25 de março de 2017

Capítulo 5 - Marcada

LILITH
Treze dias

Lilith não esperava que seu mundo fosse mudar após a apresentação no sarau. E não mudou mesmo.
Não muito.
A vida ainda era uma porcaria.
— Lilith? — gritou a mãe, antes mesmo de o despertador tocar. — Cadê aquele meu cardigã alaranjado com cotoveleiras de estampa de oncinha?
Lilith resmungou qualquer coisa e enterrou a cabeça sob o travesseiro.
— O esquadrão da moda passou ontem aqui pra dar um fim nele — murmurou para si. — Esse cardigã era uma ameaça à sociedade.
Três pancadas rápidas na porta aberta do quarto fizeram a cabeça de Lilith emergir. Era seu irmão.
— E aí, Bruce! — disse ao garoto de cabelo revolto, que mastigava um waffle congelado.
— Mamãe tá achando que você roubou aquele suéter amarelo vagabundo superchique. E tá ficando meio parecida com o Incrível Hulk por causa disso.
— Ela acha mesmo que eu ia pagar o mico de sair por aí com um troço que parece uma calêndula ambulante? — perguntou Lilith, e Bruce riu. — Como é que estão as coisas, carinha?
Bruce deu de ombros.
— Tudo indo.
As pessoas geralmente chamavam o irmão caçula de Lilith de frágil porque ele era muito magro e pálido. Mas Bruce era a força mais poderosa na vida de Lilith. Ele não perdia as esperanças nunca. Era divertido simplesmente ficar com ele no sofá, vendo o tempo passar. Ela gostaria que Bruce tivesse uma vida melhor.
— Só indo? — perguntou, sentando-se na cama.
Bruce deu de ombros.
— Nada de mais. Meu nível de oxigênio está baixo hoje, então tenho de ficar em casa de novo — suspirou ele. — Você tem sorte.
Uma risada brutal escapou dos lábios de Lilith.
— Eu tenho sorte!?
— Você pode ir pra aula todo dia, ficar com seus amigos.
Bruce era tão franco que Lilith não conseguia nem pensar em lhe dar uma descrição completa de todas as formas como a escola inteira a odiava.
— Meu único amigo é Alastor — acrescentou Bruce, e, ao ouvir seu nome, o cachorrinho apareceu trotando no quarto de Lilith. — E tudo que ele faz é cocô no tapete.
— Não, não, não! — Lilith afugentou o vira-latas antes que ele arruinasse uma pilha de roupas limpas que ainda não haviam sido dobradas. Seu único par de jeans limpo estava ali. A caminho do banheiro, ela tocou no ombro do irmão. — Talvez seu nível de oxigênio melhore amanhã. Sempre existe esperança!
Quando entrou debaixo do chuveiro — a água tinha voltado, mas desde o fechamento do registro geral, fedia a ferrugem — pensou no que dissera a Bruce. Desde quando Lilith acreditava que sempre existia esperança de que amanhã seria melhor?
Provavelmente ela falou isso porque tentava levantar o astral dele. Seu irmão aflorava o lado humano de Lilith, um que todas as outras pessoas desconheciam. Bruce tinha um coração tão bom e saía de casa tão raramente que só Lilith e sua mãe sentiam sua ternura. Para Lilith, era virtualmente impossível sentir pena de si mesma quando estava com ele.
Enquanto se vestia, Lilith fechou a porta e cantarolou a música que havia entoado na noite anterior. O que, sem querer, a fez pensar no desejo que notou nos olhos de Cam quando ele lhe entregou o violão. Como se ela tivesse alguma importância para ele. Como se ele precisasse dela... ou de algo dela.
Lilith fez uma careta. Independentemente do que Cam quisesse, ela não iria ceder.


— Sai da frente, poser! — Um jogador de futebol americano cabeçudo empurrou Lilith para o lado, sobre uma fileira de armários velhos de metal. Ninguém nem ao menos piscou.
— Ai! — Lilith esfregou o braço.
A lâmpada fluorescente piscava e zunia acima dela, que se ajoelhou no azulejo verde-catarro para inserir sua senha e pegar os livros do dia. A alguns armários dali, Chloe King exibia o ombro direito e sua nova tatuagem de asa de anjo ao namorado mais recente e aos muitos amigos que se aglomeravam ao redor.
Quando Chloe percebeu a presença de Lilith, deu um sorriso largo e suspeito.
— Bela apresentação ontem à noite, Lil! — cantarolou.
Era impossível que Chloe estivesse de fato sendo legal. Lilith sabia que devia sair de cena antes de as coisas piorarem.
— Hum, valeu — respondeu, apressando-se para destrancar o armário.
— Ai, meu Deus! Você achou mesmo que eu estava falando sério? Isso foi uma piada! Assim como sua apresentação. — Chloe soltou uma gargalhada, acompanhada por toda a sua panelinha.
— E... mais um dia horrível — sussurrou Lilith, voltando a atenção para o armário.
— Não precisa ser.
Lilith ergueu o olhar.
Luc, o estagiário que ela conhecera no dia anterior, estava parado ao seu lado. Ele se encostou nos armários, lançando uma estranha moeda dourada no ar.
— Ouvi falar que você sempre chega atrasada na escola — disse ele.
Para Lilith, seu atraso crônico não parecia ser uma fofoca fascinante. Além de Tarkenton, de alguns professores, Jean e, agora, Cam, ninguém em Trumbull jamais dera a mínima para Lilith.
— Se achava que eu ia chegar atrasada, por que estava esperando por mim antes do sinal?
— E não é isso que se faz no ensino médio? — Luc olhou em volta do corredor. — Ficar esperando uma aluna perto de seu armário na esperança de ser convidado para o baile de formatura?
— Você não é aluno! E espero que não esteja tentando me fazer convidá-lo para o baile. Pode esperar sentado! — Lilith abriu o armário e atirou alguns livros dentro.
Luc apoiou os cotovelos na porta do armário e olhou para baixo em sua direção. Lilith o fitou, irada, esperando que ele saísse do caminho para que pudesse fechar a porta.
— Já ouviu falar nos Quatro Cavaleiros? — perguntou Luc.
— Todo mundo já ouviu falar neles! — Chloe King se afastou de seus admiradores para ficar frente a frente com Luc. O delineador prateado brilhava contra a pele negra perfeita e o cabelo tinha sido arrumado em centenas de tranças minúsculas. Ela baixou o olhar para Lilith. — Até lixo que nem ela.
— Desde quando você curte os Quatro Cavaleiros? — perguntou Lilith.
Os Quatro Cavaleiros eram perturbadores e intensos; suas baladas de rock, inteligentes e tristes, e, como cada álbum diferia do anterior, os fãs de verdade conseguiam enxergar a verdadeira evolução em seu estilo. Foram as músicas compostas pelo líder da banda, Ike Ligon, que levaram Lilith a querer ser musicista. Era impossível que uma garota como Chloe pudesse entender a dor que aqueles caras expressavam em sua música.
— Que crueldade dar esperanças a ela — disse Chloe a Luc, e começou a cantarolar o refrão do último single dos Quatro Cavaleiros, Lantejoulas de acontecimentos.
Lilith fechou o armário e ficou de pé.
— Dar esperanças em relação a quê?
— Se você não cabulasse tanto as aulas — disse Luc a Lilith — saberia da novidade.
— Que novidade? — perguntou Lilith.
— Os Quatro Cavaleiros vão fazer o show de encerramento do baile — disse Chloe. Atrás dela, suas três amigas soltaram um gritinho estridente. Uma delas trazia um estojo de violão pendurado ao ombro, e Lilith percebeu que essas meninas provavelmente eram as integrantes da banda de Chloe.
O sangue de Lilith latejava nos ouvidos.
— Impossível!
— Vou tatuar o nome de Ike bem aqui. — Chloe se virou de novo para o namorado e seus amigos, desabotoando o decote para ostentar o futuro lugar da tattoo. — Bem acima do coração. Está vendo?
Os garotos definitivamente viram.
— Os Quatro Cavaleiros vão tocar em Crossroads? — perguntou Lilith. — Mas por quê?
Chloe deu de ombros, como se não conseguisse imaginar por que uma banda incrível não desejaria visitar sua cidade horrível.
— Eles vão ajudar Tarkenton a julgar a Batalha de Bandas.
— Espera aí! Quer dizer que os Quatro Cavaleiros vão ver as bandas desta escola tocar? — perguntou Lilith baixinho. — No baile de formatura?
Luc assentiu, como se entendesse o quanto a notícia era importante.
— Eu mesmo dei a ideia a Ike.
— Você conhece Ike Ligon? — Lilith piscou para Luc.
— A gente estava trocando umas mensagens de texto ontem à noite — respondeu ele. — Espero que não fique constrangida, mas sua apresentação no sarau me fez pensar no quanto seria maravilhoso se os Quatro Cavaleiros tocassem uma música composta por um aluno da Trumbull.
Luc estivera lá na noite anterior? Lilith estava prestes a perguntar por quê, mas tudo o que saiu de sua boca foi:
— Caramba!
A ficha finalmente caiu: os Quatro Cavaleiros viriam para cá, para Crossroads. Para Trumbull. Era o mais próximo que ela já havia chegado de tietar em público.
— Ike adorou a ideia — continuou Luc. — A partir de hoje, aceitaremos letras e até arquivos em MP3 com material composto pelos alunos, e Ike vai cantar a música vencedora no encerramento do baile.
— Meu pai acha que é um jeito de tornar a formatura mais inclusiva — acrescentou Chloe. — Exceto para malucas como você.
Mas Lilith mal ouvia Chloe. Em sua mente, ela imaginava o rosto desmazelado de Ike Ligon se iluminando diante de suas letras. Por uma fração de segundo, ela até imaginou conhecê-lo, e sua fantasia logo a levou para um estúdio de gravação de verdade, onde Ike produziria seu primeiro álbum.
Chloe olhou para Lilith, desconfiada.
— Desculpe, mas você está, tipo, imaginando que uma de suas músicas vai ser escolhida? — Chloe se voltou para as amigas e riu.
Lilith sentiu-se corar.
— Eu não...
— Você nem mesmo tem uma banda! — exclamou Chloe. — Já a minha tem três singles, e Ike vai amá-los! — Fechou a porta de seu armário com força. — Vai ser maravilhoso ser a rainha do baile e vencer a batalha e ver os Quatro Cavaleiros fazendo um cover de uma de minhas músicas.
— Você quer dizer uma de nossas músicas, não? — questionou a garota do violão para Chloe.
— É — disse Chloe, bufando. — Tanto faz. Vamos embora! — Ela estalou os dedos e começou a descer pelo corredor, acompanhada pelas amigas.
— Ela não vai vencer — sussurrou Luc no ouvido de Lilith, enquanto Chloe ia embora.
— Ela vence tudo — murmurou Lilith, colocando a alça da mochila no ombro.
— Isso ela não vai ganhar. — Algo no tom de voz de Luc fez Lilith parar e se virar. — Você tem grandes chances de ganhar, Lilith, só que... Ah, esquece.
— Só que o quê?
Luc franziu o cenho.
— Cam. — Ele olhou para os outros alunos que passavam por eles em direção às salas de aula. — Sei que ele fez pressão para você montar uma banda com ele ontem. Não faça isso.
— Eu não estava pensando em montar banda alguma com ele — respondeu Lilith. — Mas por que você se importa?
— Você não conhece Cam como eu.
— Não — concordou Lilith. — Mas não preciso conhecê-lo para saber que o odeio. — Dizer isso em voz alta a fez perceber o quanto parecia estranho. Ela realmente odiava Cam, mas nem sabia por quê. Ele não havia lhe feito nada, e, no entanto, só de pensar nele, já ficava tensa e tinha vontade de quebrar alguma coisa.
— Não diga a ninguém que lhe falei isso. — Luc se inclinou para a frente. — Mas, um tempo atrás, Cam fazia parte de uma banda com uma gata que cantava e...
— Gata que cantava? — Lilith semicerrou os olhos. Os homens não valiam nada mesmo.
— Quero dizer, vocalista — explicou Luc, revirando os olhos de leve. — Ela compunha todas as músicas e estava completamente apaixonada por ele.
Lilith não estava interessada em Cam, mas não ficou tão surpresa ao saber que outras meninas estavam. Ela entendia: Cam era sexy e carismático, mas não era seu tipo. Suas tentativas de seduzi-la só a faziam desprezá-lo ainda mais.
— Quem se importa com isso? — perguntou.
— Você deveria... — respondeu Luc. — Principalmente se for para a cama com ele. Musicalmente falando, claro.
— Eu não vou pra cama com Cam em nenhum sentido! — respondeu Lilith. — Só quero ficar na minha.
— Ótimo — disse Luc, com um sorriso misterioso. — Pois Cam é... como posso dizer? Ele faz mais o tipo que usa-e-joga-fora.
Lilith achou que fosse vomitar.
— E daí? O que aconteceu?
— Então um dia, quando tudo estava indo de vento em popa, ou ao menos era o que essa garota achava, Cam simplesmente sumiu. Ninguém soube dele por meses, embora a gente tenha ouvido falar sobre ele. Lembra aquela música, A morte das estrelas?
— Do Dysmorfia? — confirmou Lilith. Ela só tinha ouvido aquele único single da banda, mas o adorava. — Tocou no rádio sem parar no verão passado.
— É por causa de Cam. — Luc franziu o cenho. — Ele roubou a letra da garota, disse que era dele e vendeu a música para a Lowercase Records.
— Por que ele faria isso? — perguntou Lilith. Ela relembrou o dia anterior, quando ele gentilmente a convenceu a não deixar que o medo do palco a paralisasse. Ela o detestava, mas, apesar disso... aquela fora uma das coisas mais legais que alguém já fizera por ela.
O sinal tocou, e a multidão no corredor foi diminuindo à medida que os alunos entravam nas salas. Por cima do ombro de Luc, Lilith viu Tarkenton inspecionando os corredores em busca de alunos atrasados.
— Preciso ir — falou ela.
— Só estou dando um toque — avisou Luc, e começou a se afastar. — Suas canções são boas. Boas demais para deixar Cam atacar de novo.


Lilith caminhou em direção à sala de aula. Sua mente girava. Como podia perder tempo numa sala quando haveria uma competição de composições julgada por Ike Ligon? Ela não dava a mínima para o fato de que isso ocorreria num baile de formatura. Ela poderia aparecer só na hora da Batalha de Bandas. Não precisava de companhia ou vestido. Só precisava estar no mesmo lugar em que Ike Ligon estivesse.
Ela deveria estar ensaiando agora. Deveria estar escrevendo mais canções.
Quando se deu conta, seus pés a levaram à sala de música.
Cam estava sentado no chão, afinando a guitarra verde fininha que ela o vira tocar no dia anterior. Jean Rah batucava na calça jeans, usando as baquetas. O que faziam ali?
— A gente estava justamente falando de você! — exclamou Jean Rah.
— Vocês não deveriam estar aqui! — retrucou Lilith.
— Nem você! — rebateu Cam, dando-lhe mais uma piscadinha irritante.
— Você tem algum tipo de tique? — perguntou Lilith. — Algum espasmo no músculo do olho?
Cam pareceu confuso.
— Isso se chama piscadinha, Lilith. Tem gente que acha charmoso.
— E tem gente que acha que te faz parecer um grande pervertido — argumentou Lilith.
Cam olhou para ela. Lilith achou que ele fosse dar uma resposta cáustica, mas, em vez disso, disse:
— Desculpe. Não vou fazer de novo.
Lilith suspirou. Ela precisava focar em sua música e Cam era uma distração. Tudo nele lhe roubava o foco, desde a forma como dedilhava a guitarra até o sorriso inescrutável, que formava ruguinhas nos olhos verdes quando ele a fitava. Lilith não gostava disso.
E ela jamais gostara de Jean. Queria que os dois caíssem fora. Sua boca virou uma carranca.
— Por favor, caiam fora — pediu. — Os dois.
— A gente chegou primeiro — retrucou Jean. — Se alguém tem de sair, este alguém é você.
— Calma aí, vocês dois — falou Cam. — Vamos só improvisar. Espere só até ouvir essa melodia que eu e Jean acabamos de compor.
— Não! — respondeu Lilith. — Eu vim trabalhar numa coisa. Sozinha. Eu nem trouxe meu violão.
Cam já estava dentro do armário de instrumentos, tirando um violão do estojo. Ele caminhou em direção a Lilith e pôs o violão nas mãos dela, passando a alça pela cabeça, ao longo dos ombros. Era um Les Paul, com braço fino e um leve spray prateado nas casas. Ela nunca havia segurado um violão tão legal antes.
— E agora, qual a desculpa? — perguntou Cam baixinho. Suas mãos se demoraram na nuca de Lilith por mais tempo que o necessário, como se ele não quisesse tirá-las dali.
Então ela mesma as tirou.
O sorriso de Cam desapareceu, como se ela o tivesse magoado de alguma forma.
Se tinha mesmo, não estava nem aí, disse a si. Não sabia por que ele estava sendo tão atrevido, qual era sua intenção ao incentivá-la com a música.
Pensou em Chloe King, no quanto havia sido grosseira sobre sua apresentação no sarau. Tinha sido a única vez que Lilith se apresentara em público. Ao segurar aquele violão, percebeu que não queria que fosse a última.
Mas isso não significava que eles iam formar uma banda. Podiam apenas, como disse Cam, improvisar.
— O que eu faço? — perguntou ela, sentindo-se vulnerável. Não gostava de estar sob as rédeas dos outros; muito menos das de Cam.
Silenciosamente, Cam conduziu a mão dela até o braço morno do violão. Sua mão direita levou a dela até as cordas. Ela vacilou um pouco.
— Você sabe o que fazer — disse ele.
— Não sei. Nunca... com outras pessoas... eu...
— Comece a tocar, só isso — falou Cam. — A gente te acompanha.
Ele fez um sinal com a cabeça para Jean, que bateu uma baqueta na outra quatro vezes enquanto Cam pegava o esguio baixo Jaguar verde, com alavanca tremolo.
E então, como se não fosse nada demais, Lilith deixou os dedos se soltarem.
O som de seu violão encaixou-se na percussão de Jean Rah, como o pulsar do coração. O som das cordas rascantes de Cam cruzava-se com o ritmo pesado, que nem uma mistura de Kurt Cobain com Joe Strummer. Vez ou outra, Jean mexia no pequeno e preto sintetizador Moog, que ficava ao lado de sua bateria. Os acordes do sintetizador zuniam como abelhas gordas e simpáticas, suas vibrações encontrando abrigo nos espaços deixados pelos outros instrumentos.
Depois de um tempinho, Cam levantou a mão. Lilith e Jean silenciaram. Todos podiam sentir alguma coisa valiosa no ar.
— Vamos fazer uns vocais — disse Cam.
— Tipo agora? — perguntou Lilith. — Assim, do nada?
— Do nada. — Cam apertou um interruptor e testou o microfone com a ponta dos dedos; depois direcionou-o para Lilith e recuou. — E se você cantasse a música que cantou ontem?
Exílio — disse Lilith, com o coração acelerado. Ela pegou o caderno, o que continha todas as letras de suas músicas, mas depois pensou no dia anterior, no quanto todos haviam odiado sua apresentação. O que estava fazendo? Apresentar-se na frente dos outros só lhe traria mais humilhações.
Mas aí imaginou Ike Ligon cantando sua música diante de toda a escola.
— Estou pronta — respondeu.
Baixinho, Cam disse:
— Um, dois, três, quatro!
Ele e Jean começaram a tocar. Cam fez sinal para Lilith começar a cantar.
Ela não conseguiu.
— O que foi, algo errado? — perguntou Cam.
Tudo!, ela quis dizer. A única coisa que Lilith conhecia era a frustração. Nada em sua vida jamais dera certo. O que, na maioria das vezes, não era um problema, pois ela nunca se permitia esperar por coisa alguma, sendo assim, nunca se importava de fato.
Mas isto? Música?
Isso era importante para ela. Se cantasse e se saísse mal, ou se sua música não fosse escolhida para a batalha, ou se ela, Cam e Jean montassem uma banda e tudo desse errado, Lilith perderia a única coisa que lhe importava. Os riscos eram muito grandes.
Era melhor recuar agora.
— Não posso — disse ela.
— Por que não? — perguntou Cam. — A gente toca bem junto. Você sabe disso...
— Eu não sei disso. — Seus olhos cruzaram os de Cam, e ela ficou tensa como um fio prestes a arrebentar. Lembrou-se da conversa que tivera com Luc naquela manhã, e o refrão de “A morte das estrelas”, do Dysmorfia, começou a tocar em sua mente:

Esta noite, as estrelas estão no seu rosto
Esta noite, não há espaço sideral

— O que foi? — Quis saber Cam.
Será que ela deveria lhe perguntar sobre a canção? E sobre a garota? Seria loucura fazer isso? E se Cam fosse mesmo um ladrão de letras? E se esta fosse a verdadeira e secreta razão pela qual ele queria formar uma banda com ela? Além do violão, as músicas de Lilith eram as únicas coisas que lhe importavam. Sem elas, não tinha nada.
— Preciso ir — declarou Lilith. Ela pôs o violão no chão e pegou a mochila. — E não vou inscrever minhas letras na competição. Acabou!
— Espere! — chamou Cam, mas ela já havia saído da sala de música.
Lá fora, Lilith atravessou o estacionamento da escola em direção à floresta enfumaçada. Tossiu, tentando não pensar no quanto tinha sido bom tocar com Cam e Jean. Foi idiotice improvisar com eles, esperar por alguma coisa, porque ela era Lilith, e tudo era sempre uma droga, e ela nunca, nunca conseguia o que queria na vida.
Os outros adolescentes não hesitavam quando eram perguntados sobre seus sonhos. “Faculdade”, diziam, “depois seguir carreira no ramo financeiro”. Ou “mochilar pela Europa por dois anos”, ou “entrar na Marinha”. Era como se todos, exceto Lilith, tivessem recebido um e-mail explicando em que faculdades se matricular e como conseguir vaga numa fraternidade estudantil uma vez que estivessem lá, e o que fazer caso quisessem se tornar médicos.
Lilith queria ser artista, uma cantora com composições próprias, mas não era idiota a ponto de acreditar que isso era possível.
Ela sentou no seu cantinho perto do riacho e abriu a mochila para pegar seu caderno. Os dedos procuraram o caderninho. Enfiou a mão mais fundo, empurrando para o lado o livro de história, o estojo, o chaveiro. Onde estava o caderno? Ela abriu bem a mochila e tirou tudo o que havia ali dentro, mas o caderno preto de espiral não estava lá.
Então se lembrou de que o havia tirado da mochila na sala de música quando achou que fosse começar a cantar. O caderno ainda estava lá. Com Cam.
Em um piscar de olhos, Lilith se levantou e correu de volta para a sala de música, indo mais rápido que jamais imaginou que conseguiria. Escancarou a porta, arfando.
A sala de música estava vazia. Cam e Jean — e seu caderno preto — não estavam mais ali.

6 comentários:

  1. E o Luciano tinha atrapalhar claro. .. essa era a pegadinha!

    Flavia

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  2. A maldição do Daniel e da Luce é o contrário da maldição do Cam e da Lilith , pq a Luce em todas as vidas se apaixonava pelo Daniel e a cada vez voltava mais apaixonada e a Lilith odeia em todas as vidas e a cada vida odeia mais o Cam kkkkk e o Lúcifer é o único que nunca muda sempre atrapalhando .

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  3. Amando esse livro 😍

    Uma Nephilim solitária

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  4. ela é chata de mais aaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

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Boa leitura :)