25 de março de 2017

Capítulo 6 - Por água abaixo

CAM
Doze dias

Na manhã seguinte, o caderno preto de Lilith estava aberto sobre um banco no vestiário masculino enquanto Cam se vestia para ir à escola. Quando ela saíra correndo da sala de música no dia anterior, sua intenção fora devolver o caderno imediatamente. Ele chegou a ir atrás dela no riacho da Cascavel, mas não a encontrou, e Cam não teve como deixá-lo na casa de Lilith, porque não sabia onde ela morava.
Entretanto, quanto mais tempo passava com aquele caderno em mãos, maior era a tentação de abri-lo.
Ao pôr do sol, ele não aguentou mais e passou a noite inteira no telhado do ginásio Trumbull, lendo e relendo cada uma das brilhantes letras devastadoras à luz do telefone celular.
Sabia que aquilo era errado, uma violação de privacidade. Mas não conseguiu se conter. Era como se alguém tivesse suspendido a corda de veludo que dava acesso ao coração da garota, dando-lhe entrada VIP. Certa vez, há muito tempo, Cam tocara esse lado vulnerável e delicado de Lilith, mas agora podia entrevê-lo apenas por suas canções.
E que canções! Elas o aniquilaram. Cada uma delas — desde “Amores de mágoa” a “Na beira do despenhadeiro”, até a favorita de Cam, “Blues de outro alguém” — era cheia de sofrimento, humilhação e traição. O pior de tudo era saber exatamente de onde vinha toda aquela dor. Carregar as lembranças pelos dois era uma tortura.
A forma como Lilith o olhava agora, como se ele fosse um desconhecido, também era uma tortura. Cam podia finalmente sentir empatia por Daniel, que fora obrigado a começar do zero com Lucinda toda vez que se reencontraram.
Enquanto se vestia com outra camiseta roubada e os jeans e a jaqueta de couro de sempre, Cam sentia tanto remorso pela dor infligida a Lilith que tinha dificuldade para se encarar no espelho. Ajeitou os cabelos molhados com os dedos e ficou surpreso ao descobrir que pareciam mais ralos. Aliás, agora que pensava no assunto, suas calças estavam um pouco mais apertadas na cintura.
Inclinou-se para a frente para ver seu reflexo e ficou surpreso com algumas manchas senis perto do couro cabeludo — que, notou, havia recuado um centímetro e meio. O que estava acontecendo?
Até que a ficha caiu: Lúcifer estava acontecendo, manipulando a aparência mortal de Cam para dificultar ainda mais a conquista pelo amor de Lilith. Como se já não fosse difícil o bastante.
Se o demônio estava aos poucos retirando a beleza que Cam achou que possuiria para sempre, que vantagem restaria a ele? Teria de melhorar sua atuação. Seu olhar pousou no caderno de Lilith, e, de repente, ele soube o que fazer.
A triste e empoeirada biblioteca era o único lugar em Trumbull que tinha wi-fi confiável. Cam acomodou-se numa cadeira perto da janela para que pudesse ver o ônibus de Lilith chegando. Era um sábado de manhã. Em outras circunstâncias, Lilith poderia ainda estar dormindo, mas o sábado não significava nada em Crossroads. Lúcifer se gabara de que, neste Inferno, os fins de semana não existiam.
Nenhum dos outros alunos atentava ou dava a mínima, por exemplo, para o fato de que o baile de formatura aconteceria numa quarta-feira.
Cam tinha pena deles. Não faziam a mínima ideia do que era a alegria especial de uma sexta-feira às quatro da tarde, ou da empolgação hedonista de uma balada agitadíssima na madrugada do sábado, e cuja recuperação levava um domingo inteiro... Jamais saberiam como é.
Pela janela da biblioteca, Cam via a luz alaranjada emitida pelas queimadas ao redor de Crossroads. Sabia que o humor de Lilith ficaria igual àquelas labaredas se ela descobrisse o que estava prestes a fazer, mas precisava assumir o risco.
Digitou os Quatro Cavaleiros no Google e logo descobriu um endereço de e-mail para Ike Ligon. As chances de sua mensagem chegar até o líder da banda, e não a algum assistente, eram minúsculas, mas a única outra forma de entrar em contato com Ike — por meio de Lúcifer — estava fora de cogitação.
Todas as outras canções inscritas na competição do baile de formatura seriam avaliadas por Luc. Cam sabia que os Quatro Cavaleiros não julgariam nada e que, ontem, Lilith decidira não participar do concurso. Ela era dotada de mais talento que todas as pessoas de Crossroads juntas, e Cam queria que seu cantor favorito ouvisse sua música — sem ser influenciado pelo demônio.
Ele recostou-se na cadeira e, pensando como Lilith, escreveu um e-mail no celular.

Prezado Sr. Ligon,
Espero que não se incomode com meu contato direto, mas suas músicas sempre foram uma inspiração para mim; sendo assim, eu gostaria de compartilhar uma de minhas canções com você. Mal posso esperar para vê-lo tocar em sua visita a Crossroads. Minha biografia e letra para a competição da Batalha de Bandas estão em anexo. Obrigada por tudo.

O caderno preto estava no colo de Cam, mas ele descobriu que nem precisava abri-lo. Digitou a letra de sua composição favorita, “Blues de outro alguém”, de cor.

Sonhei que a vida era um sonho
Que alguém sonhava nos meus olhos
Eu estava de fora olhando para dentro
E tudo o que vi foram mentiras
Não é minha vida, não é minha vida
Não sou eu que não está se divertindo

Cam digitou o restante da letra, impressionado com a força de Lilith como compositora. Escrever a biografia foi mais complicado. Nenhum músico era sincero numa bio. Eles listavam seus álbuns, talvez uma influência, mencionavam se haviam tido sorte o bastante para chegar às paradas de sucesso, depois onde viviam, e pronto.
Mas Cam achou impossível escrever sobre a vida de Lilith e sobre a situação singular em que se encontrava a partir de um ponto de vista objetivo. Em vez disso, portanto, escreveu:

Fiz esta canção no riacho atrás da minha escola, onde me escondo quando o mundo me sufoca. Vou lá todos os dias. Se pudesse, moraria lá. Escrevi essa música depois de ter meu coração partido. A dor foi tão grande que demorei muito até conseguir expressar a experiência em palavras. Ainda tem algumas coisas nesse meu coração partido que não entendo, e não sei se jamais vou conseguir entender. Mas a música me ajuda. É por isso que escrevo e é por isso que fico ouvindo música o tempo todo. Na minha opinião, suas canções são minhas favoritas. Não espero vencer essa competição. Aprendi a nunca esperar nada. É uma honra apenas pensar em você lendo algo que compus.

Enquanto escrevia as palavras finais, a vista de Cam foi ficando embaçada. Seus olhos se encheram de lágrimas.
Ele não chorara quando fora afastado da presença do Trono nem quando caíra no Vazio. Não chorara quando perdera Lilith pela primeira vez, há tantos milênios.
Mas agora não conseguia se conter. Lilith havia sofrido tanto. E Cam fora a causa desse sofrimento.
Sabia que ela ficara bem magoada quando terminaram — como poderia não saber? —, mas jamais poderia imaginar que a dor e a raiva permaneceriam com ela por tanto tempo, que prevaleceriam sobre ela como prevaleciam em Crossroads. O espírito da garota que ele amava ainda estava lá, mas havia sido torturado, impiedosamente.
As lágrimas chegaram, árduas e incessantes. Ficou contente por estar sozinho na biblioteca.
Fsssssss.
Uma das lágrimas de Cam caiu sobre a mesa e emitiu um chiado de fritura. Ele a viu abrir um buraco na fórmica e, depois, no carpete. Uma fumaça preta subiu do chão em espiral.
Cam se levantou num sobressalto, enxugando os olhos com a manga da jaqueta de couro — e observou as lágrimas corroerem o couro também. O que estaria havendo?
— Demônios nunca devem chorar.
Cam virou-se e encontrou Luc com um headset sem fio, jogando Doom no seu tablet em uma mesa atrás dele. Há quanto tempo estaria ali?
O diabo tirou o headset.
— Não sabe do que são feitas as lágrimas de um demônio?
— Jamais tive motivo para saber — respondeu Cam.
— Coisas horríveis — disse Luc. — Tóxicas ao extremo. Então tenha cuidado. Ou não; a escolha é sua.
Cam conferiu o celular, feliz porque suas lágrimas não haviam caído ali. Então rapidamente apertou “Enviar”. Lúcifer assoviou baixinho.
— Você está perdendo a cabeça — disse o diabo. — Lilith vai odiar o que você acabou de fazer.
— Se você se meter nisso — retrucou Cam —, vai invalidar nossa aposta.
Lúcifer deu uma risadinha.
— Você já está fazendo besteira o bastante por conta própria, colega. Não precisa da minha ajuda. — Ele fez uma pausa. — Na verdade, sua atuação até agora tem sido tão patética que tenho até pena de você. Por isso vou te dar uma colher de chá.
O demônio estendeu um post-it, o qual Cam arrancou de sua mão.
— O que é isto?
— O endereço de Lilith — respondeu Luc. — Ela vai te dar uma surra quando você devolver o caderno. Talvez seja melhor fazer isso em particular, não na frente da escola inteira.
Cam pegou sua bolsa-carteiro, empurrou o demônio para o lado e saiu da biblioteca. Faltava uma hora para o sinal tocar. Talvez Lilith ainda estivesse em casa.
Ele correu até o terreno que ficava atrás da escola, esperou o caminhão de lixo passar e então libertou suas asas. Era bom soltá-las. Seu cabelo podia ficar ralo e sua cintura aumentar sob os caprichos de Lúcifer, mas as asas sempre seriam sua mais bela característica. Amplas, fortes e brilhantes sob a luz enevoada e...
Cam estremeceu quando viu que as pontas de suas asas estavam finas e cheias de membranas, mais parecidas com as de um morcego que com as gloriosas asas de um anjo caído. Mais um ataque de Lúcifer à sua vaidade. Cam não podia deixar que isso o paralisasse. Ele ainda tinha doze dias com Lilith, e coisas demais a fazer.
Nuvens de cinzas flutuaram sobre suas asas enquanto ele subia aos céus. Sentiu o calor das colinas em chamas lambendo seu corpo, e voou mais alto, até que, de repente, o céu pareceu curvar-se sobre ele e uma barreira translúcida surgiu à sua frente, como o vidro que revestia os globos de neve que Lúcifer lhe mostrara em Aevum.
Havia chegado aos limites do Inferno de Lilith.
Dali, conseguia ver tudo. Não havia muito a ver, porém. As estradas principais da cidade — até mesmo a rodovia ao lado da escola — eram todas circulares, fazendo com que os carros rodassem em círculos inúteis. Para além do mais amplo rodoanel havia o círculo dos montes em chamas.
A claustrofobia fez suas asas se contraírem. Precisava libertar Lilith deste lugar.
Cam inclinou-se para a esquerda e desceu planando, em direção a um bairro miserável perto do fim da estrada High Meadow. Parou de repente, planando a uns 5 metros acima da casa de Lilith. O telhado tinha buracos em alguns lugares e o paisagismo parecia ter sido abandonado havia uma década. O ar era particularmente enfumaçado naquela área da cidade. Deve ter sido péssimo crescer ali.
Ouviu a voz dela. Parecia raivosa. Ela sempre parecia raivosa. Cam rapidamente recolheu as asas e pousou na amarronzada grama morta do quintal.
Lilith estava sentada no alpendre com um garotinho que devia ser seu irmão. Ao ver Cam dobrar a esquina, ela se levantou e cerrou os punhos.
— Cadê meu caderno!?
Sem nada dizer, Cam enfiou a mão na bolsa e entregou-lhe o caderninho preto. Seus dedos se tocaram quando ela o recebeu, e Cam sentiu uma descarga elétrica em todo seu corpo.
De repente, desejou poder ficar com o caderno. Tê-lo consigo na noite anterior foi quase como ter Lilith com ele. Hoje, ele dormiria sozinho outra vez.
— Quem é ele? — perguntou o irmão dela, meneando a cabeça para Cam.
Cam estendeu a mão para o garoto.
— Sou Cam. Qual seu nome?
— Bruce! — O menino se apresentou, animado, antes de ter um acesso de tosse. Suas mãos e pés eram grandes em comparação ao restante do corpo, como se ele devesse ser muito maior, mas não tivesse conseguido crescer.
— Não fale com ele — disse Lilith ao irmão, segurando Bruce com um braço e o caderno com o outro. Ergueu o olhar para Cam. — Viu só o que você fez?
— Está tudo bem com ele? — perguntou Cam.
— Como se você desse a mínima. — Ela olhou para seu caderno. — Você não o leu, não é?
Ele havia memorizado cada palavra.
— Claro que não! — respondeu Cam. Não queria tornar as mentiras para ela um hábito, mas isso era diferente. Lilith merecia vencer aquele concurso. Se conseguisse, Cam queria que fosse uma surpresa para ela. Se não, por causa das armações de Lúcifer, não queria que ela se frustrasse.
— Então por que o pegou? — perguntou a garota.
— Para te devolver — respondeu ele, e era verdade. — Sei que é importante pra você. — Ousou dar um passo em direção a ela e observou a forma como seu cabelo refletia a luz do sol. — Já que estou aqui, também queria pedir desculpas.
Lilith inclinou a cabeça, desconfiada.
— Não tenho tempo para todas as coisas pelas quais você precisa se desculpar.
— É provável que seja verdade — respondeu Cam. — Sei que posso dar a impressão de ser agressivo às vezes. Mas quando fico insistindo para a gente formar uma banda, é porque acredito em você e na sua música. Gosto de tocar com você. Mas vou me afastar. Ao menos, vou tentar. Se você quiser. — Olhou nos olhos dela. — Você quer?
Por um instante, Cam pensou ter visto um raio de luz entrando nos olhos de Lilith. Mas talvez tivesse sido apenas uma ilusão.
— Achei que nunca fosse perguntar — disse ela, com frieza. — Vamos, Bruce! Está na hora de aferir seu nível de oxigênio.
Àquela altura, o menino tinha parado de tossir. Estava acariciando um cachorrinho branco que saíra da casa.
— Você é o namorado de Lilith?
Cam sorriu.
— Gostei desse menino!
— Cale a boca! — respondeu Lilith.
— E aí? É ou não é? — perguntou Bruce a Lilith. — Porque, se ele for seu namorado, vai precisar me conquistar também. Tipo, com jogos de fliperama e sorvete, e, tipo, me ensinando a jogar beisebol.
— Por que parar aí? — perguntou Cam. — Vou te ensinar a jogar futebol americano, a dar socos, a jogar uma partida de pôquer e até — ele olhou para Lilith — a atrapalhar as jogadas da garota mais bacana no seu jogo favorito.
— Pôquer — sussurrou Bruce.
— Que tal ensinar a bela arte de cair fora? — perguntou Lilith a Cam.
Cam ouviu uma mulher gritando o nome de Lilith, de dentro da casa. Ela se levantou e conduziu Bruce até a porta.
— Prazer em conhecê-lo, Bruce.
— Foi um prazer também, Cam — respondeu o menino. — Nunca ouvi esse nome antes. Vou me lembrar dele.
— Nem se dê ao trabalho — aconselhou Lilith, lançando um olhar fulminante para Cam antes de conduzir o menino de volta para dentro. — Você não vai vê-lo mais.

7 comentários:

  1. nunca achei q o cam durão sofresse tanto por amor

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  2. Ele começou a chorar aí eu chorei também que lindo cara
    Ass:Livia

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  3. Muito fofo, esses anjos tem um 'sorte' no Amor, viu?

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  4. cara só eu to odiando essa garota?mds ok que ela sofreu mas,sei la...isso ja é demais.

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  5. Ela é um saco. Só porque sofreu não precisa ficar nogentinha.
    Morrendo de pena do C

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Boa leitura :)