25 de março de 2017

Capítulo 3 - Clima

LILITH
Quinze dias

Lilith não podia chegar atrasada à escola de novo naquele dia.
Fugir da prova de biologia na véspera tinha lhe rendido uma detenção depois das aulas; sua mãe lhe entregara silenciosamente a folha de papel com a ordem do castigo assim que ela entrou em casa.
Portanto, naquela manhã, ela fez questão de chegar à primeira aula antes mesmo de a Sra. Richards terminar de colocar creme em seu café, que enchia o copo de isopor biodegradável.
Já concluíra duas páginas do dever de casa da aula de poesia quando o sinal tocou, e estava tão satisfeita com a pequena vitória que nem notou quando uma sombra familiar cobriu sua carteira.
— Eu lhe trouxe um presentinho — disse Chloe.
Lilith olhou para ela. A veterana abriu a bolsa com estampa zebrada e sacou um objeto branco, depois o colocou com força sobre a mesa de Lilith. Era uma fralda geriátrica, dessas que idosos incontinentes usavam.
— Para o caso de você cagar nas calças de novo — disse Chloe. — Experimente, vai.
Lilith sentiu o rosto corar, depois atirou a fralda longe, fingindo não ligar para o fato de que agora ela estava no chão e os outros alunos teriam de pisoteá-la para chegar às carteiras. Olhou de relance para ver se a Sra. Richards havia notado alguma coisa, mas, para seu pavor, Chloe agora levava um tête-à-tête com a sorridente professora.
— Nossa! Quer dizer que dá pra reciclar as embalagens do meu xampu e também do condicionador? — dizia Chloe. — Uau, não sabia! Agora, por favor, a senhora poderia me dar uma dispensa? Preciso falar com o diretor Tarkenton.
Cheia de inveja, Lilith observou a Sra. Richards entregar a dispensa a Chloe, que apanhou o papel e saiu da sala toda saltitante. Suspirou. Os professores entregavam dispensas para Chloe como entregavam detenções para Lilith.
Então o sinal tocou, e o intercomunicador da sala zumbiu de volta à vida:
— Bom dia, Bulls! — disse Tarkenton. — Como sabem, hoje revelaremos o esperadíssimo tema do baile de formatura deste ano.
Os alunos em torno de Lilith soltaram vivas e aplaudiram. Ela, mais uma vez, sentiu-se solitária entre eles. Não que se achasse mais esperta nem com gosto mais refinado que aquela gente, tão interessada em uma festa de escola. Algo mais profundo e mais importante a apartava de todo mundo que ela já havia conhecido na vida. Não sabia o que era, mas fazia sentir-se uma alienígena praticamente o tempo inteiro.
— Vocês votaram, nós computamos — continuou a voz do diretor. — E o tema do baile de formatura deste ano é... Batalha de Bandas!
Lilith franziu o cenho, sem acreditar. Batalha de Bandas?
Ela não votou no tema da formatura, mas achava difícil acreditar que seus colegas tivessem selecionado um tema que, para falar a verdade, quase chegava a ser interessante. Então se lembrou de que Chloe King tinha uma banda e de que aquela garota sempre dava um jeito de fazer uma lavagem cerebral em todos os alunos para que julgassem qualquer coisa feita por ela sensacional. Na primavera anterior, ela conseguiu transformar os jogos de bingo num programa regular da galera descolada toda terça à noite. É óbvio que Lilith jamais colocara o pezinho num dos Bingo Babes, como o evento ficou conhecido, mas... que pessoa entre 8 e 80 anos realmente curte jogar bingo?
Sim, o tema da formatura podia ter sido pior, mas Lilith tinha certeza de que Tarkenton e seus capangas dariam um jeitinho de avacalhar o que poderia ser legal.
— E agora um recado da organizadora da formatura, Chloe King — avisou Tarkenton.
Ouviu-se um farfalhar no intercomunicador quando o diretor passou o microfone para ela.
— Oi, Bulls! — cumprimentou Chloe, a voz ao mesmo tempo animada e sexy. — Comprem logo os ingressos para a festa e se preparem para dançar a noite toda com músicas sensacionais tocadas por seus amigos sensacionais. É isso aí: a festa de formatura vai ser meio Coachella e meio reality show; com direito a jurados sarcásticos e tudo o mais. Tudo isso patrocinado pela King Media. Valeu, papai! Portanto reservem já a data na agenda: quarta-feira, dia 30 de abril; daqui a apenas quinze dias! Eu já inscrevi a minha banda na batalha, então o que estão esperando, galera?
Depois de um clique, o intercomunicador ficou em silêncio. Lilith nunca havia ido a nenhum show de Chloe, mas gostava de pensar que aquela garota tinha tanto talento musical quanto uma lagosta.
Pensou no garoto que conheceu na antevéspera no riacho da Cascavel. Do nada ele sugeriu que ela montasse uma banda. Lilith tentou não pensar naquele encontro, mas, depois que Chloe incitou as bandas a se inscreverem para tocar na festa da formatura, ficou surpresa ao perceber que lamentava não ter banda nenhuma.
Então a porta da sala se abriu e... o garoto do riacho da Cascavel entrou. Perambulou pela fila ao lado da dela e sentou-se no lugar de Chloe King.
Lilith sentiu uma onda de calor atravessar seu corpo ao analisar sua jaqueta de couro e a camiseta vintage da banda The Kinks colada ao corpo. Onde se vendiam roupas assim em Crossroads? Em nenhuma loja que ela conhecia. Jamais conhecera ninguém que se vestisse como ele.
Ele afastou o cabelo negro dos olhos e a encarou.
Lilith gostava da aparência de Cam, mas não gostava do jeito como ele olhava para ela. Havia uma centelha em seus olhos que a deixava incomodada. Como se ele conhecesse todos os seus segredos.
Provavelmente olhava para todas as garotas assim, e algumas provavelmente adoravam, mas Lilith não.
Nem um pouco. Porém, ela se obrigou a sustentar seu olhar: não queria que Cam pensasse que ele a deixava tensa.
— Em que posso ajudar? — perguntou a Sra. Richards.
— Sou novo na escola — respondeu Cam, ainda encarando Lilith. — Qual é a boa?
Quando ele apresentou sua carteirinha de aluno da Trumbull, Lilith ficou tão espantada que teve um ataque de tosse. Lutou para se controlar, mortificada.
— Cameron Briel. — Leu a Sra. Richards, depois olhou para Cam de cima a baixo. — A boa é que o senhor se sente ali e fique calado. — Ela apontou para a carteira mais distante de Lilith, que continuava a tossir.
— Lilith — chamou a Sra. Richards. — Está ciente do aumento de casos de asma devido à maior emissão de carbono na atmosfera na última década? Quando terminar de tossir, quero que escreva uma carta para sua representante no Congresso exigindo as medidas cabíveis.
Sério mesmo? Ela estava encrencada porque tossiu?
Cam deu leves batidinhas nas costas de Lilith, do mesmo jeito que a mãe fazia quando Bruce tinha um de seus ataques de tosse. Então ele se abaixou, apanhou a fralda geriátrica, ergueu uma sobrancelha para Lilith e guardou-a dentro da bolsa de Chloe.
— Acho que ela pode precisar disto aqui mais tarde — comentou, e sorriu para Lilith enquanto caminhava até o outro lado da sala.
A Trumbull não era uma escola grande, mas era grande o bastante para Lilith ficar surpresa ao encontrar Cam também em sua aula de poesia. E mais surpresa ainda quando o Sr. Davidson o acomodou na carteira ao lado dela, pois Kim Grace faltara por motivo de doença.
— Oi — cumprimentou ele ao se sentar-se.
Lilith fingiu não ouvir.
Dez minutos depois, enquanto o Sr. Davidson lia um soneto de amor do poeta italiano Petrarca, Cam se inclinou e colocou um bilhetinho na mesa de Lilith.
Ela olhou para o papel, depois para Cam, depois para sua direita, certa de que era para outra pessoa. Mas Paige não esticou a mão para apanhar o bilhetinho, e Cam sorria, meneando a cabeça para o papel, onde havia escrito com caneta preta numa caligrafia caprichosa: Lilith.
Ela abriu o bilhete e sentiu uma onda estranha, do tipo que sentia quando mergulhava na leitura de um livro muito bom, ou quando ouvia uma canção maravilhosa pela primeira vez.

Em dez minutos de aula, o Prof encarou o quadro-negro por surpreendentes oito minutos e quarenta e oito segundos. Pelos meus cálculos, nós dois poderíamos dar o fora de fininho tranquilamente na próxima vez em que ele se virar, e só vão notar nossa falta quando a gente já estiver no riacho da Cascavel. Pisque duas vezes se topar.

Lilith não sabia nem por onde começar. Piscar duas vezes? Seria mais fácil cair morta três vezes, pelo menos foi o que ela sentiu vontade de responder. Quando o fitou, o rosto dele exibia uma estranha expressão de tranquilidade, como se eles fossem o tipo de amigos que faziam coisas assim o tempo inteiro... como se fossem amigos, ponto final. O mais esquisito é que Lilith matava aula o tempo inteiro; ontem mesmo tinha matado aula duas vezes, a de biologia e a da Sra. Richards. Mas nunca fazia isso para se divertir. Matar aula era sempre sua única opção de fuga, um mecanismo de sobrevivência. Cam parecia achar que a conhecia e que sabia como era sua vida, e isso a incomodava. Lilith não o queria pensando nela de jeito algum.
Não, rabiscou ela em resposta, bem em cima das palavras dele. Aí amassou o papel e atirou a bolinha para Cam assim que o Sr. Davidson deu as costas para a classe.
O restante do dia foi longo e horrendo, mas pelo menos Cam parou de importuná-la. Ela não o viu na hora do almoço, nem nos corredores, nem em nenhuma outra de suas aulas. Lilith achava melhor assim. Já que era para os dois estarem juntos em duas aulas, que então fossem nas duas primeiras do dia, assim ela se livrava logo da sensação de inquietude que o garoto lhe causava. Por que ele ficava tão à vontade com ela? Parecia achar que ela gostava de sua presença. Algo nele, porém, a deixava com muita raiva.
Quando o último sinal tocou, Lilith arrastou-se até a sala de detenção — quando tudo que mais queria era poder sentar-se sozinha embaixo das alfarrobeiras do riacho da Cascavel para tocar violão.
A sala tinha poucos móveis: somente algumas carteiras e um cartaz na parede, mostrando a foto de um gatinho pendurado num galho de árvore. Pelo que para ela parecia ser a trimilésima vez, Lilith leu as palavras impressas embaixo da cauda rajada do bichano:

SÓ SE VIVE UMA VEZ.
MAS, SE VOCÊ FIZER DIREITO, UMA VEZ É O BASTANTE.

A única maneira de sobreviver à detenção era entrando numa espécie de transe. Lilith ficou olhando para o pôster do gatinho até ele assumir uma característica transcendental. O gatinho parecia apavorado, pendurado ali com as garras cravadas no galho. A intenção era mesmo fazer com que ele personificasse o que significava “viver direito”? Nem mesmo a decoração daquela escola fazia o menor sentido.
— Checagem! — declarou o Treinador Burroughs ao entrar pela porta. Ele vinha verificar a sala a cada quinze minutos, pontualmente.
O assistente do treinador do time de basquete penteava o cabelo grisalho para trás com brilhantina, como se fosse um cover velho do Elvis. Os alunos o chamavam de “Torturador Burroughs”, porque era uma tortura encarar sua virilha, exposta por causa dos shorts beirando a indecência que ele usava.
Muito embora Lilith fosse a única aluna na sala de detenção hoje, Burroughs se pôs a caminhar de um lado a outro, como se estivesse disciplinando uma sala cheia de delinquentes invisíveis. Ao chegar em Lilith, colocou um envelope fechado com grampo com força sobre sua carteira.
— Sua nova prova de biologia, Alteza. É diferente daquela que você matou ontem.
Igual ou diferente, tanto fazia, porque Lilith também se daria mal naquela. Ela se perguntava por que não havia sido chamada à sala de aconselhamento pedagógico: por que ninguém se mostrara interessado no fato das notas horríveis ameaçarem suas chances de um dia cursar uma faculdade?
Quando a porta se abriu e Cam entrou, Lilith deu um tapa na própria testa, literalmente.
— É brincadeira, né? — murmurou ela baixinho, quando ele entregou sua folha de detenção para Burroughs.
Burroughs assentiu para Cam, mandou que se sentasse numa carteira do outro lado da sala e disse:
— Você tem alguma tarefa para se ocupar?
— Não sei nem como listar tudo que tenho a fazer — respondeu Cam.
Burroughs revirou os olhos.
— Os adolescentes de hoje em dia acham tudo tão difícil. Vocês não sabem o que é trabalho duro de verdade. Volto daqui a quinze minutos. O intercomunicador está ligado, por isso a diretoria está ouvindo tudo que acontece aqui dentro. Entendido?
Da sua carteira, Cam piscou para Lilith. Ela virou o rosto para a parede. Não tinham intimidade para piscadelas.
Assim que a porta da sala se fechou, Cam foi até a mesa do professor, desligou o intercomunicador e sentou-se na cadeira na frente de Lilith. Depois apoiou os pés na carteira dela, roçando seus coturnos nos dedos da garota.
Ela deu um safanão nos pés dele.
— Ei! Preciso fazer uma prova — disse Lilith. — Dá licença.
— Tenho uma ideia melhor. Cadê seu violão?
— Como é que você conseguiu parar na detenção no primeiro dia de aula? Quer bater um novo recorde? — perguntou ela, para não dizer o que realmente pensava: Você é o primeiro aluno novo que me lembro de ter visto por aqui. De onde é? Onde compra suas roupas? Como é o resto do mundo?
— Ah, não encane com isso — retrucou Cam. — Agora, o violão. Não temos muito tempo.
— Coisa estranha pra se dizer a alguém que passa a eternidade na detenção.
— Então essa é sua ideia de eternidade? — Cam olhou ao redor, e os olhos verdes pararam sobre o cartaz do gatinho. — Não seria minha primeira opção — disse, por fim. — Além disso, você não percebe o tempo passar quando está se divertindo. O tempo só existe nos esportes e no sofrimento.
Cam a encarou até que ela sentisse um arrepio correr a pele. Lilith sentiu o rosto corar; não sabia se de constrangimento ou de raiva. Percebeu o que ele tentava fazer: adoçá-la, falando de música. Será que ele achava que ela era assim tão fácil? Sentiu mais uma onda inexplicável de raiva. Ela odiava aquele garoto.
Ele retirou da mochila um objeto negro, do tamanho de uma caixinha pequena de cereal, e o colocou sobre a carteira de Lilith.
— O que é isto? — perguntou ela.
Cam balançou a cabeça.
— Vou fingir que você não fez essa pergunta. É um amplificador de guitarra em miniatura.
Ela assentiu, como se dissesse: claro.
— É que eu nunca tinha visto um, assim, tão...
— Quadrado? — sugeriu Cam. — Agora a gente só precisa de um violão para plugar aí.
— Burroughs vai voltar daqui a quinze minutos — retrucou Lilith, olhando de relance para o relógio na parede. — Doze. Não sei como é a detenção de onde você vem, mas aqui a gente não pode tocar violão.
Cam era novato, mas andava pela escola como se fosse o dono do pedaço. Lilith passara a vida inteira ali, presa; ela é quem sabia como as coisas funcionavam e o quanto aquela escola era uma bosta. Por isso, era melhor Cam começar a baixar a bola.
— Doze minutos, hein? — Ele enfiou o miniamplificador na mochila, levantou-se e estendeu a mão para ela. — Melhor a gente correr, então.
— Não vou com você... — protestava Lilith, enquanto se deixava arrastar porta afora. Então os dois se viram no corredor, silencioso, e ela calou-se. Mas por um segundo olhou para sua mão agarrada à dele, antes de puxá-la.
— Viu como foi fácil? — comentou Cam.
— Nunca mais ponha a mão em mim.
Aquelas palavras pareceram um soco no estômago para ele. Cam franziu a testa e depois disse:
— Vem.
Lilith sabia que era melhor voltar à sala de detenção, mas gostou da ideia de uma travessurazinha; mesmo não gostando de seu parceiro no crime.
Resmungando, seguiu Cam, andando junto à parede, como se pudesse se fundir aos pôsteres feitos pelos alunos para apoiar o horrendo time de basquete da Trumbull. Cam sacou um marcador da mochila e acrescentou as palavras SE FERRAR bem no meio de uma mensagem que dizia: VAI, BULLS!
Lilith ficou surpresa.
— Que foi? — Ele levantou uma sobrancelha. — Estão indo para onde merecem.
No segundo andar, toparam com uma porta onde se lia SALA DE MÚSICA. Para alguém que só estava ali há um dia, Cam com certeza parecia conhecer bem o lugar. Quando segurou a maçaneta, Lilith perguntou:
— E se tiver alguém aí dentro?
— A banda ensaia na primeira aula. Eu verifiquei.
Mas tinha alguém ali dentro. Jean Rah era um cara meio francês, meio coreano que, assim como Lilith, também era um pária social. Os dois deviam ter feito amizade: como ela, ele também era obcecado por música, era desprezível e era bizarro. Mas eles não eram amigos. Lilith não queria ver Jean Rah nem pintado de ouro, e, pelo que percebia nos olhos do garoto, ele desejava a mesma coisa em relação a ela.
Jean olhou para os dois. Estava afinando a caixa de uma bateria. Ele sabia tocar todos os instrumentos que existiam.
— Caiam fora! — ordenou ele. — Senão mando um SMS para o Sr. Mobley.
Cam sorriu. Lilith percebeu que ele gostou instantaneamente daquele garoto raivoso com óculos estilo Buddy Holly, e isso fez com que ela odiasse os dois ainda mais.
— Vocês se conhecem? — perguntou Cam.
— Faço questão de não conhecer esse cara — retrucou Lilith.
— Eu sou incognoscível para idiotas como vocês — declarou Jean.
— Quem fala merda, toma porrada para aprender a se calar — argumentou Lilith, feliz por ter um alvo a quem dirigir sua raiva. Seu corpo se enrijeceu, e, quando se deu conta, já estava investindo para cima de Jean...
— Ei, ei, ei, ei — disse Cam, segurando-a pela cintura.
Ela se debateu contra os braços fortes que a seguravam, sem saber em qual dos dois garotos queria bater primeiro. Cam a tinha irritado, perturbando uma detenção tranquila para trazê-la até ali... E aquela piscadela! Ela ficava enlouquecida só de pensar no jeito como ele piscara para ela.
— Me. Solta! — vociferou.
— Lilith — disse Cam, baixinho. — Está tudo bem.
— Cale essa boca! — rebateu ela, desvencilhando-se. — Não quero sua ajuda nem sua pena, ou sei lá o que você está tentando fazer.
Cam balançou a cabeça.
— Eu não...
— Ah, quer sim — disse Lilith. — E é melhor parar agora.
Sua palma coçava de vontade de estapear Cam. Nem mesmo a expressão do garoto, uma mistura desconcertante de confusão e mágoa, era capaz de acalmá-la. Ela só não enfiara a mão na cara de Cam porque Jean estava olhando.
— Hum... — Jean levantou as sobrancelhas e olhou para Lilith, depois para Cam. — Vocês dois estão meio que me enchendo o saco. Vou ligar para Mobley.
— Beleza, pode ligar — disse Lilith. — Liga mesmo.
Mas o garoto ficou tão espantado que não fez nada.
O primeiro instinto de Lilith era sair da sala de música o mais depressa possível, mas — estranhamente — percebeu que, na verdade, queria ficar. Não sabia por que nunca havia entrado ali.
Era reconfortante ficar rodeada por todos aqueles instrumentos. Embora eles não tivessem nada de mais: os trompetes estavam amassados, a pele dos tambores, tão fina que chegava a ser translúcida, e os triângulos, enferrujados; não existia nada de tão interessante quanto aquilo em toda a escola.
Um sorriso suave cruzou o rosto de Cam.
— Tive uma ideia.
— Provavelmente a primeira de sua vida — zombou Jean.
— Perdoe se não estamos interessados em saber qual é — disse Lilith, surpresa ao se ver do lado de Jean.
— Vocês dois têm um inimigo em comum — declarou Cam.
Lilith fez um muxoxo.
— Não leva muito tempo para as pessoas odiarem você. Agora demorou o quê, dez minutos?
— Não estava falando de mim — retrucou Cam. — Estava falando da escola. Da cidade. — Ele fez uma pausa. — Do mundo.
Lilith não conseguia concluir se Cam era sábio ou um clichê ambulante.
— Onde está querendo chegar?
— Por que vocês não se unem e canalizam toda essa raiva? — sugeriu Cam. Então tirou um violão do suporte e o entregou a Lilith, depois pousou a mão no ombro de Jean. — Lilith e eu estamos montando uma banda.
— Não estamos, não — retrucou ela. Qual era o problema desse cara?
— Estamos sim — disse Cam para Jean, como se aquilo já estivesse decidido. — A formatura é daqui a quinze dias, e precisamos de um baterista se quisermos vencer a Batalha de Bandas.
— Como é o nome da banda de vocês? — perguntou Jean, cético.
Cam deu uma piscadela para Lilith. De novo.
— Os Diabretes.
Lilith gemeu.
— Nem pensar que vou entrar numa banda chamada Os Diabretes. Se um dia eu tiver uma banda, vai se chamar Vingança.
Ela disse aquilo sem querer. Era verdade, há tempos ela guardava aquele nome em segredo, desde o dia em que concluíra que a melhor maneira de se vingar de todos os babacas daquela escola seria ficando famosa, arranjando uma banda com músicos de verdade e sumindo da vista de todo mundo em Crossroads, a não ser nos shows com ingressos esgotados que a galera dali seria obrigada a assistir online porque ela nunca, jamais, tocaria em sua cidade-natal.
Porém, ela não planejara revelar o nome assim.
Cam arregalou os olhos.
— Uma banda com esse nome precisa de um sintetizador pra ninguém botar defeito. E de um globo espelhado.
Jean semicerrou os olhos.
— Eu adoraria botar um sintetizador pra quebrar nesta escola — disse ele depois de algum tempo. — Tô dentro.
— Tô fora — disse Lilith.
Cam sorriu para ela.
— Ela está dentro.
Sorria também, Lilith. Qualquer outra garota teria lhe espelhado a expressão, mas Lilith não era como as outras garotas que conhecia. Uma onda gigantesca de raiva se acomodou na boca de seu estômago, latejando por causa da arrogância de Cam, de sua confiança inabalável. Ela soltou um muxoxo e saiu da sala de música sem dizer nem uma só palavra.


— Tô morrendo de fome — disse Cam, enquanto a seguia para fora da escola.
Os dois tinham conseguido voltar à sala de detenção a tempo de religar o intercomunicador, pouco antes de Burroughs fazer sua varredura final. Ela lhe entregou a prova, basicamente em branco, e os dois foram dispensados.
Por que Cam não a deixava em paz?
Na mão direita, ele levava o estojo do violão que pegara emprestado da sala de música e, no ombro, a mochila de lona.
— Onde é que você curte comer por aqui?
Lilith deu de ombros.
— Tem um lugarzinho ótimo chamado não é de sua conta.
— Parece bem exótico — disse Cam. — Onde fica? — Enquanto eles caminhavam, as pontas macias de seus dedos roçaram nos dedos calejados de Lilith. Ela os puxou rapidamente, instintivamente, com um olhar que dizia que, se aquilo não fora um acaso, era melhor ele não tentar de novo.
— Vou pra lá. — Ela apontou em direção ao riacho da Cascavel, mas se arrependeu por revelar seus planos, afinal não era uma sugestão para que Cam a acompanhasse.
No entanto, foi exatamente isso que ele fez.


Na entrada do bosque, ele afastou um galho de alfarrobeira para que ela pudesse passar por baixo. Lilith o observou avaliar o galho, como se nunca tivesse visto aquele tipo de árvore.
— Não tem alfarrobeira de onde você vem? — perguntou ela. Aquelas árvores estavam em toda parte em Crossroads.
— Sim e não — respondeu Cam.
Ele resmungou algo enquanto ela ia até a árvore de sempre e se sentava. Depois ela ficou observando a água gotejar sobre as pedras do leito do riacho. Um instante depois, Cam juntou-se a ela.
— De onde você vem, afinal? — perguntou Lilith.
— Meio que de todo lugar? — Cam enfiou a mão entre os galhos retorcidos, onde Lilith guardava seu violão. Às vezes ela vinha ali tocar quando não almoçava; isso a ajudava a esquecer a fome.
— Misterioso? — disse ela, imitando o tom de Cam e pegando o violão das mãos dele.
— Não é tão bacana quanto parece ser — retrucou Cam. — Na noite passada dormi na frente de uma assistência técnica de televisões.
— A O’Malley’s na Hill Street? — perguntou Lilith, afinando a corda do Mi maior. — Que esquisito. Dormi ali uma vez, quando estava de castigo e queria fugir de Janet. — Sentiu os olhos de Cam sobre si, desejando que ela explicasse mais. — Janet é minha mãe. — Como aquele era um assunto que não levava a nada, ela mudou o tema. — Como veio parar aqui?
A mandíbula de Cam se retesou, e uma veia surgiu em sua testa, entre os olhos. Obviamente era a última coisa sobre a qual ele desejava conversar, o que deixou Lilith desconfiada. Ele escondia alguma coisa, exatamente como ela.
— Chega de saber dos bastidores. — Cam abriu o estojo da guitarra emprestada da sala de música e sacou uma Fender Jaguar verde, propriedade da Trumbull. — Vamos tocar alguma coisa.
Lilith espirrou e abraçou a barriga. A fome a cortava por dentro, como uma tesoura enferrujada.
— Hum, espirro de fome — disse Cam. — Eu não devia ter deixado você me dissuadir da refeição. Sorte sua que está comigo.
— Por quê?
— Porque a gente forma uma boa dupla. — Ele afastou o cabelo negro dos olhos. — E porque eu sempre ando com os lanches mais deliciosos do mundo.
Da mochila de lona ele sacou um pacote de biscoitos e um pote pequeno e gorducho com rótulo escrito num outro idioma. Ele pousou a mão na tampa e tentou girá-la, mas nada. Tentou uma vez mais. A veia em sua testa reapareceu.
— Deixe comigo. — Lilith pegou o pote e o deslizou entre as cordas do violão, deixando que uma delas rompesse o lacre a vácuo. Tinha feito isso em casa certa vez, quando Bruce estava com fome e a única coisa que tinham para comer era um pote de picles.
A tampa se abriu nas mãos dela.
Cam passou a língua sobre os dentes e assentiu ligeiramente.
— Eu já tinha afrouxado pra você.
Lilith espiou o que havia no pote: uns ovinhos pequenos, negros e úmidos.
— Ossetra — disse Cam. — O mais fino caviar.
Lilith não tinha ideia de como se comia caviar. Onde ele havia conseguido aquilo, ainda mais dormindo na rua? Cam abriu o pacote de biscoitos e, com um deles, apanhou um pouco da pasta negra cintilante.
— Abra a boca e feche os olhos — pediu ele.
Ela não queria, mas a fome era tanta que cedeu.
O biscoito era crocante, o caviar, macio. Então o sal dos ovinhos a assaltou, e no início Lilith achou não ter gostado. Mas, quando permitiu que o caviar se demorasse um pouco em sua língua, uma sensação deliciosa espalhou-se pela boca, uma textura amanteigada com uma pontinha de intensidade.
Ela engoliu: estava viciada.
Quando abriu os olhos, Cam sorria para ela.
— É caro? — perguntou Lilith, sentindo-se culpada.
— O gosto é melhor quando se come bem devagar.
Um silêncio tranquilo caiu entre os dois enquanto comiam. Ela sentia-se grata pela comida, mas incomodada por aquele sujeito agir como se fossem mais íntimos que realmente eram.
— É melhor eu voltar pra casa — avisou Lilith. — Estou de castigo.
— Nesse caso, você devia se demorar o máximo possível. — Cam inclinou a cabeça e olhou para ela do jeito que os caras dos filmes olhavam para as garotas pouco antes de um beijo. Ficou assim por um momento; depois apanhou o violão da garota.
— Ei! — protestou Lilith, quando um acorde preencheu o ar.
Aquele violão era sua posse mais valiosa. Ninguém além dela poderia pôr as mãos nele. Entretanto, quando os dedos de Cam dedilharam as cordas e ele começou a cantarolar, ela ficou encantada. Era uma canção linda... e ao mesmo tempo familiar. Lilith não sabia onde já a tinha ouvido.
— Você compôs isso? — Ela não conseguiu evitar perguntar.
— Talvez. — Ele parou de tocar. — Precisa de uma voz feminina.
— Ah, tenho certeza de que Chloe King deve estar disponível — disse Lilith.
— Falando nela — começou Cam. — O que você achou do tema da formatura? Batalha de Bandas? — Ele atirou a cabeça para trás. — Pode ser bacana.
— Bacana é a última coisa que essa festa vai ser — retrucou ela.
— Se você se inscrever, eu me inscrevo também.
Lilith explodiu numa gargalhada.
— Nossa! Isso deveria me seduzir? Alguém já lhe disse que você é um tiquinho convencido?
— Não nos últimos cinco minutos — respondeu Cam. — Pense nisso. Temos duas semanas para montar uma banda decente. A gente dá conta. — Ele fez uma pausa. — Você dá conta. Além disso, bem sabe o que costumam dizer por aí sobre a Vingança.
— O quê? — indagou ela, esperando ouvir mais alguma coisa que a tiraria do sério.
Ele olhou para o longe, para alguma coisa que pareceu entristecê-lo. Quando respondeu, seu tom foi dócil:
— Que ela é doce.

4 comentários:

  1. Ok, ela pode odiar ele, mas gente, ela é chata como eu esperava que seria

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  2. mds karina obrigado por ter postado esse livro <3 tava esperando muito por ele e to amando demais <3

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  3. Gente! Cam já era meu personagem favorito em Fallem, agora então, nem se fala!
    Cris Herondale.

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    1. Pipipipipipi detectado caçadora de sombras 😂😂😂😂😂

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Boa leitura :)