15 de março de 2017

Capítulo cinco

Mare

FLUTUO À DERIVA NUM MAR ESCURO. Sombras me acompanham.
Podem ser memórias. Podem ser sonhos, conhecidos mas estranhos. Há algo de errado em cada um deles. Os olhos de Cal estão prateados, soltando sangue quente e fumegante. O rosto do meu irmão parece mais um esqueleto. Meu pai sai da cadeira de rodas, mas suas pernas novas são finas e nodosas, prestes a se estilhaçar a cada passo trêmulo. Gisa tem pinos de metal em ambas as mãos e sua boca está costurada. Kilorn se afoga no rio, preso em suas redes perfeitas. Retalhos vermelhos jorram da garganta aberta de Farley. Cameron arranha o próprio pescoço, lutando para falar, prisioneira do próprio silêncio. Escamas de metal tremulam sobre a pele de Evangeline, engolindo-a por inteiro. E Maven afunda em seu trono estranho, deixando que o consuma até ele virar pedra, uma estátua com olhos de safira e lágrimas de diamante.
Minha visão está rodeada pela cor roxa. Tento me entregar a ela, sabendo o que guarda. Minha eletricidade está tão perto. Se ao menos eu pudesse encontrar a memória ligada a ela e sentir uma última gota de poder antes de mergulhar de volta na escuridão.
Mas isso se apaga com o resto, enfraquecendo aos poucos. Fico à espera do frio enquanto a escuridão toma conta. Mas é o calor que sobe.
De repente, Maven está tão perto que não posso suportar. Olhos azuis, cabelo preto, pálido como um cadáver. Sua mão paira a centímetros do meu rosto. Treme, querendo tocar, querendo recuar. Não sei o que prefiro.
Acho que durmo. A escuridão e a luz trocam de lugar, indo e voltando. Tento me mexer, mas meus braços e pernas estão pesados demais. Obra das algemas, dos guardas ou de ambos. Me sinto mais exaurida do que antes, e as visões terríveis são minha única fuga. Procuro o que mais importa — Shade, Gisa, o resto da minha família, Cal, Kilorn, a eletricidade. Eles sempre escapam do meu alcance ou evaporam quando os toco. Outra tortura, imagino — o jeito de Samson de me estraçalhar até enquanto durmo. Também vejo Maven, mas nunca vou até ele, e o rei nunca se move. Está sempre sentado, sempre me encarando, com uma mão na têmpora, massageando-a para fazer a dor passar. Não pisca nunca.
Anos ou segundos se passam. A pressão se alivia. Minha mente se aguça. A névoa que me mantinha cativa diminui, apagando-se. Deixam que eu acorde.
Sinto sede, desidratada por lágrimas amargas que não lembro de ter derramado. O peso esmagador do silêncio pende pesado como sempre. Por um momento, é difícil demais respirar e me pergunto se é assim que morro. Afogada nessa cama de seda, queimada pela obsessão de um rei, sufocada pelo ar livre.
Estou de volta à prisão do meu quarto. Talvez tenha passado o tempo todo aqui. A luz branca que entra pelas janelas me diz que nevou de novo e o mundo lá fora é um inverno claro. Quando minha visão se acostuma, deixando que o quarto entre em foco, arrisco olhar em volta. Direciono os olhos para a esquerda e para a direita, sem me mexer mais do que preciso. Não que isso importe.
Os Arven montam guarda nos quatro cantos da cama, todos me encarando. Tigrina, Trevo, Trio e Ovo. Eles se entreolham quando me viro para vê-los.
Não vejo Samson em lugar nenhum, embora imagine que vá aparecer com um sorriso maldoso e uma saudação cruel a qualquer momento. Em vez dele encontro ao pé da cama uma mulher baixa com roupas simples, a pele negra impecável como uma pedra preciosa polida. Não conheço o rosto dela, mas há algo de familiar em seus traços.
Percebo que o que pensei que fossem algemas na verdade eram mãos. Dela. Cada uma em volta de um tornozelo, servindo de bálsamo para minha pele e meus ossos.
Reconheço as cores. Vermelho e prateado cruzados sobre os ombros, representando ambos os tipos de sangue. Curandeira. De pele. Ela é da Casa Skonos. Seu toque está me curando — ou, pelo menos, me mantendo viva apesar do massacre de quatro pilares de silêncio. A pressão deles deveria bastar para me matar, se não fosse por ela. A curandeira tem que manter um equilíbrio muito delicado. Deve ser talentosa. Tem os mesmos olhos de Sara. Brilhantes, cinza-escuros, expressivos.
Mas ela não está olhando para mim. Seu rosto está voltado para outra coisa, à minha direta.
Estremeço quando sigo seu olhar.
Maven está sentado ali, como em meu sonho. Imóvel, concentrado, com a mão na têmpora. A outra acena uma ordem silenciosa.
E então vêm as algemas de verdade. Os guardas se movem rápido, prendendo um metal estranho cravejado com esferas polidas em volta dos meus tornozelos e punhos.
Fecham cada uma com a mesma chave. Tento acompanhar o trajeto, mas, em meu torpor, a chave entra e sai de foco. Só as algemas se destacam. São pesadas e frias.
Fico à espera de mais uma, outra coleira para marcar meu pescoço, mas, felizmente, meu pescoço é preservado. Os espinhos cravejados de joias não voltam.
Para minha surpresa, a curandeira e os guardas saem da sala. Observo-os, confusa, tentando esconder o salto repentino de euforia do meu coração. São idiotas? Vão me deixar a sós com Maven? Ele acha que não vou tentar matá-lo na primeira oportunidade?
Viro para ele, tentando sair da cama, tentando me mexer. Mas qualquer ação mais rápida do que me sentar parece impossível, como se meu sangue tivesse se transformado em chumbo. Logo entendo o porquê.
— Tenho total consciência do que você gostaria de fazer comigo — ele diz, com uma voz que mal passa de um sussurro.
Cerro os punhos, com os dedos trêmulos. Tento puxar o que ainda não responde. O que ainda não tem como responder.
— Mais Pedras Silenciosas — murmuro, dizendo as palavras como um xingamento. As esferas polidas que me mantêm presa brilham no meu corpo. — Devem estar acabando a essa altura.
— Obrigado pela preocupação, mas nosso estoque está em ótimas condições.
Assim como fiz nas celas sob o Ossário, cuspo na direção dele. O cuspe cai inofensivo aos seus pés. Maven não parece se importar. Chega até a sorrir.
— É melhor pôr tudo para fora agora. A corte não vai tolerar esse tipo de comportamento.
— Como se eu… Corte? — A última palavra sai balbuciante.
Seu sorriso se abre mais.
— Exatamente.
Minhas tripas se contorcem com a visão do seu sorriso.
— Está cansado de me manter enjaulada onde não pode me ver? — pergunto.
— Na verdade, é difícil ficar tão perto de você. — Seus olhos me perpassam com uma emoção que não quero identificar.
— O sentimento é mútuo — provoco, ao menos para trucidar sua estranha suavidade.
Preferia enfrentar seu fogo, sua fúria, do que qualquer palavra calma.
Maven não morde a isca.
— Duvido.
— E onde está minha coleira? Vou ganhar uma nova?
— Não. — Ele aponta com o queixo para minhas algemas. — Não vamos precisar de nada além disso agora.
Não consigo nem imaginar aonde ele pretende chegar. Mas faz tempo que desisti de tentar entender Maven Calore e seu cérebro labiríntico. Então deixo que continue falando. Ele sempre me diz o que preciso saber no final.
— Seu interrogatório foi muito produtivo. Aprendemos bastante sobre você e sobre os terroristas que se denominam Guarda Escarlate.
O ar fica preso na minha garganta. O que eles descobriram? O que perdi? Tento lembrar as partes mais importantes de tudo que sei, identificar o que será mais prejudicial aos meus amigos. Tuck, os gêmeos de Montfort, as habilidades dos sanguenovos?
— Eles são cruéis, não? — Maven continua. — Decididos a destruir tudo e todos que não se parecem com eles.
— Do que você está falando? — O coronel me prendeu, sim, e ainda tem medo de mim, mas somos aliados agora. O que isso poderia significar para Maven?
— Dos sanguenovos, claro.
Continuo sem entender. Ele só quer se livrar dos vermelhos com habilidades; não deveria se importar conosco além disso. Primeiro, negou que existíamos, chamando-me de farsa. Agora, somos aberrações, ameaças. Criaturas a serem temidas e erradicadas.
— É uma pena saber que você foi tratada tão mal que precisou fugir daquele velho que se autodenomina coronel. — Maven se diverte com isso, explicando seu plano aos pouquinhos, esperando que eu junte as peças. Minha cabeça ainda está zonza, meu corpo, fraco e me esforço ao máximo para entender do que está falando. — Pior ainda, que ele considerou mandar vocês para as montanhas, descartando todos feito lixo.
— Montfort. Mas não foi o que aconteceu. Não foi o que nos ofereceram. — E, claro, fiquei muito triste quando descobri as verdadeiras intenções da Guarda Escarlate. Tornar o mundo vermelho, com uma nova aurora, sem espaço para mais ninguém.
— Maven. — O nome treme com toda a fúria que tenho forças para reunir. Se não fosse pelas algemas, eu explodiria. — Você não pode…
— Não posso o quê? Contar a verdade? Contar para o país que a Guarda Escarlate está atraindo sanguenovos para o lado deles apenas para serem mortos? Para exterminá-los, como pretendem fazer conosco? Que a infame rebelde Mare Barrow se entregou para mim de boa vontade e que isso foi descoberto durante um interrogatório em que é impossível esconder a verdade? — Maven se debruça, perto o bastante para que eu dê um soco em sua cara. Mas ele sabe que mal consigo erguer um dedo. — Que você está do nosso lado agora, porque viu o que a Guarda Escarlate realmente é? Porque você e seus sanguenovos são temidos e abençoados como os prateados, iguais a nós em todos os aspectos menos na cor do sangue?
Minha mandíbula se move, abrindo e fechando a boca. Mas não consigo encontrar palavras à altura do meu pavor. Tudo isso feito sem os murmúrios da rainha Elara.
Tudo isso com ela morta.
— Você é um monstro — é tudo que consigo dizer. Um monstro, por mérito próprio.
Ele recua, ainda sorrindo.
— Nunca me diga o que não posso fazer. E nunca subestime o que vou fazer pelo meu reino.
Sua mão cai sobre meu pulso. Maven passa um dedo pela algema de Pedra Silenciosa que me mantém prisioneira. Tremo de medo, mas ele também estremece.
Tenho tempo de examiná-lo enquanto seus olhos recaem sobre a minha mão. Suas roupas casuais, pretas como sempre, estão amarrotadas. Sua postura é informal. Está sem coroa, sem medalhas. Um garoto perverso, mas ainda um garoto.
Antes de tudo, preciso encontrar um jeito de lutar. Mas como? Estou fraca, sem minha eletricidade, e tudo o que eu disser será distorcido contra minha vontade. Mal consigo andar, muito menos fugir sem ajuda. Resgate está fora de questão, um sonho impossível com que não posso perder tempo. Estou presa aqui, capturada por um rei mortífero e manipulador. Ele me perseguiu por meses, me assombrando de longe com transmissões e bilhetes letais.
Sinto sua falta. Até nosso próximo encontro.
Ele disse que era um homem de palavra. Talvez, nesse caso, seja mesmo.
Com um suspiro fundo, cutuco a única fraqueza que desconfio que ainda tenha.
— Você ficou aqui?
Seus olhos azuis se voltam para os meus. É a sua vez de ficar confuso.
— Durante todo esse tempo. — Olho para a cama e depois para longe. É doloroso lembrar da tortura de Samson, e tento demonstrar isso. — Sonhei que você estava aqui.
O calor dele recua, afastando-se para deixar a sala fria com o inverno iminente. Ele pisca, os cílios escuros contra a pele branca. Por um segundo, me lembro do Maven que pensei que fosse. Vejo-o de novo, como um sonho ou um fantasma.
— Cada segundo — ele responde.
Quando um rubor cinza se espalha por suas bochechas, entendo que está falando a verdade.
E agora sei como magoá-lo.
As algemas tornam muito fácil pegar no sono, de modo que fica até difícil apenas fingir que dormi. Sob o cobertor, cerro um punho, cravando as unhas na palma da mão.
Conto os segundos. Conto a respiração de Maven. Finalmente, sua cadeira range. Ele levanta. Hesita. Quase consigo sentir seu olhar ardente contra meu rosto imóvel. E então o jovem sai, com os passos leves contra o piso de madeira, atravessando meu quarto com a graciosidade e o silêncio de um gato. A porta se fecha suavemente atrás dele.
Seria fácil dormir.
Mas espero.
Dois minutos se passam e os guardas Arven não retornam.
Imagino que pensem que as algemas bastam para me manter aqui.
Estão errados.
Minhas pernas vacilam quando tocam o chão. Sinto os tacos frios de madeira com os pés descalços. Se tem câmeras vigiando, não me importo. Não podem me impedir de andar. Ou tentar.
Não gosto de fazer as coisas devagar. Muito menos agora, quando todos os segundos contam. Cada um pode significar a morte de outra pessoa que amo. Então empurro a cama, me obrigando a levantar sobre as pernas bambas e trêmulas. É uma sensação estranha, com a Pedra Silenciosa puxando meus punhos e tornozelos para baixo, drenando a pouca força que meu ódio me oferece. Levo um momento para suportar a pressão. Duvido que algum dia vá me acostumar. Mas consigo vencer.
O primeiro passo é o mais fácil. Um impulso até a mesinha. O segundo é mais difícil, agora que sei quanto esforço é necessário. Caminho como um bêbado ou um manco. Por uma fração de segundo, invejo a cadeira de rodas do meu pai. A vergonha desse pensamento alimenta os passos seguintes, enquanto atravesso a extensão do quarto.
Ofegante, chego ao outro lado, quase desabando contra a parede. O ardor nas minhas pernas é puro fogo, fazendo uma gota de suor escorrer pela minha coluna. Uma sensação familiar, como se eu tivesse acabado de correr um quilômetro. Mas a náusea no fundo do estômago é diferente. Outro efeito colateral da Pedra. Torna os batimentos cardíacos mais pesados e, de certa forma, errados. Tenta me esvaziar.
Minha testa toca a parede e o frio me conforta.
— De novo — me obrigo a dizer.
Viro e cambaleio pelo quarto.
De novo.
De novo.
De novo.


Quando Tigrina e Trio entregam meu almoço, estou empapada de suor e tenho que comer deitada no chão. Ela não parece se importar, empurrando o prato balanceado de carne e vegetais com o pé na minha direção. O que quer que esteja acontecendo fora das muralhas da cidade, não tem qualquer efeito nas provisões. Um mau sinal. Trio deixa outra coisa na minha cama, mas me concentro em comer primeiro. Me obrigo a engolir tudo, mordida por mordida.
Levantar é um pouco mais fácil. Meus músculos já estão respondendo, adaptando-se às algemas. Há certa bênção nelas. Os Arven são prateados vivos e seu poder flutua conforme sua concentração, tão mutável quanto ondas que rebentam. É muito mais difícil se adaptar ao silêncio deles do que à pressão constante da Pedra.
Abro o pacote em cima da cama, jogando de lado a embalagem grossa e luxuosa. Um vestido de gala se abre, caindo contra os lençóis. Dou um passo lento para trás, sentindo o corpo frio enquanto sou tomada pelo velho impulso de pular pela janela. Por um segundo, fecho os olhos, na esperança de que a roupa suma da minha frente.
Não porque seja feia. O vestido é espantosamente bonito, com seu brilho de seda e joias. Mas me conduz a uma verdade terrível. Antes dele, eu podia ignorar as palavras de Maven, seu plano e o que pretendia fazer. Agora isso tudo está diante de mim, como uma obra de arte satírica. O tecido é vermelho. Como a aurora, minha mente sussurra.
Mas isso também está errado. Não é o tom da Guarda Escarlate. O nosso é vivo, brilhante, furioso, algo para ser visto e reconhecido, quase chocante aos olhos. Esse vestido é outra coisa. Trabalhado em tons mais escuros, de rubro e escarlate, cravejado com pequenas pedras preciosas, intrincadamente bordado. Cintila de maneira sombria, refletindo a luz do teto como uma poça de óleo vermelho.
Como uma poça de sangue vermelho.
O vestido vai me tornar — e tornar o que sou — inesquecível.
Solto um riso amargurado. Chega a ser engraçado. Passei meus dias como noiva de Maven me escondendo, fingindo ser prateada. Agora, pelo menos, não preciso disso. Uma pequena misericórdia, bem pequena mesmo, considerando todo o resto.
Vou ficar diante da corte e do mundo, com a cor do meu sangue à mostra para todos verem. Queria saber se o reino entende que não sou nada mais do que uma isca escondendo um anzol de aço afiado.


Ele volta apenas na manhã seguinte. Quando entra, franze a testa para o vestido, jogado no canto. Eu não conseguia mais olhar para a roupa. Na verdade, tampouco consigo olhar para Maven, então continuo meus exercícios — no momento, uma versão muito curta e lenta de abdominais. Eu me sinto uma criancinha estabanada, com os braços mais pesados do que de costume, mas me forço a completar a série. Ele se aproxima alguns passos e cerro o punho, querendo mandar uma faísca na sua direção.
Nada acontece, assim como nada aconteceu nas últimas dezenas de vezes que tentei usar minha eletricidade.
— É bom saber que o poder das Pedras está equilibrado — ele brinca, acomodando-se à mesa. Hoje está bem vestido, com as medalhas brilhando no peito. Deve ter vindo de fora. Vejo neve no seu cabelo enquanto tira as luvas de couro com os dentes.
— Ah, sim, essas pulseiras são uma graça — retruco para ele, acenando com a mão pesada. As algemas são frouxas o bastante para girar, mas estão apertadas o suficiente para eu não conseguir tirá-las, mesmo deslocando o polegar. Considerei a possibilidade, até perceber que seria em vão.
— Vou repassar o elogio para Evangeline.
— É claro que foi ela quem fez — zombo. Evangeline deve estar muito contente em saber que é literalmente a criadora da minha jaula. — Mas é uma surpresa que tenha tempo para isso. Devia estar passando cada segundo fabricando coroas e tiaras para si própria. Vestidos também. Aposto que você se corta toda vez que tem que pegar na mão dela.
Um músculo na bochecha dele se contrai. Sei que Maven não sente nada por Evangeline. E posso explorar isso facilmente.
— Vocês marcaram uma data? — pergunto, sentando.
Seus olhos azuis se voltam para os meus.
— O quê?
— Duvido que possam celebrar um casamento real de uma hora para outra. Imagino que você saiba exatamente quando vai casar com Samos.
— Ah, isso. — Ele dá de ombros, com um aceno de desprezo. — Planejar o casamento é função dela.
Encaro seu olhar.
— Se fosse função dela, Evangeline já seria rainha há meses. — Como ele não responde, insisto mais. — Você não quer casar com ela.
Em vez de desmoronar, sua fachada se fortalece. Maven até ri baixo, projetando uma imagem de desinteresse repulsivo.
— Não é por isso que os prateados casam, como você bem sabe.
Tento outra tática, brincando com os pedaços dele que eu conhecia. Pedaços que torço para ainda serem reais.
— Bom, é compreensível que você esteja postergando…
— É sensato adiar um casamento em tempos de guerra.
— Você nunca a teria escolhido.
— Como se houvesse escolha.
— Sem falar que ela foi de Cal antes de ser sua.
A menção do nome do irmão detém suas respostas preguiçosas. Quase consigo ver os músculos se contraírem sob sua pele e uma mão bate de leve no bracelete em seu punho. Cada tinido suave dos aros de metal é sonoro como um sinal de alarme. Basta uma faísca para ele queimar.
Mas o fogo não me assusta mais.
— Com base no seu progresso, vai levar só mais um dia para aprender a andar direito com isso aí. — Suas palavras são medidas, forçadas, calculadas. Maven provavelmente ensaiou antes de entrar aqui. — E então finalmente me será útil.
Como faço todos os dias, olho ao redor, procurando câmeras. Ainda não as vejo, mas devem existir.
— Você passa o dia todo me espionando ou um agente de segurança faz um resumo para você?
Maven ignora a farpa.
— Amanhã você vai levantar e fazer exatamente o que eu disser.
— Ou o quê? — Forço-me a ficar de pé, sem nada da graça ou agilidade que já tive. Ele observa cada centímetro do meu corpo. Deixo que faça isso. — Já sou sua prisioneira. Pode me matar quando quiser. E, francamente, prefiro isso a atrair sanguenovos para morrerem na sua rede.
— Não vou matar você, Mare. — Mesmo sentado, ele se projeta na minha direção. — E não quero matar sanguenovos.
Compreendo as palavras, mas não quando saem da boca de Maven. Não fazem sentido. Nenhum.
— Por quê?
— Você nunca vai lutar por nós, eu sei. Mas seus semelhantes… eles são fortes, mais fortes do que muitos prateados chegam a ser. Imagine o que podemos fazer com um exército desses combinado com o meu. Quando ouvirem sua voz, eles virão. Como serão tratados depois que chegarem depende, claro, do seu comportamento. E da sua obediência. — Finalmente, Maven levanta. Ele cresceu nos últimos meses. Está mais alto e mais magro, como a mãe, a quem puxou em quase tudo. — Tenho duas opções, e você pode escolher uma. Ou traz os sanguenovos até mim ou continuo atrás deles por conta própria, liquidando todos, um por um.
Meu tapa sai fraco e quase não move sua mandíbula. Minha outra mão acerta seu peito, também sem efeito. Ele quase revira os olhos com a tentativa. Talvez até sinta prazer.
Meu rosto fica vermelho de raiva e de uma tristeza desconsolada.
— Por que você é assim? — grito, querendo rasgá-lo no meio. Se não fossem as algemas, meus raios estariam por toda parte. Em vez disso, são palavras que jorram de mim. Palavras que mal consigo pensar antes de saírem furiosas da minha boca. — Como pode continuar sendo desse jeito? Ela morreu. Eu a matei. Você está livre de sua influência. Você… não deveria mais ser igual a ela.
Sua mão segura meu queixo com força, me obrigando a ficar num silêncio assustado.
O gesto faz com que me curve para trás, quase perdendo o equilíbrio. Eu queria que isso acontecesse. Queria cair para longe de suas mãos, encontrar o chão e me estilhaçar em mil pedaços.
No Furo, no calor da cama pequena que eu dividia com Cal, na calada da noite, pensava em momentos como este. Em ficar sozinha com Maven novamente. Ter a chance de ver como ele realmente era sob a máscara de que eu me lembrava e da pessoa que sua mãe o obrigou a ser. Naquele limiar estranho entre o sono e a vigília, os olhos dele me seguiam. Sempre da mesma cor, mas ainda assim mutáveis. Os olhos dele, os olhos dela, os olhos que eu conhecia e os olhos que nunca teria como conhecer. Parecem os mesmos agora, ardentes como um fogo gelado, ameaçando me consumir.
Sabendo que é isso que ele quer ver, deixo as lágrimas de frustração me dominarem e caírem. Ele as acompanha sedento.
Depois me empurra. Caio em um joelho.
— Sou o que você me tornou — Maven sussurra, me deixando para trás.
Antes da porta fechar atrás dele, noto os guardas de cada lado. Trevo e Ovo desta vez. Então os Arven não estão longe, por mais que eu tenha conseguido me libertar de certa forma.
Afundo devagar no chão e então sento sobre os tornozelos. Cubro o rosto com a mão, escondendo o fato de que meus olhos estão subitamente secos. Por mais que sonhasse que a morte de Elara o mudasse, eu sabia que isso não aconteceria. Não sou tão idiota assim. Não posso confiar em nada quando o assunto é Maven.
A menor de suas medalhas cerimoniais pica minha outra mão, escondida entre meus dedos. Nem a Pedra Silenciosa é capaz de tirar os instintos de uma ladra. Sinto o pino de metal contra minha pele. Fico tentada a deixar que fure, a sangrar rubro e escarlate, para lembrar a mim mesma e a quem quer que esteja assistindo o que sou e do que sou capaz.
Levanto e escondo a medalha discretamente embaixo do colchão com o restante dos meus saques: grampos, dentes de garfo quebrados, cacos de vidro e de porcelana. Meu arsenal, por menor que seja, vai ter que bastar.
Fixo os olhos no vestido no canto, como se ele fosse responsável por isso.
Amanhã, ele disse.
Volto às abdominais.

30 comentários:

  1. Sinto que esses dois vão ter uma recaída

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    1. Esta louca?
      Leia com atenção o cara deixou aquele maluco a torturar

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    2. Também acho que eles vão ter uma recaída!

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    3. Eu shippo ela e Cal, mas sou devassa o suficiente para torcer que Ela e Maven se pegam kkkkk❤😍😍

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    4. BIXINHA ESPERTA , ESQUEÇAM GENTE, ELE É RUIM DE MAIS PRA ELA, CORRENDO PRO PROXIMO CAPITULO PQ QUERO VE O SHOW QUE ELA VAI DAR HAHAHAHA

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  2. Devo estar louca, ou eu preciso reler os outros livros, mas eu ainda shippo a Mare com o Maven, e tenho esperança que ele não seja tão mal assim.

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    1. Também shippo eles -_- E é horrível por que eu tenho consciência do quanto ele é um filha da puta(desculpe mas Elara não é menos que isso), mas ele nos enganou tão direitinho que ainda me faz de trouxa.

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    2. É foda. Tem hora que eu odeio o Maven, mas tem hora que é tão difícil não shippar...Ele é muito fdpta por isso a gente adora kkkk

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    3. Eu também shippo eles, acho ela com o Cal muito sem graça u.u

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    4. Exatamente o Cal é muito sem sal ;u;
      O Maven é foda! De um jeito ruim mas eu amo ele

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    5. Eu fico mt dividida vey, n acho Cal sem graça, pelo contrário, ele é mt sexy com todo aquele treinamento e essa coisa de príncipe exilado❤ mas tem hora que é impossível n shppar ela Maven

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  3. Amei!! ❤❤❤❤❤❤❤❤. Melho saga!

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  4. Como pode odiar e amar o mesmo personagem ao mesmo tempo? Uma hora quero esganar Maven em outra quero abraça-lo!

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  5. Como pode odiar e amar o mesmo personagem ao mesmo tempo? Uma hora quero esganar Maven em outra quero abraça-lo!

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  6. Eu só posso ser doida mesmo, de conseguir shippar esses dois. mais fazer oq?! Ela tem mais química com maven do que com cal😶

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    1. Eu vejo o Maven e a Mare como casal!N se i porque mais vejo

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  7. Ah para!!! Vocês estão falando de um assassino a sangue frio!!!!
    Maven é doente....

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  8. Como vcs podem shippar ela com o Maven?? Ele é um idiota,cruel e sanguinario!!!!

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  9. Estou confusa em relação a Maven! Uma hora eu o amo e outra só sinto raiva dele, isso é normal??

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  10. e vdd, na maior parte do tempo ele cruel e um babaca, mas tem momentos que eu shippo, sla ele e tipo um damon(lindooo, maravilhoso) da vida

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    1. Calma né, Maven é até meio interessante e pagável às vezes, mas Damon é Damon né, baby?

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  11. Não consigo evitar a quedinha por certos vilões...ah Maven
    Ele pode ser esse monstro, mas ainda sinto afeto por ele.
    ~polly~

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  12. Já fiquei dividida, mas hoje sou #TeamCal com certeza! Cal! ❤❤❤

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    1. Eu tb, na vdd até torço pra ela e Maven se pegarem um pouco, mas sou #TeamCal

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  13. Nos três livros só consigo pensar uma coisa: transem logo. Sou #TeamCal, mas existe tanta tensão sexual entre os dois casais que só consigo pensar: deixem d fazer doce, e se pegem kkk

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    1. Falaste a palavra certaaaa! Há muita tensão sexual entre a Mare e o Maven, a ponte de explodir (literalmente hã ? Haha).

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  14. SE PEGUEEEEEM !!!!?! QUE DOENTIO DA MINHA PARTE, mas acho q esses dois deveriam se pegar. Os dois são fixados um no outro, não é amor, mas é uma paixão, um precisava do outro pra se destruir, quando estão longe querem estar perto. Dois doidos kkk e eu doida tb querendo q se peguem. Mas sou #TEAMCAL !
    Ass: Déborah A.

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Boa leitura :)