25 de março de 2017

Capítulo 4 - Aguentando firme

CAM
Catorze dias

Na manhã seguinte, quando o sol irrompeu acima das colinas, Cam se levantou do telhado da quadra esportiva da Trumbull, onde havia dormido na noite anterior. O pescoço estava duro, e ele precisava de uma chuveirada quente para aliviar a dor. Olhou em torno, para ter certeza de que a costa estava vazia, depois voou até a altura das janelas da quadra. Encontrou uma destrancada e entrou de fininho.
Estava silencioso no vestiário masculino, e Cam parou por um instante para olhar seu reflexo no espelho. O rosto parecia... mais velho. Os traços, mais angulosos, os olhos, mais fundos. Ao longo dos milênios ele mudara de aparência diversas vezes para se misturar ao ambiente, deixando que o sol bronzeasse sua pele clara ou acrescentando massa muscular à figura esbelta, mas sempre intencionalmente: nunca era por acaso. Ele jamais se espantara diante do próprio reflexo.
O que estaria acontecendo?
Aquela pergunta não o deixou em paz enquanto tomava banho, roubava uma camiseta branca limpa do armário de algum cara, vestia a calça jeans e a jaqueta de couro, e saía para aguardar a chegada do ônibus de Lilith.
Perto do beco sem saída onde os ônibus escolares estacionavam, Cam encostou-se num painel envidraçado que divulgava as diversas atividades extracurriculares da escola. Haveria um encontro do clube de alemão às três da tarde. APRENDA COMO CONVIDAR SEU AMOR PARA A FORMATURA EM ALEMÃO!, sinalizava o aviso. Outro dava detalhes sobre os testes para participar do clube de corrida e atletismo. FIQUE EM FORMA E ARRASE NO VESTIDO DE FORMATURA!, prometia. No centro havia um pequeno pôster cintilante anunciando um show da banda de Chloe King, a Desprezos Nítidos, o qual ocorreria na semana seguinte. Elas abririam o show de uma banda local chamada Ho Hum. VOCÊ VAI PODER DIZER QUE AS VIU TOCAR ANTES DE SEREM AS CAMPEÃS DA BATALHA DE BANDAS NA FORMATURA!
Embora Cam só estivesse em Crossroads há um dia, ele já sentia que ali rolava uma verdadeira obsessão pela formatura. Ele fora a um baile de formatura uma vez, décadas atrás, com uma garota bacana de Miami, a qual era apaixonada por ele. Embora eles tivessem desligado o alarme de incêndio e passado a maior parte da noite no telhado admirando estrelas cadentes, também dançaram algumas músicas agitadas e Cam gostara da experiência. Claro, ele fora obrigado a sair voando antes que a coisa ficasse séria demais.
Ele se perguntava o que Lilith achava do baile de formatura da escola, se teria alguma vontade de ir. Cam se deu conta de que precisaria convidá-la. A ideia era estimulantemente antiquada. Ele precisaria fazer a coisa toda de um jeito especial. Teria de fazer tudo bonitinho.
No momento, conquistar seu amor parecia uma aposta perdida. Lúcifer tinha razão: ela o odiava. Mas a garota que se apaixonara por ele um dia continuava ali dentro, em algum lugar, enterrada embaixo de todo aquele sofrimento. Ele só precisava encontrar um modo de alcançá-la.
Uma guinada de freios o assustou, e, ao se virar, Cam percebeu a caravana de ônibus amarelos estacionando. Os alunos começaram a descer, e a maioria se pôs a andar em direção à escola em grupinhos de dois ou de três.
Somente Lilith ia sozinha. Seguia de cabeça baixa, o cabelo ruivo cobrindo seu rosto, os fios brancos dos fones de ouvidos balançando de um lado a outro. Os ombros estavam encurvados para a frente, o que a fazia parecer menor do que era de fato. Quando Cam não conseguia identificar aquele fogo ardente nos olhos de Lilith, ela ganhava um ar tão derrotado que mal conseguia suportar. Ele a alcançou quando ela entrava no corredor principal da escola, e lhe cutucou o ombro. Ela virou-se.
— Oi — disse ele, subitamente sem fôlego.
Depois de tanto tempo afastado, não estava mais acostumado a vê-la tão de perto. Ela parecia diferente da garota que ele amara em Canaã, mas tão impressionante quanto. Quando fizera a aposta com Lúcifer, Cam não previra como seria difícil ficar sem tocar Lilith da maneira com a qual estava costumado. Ele se via constantemente obrigado a reprimir todos os impulsos de se aproximar da garota, de acariciar seu rosto, de abraçá-la, de beijá-la e nunca mais soltá-la.
Lilith olhou para Cam e estremeceu. Contorceu o rosto com nojo ou algo pior ao retirar os fones de ouvido. Ele não lhe fizera nada naquela vida, mas ela estava programada para desprezá-lo.
— Que foi? — perguntou Lilith.
— O que está escutando? — perguntou Cam.
— Nada que você curta.
— Você não tem como saber antes de me dizer.
— Não, obrigada — retrucou ela. — Posso ir agora, ou você ainda quer bater mais desse papinho chato esquisito?
Os olhos de Cam pousaram em outro cartaz do show da Desprezos Nítidos, colado num armário ali perto. Ele o arrancou e o mostrou para Lilith.
— Esta banda vai tocar na semana que vem — disse ele. — Quer ir comigo ao show?
Ela olhou rapidamente para o cartaz e balançou a cabeça.
— Não é meu estilo de música, pra ser sincera. Mas, se você gosta de pop chiclete, divirta-se.
— A Desprezos só vai abrir o show. Ouvi dizer que a banda Ho Hum é ótima — mentiu ele. — Acho que poderia ser legal. — Ele fez uma pausa. — Acho que seria bacana ir com você.
Lilith semicerrou os olhos e ajeitou a alça da mochila no ombro.
— Tipo, como um encontro?
— Agora você está sacando onde quero chegar — disse Cam.
— Eu não estou sacando absolutamente nada de onde você quer chegar — retrucou ela, afastando-se. — A resposta é não.
— Ah, por favor — insistiu Cam, seguindo Lilith. Os corredores eram um caos de alunos diante de seus armários, se preparando para as aulas do dia, apanhando e guardando livros, passando gloss labial e fofocando sobre o baile de formatura. — E se eu conseguir um passe para o backstage?
Cam duvidava que houvesse algum backstage naquele show, mas precisava tentar de tudo para que Lilith aceitasse o convite.
— Alguém aí disse “backstage”? — perguntou uma voz sibilante. — Tenho passes para o backstage do show que vocês quiserem.
Lilith e Cam pararam e viraram-se. Atrás deles, no meio do corredor, estava um rapaz com cabelo acaju e um sorriso afetado estampado no rosto quadrado e quase belo. Usava calça jeans rasgada, camiseta com padronagem de losangos com caveirinhas dentro de cada um deles e uma corrente de ouro fina no pescoço. Trazia um tablet numa das mãos.
Lúcifer não deveria estar ali. Aquilo não fazia parte do acordo.
— Sou Luc — disse ele. — Trabalho para a King Media. Fizemos uma parceria com a Trumbull para organizar o melhor baile de formatura que esta escola já viu. Sou apenas o estagiário, mas acho que um dia vou ser contratado de verdade e...
— Eu não vou à formatura — disse Lilith secamente. — Está perdendo seu tempo.
— Mas você curte música, né? — perguntou Lúcifer.
— Como você sabe? — perguntou Lilith.
Luc sorriu.
— Ah, porque você tem todo o jeito. — Ele digitou uma senha no tablet e surgiu um formulário eletrônico na tela. — Estou ajudando no processo de inscrição dos alunos para a Batalha de Bandas. — Ele olhou de relance para Cam. — Você vai se inscrever, cara?
— Por acaso esse golpe não é baixo demais, até mesmo pra você? — retrucou Cam.
— Ah, Cam — disse Luc. — Se você excluir as baixezas, jamais chegará muito longe nesse mundo.
Lilith observou Cam.
— Você conhece o cara?
— Somos velhos amigos — disse Luc. — Mas, minha nossa, onde estão meus bons modos? — Ele estendeu a mão. — Muito prazer, Lilith.
— Você sabe meu nome? — Lilith olhou para Luc com uma expressão igualmente maravilhada e enojada. Cam conhecia muito bem a sedução perversa do diabo: era o que conservava o movimento do inferno.
— E que outro nome você poderia ter? — perguntou Luc. — Sei seu nome por esse motivo ou... porque a King Media faz suas pesquisinhas — acrescentou ele, com um sorriso, enquanto Lilith lhe apertava a mão, incomodada.
Cam ficou tenso. Aquilo não era justo. Ele tinha duas semanas para fazer Lilith se apaixonar; não havia tempo para as interferências de Lúcifer.
— O que está fazendo aqui? — perguntou para o demônio, sem conseguir esconder o veneno na voz.
— Digamos que eu não estava me sentindo desafiado o bastante — retrucou Luc. — Então arrumei esse estágio na King Media e...
— Não faço a menor ideia do que você está falando — disse Cam.
O sorrisinho de Luc se intensificou.
— Todas as dúvidas e questões relativas ao baile da formatura ou à Batalha de Bandas precisam passar por mim. Quero que os alunos me conheçam, que me vejam como um amigo, não como uma figura de autoridade. Quando chegar o dia da festa, já seremos unha e carne.
O intercomunicador fez um clique, enchendo o corredor de ainda mais barulho.
— Bom dia, Bulls!
Luc apontou um dedo para o teto.
— Olhe, vocês dois deviam escutar esse aviso.
— Às seis da tarde de hoje — disse Tarkenton — teremos um sarau no refeitório. Todos podem participar, mas a participação é obrigatória para os alunos da aula de poesia do Sr. Davidson.
Lilith gemeu.
— Ah, não, prefiro morrer a ler uma porcaria de poema na frente de todo mundo — disse ela, arrasada. — Mas a aula do Sr. Davidson é a única na qual estou me saindo bem. E por um triz.
— Você ouviu o que Tarkenton disse — falou Cam para Lilith. — É um sarau. Você não precisa declamar um poema; pode cantar um. A gente poderia transformar a noite de hoje no primeiro show da Vingança.
— A gente não vai fazer coisa alguma, porque a gente não tem uma banda — argumentou Lilith.
Àquela altura os corredores estavam basicamente vazios. Mais um minuto e eles chegariam atrasados na aula. Cam, entretanto, parecia grudado no chão: perto o bastante de Lilith para sentir o cheiro de sua pele, o que o deixava tonto de desejo.
— Dane-se a primeira aula! — exclamou ele. — Vamos dar o fora e ensaiar.
Há muito tempo, em Canaã, a música unira Lilith e Cam; Cam precisava que ela fizesse sua magia pela segunda vez, aqui, em Crossroads. Se tocassem juntos, a química entre os dois quebraria as defesas de Lilith por tempo suficiente para Cam conseguir lhe conquistar o coração de novo. E, se para isso fosse necessário ir a um baile de formatura do ensino médio, que assim fosse.
— Eu adoraria ouvir você cantar, Lilith. — Luc fez coro.
— Fique fora disso — disse Cam. — Você não tem mais o que fazer, não? Corromper alunos do primeiro ano e coisas do tipo?
— Claro — disse Luc. — Mas antes preciso incluir Lilith em minha lista. — Ele ofereceu o tablete novamente e esperou que ela digitasse seu e-mail, depois fechou a capa protetora e seguiu em direção à porta. — Até mais, perdedor — falou de longe para Cam. — E espere notícias minhas, Lilith.


O dia passou depressa. Depressa até demais.
Lilith ignorou Cam na primeira aula e na aula de poesia, e ele não a viu mais durante o restante do dia. Foi até o riacho da Cascavel na hora do almoço, esperando vê-la ali, tocando violão, mas a única coisa que encontrou foi o gotejar dissonante das águas de abril sobre o leito do riacho. Nada de Lilith.
Ficou esperando em frente à sala de música depois que o sinal tocou, na esperança de que ela fosse para lá depois das aulas.
Ela não foi.
O sol se punha quando ele atravessou o campus da escola e seguiu para o sarau da Trumbull, no refeitório, tossindo por causa do ar enfumaçado. O fogo nos morros — as chamas quase imperceptíveis do Inferno de Lilith — circundava toda Crossroads, mas ninguém parecia dar a mínima. De manhã Cam tinha visto um caminhão de bombeiros seguindo em direção às queimadas, e percebeu a expressão vazia no rosto dos bombeiros. Provavelmente jogavam água nas árvores em brasa todos os dias, sem se atentar ao fato de que o fogo jamais se extinguia.
Todas as pessoas daquela cidade eram peões de Lúcifer. Nada nem ninguém mudaria em Crossroads, a menos que por vontade do demônio.
Exceto, Cam tinha esperanças, Lilith.
Quando chegou ao refeitório, Cam segurou a porta para um casal passar de mãos dadas. O garoto sussurrou alguma coisa ao ouvido da garota, que riu e o puxou para um beijo. Cam olhou para o outro lado, sentindo uma pontada no peito. Enfiou as mãos nos bolsos da jaqueta, abaixou a cabeça e entrou.
A aparência diurna sem graça do refeitório se fora. Um palco improvisado fora montado numa das extremidades do ambiente, tendo como fundo cortinas negras esfarrapadas, presas entre dois postes. O Sr. Davidson ocupava o centro do palco, atrás de um microfone.
— Sejam bem-vindos — cumprimentou ele, ajustando os óculos sobre o nariz. Parecia estar na faixa dos 30 anos, com uma profusão desalinhada de cabelo castanho-escuro e uma magreza que irradiava ansiedade. — Não há nada mais empolgante que descobrir novos talentos. Mal posso esperar para vê-los compartilhando seus trabalhos esta noite.
Por cima dos resmungos e gemidos da plateia, ele acrescentou:
— Além do mais, vocês são obrigados a fazer isso, senão ganham um zero. Portanto, sem mais delongas, aplausos para nossa primeira apresentação da noite: Sabrina Burke!
Enquanto a plateia aplaudia, desanimada, Cam sentou-se no assento vazio ao lado de Jean Rah e os dois se cumprimentaram com um soquinho mútuo. Jean tinha um estilo que agradava a Cam: sombrio, engraçado, dono de uma bondade não óbvia. O que ele teria feito para ir parar nos domínios de Lúcifer?, perguntou-se Cam. Alguns dos mortais — e dos anjos — mais interessantes tinham certa habilidade em irritar o Trono.
No palco, as mãos de Sabrina tremiam enquanto ela segurava o microfone. Ela sussurrou um “Obrigada” e desdobrou um papelzinho com um poema escrito a mão.
— Este poema se chama... “Matrimônio”. Obrigada, Sr. Davidson, pela ajuda. Você é o melhor professor do mundo. — Ela pigarreou e começou a ler:

Um casamento é um ritual pré-histórico entre duas pessoas um homem e uma mulher
BABOSEIRA!

Ela ergueu os olhos do papel:

NÃO SE PODE ARRANCAR MINHA LIBERTAÇÃO!
LIBERTA? AÇÃO!
Sou mulher; asas, vento e poeira!

Ela olhou para baixo.
— Obrigada.
O restante dos alunos aplaudiu.
— Que coragem — comentou uma garota ao lado de Cam. — É tão verdadeiro.
Os olhos de Cam correram pela plateia até encontrarem Lilith na terceira fila, roendo as unhas. Ele sabia que ela estava se imaginando ali em cima, sozinha. A Lilith da qual se lembrava era uma artista nata, depois que superava o medo inicial do palco.
Aquela Lilith de agora, entretanto, era diferente.
Naquele momento a plateia batia palmas para um altíssimo garoto negro, que subira no palco cheio de confiança. Ele não se deu ao trabalho de ajustar a altura do microfone, que estava baixa demais para sua estatura, simplesmente abriu o caderno e começou a recitar:
— Este aqui é uma espécie de haicai — explicou.

Pássaros nas alturas.
Fazem sempre nas nuvens
todas as coisas suas.

Um batalhão de meninas no fundão começou a berrar e a soltar urras, gritando o nome do rapaz.
— Você é demais, James!
Ele acenou para elas, como se estivesse acostumado a esse tipo de reação sempre que comprava um refrigerante ou saía do carro, aí desceu do palco.
Uma performance recitada aos berros e três poetas depois, o Sr. Davidson assumiu novamente o comando.
— Bom trabalho, pessoal. A próxima é Lilith!
Algumas vaias ecoaram no refeitório, e o Sr. Davidson tentou contê-las. Lilith tomou seu lugar no palco. Os holofotes deixavam seu cabelo mais brilhante e seu rosto, ainda mais pálido enquanto ela segurava o caderninho de capa preta sob o braço, preparando-se para ler seu poema. Pigarreou. Ganhou uma microfonia em resposta.
Vários alunos cobriram os ouvidos, e um deles gritou:
— Sai do palco! Bizarrona!
— Ei, calma aí! — gritou o Sr. Davidson. — Isso não é legal.
— Hum... — Lilith tentou ajustar o microfone, mas só conseguiu uma nova microfonia.
Àquela altura Cam já tinha se levantado e corrido para o palco.
Lilith olhou de cara feia quando ele se aproximou.
— O que você tá fazendo aqui? — sussurrou ela.
— Isto — respondeu ele. Com um movimento preciso, ele ajeitou o microfone para que ficasse a distância perfeita dos lábios de Lilith. Agora ela não precisaria mais ficar curvada, e poderia falar com seu tom normal e ser ouvida com clareza por todos os alunos do refeitório.
— Saia daqui. — Ela cobriu o microfone com a mão. — Você está me constrangendo. — Ela virou-se para a plateia. — Hum, oi, sou Lilith e...
— E você é bizarra! — berrou uma garota nos fundos.
Lilith suspirou e folheou seu caderno. Para Cam, ficou claro o quanto os outros alunos odiavam Lilith e como ela ficava péssima com isso. Ele não queria ser mais uma fonte de aborrecimentos para ela.
Começou a se afastar do palco, mas o olhar dela o fez parar.
— O que foi? — perguntou ele.
— Não consigo — articulou ela.
Cam aproximou-se mais uma vez e parou antes que seu instinto o levasse a abraçá-la.
— Consegue, sim.
— Prefiro tirar zero. — Ela recuou do microfone, segurando o caderno com força. — Não consigo ler na frente de toda essa galera que me odeia.
— Então não leia — disse Cam.
Ao pé da cadeira onde ela estivera sentada, Cam viu o estojo de seu violão. Por sorte Lilith não o guardara no riacho aquele dia.
— Hã? — perguntou Lilith.
— Lilith — chamou o Sr. Davidson dos fundos do refeitório. — Algum problema?
— Sim — disse Lilith.
— Não — falou Cam ao mesmo tempo.
Ele afastou-se do palco, abriu as travas prateadas do estojo do violão e sacou o adorável instrumento rachado. Ouviu risinhos da plateia e notou o flash de alguém fotografando Lilith no palco, apavorada de medo.
Cam ignorou tudo aquilo. Colocou o violão entre as mãos de Lilith e passou a alça no torso dela, tomando o cuidado de não prender os longos cabelos ruivos. Apanhou o caderno de suas mãos e sentiu o calor no local onde ela o estivera segurando.
— Que desastre — disse ela.
— A maioria das coisas começa assim — disse ele, baixinho, para que somente ela pudesse ouvir. — Agora feche os olhos e imagine que está sozinha. Imagine que o sol está se pondo e que você tem a noite inteira pela frente.
— Vão para um motel! — gritou alguém. — Vocês dois são uns merdas!
— Isso não vai dar certo — disse Lilith, mas Cam notou como os dedos dela se posicionaram naturalmente na posição de dedilhado. O violão era um escudo contra a plateia. Ela já estava mais confiante que um instante atrás.
Portanto, Cam continuou:
— Imagine que você acabou de compor uma música nova que te deixou muito orgulhosa...
Lilith tentou interromper:
— Mas...
— Permita-se sentir orgulho — continuou Cam. — Não porque você acha que essa música seja melhor que as outras, mas porque, mais que qualquer coisa, ela é o atalho para expressar seus sentimentos agora, o que você é.
Lilith fechou os olhos e se inclinou para o microfone. Cam prendeu a respiração.
— Buuuuu! — vaiou alguém.
Lilith abriu os olhos de repente, e seu rosto ficou lívido.
Cam viu Luc no meio da plateia, as mãos em concha sobre a boca, zombando de Lilith. Cam nunca dera um soco no diabo, mas naquela noite não tinha nenhum receio de inovar. Olhou com frieza para a plateia, levantou os dois punhos e mostrou os dedos médios.
— Já chega, Cam — disse o Sr. Davidson. — Por favor, saia do palco.
O som das risadas baixas fez Cam virar-se para Lilith. Ela o estava observando, sufocando um risinho, exibindo um espectro de um sorriso.
— Tá mostrando pra eles quem é que manda no pedaço? — perguntou ela.
Ele balançou a cabeça.
— Manda ver nesse violão e mostre você mesma.
Lilith não respondeu, mas Cam percebeu pela mudança em sua expressão que tinha dito a coisa certa. Ela voltou a se inclinar para o microfone e falou com uma voz suave e clara:
— Esta aqui se chama “Exílio”.
E começou a cantar.

É o amor que incita
Pra onde levo minhas rimas
Minhas rimas, minhas rimas
Que seguem minha mente aflita
Aflita, aflita.
O que vem agora, o que virá depois?
Irei morrer, irei morrer
Sozinha ou a dois?

A canção fluía dela, como se Lilith tivesse nascido só para cantá-la. Ao microfone, de olhos fechados, ela não parecia mais tão consumida pela ira. Ali estava um vislumbre da garota que fora um dia, da garota por quem Cam se apaixonara.
Da garota por quem ainda estava apaixonado.
Quando ela terminou, Cam tremia de emoção. A canção de Lilith era uma versão daquela que ele estivera cantarolando ao deixar Troia. Ela ainda a conhecia. Algum resquício da história de amor de ambos continuava vivo dentro dela. Exatamente como ele achava que seria.
Os dedos de Lilith se ergueram das cordas do violão. A plateia estava em silêncio. Ela aguardou pelos aplausos, os olhos cheios de esperança.
Mas a única coisa que recebeu foram risadas.
— Caramba! Sua música consegue ser pior que você! — berrou alguém, atirando uma lata vazia de refrigerante no palco. A lata atingiu Lilith nos joelhos, e a esperança morreu nos olhos dela.
— Parem com isso! — disse o Sr. Davidson, voltando ao palco. Virou-se para Lilith: — Bom trabalho.
Lilith, porém, já fugia do palco e do refeitório. Cam foi atrás dela, mas ela era veloz demais e estava tão escuro lá fora que não dava para ver para que lado ela havia ido. E além disso, ela conhecia aquele lugar melhor que ele.
A porta do refeitório se fechou atrás de Cam, silenciando o som distante de mais um aluno que lia seu poema. Cam suspirou e encostou-se na parede de gesso. Lembrou-se de Daniel, de quantos períodos ruins ele havia sofrido quando a saudade de Luce o consumia de tal maneira que o fazia desejar morrer e escapar daquela maldição, só então para ser recompensado por um único roçar dos dedos da amada na vida seguinte, antes de Luce morrer mais uma vez.
Isso vale a pena?, perguntara Cam tantas vezes ao amigo.
Agora ele entendia a resposta sempre igual de Daniel. Claro que vale, dizia ele. É a única coisa que dá sentido à minha existência.
— Erro de principiante.
Cam virou a cabeça e viu Luc sair das sombras.
— O quê?
— Já tão cheio de si logo no primeiro dia — zombou Lúcifer. — Temos mais duas semanas juntos, e há várias maneiras de você pôr tudo a perder.
A última coisa que Cam se sentia era cheio de si. Se o diabo vencesse, Cam não seria o único a sair perdendo.
— Aumente as apostas quando quiser — disse ele a Lúcifer, entre dentes. — Estou preparado.
— Vamos ver o tamanho de seu preparo — provocou Lúcifer, com um risinho, antes de desaparecer, deixando Cam sozinho.

Interlúdio - Faíscas
TRIBO DE DÃ, NORTE DE CANAÃ
Aproximadamente 1.000 A.E.C.

Sob a luz da lua, o garoto loiro mergulhou no rio Jordão. Chamava-se Dani, e, embora estivesse no vilarejo há apenas um mês, sua beleza já era lendária desde aqui até o sul de Bersebá.
Das margens do rio, uma garota de cabelos negros o observava, mexendo em seu colar. No dia seguinte, faria 17 anos.
E — fora da vista de todos — Cam a observava. Ela parecia mais bonita agora que se enamorara pelo banhista noturno. É claro, Cam sabia qual seria o destino da garota, mas nada podia impedi-la de amar Dani. O amor dela, pensou Cam com seus botões, era puro.
— Ele é como uma religião — disse uma voz suave, vindo de trás. Cam se virou e deparou-se com uma ruiva deslumbrante. — Ela lhe tem verdadeira devoção.
Cam deu um passo em direção à garota na margem do rio. Jamais vira uma mortal como ela. Seus cabelos, na altura da cintura, reluziam como uma pedra granada. Era tão alta quanto ele e graciosa mesmo quando imóvel. Seus ombros delgados e bochechas aveludadas eram salpicados de sardas. Ele admirou-se com a intimidade presente em seus olhos azuis, como se os dois já fossem cúmplices em alguma forma de travessura deliciosa. Quando ela sorriu, a pequena fenda entre seus incisivos lhe despertou um tremor inédito.
— Você os conhece? — perguntou Cam. Esta garota maravilhosa só estava falando com ele porque o flagrara observando Daniel e Lucinda.
Sua risada era límpida como a água da chuva.
— Eu cresci com Liat. E todo mundo conhece Dani, embora ele só tenha chegado à nossa tribo no finalzinho da lua passada. Há algo de inesquecível nele, não acha?
— Talvez — respondeu Cam. — Se é esse o seu tipo...
A garota avaliou Cam.
— Você veio para cá na estrela gigante que caiu do céu na noite passada? — perguntou. — Minhas irmãs e eu estávamos sentadas perto da fogueira e achamos que a estrela tinha o espantoso formato de um homem.
Cam sabia que ela o estava provocando, flertando, mas ficou impressionado com aquela suposição certeira. Suas asas o haviam trazido até ali na noite anterior; e ele perseguia o rabo de uma estrela cadente.
— Qual é o seu nome? — perguntou.
— Meus amigos me chamam de Lilith.
— E seus inimigos, como a chamam?
— Lilith — rosnou ela, cerrando os dentes. Depois, riu.
Quando Cam riu também, Liat deu meia-volta alguns metros abaixo.
— Quem está aí? — perguntou ela, em direção à escuridão.
— Vamos embora daqui — sussurrou Lilith para Cam, estendendo-lhe a mão.
A garota era incrível. Imponente, cheia de vida. Ele segurou sua mão e a deixou guiá-lo, um pouco receoso de acabar o fazendo para sempre, de segui-la aonde quer que fosse.
Lilith o conduziu a um renque de íris mais adiante no rio curvilíneo; depois enfiou a mão no tronco oco de uma enorme alfarrobeira, de onde tirou uma lira. Sentada entre as flores, ela afinou o instrumento de forma intuitiva, com tanta destreza que Cam percebeu que fazia isso todos os dias.
— Você tocaria para mim? — perguntou ele.
Ela confirmou com a cabeça.
— Se quiser escutar... — Então começou a tocar uma série de notas que se enredavam como amantes, serpenteando como as margens do rio. Milagrosamente, a melodia gloriosa e contínua assumiu a forma de palavras.
Ela entoou uma canção triste de amor que fez tudo o mais desaparecer da mente de Cam. Concentrado em sua música, ele não dava a mínima para Lúcifer ou o Trono, Daniel ou Lucinda.
Só havia a canção lenta e impressionante de Lilith.
Será que ela a compusera ali, entre as íris na beira do rio? O que viera primeiro, a melodia ou a letra? Quem a havia inspirado?
— Alguém partiu seu coração? — perguntou ele, esperando mascarar o ciúme. Pegou a lira das mãos dela, mas seus dedos eram desajeitados. Nem de longe conseguiria tocar algo tão belo quanto a música que fluíra de Lilith.
Ela inclinou-se, aproximando-se de Cam, baixando as pálpebras enquanto fitava seus lábios.
— Ainda não. — Ela pegou o instrumento novamente e dedilhou uma corda cintilante. — Também não quebraram minha lira ainda, mas, quando se é uma garota, todo cuidado é pouco.
— Me ensina a tocar? — pediu Cam.
Ele queria passar mais tempo com Lilith... uma sensação que lhe era estranha. Queria sentar-se a seu lado e ver a luz do sol brilhando em seus cabelos, memorizar os ritmos graciosos de seus dedos à medida que ela extraía beleza das cordas e da madeira. Queria que ela o olhasse da mesma forma que Liat olhava para Dani. E queria beijar aqueles lábios bonitos todos os dias, a toda hora.
— Alguma coisa me diz que você já sabe tocar — retrucou ela. — Encontre-me aqui amanhã à noite. — Lilith olhou para o céu. — Quando a lua estiver no mesmo lugar, você deverá estar no mesmo lugar.
Daí ela riu, guardou a lira novamente na árvore e foi embora, saltitante, deixando um anjo de cabelos negros e olhos verdes loucamente apaixonado, pela primeira vez na vida.

6 comentários:

  1. Ai Meu Deus!!
    Cam poderia ser mais fofo!
    Sempre quis saber mais sobre ele!
    Em relação a Lúcifer: Não sei se dou na cara dele. Ou dou um abraço ;u;

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  2. "Daí ela riu, guardou a lira novamente na árvore e foi embora, saltitante, deixando um anjo de cabelos negros e olhos verdes loucamente apaixonado, pela primeira vez na vida."
    MEU DEUS *-*

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  3. Ai Cam é tão lindo <3

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  4. Pelo Anjo! Cam coisa fofa!


    Cris Herondale.

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  5. Vou ter que ler o último capítulo e descobrir se eles ficam juntos pq não estou me aguentando 😥 eu sabia que que o Lúcifer iria interferir , hora que ele fez o acordo eu xinguei ele mentalmente por não ter deixado tudo explícito no acordo , gente uma coisa que todo mundo já deve ter escutado pelo menos uma vez na vida é pra não dar brecha pro diabo e ele caiu nessa depois de ter visto a Luce e o Daniel se ferrarem 😥

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Boa leitura :)