13 de março de 2017

Capítulo cinco

TENTAM ME CONVENCER DE QUE É MELHOR ASSIM, mas suas desculpas esfarrapadas não agradam meus ouvidos contrariados. Kilorn e Bree gastam rápido cada um dos argumentos que lhes mandaram dizer.
Ele é perigoso, até para você. Mas sei melhor que ninguém que Cal jamais me machucaria. Mesmo quando ele teve motivos para isso, não temi nada vindo dele. O príncipe é um deles. Não podemos confiar nele. Depois do que Maven fez ao seu legado e à sua reputação, Cal não tem nada nem ninguém além de nós, ainda que se recuse a admitir. Ele é valioso. Um general, um príncipe de Norta, e o homem mais procurado do reino. Esse argumento me faz pensar e aviva um medo profundo. Se o homem do olho vermelho decidir usar Cal como uma vantagem contra Maven, se decidir trocá-lo ou sacrificá-lo, vou precisar de todos os meus recursos para impedir. Toda a minha autoridade, todo o meu poder — e não sei se isso vai bastar.
Assim, não faço nada além de acenar a cabeça, devagar no começo, fingindo concordar. Fingindo estar sob controle. Fingindo ser fraca. Eu estava certa. Shade estava me alertando naquela hora. Mais uma vez, ele viu a mudança na maré bem antes de as ondas se formarem.
Cal é poder, fogo a partir da carne, alguém para ser temido e vencido. E eu sou relâmpago. O que farão comigo se eu não desempenhar meu papel?
Não pisei em outra cadeia, ainda não, mas posso sentir a chave na fechadura, ameaçando girar. Por sorte tenho experiência com esse tipo de coisa.
O homem do olho vermelho e seus soldados escoltam Cal para dentro do hangar. Não são burros a ponto de tentar amarrar as mãos do prateado, mas em nenhum momento baixam as armas ou a guarda, e têm o cuidado de manter distância para que ninguém seja incinerado pela audácia. Só posso observar — de olhos bem abertos, mas com a boca fechada — a porta do hangar fechar, separando Cal de mim mais uma vez. Só posso torcer para Cal se comportar.
— Peguem leve com ele — cochicho, me aconchegando no calor de Bree.
Mesmo debaixo da chuva fria de outono, o corpo dele parece uma fornalha. Os muitos anos de combate na frente norte o tornaram imune à umidade e ao frio. Lembro da velha frase do meu pai: “A guerra nunca acaba”. Agora sei por experiência própria, apesar de a minha guerra ser bem diferente da dele.
Bree finge não me ouvir e trata de nos tirar rápido dali. Kilorn nos segue tão de perto que suas botas encostam uma ou duas vezes no meu calcanhar. Seguro o ímpeto de lhe dar um chute e me concentro em subir os degraus de madeira que levam aos galpões militares no topo do morro. Os degraus estão gastos, pisados por incontáveis pés. Quantos já passaram por este caminho?, pergunto a mim mesma. Quantos estão aqui agora?
Chegamos ao topo e a ilha se abre à nossa frente, revelando uma base militar maior do que eu esperava. O barracão da encosta era somente um entre pelo menos uma dúzia, distribuídos igualmente em duas fileiras separadas por um longo pátio de concreto. Uma linha branca pintada bem no meio, perfeitamente reta, segue adiante pela noite chuvosa. Não faço ideia de onde vai dar.
A ilha inteira tem uma atmosfera de calmaria, congelada temporariamente pela tempestade.
Ao amanhecer, quando a chuva cessar e a escuridão se desfizer, imagino que verei a base em toda a sua glória — e vou poder enfim compreender com que tipo de gente estou lidando.
Adquiri o mau hábito de subestimar os outros, sobretudo no que diz respeito à Guarda Escarlate.
E, como Naercey, Tuck é bem maior do que parece.
O frio que senti no mersivo e na chuva persiste, mesmo quando sou arrastada portão adentro para o galpão assinalado com um 3 em tinta preta. O frio penetra meus ossos e também meu coração, mas não posso deixar meus pais perceberem isso, para o bem deles. Devo isso a eles. Precisam achar que estou firme, inabalada, intocada pela prisão de Cal e pelos meus sacrifícios no palácio e na arena. E a Guarda precisa achar que estou do seu lado, aliviada por estar “segura”.
Mas não estou? Não jurei fidelidade a Farley e à Guarda Escarlate?
Assim como eu, a Guarda acredita no fim dos reis prateados e dos escravos vermelhos. Sacrificaram soldados por mim, por minha causa. São meus aliados, meus irmãos e irmãs na luta, mas o homem do olho vermelho me faz hesitar. Ele não é Farley. Ela pode ser ríspida e cabeça-dura, mas sabe pelo que passei. Posso discutir com ela, mas duvido que o coração do homem do olho vermelho esteja aberto a algum argumento.
Kilorn está estranhamente quieto, o que não combina com a gente. Costumamos preencher o silêncio com insultos, provocações ou, no caso de Kilorn, grandes besteiras. Não costumamos ficar quietos na presença um do outro, mas agora não temos nada a dizer. Ele sabia quais eram os planos para Cal e concordou. E o pior de tudo: não me contou. Eu ficaria com raiva se não fosse o frio. O frio envolve minhas emoções, deixando-as dormentes como a vibração elétrica no ar.
Bree não nota a estranheza entre mim e Kilorn — não que devesse perceber. Além de ser um bobo alegre, meu irmão mais velho saiu de casa quando eu era uma garotinha desengonçada de treze anos que roubava por diversão, não por necessidade, e que não era tão cruel como hoje. Bree não sabe como sou agora; perdeu quase cinco anos da minha vida. Por outro lado, minha vida mudou mais nos últimos dois meses do que nunca. E apenas duas pessoas estiveram ao meu lado durante esse processo: a primeira está presa, e a segunda usa uma coroa de sangue.
Qualquer pessoa sensata diria que são meus inimigos.
Que estranho. Meus inimigos me conhecem melhor do que minha própria família.


Para minha felicidade, o interior do barracão está seco, pulsando com luzes e fios que atravessam o teto.
As paredes grossas de concreto tornam o corredor um labirinto sem qualquer sinalização para indicar a saída.
Todas as portas estão fechadas, e todas são de um cinza metálico sem graça. Mas algumas dão indícios de que há vida do outro lado: uma coroa de mato seco enfeita uma maçaneta, um colar quebrado está pendurado num batente, e por aí vai. Este lugar não abriga somente soldados temíveis, mas também refugiados de Naercey e sabe-se lá quem mais. Depois da implementação das Medidas — proferidas pelos meus próprios lábios —, muitos rebeldes e vermelhos fugiram do continente.
Como poderiam viver sob a ameaça de serem recrutados e executados? Mas como conseguiram escapar? E como chegaram aqui?
Mais perguntas para a minha lista que não para de crescer.
Apesar da distração momentânea, presto muita atenção em cada curva e desvio que meu irmão faz.
Direita aqui, uma, duas, três esquinas, esquerda na porta com a palavra PRAIRIE gravada... Parte de mim se pergunta se ele não está dando voltas de propósito, mas Bree não é inteligente o bastante para ter essa ideia. Acho que devo agradecer por isso. Shade bancaria o malandro sem o menor problema, mas Bree não. Ele é força bruta, um rolo compressor fácil de evitar. Ele também é um dos rebeldes; foi libertado de um exército para se juntar a outro. E, a julgar pela maneira como me segurou nas docas, não deve fidelidade a ninguém além da Guarda.
Tramy provavelmente deve pensar igual, sempre ansioso para seguir e, de vez em quando, guiar nosso irmão mais velho. Só Shade tem o bom senso de manter os olhos abertos, de esperar para ver que destino nos aguarda, os sanguenovos.
A porta à nossa frente está escancarada, como que à espera. Bree não precisa me dizer que este é o dormitório da nossa família, porque há um pedaço de tecido roxo atado à maçaneta. As bordas do tecido estão esgarçadas, e o bordado está desajeitado: relâmpagos faíscam pelo trapo, um símbolo que não é nem vermelho nem prateado, mas meu. Uma combinação das cores da Casa Titanos — minha máscara — e o raio que vem de mim — meu escudo.
À medida que nos aproximamos, ouço o barulho de rodas atrás da porta e um calor toma conta de mim.
Reconheceria o som da cadeira de rodas do meu pai em qualquer lugar.
Bree não bate. Sabe que todos ainda estão acordados.
À minha espera.
Há mais espaço do que no mersivo, mas ainda assim o dormitório é pequeno e abafado. Pelo menos tem espaço para nos movermos, e camas suficientes para todos os Barrow. Há até um espacinho livre perto da entrada. A única janela, bem no alto da parede oposta à porta, está fechada por causa da chuva. O céu parece ter clareado um pouco. A aurora está chegando.
É, está mesmo, penso, absorvendo a quantidade gigantesca de coisas vermelhas: cachecóis, panos, retalhos, bandeiras, estandartes... O vermelho está sobre cada uma das superfícies, pendurado em cada uma das paredes. Eu deveria saber que seria assim. Antes, Gisa costurava para prateados; agora, ela ignora sua dor e faz bandeiras para a Guarda Escarlate, decorando tudo que encontra com o sol despedaçado símbolo da resistência.
Não fica bonito com pontos desiguais e moldes simples.
Não se compara à arte que ela costumava bordar. Isso também é culpa minha.
Ela está sentada à mesinha de metal, congelando com uma agulha na mão mal curada que parece mais uma garra. Por um momento, ela apenas observa, assim como os outros. Minha mãe, meu pai e Tramy me encaram, mas não sabem quem é a garota diante deles.
Da última vez que me viram, não consegui me controlar.
Estava presa, fraca, confusa. Agora estou ferida, me recuperando dos machucados e das traições, mas sei o que sou e o que preciso fazer.
Me tornei mais do que jamais seria capaz de sonhar.
Isso me assusta.
— Mare. — Mal consigo ouvir a voz da minha mãe.
Meu nome vacila em seus lábios.
Como no dia que minhas faíscas ameaçaram destruir nossa casa em Palafitas, ela é a primeira a vir até mim.
Depois de um abraço que não dura o bastante, ela me faz sentar numa cadeira.
— Senta, bebê, senta — diz, com as mãos trêmulas em mim.
Bebê. Faz anos que não sou chamada assim. Soa estranho agora que sou tudo menos uma criança.
As mãos dela alisam minhas roupas novas, tateando as feridas como se pudesse ver através do pano.
— Você está machucada — ela murmura, balançando a cabeça. — Não acredito que deixaram você andar depois... Bom, depois de tudo aquilo.
Sinto uma alegria secreta por ela não mencionar Naercey, a arena ou o que aconteceu antes. Não estou forte o suficiente para reviver tudo, não ainda.
Meu pai solta uma risada sinistra.
— Ela faz o que quiser. Não tem isso de deixar. — Ele se aproxima. Noto que o cabelo dele está mais grisalho. Ele também está mais magro, parece até pequeno para a cadeira. — Igual a Shade.
Shade é o que nos une, e é mais fácil falar dele.
— Vocês o viram? — pergunto enquanto relaxo o corpo no assento frio de metal. A sensação de sentar é boa.
Tramy levanta do beliche, quase batendo a cabeça no teto.
— Vou para a enfermaria agora. Só queria ter certeza de que você está... — “Bem” já não faz mais parte do meu vocabulário. — ... de pé ainda — meu irmão completa.
Só consigo responder com um aceno. Sou capaz de contar tudo a eles se abrir a boca — a mágoa, o frio, o príncipe que me traiu, o príncipe que me salvou, as pessoas que matei. E embora talvez já saibam, não consigo admitir o que fiz, vê-los decepcionados, horrorizados, com medo de mim. Seria mais do que sou capaz de aguentar em uma noite.
Bree vai com Tramy, não sem me dar um tapinha desajeitado nas costas antes de sair pela porta com nosso irmão. Kilorn, quieto, está encostado na parede como se quisesse atravessá-la e desaparecer.
— Está com fome? — minha mãe pergunta, mexendo numa caixa minúscula que serve de armário. — Guardamos um pouco das rações do jantar, se você quiser.
Embora eu esteja há sei lá quanto tempo sem comer, faço que não com a cabeça. Estou tão exausta que é difícil pensar em qualquer coisa que não seja dormir.
Gisa nota minha atitude com seus olhos brilhantes e concentrados. Ela joga para trás uma mecha do lindo cabelo vermelho como nosso sangue.
— Você precisa dormir — ela fala com tanta convicção que me pergunto quem é a irmã mais velha de verdade. — Deixem Mare dormir — diz aos outros.
— Claro, você tem razão.
De novo, é minha mãe que toma atitude. Ela me tira da cadeira e me leva para uma cama com mais travesseiros que as outras. Ela cuida de mim. Ajeita os cobertores finos, guia os meus movimentos. Só tenho forças para soltar o corpo, e ela me embala como nunca tinha feito antes.
— Pronto, bebê, durma.
Bebê.
Estou bem mais segura do que nos últimos dias, rodeada pelas pessoas que mais amo, mas mesmo assim nunca quis tanto chorar. Por eles, seguro as lágrimas.
Encolho o corpo e sangro sozinha, por dentro, onde ninguém pode ver.
Não demora muito para eu pegar no sono, apesar das luzes brilhantes e do ruído de conversa. A voz grave de Kilorn vibra no ar. Ele volta a falar agora que estou fora da jogada.
— Fiquem de olho nela. — É a última coisa que ouço antes de afundar na escuridão.


Em algum momento da noite, entre o dormir e o despertar, meu pai toma a minha mão. Não para me acordar. Ele apenas a segura. Por um instante, acho que é um sonho, que estou de volta à cela debaixo do Ossário; que a fuga, a arena, as execuções... tudo foi um pesadelo prestes a ressurgir. Mas a mão dele é quente, calejada, familiar. Enlaço meus dedos nos dele.
Ele é real.
— Sei como é matar uma pessoa — ele sussurra, com os olhos distantes, dois pontos de luz nas trevas do dormitório. A voz dele está diferente, assim como ele próprio. É a reflexão de um soldado, de alguém que sobreviveu tempo demais nas entranhas da guerra. — Sei o que isso causa na gente.
Tento falar. Tento mesmo.
Mas não consigo. Apenas solto a mão dele e sou tragada pelo sono.


O cheiro salgado me desperta na manhã seguinte.
Alguém abriu a janela e deixou a brisa fresca do outono e a luz brilhante do sol entrarem. A tempestade passou.
Antes de abrir os olhos, tento fingir que estou no colchão de casa, que a brisa vem do rio, que a única escolha a fazer é ir ou não para a escola. Mas isso não traz conforto. Não retornaria para essa vida, apesar de ser mais fácil.
Tenho coisas a fazer. Preciso cuidar da lista de Julian e começar os preparativos para essa empreitada colossal.
Se eu requisitar Cal, quem são eles para negar? Quem seria capaz de dizer “não” depois que salvei tantos das garras de Maven?
Algo me diz que o homem do olho vermelho diria, mas afasto a ideia.
Gisa está esparramada na cama ao lado, juntando fios soltos de um pedaço de pano preto com a mão boa. Ela não se dá ao trabalho de olhar quando me espreguiço e estalo alguns ossos ao me mexer.
— Bom dia, bebê — ela diz, sem disfarçar o sorrisinho. Atiro um travesseiro na cara dela.
— Não comece — resmungo, secretamente feliz com a provocação. Quem dera Kilorn agisse assim também e voltasse a se comportar como o aprendiz de pescador que costumava ser.
— Todos estão no refeitório. O café da manhã ainda está sendo servido.
— Onde fica a enfermaria? — pergunto, pensando em Shade e Farley. Por enquanto, ela é um dos melhores aliados que tenho aqui.
— Você precisa comer, Mare — Gisa diz, seca, finalmente sentando. — É sério.
A preocupação nos olhos dela me faz parar. Minha aparência deve estar pior do que eu imaginava para ela me tratar com tanta gentileza.
— Então onde fica o refeitório?
Ela levanta bufando e joga o trabalho na cama.
— Sabia que eu ia acabar virando babá — murmura, soando muito como a nossa mãe quando está irritada.
Desta vez, ela desvia do travesseiro.
Passamos rápido pelo labirinto de dormitórios.
Lembro do caminho e registro as portas mentalmente à medida que avançamos. Algumas estão abertas, revelando quartos vazios, ocupados por beliches ou vermelhos ociosos. Em ambos os casos, compreendo o que é o Galpão 3: aparentemente o complexo “família”.
As pessoas aqui não parecem soldados da Guarda, e duvido que tenham participado de alguma luta na vida. Vejo indícios de crianças e até de alguns bebês, que fugiram com as famílias ou foram levados para Tuck.
Um quarto em particular está lotado de brinquedos velhos ou quebrados, com paredes pintadas apressadamente de amarelo-esverdeado na tentativa de avivar o concreto. Não há nada escrito na porta, mas sei para quem é o quarto. Órfãos. Desvio o olhar rápido e procuro fixá-lo em qualquer lugar menos naquela jaula para fantasmas vivos.
Há uma tubulação por todo o teto, e dentro dela, lenta, mas constante, eletricidade. Não sei qual é a fonte de energia desta ilha, mas a vibração grave é um conforto, pois me lembra quem eu sou. Pelo menos é algo que ninguém pode tomar de mim, não aqui, tão longe do poder silenciador do prateado que está morto, Arven.
Ontem, ele quase me matou ao sufocar meu poder, ao me transformar numa vermelha com nada além de sujeira debaixo das unhas. Na arena, mal tive tempo de me assustar com essa perspectiva, mas ela me assombra agora. Meu poder é meu bem mais precioso, ainda que me separe das outras pessoas. Mas por poder, pelo meu próprio poder, é um preço que estou disposta a pagar.
— Como é? — Gisa pergunta, seguindo meu olhar até o teto. Ela se concentra na fiação e tenta sentir o que sinto, mas nada acontece. — A eletricidade?
Não sei o que responder. Julian explicaria com bastante facilidade, divagando um pouco e dando detalhes da história dos poderes e de como surgiram.
Mas Maven me disse ainda ontem que meu velho professor nunca chegou a escapar; que foi capturado. E, conhecendo Maven — sem falar em Elara —, o mais provável é que Julian esteja morto, executado por tudo o que me proporcionou e pelos crimes de seu passado distante, por ser irmão da mulher que o antigo rei amou de verdade.
— Poder — respondo finalmente enquanto abro a porta para o mundo lá fora. O ar litorâneo se lança contra mim e brinca pelos meus cabelos judiados. — Força.
Palavras prateadas, mas, mesmo assim, verdadeiras.
Gisa não é do tipo que me deixaria escapar tão fácil.
Ainda assim, ela fica em silêncio. Compreende que não quero responder essas perguntas.
À luz do dia, Tuck parece menos e mais sinistra ao mesmo tempo. O sol brilha forte no céu e aquece o ar de outono. Além dos alojamentos, a vegetação da praia dá lugar a um conjunto de árvores esparsas. Nada parecido com os carvalhos ou pinheiros de Palafitas, mas serve.
Gisa nos conduz pelo pátio de concreto, navegando entre o alvoroço das atividades. Rebeldes com faixas vermelhas descarregam veículos, empilham caixas como as que vi no mersivo. Diminuo o ritmo na esperança de espiar o carregamento, mas soldados desconhecidos de uniforme novo me deixam receosa. Vestem azul, não o azul-vivo da Casa Osanos, mas um tom frio e escuro. É familiar, só não consigo lembrar de onde. Eles se parecem com Farley, altos e brancos, de cabelo loiro brilhante em corte agressivamente baixo. Estrangeiros, concluo. Estão de pé sobre as pilhas de carga, rifles à mão, protegendo as caixas.
Mas protegendo de quem?
— Não olhe para eles — Gisa sussurra enquanto agarra a manga da minha camiseta. Ela me puxa para a frente, ansiosa para se afastar dos soldados. Um em particular nos observa sair com os olhos semicerrados.
— Por que não? Quem são eles?
Ela balança a cabeça e me dá mais um puxão.
— Aqui não.
Naturalmente, quero parar, encarar o soldado até ele perceber quem eu sou e o que sou. Mas é uma vontade tola, infantil. Preciso preservar minha máscara, preciso parecer a garota pobre arrasada pelo mundo. Deixo Gisa me guiar para longe.
— São os homens do coronel — ela cochicha assim que nos afastamos o suficiente. — Vieram do norte com ele.
Do norte.
— Lakeland? — pergunto, quase chocada.
Ela assente.
Os uniformes da cor de um lago frio fazem sentido.
São soldados de outro exército, de outro rei, mas estão aqui, conosco. Norta está em guerra com Lakeland há um século, lutando por terra, comida e glória. Os reis do fogo contra os reis do inverno, ambos com seus súditos prateados e vermelhos. Mas a aurora, ao que parece, vai chegar para todos.
— O coronel é de Lakeland. Depois do que aconteceu em Archeon... — A expressão dela é de dor, apesar de Gisa não saber nem da metade do que passei lá. — Ele veio “resolver as coisas”, de acordo com Tramy.
Alguma coisa está errada, algo que cutuca meu cérebro assim como Gisa cutuca minha manga para me apressar.
— Quem é o coronel, Gisa?
Levo um tempo para perceber que chegamos ao refeitório, um prédio tão compacto quanto os alojamentos. O ruído do café da manhã ecoa de trás da porta, mas não entramos. Apesar de o cheiro da comida fazer meu estômago roncar, espero Gisa responder.
— O homem com o olho vermelho — ela diz enfim, apontando para o próprio rosto. — Ele assumiu.
Comando. Shade murmurou essa palavra no mersivo, mas não pensei muito nela. Era isso que ele queria dizer? Era sobre o coronel que ele queria me alertar? Depois da maneira ameaçadora com que ele tratou Cal na noite passada, sou obrigada a acreditar que sim. Saber que esse é o homem responsável pela ilha e por todos nela não é muito reconfortante.
— Então Farley está sem serviço.
Ela dá de ombros.
— A capitã Farley falhou. Ele não gostou disso.
Então ele vai me odiar.
Ela estende a mão para puxar a maçaneta; essa sarou melhor do que eu esperava, só o anelar e o mindinho ainda estão curvados de um jeito estranho, virados para dentro. Ossos que remendaram errado, um castigo por ter confiado na irmã mais velha um tempo atrás.
— Gisa, para onde levaram Cal? — Minha voz sai tão baixa que tenho medo de que ela não me escute, mas ela para.
— Falaram dele ontem à noite, quando você foi dormir. Kilorn não sabia, mas Tramy foi vê-lo. Para vigiar.
Uma dor aguda atravessa meu coração.
— Vigiar o quê?
— Ele disse que fariam apenas umas perguntas por enquanto. Não iam machucá-lo.
Lá no fundo, me sinto incomodada. Sou capaz de pensar em muitas perguntas que machucariam Cal mais do que qualquer ataque físico.
— Onde? — pergunto de novo, endurecendo o tom de voz, falando como uma princesa prateada de berço.
— Galpão 1 — ela sussurra. — Acho que disseram Galpão 1.
Quando Gisa abre a porta do refeitório, observo além dela, a linha de galpões marchando em direção às arvores. Os números são bem nítidos, pintados em preto sobre o concreto iluminado pelo sol: 2, 3, 4...
De repente, sinto um calafrio.
Não existe nenhum Galpão 1.h

15 comentários:

  1. Não gosto desse lugar.
    Os irmãos da Mare deveriam se lembrar de que foram dispensados da guerra por causa dela então deveriam ter um pouco mais de lealdade a ela.

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  2. serio eu achava que a Guarda era dos vermelhos, mas aparentemente é só uma peça na mão do rei do norte... (e eu não tô falando do Jon Snow).

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    1. Jon Snow 😍

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    2. Acho que o rei de Lakeland encontrou a maneira "certa" de vencer a guerra. Parou de se matar nas trincheiras do front de guerra. Vai destruir o país por dentro, e com a ajuda dos vermelhos.
      Ass: Déborah Alana.

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    3. Deborah, eu tbm acho isso. Mas qm quis expandir para norta foi a farley, n o comando. Apesar de eu achar q o comando ja sabia q ela iria qrer fikr em norta.

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  3. Quero que aconteça uma coisa muito fofa com Cal e a Mare.
    Obrigada Karina pelo livro ❤

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  4. Manooooo a tia Victoria não pode matar o Cal de jeito nenhum!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!1

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  5. Sabe um pouco me lembra a revolução russa com o exército vermelho e Branco

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  6. Que pena...Eu realmente acreditava na Guarda,mas agora sei que é mais um joguete nessa guerra estúpida dos prateados.
    A Mare tem que montar o próprio grupo rebelde com Kilorn,os irmãos, Cal e os sanguenovos.

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  7. Quando ela disse "não existe galpão 1" meu coração parou onde esta cal?
    Asa: Rosany

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Boa leitura :)