15 de março de 2017

Capítulo catorze

Mare

ANTES DE SER PRESA, passei meses atravessando o país, fugindo dos caçadores enviados por Maven e recrutando sanguenovos. Dormi no chão sujo, comi o que conseguíamos roubar, passei todas as horas sentindo demais ou de menos, tentando me manter sempre um passo à frente de todos os nossos demônios. Não lidei bem com a pressão. Me fechei e afastei meus amigos, minha família, todos que eram próximos a mim. Qualquer pessoa que quisesse ajudar ou entender. É claro que me arrependo. É claro que eu queria poder voltar para o Furo, para Cal e Kilorn e Farley e Shade. Faria as coisas diferente. Seria diferente.
Infelizmente, nenhum prateado ou sanguenovo pode mudar o passado. Meus erros não têm como ser desfeitos, esquecidos ou ignorados. Mas posso compensar. Posso fazer alguma coisa agora.
Já tinha visto Norta, mas como uma fora da lei. Às sombras. A vista do lado de Maven, como parte de sua comitiva, é tão diferente como a noite e o dia. Tremo dentro do casaco, com as mãos unidas para me aquecer. Entre o poder esmagador dos Arven e minhas algemas, fico mais suscetível à temperatura. Apesar do ódio que sinto pelo rei, me aproximo dele para aproveitar seu calor constante. Do outro lado, Evangeline mantém distância. Ela se concentra mais no governador Welle do que no rei, e sussurra para ele de vez em quando, a voz baixa o suficiente para não atrapalhar o discurso de Maven.
— Agradeço as boas-vindas, e seu apoio a um rei jovem que ainda está provando sua capacidade.
A voz de Maven ecoa, ampliada por microfones e alto-falantes. Ele não está lendo o discurso, e de alguma forma parece fazer contato visual com cada pessoa que lota a praça lá embaixo. Como tudo o que diz respeito ao rei, até a localização foi muito bem pensada. Ficamos no terraço, acima de centenas de pessoas, olhando para baixo, elevados e fora do alcance de meros humanos. O povo reunido de Arborus, capital do domínio do governador Welle, olha para cima, as cabeças inclinadas de um jeito que me causa arrepios. Os vermelhos se empurram para ver melhor. É fácil reconhecê-los, em grupos, cobertos por roupas que não combinam, o rosto ruborizado de frio, enquanto os prateados se cobrem de peles. Agentes de segurança em uniformes pretos estão espalhados pela multidão, vigilantes como os sentinelas a postos no terraço e nos telhados vizinhos.
— Espero que a turnê de coroação me permita não apenas uma compreensão mais profunda do reino, mas uma compreensão mais profunda de vocês. Suas lutas. Suas esperanças. Seus medos. Porque eu certamente tenho medo. — Um burburinho se espalha pela multidão lá embaixo e pelo grupo reunido no terraço. Até Evangeline olha de canto para Maven, os olhos estreitos sobre a gola branca imaculada de seu casaco de pele. — Somos um reino em perigo, que pode ruir sob o peso da guerra e do terrorismo. É meu dever solene impedir que isso aconteça e nos salvar dos horrores da anarquia que a Guarda Escarlate deseja instalar. Tantos morreram, em Archeon, em Corvium, em Summerton. Inclusive minha mãe e meu pai. Meu irmão foi corrompido pelas forças insurgentes. Mas, ainda assim, não estou sozinho. Tenho vocês. Tenho Norta. — Maven respira fundo e devagar, e um músculo se contrai em sua bochecha. — Vamos nos unir, vermelhos e prateados, contra os inimigos que querem destruir nosso modo de vida. Vou dedicar a vida à erradicação da Guarda Escarlate.
Os aplausos lá embaixo soam como metais batendo, agudos, terríveis. Mantenho o rosto calmo, a expressão cuidadosamente neutra. Me serve de escudo.
A cada dia seu discurso fica mais firme; as palavras são cuidadosamente escolhidas e empunhadas como facas. Nenhuma vez ele fala em “rebelde” ou “revolução”. A Guarda Escarlate é sempre terrorista. Sempre assassina. Sempre inimiga do nosso modo de vida, independente do que isso quer dizer. Ao contrário de seus pais, Maven toma muito cuidado para não insultar os vermelhos. A turnê passa igualmente por setores prateados e vermelhos. De alguma forma ele parece à vontade em ambos, jamais hesitando diante do pior que seu reino tem a oferecer. Visitamos até mesmo as favelas em torno das fábricas, o tipo de lugar que nunca vou esquecer. Tento não me encolher quando passamos por dormitórios prestes a desabar ou quando saímos para o ar poluído. Maven parece inabalável, sorrindo para os trabalhadores e seus pescoços tatuados. Ele não cobre a boca como Evangeline, nem mostra nenhuma reação ao cheiro, como tantos outros, eu incluída. É melhor nisso do que eu esperava. Maven entende, apesar de seus pais não conseguirem ou se recusarem a entender, que atrair os vermelhos para a causa prateada talvez seja sua melhor chance de vitória.
Em outra cidade vermelha, nos degraus de uma mansão prateada, ele firma o próximo tijolo da estrada mortal que está construindo. Mil camponeses pobres acompanham, sem acreditar, sem ousar ter esperanças. Eu mesma não sei o que ele está fazendo.
— As Medidas do meu pai foram decretadas após um ataque mortal que matou muitos oficiais do governo. Foram sua tentativa de punir a Guarda Escarlate por suas ações, mas, para minha vergonha, só atingiu vocês. — Diante dos olhos de tantos, Maven abaixa o rosto. É uma visão surpreendente. Um rei prateado inclinando-se diante das massas vermelhas. Tenho que lembrar de quem se trata. É um truque. — A partir de hoje, decreto as Medidas suspensas e abolidas. Elas foram um erro de um rei bem-intencionado, mas ainda assim um erro.
Ele olha para mim, só por um instante, o suficiente para que eu saiba que se importa com a minha reação.
As Medidas. Idade de recrutamento reduzida a quinze anos. Toque de recolher restritivo. Morte para qualquer crime. Tudo para virar a população vermelha de Norta contra a Guarda Escarlate. Elas desaparecem em um instante, em uma batida do coração negro de um rei. Eu deveria estar feliz. Deveria estar orgulhosa. Ele está fazendo isso por minha causa. Alguma parte dele acha que vai me agradar. Alguma parte dele acha que vai me manter ao seu lado. Mas ver os vermelhos, meu povo, aplaudir seu opressor só me enche de pavor. Olho para baixo e vejo que minhas mãos estão tremendo.
O que ele está fazendo? O que está planejando?
Para descobrir, tenho que chegar o mais próximo da chama que conseguir.
Ele termina seus discursos andando pela multidão, apertando a mão tanto de vermelhos quanto de prateados. Passa por eles com desenvoltura. Sentinelas o rodeiam em uma formação de diamante. Samson Merandus sempre protege sua retaguarda, e me pergunto quantos sentem a mente sendo invadida. Ele é o melhor obstáculo a um potencial assassino. Evangeline e eu seguimos atrás, com os guardas. Como sempre, me recuso a sorrir, a olhar, a tocar as pessoas. É mais seguro para elas assim.
Os veículos nos aguardam, os motores ronronando ociosos. Lá em cima, o céu escurece e sinto cheiro de neve. Enquanto nossos guardas se aproximam, ajustando a formação para permitir que o rei entre no carro, apresso o passo o máximo que posso.
Meu coração acelera e minha respiração forma uma nuvem branca no ar gelado.
— Maven — digo em voz alta.
Apesar da multidão gritando à nossa volta, ele me ouve e para. Vira com uma graça fluida, e a capa gira revelando o forro vermelho-sangue. Ao contrário do restante de nós, ele não precisa usar pele para se manter aquecido.
Aperto o casaco, para dar a minhas mãos nervosas o que fazer.
— Você estava falando sério?
Do seu próprio veículo, Samson me observa, os olhos penetrando os meus. Ele não consegue ler minha mente, não enquanto eu estiver usando as algemas, mas isso não o inutiliza. Confio que minha confusão real vai ajudar a mascarar meus sentimentos.
Não tenho ilusões no que diz respeito a Maven. Conheço seu coração distorcido, e sei que ele sente algo por mim. Um sentimento de que quer se livrar, mas não consegue.
Quando faz sinal para que eu vá até seu veículo, sinalizando que me junte a ele, espero ouvir Evangeline zombar ou protestar. Ela não faz nenhum dos dois, apenas segue até seu próprio carro. No frio, não brilha tanto. Parece quase humana.
Os Arven não me seguem. Maven os impede com um olhar.
O veículo dele é diferente de qualquer outro que já vi. O motorista e o guarda da frente ficam separados dos passageiros por uma janela de vidro. As laterais e janelas são grossas, à prova de balas. Os sentinelas não entram, subindo na carcaça, assumindo posições defensivas em cada canto. É perturbador saber que tem um guarda com uma arma bem em cima de mim. Mas não tão perturbador quanto o rei sentado à minha frente, me encarando, à espera.
Ele olha para minhas mãos, observando enquanto esfrego os dedos congelados.
— Você está com frio? — murmura.
Rápido, enfio as mãos embaixo das pernas para aquecê-las. O veículo acelera.
— Vai fazer isso mesmo? Acabar com as Medidas?
— Acha que eu mentiria?
Não consigo evitar uma risada sombria. No fundo da minha mente, desejo uma faca. Me pergunto se ele conseguiria me incinerar antes que eu cortasse sua garganta.
— Você? Nunca!
Ele sorri e dá de ombros, virando para ficar mais confortável no assento macio.
— Eu estava falando a verdade. As Medidas foram um erro. Fizeram mais mal do que bem.
— Para os vermelhos? Ou para você?
— Para ambos. É claro. Mas eu agradeceria meu pai se pudesse. Imagino que consertando esse erro vou conquistar o apoio do povo. — A indiferença fria de sua voz é desconcertante, no mínimo. Sei agora que isso vem das memórias do pai. Recordações envenenadas, esvaziadas de qualquer amor ou felicidade. — Temo que não vão restar muitos simpatizantes da sua Guarda Escarlate quando isso acabar. Vou acabar com eles sem outra guerra inútil.
— Você acha que migalhas vão acalmar as pessoas? — provoco, fazendo um gesto com o queixo em direção às janelas. Fazendas, estéreis com o inverno, se estendem até as colinas. — Ah, que lindo, o rei me devolveu dois anos da vida do meu filho. Não importa que ele ainda vai ser tirado de mim um dia.
Seu sorriso só aumenta.
— Você acha isso?
— Acho. O reino é assim. Sempre foi.
— É o que vamos ver. — Maven encosta no banco e coloca o pé no assento ao lado do meu. Tira até a coroa, girando-a nas mãos. Chamas de bronze e ferro brilham à luz baixa, refletindo meu rosto e o dele. Devagar, me afasto, me encolhendo no canto. — Acho que te ensinei uma dura lição — ele diz. — Perdeu tanto da última vez que agora não confia em ninguém. Está sempre à espreita, procurando informações que não vai usar. Já conseguiu descobrir para onde estamos indo? Ou por quê?
Respiro fundo. Parece que estou de volta à sala de aula de Julian, sendo testada com um mapa. O risco é bem maior aqui.
— Estamos na Estrada de Ferro agora, sentido noroeste. Indo para Corvium.
Ele tem a audácia de dar uma piscadinha.
— Quase.
— Então… — Pisco várias vezes, tentando pensar. Meu cérebro percorre todas as peças que reuni com o passar dos dias. Fragmentos de notícias, fofocas. — Rocasta? Você está indo atrás de Cal?
Maven fica mais à vontade no banco, parecendo entretido.
— Você pensa tão pequeno. Por que eu perderia tempo indo atrás de rumores sobre meu irmão exilado? Tenho uma guerra para acabar e uma rebelião para impedir.
— Uma guerra para acabar?
— Você mesma disse: Lakeland vai nos derrotar se tiver chance. Não vou permitir que isso aconteça. Principalmente com Piedmont envolvido em seus próprios problemas. Tenho que cuidar dessas questões pessoalmente.
Apesar do calor do veículo, devido principalmente ao rei ardente sentado à minha frente, sinto como se uma pedra de gelo descesse pela minha coluna.
Eu costumava sonhar com o Gargalo. O lugar onde meu pai perdeu a perna, onde meus irmãos quase perderam a vida. Onde tantos vermelhos morreram. Um desperdício de cinzas e sangue.
— Você não é um guerreiro, Maven. Não é um general ou um soldado. Como pode esperar derrotar seus inimigos se…
— Se outros não conseguiram? Se meu pai não conseguiu? Se Cal não conseguiu? — ele estoura. Cada palavra parece um osso quebrando. — Você tem razão. Não sou como eles. Não fui criado para a guerra.
Criado. Ele diz isso com tanta facilidade. Maven Calore não é ele mesmo. Ele próprio me disse isso. É uma ideia, uma criação das adições e subtrações de sua mãe. Uma coisa mecânica, uma máquina, sem alma, perdido. Que horror saber que alguém assim tem nosso destino na palma de sua mão vacilante.
— Não vai ser uma perda, não de verdade — Maven continua, para nos distrair. — A economia militar vai simplesmente voltar sua atenção para a Guarda Escarlate. E então ao que decidirmos temer depois dela. Qualquer que seja o melhor caminho para controlar a população…
Se não fossem as algemas, minha raiva transformaria o veículo em um monte de sucata eletrizada. Em vez disso, me lanço para a frente, atacando, estendendo as mãos para agarrá-lo pela gola do casaco. Sem pensar, eu o empurro, esmagando-o contra o assento. Maven se encolhe, a um palmo de distância do meu rosto, respirando com dificuldade. Está tão surpreso quanto eu. Não é fácil. Entro em choque imediatamente, incapaz de me mexer, paralisada pelo medo.
O rei me encara, olho no olho, os cílios pretos e compridos. Estou tão perto dele que vejo suas pupilas dilatarem. Queria poder desaparecer. Queria estar do outro lado do mundo. Devagar, firme, suas mãos encontram as minhas. Apertam meus punhos, sentindo as algemas e o osso. Então Maven os afasta de seu peito. Deixo que me movimente, aterrorizada demais para agir diferente. Minha pele se arrepia com seu toque, apesar das luvas. Eu o ataquei. Maven. O rei. Uma palavra, uma batida na janela, e um sentinela pode quebrar meu pescoço. Ou o próprio Maven pode me matar.
Me queimar viva.
— Sente — ele sussurra, com a voz afiada. Me dando uma única chance.
Como um gato assustado, faço o que ele manda, me encolhendo no canto.
Maven se recupera mais rápido do que eu e balança a cabeça com o esboço de um sorriso. Rapidamente, desamassa o casaco e joga para trás um cacho de cabelo que saiu do lugar.
— Você é uma garota inteligente, Mare. Não me diga que nunca ligou os pontos.
Respiro com dificuldade, como se tivesse uma pedra no peito. Sinto o calor subir, de raiva e de vergonha.
— Eles querem nossa costa. Nossa eletricidade. Nossas terras, nossos recursos… — Tropeço nas palavras que me ensinaram em uma escola em ruínas. A julgar pelo rosto de Maven, ele se diverte mais ainda com essas palavras. — Nos livros de Julian… os reis discordaram. Dois homens discutindo diante de um tabuleiro de xadrez como crianças mimadas. Eles são a razão de tudo isso. De cem anos de guerra.
— Achei que Julian tivesse te ensinado a ler as entrelinhas. A enxergar as palavras não ditas. — Maven balança a cabeça, decepcionado comigo. — Pelo jeito nem ele conseguiu desfazer os anos de educação precária. Outra tática bem aplicada, aliás.
Isso eu sabia. Sempre soube e lamentei. Os vermelhos são mantidos na ignorância. Isso nos deixa mais fracos do que já somos. Meus próprios pais não sabem nem ler.
Derramo lágrimas quentes de frustração. Você sabia de tudo isso, digo a mim mesma, tentando me acalmar. A guerra é uma artimanha, um disfarce para manter os vermelhos sob controle. Um conflito pode acabar, mas outro sempre vai eclodir.
Minhas entranhas se retorcem ao perceber o quanto o jogo é viciado, para todo mundo, há tanto tempo.
— Os ignorantes são mais fáceis de controlar. Por que acha que minha mãe manteve meu pai por perto por tanto tempo? Ele era um bêbado, um imbecil inconsolável, cego para tantas coisas, satisfeito em manter tudo como estava. Fácil de controlar, fácil de usar. Uma pessoa para manipular… e culpar.
Furiosa, limpo o rosto, tentando esconder qualquer indício das minhas emoções. Maven fica me olhando mesmo assim, com a expressão um pouco mais suave. Como se isso ajudasse.
— Então o que dois reinos prateados vão fazer quando pararem de jogar vermelhos uns contra os outros? — provoco. — Começar a nos atirar de precipícios aleatoriamente? Sortear nomes em uma loteria?
Ele apoia o queixo na mão.
— Não acredito que Cal nunca te contou nada disso. Bom, ele não estava realmente procurando uma oportunidade de mudar as coisas, nem mesmo por você. Provavelmente não achava que você suportaria… ou que entenderia…
Meu punho acerta o vidro à prova de balas da janela. A dor é instantânea, e mergulho nela na tentativa de manter qualquer pensamento sobre Cal distante. Não posso me permitir cair nessa armadilha, ainda que seja verdade. Ainda que Cal estivesse disposto a defender tais horrores.
— Não — explodo. — Não.
— Não sou tolo, menininha elétrica. — Seu tom acompanha o meu. — Se vai brincar com a minha mente, vou brincar com a sua. Somos bons nisso.
Eu estava com frio antes, mas agora o calor de sua raiva ameaça me consumir.
Enjoada, encosto o rosto no vidro gelado da janela e fecho os olhos.
— Não me compare a você, não somos iguais.
— Pessoas como nós mentem para todo mundo. Principalmente para nós mesmos.
Quero socar a janela de novo. Em vez disso, enfio os punhos embaixo dos braços, tentando encolher. Talvez eu desapareça. A cada respiração, me arrependo mais e mais de ter entrado neste veículo.
— Lakeland nunca vai concordar — digo.
Ouço a risada profunda em sua garganta.
— Engraçado. Porque eles já concordaram.
Meus olhos se arregalam em choque.
Ele confirma com a cabeça, parecendo feliz consigo mesmo.
— O governador Welle facilitou uma reunião com um dos principais ministros de Lakeland. Ele tem contatos no norte e é facilmente… persuadido.
— Provavelmente porque você mantém sua filha refém.
— Provavelmente — Maven concorda.
Então essa turnê é para isso. Solidificar o poder, criar uma nova aliança. Conseguir negociações a qualquer custo. Eu sabia que era mais do que o espetáculo, mas isso… isso eu não podia imaginar. Penso em Farley, no coronel, nos soldados de Lakeland jurados à Guarda Escarlate. O que uma trégua fará a eles?
— Não fique tão abatida. Estou terminando uma guerra pela qual milhões morreram e trazendo paz para um país que não conhece mais o significado dessa palavra. Você deveria ter orgulho de mim. Deveria estar me agradecendo. Pare… — Ele levanta as mãos para se proteger quando cuspo nele. — Precisa descobrir outra forma de expressar sua raiva — Maven resmunga, limpando o uniforme.
— Tire minhas algemas e te mostro.
Maven dá uma gargalhada.
— Claro, srta. Barrow.
Do lado de fora, o céu escurece e o mundo fica cinza. Coloco uma mão no vidro, desejando poder atravessá-lo. Nada acontece. Ainda estou aqui.
— Devo dizer que estou surpreso — ele continua. — Temos muito mais em comum com Lakeland do que pensa.
Minha mandíbula se contrai e eu falo entredentes.
— Ambos usam vermelhos como escravos e munição.
Maven projeta o tronco para a frente tão rápido que me encolho.
— Ambos queremos acabar com a Guarda Escarlate.


É quase cômico. Cada passo que dou explode na minha cara. Tentei salvar Kilorn do recrutamento e minha irmã acabou sendo punida por isso. Virei criada para ajudar minha família e em algumas horas já era prisioneira. Acreditei nas palavras de Maven e em seu falso coração. Confiei que Cal ia me escolher. Invadi uma prisão para libertar pessoas e acabei perdendo Shade. Me sacrifiquei para salvar quem amo e dei a Maven uma arma. E agora, por mais que tente combater seu reinado de dentro, acho que só pioro tudo. Como vai ser uma união entre Lakeland e Norta?
Apesar do que Maven disse, vamos em direção a Rocasta, avançando depois de mais paradas para sua coroação pela região de Westlakes. Não vamos ficar. Ou não há uma mansão adequada o suficiente para a corte de Maven ou ele simplesmente não quer.
Entendo por quê. Rocasta é uma cidade militar. Não uma fortaleza como Corvium, mas feita para abrigar o Exército. Uma coisa feia, construída com uma função. A cidade fica há muitos quilômetros das margens do lago Tarion, e a Estrada de Ferro passa em seu centro. Corta Rocasta como uma lâmina, separando o setor rico prateado do setor vermelho. Sem muros, a cidade me invade aos poucos. As sombras das casas e construções surgem na cegueira branca da nevasca. Prateados tempestuosos deixam a estrada aberta, combatendo o clima para manter a programação do rei. Ficam em pé sobre nossos veículos, direcionando a neve e o gelo à nossa volta com movimentos uniformes. Sem eles, o clima estaria muito pior, uma martelada de inverno brutal.
Ainda assim, a neve bate contra as janelas do meu veículo, escondendo o mundo lá fora. Não há mais dobra-ventos da talentosa Casa Laris. Estão mortos ou desaparecidos, ou talvez tenham fugido com as outas Casas que se rebelaram. Os prateados que restaram não conseguem fazer muita coisa.
Do pouco que consigo ver, Rocasta parece continuar funcionando, apesar da tempestade. Trabalhadores vermelhos vão para lá e para cá, segurando lanternas, a luz atravessando a neblina como peixes em águas turvas. Estão acostumados com esse tipo de clima.
Eu me aninho em meu casaco comprido, feliz pelo calor, ainda que a peça seja uma monstruosidade. Olho para os Arven, vestidos com o branco de sempre.
— Estão com medo? — tagarelo para o ar vazio. Não espero por uma resposta. Todos estão silenciosamente concentrados em ignorar minha voz. — Podemos perder vocês de vista em uma tempestade como essa. — Suspiro para mim mesma, cruzando os braços. — Estou cruzando os dedos.
O veículo de Maven segue à frente do meu, com os sentinelas. Eles se destacam nitidamente na tempestade de neve; seus uniformes flamejantes são como um farol para o resto de nós. Estou surpresa por não tirarem as máscaras apesar da visibilidade baixa. Devem ter prazer em parecer desumanos e assustadores — monstros defendendo outro monstro.
O comboio sai da Estrada de Ferro em algum lugar próximo ao centro da cidade, acelerando por uma avenida larga pontuada por luzes cintilantes. Casas luxuosas e mansões muradas se erguem, com janelas calorosas e acolhedoras. À frente, o relógio de uma torre aparece e desaparece atrás das rajadas de neve. Bate três horas quando nos aproximamos, parecendo ressoar dentro do meu peito.
Sombras escuras somem ao longo da rua, aprofundando-se a cada segundo conforme a tempestade fica mais forte. Estamos no setor prateado, evidenciado pela ausência de lixo e vermelhos esfarrapados vagando pelas ruas. Território inimigo. Como se eu já não tivesse ultrapassado as linhas inimigas ao máximo.
Na corte, havia rumores sobre Rocasta, principalmente relacionados a Cal. Alguns soldados foram avisados de que ele estaria na cidade, ou algum velho achou que o viu e trocou a informação por rações. Mas o mesmo pode ser dito sobre tantos lugares. Ele seria burro se viesse para cá, para uma cidade ainda sob o controle de Maven.
Principalmente tão próxima de Corvium. Se for esperto, está longe daqui, bem escondido, ajudando a Guarda Escarlate o melhor que pode. É estranho pensar que a Casa Laris, a Casa Iral e a Casa Haven se rebelaram por ele, um príncipe exilado que jamais vai reivindicar o trono. Que desperdício.
O prédio administrativo sob a torre do relógio é ornamentado em comparação ao restante de Rocasta, mais próximo das colunas e dos cristais do Palácio de Whitefire.
O comboio para em frente a ele, cuspindo-nos na neve.
Subo os degraus o mais rápido que posso, erguendo a gola vermelha para me proteger do frio. Lá dentro, espero calor e uma plateia à espera, que vai se agarrar a cada palavra calculada de Maven. Em vez disso, encontramos o caos.
Este lugar um dia foi uma grande sala de reuniões; nas paredes há fileiras de bancos acolchoados, que agora foram tirados do caminho. A maioria foi empilhada, para abrir espaço. Sinto cheiro de sangue. O que é estranho em um salão de prateados.
Mas então vejo: está mais para um hospital do que um salão.
Todos os feridos são oficiais, deitados sobre macas em fileiras bem alinhadas.
Conto três dúzias à primeira olhada. Seus uniformes revelam várias patentes, com insígnias das Grandes Casas. Curandeiros atendem o mais rápido que podem, mas só dois estão em serviço, marcados pelas cruzes vermelhas e prateadas nos ombros. Correm para lá e para cá, cuidando de feridas por ordem de gravidade. Um deles salta de um homem gemendo e se ajoelha ao lado de uma mulher que cospe sangue prateado, o queixo brilhando como metal com o líquido.
— Sentinela Skonos — Maven chama com seriedade. — Ajude quem puder.
Um dos sentinelas mascarados responde com uma reverência, separando-se do restante dos defensores do rei.
Outros de nós entram, lotando um lugar já cheio. Alguns nobres abandonam o decoro para procurar membros da família entre os soldados. Outros estão simplesmente aterrorizados. Os seus não deveriam sangrar. Não assim.
À minha frente, Maven olha de um lado para o outro, as mãos na cintura. Se eu não o conhecesse melhor, acharia que está impactado, com raiva ou triste. Mas é apenas atuação. Embora sejam oficiais prateados, sinto uma ponta de piedade por eles.
O hospital improvisado é prova de que meus Arven não são feitos de pedra. Para minha surpresa, Tigrina perde o controle e seus olhos se enchem de lágrimas. Ela fixa o olhar na extremidade do salão. Panos brancos cobrem corpos. Cadáveres. Uma dúzia deles.
Aos meus pés, um jovem solta um suspiro. Ele mantém uma mão contra o peito, pressionando o que deve ser um ferimento interno. Olho nos olhos dele, reparando em seu uniforme e seu rosto. É mais velho do que eu, com uma beleza clássica sob as camadas de sangue prateado. Usa uma insígnia preta e dourada. É um telec da Casa Provos. Ele não demora a me reconhecer. Suas sobrancelhas se arqueiam um pouco, e o jovem respira com dificuldade. Sob meu olhar, treme. Está com medo de mim.
— O que aconteceu? — pergunto. Na barulheira do salão, minha voz não é mais que um sussurro.
Não sei por que ele responde. Talvez pense que vou matá-lo caso contrário. Talvez queira que alguém saiba o que realmente está acontecendo.
— Corvium — ele sussurra em resposta. O oficial Provos arqueja, lutando para que as palavras saiam. — A Guarda Escarlate. É um massacre.
O medo transparece em minha voz.
— Para que lado?
Ele hesita. Eu espero.
Finalmente, o jovem solta uma respiração irregular.
— Ambos.

9 comentários:

  1. É estranho mas o Maven gosta mesmo da Mare

    ResponderExcluir
  2. A Mare deveria pelo menos se controlar e fingir que gosta dele . Ele é inteligente para perceber mas também gosta dela

    ResponderExcluir
  3. O Cal avisou que seria um massacre

    ResponderExcluir
  4. no momento o cal nao é prioridade é a fuga da mare

    ResponderExcluir
  5. Sempre achei que o cabelo de Maven fosse curto e penteado perfeitamente, mas nesse capítulo ela descreve que ele arruma uma mecha com um cacho, to biruta

    ResponderExcluir
  6. AAAAAAAH CARAMBAAAA UM MASSACRE EITA PO.
    Aí a Mare diz que as casas rebeladas estão lutando por um príncipe que não vai reinvindicar o trono..., Mas tô achando q vai sim hein, desde que a Cameron disse que ele entra em uma sala escondida pra se comunicar com alguém eu desconfio que ele esteja armando com alguém pra derrubar o Maven, e acho que esse alguém é a Evangeline. Acho q ele prometeu o trono pra ela se ela o ajudasse contra Maven, pelas atitudes dela parece q ela só está esperando a hora pra atacar. Enfim, tô pensando muito rsrs
    Ass: Déborah A.

    ResponderExcluir
  7. Querem saber de um segredo?

    Não quero que eles resgatem Mare. Quero que ela continue com Maven,case-se com ele, ele se arrependa de tudo que fez e morra para se sacrificar pelos sanguenovos. Mare fica no Trono e todos vivem felizes para sempre.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Tbm quero que ela fique ela ta conseguindo mudar o Maven de um jeito ou de outro mais ta

      Excluir
  8. Preciso de spoilers mas meus amigos não me dão. E não sei se realmente os quero

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)