25 de março de 2017

Capítulo 9 - Amar ainda mais

LILITH
Nove Dias

A Vingança se reuniu na sala de música na manhã seguinte, antes do início das aulas.
Quando Lilith chegou, com fotocópias de sua canção mais recente, “Voando de cabeça para baixo”, Jean testava alguns riffs malucos no sintetizador enquanto Luis detonava um saco gigantesco de Doritos.
Ele ofereceu a embalagem para Lilith e sacudiu os salgadinhos ali dentro.
— Em geral tento segurar meu vício em queijo artificial até pelo menos às nove da manhã — disse ela, recusando.
— Isto aqui é alimento para o cérebro, Lilith — insistiu Luis. — Come aí, vai.
Jean meteu-se no meio e apanhou um punhado de salgadinhos enquanto seguia até o microfone de Lilith para ajeitá-lo.
— Ele está certo — disse, com a boca cheia.
Lilith cedeu e apanhou um salgadinho. Ficou surpresa com o gosto delicioso. Aceitou um segundo, depois um terceiro.
— Agora sim, você está pronta pra arrasar — disse Luis depois que ela devorou dois punhados caprichados de Doritos. Era verdade. Já não estava mais tão faminta e tão nervosa quanto antes.
Sorriu para Luis.
— Valeu.
— Tranquilo — disse ele, depois fez um sinal de aprovação para a roupa de Lilith. — Tá bacana seu visual hoje, falando nisso.
Lilith olhou para o próprio vestido. Naquela manhã, pela primeira vez desde que se recordava, não sentiu vontade de usar roupa preta. Assaltou o armário da mãe antes da escola e encontrou um vestido justo branco, com bolinhas verdes imensas e um cinto largo de courino roxo. Parou na frente do espelho de corpo inteiro, surpresa ao perceber o quanto a roupa ficara descolada com os coturnos velhos, e como o verde do vestido destacava seu cabelo ruivo.
Quando entrou na cozinha, Bruce desviou os olhos de seus cereais e assoviou.
Lilith ainda não sabia exatamente o que tinha acontecido, mas Bruce recebera alta antes do previsto, e, quando eles voltaram para casa na noite anterior, disse que há anos não se sentia tão bem. O médico não soube explicar por que a respiração de seu irmãozinho voltara ao normal de repente; só pôde dizer que havia muito o estado de Bruce não era tão bom.
— Quantas vezes tenho de dizer que meu armário não é seu playground? — perguntara a mãe, embora Lilith nunca tivesse assaltado o armário dela até então. Porém, pousou o café e arregaçou as mangas de seu cardigã amarelo (aquele mesmo que ela havia acusado a filha de surrupiar no dia anterior, mas que acabara encontrando no fundo da gaveta da cômoda).
— Sempre achei que este vestido ficava lindo em você — disse Lilith, com sinceridade. — Tudo bem se eu o pegar emprestado? É só por hoje. Vou tomar cuidado.
Janet retorceu a boca, e Lilith teve certeza de que um insulto se formava ali. Porém, em vez de descarregá-lo, sua mãe analisou o visual de Lilith e depois apanhou a bolsa que estava em cima da bancada da cozinha. Talvez o elogio da filha a tivesse desarmado.
— Vai ficar mais bonito com um batonzinho — disse ela, entregando a Lilith um batom cor-de-rosa fosco.
Agora, na sala de música, Lilith aguardava a deixa de Jean, tomando cuidado para não manchar o microfone de batom. Então inclinou-se para a frente e começou a cantar sua nova canção. Estava nervosa, portanto fechou os olhos e deixou que as batidas de Luis e os acordes psicodélicos de Jean a embalassem no escuro.
Sozinha em seu quarto tinha sido tão fácil imaginar como aquela música ficaria, inventar melodias. Mas, agora que a cantava na frente dos outros, sentia-se exposta. E se eles a odiassem? E se a música fosse ruim?
Sua voz tremeu. Pensou em parar, em fugir correndo dali.
Abriu os olhos e espiou Luis, que assentia para ela com um sorriso aberto, alternando as baquetas entre a caixa e o chimbau. Jean acompanhava com a guitarra, arrancando notas das cordas, como se cada uma delas contasse uma história.
Lilith sentiu uma explosão de energia atravessar o corpo. Aquela banda, que há dois dias nem sequer existia, encontrara uma sonoridade rica e ágil. De repente, Lilith cantava sua música como se esta fosse digna de plateia. Jamais cantara tão alto e com tanta liberdade em toda a vida.
Luis sentiu aquilo também e encerrou com uma batida forte e cataclísmica.
Depois os três se entreolharam com a mesma expressão: sorridente e meio tonta.
— Doritos mágicos — comentou Luis, olhando reverentemente para o saco de salgadinhos. — Vou precisar fazer um estoque antes da festa.
Lilith riu, mas sabia que era mais que Doritos. Era que os três tinham relaxado e embarcado na música juntos, não apenas como parceiros de banda, mas como amigos. E também era que Lilith mudara depois que Bruce havia retornado tão bem do hospital.
Depois da internação do irmão, a mãe sugeriu que os três saíssem para comer pizza, algo que só acontecia uma ou duas vezes por ano. Eles pediram uma pizza grande de pepperoni com azeitonas e deram risada jogando pinball na velha máquina do Scared Stiff.
Quando Lilith colocou Bruce para dormir, ele recostou o corpo no travesseiro e disse:
— Cam é muito legal.
— Do que está falando? — perguntou Lilith.
Bruce deu de ombros.
— Ah, ele foi me visitar no hospital para me dar uma força.
Seu instinto havia sido ficar brava com Cam por visitar Bruce sem lhe dizer nada. Mas demorou-se um instante a mais na cama do irmão, observando-o cair no sono. Ele parecia tão em paz, tão diferente do garoto doente com o qual se acostumara, que Lilith se deu conta de que não conseguia sentir nada além de uma gratidão imensa pelo que Cam havia feito.
— Que música você quer tocar agora, Lilith? — perguntou Jean. — Precisamos aproveitar o embalo.
Ela pensou por um instante. Queria ensaiar “Blues de outro alguém”, mas, pensando melhor, e lembrando-se do que Cam tinha feito com a letra daquela música, hesitou.
— A gente podia tentar... — começou a dizer, mas três batidas altas na porta a fizeram parar. — O que é isso?
— Nada! — respondeu Luis. — Vamos continuar ensaiando.
— Pode ser Tarkenton — disse Jean. — Não deveríamos estar aqui.
Mais uma batida. Entretanto, não vinha da porta; vinha lá de fora. Da janela.
— Cara! — exclamou Jean Rah. — É Cam.
Os garotos correram até a janela, mas Lilith virou de costas. O rosto de Cam era a última coisa que desejava ver naquele momento. O que ela sentira ensaiando sua música instantes atrás fora tão simples, tão gostoso. Por outro lado, a sensação que experimentava sempre que olhava para Cam era tão complicada; ela não sabia nem por onde começar a desvendá-la. Era atração. Raiva. Gratidão. Desconfiança. Difícil sentir tantas coisas simultâneas por uma única pessoa.
— O que você está fazendo aí fora? — indagou Luis. — Estamos no segundo andar!
— Estou tentando despistar Tarkenton — respondeu Cam. — Ele quer me matar porque cabulei mais uma reunião da corte do baile de formatura.
Lilith não conseguiu evitar: riu zombeteiramente ao imaginar Cam naquelas reuniões com tanta gente metida. Quando sem querer seus olhos se encontraram com os dele, o garoto sorriu e estendeu a mão para ela, e, sem pensar, Lilith flagrou-se aproximando-se para ajudá-lo a entrar pela janela.
Cam ficou parado no meio da sala, sem soltar a mão de Lilith. Na verdade, até a apertou com mais força. Ela sentiu um frio no estômago e não soube por quê. Puxou a mão, mas antes olhou para Jean e Luis, se perguntando o que eles sentiam ao ver Cam ali, segurando sua mão, como um cara bizarro.
Mas os garotos nem prestaram atenção. Tinham ido até o sintetizador de Jean e trabalhavam juntos em uma melodia.
— Oi — sussurrou Cam, quando os dois ficaram mais ou menos a sós.
— Oi — devolveu ela. Por que se sentia tão estranha? Ela olhou para Cam e se lembrou de que queria lhe dizer uma coisa. — Meu irmão já foi internado 16 vezes. Nunca ninguém, além de mim e minha mãe, lhe fez uma visita. — Ela fez uma pausa. — Não sei por que você fez isso, mas...
— Lilith, me deixe explicar...
— Mas obrigada — disse ela. — Aquilo animou Bruce. O que você falou para ele?
— Se quer mesmo saber, falamos de você — disse Cam.
— De mim? — perguntou ela.
— Pois é. É um pouco constrangedor — disse Cam, sorrindo, como se não estivesse nem um pouco constrangido. — Ele meio que adivinhou que eu gosto de você. Ele é bastante ciumento em relação à irmã, mas estou tentando não deixar que isso me intimide.
Cam gostava dela? Como ele podia dizer aquilo como se não fosse nada de mais? As palavras saíram de sua boca com tanta facilidade que Lilith se perguntou para quantas garotas ele dissera aquilo antes, quantos corações não haveria despedaçado.
— Você ainda está me escutando? — perguntou Cam, agitando a mão na frente do rosto da garota.
— Sim — respondeu Lilith. — Hã... não subestime Bruce. Ele poderia lhe dar uma surra.
Cam sorriu.
— Estou feliz por ele ter melhorado.
— Parece um milagre — disse ela, porque era mesmo.
— Terra chamando Lilith. — A voz de Luis soou distorcida pelo microfone que Jean plugara ao Moog. — O sinal vai tocar daqui a quinze minutos. Temos tempo de trabalhar em mais uma música e depois precisamos marcar nosso próximo ensaio.
— Ah, falando nisso... — disse Cam, coçando a cabeça. — Vocês têm lugar na banda para mais um guitarrista que é capaz de se integrar numa harmonia de três partes?
— Não me leve a mal, cara — disse Jean, sorrindo. — Você é ótimo, mas a última notícia que tive foi que a vocalista não quer te ver nem pintado de ouro. Roubar o caderno dela foi mancada.
— É, mesmo que isso faça com que Lilith vença o concurso de letras de música — acrescentou Luis. — Pessoalmente, acho que foi um golpe de mestre.
Lilith deu um soco de brincadeira no amigo.
— Fique fora disso!
— Qual é? — perguntou Luis. — Confesse, Lilith. Você nunca teria entrado nesse concurso se não fosse por Cam. Se você ganhar, vai ser ótimo pra divulgar nossa banda.
— O que posso dizer? — disse Cam, dando de ombros. — Acredito em Lilith.
Ele disse aquilo com a mesma facilidade com que dissera que gostava dela, mas daquela vez pareceu diferente, mais palatável, como se ele não estivesse apenas tentando conquistá-la. Como se realmente acreditasse nela. Lilith sentiu o rosto corar quando Cam se abaixou e apanhou uma das páginas xerocadas que ela havia trazido para Jean e Luis. Leu a letra de “Voando de cabeça para baixo” e abriu um sorrisão.
— Esta é sua música mais recente?
Lilith parecia prestes a explicar as mudanças que desejava fazer, mas Cam a surpreendeu ao dizer:
— Adorei. Não mude nem uma palavra.
— Oh.
Cam abaixou o papel, abriu a mochila e sacou de lá um objeto grande e esférico, enrolado em papel pardo.
— É a cabeça de Tarkenton? — perguntou Luis.
Cam olhou para o baterista calouro.
— Que mórbido. Gostei. Pode ficar na banda.
— Sou um dos membros fundadores, mermão! — retrucou Luis. — E você, quem é?
— O melhor guitarrista que esta escola já viu — disse Jean, dando de ombros e olhando para Lilith. — Desculpe, mas Cam poderia fazer nosso som ficar muito melhor.
— Um voto a favor, então — sugeriu Cam, ansiosamente. — Quem concorda em me deixar entrar na Vingança?
Os três garotos levantaram a mão.
Lilith revirou os olhos.
— Olhe, isso aqui não é uma democracia. Eu não... não...
— Você não tem um bom motivo para se opor? — perguntou Cam.
Era verdade. Ela não tinha. Tinha só um milhão de motivos bobos para expulsar Cam dos ensaios, para mandá-lo embora de vez. Mas não tinha nem um único motivo legítimo.
— Certo, faremos um período de teste — disse ela por fim, entre dentes. — Um ensaio. Aí eu decido.
— Por mim está ótimo — disse Cam.
Lilith desembrulhou o objeto misterioso e... se viu segurando um globo espelhado. Mesmo à luz fraca da sala de música, ele cintilava. Olhou para Cam e se lembrou da primeira vez em que dissera que queria chamar sua banda de Vingança: ele riu e disse que precisariam de um grande sintetizador e de um globo espelhado. Jean havia trazido o Moog, e agora Cam trazia o globo.
— Será que dá pra gente parar de ficar olhando para esse negócio e começar a ensaiar? — perguntou Luis.
Cam sacou o estojo da guitarra do armário e deu uma piscadela para Lilith. Era a mesma piscadela irritante, mas... daquela vez, ela não se importou tanto.
— Vamos nessa.


— Vadia, sai da minha frente.
Pela primeira vez, Lilith aguardou ansiosamente pelo horário de almoço no refeitório, porque teria com quem almoçar. Amigos. Sua banda.
Havia se esquecido de Chloe.
— Só estava admirando sua nova tattoo — disse Lilith, indicando o peito de Chloe, onde se via uma tatuagem recente. A pele ao redor do desenho ainda estava vermelha e inchada, mas ela reconheceu a caligrafia da assinatura de Ike Ligon logo acima do decote da camiseta. Lilith achou a tatuagem feia, mas, mesmo assim, sentiu acender uma centelha de inveja. Ela não tinha dinheiro para uma atitude puxa-saco tão óbvia quanto aquela. Aliás, mal tinha dinheiro para o sanduíche de peru em sua bandeja.
As três garotas da Desprezos Nítidos espalharam-se atrás de Chloe. Kara cruzou os braços, e os olhos de Teresa estavam ávidos, como se ela estivesse prestes a pular em Lilith caso ela ousasse atacar Chloe novamente. June era a única que não assumia o papel estereotipado de garota má: puxava distraidamente as pontas duplas de seu cabelo loiro.
Parte de Lilith queria atirar a bandeja longe e arrancar a tatuagem de Chloe da pele. Mas, naquele dia, era uma parte menor e mais silenciosa de si. A parte mais significativa de Lilith estava preocupada com a própria banda: com as mudanças que desejava fazer num dos refrões, com ideias para um solo de bateria que queria propor a Luis, e até — precisava admitir — com uma pergunta que desejava fazer a Cam sobre sua técnica de guitarra. Pela primeira vez, tinha tanta coisa boa acontecendo com Lilith que a raiva não fora capaz de dominá-la.
Acredito em Lilith, dissera Cam naquela manhã, no ensaio. E aquela frase não saiu de sua cabeça. Talvez fosse hora de Lilith começar a acreditar em si também.
— Você é uma palhaça de marca maior, Lilith — disse Chloe. — Sempre foi e sempre será.
— O que você quer dizer com isso? — perguntou Lilith. — Não, deixe pra lá. — Ela engoliu em seco. — Desculpe se puxei seu cabelo. Achei que estivesse defendendo meu irmão, mas só estava sendo ridícula.
Kara cutucou June, que abandonou a ponta dupla e começou a prestar atenção.
— Eu sei — disse Chloe, meio espantada. — Obrigada por admitir isso. — E então, sem dizer mais uma palavra, ela convocou as amigas, assentiu para Lilith e saiu do refeitório, deixando Lilith a sós com a experiência nova de almoçar em paz.


Quando Lilith passou na sala da primeira aula depois do almoço, a Sra. Richards desviou os olhos de seu computador e assumiu um ar defensivo.
— Sua detenção é inegociável, Srta. Foscor.
— Não vim aqui para isso — disse Lilith, e puxou uma cadeira para sentar ao lado da professora. — Vim pedir desculpas por matar aula, por chegar atrasada tantas vezes e por ser o tipo de aluna da qual os professores, em geral, têm pavor.
A Sra. Richards piscou e retirou os óculos.
— O que provocou essa mudança de postura?
Lilith não sabia por onde começar. Bruce tinha voltado a frequentar a escola. Sua mãe a estava tratando como um ser humano. Sua banda ia de vento em popa. Ela tentara até mesmo uma reconciliação com Chloe King. As coisas estavam indo tão bem que Lilith queria que continuassem assim.
— Meu irmão esteve muito doente — disse ela.
— Eu sei — comentou a Sra. Richards. — Se precisar ser liberada de suas atribuições ou de mais prazo para cumpri-las, o corpo docente pode discutir o assunto, mas precisarei de documentos de sua mãe ou do médico. Você não pode simplesmente abandonar a aula sempre que lhe der na telha.
— Eu sei disso — concedeu Lilith. — Acho que a senhora poderia me ajudar com uma coisa. Bruce está se sentindo melhor e quero que continue assim. A senhora sabe tanto sobre o meio ambiente que pensei... talvez possa me ajudar a fazer algumas mudanças em minha casa.
Os olhos da Sra. Richards se suavizaram enquanto ela observava Lilith.
— Acredito piamente que podemos mudar o mundo para melhor, mas, às vezes, Lilith, as coisas não dependem só de nós. Sei o quanto Bruce padece. Não quero que você espere por um milagre. — Ela sorriu, e Lilith percebeu que a professora se compadecia verdadeiramente por ela. — Claro que não faria mal algum jogar fora produtos de limpeza tóxicos e começar a preparar refeições saudáveis para toda a família. Canja caseira, verduras verde-escuras ricas em ferro... esse tipo de coisa.
Lilith assentiu.
— Vou fazer isso. — Ela não sabia onde iria arrumar o dinheiro. Miojo era a ideia de refeição saudável da mãe. Mas ela daria um jeito. — Obrigada.
— Não tem de quê — disse a Sra. Richards, enquanto Lilith ia em direção à porta. Estava na hora da aula de história. — Você precisa comparecer à detenção esta tarde, mas quem sabe não podemos tentar fazer com que seja a última vez?


Quando Lilith saiu da escola depois da detenção, o enorme estacionamento dos alunos estava vazio, o que emprestava um ar fantasmagórico à escola. Havia cinzas reunidas no meio-fio, como neve cinzenta, e Lilith se perguntou se um dia chegaria a ver, cheirar ou provar neve de verdade. Colocou os fones de ouvido e se pôs a ouvir algumas canções antigas dos Quatro Cavaleiros, sobre corações partidos e sonhos frustrados, enquanto se afastava dos limites da escola.
Estava acostumada a ser uma das últimas alunas a sair — a detenção acabava depois dos treinos de futebol e dos ensaios do coral —, mas jamais havia parado para observar a escola de verdade ao fazê-lo.
Um vento forte tinha arrancado diversos cartazes da corte da formatura das paredes. Eles agora rodopiavam pelo asfalto, como folhas caídas com o rosto dos colegas estampados. O sol começara a se pôr, mas o calor ainda era grande. O fogo nas colinas parecia mais intenso que de costume quando Lilith se aproximou da alameda que formava a entrada da trilha para o riacho da Cascavel. Fazia alguns dias que não visitava seu lugar preferido, e desejava um canto silencioso para estudar para a prova de biologia antes de voltar para casa.
Ouviu um farfalhar nas árvores. Olhou ao redor, mas não notou ninguém. Então veio uma voz:
— Sabia que você não ia conseguir ficar longe daqui por muito tempo. — Luc apareceu por entre as alfarrobeiras. De braços cruzados, olhou para o céu, por entre os galhos.
— Agora não posso conversar — cortou Lilith. Havia algo de estranho naquele estagiário, e não apenas a lembrança dolorosa de abrir aquele envelope e ver a letra de sua música enviada por e-mail. Por que ele não saía da Trumbull? O estágio não devia requerer sua presença em tempo integral.
Luc sorriu.
— Vou ser breve. Acabei de falar ao telefone com Ike Ligon e achei que você pudesse se interessar pelo assunto de nossa conversa.
Contra a vontade, Lilith deu um passo em direção ao jovem.
— Como você sabe — disse Luc —, os Quatro Cavaleiros virão a Crossroads para tocar no baile de formatura e participar do júri da Batalha de Bandas. Bem, eu sei que, depois, toda a galera descolada vai à festa organizada por Chloe, mas...
— Eu não vou — disse Lilith.
— Ótimo! — Luc sorriu. — Porque eu estava pensando em chamar umas pessoas para minha casa depois. Algo íntimo. Quer vir?
— Não, obrigada...
— Ike Ligon vai — disse Luc.
Lilith respirou fundo. Como ela poderia ignorar a chance de passar um tempinho ao lado de Ike Ligon? Ela poderia perguntar onde ele arrumava as ideias para suas músicas, como era sua abordagem na criação das canções... seria um curso intensivo de como ser um roqueiro de sucesso.
— Certo, eu vou.
— Ótimo — disse Luc. — Mas só você. Cam não. Ouvi dizer que deixou ele entrar em sua banda. Se quer saber, acho que cometeu um erro de carreira.
— Sei que você odeia Cam. — Lilith agora queria saber como Luc ficara sabendo daquela notícia. As coisas tinham acontecido naquela manhã e ele nem mesmo frequentava a escola com eles.
— Ele tem má fama — continuou Luc. — Já deu seus pulinhos por aí. Pulinhos para baixo. Quero dizer, olha aquele cara! Sabe o ditado do viva intensamente, morra jovem e deixe um lindo cadáver? Acho que o velho Cam está provando que isso não passa de uma mentira. Seus pecados estão pesando sobre seus ombros, ele está até parecendo um pecador.
— Dizem que a verdadeira beleza vem de dentro — retrucou Lilith.
— Ah, no caso de Cam, espero que isso seja mesmo verdade. — Luc riu. — A King Media também teve conhecimento de que foi ele quem enviou sua letra ao concurso. Se ele fez isso sem sua autorização, é motivo para uma desqualificação.
— Não, tudo bem — disse Lilith, percebendo de repente que não queria ser desqualificada. — Ele... hã... teve minha aprovação. Posso perguntar uma coisa?
Luc levantou uma sobrancelha.
— Qualquer coisa.
— Parece que você e Cam têm uma longa história juntos. O que aconteceu entre vocês?
O olhar de Luc atravessou Lilith tal qual uma brasa, porém sua voz agora era fria como gelo.
— Ele acha que é a exceção para todas as regras. Mas algumas regras, Lilith, devem ser seguidas.
Lilith engoliu em seco.
— Parece que vocês se conhecem há muito tempo.
— O passado é passado — disse ele, suavizando novamente o tom. — Mas, se você se importa com o futuro, melhor chutar Cam da banda.
— Valeu pela dica. — Lilith deixou Luc. Então se abaixou para passar sob os galhos das árvores e entrar em seu lugar favorito, à margem do riacho. Ao se aproximar de sua alfarrobeira preferida, viu algo estranho: uma escrivaninha com porta movediça. Era feita de ferro forjado e devia pesar uma tonelada. Quem a havia trazido até ali? E como? Seja lá quem fosse, tinha coberto o topo da escrivaninha com pétalas de íris.
Lilith sempre adorara íris, apesar de só ter visto imagens daquelas flores na internet. Já fora inúmeras vezes à única floricultura da cidade, meio capenga, a Kay’s Blooms, para comprar um buquê de cravos amarelos para Bruce sempre que ele adoecia. Era a flor preferida do irmão. A Sra. Kay e seus filhos gerenciavam o lugar, mas, desde que ela morrera, os filhos passaram a comprar apenas o básico. Rosas vermelhas, cravos, tulipas... Lilith nunca vira nada tão exótico quanto íris ali dentro.
Ela admirou os botões azuis e amarelos, depois sentou-se na cadeira de espaldar baixo e abriu o tampo da escrivaninha. Ali dentro havia um bilhete escrito a mão:

Todo compositor precisa de uma escrivaninha. Encontrei esta na rua, na frente do Palácio de Versalhes. Pour toi.

Ele devia ter encontrado aquela peça na rua de algum dos moradores da região chique de Crossroads, à espera da passagem do caminhão de lixo, isso sim. Mesmo assim, gostou que Cam tenha pensado nela ao ver a escrivaninha. Gostou que provavelmente ele a tivesse limpado, para que ela pudesse usá-la. Leu a última linha do bilhete:

Com amor, Cam

— Com amor — disse Lilith, contornando as letras com o dedo. — Cam.
Não conseguia se lembrar de nem uma única vez em que alguém lhe dissera aquelas palavras. Sua família não falava essas coisas e ela jamais se aproximara o suficiente de algum garoto a ponto de ouvir tal declaração. Será que Cam usara aquela palavra por acaso, como fazia com tantas outras coisas?
Remexeu-se na cadeira, incomodada, quase sem conseguir olhar para a palavra no papel. Queria perguntar a ele o que queria com aquele presente, aquele bilhete... mas a questão, na verdade, não era a escrivaninha, era a palavra, que acendera algo dentro dela, agitando as profundezas de sua alma, fazendo com que começasse a suar. Ela queria confrontar Cam, mas não sabia onde ele morava. Então sacou seu caderno preto e deixou que aqueles sentimentos se canalizassem numa música.
Aquela palavra. O que poderia significar?

Um comentário:

  1. Afs Luc só pra atrapalhar, aaa muito fofo todo casal nesse livro tem uma flor, Luniel é a petonia, Cath é a íris 💖💜

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)