25 de março de 2017

Capítulo 7 - O amor vai nos destruir

LILITH
Onze Dias

Há muito tempo Lilith havia concluído que o refeitório de Trumbull não passava de uma câmara de tortura, mas, na manhã seguinte, Cam enfiou um bilhete em seu armário pedindo que ela o encontrasse na sala de música na hora do almoço — sendo assim, nem pensar em aparecer lá. E embora o riacho da Cascavel fosse sempre uma opção atraente, naquele dia estava com muita fome.
Então acabou indo ao refeitório. Pouco antes do meio-dia, entrou no labirinto barulhento de mesas grudentas. As conversas silenciaram, e os bancos rangeram no momento em que ela entrou.
Por um instante, ela se viu pelos olhos deles. A carranca hostil que lhe contraía os lábios. Os olhos azuis ferinos. O jeans preto vagabundo, tão surrado que tinha mais buracos que brim. O vistoso cabelo ruivo emaranhado, que nenhuma escova conseguiria domar. Nem mesmo Lilith gostaria de almoçar com Lilith.
— Achou um dólar na rua? Ou veio mendigar pelos restos? — zombou Chloe King, que apareceu no caminho de Lilith. Chloe segurava sua bandeja com uma das mãos, de forma descontraída. As unhas estavam pintadas de lilás e sua juba de tranças sacudia quando ela andava.
— Me deixe em paz! — Lilith a empurrou para o lado, derrubando a bandeja das mãos de Chloe.
Seu hambúrguer e batatas fritas caíram no chão, e uma caixinha de leite se esparramou pelo minivestido apertado de camurça branca.
— Ainda bem que esse vestido é branco, senão a falida da sua mãe estaria no banco pegando um empréstimo para me dar um novo!
As garotas de sua banda, as Desprezíveis, foram para o lado de Chloe, cada uma com um minivestido de uma cor pastel diferente. De repente, como se um holofote as tivesse iluminado, Lilith visualizou a banda no palco. Elas provavelmente nem sabiam tocar nada, mas venceriam a batalha porque todo mundo as acharia gostosas. Lilith nem sequer tinha uma banda, mas pensar em Chloe sendo vitoriosa a deixava enfurecida.
— Está escutando? — perguntou Chloe. — Alo-ou?! — Ela afastou o hambúrguer com a ponta da bota. — Talvez a gente devesse agradecer a Lilith por nos lembrar de não comer o lixo servido aqui.
Suas amigas riram, como era de se esperar.
De soslaio, Lilith viu Cam entrando no refeitório, carregando o estojo do violão.
— Nem morta eu iria ao baile de formatura! Não vou entrar na Batalha de Bandas, assim até alguém que cante mal como você tem chance.
— Uma noite dessas, sua mãe deu uma passadinha em minha casa, procurando trabalho — disse Chloe. — Papai ficou com pena dela. Eu lhe ofereci limpar minha privada...
— Mentira! — rosnou Lilith.
— Alguém tem de pagar as despesas médicas daquele seu irmão doente e raquítico.
— Cale a boca! — ordenou Lilith.
— Claro que meu pai não deu nem um centavo à sua mãe. — Chloe poliu as unhas no vestido. — Ele reconhece um mau investimento quando o vê e todo mundo sabe que aquele menino é um caso perdido.
Lilith pulou em cima de Chloe, agarrou suas tranças e as puxou com força.
A cabeça de Chloe inclinou-se para trás, e seus olhos se encheram de água quando ela caiu de joelhos.
— Pare — pediu ela. — Por favor, pare!
Lilith puxou com mais força. As pessoas podiam dizer o que quisessem dela, mas ninguém humilharia seu irmão.
— Solte, seu animal! — gritou a loira, Kara, equilibrando-se na ponta dos pés, como se tivessem molas.
— Será que eu devia filmar isso para ter, tipo, provas? — perguntou a amiga de Chloe, June, pegando o celular.
— Lilith... — Cam pôs a mão em sua nuca. Ao sentir o toque, algo percorreu seu corpo, imobilizando-a.
Aí seu cérebro engrenou. Cam não deveria se meter. Lilith soubera desde o dia em que o vira que ele era o tipo de cara que machuca as pessoas. Ela descarregou sua fúria na cabeça de Chloe, puxando suas tranças com mais força ainda.
— Sai daqui, Cam!
Ele não saiu. Você é melhor que isso, a mão dele parecia lhe dizer.
Cam não conhecia a dor, o estresse e a humilhação com os quais Lilith tinha de lidar diariamente. Ele não a conhecia de verdade.
— O que foi? — inquiriu, olhando para ele. — O que você quer?
Ele fez um sinal com a cabeça em direção a Chloe.
— Dê uma surra nela.
June largou o celular e pulou sobre Lilith, mas Cam se colocou entre elas e a segurou. June mordeu seu braço, como um peixe piranha.
— Solte ela! — gritou Kara para Cam. — Diretor Tarkenton!? Alguém? Socorro!
Lilith não sabia se Tarkenton estava no refeitório. Era difícil enxergar muito além do círculo apertado de mais ou menos vinte alunos aglomerados ao redor deles.
— Porrada! Porrada! Porrada! — entoava o grupo.
E então, de repente, tudo aquilo pareceu ridículo.
Meter a mão na cara de Chloe não mudaria nada. Não tornaria a vida de Lilith melhor. No máximo, iria piorá-la. Ela podia ser expulsa, e podiam encontrar um lugar ainda pior onde matriculá-la.
Lilith afrouxou os dedos e soltou Chloe, que desabou no chão, passando a mão no couro cabeludo. Kara, June e Teresa correram para ajudá-la a se levantar.
— Querida, você se machucou? — perguntou Kara.
— Como está a mão que você usa pra tocar? — perguntou Teresa, erguendo e flexionando a mão com a qual Chloe tocava guitarra.
Chloe se levantou, mostrando os dentes para Lilith e Cam.
— Por que vocês dois não vão embora e começam a vidinha desprezível de vocês juntos? Estou ouvindo um laboratório de metanfetamina chamando o nome de vocês! — Ela tocou sua têmpora e recuou. — Vocês são os primeiros em minha lista negra! É melhor ficarem espertos.
Chloe e sua banda foram embora de cara fechada. A aglomeração se dispersou lentamente, frustrada porque não ter havido uma luta de fato.
Lilith estava ao lado de Cam e não sentia vontade de dizer nada. Devia ter simplesmente deixado os insultos de Chloe pra lá, como vez por outra fazia. A mãe ficaria furiosa quando soubesse o que tinha acontecido.
Cam puxou Lilith contra a mesa mais próxima para dar passagem a alguns alunos. Mas, quando foram embora, ele não a soltou. Ela sentiu a mão dele em sua lombar e não a afastou.
— Não deixe essas vadias te botarem pra baixo — disse ele.
Lilith revirou os olhos.
— Superar garotas que se acham melhores que eu fingindo que sou melhor que elas? Valeu pelo conselho.
— Não foi o que eu quis dizer — respondeu Cam.
— Mas você acabou de chamá-las de vadias!
— Chloe está atuando — disse Cam. — Como uma atriz.
— O que você está fazendo, Cam? — perguntou, sentindo-se cansada. — Por que está me estimulando a confrontar Chloe? Por que tentar me animar agora? Por que fingir interesse por minha música? Você não me conhece, então por que se importa?
— Será que já passou pela sua cabeça que quero te conhecer? — perguntou Cam.
Lilith cruzou os braços e olhou para baixo, incomodada.
— Não tem nada pra conhecer.
— Duvido! — retrucou ele. — Por exemplo... no que você pensa antes de adormecer à noite? O quão tostada você gosta da torrada? Aonde você iria se pudesse viajar para qualquer lugar do mundo? — Aproximou-se, e sua voz era quase um sussurro quando ele estendeu a mão para tocar seu rosto, abaixo da maçã esquerda. — Onde arrumou esta cicatriz? — Ele deu um sorrisinho. — Está vendo? Há vários segredos fascinantes aí dentro.
Lilith fez menção de responder. Calou-se. Ele estaria falando sério?
Ela analisou o rosto dele. Suas feições estavam relaxadas, como se ele não estivesse tentando persuadi-la a fazer nada daquela vez, como se estivesse feliz só por estar ao seu lado. Concluiu que ele falava sério. E ela não fazia ideia de como reagir.
Sentiu algo se agitar dentro de si. Uma lembrança, um instante de reconhecimento, não sabia ao certo. Mas algo em Cam de súbito lhe pareceu estranhamente familiar. Ela olhou para baixo e percebeu que as mãos dele tremiam.
— Pode confiar em mim — pediu ele.
— Não! — falou Lilith baixinho. — Não pratico a confiança.
Cam inclinou-se mais para perto, até que a ponta de seus narizes quase se tocassem.
— Nunca vou machucar você, Lilith.
O que estava acontecendo? Lilith fechou os olhos. Sentiu vontade de desmaiar. Quando os abriu, Cam estava ainda mais perto. Seus lábios se aproximaram dos dela...
E então a voz de Jean Rah quebrou o encanto entre os dois.
— E aí, galera!
Lilith deu um passo para trás, tropeçando nos próprios pés. Seus joelhos estavam bambos e o coração trotava. Ela olhou para Cam, que limpou a testa com as costas da mão e expirou. Jean Rah não tinha sacado nada do que poderia ter rolado ali.
Ele ergueu o celular.
— A sala de música vai ficar aberta até uma da tarde. Só estou falando...
Uma mensagem de texto apitou no celular de Jean, e ele arqueou as sobrancelhas.
— Você arrancou os apliques de Chloe King e eu perdi isso?
Lilith gargalhou, e, depois, uma coisa maluca aconteceu. Jean caiu na risada e Cam também, e, de repente, os três riam tanto que estavam chorando, como se isso fosse a coisa mais natural do mundo.
Como se fossem amigos.
Seriam amigos? Era gostoso rir, era a única coisa que Lilith sabia. Era leve, como a primavera, quando se saía de casa sem casaco pela primeira vez. Ela olhou para Jean e não conseguiu lembrar por que um dia o odiara.
E aí acabou. Eles pararam de rir. Tudo voltou à triste normalidade.
— Lilith! — exclamou Cam. — Posso falar com você a sós?
Algo no pedido dele a fez sentir vontade de dizer sim. Mas de repente o sim parecia uma palavra perigosa. Lilith não queria ficar a sós com Cam. Não agora. O que quer que ele tivesse tentado fazer um instante atrás, tinha sido demasiado.
— Ei, Jean! — disse ela.
— Oi!
— Vamos lá fazer um som!
Jean deu de ombros e seguiu Lilith para fora do refeitório.
— Outra hora, Cam.
Na sala de música, um calouro esquelético de cabelo preto e camisa de tie-dye tentava encaixar um tímpano de cobre gigantesco na base. O cabelo longo do menino quase lhe cobria os olhos, e sua pele tinha um tom amendoado. Jean observou o espetáculo com interesse, coçando o queixo.
— Ei, Luis. Quer uma mãozinha?
— Tô na boa — respondeu o garoto, arquejando.
Jean virou-se para Lilith, como se ela fosse um problema de cálculo que ele não soubesse resolver.
— Você queria mesmo tocar ou estava tentando deixar Cam com ciúme?
— Por que o fato de a gente tocar juntos deixaria Cam enciumado? — Lilith começou a falar, mas calou-se. — Eu quero tocar mesmo.
— Beleza — respondeu Jean. — Sabe, eu estava naquele sarau idiota. Sua música era legal.
Lilith sentiu-se corar.
— É, de fato agitou a galera — comentou, sombria.
— Dane-se esta escola — falou Jean, dando de ombros. — Eu aplaudi você. — Ele então apontou para Luis. — Nós três devíamos montar uma banda. Ainda dá tempo de inscrevê-la para o baile...
— Eu não vou ao baile — respondeu Lilith. Vinha sentindo-se confusa em relação a um monte de coisas ultimamente, mas disso tinha certeza.
Jean franziu a testa.
— Mas você precisa ir. Você é sensacional!
O elogio foi tão direto que Lilith não soube como reagir.
— Quero dizer, dane-se — ponderou Jean. — Pule a parte do baile de formatura, traga alguém pra te acompanhar ou se vire sozinha, mas pelo menos apareça pra batalha. Eu vou ter de aguentar a coisa toda porque a maluca da minha namorada está obcecada por um vestido longo vermelho-cereja desde a primeira vez que a gente saiu. Tá vendo? Ela está me mandando uma mensagem neste exato instante.
Ele exibiu o celular. O bloqueio de tela mostrava uma foto de Kimi Grace, a ousada garota meio coreana, meio mexicana que sentava ao lado de Lilith na aula de poesia. Lilith não sabia que ela namorava Jean, mas agora isso parecia fazer todo sentido.
Na foto, Kimi estava radiante e segurava uma folha de papel que dizia, em letras garrafais: ONZE DIAS ATÉ A MELHOR NOITE DE NOSSAS VIDAS.
— Ela é uma fofa — disse Lilith. — Toda animada.
— Ela é maluquinha em todos os sentidos — respondeu Jean. — A questão é que todo mundo faz o maior estardalhaço sobre como o baile de formatura é uma noite épica. Bem, na verdade pode ser ainda mais do que alardeiam se você aparecer e tocar algumas músicas que vão ficar pra história.
Lilith revirou os olhos.
— Nada em relação a Trumbull é “épico”... Isso eu garanto.
Jean arqueou uma das sobrancelhas.
— Talvez ainda não. — Ele deu um tapinha no ombro de Luis. O calouro jogou a cabeça para trás, tirando o cabelo do rosto. — O Luis aqui toca bateria e não é dos piores.
— Isso aí — falou Luis. — Ele tá certo.
— Luis — disse Jean —, você já tem companhia para o baile de formatura?
— Estou avaliando minhas opções — respondeu ele, corando. — Sei de umas garotas mais velhas que talvez me convidem. Mas, se não me convidarem, estarei lá pra tocar. Com certeza. Posso mandar bem na bateria.
— Tá vendo? Ele é dedicado! — exclamou Jean Rah. — Então, Luis na bateria... — Jean vasculhou os instrumentos no armário e pegou um sintetizador Moog preto. — Você canta e toca violão, e eu entro com o sintetizador. Já tem cara de banda.
Realmente parecia uma banda. E Lilith sempre sonhara em ter uma, mas...
— Por que você está na dúvida? — perguntou Jean. — Tá na cara que vai dar certo.
Talvez Jean tivesse razão. Talvez fosse apenas uma decisão simples. Uns garotos. Uns instrumentos. Uma banda. Ela mordeu o lábio para que Jean não a visse sorrir.
— Beleza — concordou. — Vamos nessa!
— Aí, sim! — gritou Luis. — Quero dizer... beleza.
— Sim — falou Jean. — Beleza. Agora, pegue uma guitarra no armário.
Lilith seguiu suas instruções, observando enquanto Jean Rah colocava a guitarra no suporte e depois o puxava para o lado do microfone. Jean desapareceu no armário e saiu com uma mesinha de jogos marrom. Colocou-a ao lado de Lilith, e, em cima dela, pôs o teclado Moog.
— Faça um teste — pediu o garoto.
Com a mão esquerda, ela tocou um Dó no teclado. Sua guitarra rosnou uma nota enérgica. Seus dedos dançaram num riff rápido e ascendente no teclado MIDI, e a guitarra respondeu com perfeição.
— Legal, né? — perguntou Jean. — O público vai enlouquecer.
— É — respondeu Lilith, impressionada com a inteligência musical de Jean Rah. — Com certeza.
— Ei, qual o nome da nossa banda? — perguntou Luis. — A gente não é uma banda de verdade se não tiver um nome.
Lilith inspirou e disse:
— Vingança.
Sorriu porque, de repente, pela primeira vez, era parte de algo maior que ela mesma.
— Irado! — Luis ergueu as baquetas, depois tamborilou numa tarola com toda a força.
O som ainda reverberava pela sala de música quando a porta se abriu e o diretor Tarkenton entrou. Seu olhar era furioso.
— Lilith, para a minha sala. Agora!


A mãe de Lilith entrou apressada na sala de Tarkenton, ignorou a filha e abraçou o diretor.
— Sinto muitíssimo, Jim.
Como sua mãe já estava na escola a fim de substituir o professor de francês, chegou em cinco minutos na sala de Tarkenton para aquela reunião emergencial de pais e mestres.
— Não é culpa sua, Janet — disse o diretor, endireitando a gravata. — Já trabalhei com tantos adolescentes difíceis que reconheço quando vejo um.
Lilith olhou ao redor. As paredes da sala estavam cobertas com fotos de suas excursões de pesca no único lago horroroso de Crossroads.
— Sua filha começou uma briga com uma de nossas alunas mais promissoras — disse Tarkenton. — Motivada pela inveja, imagino.
— Fiquei sabendo. — Sua mãe ajeitou a echarpe cor-de-rosa com estampa floral que estava bem amarrada ao pescoço. — E Chloe é uma garota tão boazinha...
Lilith olhou para o teto e tentou não demonstrar o quanto a magoava o fato da mãe nem ter ao menos cogitado ficar ao seu lado.
— E, sendo o pai de Chloe tão influente na cidade, espero que ele não julgue o restante da família com base nisto — continuou sua mãe. — Meu Bruce não precisa de mais problemas, coitadinho.
Se Bruce estivesse ali, teria revirado os olhos. Havia passado a vida inteira sendo tratado como um fantasma por todo mundo, menos Lilith, e odiava isso.
— A detenção não parece mais afetá-la — prosseguiu Tarkenton. — Mas existe opção: uma escola especial para alunos problemáticos. — Ele deslizou um folheto sobre a mesa, na direção da mãe de Lilith. A garota leu os dizeres impressos em letras góticas: Escola Reformatória Sword & Cross.
— Mas e a formatura? — perguntou Lilith.
Tinha acabado de formar uma banda, e, embora ainda não tivesse se inscrito para tocar na festa, era o que queria fazer. Há tempos não desejava algo tanto assim. Talvez nunca em toda sua vida. Desejou ter uma mãe capaz de entender isso, uma mãe a quem pudesse confidenciar seus sonhos e medos. Em vez disso, tinha Janet, que ainda estava certa de que Lilith pegara seu ridículo cardigã amarelo.
— E desde quando você vai para a formatura? — Quis saber sua mãe. — Algum garoto a convidou? Foi o garoto com quem vi você conversando ontem na frente de casa? Aquele que nem tocou a campainha para se apresentar?
— Mãe, por favor — gemeu Lilith. — A questão não é garoto nenhum, é a Batalha de Bandas. Quero tocar.
Tarkenton olhou para a ficha de inscritos da competição que estava no canto de sua mesa.
— Não estou vendo seu nome aqui, Lilith.
Ela apanhou a ficha e rapidamente escreveu o nome de sua banda. Agora sim, era verdadeiro. Ficou olhando para o nome e engoliu em seco.
— Vingança? — zombou Tarkenton. — Parece algo anarquista.
— Eu não... a banda não é isso — disse Lilith. — Por favor, me dê outra chance.
A única coisa que ela queria era a oportunidade de tocar sua música, de ver os Quatro Cavaleiros, de subir num palco e cantar e, durante alguns minutos, esquecer sua vida horrível. Ela nem mesmo soubera como era tocar numa banda antes de fazer amizade com Jean Rah e Luis, mas agora era a única coisa na qual conseguia pensar. Depois disso, Tarkenton e sua mãe podiam fazer o que quisessem com ela.
Enquanto discutiam o futuro de Lilith e possíveis medidas disciplinadoras, ela olhava pela janela da sala do diretor, para o estacionamento, onde Luc se dirigia a um Corvette vermelho encostado próximo ao prédio da escola.
O que ele fazia ali? Ele deslizou para trás do volante e ligou o motor ruidosamente.
— O que é isso? — inquiriu Tarkenton, e girou o corpo em direção ao barulho.
— Nossa, que barulheira — reclamou a mãe, fazendo uma careta. — Isso aí é um... Corvette?
Lilith olhou para Luc, cheia de curiosidade. Será que ele conseguia vê-la pela janela?
— Quem é aquele garoto? — perguntou sua mãe. — Parece velho demais para estar no ensino médio. Você sabe quem é ele, Lilith?
Lilith olhou para a mãe, sem saber como responder àquela pergunta. Quando tornou a olhar para o estacionamento, não havia o menor sinal de Luc: era como se ele jamais tivesse estado ali.
— Não — respondeu ela, voltando a atenção para a ficha de inscritos sobre a mesa de Tarkenton. — Agora, será que eu poderia, por favor, participar da batalha?
Ela viu sua mãe e o diretor se entreolharem. Então Tarkenton recostou-se na cadeira e disse:
— Só mais uma chance. Mas basta a menor pisada de bola e pronto, você já era — avisou ele. — Entendeu?
Lilith assentiu.
— Obrigada.
Seu coração batia como um louco. Agora ela era oficialmente uma artista.

Interlúdio - Isolamento
TRIBO DE DÃ, NORTE DE CANAÃ
Aproximadamente 1000 A.E.C.

Cam estivera observando a lua durante horas, desejando que ela viajasse mais depressa pelo céu deserto. Quase um dia havia se passado desde que se despedira de Lilith na alfarrobeira. Quando ela convidara Cam para encontrá-la novamente no rio, ao luar, soara extremamente encantador, mas aguardar todas aquelas horas para vê-la revelou-se, na verdade, uma nova forma de tortura.
Não era do feitio de Cam se deixar desacelerar por uma garota mortal.
— Que ridículo — murmurou ele, abrindo as asas brancas e experimentando uma sensação de liberdade quando elas se esticaram em direção ao céu.
Quem era ele? Daniel Grigori?
Ele desprezava a sensação de se ver ligado a qualquer coisa ou pessoa, mas pelo visto, no caso de Lilith era diferente. Ela o fazia sentir vontade de ficar.
Cam lançou-se aos céus e voou em direção ao vilarejo de Lilith. Aterrissou depressa e dobrou as asas, escondendo-as, depois entrou numa tenda perto do oásis, o último lugar onde poderia encontrá-la.
Pensava em não comparecer ao encontro. Sentou-se num canto escuro e entabulou uma conversa com dois homens da região, que dividiram com ele o conteúdo de sua jarra de cerâmica.
Quando por fim Cam e seus novos amigos secaram a jarra, a lua estava baixa no céu. Ele esperara sentir alívio: agora não havia mais nada a fazer. Lilith poderia até perdoá-lo, mas nunca mais confiaria nele, ou se apaixonaria por ele.
Era isso que ele queria, não era?


De manhã, Lilith abriu os olhos e sentou-se na cama, depois foi assaltada pela lembrança. Por que Cam havia concordado em encontrar com ela se sua intenção não era comparecer? Será que tinha acontecido alguma coisa que o impedira? A única coisa que Lilith sabia era que, quando a lua estava no meio do céu, ela aparecera no lugar marcado... mas ele não.
Só lhe restava perguntar a ele o que tinha acontecido, e o único lugar onde ela poderia encontrar Cam era no poço, pensou Lilith. Uma hora ou outra todos de sua tribo apareciam por lá. Começou a cantarolar enquanto caminhava pela trilha estreita e empoeirada que levava ao centro do vilarejo. O céu estava limpo, a grama alta roçava a ponta de seus dedos, e o ar abafado fazia pressão em seus ombros.
O poço da vila ficava no ponto exato onde a trilha do norte se encontrava com a trilha do oeste. Era feito de terra batida, com um cesto de palha trançada que descia pela boca, amarrado por uma corda grossa e áspera. A água era gelada e limpa, mesmo no mais quente verão.
Lilith ficou surpresa ao notar duas pessoas que jamais vira tirando água do poço: uma garota magra de cabelos cor de ébano e um brilho intenso no olhar, e um garoto de pele escura que tocava uma estranha melodia numa pequenina flauta de osso.
— Vocês devem ter vindo de longe — disse Lilith, requebrando ao som da flauta. — Nunca ouvi uma música como essa.
— Qual o lugar mais distante no qual você consegue pensar? — perguntou a garota magra, bebericando uma concha d’água.
Lilith olhou para ela.
— Consigo pensar em mundos feitos somente de música, onde nossos corpos pesados jamais sobreviveriam.
— Uma artista, hein? — O garoto ofereceu a flauta a ela. — Veja o que consegue tirar disto aqui.
Lilith segurou a flauta e a analisou, encaixando os dedos sobre os buracos. Levou o instrumento aos lábios, fechou os olhos e soprou.
Uma canção estranha pareceu tocar espontaneamente, como se um espírito estivesse respirando através dos pulmões de Lilith, movimentando seus dedos. No começo ela ficou assustada, mas logo relaxou ao som da melodia, seguindo seu caminho sinuoso. Quando terminou, abriu os olhos. Os dois desconhecidos estavam boquiabertos.
— Eu nunca... — disse a garota.
— Eu sei — concordou o garoto.
— O que foi? — perguntou Lilith. — Esta flauta obviamente é mágica. Todos que a tocam devem tocar assim.
— Isso mesmo — disse a garota. — Jamais conhecemos ninguém, além de Roland, que fosse capaz de tocar esta coisa.
Roland fez que sim.
— Você deve ter uma alma e tanto.
A garota passou um braço em torno dos ombros de Lilith e encostou-se junto ao poço.
— Permita que eu me apresente. Sou Ariane. Estamos viajando há muito tempo.
— Eu me chamo Lilith.
— Lilith, por acaso você viu um rapaz loiro por aí? — perguntou Roland. — Novo por essas bandas?
— Meio arrogante e vaidoso? — acrescentou Ariane.
— Dani? — disse Lilith. Ela olhou para o rio no oeste, onde o vira pela última vez, nadando. As alfarrobeiras balançaram com a brisa, fazendo com que suas doces sementes caíssem sobre a grama e se espalhassem ao redor.
— Ele mesmo! — exclamou Ariane, com um gritinho. — Onde podemos encontrá-lo?
— Ah, ele deve estar em algum lugar aqui perto — respondeu Lilith. — Provavelmente junto de Liat.
Roland estremeceu.
— Espero que ele tenha um plano.
Ariane deu um soco no braço de Roland.
— O que ele quis dizer é que esperamos que Dani esteja se enturmando... você sabe, prosperando. Entre os seus, quero dizer. Preciso de um gole d’água. — A garota mergulhou o cesto no poço e bebeu mais um gole.
Lilith olhou para os desconhecidos e franziu a testa.
— Vocês dois são... amantes?
Ariane cuspiu a água num jato.
— Amantes? — disse Roland, rindo enquanto sentava-se na beirada do poço. — Por que pergunta?
Lilith suspirou.
— Porque preciso de um conselho.
Roland e Ariane trocaram um olhar.
— Vamos fazer o seguinte — propôs Roland. — Você me ensina a tocar aquela música, e veremos o que dá para fazer.


A lira de Lilith estava na margem do rio, ao lado da flauta, que jazia perto da maior parte das roupas usadas pelos três ao se encontrarem no poço.
Eles mergulharam no rio Jordão, boiaram de costas e observaram a luz do sol dançando sobre a superfície das águas. A música e a conversa tinham feito sua mágica, e os desconhecidos agora eram amigos. Lilith conseguiu relatar com facilidade os incidentes da noite anterior.
— Um cara assim... — disse Ariane, antes de lançar um jato d’água num arco alto. — Finja que ele não existe. Uma mulher inteligente sabe que é melhor não tentar impedir um homem imprestável de sumir.
Roland deixou que a corrente o carregasse até Lilith.
— Há muitos outros peixes no rio. E você é um ótimo partido. Melhor esquecer esse homem.
— Sábias palavras — concordou Ariane. — Muito sábias.
Lilith observou a luz do sol brilhar nos ombros de Roland e no rosto de Ariane. Ela nunca havia conhecido alguém como aqueles dois, exceto talvez Cam.
Justamente nesse momento, algo agitou-se na margem do rio.
— Ora. Não é romântico? — disse uma voz, vinda dos arbustos.
Cam caminhou até a beira da água e franziu a testa para Lilith.
— Você traz todas as suas conquistas para cá?
— Espere aí — disse Ariane. — É este o rapaz de quem você estava falando?
Lilith ficou ao mesmo tempo arrasada e felicíssima.
— Vocês o conhecem?
— Essa história não tem nada a ver com você, Ariane — disse Cam.
— Achei que estivéssemos falando de um rapaz cheio de profundidade e complexidades — disse Ariane. — Imagine qual não foi minha surpresa ao descobrir que ele era você.
Cam soltou um muxoxo e mergulhou no rio, o corpo arqueando alto no ar antes de encontrar a água. Quando emergiu, estava tão perto de Lilith que seus rostos quase se tocaram. Ela olhou para as gotículas de água no lábio superior dele. Queria tocá-las. Com seus lábios. Estava zangada com ele, mas aquela raiva empalidecia diante da intensidade da atração que sentia.
Ele segurou a mão dela e a beijou.
— Desculpe por ontem à noite.
— O que aconteceu? — perguntou ela baixinho, embora já o tivesse perdoado só de sentir o toque de seus lábios na pele.
— Nada que se repetirá novamente. Vou compensar as coisas, prometo.
— Como? — perguntou Lilith, sem ar.
Cam sorriu e olhou ao redor, para o rio, depois para o céu azul brilhante. Sorriu para seus dois amigos, que balançavam as cabeças. Então sorriu para Lilith, um sorriso sedutor e complexo, que atraiu o corpo dela, sob as águas, para junto do dele, dizendo-lhe numa língua silenciosa que sua vida jamais seria a mesma.
— Uma festa. — Cam a abraçou e começou a rodopiá-la nas águas. A sensação de tontura foi tão deliciosa que Lilith não conseguiu reprimir a vontade de rir. — Diga que virá!
— Sim — respondeu ela, sem fôlego. — Eu irei.
Ariane inclinou-se para Roland.
— Isso não vai acabar bem.

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