motores giram cada vez mais devagar, até finalmente desligarem. O tom chocante de azul da eletricidade sob as asas desvanece aos poucos, até a luz vir apenas de dentro do jato e das estrelas no céu.
Esperamos calados, na esperança de que o nosso pouso tenha passado despercebido.
O outono está no ar, marcado pelo aroma de folhas mortas e pela umidade de temporais distantes. Respiro fundo ao chegar no fim da rampa. O silêncio é pontuado somente pelo ronco distante de Kilorn, que tira um cochilo merecido. Farley já sumiu com uma arma na mão para averiguar o resto da pista oculta. Levou Shade consigo para o caso de haver algum problema. Pela primeira vez em semanas, talvez meses, não estou sendo escoltada ou vigiada de perto. Pertenço a mim mesma novamente.
Claro, isso não dura muito.
Cal desce a rampa, apressado, com um rifle sobre o ombro, uma pistola na cintura e um embrulho pendendo da mão. O cabelo preto e o macacão escuro passam a impressão de que ele é feito de sombras, o que certamente o príncipe quer usar a seu favor.
— O que você está fazendo? — pergunto, agarrando seu braço com destreza.
Ele seria capaz de se desvencilhar num segundo, mas não o faz.
— Não se preocupe, não peguei muita coisa — ele diz, mostrando o pacote. — Posso roubar a maioria das coisas que preciso, afinal.
— Você? Roubar? — desdenho, pensando num príncipe, e num bruto acima de tudo, fazendo algo do tipo. — Na melhor das hipóteses, vai perder os dedos. Na pior, a cabeça.
Ele dá de ombros, tentando não parecer preocupado.
— E isso importa para você?
— Claro — respondo baixinho. Faço o possível para esconder a dor na voz. — Precisamos de você aqui, você sabe disso.
Ele repuxa o canto da boca, mas não para sorrir.
— E isso importa para mim?
Sinto vontade de enfiar um pouco de juízo na cabeça dele com murros, mas Cal não é Kilorn. Ele receberia o soco com um sorriso e continuaria a caminhar. É preciso argumentar com o príncipe, convencê-lo.
Manipulá-lo.
— Você mesmo disse que cada sanguenovo que salvarmos será um golpe contra Maven. Ainda é verdade, não é?
Ele não concorda, mas também não discute. Pelo menos me ouve.
— Você sabe do que sou capaz e do que Shade é capaz. E Nix pode ser até mais forte, melhor que nós dois. Certo?
Mais silêncio.
— Sei que você quer vê-lo morto.
Apesar da escuridão, uma luz estranha cintila nos olhos de Cal.
— Também quero — digo. — Quero sentir minhas mãos em volta da garganta dele. Quero vê-lo sangrar pelo que fez, por cada pessoa que matou.
A sensação de dizer essas coisas em voz alta é boa, de confessar o que mais me assusta à única pessoa capaz de compreender. Quero feri-lo da pior maneira possível. Quero fazer os ossos dele cantarem com meus raios, até ele ser incapaz de gritar.
Quero destruir o monstro que Maven é agora.
Mas quando penso em matá-lo, parte de mim lembra do garoto que acreditei que ele fosse. Não paro de dizer a mim mesma que aquilo não era real. O Maven que conheci e de quem gostei era uma fantasia feita sob medida para mim. Elara moldou o filho para transformá-lo numa pessoa que eu amasse, e fez um excelente trabalho. Em certo sentido, essa pessoa que jamais existiu me assombra, e é pior que os outros fantasmas que me perseguem.
— Ele está além do nosso alcance — digo, tanto para o bem de Cal como para o meu. — Se formos atrás dele agora, ele vai enterrar nós dois. Você sabe disso.
Cal já foi general e ainda é um grande guerreiro. Ele entende de batalhas. E, apesar do ódio, apesar de cada fibra do seu corpo clamar por vingança, sabe que é incapaz de vencer essa batalha. Por enquanto.
— Não faço parte da sua revolução — ele balbucia, a voz quase se perdendo na noite. — Não sou da Guarda Escarlate. Não sou parte disto.
Quase espero que ele bata o pé de irritação.
— Então o que você é, Cal?
Ele abre a boca e espero a resposta, mas nada sai.
Compreendo a confusão dele, ainda que não goste.
Cal foi criado para ser tudo contra o que luto. Ele não sabe ser outra coisa, mesmo agora, ao lado de vermelhos, caçado pelos seus iguais, traído pelo próprio sangue. Depois de um momento longo e terrível, ele dá meia-volta e caminha para o jato. Joga o embrulho no chão, as armas e a determinação. Suspiro baixo, aliviada pela decisão dele. Cal vai ficar.
Mas não sei por quanto tempo.

8 comentários:

  1. Não confie em ninguém Mare

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  2. todos trai pode trair todos mundo ( acho que e assim )

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  3. Todo mundo pode trair todo mundo.
    E Cal não é exceção.

    ~polly~

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  4. É uma situação muito difícil se levarmos em conta tudo que está envolvido, até mesmo a mare em algum momento pode trair alguém, o diferencial são as motivações.O Marven sim,teve tempo pra mudar,raciocinar e se desvencilhar dos ensinamentos tortos da mãe, mas preferiu trair à todos.Tá aí uma diferença gritante entre as burradas dele e as dos outros,que sempre são decisões tomadas na pressa sem muito tempo pra avaliar. Ass:Cleila

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  5. Meeeu Deus esse livro é maravilhoso!!!!
    Queria q alguem me explicasse porq ele ia ir embora?
    Ele ia tentar matar o maven? Porq isso seria burrice e, acho q ele não precisa q a mare fale pra saber

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    1. As vezes o ódio fala mais alto que a razão.
      Valeria a pena morrer para satisfazer um pouco de seu ódio, mesmo sabendo que não chegaria nem perto do príncipe.

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  6. já tô de saco cheio desse negócio de "todo-mundo trai todo mundo" que daqui a pouco eu mesma vou trair esse livro!!
    ???aguardando... e se ela falar esse papo denovo eh porque tá dando os indícios da doideira😉😔

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Boa leitura :)