25 de março de 2017

Capítulo 18 - O reino secreto do amor

CAM
Quatro Horas

Cam saiu do banco de trás da limusine antiga que Roland tinha providenciado misteriosamente para aquela noite. Subiu os degraus de concreto até a porta da entrada da casa de Lilith e ouviu os gafanhotos cricrilando contra a luz da varanda. Seu coração batia acelerado quando tocou a campainha.
A insegurança nunca havia feito parte da bagagem de Cam. Entrava em conflito com sua jaqueta de couro, suas calças jeans Levi’s originais, os olhos verdes descolados. Mas agora, enquanto o sol se punha atrás das colinas ardentes e um vento frio dominava as ruas, ele se perguntava: teria feito o suficiente?
Alguns ensaios da banda. Algumas discussões. Um beijo excepcional. Para Cam, cada momento tinha sido repleto de paixão. Mas será que Lilith reconheceria isso como amor? Porque, se ela não o fizesse...
Ela o faria. Teria de fazer. Naquela noite.
Ariane abriu a porta, os punhos nos quadris, as sobrancelhas finas arqueadas.
— Ela está pronta! — cantarolou ela. — Esse penteado vai virar lenda, mas o que me deixa mais satisfeita foi a repaginada no vestido. Ei, ninguém me chama de Ariane dos Retoques à toa. — Ela olhou para trás. — Bruce, pode trazer a gata.
Um momento depois, o irmão de Lilith virou o corredor, vestindo seu pijama com estampa de dinossauro. Trazia Lilith enganchada em seu braço, toda produzida. Cam prendeu a respiração enquanto ela caminhava em sua direção com passos lentos, medidos, sem desviar o olhar do dele.
Aquele vestido e o ar sonhador dos olhos dela o transportaram de volta ao casamento que nunca houve.
Ela estava radiante. O cabelo ruivo fora arrumado em dezenas de tranças, todas unidas num coque alto e cheio. Suas pálpebras exibiam uma sombra verde brilhante, os lábios, um batom carmim fosco. Usava os coturnos pretos vintage com o vestido. Diva.
Ela soltou a mão de Bruce e rodopiou de um jeito sexy e lento.
— Que tal?
Quando ela parou na frente dele, Cam pegou suas mãos. Lilith era dona da pele mais macia que já havia tocado.
— Você está tão linda que deveria ser ilegal.
— Você não está usando nada de diferente? — perguntou Lilith, alisando a lapela da jaqueta de couro de Cam. — Jean vai ficar puto da vida, mas eu acho que você está lindo.
— Lindo? — riu Cam. Quando Lilith olhava para ele daquele jeito, Cam conseguia esquecer que seus músculos tinham perdido a definição, que sua pele parecia fina feito papel, que seu cabelo rareava e que seus cascos tornavam o ato de andar complicado. Lilith o enxergava de forma diferente do restante do mundo porque gostava dele, e a opinião dela era a única que importava.
— Cam, você se importaria de... — pediu Lilith, nervosamente. — Tudo bem se eu apresentar você adequadamente para minha mãe? Ela é meio antiquada, e isso significaria muito para...
— Sem problemas. Todas as mães me amam — mentiu Cam. As mães de adolescentes costumavam farejar o bad boy em Cam de imediato. Mas, por Lilith, ele faria qualquer coisa.
— Mãe? — chamou Lilith, e, um momento depois, sua mãe apareceu no corredor. Vestia um roupão atoalhado cor-de-rosa, que estava manchado e desgastado. O cabelo tinha sido preso de qualquer jeito com uma piranha de plástico. Ela o tocou, aflita, ajeitando uma das mechas.
— Sra. Foscor. — Cam estendeu a mão em cumprimento. — Eu sou Cameron Briel. Nós nos encontramos uma vez, quando vocês estavam levando Bruce ao hospital, mas fico feliz em vê-la novamente. Gostaria de agradecer.
— Pelo quê? — perguntou a mãe de Lilith.
— Por criar uma filha extraordinária — disse ele.
— Provavelmente o que você gosta nela é tudo aquilo que se rebela contra mim — disse Janet, e então, para espanto de Cam, riu. — Mas ela está mesmo linda, não é?
— É inspiração para canções de amor — elogiou Cam.
Quando ele olhou para Lilith, viu que seus olhos estavam marejados; Cam entendeu como devia ser raro para ela receber um elogio da mãe.
— Obrigada — disse Lilith, abraçando a mãe, e em seguida o irmão. — Não vamos chegar muito tarde.
— Vocês não querem ver Lilith tocar? — perguntou Cam a Janet.
— Ah, não, tenho certeza de que iríamos apenas envergonhá-la — disse a mãe.
— Não — protestou Lilith. — Por favor, venham. — Ela olhou para Cam. — Mas não sei, será que permitem não estudantes no baile?
— Não se preocupe com isso — disse Ariane, intrometendo-se na conversa, puxando a gola de sua camiseta preta com decote V. — Conheço um cara que conhece um cara que pode nos colocar na primeira fila.
— Ah, é muito generoso de sua parte — agradeceu a mãe de Lilith. — Vou me vestir então. Você também, Bruce.
Quando sua família desapareceu nos respectivos quartos, Cam virou-se para Lilith.
— Vamos?
— Espere — disse ela. — Esqueci meu violão.
— Você pode precisar dele — disse Cam. — Vou esperar lá fora.
Ele foi até a varanda, seguido por Ariane. Ela acariciou seu rosto.
— Estou orgulhosa de você, Cam. E inspirada por seu exemplo. Não é verdade, Ro?
— Na mosca! — gritou Roland pela janela aberta da limusine. Ele estava vestindo um smoking ultraelegante com gravata-borboleta azul-marinho.
— Valeu, gente — disse Cam.
— Independentemente do que acontecer hoje à noite — acrescentou Ariane.
— Vocês ainda não têm fé de que posso vencer? — perguntou Cam.
Ariane se apressou em corrigir.
— Não é isso, é só que, na possibilidade de você não...
— O que ela quer dizer é — começou Roland, saindo do carro e indo atrás de Cam — que nós sentiríamos sua falta, cara. — Ele se encostou na grade enferrujada da varanda da casa de Lilith e olhou para o céu. — Você não vai sentir falta dela?
— Porque, se você perder, ela vai voltar ao Purgatório dos globos de neve — disse Ariane. — Enquanto você... — Ela estremeceu. — Não quero nem pensar no que Lúcifer vai fazer.
— Não se preocupe com isso — avisou Cam. — Porque eu não vou perder.
Ariane afundou sobre o capô da limusine, e Roland sentou de novo no banco do motorista. A porta da casa foi aberta, e Lilith saiu, banhada pelo luar, segurando o violão.
— Acha que consegue encarar mais um acessório? — perguntou Cam, tirando uma caixinha branca do bolso.
Lilith a abriu e sorriu quando viu as íris azuis e amarelas fixadas ao pequeno elástico. Gentilmente, Cam prendeu a flor no pulso de Lilith. Os dedos dos dois se entrelaçaram.
— Ninguém nunca me deu um buquê de formatura — disse Ariane, saudosa.
Então algo aterrissou em seus pés com um baque. Ariane sobressaltou-se, daí olhou para baixo e viu uma caixinha branca idêntica à que Cam dera a Lilith.
Ela sorriu.
— De nada — gritou Roland do assento do motorista. — Agora entrem, crianças; estão perdendo tempo valioso de baile.


Na entrada da Trumbull, Cam ajudou Lilith a sair da limusine. Pequenos grupos de jovens bem-arrumados espalhavam-se por ali, sentados nos capôs dos carros no estacionamento, com os melhores vestidos e smokings, mas o agito mesmo parecia vir do campo de futebol americano, onde Luc construíra sua réplica do Coliseu.
Tal como o modelo romano, era um espaço aberto ao ar livre, com três andares de arcos circundando o interior. Cam o analisou e percebeu que havia algo de malfeito na estrutura. Em vez de ser de pedra calcária, era formado inteiramente de cinzas compactadas, vindas do fogo do Inferno de Lilith, como uma espécie de concreto barato. Aquilo fez Cam recordar do quanto tudo aquilo era temporário: a escola; o pequeno e triste mundinho de Crossroads.
Lilith olhou para o local à frente deles, e Cam percebeu que ela não enxergava nenhuma das coisas que o preocupavam. Para Lilith, aquele era apenas mais um prédio feio em sua cidade feia.
As batidas do baixo ribombavam através das paredes.
— Não é nenhum riacho da Cascavel — disse Lilith. — Mas é o que temos.
— Podemos ter mais ainda — disse Cam. — Podemos agitar tanto isso aqui que as paredes vão desmoronar. Vai ser a queda de Roma, tudo de novo.
— Caramba, como você é ambicioso — brincou Lilith, tomando-lhe o braço.
— Obrigado pela carona, Roland. — Cam virou-se para o demônio, que fechou a porta da limusine atrás dele.
— Quebre a perna, irmão! — gritou Roland para o amigo.
Cam e Lilith entraram no falso Coliseu, atravessando um longo arco feito de bexigas douradas e prateadas. Do outro lado, a festa seguia a pleno vapor. Havia alunos agrupados em torno de mesas à luz de velas, rindo, flertando, petiscando cubinhos de queijo e bebendo ponche. Outros dançavam um som pop agitado numa grande pista a céu aberto estrelado.
O olhar de Cam foi atraído para os fundos do Coliseu, onde um grande palco tinha sido montado, uns 5 metros acima do restante do baile. Cortinas de veludo vermelho criavam uma região de bastidores onde as outras bandas poderiam aguardar antes de tocar. Num canto, havia uma pequena mesa dos jurados, sobre a qual pendia um banner: TRUMBULL DÁ AS BOAS-VINDAS AOS QUATRO CAVALEIROS.
Lilith cutucou Cam e apontou para a pista de dança.
— Saca só o Luis.
Cam olhou para onde ela apontava, e viu o baterista da banda, de smoking branco, imitando uma galinha em torno de Karen Walker, que escondia o rosto nas mãos.
— Vai, Luis! — gritou Lilith.
— O quê? — gritou Luis por sobre a música. — Esta é minha improvisação. Preciso me mexer.
Nesse instante, Dean Miller se aproximou de Lilith e Cam. Usava um smoking preto com uma gravata preta fina, que descia como uma faixa pelo peito.
— Tarkenton estava atrás de você. — Ele entregou a Cam um pano azul dobrado. — É da corte da formatura. Precisa usar isto. Se tivesse se dado ao trabalho de comparecer à nossa última reunião, saberia.
Lilith abafou uma risada na dobra do cotovelo quando Cam ergueu uma faixa de cetim em tom azul-pastel, com o nome impresso ao longo de toda sua extensão em letras maiúsculas brancas. Dean usava um cinto igual sobre seu smoking, onde se lia Dean Miller.
— Mas que ótimo. — Cam levantou a faixa. — Boa sorte hoje à noite, cara.
— Valeu, mas ao contrário de você, não preciso de sorte — disse Dean, com um sorriso, enquanto Chloe King se aproximava e passava o braço pelo dele.
— Dean, preciso de você para uma foto...
— Chloe — disse Lilith. — Oi.
Chloe olhou para o vestido de Lilith, claramente impressionada.
— Você contratou um estilista ou algo assim? Porque você está bonita.
— Obrigada, eu acho — agradeceu Lilith. — Você também está.
Chloe se virou para Cam e semicerrou os olhos.
— É melhor você tratá-la bem — disse ela, antes de puxar Dean pelo braço e os dois se afastarem.
— Desde quando você e Chloe King são amigas? — perguntou Cam.
— Eu não sei se eu diria amigas — retrucou Lilith. — Mas nós resolvemos algumas questões outro dia. Ela não é tão ruim assim. E ela tem razão. — Lilith levantou uma sobrancelha. — É melhor você me tratar bem.
— Eu sei — disse Cam. Era a coisa à qual ele estava mais comprometido no universo.
Lilith pegou a faixa da corte da formatura e a atirou numa lixeira ali perto.
— Agora que isso está resolvido, vamos ao plano. — Verificou seu relógio. — A batalha começa em vinte minutos. Acho que temos tempo para uma dança antes de nos preparar.
— Você é quem manda — disse Cam, trazendo Lilith para perto e seguindo em direção à pista.
Felizmente a música seguinte foi lenta, do tipo que parecia fazer todos quererem abraçar alguém. Logo, Lilith e Cam estavam cercados por casais, a pista de dança iluminada com vestidos coloridos intensos e smokings elegantemente contrastantes. Pessoas com quem Cam cruzara uma dúzia de vezes nos corredores sem graça da Trumbull agora pareciam extraordinárias sob a luz das estrelas, sorrindo, requebrando ao som da música. Cam ficava atormentado ao pensar que todos ali tinham a sensação de que a vida estava só começando, quando, na verdade, era apenas o início do fim.
Ele abraçou Lilith. Concentrou-se somente nela. Adorava o toque leve dos dedos dela em seus ombros. Adorava o perfume das íris na pele da garota e o calor de seu corpo de encontro ao dele.
Fechou os olhos e deixou o resto de Crossroads desaparecer, imaginando que estavam a sós. Eles só tinham dançado uma única vez antes da noite anterior no riacho da Cascavel: em Canaã, junto ao rio, logo após Cam pedi-la em casamento. Lembrou-se de como Lilith parecia leve como uma pena na primeira vez em que dançaram, levantando-se do chão à menor oscilação do corpo de Cam.
Ela estava tão leve quanto agora. Os pés deslizavam pela pista de dança, e ela olhava para Cam com puro deleite. Ela estava feliz, ele sentia. E ele também estava. Fechou os olhos e deixou a memória transportá-los de volta a Canaã, onde outrora tinham sido tão abertos e livres.
— Eu te amo — sussurrou ele, sem conseguir se conter.
— O que você disse? — gritou Lilith, mas a voz quase não conseguiu se sobrepor à música. — Quer saber onde é o banheiro? — Ela se afastou e olhou em volta, à procura de placas que indicassem o banheiro masculino.
— Não, não — disse Cam, puxando-a de volta para seus braços, desejando não ter estragado o clima. — Eu disse que... — Mas ele não podia dizer aquilo, não agora, não ainda. — Disse que você dança bem.
— Aproveite enquanto pode — gritou ela. — Precisamos nos preparar para tocar.
A música terminou, e todos se viraram em direção ao palco enquanto Tarkenton subia os degraus. O diretor usava um smoking azul-marinho com uma rosa vermelha presa à lapela. Girou o bigode entre os dedos e pigarreou, nervoso, ao se aproximar do microfone.
— Todos os participantes da Batalha de Bandas devem dirigir-se aos bastidores agora — disse ele, olhando ao redor. — Esta é a última chamada para todos os participantes da Batalha de Bandas. Por favor, usem a porta do lado esquerdo do palco.
— Temos pouco tempo — disse Lilith, segurando a mão de Cam e puxando-o através da multidão de estudantes, para perto do palco.
— E eu não sei... — murmurou Cam consigo.
Eles viraram à esquerda, contornando uma garota e um rapaz que estavam se beijando como se fossem as únicas pessoas presentes, aí encontraram a porta preta na lateral esquerda do palco, onde os competidores deveriam se apresentar para o check in.
Cam segurou a porta aberta para Lilith. Do outro lado havia um corredor mal-iluminado e estreito.
— Por aqui. — Lilith tomou sua mão, apontando para um cartaz com uma seta. Eles viraram à esquerda e depois à direita; então encontraram uma fileira de camarins com portas com o nome das bandas marcados: Amor e Ócio, Morte do Autor, Desprezos Nítidos, Quatro Cavaleiros e, no final do corredor, Vingança. Lilith girou a maçaneta.
No camarim, Luis estava sentado na cadeira de diretor, enfiando M&M’s de amendoim na boca, os pés sobre uma penteadeira. Agora vestia uma camisa de caubói preta, calças brancas e um chapéu fedora também preto, inclinado para baixo. De olhos fechados, ele repassava baixinho as harmonias do “Blues de outro alguém”.
Em um sofá no canto, Jean dava uns amassos na namorada Kimi, que estava linda com seu longo de cetim vermelho-cereja. Ele interrompeu o beijo por um instante para olhar para cima e fazer o sinal da paz para Cam e Lilith.
— Pronto pra arrasar, cara? — disse ele, ajustando o colete de couro claro com franjas, comprado no brechó do Exército da Salvação.
Atrás deles, a guitarra de Cam estava apoiada no sintetizador de Jean, ao lado dos smokings de Jean e Luis, que tinham sido cuidadosamente pendurados em cabides — obviamente pela namorada de Jean.
Kimi se levantou e ajeitou o vestido.
— Hora de dar o fora — disse ela. Da porta do camarim, ela soprou um beijo para Jean. — Me deixe orgulhosa.
Jean estendeu a mão para pegar o beijo do ar, o que fez Cam e Lilith começarem a rir.
— É uma coisa nossa — disse Jean. — Por acaso eu tiro sarro de vocês por brigarem de quinze em quinze minutos? Não, porque sei que é uma coisa de vocês.
Cam olhou para Lilith.
— Nós não brigamos há pelo menos meia hora.
— Estamos atrasados — concordou Lilith. Em seguida, colocou a mão no ombro de Jean. — Ei, obrigada por aguentar todo nosso drama.
— Não foi nada — disse Jean. — Você devia ver como Kimi fica quando não respondo suas mensagens em menos de sessenta segundos.
— É a formatura! — exclamou Luis. — Quando na história mundial os dias anteriores ao baile de formatura não geraram grandes conflitos? — Ele tirou as baquetas do bolso de trás e tocou um solo de bateria na coxa.
— Dois minutos — gritou uma voz do corredor. Cam colocou a cabeça para fora e viu Luc de bobeira ali, com uma prancheta e um headset. Deu um sorriso lupino para Cam e baixou a voz, até o tom verdadeiro. — Você está pronto, Cambriel?
— Já nasci pronto — disse Cam. Claro que não era verdade. Até estar com Lilith em seus braços, na noite anterior, ele se sentia bem longe de estar pronto.
O diabo riu, fazendo algumas das lâmpadas do teto estourarem com uma gargalhada tão rascante que era inaudível para todos, exceto para Cam. Sua voz voltou a assumir aquele falso tom suave quando ele anunciou:
— Atenção bandas, apresentar-se nas coxias.
Cam voltou ao camarim e fechou a porta, torcendo para que os outros não percebessem o quanto estava irritado. Olhou para Luis pelo espelho. A tez do baterista havia ficado pálida.
— Está tudo bem? — perguntou Cam.
— Acho que vou vomitar — disse Luis.
— Bem que eu lhe disse para não comer todos os M&M’s — repreendeu Jean, balançando a cabeça.
— Não é isso.— Luis estava ofegante, com as mãos apoiadas na penteadeira. — Nenhum de vocês fica nervoso antes de subir no palco?
— Eu fico — disse Lilith, e Cam viu que ela tremia. — Duas semanas atrás eu jamais me imaginaria aqui. Agora que estou, quero arrasar. Não quero estragar tudo porque estou nervosa. Não quero jogar tudo no lixo.
— O bom de tocar uma música que nunca ninguém ouviu antes é isso — disse Jean, colocando o sintetizador Moog embaixo do braço. — Ninguém tem como saber se você pisar na bola.
— Mas eu saberia — retrucou Lilith.
Cam sentou-se na penteadeira, de frente para Lilith. Tocou-lhe o queixo e disse baixinho:
— Vamos fazer o melhor que pudermos, e pronto.
— E se o meu melhor não for bom o suficiente? — perguntou Lilith, olhando para baixo. — E se tudo isso for um erro?
Cam colocou as mãos em seus ombros.
— O valor desta banda não se mede num show de três minutos num baile de formatura. O valor desta banda se mede em todos os passos que demos para chegar até aqui. Em você escrevendo essas canções. Em nós aprendendo a tocá-las juntos. Em todos os nossos ensaios. Na nossa ida ao Exército da Salvação. No concurso de composições que você venceu.
Ele olhou de Lilith para Jean, e de Jean para Luis, notando que estavam grudados em suas palavras. Então continuou:
— É o fato de que nós realmente gostamos um do outro agora. E todas as vezes em que você me expulsou da banda. E todas as vezes em que você graciosamente me deixou voltar. Isso é a Vingança. Se nos lembrarmos disso, nada poderá nos deter. — Ele respirou fundo, esperando que os outros não tivessem notado o tremor em sua voz. — E, se não conseguirmos, pelo menos teremos vivido isso juntos. Ainda que esse seja mesmo o fim, valeu a pena só por ter tocado com vocês por algum tempo.
Lilith inclinou a cabeça na direção de Cam e olhou profundamente em seus olhos. Murmurou algo que ele não entendeu direito. Seu coração disparou quando ele se inclinou para perto dos lábios dela.
— O que você disse?
— Eu disse obrigada. Eu me sinto melhor agora. Estou preparada.
Bem, já era alguma coisa. Mas seria o suficiente?
Cam tirou a guitarra do suporte.
— Vamos nessa.


Os quatro integrantes da Vingança se reuniram num canto das coxias, os instrumentos embaixo do braço. Todo mundo deveria entrar pelo lado esquerdo do palco, e não havia cortinas separando os vários atos, de modo que os artistas simplesmente se juntavam em grupinhos. Havia uma certa eletricidade nos bastidores, feita de nervosismo, ansiedade e laquê de cabelo. Era possível sentir aquilo no ar.
Por trás da cortina, Cam espiou a multidão na pista de dança. Com as luzes do palco apagadas, ele conseguia vê-los claramente. Estavam inquietos, porém animados, empurrando uns aos outros, paquerando, rindo à toa. Um menino fazia bodysurf por cima da massa de gente. Mesmo o corpo docente, que pairava nas bordas da festa, parecia alegre. Cam sabia que uma banda tinha sorte de encontrar uma plateia com esse humor. Aquela gente esperava algo do show, algo que combinasse com a própria energia naquela noite elétrica.
Na mesa dos juízes, à direita do palco, Tarkenton tentava conversar com quatro rapazes estilo punk rock. Cam tinha quase se esquecido de que Ike Ligon vinha julgar aquela coisa, e achou engraçado ver o que se passava por uma “estrela do rock” no Inferno de Lilith. O vocalista da banda era petulante o suficiente, com cabelos loiros espetados e braços e pernas magros e compridos, mas os outros três pareciam ter um neurônio cada. Cam lembrou-se de que aquela era a banda favorita de Lilith, e disse a si que talvez eles fossem melhores no palco.
Um movimento atrás da mesa dos juízes chamou a atenção de Cam. Ariane e Roland estavam lá, abrindo cadeiras dobráveis para a mãe e o irmão de Lilith. Ariane chamou a atenção de Cam e apontou: Olhe para cima. Ele obedeceu e ficou feliz ao ver que ela dera um jeito de prender o globo espelhado nas vigas acima do palco.
Ele voltou a olhar para Ariane e gesticulou seu aplauso. Bacana, murmurou ele, enfatizando o movimento labial para ela entender. Cam pensou em tudo o que seus amigos tinham feito por ele ontem à noite no riacho da Cascavel e se perguntou se conseguiria ter avançado tanto com Lilith se não fossem eles.
Roland olhou para as estrelas, preocupado. Cam acompanhou o olhar do amigo. As estrelas, que pareciam estranhamente brilhantes naquela noite, na verdade não eram estrelas. Os demônios de Lúcifer haviam se reunido no alto do firmamento. Eram seus olhos que brilhavam como estrelas em meio à fumaça das queimadas. Cam se eriçou, sabendo que estavam ali para testemunhar seu destino.
Os alunos da Trumbull não eram os únicos ansiosos para ver um grande espetáculo aquela noite.
As luzes se apagaram.
A multidão ficou em silêncio quando a luz de um holofote caiu sobre Luc. Ele vestia um terno risca de giz azul, sapatos sociais e um lenço fúcsia dobrado no bolso. Segurava um microfone banhado a ouro e sorria para um teleprompter.
— Sejam bem-vindos ao baile da Trumbull! — ecoou sua voz. A plateia soltou urras até Luc gesticular para silenciar a multidão. — Tenho a honra de desempenhar um papel nesta ocasião decisiva. Sei que vocês estão ansiosos para saber quem será coroado rei e rainha do baile. O treinador Burroughs está nos bastidores agora, contando seus votos. Mas, primeiro, vamos começar com a tão esperada Batalha de Bandas!
— Amamos você, Chloe! — gritaram algumas pessoas na primeira fila.
— Algumas das bandas que vão ouvir são conhecidas dos fãs — disse Luc. — Outras são relativamente desconhecidas, até mesmo entre seus familiares... — Ele esperou risadas, mas, em vez disso, uma lata de refrigerante cheia até a metade aterrissou a seus pés. — Outras — continuou Luc, com voz agora mais sombria — nunca tiveram uma chance. — Ele se virou e piscou para Cam. — Esta noite, em sua estreia, vamos receber a banda Amor e Ócio!
A plateia urrou em aprovação enquanto duas meninas do segundo ano arrastavam banquetas para o palco. Pareciam irmãs, de pele escura, sardas e olhos azul-claros. Uma tinha cabelo cacheado loiro, quase branco, e a outra, cabelo chanel tingido de preto. Elas levantaram seus ukuleles.
Cam ficou impressionado ao reconhecer os acordes de uma canção folclórica obscura que tinha sido transmitida através das eras em bares clandestinos sombrios. Chamava-se “Adaga de prata”, e a primeira vez que ele a ouvira tinha sido duzentos anos antes, a bordo de um barco em alto-mar, chacoalhado pelas ondas agitadas, na pesada escuridão da noite.
— Ela é durona — disse Jean.
— Qual das duas? — perguntou Luis.
— As duas — respondeu Jean.
— Você tem namorada — disse Luis.
— Shhh — disse Jean.
Cam tentou chamar a atenção de Lilith, mas ela estava de olhos vidrados no show.
A banda Amor e Ócio era boa e parecia saber disso. Mas aquelas garotas nunca entenderiam o quanto tinha sido acertada a escolha da canção, nem que estavam se apresentando para dez mil pares de ouvidos imortais que estiveram presentes quando aquela música foi apresentada pela primeira vez, no norte da África. Cam sabia que alguns dos demônios deviam estar acompanhando, lá de cima.
Ele ficou atrás de Lilith, abraçou sua cintura e se pôs a dançar devagarzinho, cantando baixinho em seu ouvido.
— Meu pai é um belo demônio...
— Você conhece essa música? — perguntou Lilith, virando a cabeça de leve, de modo que a bochecha roçou os lábios de Cam. — É ótima.
— Lilith — disse ele — tem uma coisa que quero lhe dizer já faz algum tempo.
Agora ela virou-se totalmente, como se tivesse captado a intensidade em sua voz.
— Não sei se é o momento certo, mas preciso lhe dizer que...
— Ei. — Uma voz interrompeu Cam, e um instante depois Luc empurrou Cam de lado para ficar na frente de Lilith. — Você assinou a cessão de direitos de imagem? Todo mundo precisa assinar.
Lilith olhou para o documento densamente impresso.
— O que diz aí? É difícil ler aqui.
— Nada de mais. Só que você não vai processar a King Media e que nós podemos usar sua imagem para materiais promocionais, após o show.
— Sério, Luc? — disse Cam. — Precisamos mesmo fazer isso agora?
— Não é possível entrar no palco sem assinar a cessão.
Cam fez uma leitura dinâmica do documento para ter certeza de que não estava se enfiando num acordo ainda mais sombrio com Lúcifer. Parecia, no entanto, que aquilo era apenas uma estratégia para interromper o momento entre ele e Lilith. Cam assinou.
— Pode assinar — disse ele para Lilith, e observou enquanto ela assinava também.
Cam empurrou os documentos de volta para Lúcifer, que os enfiou no bolso e sorriu. Àquela altura, o show da Amor e Ócio tinha acabado, e os aplausos após sua saída já haviam diminuído.
Luc subiu novamente no palco.
— Provocante. — Sorriu. — Sem mais delongas, nossa próxima banda: Morte do Autor!
A multidão aplaudiu fracamente quando um rapaz baixinho chamado Jerry e seus três amigos subiram no palco, hesitantes. Cam estremeceu quando Jerry tentou ajustar a altura da bateria compartilhada para se adequar à baixa estatura. Depois de alguns momentos dolorosos, Lilith cutucou Cam.
— Vamos lá ajudar os caras — disse ela.
Cam ficou surpreso, mas é claro que Lilith tinha razão. Ela realmente era diferente da garota solitária e irritada de há duas semanas.
— Boa ideia — disse Cam, enquanto subiam depressa no palco para ajudar a ajustar a altura das caixas.
Depois que os instrumentos estavam afinados e a banda prestes a tocar, Lilith e Cam voltaram para as coxias laterais. Lilith não parecia estar nem aí para o fato de a banda Morte do Autor ser péssima. Estava simplesmente feliz por ter ajudado um colega músico. Mas era a única que estava feliz. Jean se retorcia lamentosamente enquanto Jerry cantava uma canção chamada “Amalgamador”.
— Ele não deve nem saber o que é um amalgamador — disse Jean, balançando a cabeça.
— É mesmo — disse Luis. — Total. Hum... o que é um amalgamador, hein?
A plateia estava entediada antes mesmo de o primeiro verso terminar. As pessoas vaiavam ou saíam para comprar refrigerantes, mas a Morte do Autor sequer percebia. No final da canção, Jerry abraçou o microfone, quase caindo no chão de tanta adrenalina.
— Nós amamos você, Crossroads!
Enquanto Jerry e sua banda deixavam o palco, Luc voltava a subir.
— Nossa próxima atração já é bem conhecida em toda a cidade — disse ele ao microfone. — Eu apresento as lindas e talentosas da Desprezos Nítidos!
Aplausos ecoaram por todo o Coliseu enquanto a multidão ia à loucura.
Cam e Lilith espiaram pela cortina e viram todos os populares da Trumbull correndo até a beira do palco. Gritavam, as garotas nos ombros dos namorados, cantando o nome de Chloe. Cam segurou a mão de Lilith. Mesmo que ela tivesse acertado algumas arestas com Chloe, devia ser difícil para ela não invejar a recepção à Desprezos Nítidos.
— Está tudo bem? — perguntou Cam, mas o barulho da multidão era demasiado alto para Lilith ouvi-lo.
Luis deu um tapinha na bunda de Karen Walker quando ela saiu de trás da cortina para verificar as conexões dos amplificadores da banda. O nevoeiro de alguns baldes cheios de gelo seco encheu o palco, e poucos momentos depois Chloe King e sua banda surgiram das coxias.
Elas eram profissionais. Sorriram e acenaram para as luzes do palco, encontraram seus lugares aos microfones, como se tivessem se apresentado em mil shows mais importantes que aquele. Usavam saltos agulha brancos e minivestidos de couro em cores diferentes, com as faixas cor-de-rosa da corte da formatura sobre os vestidos. O de Chloe era amarelo-claro, para combinar com sua sombra de olho dourada.
— O sentimento é mútuo, Trumbull! — gritou Chloe.
A multidão vibrou.
Chloe fez beicinho e inclinou-se sedutoramente ao microfone. A multidão estava hipnotizada, mas a única coisa que Cam conseguia fazer era observar Lilith. Ela estava inclinada para a frente, roendo as unhas. Ele sabia que ela se comparava a Chloe — não apenas quanto à reação do público, mas também na maneira como Chloe segurava o microfone com um floreio, na forma como sua voz enchia o Coliseu, na paixão que ela trazia para a guitarra.
Se pudesse abraçar Lilith mais uma vez antes de eles tocarem, Cam tinha certeza de que poderia convencê-la de que a questão envolvida naquele show não era competir com Chloe. Era o que ela e Cam viveram juntos. Ele poderia dizer as três palavras que queimaram dentro dele durante quinze dias, e a reação dela iria lhe dizer se eles tinham uma chance.
Três palavrinhas. Será que ele as diria? Elas seriam capazes de determinar tanto o destino de Cam quanto o de Lilith.
Porém, antes que tivesse a oportunidade de se aproximar dela, Cam sentiu Jean chegando pela esquerda, e, em seguida, Luis, pela direita. Cam sentiu a energia que fluía deles, e então soube que a canção de Chloe tinha terminado. A multidão estava aplaudindo, e Lilith inclinou a cabeça para o alto, talvez para pedir boa sorte. Porque a Vingança estava prestes a pisar no palco, e agora a única coisa que importava era a música deles.
O Coliseu ficou escuro, exceto pelo facho de luz sobre os olhos de Luc, que estava parado no centro do palco. Ao falar, a voz dele mal passava de um sussurro.
— Vocês estão prontos para a Vingança?

2 comentários:

  1. Porque será que eu sinto que vai dar problema!
    Que o tiro foi pela culatra
    Que a água transbordou do vaso
    É só um pressentimento sabe ;u;

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