13 de março de 2017

Capítulo catorze

ESQUERDA, DIREITA, ESQUERDA DE NOVO, PARA CIMA.
Os berros de Crance nos seguem pelos túneis e guiam nossos passos acelerados.
Os estrondos de outro desabamento nos fazem correr o mais rápido possível — deflagramos uma reação em cadeia, uma implosão dentro dos túneis. Uma ou duas vezes, o desabamento é tão perto que ouvimos o estalido agudo dos pilares rachando. Os ratos correm conosco, ziguezagueando para fora das sombras. Tremo quando eles disparam por cima do meu pé, suas caudas peladas chicoteando como barbantes. Não havia muitos ratos em Palafitas — as cheias do rio os afogariam —, e os toques do pelo preto e ensebado fazem minha pele arrepiar. Mas faço o máximo para deixar a repulsa de lado. Cal também não está feliz com eles e varre o chão com o punho flamejante, afastando as pestes sempre que chegam perto demais.
O pó envolve nossos tornozelos, pairando no ar, e a lanterna de Crance é praticamente inútil na escuridão. Os outros confiam no tato e estendem os braços para sentir as paredes, mas mantenho o foco no mundo sobre nós, na teia de fios elétricos e nos veículos em movimento.
Desenho um mapa na cabeça, que se sobrepõe ao mapa de papel praticamente decorado. Minha percepção é cada vez maior; a sensação é aterradora, mas não paro, me obrigando a absorver tudo o que posso. Os veículos gritam acima de nós, seguindo para a área do desabamento inicial. Alguns entram por vias laterais, provavelmente para evitar as estradas afundadas e os destroços. Uma distração. Ótimo.
Os túneis são domínio de Farley e Crance, um reino feito de pó. Mas cabe a Cal nos tirar das trevas, e nós dois percebemos a ironia disso. Quando paramos diante de uma porta de manutenção lacrada com solda, ninguém precisa dizer a ele o que fazer. Cal dá um passo à frente e estende as mãos; a pulseira solta suas faíscas e logo uma chama clara, quente, se aviva. O fogo dança na sua palma; ele agarra as dobradiças, derretendo-as em globos vermelhos de ferro. O próximo obstáculo é ainda mais fácil: uma grade de metal enferrujada, que ele desmancha em segundos. Mais uma vez, o túnel em ruínas ruge como um trovão, mas agora o ruído está bem mais distante. Os ratos são mais confiantes que nós — estão calmos e somem na escuridão de onde saíram. Suas pequenas sombras nos dão um conforto estranho e nojento.
Superamos a morte juntos.
Crance gesticula para a grade quebrada, dando a entender que devemos passar por ela. Mas Cal hesita, com a mão escaldante ainda segurando o ferro. Quando ele solta, só restam o metal vermelho e a marca da mão.
— Paltry? — pergunta lançando um olhar pelo túnel.
Cal conhece Harbor Bay bem melhor do que eu. Afinal, já morou aqui. Ele ficava em Ocean Hill sempre que a família real vinha para a região. Sem dúvida, usou parte do tempo para explorar as docas e as vielas, como fazia quando o encontrei pela primeira vez.
— Isso — Crance responde, acenando com a cabeça rápido. — O mais perto da central que posso deixar vocês. Egan mandou que eu levasse vocês pelo mercado de peixes e deixou um punhado de Marinheiros lá, à espera, isso sem falar no pelotão de agentes de segurança. Ele não acha que vocês vão entrar por Paltry, e não tem ninguém no prédio de vigia.
A forma como ele diz isso faz meu maxilar travar.
— Por quê? — pergunto.
— A Galeria Paltry é território dos Piratas.
Piratas. Outra gangue, provavelmente marcada com tatuagens mais sinistras que a âncora de Crance. Se não fossem as tramoias de Maven, eles poderiam ter ajudado uma irmã vermelha. Em vez disso, transformaram-se em inimigos quase tão perigosos quanto qualquer soldado prateado.
— Não foi isso que eu quis dizer — continuo, usando o tom de Mareena para esconder o medo. — Por que você está nos ajudando?
Alguns meses atrás, a ideia de ver três corpos esmagados me assustaria. Agora que já vi coisa bem pior, mal penso nos companheiros de Crance e em seus ossos partidos. Crance, apesar de ser um bandido, não parece tão confortável. Seus olhos miram a escuridão, na direção dos Marinheiros que ajudou a matar.
Provavelmente eram seus amigos.
Mas há amigos que eu trocaria, vidas que eu abandonaria para atingir meus objetivos. Já fiz isso antes. Não é difícil deixar pessoas morrerem quando isso garante a vida de outras pessoas.
— Não ligo para juramentos, para aurora vermelha ou para qualquer outra coisa com que a sua gente se importa — ele engasga, cerrando rápido o punho. — Palavras não me impressionam. Mas vocês fazem bem mais do que falar. Do jeito que entendo as coisas, ou traio o meu patrão ou o sangue.
Sangue. Eu.
Seus dentes reluzem à pouca luz, cintilando a cada farpa que solta.
— Até os ratos querem sair da sarjeta, srta. Barrow.
Ele então dá um passo além da grade, rumo à superfície, onde podem matar todos nós.
E eu o sigo.


Estufo o peito e encaro ecos e o fim do túnel. Nunca estive em Harbor Bay, mas o mapa e o meu sentido elétrico bastam. Juntos, desenham uma imagem das estradas e da fiação. Sou capaz de sentir os veículos militares avançando para o forte e as luzes da galeria. Mais ainda: entendo de cidades. Multidões, vielas, todas os detalhes da vida cotidiana. Esse é meu tipo de camuflagem.
A Galeria Paltry é outro mercado, tão pulsante quanto o Grande Jardim de Summerton ou a praça de Palafitas.
Só que mais sujo, mais agitado, livre de senhores prateados e repleto de corpos vermelhos e gritos de barganha. O esconderijo perfeito. Emergimos no nível mais baixo, um emaranhado subterrâneo de barracas entrecruzadas por lonas encardidas. Não há fumaça nem mau cheiro aqui; vermelhos podem ser pobres, mas não burros. Um olhar para cima, pela grade que tapa o enorme buraco no teto, me diz que é nos andares superiores que comercializam peixes fedorentos ou carne defumada, para que os cheiros escapem para o céu. Por enquanto, estamos cercados de mendigos, inventores, tecelões, todos tentando enfiar suas mercadorias nas mãos de clientes que não têm sequer um tetrarca para tirar a sorte. O dinheiro deixa todos desesperados. Os mercadores precisam ganhá-lo, os compradores precisam guardá-lo, e todos ficam cegos. Sei que deveria ter medo, mas estar rodeada por pessoas iguais a mim é um conforto estranho.
Crance segue na frente. Seu andar de macho alfa se transforma num caminhar a passos mancos iguais aos de Shade. Ele puxa o capuz do colete e esconde o rosto. Aos olhos de alguém desatento, parece um velho corcunda, embora esteja longe disso. Ele até apoia Shade por um tempo, abraçando-o pelo ombro para ajudá-lo a andar. Shade não precisa se preocupar em esconder o rosto e se concentra em não escorregar no piso irregular do andar subterrâneo da Paltry. Farley fecha a retaguarda, e fico mais tranquila ao saber que ela me dá cobertura. Apesar de todos os seus segredos, posso confiar nela; talvez não para detectar armadilhas, mas para lutar com unhas e dentes para sair delas. Neste mundo de traições, é o melhor que posso esperar.
Faz alguns meses que não roubo nada. Quando passo a mão num par de xales cor de carvão expostos numa barraca, meus movimentos são ligeiros e perfeitos, mas sinto uma estranha pontada de arrependimento. Alguém fez isso; alguém teceu e tricotou a lã para criar essas mantas ásperas. Alguém precisa delas. Mas eu também.
Uma para mim, outra para Cal. Ele pega a dele rápido, enrolando-a na cabeça e nos ombros para esconder o rosto. Faço o mesmo, bem em cima da hora.
Nossos primeiros passos pelo mercado lotado e lúgubre nos levam até um quadro de anúncios. Normalmente repleto de classificados, notícias e obituários, está coberto por vários impressos. Algumas crianças bagunçam o mural, arrancando os papéis que conseguem alcançar e fazendo bolinhas para tacar umas nas outras. Uma menina de cabelo preto e ralo e pés descalços, marrons, as observa. Ela se concentra nos dois rostos familiares que a encaram de uma dúzia de cartazes enormes e perversos anunciando com letras pretas garrafais: PROCURADOS PELA COROA POR TERRORISMO, TRAIÇÃO E ASSASSINATO. Duvido que a multidão em Paltry saiba ler, mas a mensagem é clara o suficiente.
A foto de Cal não é seu retrato oficial — que o faz parecer forte, nobre e audacioso —, mas sim uma imagem granulada, porém ainda nítida, de uma das muitas câmeras que o captaram momentos antes da sua execução fracassada no Ossário. Seu rosto está desfigurado, transtornado pela perda e pela traição, enquanto seus olhos cintilam um ódio sem limites. Os músculos do pescoço estão saltados pelo esforço. Talvez haja até sangue seco no colarinho da camisa. Tudo para que pareça o assassino que Maven quer mostrar. Os cartazes mais baixos estão cobertos de pichações em caligrafia apressada, gravadas com tanta violência que é até difícil decifrar. “Assassino do rei”, “Exilado”. As expressões rasgam o papel, como se as palavras fossem capazes de sangrar a pele fotografada. E, no meio delas, uma ordem: “Encontrar”, “Encontrar”, “Encontrar”.
Minha foto também foi tirada no Ossário. Sei exatamente em que momento: antes de eu atravessar os portões da arena, logo após ouvir Lucas levar um tiro na cabeça. Naquele segundo, tive certeza de que ia morrer.
Pior: tive certeza de que eu era inútil. Arven, agora morto, estava comigo, sufocando meu poder, me reduzindo a nada. Meus olhos no cartaz estão arregalados, temerosos, e eu pareço pequena. Não sou a garota elétrica nesta foto. Sou apenas uma adolescente assustada. Uma pessoa que ninguém apoiaria, muito menos protegeria. Não duvido que foi o próprio Maven quem escolheu a foto, sabendo exatamente que tipo de imagem queria projetar. Só que alguns não se deixaram enganar. Alguns viram numa fração de segundo a minha força, o poder dos meus raios, antes de cortarem a transmissão da execução. Alguns sabem o que sou, e escreveram no cartaz para todos verem: “Rainha vermelha”, “Garota elétrica”, “Está viva”, “Vamos nos levantar, vermelhos como a aurora”, “Levantar”, “Levantar”, “Levantar”.
Cada palavra arde como ferro em brasa, queimando fundo. Mas não podemos demorar diante do mural.
Cutuco Cal para afastá-lo da imagem brutal de nós dois.
Ele se retira de bom grado, seguindo Shade e Crance entre o redemoinho de gente. Contenho a vontade de tocá-lo para tirar um pouco do peso de seus ombros. Por mais que queira senti-lo, não posso. Preciso manter os olhos adiante, longe do fogo de um príncipe caído.
Preciso resfriar o coração para a única pessoa capaz de fazê-lo arder.
Subir pela Paltry é mais fácil do que parecia. Um mercado vermelho não é muito importante, então os policiais e as câmeras são raros nos níveis mais baixos. Mesmo assim, me mantenho alerta, à procura de olhos eletrônicos capazes de penetrar o caos de barracas e toldos. Gostaria de poder simplesmente desligá-los em vez de tentar desviar, mas isso seria perigoso demais.
Um blecaute misterioso com certeza chamaria atenção.
Os agentes também são preocupantes, e se destacam nitidamente nos uniformes pretos da segurança. À medida que subimos até a superfície da cidade, o número de agentes aumenta. A maioria parece entediada com a vida dos vermelhos, mas alguns se mantêm despertos.
Seus olhos vasculham a multidão, procurando.
— Abaixe — sussurro, agarrando o punho de Cal com força. O gesto faz meus nervos faiscarem da mão até o braço, me obrigando a soltar rápido demais.
Ainda assim, ele faz o que peço, e se inclina para se esconder. Talvez ainda não seja o suficiente. Tudo isso pode não ser o suficiente.
— Se preocupe com ele. Se ele sair correndo, precisamos estar preparados — Cal cochicha, com o lábio próximo o bastante para roçar meu ouvido. Através das dobras do xale, ele aponta para Crance. Mas meu irmão tem o Marinheiro nas mãos, segurando forte o colete dele. Como nós, ele não confia no contrabandista além do que a vista alcança.
— Shade está cuidando dele. Concentre-se em manter a cabeça baixa.
Cal solta mais um suspiro de irritação por entre os dentes.
— Apenas observe. Se ele for correr, vai ser daqui a trinta segundos.
Não preciso perguntar como ele sabe disso. A julgar pelo movimento da multidão, mais trinta segundos e estaremos no topo da escada frágil e retorcida, pisando no andar principal da Paltry. Dá para ver o centro do mercado agora, logo acima, inundado com a luz do meio-dia, que quase nos cega depois de tanto tempo debaixo da terra.
As barracas parecem mais profissionais. Uma cozinha aberta enche o ar com o aroma de carne assada. Após tantos pacotes de ração e peixes salgados, fico com água na boca. Arcos puídos de madeira curvam-se sobre nós, sustentando um teto de lona rasgada e remendada. Alguns estão danificados, deformados pela chuva e pela neve.
— Ele não vai correr — Farley sussurra, abrindo espaço entre nós. — Pelo menos não para Egan. Vai acabar sendo morto por trair os Marinheiros. Se for para algum lugar, será para fora da cidade.
— Então deixe ele ir — replico, também aos cochichos. A última coisa que preciso é ser babá de mais um vermelho. — Ele não serve para mais nada, certo?
— E se ele correr direto para uma cela de cadeia e um interrogatório, o que acontece? — A voz de Cal sai suave mas ameaçadora. Um lembrete frio do que é necessário para nos proteger.
— Ele deixou três dos seus morrerem por minha causa, para me manter segura — digo. Nem lembro do rosto deles. Não quero lembrar. — Duvido que a tortura seja um grande incômodo.
— Qualquer mente pode ceder a Elara Merandus — Cal diz finalmente. — Você e eu sabemos disso melhor que ninguém. Se ela o pegar, vão nos encontrar. Os sanguenovos de Harbor serão encontrados.
Se.
Cal quer matar um homem com base num terrível “se”. Ele toma meu silêncio como concordância e, para minha vergonha, não está totalmente errado. Pelo menos ele não vai me forçar a fazer isso, embora minha eletricidade mate tão rápido quanto seu fogo. Mas a mão dele se perde pelo xale e vai até a faca que sei que mantém escondida. Minhas mãos tremem sob as mangas da camisa, e rezo para que Crance continue a andar, que seus passos não vacilem, que ele não ganhe uma facada nas costas por ousar me ajudar.
O andar principal da Paltry é mais barulhento que os níveis inferiores, um excesso de sons e imagens. Reduzo um pouco o sentido elétrico, fechando o suficiente para me manter atenta. As luzes chiam no teto e oscilam em pulsos desiguais. A fiação está com defeito, fraquejando em algumas partes, o que incomoda meus olhos. As câmeras — sinto-as com mais intensidade aqui — convergem no posto de segurança, no centro do mercado. É pouco mais que uma barraca, com dois metros de largura, cinco janelas e um telhado de ripas.
Mas, diferente das outras barracas, está cheia de agentes, não de mercadorias. Agentes demais, percebo com um horror que cresce firme e forte.
— Mais rápido — cochicho. — Precisamos ir mais rápido.
Meus passos aceleram. Ultrapasso Cal e Farley até quase tropeçar em Crance. Shade me olha por cima do ombro, franzindo a testa. Mas seu olhar vai além de mim, além de todos nós, e se fixa numa coisa no meio da multidão. Uma coisa, não. Alguém.
— Estão nos seguindo — sussurra, apertando mais forte o braço de Crance. — Piratas.
Que se danem os instintos. Levanto o capuz para dar uma olhada neles. Não são difíceis de ver, com as cabeças raspadas cobertas pela tatuagem branca de um crânio com ossos pontiagudos. Quatro piratas abrem caminho entre a multidão, nos seguindo como gatos vigiam ratos. Dois pela esquerda, dois pela direita, nos encurralando. Se a situação não fosse tão crítica, acharia graça nas tatuagens. A multidão os reconhece à primeira vista e se divide para deixá-los passar, para deixá-los caçar.
É evidente que os outros vermelhos temem esses criminosos, mas eu não. Um punhado de bandidos não é nada se comparado à força de uma dúzia de agentes de segurança rodeando o posto. Podem ser lépidos, forçadores, oblívios — prateados capazes de nos fazer pagar com sangue e dor. Pelo menos sei que não são tão poderosos quanto os prateados da corte, murmuradores e silfos e silenciadores. Murmuradores poderosos como a rainha Elara não trajam o uniforme preto das patentes baixas. Eles controlam exércitos e reinos, não poucos metros de mercado, e estão bem longe daqui.
Por enquanto.
Para a nossa surpresa, o primeiro golpe não vem de trás, mas bem da nossa frente. Uma velhota corcunda de bengala não é o que parece, e engancha um pedaço de madeira retorcida no pescoço de Crance. Ela o derruba no chão enquanto remove o manto, revelando a careca e a tatuagem de caveira.
— O mercado de peixes não basta para você, Marinheiro? — ela provoca enquanto assiste Crance cair de costas. Shade também cai, enroscado em Crance e na própria muleta.
Faço menção de ajudar e preparo um pulo para a frente, mas um braço me agarra pela cintura e me puxa de volta para a multidão. As pessoas param para ver, ansiosas por um pouco de diversão. Nos misturamos às pessoas sem ninguém perceber, nem os quatro Piratas que nos seguiam. Não somos o alvo deles... ainda.
— Continue andando — Cal troveja no meu ouvido.
Mas finco os pés no lugar. Não vou deixar ninguém me levar a lugar nenhum, nem mesmo ele.
— Não sem Shade.
A Pirata dá outra pancada em Crance quando ele tenta levantar, e a bengala estala contra seus ossos. Ela é rápida e logo aponta a arma para Shade, que é esperto o bastante para permanecer no chão, com os braços erguidos numa rendição fingida.
Poderia desaparecer num instante e saltar até a segurança, mas sabe que não é possível. Não com todos os olhares sobre si. Não com o posto da segurança tão perto.
— Burros e ladrões, é isso que são — uma mulher perto de mim resmunga.
Parece a única incomodada com a cena. Comerciantes, clientes e meninos de rua: todos observam os três, ansiosos. Enquanto isso, os agentes não fazem nada, assistindo com uma curiosidade velada. Chego até a flagrar alguns segurando moedas para fazerem suas apostas na briga iminente.
Outra pancada, desta vez no ombro ferido de Shade.
Ele cerra os dentes na tentativa de abafar o gemido de dor, mas mesmo assim acaba ressoando alto pela Paltry.
Quase sinto o golpe em mim, e me contorço quando meu irmão se dobra.
— Não reconheço seu rosto, Marinheiro — a pirata grasna. Ela bate mais uma vez, com força suficiente para dar um recado. — Mas Egan com certeza vai reconhecer. Ele vai pagar para ter você de volta, ainda que um pouco machucado.
Cerro o punho, desejando minha eletricidade, mas sinto o fogo. Pele quente contra a minha, dedos enroscados no meu braço. Cal. Não vou conseguir usar meu poder sem feri-lo. Parte de mim não se importa com isso e quer afastá-lo para salvar meu irmão num movimento arrasador. Mas isso não vai nos levar a lugar nenhum.
Com um suspiro sentido, percebo que não poderíamos pedir uma distração melhor, um momento melhor para sumir. Shade não é uma distração, uma voz grita na minha cabeça. Mordo o lábio a ponto de quase fazê-lo sangrar. Não posso abandonar Shade, não posso.
Não posso perder meu irmão de novo. Mas não podemos ficar aqui. É perigoso demais, e há coisas mais importantes em jogo.
— A central de segurança — murmuro, tentando manter minha voz estável. — Temos que encontrar Ada Wallace, e a central é o único jeito — digo. Em seguida, acrescento palavras com gosto de sangue: — Precisamos ir.
Shade deixa o golpe seguinte o jogar para o lado, o que lhe oferece um ângulo de visão melhor. Nossos olhares se encontram. Espero que ele entenda. Meus lábios se movem sem emitir som — “central de segurança” é o que digo, informando onde ele poderá nos encontrar quando escapar. Porque ele vai escapar. É um sanguenovo como eu. Essa gente não é páreo para ele.
Soa quase convincente.
Sua expressão se desmancha, arrasado ao perceber que não vou salvá-lo. Mesmo assim, ele assente. E então a onda de pessoas o engole por completo, bloqueando a minha visão. Viro as costas antes de a bengala acertar mais um osso. Ouço o som duro e ressonante do golpe.
Estremeço de novo e lágrimas começam a despontar dos meus olhos. Quero olhar para trás, mas preciso ir embora, fazer o que deve ser feito e esquecer o que deve ser esquecido.
A multidão grita e avança, o que facilita nossa fuga até a rua, adentrando fundo em Harbor Bay.


As ruas ao redor da Paltry são como o próprio mercado: lotadas, barulhentas, fedendo a peixe e a temperos. Não espero menos do setor vermelho da cidade, onde as casas se espremem e se inclinam por cima das vielas, formando arcadas sombrias, ocupadas por lixo e mendigos. Não enxergo nenhum agente; eles devem estar na briga entre gangues na Paltry, ou foram chamados ao desmoronamento do túnel bem atrás de nós. Cal assume a dianteira agora, nos conduzindo direto para o sul, para longe do centro vermelho.
— Território familiar? — Farley pergunta, cravando os olhos desconfiados em Cal quando ele nos faz descer mais uma viela sinuosa. — Ou você está apenas tão perdido quanto eu?
Ele não se dá ao trabalho de responder. Reage apenas com um gesto rápido. Paramos perto de uma taverna cujas janelas estão tomadas pelas sombras dos bêbados profissionais. Os olhos de Cal se detêm na porta, pintada de vermelho vivo. Um de seus velhos esconderijos, imagino, de quando podia escapar discretamente de Ocean Hill para ver seu reino sem o verniz da alta sociedade prateada. É o que um bom rei faria, ele me disse. Mas, como descobri, a definição que ele tinha de “bom rei” era muito, muito imperfeita. Os mendigos e ladrões que encontrou ao longo dos anos não foram o bastante para convencer o príncipe. Ele testemunhou fome e injustiça, mas não o suficiente para garantir uma mudança. Não o suficiente para se preocupar. Isso até seu mundo mastigá-lo e cuspi-lo e transformá-lo num órfão, num exilado, num traidor.
Nós o seguimos por necessidade. Porque precisamos de um soldado e de um piloto, de um instrumento robusto para nos ajudar a alcançar nossos objetivos. Pelo menos é o que digo a mim mesma enquanto acompanho seus passos. Preciso de Cal por motivos nobres. Para salvar vidas. Para vencer.
Mas, assim como meu irmão, também tenho uma muleta. E a minha não é de metal, é de carne e osso e fogo e olhos de bronze. Se ao menos eu fosse capaz de me desfazer dele, se ao menos fosse forte o bastante para deixar o príncipe partir e cuidar de sua própria vingança... Para morrer ou viver como lhe desse na telha. Mas preciso dele. E não consigo encontrar em mim a força para deixá-lo ir.
Embora estejamos longe do mercado de peixes, a rua tem um cheiro horrível. Subo o xale até o nariz para tentar bloqueá-lo. Não é peixe, percebo, e os outros também.
— É melhor não irmos por aqui — Cal fala baixo, estendendo a mão para me parar, mas passo por baixo do braço dele. Farley vem logo atrás.
Chegamos ao fim da travessa e deparamos com o que costumava ser uma modesta praça. Agora, o lugar está sob um silêncio mortal. As janelas das casas e das lojas estão lacradas; as flores, queimadas; o solo, reduzido a cinzas. Dezenas de corpos pendem das árvores desfolhadas, com rostos roxos e inchados, enforcados.
Estão totalmente despidos, exceto por medalhões vermelhos idênticos, pendurados no pescoço. Não é nada luxuoso, apenas um quadrado de madeira com uma gravação, preso em um barbante grosso. Jamais vi medalhas assim, e me concentro neles para desviar o olhar de tantos rostos mortos.
Estão ali faz tempo, a julgar pelo cheiro e pelas nuvens de moscas ruidosas. Já deparei com a morte antes, mas esses cadáveres são os piores que já vi... ou produzi.
— As Medidas? — reflito em voz alta. Será que esses homens e mulheres violaram o toque de recolher? Falaram fora de hora? Foram executados pelas ordens que dei? Não eram suas ordens, digo a mim mesma. Mas isso não diminui minha culpa. Nada pode diminuir.
Farley faz que não com a cabeça.
— Eram da Ronda Vermelha — ela murmura. Ensaia um passo à frente, mas muda de ideia. — Cidades maiores com grandes comunidades de vermelhos criam seus próprios policiais e agentes. Para manter a paz, manter as nossas leis. Porque a segurança não liga.
Por isso os Piratas atacaram Crance e Shade tão descaradamente. Sabiam que não seriam punidos.
Sabiam que a Ronda Vermelha estava morta.
— Devíamos cortar as cordas — digo, sabendo que isso não é possível. Não temos tempo para enterrá-los, e nem queremos lidar com esse problema.
Me obrigo a virar de costas. A cena é abominável, algo que jamais esquecerei, mas não choro. Cal está lá, esperando a uma distância segura, como se não tivesse o direito de entrar na praça dos enforcados. Concordo sem dizer nada. O pessoal dele fez isso. O pessoal dele.
Farley não se segura tão bem quanto eu. Ela tenta esconder as lágrimas, e eu finjo não notar enquanto nos retiramos.
— Vai haver um acerto de contas. Eles vão pagar por isso — ela sibila com palavras mais tensas do que qualquer corda no pescoço.
Quanto mais nos afastamos da Paltry, mais organizada a cidade se torna. As vielas se alargam em ruas, com curvas suaves em vez de quinas bruscas. As construções são de pedra ou concreto liso, e não parecem prestes a cair a qualquer brisa forte. Algumas casas são cuidadas com esmero, ainda que pequenas, e devem pertencer aos vermelhos bem-sucedidos da cidade, a julgar pelas janelas e persianas vermelhas. São marcadas com a nossa cor, para que todos saibam quem mora lá dentro. Os vermelhos que circulam pela rua também são limpos, e a maior parte usa fitas vermelhas no punho.
Alguns portam broches presos à roupa, cujas cores familiares indicam a família a que servem.
O criado mais próximo traz um broche vermelho e marrom. Casa Rhambos.
Minhas aulas com Lady Blonos me vêm à cabeça num turbilhão, num borrão de fatos semidecorados.
Rhambos, uma das Grandes Casas. Governadores desta região, chamada Beacon. Forçadores. Uma garota da família participou da Prova Real, um fio de gente chamada Rohr, capaz de me rasgar ao meio. Encontrei outro Rhambos no Ossário. Era para ser um dos meus carrascos, e eu o matei, eletrocutando-o até seus ossos guincharem. Ainda ouço seus gritos. Depois da praça dos enforcados, a lembrança quase me faz sorrir.
Os criados dos Rhambos seguem para o oeste e sobem uma ladeira suave até uma colina que dá vista para a enseada. Vão para a mansão do seu senhor, sem dúvida. É uma das muitas casas suntuosas que pontilham a região, cada uma ostentando impecáveis paredes brancas, telhados azul-celeste, obeliscos prateados enormes que culminam em estrelas pontiagudas. Seguimos os criados morro acima, cada vez mais próximos da maior de todas as construções.
Parece coroada por constelações, rodeada de muralhas claras e reluzentes. As paredes são de diamante.
— Ocean Hill — Cal diz, acompanhando meu olhar.
O complexo domina o topo das colinas, como um gato gordo e branco estirado preguiçosamente atrás de paredes cristalinas. Assim como o Palácio de Whitefire, as beiras dos telhados são decoradas por chamas de metal dourado, forjadas com tanta perfeição que parecem dançar à luz do sol. As janelas reluzem como joias, todas limpas, fruto do trabalho de sabe-se lá quantos criados vermelhos. Ruídos e estrondos de uma obra ecoam do palácio; estão construindo algo na residência real que só Maven sabe o que é. Parte de mim quer ver — e tenho que rir desse lado idiota. Se um dia eu voltar a botar os pés num palácio, será acorrentada.
Cal não consegue olhar Ocean Hill por muito tempo.
O palácio é só uma lembrança distante agora, um lugar onde ele não pode mais entrar, um lar para o qual ele não pode retornar.
Acho que temos isso em comum.

18 comentários:

  1. Karina eu te amo miga, brigada por postar os livros e nunca esquecer da gente!1 <3

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  2. Coitado do Shade...E da Ronda Vermelha. Tive uma imaginação horrível nessa parte.
    ~polly~

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    1. Esse é um daquele momentos que odeio a minha imaginação...

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  3. KARINA EU TE AMO SERIAO todo livro que eu vou ler/ meus livros favoritos, eh tu que posta ♥

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  4. Nossa... Eu não entendo ela, numa hora ela tá sofrendo por deixar o irmão (e outras pessoas) para trás e/ou passar por cima delas, e no outro fica falando que não conseguiria deixar o Cal ir? Ela muda rápido de opinião, não é mesmo? Prioridades, eu acho. Mas afinal de contas, o que eu sei...

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  5. Nossa...uma pancada atrás da outra....deusolivre...

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  6. Nossa...Ela deixou Shade😕
    Eu não tô conseguindo me identificar com essa heroína. Tô amando o livro,mas diferente dos outros a heroína me irrita por seu jeito egoísta.

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  7. Eu não consigo ter essa visão ruim da mare.Se ela fosse egoísta ela não estaria enfrentando tudo isso. Já os sentimentos dela pelo cal,ainda é difícil pra ela própria entender,ela não quer ficar longe dele, só não sabe o que isso significa.Por mais difícil que seja deixar o irmão ela sabe q qualquer movimento em falso atrairia o exército do rei e aí todos estariam mortos.pega leve com a Mare gente,não é fácil a posição em que ela se encontra.

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    1. Finalmente uma pessoa que pensa o mesmo que eu! Todo mundo cai em cima da Mare, senda que o que ela tá fazendo não tá sendo fácil. Obvio que ela não queria deixar o irmão dela lá, mas do adiantaria ir lá resgatar ele se eles iam acabar sendo mortos depois? Além de todos os sanguenovos que seriam vítimas diretas do rei e seu exército, sem nem ter a chance de escolher se iriam combate-los ou permanecerem nas suas cidades. Peguem leve com a Mare.

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    2. Eu concordo. se ela fosse egoísta porque iria trocar o irmão por pessoas que ela nem conhece?

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  8. Ainda nao creio que ela deixo o irmao
    Essa frase de todo mundo pode trair todo mundo se encaixa na mare tbm

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  9. Essa garota é bipolar kkk

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  10. Não é possivel que eu seja a unica pessoa que adora a mare... normalmente nao me dou bem com as protagonistas por elas serem sempre as vitimas, as coitadinhas, e muitas vezes serem mto sonsas. Mare é poderosa,nao se faz de coitada,ela sabe oque quer e esta ali pra lutar.

    Duas coisas que adoro no livro são a mare e o livro não girar em torno de shipp

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  11. Hum... Nem quero saber o q Maeve tá construindo

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  12. Eu amo esse livro amo muito a mare e tem muitas coisas que me deixam curiosa tô muito ansiosa pra ver oq irá acontecer no próximo ep

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  13. Caraca ela deixou o shade, tenho um pressentimento que ele vai morrer,amo ele❤

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Boa leitura :)