3 de março de 2017

Capítulo catorze

OS SEGURANÇAS PATRULHAM O CORREDOR que dá para o meu quarto em pares. Desta vez, porém, estou de braços dados com Maven, de modo que eles nem ousam me parar. Embora seja noite, bem depois do horário em que deveria estar na cama, ninguém diz nada. Não se bate de frente com um príncipe. Não sei para onde ele me leva, mas prometeu que eu chegaria lá: em casa.
Maven é tímido, mas determinado. Caminha lutando para conter um sorrisinho. Não consigo não estar radiante com ele. Talvez Maven não seja tão ruim. Mas nos detemos bem antes de nosso suposto destino. Na verdade, sequer saímos do andar dos aposentos.
— Aqui estamos — anuncia ele ao bater à porta.
Ela se abre quase que instantaneamente e revela Cal. A aparência dele me faz recuar um pouco: peito nu e restos da sua estranha armadura — placas de metal e lâminas costuradas sobre o tecido — ainda em seu corpo. Não deixo de notar o hematoma acima do coração ou a barba por fazer. Faz mais de uma semana que não o vejo. Obviamente cheguei num mau momento. Cal não me nota de cara. Para meu espanto, está mais concentrado em tirar o resto da armadura.
— O embarque já está certo, Mavey... — começa a dizer, mas interrompe a frase quando encara o irmão e me vê ao lado dele. — Mare, como posso... Hã... O que posso fazer por você? — ele gagueja, sem saber o que dizer. Pela primeira vez.
— Não sei direito — respondo.
Meus olhos vão de Cal para Maven. Meu noivo apenas sorri e levanta um pouco a sobrancelha.
— Por ser o bom filho, meu irmão vai cuidar de você — ele diz, num tom de voz surpreendentemente brincalhão. Até Cal dá um sorrisinho e faz uma careta. — Você queria ir para a casa, Mare, e descobri alguém que já esteve lá antes.
Depois de um segundo confusa, entendo o que Maven quer dizer e me sinto burra por não ter percebido antes. Cal pode me tirar do palácio. Cal esteve na taverna... Conseguiu chegar até lá e pode fazer o mesmo por mim.
— Maven — diz Cal através dos dentes cerrados, já sem o sorriso —, você sabe que ela não pode ir. Não é uma boa ideia...
É minha vez de falar para conseguir o que quero.
— Mentiroso.
Ele me encara com os olhos ardentes que parecem me atravessar. Espero que consiga ver minha determinação, meu desespero, minha necessidade.
— Tiramos tudo dela, meu irmão — murmura Maven, aproximando-se. — Será que não podemos dar ao menos isso?
E então Cal concorda devagar e relutante, e gesticula para que entre em seu quarto. Zonza de tanto entusiasmo, corro para dentro, quase aos pulos.
Vou para casa.
Maven passa uns instantes parado em frente à porta depois que saio do seu lado.
— Você não vem junto — diz o mais velho. Não se trata de uma pergunta.
O príncipe mais novo balança a cabeça desanimado.
— Vocês já têm coisas demais com que se preocupar sem a minha presença.
Não preciso ser uma gênia para reconhecer a verdade nas suas palavras. Mas não é porque ele não vai que vou me esquecer do que fez por mim. Sem pensar, lanço os braços em volta de Maven. Ele fica sem reação por um segundo, mas aos poucos deixa um braço cair sobre meus ombros. Quando me afasto, suas bochechas estão coradas de prata. Eu mesma sinto o sangue ferver nas veias e pulsar nas orelhas.
— Não demore muito — ele pede, dirigindo o olhar a Cal.
Ele dá um meio sorriso.
— Você fala como se eu não tivesse feito isso antes.
Os irmãos riem juntos, de um jeito que só fazem entre si; como vi mil vezes meus irmãos rirem. Quando a porta se fecha após a saída de Maven e fico a sós com Cal, reconheço que já não sinto tanta antipatia pelos príncipes.
O quarto dele é duas vezes maior que o meu, mas é tão bagunçado que parece menor. Armaduras e trajes de combate ocupam nichos nas paredes, dispostos no que suponho ser manequins do tamanho de Cal. Erguem-se ao meu redor como fantasmas sem rosto e me encaram com seus olhos invisíveis. A maioria das armaduras é leve, feita de chapas de aço e tecido grosso, mas algumas são mais robustas, feitas para batalhas, e não para treinamentos. Uma tem até um elmo de metal reluzente e um visor de vidro fumê. Uma insígnia brilha em uma manga, costurada no material cinza-escuro. Traz a imagem da coroa preta flamejante e de asas prateadas. O que significa, para que servem os uniformes, o que Cal fez com eles... Nem quero pensar no assunto.
Como Julian, o príncipe herdeiro possui pilhas de livros por toda parte; tantas que as obras caem umas sobre as outras como pequenas cachoeiras de papel e tinta. Só que os livros de Cal não são antigos como os de Julian; quase todos parecem recém-encadernados, impressos em páginas envernizadas para conservar as palavras. Enquanto o príncipe some para tirar o resto da armadura, arrisco uma folheada em seus livros. São estranhos, cheios de mapas, diagramas e gráficos: guias para a terrível arte da guerra. Um é mais violento que o outro, com detalhes cada vez mais minuciosos sobre manobras militares dos últimos anos e também do passado distante. Grandes vitórias, derrotas sangrentas, armas e estratégias: é o bastante para dar um nó na minha cabeça. Pior ainda são as anotações de Cal guardadas entre as páginas: esboços das suas táticas favoritas, cálculos de ações que compensam a perda de vidas. Nas imagens, os soldados são representados por quadradinhos, mas vejo neles meus irmãos, Kilorn e todos que conheço na mesma situação.
Além dos livros, perto da janela há uma mesinha com duas cadeiras. Sobre ela, um tabuleiro com as peças já no devido lugar. Não consigo identificar o jogo, mas tenho certeza de que um dos assentos é de Maven. Os irmãos devem se encontrar de noite para jogar e rir, como fazem todos os irmãos.
— Nossa visita não pode durar muito.
O aviso de Cal me pega de surpresa, e chego até a pular de susto. Lanço um olhar para o closet a tempo de vê-lo descer a camisa pelas costas largas e musculosas. Também existem arranhões e cicatrizes ali, embora eu tenha certeza de que ele poderia ter acesso a um batalhão de curandeiros se quisesse. Por algum motivo, escolhe ficar com elas.
— Desde que consiga ver minha família — respondo ao mesmo tempo que me volto para o outro lado, desviando o olhar.
Cal reaparece, dessa vez totalmente vestido em roupas comuns. Levo um segundo para perceber que são as mesmas que trajava na noite em que nos conhecemos. Não acredito que não vi desde o começo o que ele realmente é: um lobo em pele de cordeiro. Agora sou um cordeiro em pele de lobo.


Saímos da parte residencial rápido, caminhando para o andar de baixo. De repente Cal entra num corredor que dá para um cômodo todo feito de concreto.
— É bem aqui.
O lugar parece um depósito, repleto de formas estranhas cobertas por lençóis. Algumas grandes, outras menores, mas todas ocultas.
— Não tem saída — protesto. De fato, não há outra porta além daquela pela qual entramos.
— Sim, Mare, trouxe você para um beco sem saída — ele bufa enquanto passa ao lado de uma das fileiras de coisas. Os lençóis levantam um pouco e consigo entrever o brilho do metal que escondem.
— Mais armaduras? — pergunto apontando para uma das formas. — Ia mesmo aconselhar você a arrumar mais algumas. Acho que as do seu quarto não bastam. E talvez seja melhor vestir uma delas agora. Meus irmãos são enormes e gostam de bater nos outros.
No entanto, a julgar pelos livros e músculos que Cal coleciona, acho que ele se garante.
Isso sem falar de todo o negócio de controlar o fogo.
Ele apenas balança a cabeça e diz:
— Acho que estou bem assim. Além disso, vou parecer um agente de segurança com uma coisa dessas. Não queremos passar uma impressão errada para sua família, queremos?
— E que impressão queremos passar? Acho que não estamos propriamente autorizados a apresentar você pelo nome.
— Diga que trabalho com você, que temos passe livre esta noite. Simples — ele propõe, dando de ombros.
Essa gente mente com tanta facilidade.
— E por que vai me acompanhar? Qual é o ponto?
Cal dá um sorriso maroto e aponta para um lençol ao seu lado.
— Carona.
Ele puxa o lençol e revela um aparelho reluzente de metal e tinta preta. Dois pneus, aros cromados, faróis e um longo assento em couro: nunca vi um veículo parecido.
— É uma moto — explica Cal, passando a mão pelo guidão feito um pai orgulhoso. Conhece e ama cada centímetro da fera metálica. — Veloz, ágil e vai aonde os outros veículos não vão.
— Parece... parece um convite à morte — comento finalmente, incapaz de mascarar minha apreensão.
Às gargalhadas, ele tira um capacete da parte de trás do assento. Desejo muito que não esteja esperando que eu o use ou me arrisque a andar neste troço.
— Meu pai disse a mesma coisa. E a coronel Macanthos também. Não querem produzir em série para o Exército ainda, mas vou convencê-los. Não caí uma só vez desde que aperfeiçoei as rodas.
— Foi você que construiu? — pergunto incrédula.
Cal dá de ombros, como se não fosse nada.
— Uau — deixo escapar.
— Espere só até andar nela — ele diz me estendendo o capacete.
Essa parece ser a deixa para a parede tremer. Mecanismos de metal rangem em algum lugar, e os blocos começam a deslizar para o lado. A nova abertura revela a noite escura lá fora.
Rindo, me afasto da máquina mortífera.
— Isso não vai acontecer.
Cal, porém, apenas sorri, joga a perna por cima da moto e ajeita o corpo no assento. O motor ronca vivo sob ele, rosnando e rugindo de energia. Consigo sentir a bateria no interior da máquina, fornecendo energia. A moto implora para escapar, para devorar a estrada entre o palácio e minha casa. Minha casa.
— É perfeitamente seguro. Prometo — ele grita mais alto que o motor.
Os faróis acendem e iluminam a noite escura à frente. Os olhos dourados de Cal encontram os meus. O príncipe me estende a mão.
— Mare?
Apesar do frio terrível na barriga, enfio o capacete na cabeça.


Nunca viajei de avião, mas agora sinto vontade de voar. De ser livre. A moto de Cal avança pelo percurso familiar em curvas elegantes e bem desenhadas. Ele é um bom piloto, admito. A velha estrada é cheia de lombadas e buracos, mas Cal desvia de todos com facilidade, mesmo daqueles que fazem meu coração saltar até a garganta. Quando faltam uns oitocentos metros, Cal para a moto no acostamento. Só então percebo que estou tão agarrada às costas do príncipe que ele precisa fazer força para se soltar. Sinto um frio súbito sem seu calor, mas tento não pensar nisso.
— Divertido, não é? — ele diz ao desligar o motor.
Minhas pernas e costas já doem por causa do assento estranho e pequeno, mas Cal salta da moto feito uma criança animada.
Desço logo em seguida, não sem alguma dificuldade. As pernas tremem um pouco por conta dos batimentos cardíacos que ainda estão acelerados. De resto, acho que estou bem.
— Nunca vai ser minha primeira opção de transporte.
— Me lembre de levar você num passeio de jato. Acho que depois você só vai querer motos — ele responde enquanto empurra o veículo para fora da estrada e o esconde na floresta. Depois de cobrir com galhos, Cal dá um passo para trás e admira sua obra. Se eu não soubesse exatamente para onde olhar, jamais notaria a moto ali.
— Dá para ver que você faz isso com frequência.
Cal se volta para mim com uma mão no bolso.
— O palácio às vezes é... sufocante.
— E bares lotados, bares de vermelhos, não são? — pergunto para forçar o assunto.
Cal, porém, põe-se a caminho do vilarejo a passos rápidos, como se pudesse deixar a questão para trás.
— Não saio para beber, Mare.
— Então você só sai para pegar batedores de carteira e distribuir empregos ao léu.
O príncipe para e se vira com tudo. Sem querer, acabo dando com a cabeça contra seu peito. Por uns instantes sinto o peso daquele corpo. Só depois ouço as gargalhadas.
— Você acabou de dizer “ao léu”? — ele diz, rindo.
Sinto o rosto corar por baixo da maquiagem. Dou um leve empurrão em Cal, em reprovação. Que inapropriado.
— Apenas responda a pergunta.
Seu sorriso permanece, apesar das gargalhadas sumirem aos poucos.
— Não faço isso por mim — explica. — Você precisa entender, Mare. Não... Um dia serei rei. Não posso me dar ao luxo de ser egoísta.
— Para mim, o rei era a única pessoa a ter esse luxo.
Cal nega com a cabeça e me lança um olhar desamparado.
— Quem dera isso fosse verdade.
Cal abre e fecha as mãos algumas vezes. Quase consigo ver as chamas em sua pele aparecerem de raiva. Depois, passa. Restam apenas as cinzas do arrependimento em seus olhos. Quando retomamos a caminhada, seu passo é mais ameno.
— Um rei deve conhecer seu povo. É por isso que saio às escondidas — ele cochicha. — Faço o mesmo na capital e na frente de batalha. Gosto de saber como o reino está ao vivo, e não pelas palavras de diplomatas e conselheiros. É o que um bom rei faria.
Pelo seu modo de falar, até parece que ele tem vergonha de querer ser um bom líder. Talvez, aos olhos do pai e de todos aqueles idiotas, esse desejo seja mesmo vergonhoso. Força e poder: as duas palavras que ensinaram a Cal desde a infância. Nada de bondade. Nada de gentileza. Nada de empatia, coragem, igualdade ou qualquer outra coisa que um governante deveria almejar.
— E o que você vê, Cal? — pergunto apontando para o vilarejo que começa a surgir atrás das árvores. Meu coração está agitado com a proximidade.
— Vejo um mundo na corda bamba. Sem equilíbrio, ele cai.
As palavras saem entre suspiros. O príncipe sabe que essa não é a resposta que quero ouvir.
— Você não faz ideia de como tudo é precário — ele continua —, de quão próximo este mundo está de voltar às ruínas. Meu pai faz o possível para proteger a todos, e eu farei o mesmo.
— Meu mundo já está em ruínas — rebato, chutando a poeira da estrada.
Ao nosso redor, as árvores parecem se abrir para revelar o lamaçal que chamo de lar. Perto do Palacete, parece uma favela, um inferno. Como ele não vê isto?
— Seu pai protege seu povo, não o meu.
— Mudar o mundo tem seu preço, Mare — diz ele. — Muitos morreriam, vermelhos na maioria. E, no fim das contas, a vitória não chegaria, não para você. Não conhece a história toda.
— Então conte — desafio, odiando suas palavras. — Conte a história toda.
— Lakeland é como nós: monarquia, nobres, uma elite prateada governando o resto da população. E os príncipes de Piedmont, nossos aliados, jamais apoiariam uma nação em que todos fossem iguais. Com Prairie e Tiraxes é a mesma coisa. Ainda que Norta mudasse, o resto do continente não aceitaria. Seríamos invadidos, divididos, despedaçados. Mais guerra, mais morte.
Lembro-me do mapa de Julian, aquela vastidão do mundo além do nosso país. Tudo dominado pelos prateados. Não há lugar para onde correr.
— E se você estiver errado? E se Norta for o começo? A mudança que os outros precisam? Você não sabe aonde a liberdade nos levaria.
Cal não tem resposta para me dar, e ambos caímos num silêncio amargo.
— É aqui — sussurro ao parar sob a sombra familiar da minha casa.
Meus pés caminham silenciosos pela varanda, bem diferente dos passos pesados e estrondosos de Cal, que fazem as tábuas de madeira ranger. Ele nota meu desconforto e põe sua mão cálida no meu ombro, mas isso não me acalma.
— Posso esperar lá embaixo se você quiser — ele sussurra, para minha surpresa. — Não vamos correr o risco de me reconhecerem.
— Eles não vão. Apesar dos meus irmãos estarem servindo o Exército, provavelmente são incapazes de diferenciar você de um poste.
Shade conseguiria. Mas ele é esperto o bastante e manteria a boca fechada.
— Além disso, você disse que queria conhecer o mundo pelo qual não vale a pena lutar — acrescento.
Após essas palavras, abro a porta e adentro aquela casa que já não é minha. É como entrar num túnel do tempo.
A casa vibra ao som de um coro de roncos, composto não apenas por meu pai, mas pela figura volumosa na sala: Bree, caído por cima da poltrona mais fofa da casa, formando uma pilha de músculos e mantas finas. Seus cabelos outrora longos agora estão raspados em estilo militar. Tem cicatrizes no rosto e nos braços, provas do seu tempo na batalha. Deve ter perdido uma aposta para Tramy, que se revira na minha cama. Não vejo Shade em parte alguma, mas ele nunca foi muito de dormir. Deve estar por aí no vilarejo, atrás das ex-namoradas.
— Hora de acordar — brinco ao puxar devagar o cobertor de Bree.
Meu irmão vai com tudo para o chão, que provavelmente fica mais prejudicado que ele, e rola até meus pés. Por uma fração de segundo, parece que vai voltar a dormir.
Então ele me encara. Pisca os olhos embaçados e confusos. Como sempre.
— Mare?
— Cala a boca, Bree. Tem gente querendo dormir! — Tramy urra na escuridão.
— QUIETOS TODOS VOCÊS! — ruge meu pai do seu quarto, o que faz todos nós pularmos de susto.
Nunca me dei conta de como sentia falta disto. Bree esfrega os olhos com sono e me puxa para si com uma gargalhada profunda. Um poft ao nosso lado anuncia que Tramy pulou descalço do sótão para a sala.
— Mare! — berra, e em seguida me ergue do chão ao me abraçar. Ele ainda está mais magro que Bree, mas bem longe daquele palito de que me lembro. Posso sentir os nós dos seus músculos sob minhas mãos. Os últimos anos não devem ter sido fáceis para ele.
— Bom ver você, Tramy — balbucio sob seus braços, sentindo-me prestes a explodir.
A porta do quarto abre de supetão e minha mãe surge em sua camisola esfarrapada. Ela abre a boca para dar uma bronca nos meninos, mas suas palavras morrem ao me ver. Em vez de brigar, minha mãe abre um sorriso e junta as mãos.
— Ah, finalmente você veio nos visitar!
Meu pai vem logo em seguida, fungando e rolando sua cadeira de rodas até a sala. Gisa acorda por último, mas não desce. Sua cabeça desponta da beira do sótão e apenas observa lá de cima.
Tramy enfim me larga e me põe de volta no chão, perto de Cal. Aliás, o príncipe é ótimo em parecer constrangido e deslocado.
— Ouvi dizer que se rendeu e arrumou um bom emprego — provoca Tramy, cutucando minha barriga.
Bree acha graça e bagunça meus cabelos.
— O Exército não ia querer saber dela mesmo. Mare ia roubar até os olhos do pelotão.
Respondo com um sorriso.
— O Exército não quer nem vocês. Dispensados, né?
Meu pai responde pelos dois, aproximando sua cadeira:
— Uma loteria, dizia a carta. Os irmãos Barrow ganharam a dispensa honrosa. E também pensão completa.
Dá para notar que ele não crê em nenhuma palavra daquilo. Já minha mãe engole tudo sem hesitar.
— Ótimo, não é? Finalmente o governo fez algo pra gente — ela diz para em seguida beijar Bree na bochecha. — E agora você tem um emprego. — Minha mãe está radiante de orgulho como nunca vi: geralmente ela guarda tudo para Gisa. Ela tem orgulho de uma mentira. — Já era hora de esta família ter um pouco de sorte — conclui.
Lá do alto, Gisa desdenha. Não a culpo. Minha sorte quebrou sua mão e seu futuro.
— Sim, somos muito sortudos — bufa, finalmente descendo para se juntar a nós.
Com uma mão, ela vem devagar pela escada. Quando chega no chão, reparo na tala amarrada com um tecido colorido. Com uma pontada de dor, vejo que se trata de um bordado lindo que jamais terminará.
Chego perto para dar um abraço, mas ela recua. Seus olhos estão em Cal. Gisa parece ser a única que o nota.
— Quem é ele?
Corando, percebo que quase me esqueci completamente dele.
— Ah, é Cal. Um dos criados que trabalham comigo no Palacete.
— Oi — desembucha Cal, complementando a palavra com um aceno idiota.
Minha mãe ri como noiva em dia de casamento e retribui o aceno, com os olhos fixos nos braços musculosos do príncipe. Meu pai e meus irmãos, por outro lado, não ficam tão encantados.
— Você não é daqui — rosna meu pai, encarando Cal como se ele fosse algum tipo de inseto. — Dá para sentir no seu cheiro.
— É só o cheiro do Palacete, pai... — protesto, mas Cal me interrompe.
— Sou de Harbor Bay — ele diz, fazendo questão de pronunciar o r com o sotaque da região. — Comecei a carreira em Ocean Hill, na residência real de lá, e agora vou junto nas viagens.
Em seguida, me encara e conclui:
— Muitos criados fazem isso.
Minha mãe suspira consternada e me agarra pelo braço.
— Você também? Tem que viajar com essas pessoas quando elas forem embora?
Quero contar a eles que não fui eu quem decidiu isso, que não vou embora por vontade própria. Mas tenho que mentir pelo bem deles.
— Era a única vaga disponível. Além disso, o salário é bom.
— Acho que já sei o que está acontecendo — resmunga Bree, cara a cara com Cal, que se sai muito bem e não demonstra medo.
— Não está acontecendo nada — ele responde friamente, encarando Bree com a mesma tensão no olhar. — Mare escolheu trabalhar para o palácio. Assinou um contrato de um ano e é isso.
Bree solta um gemido e se afasta.
— Gostava mais daquele Warren — reclama.
— Pare de ser criança, Bree! — grito.
Minha mãe se encolhe com minha rispidez, como se tivesse esquecido o som da minha voz em apenas duas semanas. É estranho, mas seus olhos estão marejados. Ela está esquecendo você. É por isso que quer que fique. Para não te esquecer.
— Não chore, mãe — peço.
Chego mais perto e a abraço. Sinto seu corpo tão magro, mais magro do que lembrava. Ou talvez nunca tenha notado quão frágil ficou.
— Não é só você, querida, é...
Ela desvia o olhar para meu pai. Seus olhos estão cheios de dor, uma dor que não compreendo. Os outros não suportam olhar para ela. Até meu pai fixa os olhos nos seus pés inúteis. Um peso sombrio paira na casa.
Então percebo o que está acontecendo, do que querem me proteger.
Com a voz trêmula, faço uma pergunta cuja resposta não quero ouvir:
— Onde está Shade?
Minha mãe se dobra sobre si mesma e quase não chega na cadeira da cozinha antes de desabar em soluços. Bree e Tramy não suportam assistir à cena e viram o rosto. Gisa não se mexe; apenas encara fixamente o chão como se quisesse mergulhar nele. Ninguém fala. Apenas o ruído das lágrimas da minha mãe e a respiração difícil do meu pai preenchem o vazio antes ocupado por meu irmão. Meu irmão, meu irmão mais próximo.
Perco o equilíbrio, quase caio para trás, mas Cal me segura. Gostaria que não o tivesse feito. Quero desmoronar, quero uma sensação dura e real para que a dor na minha cabeça não me faça sofrer tanto. Minha mão procura o ouvido e afaga as três joias que guardo com tanto carinho. Minha pele esfria ao toque da terceira, a joia de Shade.
— Não queríamos contar por carta — Gisa balbucia, cutucando sua tala. — Ele morreu antes da dispensa chegar.
O impulso de eletrizar, de despejar toda a minha raiva e tristeza num único raio poderoso e cortante nunca foi tão grande. Controle-se. Não acredito que me preocupei com a possibilidade de Cal incendiar a casa. Um raio destrói tanto quanto fogo.
Gisa luta contra as lágrimas e se esforça para pronunciar as palavras:
— Ele tentou fugir e o executaram. Foi decapitado.
Desta vez minhas pernas vacilam tão rápido que nem Cal consegue me segurar. Não ouço, não vejo, apenas sinto. Tristeza, choque, dor, o mundo inteiro girando ao meu redor. As lâmpadas vibram de eletricidade, gritam tão alto que acho que vão partir minha cabeça ao meio. A geladeira estala no canto; sua bateria velha e cansada pulsa como um coração moribundo. Elas me provocam, me insultam, querem que eu ceda. Mas não cederei. Não.
— Mare — sussurra Cal em meu ouvido. Seus braços estão ao meu redor, mas é como se sua voz viesse do outro lado do mundo. — Mare!
Solto um gemido doloroso na tentativa de retomar o fôlego. Sinto as bochechas molhadas, mas não lembro de ter chorado. Executado. O sangue ferve em minhas veias. É mentira. Ele não fugiu. Ele era da Guarda. Descobriram e o mataram por isso. Assassinaram meu irmão.
Nunca experimentei tanto ódio. Nem quando os meninos foram para a guerra, nem quando Kilorn veio me procurar. Nem sequer quando quebraram a mão de Gisa.
Um chiado ensurdecedor ecoa pela casa. A intensidade da geladeira, das lâmpadas e da fiação aumenta. A eletricidade vibra, faz com que me sinta viva, brava e perigosa. Estou gerando energia, projetando minha própria força na casa, como Julian ensinou.
Cal grita, me sacode, tenta me trazer de volta. Mas não consegue. O poder está em mim e não quero parar. A sensação é melhor que a dor.
Uma chuva de vidro cai sobre nós quando as lâmpadas explodem como milho ao fogo: ploc, ploc, ploc. Os estouros quase abafam os gritos de minha mãe.
Alguém me põe de pé usando força bruta. Suas mãos seguram meu rosto enquanto fala. Não para me confortar nem consolar, mas para me tirar do transe. Conheço essa voz de algum lugar.
— Mare, vamos! Acorda!
Abro os olhos e dou de cara com dois olhos verde-claros e um rosto cheio de preocupação.
— Kilorn.
Suas mãos ásperas arranham minha pele, mas me acalmam. Ele me traz de volta à realidade, ao mundo onde meu irmão está morto. A última lâmpada sobrevivente pende sobre nós, sua luz fraca mal ilumina o ambiente e minha família assustada.
Mas essa não é a única coisa a iluminar a escuridão.
Arcos lilás dançam em minhas mãos, cada vez mais fracos, mas ainda visíveis como a luz do dia. Meus raios. Não vai dar pra mentir agora.
Kilorn me senta numa cadeira com uma expressão nublada de confusão. Os outros apenas observam. Dói perceber que estão com medo. Mas não Kilorn; está apenas com raiva.
— O que fizeram com você? — explode, a centímetros de mim.
A eletricidade desaparece completamente. Restam apenas pele e dedos trêmulos.
— Nada.
Como desejo que fosse culpa deles. Como desejo poder culpar alguém.
Lanço um olhar para além de Kilorn, e meus olhos encontram os de Cal. Algo no príncipe se desfaz, e ele dá o menor dos acenos para se comunicar sem abrir a boca. Não preciso mentir.
— Eu sou assim.
Kilorn franze ainda mais a testa.
— Você é um deles?
Nunca ouvi tanta raiva, tanto nojo, condensados numa frase só. Tenho vontade de morrer.
— É? — ele pressiona.
Minha mãe é a primeira a recobrar os sentidos e, sem um pingo de medo, me toma pela mão.
— Mare é minha filha, Kilorn — ela diz, cravando os olhos sobre ele de um modo assustador que jamais imaginei poder vir dela. — Todo mundo sabe.
Minha família concorda e fica ao meu lado, mas Kilorn permanece descrente. Ele me olha como se eu fosse uma estranha, como se não nos conhecêssemos desde a infância.
— Me dê uma faca e encerro a discussão agora — digo, com um olhar fervente. — Vou mostrar a cor do meu sangue.
As palavras o acalmam um pouco e ele recua.
— É que... Não entendo.
Somos dois.
— Acho que estou como Kilorn neste aspecto. Sabemos quem você é, Mare, mas... — Bree gagueja à procura das palavras certas a dizer. Ele nunca foi bom com elas. — Como?
Mal sei o que dizer, mas explico o melhor que posso. Mais uma vez, a consciência dolorosa de que Cal está atrás de mim, escutando tudo, me censura, de modo que deixo de lado a Guarda Escarlate e as descobertas de Julian. Ainda assim, tento explicar as duas últimas semanas da maneira mais simples possível.
— Não sabemos como ou por quê, só sabemos que sou assim — finalizo e dou de ombros, gesto suficiente para fazer Tramy recuar um pouco. — Talvez a gente nunca saiba o que isso significa.
Minha mãe aperta minha mão em sinal de apoio. Esse pequeno conforto faz maravilhas por mim. Ainda tenho raiva, ainda sinto uma tristeza avassaladora, mas a necessidade de destruir desaparece. Recupero um resto de controle, suficiente para me manter na linha.
— Acho que é um milagre — ela balbucia com um sorriso forçado para mim. — Sempre quisemos o melhor para você e agora conseguimos. Bree e Tramy estão a salvo, Gisa não precisa se preocupar, podemos viver felizes, e você — seus olhos marejados encontram os meus —, você, minha querida, será alguém especial. O que mais pode pedir uma mãe?
Como desejo que suas palavras fossem verdade. Ainda assim, aceno com a cabeça e sorrio para minha mãe e minha família. Estou mentindo melhor e todos parecem acreditar em mim.
Só Kilorn não. Ainda fervilha, ainda tenta conter mais uma explosão.
— Como é o príncipe? — cutuca minha mãe. — Maven?
Terreno perigoso. Posso ver Cal ouvindo, à espera do que tenho a dizer do seu irmão caçula.
O que posso dizer? Gentil? Que estou começando a gostar dele? Que ainda não sei se posso confiar nele? Pior: que jamais poderei confiar em alguém novamente?
— Diferente do que eu esperava — respondo por fim.
Gisa percebe meu desconforto e se volta para Cal.
— Então quem é esse? Seu guarda-costas? — pergunta, mudando de assunto num piscar de olhos.
— Sou — Cal responde por mim. Ele sabe que não quero mentir para minha família, não mais que o necessário. — E sinto muito, mas precisamos ir embora logo.
Suas palavras me ferem como uma lâmina, mas tenho que obedecer.
— Sim.
Minha mãe levanta comigo. Aperta tanto minha mão que fico com medo de que quebre.
— Não contaremos nada, claro — promete.
— Nem uma palavra — meu pai concorda.
Meus irmãos confirmam com a cabeça o juramento de silêncio.
Mas o rosto de Kilorn ainda se contorce numa careta de ódio. Por algum motivo sente raiva, e eu sou totalmente incapaz de dizer qual é. Além disso, também estou com raiva. A morte de Shade pesa sobre mim feito uma rocha.
— Kilorn?
— É, não vou contar — dispara.
Antes que o possa deter, ele levanta da cadeira e sai rápido como um furacão a girar pelos ares. Bate a porta com tanta força que as paredes tremem. Já conheço suas emoções, seus raros momentos de desespero... Mas a ira é nova para mim. Não sei como lidar com ela.
O toque da minha irmã me traz de volta à realidade e me recorda de que o momento é de despedida.
— Você tem um dom — ela cochicha no meu ouvido. — Não desperdice.
— Você volta, não volta? — Bree pergunta depois que Gisa se afasta. É a primeira vez que vejo medo em seus olhos desde que ele partiu para a guerra. — Você vai ser princesa. Pode fazer as regras.
Antes fosse.
Cal e eu trocamos olhares. Seus lábios apertados e seu olhar sombrio me fazem perceber qual resposta devo dar.
— Vou tentar — balbucio, com a voz a ponto de falhar.
Uma mentira a mais não dói.
Quando chegamos aos limites de Palafitas, as palavras de despedida de Gisa ainda me assombram. Não havia qualquer vestígio de acusação em seus olhos, apesar de eu ter tirado tudo dela. Sua despedida ecoava no vento, maior que todo o resto. Não desperdice.
— Sinto muito pelo seu irmão — Cal fala do nada. — Não sabia que...
— Ele já estava morto?
Executado por deserção. Outra mentira. O ódio cresce novamente, e sequer quero controlá-lo. Mas o que posso fazer? O que posso fazer para vingar meu irmão, ou ao menos tentar salvar os outros?
Não desperdice.
— Preciso fazer mais uma parada.
Antes que Cal reclame, abro meu melhor sorriso e emendo:
— Prometo que não vai demorar.
Para minha surpresa, ele inclina a cabeça lentamente na escuridão.


— Um emprego no Palacete. Que prestígio — Will caçoa quando sento em seu trailer.
A mesma vela azul ainda arde, projetando sua luz bruxuleante ao redor. Como suspeitava, Farley partiu há muito.
Quando tenho certeza de que as portas e as janelas estão fechadas, baixo o tom de voz:
— Não trabalho lá, Will. Eles...
Para minha surpresa ele faz um gesto e me interrompe.
— Ah, já sei de tudo. Chá?
— Hã? Não... — minhas palavras vacilam com o choque. — Como você...?
— Os macacos reais escolheram a rainha na semana passada. E, claro, tinham que transmitir o evento nas cidades dos prateados — diz uma voz por trás da cortina.
A figura se revela. Não é Farley. Parece mais um varapau humano. Sua cabeça quase bate no teto, o que o faz andar encurvado de um jeito estranho. Seus cabelos rubros e longos combinam com o manto vermelho que cobre seu corpo dos ombros até a cintura, preso com a mesma insígnia de sol que Farley usou em sua transmissão. Não deixo de reparar em seu cinturão de armas, com pistolas e balas brilhantes. Ele também é da Guarda Escarlate.
— Você passou em todas as telas prateadas, Lady Titanos. — Ele pronuncia meu título como se fosse uma maldição. — Você e aquela Samos — continua. — Conte-me: ela é tão chata quanto parece?
— Este é Tristan, um dos tenentes de Farley — intervém Will.
Depois, com um olhar de reprovação ao companheiro, completa:
— Tristan, tenha modos.
— Por quê? — desdenho. — Evangeline Samos é uma babaca sanguinária.
Sorrindo, Tristan lança um olhar presunçoso a Will.
— Mas nem todos são macacos — acrescento discretamente ao lembrar as palavras gentis de Maven mais cedo.
— Você fala do seu noivo ou do príncipe que está à sua espera na floresta? — Will pergunta calmamente, como se falasse do clima ou do preço da farinha.
Já Tristan, num contraste gigante, entra em erupção. Chego mais rápido que ele à porta e abro os braços. Ainda bem que consigo me controlar. A última coisa de que preciso é eletrocutar um membro da Guarda Escarlate.
— Você trouxe um prateado até aqui? — ele silva para mim. — O príncipe? Sabe o que poderíamos fazer se o pegássemos? O que poderíamos barganhar?
Embora ele se erga como uma árvore sobre mim, não recuo.
— Não mexa com ele.
— Uma semana de luxo e seu sangue já é tão prateado quanto o deles — rebate, aparentemente querendo me matar. — Vai me eletrocutar também?
Tenho vontade, e ele sabe. Baixo as mãos com medo de que me traiam.
— Não estou protegendo ele. Estou protegendo vocês, seu burro ignorante. Cal é um soldado. Pode queimar o vilarejo inteiro se quiser.
Não que ele fosse fazer isso. Acho.
Tristan baixa a mão até a arma.
— Quero vê-lo tentar.
Mas Will leva a mão enrugada até o braço dele. O simples toque basta para que o rebelde desfaça a pose.
— Chega — Will sussurra. — Para que veio aqui, Mare? Kilorn está a salvo, e sua família também.
Respiro fundo e mantenho os olhos em Tristan. Ele acabou de ameaçar sequestrar Cal e pedir resgate. E, não sei por quê, isso me abala.
— Meu... — mal pronuncio uma palavra e já sinto dificuldade. — Shade era membro da Guarda.
Não pergunto, afirmo. Will encara o chão, como se pedisse desculpas, e até Tristan baixa a cabeça.
— Foi morto por isso — continuo. — Os prateados mataram meu irmão e tenho que agir como se isso não me incomodasse.
— Você morre se não colaborar — Will responde, falando sobre o que já estou ciente.
— Eu sei disso. Falarei o que eles quiserem quando o momento chegar. Mas... — minha voz vacila antes de eu cruzar essa fronteira. — Estou no palácio, no centro do mundo deles. Sou rápida, discreta e posso ajudar a causa.
Tristan toma um fôlego longo e se apruma. Apesar da raiva de antes, um quê de orgulho agora brilha em seus olhos.
— Quer se juntar a nós?
— Quero.
Will aperta o queixo e lança um olhar penetrante.
— Espero que saiba com o que está se comprometendo. Esta guerra não é só minha ou de Farley. É sua. Até o fim. E não é para vingar seu irmão, mas todos nós. Lutar pelos que vieram antes para salvar os que ainda virão.
Sua mão calosa me toca pela primeira vez, e noto uma tatuagem em volta do seu punho: uma fita vermelha. Como aquelas que nos fazem usar. A diferença é que agora ele a usa para sempre. É parte dele, como o sangue em nossas veias.
— Você está conosco, Mare Barrow? — ele pergunta, fechando sua mão sobre a minha.
Mais guerra, mais mortes, disse Cal. Mas há uma chance de ele estar errado. Há uma chance de mudarmos.
Aperto a mão de Will. Consigo sentir o peso da minha ação, a importância por trás dela.
— Estou com vocês.
— E vamos nos levantar — ele começa, fazendo uma só voz com Tristan.
Lembro das outras palavras e os acompanho.
— Vermelhos como a aurora.
À luz bruxuleante da vela, nossas sombras se assemelham a monstros nas paredes.


Quando reencontro Cal na fronteira do vilarejo, estou um pouco mais leve, motivada pela minha decisão e pelo panorama do que virá. Ele caminha ao meu lado. Me encara de vez em quando, mas não diz nada. Em seu lugar, eu cutucaria e provocaria a pessoa até arrancar uma resposta na marra. Cal é o completo oposto. Talvez seja uma tática militar tirada de algum dos seus livros: espere o inimigo vir até você.
Porque é isso que eu sou agora: sua inimiga.
Ele me confunde, como seu irmão. Ambos são gentis, embora saibam que sou vermelha e não devessem sequer me ver. Mas Cal me trouxe até minha casa e Maven foi bom comigo, quis ajudar. Que garotos estranhos.
Quando adentramos a floresta, Cal muda de atitude e fica mais sério.
— Terei que falar com a rainha para mudar sua agenda.
— Por quê?
— Você quase explodiu o lugar! — ele diz, simpático. — Precisa participar do nosso treinamento para garantir que algo assim não aconteça mais.
Julian está me treinando, diz uma vozinha na minha cabeça. Mas até ele entende que seu treino não está no nível de Cal, Maven e Evangeline. Se aprendesse ao menos metade do que eles aprenderam, quem sabe o tipo de ajuda que poderia oferecer à Guarda? À memória de Shade?
— Bom, se isso me tirar das aulas de protocolo, não vou recusar.
De repente, Cal se afasta da moto com um salto. As mãos flamejam com o mesmo fogo que arde em seus olhos.
— Alguém está nos observando.
Nem me incomodo em questionar. Cal tem um apurado faro de soldado. E, além disso, quem poderia representar uma ameaça séria a ele neste lugar? O que temeria no bosque de um vilarejo pobre e sonolento?
Um vilarejo repleto de rebeldes, minha mente lembra.
Mas em vez de Farley ou revolucionários armados, é Kilorn quem sai de trás das folhas. Esqueci como é sorrateiro, como se move com facilidade no escuro.
As mãos de Cal se apagam numa nuvenzinha de fumaça.
— Ah, é você.
Kilorn desvia os olhos dos meus para cravá-los em Cal. Então, inclina a cabeça numa reverência condescendente.
— Com licença, alteza real.
Em vez de tentar negar, Cal endireita o corpo como o rei que nasceu para ser. Não responde e volta a tirar as folhas de cima da moto. Mas sinto que observa cada segundo do que se passa entre Kilorn e mim.
— Você vai mesmo fazer isso? — Kilorn diz parecendo um animal ferido. — Vai mesmo partir? Ser um deles?
As palavras doem mais que um tapa. Não tenho escolha, é o que quero responder.
— Você viu o que aconteceu lá. Viu do que sou capaz. Eles podem me ajudar. — Até eu me surpreendo com a facilidade com que a mentira sai. Um dia talvez consiga mentir para mim mesma, me enganar com a ideia de que sou feliz. — Estou onde devo estar.
Ele balança a cabeça e me pega pelo braço, como se pudesse me puxar de volta a um passado em que nossas preocupações eram mais simples.
— Seu lugar é aqui.
— Mare — chama Cal. Ele espera pacientemente no assento da moto, mas sua voz é firme, um alerta.
— Preciso ir.
Tento me soltar de Kilorn, deixá-lo para trás, mas ele não deixa. Sempre foi mais forte que eu. E por mais que eu queira continuar presa a ele, não posso.
— Mare, por favor...
Uma onda de calor pulsa entre nós, como um intenso raio de sol.
— Solte-a — troveja Cal, já de pé ao meu lado.
O calor emana dele, quase capaz de fazer o ar vibrar. Noto que o esforço que faz para manter a calma vai se dissipando, ameaçando se desfazer de vez.
Kilorn o encara, desafiador, louco para entrar numa briga. Mas é como eu: somos ladrões, somos ratos. Sabemos quando lutar e quando correr. A contragosto, ele recua, deslizando os dedos pelo meu braço. Talvez seja a última vez em que nos veremos.
O ar esfria, mas Cal não recua. Sou noiva do seu irmão; ele tem obrigação de me proteger.
— Você também pediu por mim, para me liberarem do recrutamento — Kilorn diz com suavidade. Enfim compreendeu o preço que paguei. — Tem o péssimo hábito de tentar me salvar.
Mal tenho condições de confirmar com a cabeça e logo ponho o capacete para esconder as lágrimas que se acumulam nos olhos. Numa espécie de transe, sigo Cal até a moto e sento na garupa.
Kilorn se afasta. A ignição até o assusta um pouco. Ele então abre um sorriso malicioso, e seu rosto se contorce naquela expressão que costumava me dar vontade de socar sua cara.
— Direi a Farley que você mandou um “oi”.
A moto ronca como um animal selvagem e me arranca de Kilorn, de Palafitas e da minha antiga vida. O medo percorre meu corpo como um veneno até me fazer temer dos pés à cabeça. Mas não por mim. Não mais. Temo por Kilorn, pela idiotice que está prestes a fazer.
Ele vai encontrar Farley. E se juntar a ela.

13 comentários:

  1. Essa visita vai dar merda

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  2. Por alguma razão essa Farley mim faz lembrar a Presidente Coin de Jogos vorazes. Será que o proposito dela é o mesmo... será que ela só quer o poder??? (tipo só pensando mesmo)

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    1. Farley me lembra da líder que odiava o reinado do pai do Maxon, acho o livro igualzinho A Seleção, com um pouco de jogo vorazes é claro.

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  3. É uma mistura de jogos vorazes e o trono de vidro ! Kkkk

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  4. Parece trono de vidro mesmo

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  5. Essa farley me lembra de alguma forma a charlotte de peças infernais, na aparencia claro.

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  6. É pra shippar quem por favor ??? Organiza isso aí, autor. Uma hora eu torço pro Maven, outra hora pro Cal. Vamos parar de me fazer de besta, obrigada​.
    Ass: Déborah Alana

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    1. Hahahaah to na mesma situação kkkk será que ela pode ter 3 maridos??? Kkkk pq n me decidi ainda sobre qm shippo com ela.

      Amos os irmãos reais, mas acho ambos meio estranhos, n sei se confio tanto assim

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  7. Também não confio nos irmãos reais ainda, mas to começando a gostar deles, e ainda tem o Kilorn.

    Ai é gente demais para shippar

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  8. Vamos ter quer fazer um harem para ela se continuar desse jeito😂😂

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  9. É uma mistura de A seleção com jogos vorazes

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Boa leitura :)