25 de março de 2017

Capítulo 16 - Dias perigosos

CAM
Dois Dias

No dia seguinte, na aula de poesia, Cam tentou travar contato visual com Lilith. Por causa da suspensão, ele não a via há quase dois dias. Vê-la agora, rabiscando em seu caderno, imersa em um outro mundo, o deixava louco de desejo. Ele ardia de vontade de soltar a echarpe preta de seu pescoço e beijar a pele branca por baixo.
Tentou passar-lhe um bilhete, pedindo para que ela se encontrasse com ele depois da aula. Quando ela derrubou da carteira o papelzinho intocado, ele tentou passar outro, sem se dar ao trabalho de dobrar o papel daquela vez, deixando a mensagem exposta para qualquer um ver. Por favor, fale comigo.
Mas Lilith recusou-se a ler.
Um garoto chamado Ryan Bang terminou de ler sua sextina experimental, e o Sr. Davidson se pôs a bater palmas.
— Ah! Esse é o tipo de poema que a New Yorker quer publicar! — exclamou o professor, com entusiasmo.
Cam mal prestava atenção, no entanto. Queria ser capaz de negar o boato espalhado por Luc, mas não dava para mentir para Lilith. O problema era que ele não sabia como contar a verdade.
Na frente da sala, o Sr. Davidson verificava suas anotações.
— Cameron, você é o próximo.
— O próximo a fazer o quê? — perguntou Cam, tentando retomar o foco.
— O dever de casa, lembra-se? Escolher um poema que expressa claramente um tema? Terra chamando Cameron. — O Sr. Davidson deve ter percebido o olhar vazio de Cam. — Imagino que você deve ter escolhido alguma coisa sobre a morte, como sempre? Venha ficar na frente da classe e declame seu tema.
Cam não tinha nada preparado, mas estava naquele mundo havia tempo suficiente para ter conhecido alguns dos poetas mais brilhantes do mundo, e, naquele momento, um deles lhe saltou facilmente à lembrança.
Fez questão de passar por Lilith enquanto seguia até a frente da classe. Queria roçar a mão na dela ao passar, mas ela odiaria. Então simplesmente tamborilou os dedos sobre sua carteira, na esperança de obter sua atenção.
Funcionou. Ela olhou para cima quando ele parou diante da classe e anunciou:
— Meu tema é o amor.
A classe soltou um gemido de tédio, mas ele não deu a mínima. Quando Cam se apaixonara por Lilith em Canaã, Salomão ainda não era rei dos israelitas. Era um rapaz de 18 anos que havia se apaixonado por uma garota de uma aldeia vizinha. Certa noite, Cam e Salomão se encontraram numa tenda beduína; ambos seguiam viagem para direções diferentes. Compartilharam apenas uma refeição juntos, mas Salomão recitou a Cam as palavras encantadoras do que mais tarde se tornaria conhecido como o Cântico dos Cânticos. Agora, Cam olhava para Lilith e começava a recitar o poema de cor.
Quando chegou a sua parte favorita, ele abandonou o inglês e passou a declamar o poema em sua língua original, o antigo hebraico.
— “Levanta-te, amada minha, formosa minha, e vem” — disse ele.
Em sua carteira, Lilith deixou cair a caneta no chão. Olhou para ele, boquiaberta, o rosto pálido como o de um fantasma. Ele desejou poder saber o que ela estava sentindo. Será que se lembrava de alguma coisa?
Quando Cam chegou ao final do poema, o sinal tocou. A sala de aula virou um caos, com alunos saltando das carteiras.
— Você viu aquilo? — Uma menina com bochechas rosadas e uma enorme mochila vermelha deu uma risadinha para a amiga enquanto saía da sala. — O cara começou a falar blá-blá-blá quando se esqueceu do restante do poema.
A amiga soltou um muxoxo.
— Ele parece velho o suficiente para ter Alzheimer!
— Bom trabalho — disse o Sr. Davidson. — Esse é um dos meus poemas preferidos. E você sabe hebraico!
— Sim, obrigado — disse Cam, saindo da sala e correndo atrás de Lilith. Ele a avistou ao final do corredor, conversando com Jean e Luis. Os três observavam um cartaz colado na porta de uma sala de aula.
— Lilith! Jean! Luis! Esperem — gritou ele, mas, quando conseguiu abrir caminho pelo meio da multidão de alunos até chegar ao final do corredor, Lilith e os rapazes já tinham virado uma esquina e sumido.
Cam suspirou. Não conseguiu aproveitar aquele intervalo. E agora talvez demorasse o dia inteiro até conseguir vê-la novamente.
Olhou para o cartaz que eles estavam lendo.
PREPARADO PRO ROCK’N’ROLL?
Ele já vira aquilo. Era o cartaz que divulgava a apresentação para o qual ele tentara convidar Lilith em seu primeiro dia naquela escola. A Desprezos Nítidos ia abrir o show de uma banda local chamada Ho Hum. A festa seria naquela noite, num café badalado que ficava a poucos quilômetros dali.
Será que agora Lilith planejava ir? Ela odiava Chloe King. E Cam também, aliás. Mas, na possibilidade remota de Lilith comparecer ao show para verificar o desempenho da rival, Cam decidiu ir.


Naquela noite, enquanto o sol se punha, Roland, Cam e Ariane atravessavam a grama da High Meadow Road agachados, obrigando os carros a se desviar. Cam estava imerso em seus pensamentos. Mal notava os pneus guinchando e as buzinas estridentes.
— Não sei como ficamos na Sword & Cross durante tanto tempo — disse Roland, quando um motorista lhe mostrou o dedo. — Demoro cada vez menos tempo para ser chutado dessas atrozes escolas mortais.
— Sai da estrada! — gritou uma mulher acima da buzina de seu carro.
— Você sabia que quase todas as buzinas dos carros estão ajustadas para Fá sustenido menor? — perguntou Ariane. — É por isso que você sempre deve ouvir músicas em Lá quando está dirigindo numa cidade. Ou cantar uma canção em Lá.
— She’s a kind-hearted woman, she studies evil all the time* — cantarolou Roland.
— Para onde é que estamos indo mesmo? — perguntou Ariane.
— Para um café chamado Alfie’s — disse Cam, distraído. Estava pensando em Lilith. Tinha de fazer as pazes com ela naquela noite para que seu plano desse certo.
— E por quê, mesmo? — Ariane deu uma palmadinha na barriga de Cam. — Cammy tá com fome? Quer um bolinho? Talvez seja melhor você prestar atenção à sua ingestão de carboidratos. Será que existem smokings do seu tamanho? O que me faz lembrar: já convidou Lilith para ir à festa?
— Ainda não — respondeu Cam. — Ainda não. Vou precisar da ajuda de vocês hoje — disse ele a seus amigos, enquanto eles dobravam a esquina e chegavam na frente do café. — Não se esqueçam do plano.
— Sim, certo, o plano secreto! — disse Ariane, parando para retocar o batom. — Adoro segredos. Quase tanto quanto planos. Manda aí, chefe.
Cam entrou no café e segurou a porta aberta para seus amigos passarem. A entrada estava abarrotada de prateleiras de bugigangas e quinquilharias, pequenas árvores de metal, que serviam de cabides para bijuterias, e canecas pintadas com slogans bregas à venda: tudo para abrir espaço para um pequeno palco que tinha sido montado nos fundos do café.
As paredes eram espelhadas. Cam tentou evitar seu reflexo. Não suportava ver sua nova aparência agora. Estava indiscutivelmente feio.
— Vamos, gente, preciso de um mocha — disse Ariane, tomando a mão de Cam e espremendo-os através de um espaço estreito entre duas estantes para que pudessem se juntar à plateia.
Provavelmente havia umas cem pessoas ali, a maioria delas gente que Cam reconhecia da Trumbull. Era a galera popular e algumas pessoas do segundo escalão; e a maioria virou a cabeça quando os anjos caídos entraram. Cam e Roland eram os únicos caras que não estavam de bermuda cáqui e camisa polo. Ariane era a única garota diferente das outras. Cam observou uma dúzia de caras do ensino médio medirem-na de cima a baixo.
— Nossa, rapazes — disse ela. — Deixem minha calcinha em paz, valeu? — Então se inclinou para perto de Cam e sussurrou: — Como se eu estivesse usando uma!
Roland saiu para pegar bebidas enquanto Cam e Ariane escolhiam cadeiras a uma das mesas altas perto da janela.
— Que horror — disse Ariane, olhando em volta para o grupo esnobe de estudantes. — Não acredito que você ficou sofrendo aqui por duas semanas. E tudo isso por Lilith. É quase como se gostasse dela ou algo assim.
— Ou algo assim. — Então Cam a viu. — Ali. — Ele apontou o outro lado do salão.
Lilith estava sentada na terceira fila, com Jean Rah, a namorada dele, Kimi, e Luis. Karen Walker se juntou ao grupo depois que terminou de afinar a guitarra de Chloe. Lilith estava toda arrumada. Usava batom brilhante, e seu vestido de veludo curto era negro carvão, destacando o cabelo ruivo como fogo num contraste arrebatador.
— Acho que estou começando a entender sua dedicação — disse Ariane, e assobiou. — A menina é gata.
Cam concordava, é claro, Lilith estava linda, mas não parecia radiante como estivera no boliche. Aquele foi o dia em que Cam sentira-se mais próximo a ela, pouco antes de Lúcifer espalhar a história do suicídio. Aquela noite a tristeza amolecia Lilith, e Cam sabia que era por causa dele.
— Qual é o assunto da conversa? — perguntou Roland, pousando xícaras de café na frente de Cam e Ariane.
— Alerta Gata — disse Ariane, e acenou com a cabeça na direção de Lilith.
— Ela ainda manda bem, mesmo depois de tantos anos. — Roland virou-se para Cam. — Qual é a estratégia, cara?
— Não tenho nenhuma ainda — confessou Cam, observando Luis contar uma piada para Lilith, uma que ele ficou morrendo de vontade de ouvir. — Estou esperando que me ocorra algo.
— Basicamente — disse Ariane, e tomou um gole do café — o cara está ferrado.
Então o público começou a aplaudir, e Cam observou enquanto Chloe King e sua banda subiam ao palco. Elas usavam saias curtas de couro preto, tops de espartilho e brincos de argola imensos. Toda a banda usava batom prateado, mas Chloe era a única que ficava bem com ele.
— E aí, galera! — disse Chloe, pegando a guitarra enquanto as outras meninas empunhavam seus instrumentos. — Nós somos a Desprezos Nítidos, mas vocês já sabem disso.
— Manda ver, Chloe! — gritou um cara.
— Então me mostre o quanto você quer — falou Chloe.
A plateia foi à loucura.
Chloe sorriu.
— Isso é uma prévia especial da música que vamos tocar no baile — disse ela ao microfone, e piscou para o público. — Só a galera legal vai poder cantar com a gente amanhã à noite.
Cam observou Chloe correr os olhos pela plateia até seu olhar cair sobre Lilith. Ele se preparou para atacar caso Chloe disparasse algum insulto desagradável devido à presença de Lilith ali, mas em seguida, para seu espanto, Chloe assentiu sutilmente para Lilith e sorriu.
— Dois, três, quatro — gritou ela, quando sua banda começou a tocar uma música chamada “Vadia Rica”. Era muito diferente do que Cam estava esperando; não era nada pop, e sim totalmente melancólica, apoiada fortemente numa batida eletrônica, com a guitarra de Chloe berrando o tempo inteiro.
Estava na cara que todas as integrantes da banda de Chloe tinham estudado anos e anos em escolas de música caras. Tocavam razoavelmente bem os instrumentos, as vozes nunca desafinavam, e todas se saíam bem, mas nenhuma delas tinha a crueza cintilante de Lilith. Mesmo sentada na plateia, Lilith fazia aquelas meninas parecerem um tédio.
O rosto de Chloe estava vermelho, e ela, sem fôlego quando tocou a nota final. Lilith foi a primeira a se levantar da cadeira e aplaudir, gritando urras.
Cam presumira que Lilith tinha vindo até ali para medir o que a esperava na competição, mas obviamente estava acontecendo algo muito mais profundo que isso. Ele odiava estar tão distante dela, a ponto de não conseguir nem sequer adivinhar o que poderia estar passando pela sua cabeça. Ouviu sentado mais três músicas de Chloe antes de o show de abertura terminar e a banda sair do palco.
— E aí, já podemos dar o fora? — gemeu Ariane.
Roland ergueu uma sobrancelha.
— Cam.
— Me dê um minuto — pediu Cam. Enquanto as pessoas da plateia pegavam mais um café ou se dirigiam ao banheiro, ele foi até Lilith. Ela se dirigia ao balcão. Ele parou bem na frente dela e tocou seu ombro.
— Oi, Lilith.
Ela virou-se imediatamente. A visão de Cam pareceu drenar toda a sua energia.
— Por que você está aqui?
— Eu queria te ver. — Cam olhou para os lábios dela. Os dois nunca deviam ter passado tanto tempo sem se beijar. — O que posso fazer para acertar as coisas?
— Você apostou com Luc que poderia fazer eu me apaixonar por você?
Cam ficou boquiaberto. Esfregou o queixo. Como ela sabia disso? Aquela não era uma conversa para se ter em público.
— Podemos sair um minuto? — perguntou ele.
— É daí que vem seu interesse pela banda, e por mim em geral? — Ela fez uma pausa, engoliu em seco. — A aposta, Cam. Você fez uma aposta?
— Não — disse ele. — Sim.
Nesse instante a garota que anotava os pedidos de cafés se inclinou sobre o balcão e levantou a voz.
— Próximo? Ei, ruiva. Vai querer alguma coisa ou não?
Lilith saiu da fila.
— Acabei de perder meu apetite.
— Lilith, espere — pediu Cam.
— O que está tentando fazer, Cam? Que eu me suicide, como aquela garota?
Ele estendeu a mão para tocá-la. Todo mundo olhava para os dois agora.
— Não é o que você pensa.
— Estou cansada de ser um brinquedo. — Ela o empurrou para o lado e se dirigiu para a porta.
Um grupo de caras da escola soltou oooohs no encalço da saída de Lilith. Cam fechou os olhos e tentou ignorá-los. Sentiu a presença de Ariane e Roland ao seu lado.
— Ih. Isso não parece nada bom — disse Ariane.
— Você tem pouco tempo, Cam — disse Roland. — Sei que gosta de viver perigosamente, mas você só tem mais um dia. Não vejo como isso pode terminar bem.
A porta do café se abriu, e Luc entrou.
— Olá, meus velhos amigos. — Ele lhes deu um sorriso incrivelmente falso. — Estão conversando sobre meu assunto favorito, o fracasso inevitável de Cam?
Cam não conseguiu se conter. Sem pensar, atirou sua xícara de café na cara do diabo. A tampa de plástico se soltou, e o líquido marrom escaldante espirrou na pele de Luc. Cam ouviu os murmúrios de espanto das pessoas, mas estava mais preocupado com a reação de Lúcifer. Aquilo com certeza tinha sido uma burrice sem tamanho.
O diabo tirou um lenço do bolso e enxugou o rosto. Em seguida, inclinou-se para Cam, o rosto tenso de raiva.
— Eu lhe dei a chance de desistir — disse Luc. — Você devia ter aceitado.
Ele falou com Cam usando a verdadeira voz. O tom era baixo o suficiente para ninguém ao redor ouvir, mas as pessoas certamente devem ter sentido a terra tremer sob seus pés.
— E vocês dois. — O demônio se virou para Ariane e Roland. — Deixei vocês entrarem aqui por um motivo, e um motivo apenas: fazer seu trabalho. Botar algum juízo nesse seu amigo maluco. Ou então me encarar.
— Estamos trabalhando nisso, senhor — disse Roland. — Sabe o quanto Cam pode ser teimoso.
— Esse assunto é entre mim e Lúcifer — disse Cam. — E ainda não acabou.
— Acabou antes mesmo de começar — disse Lúcifer, apontando para a porta por onde Lilith havia saído. — Você conseguiu aumentar ainda mais o ódio que ela já sentia por você antes de chegar aqui. — Ele soltou uma risada baixa. — Sim, definitivamente já era.
O diabo chegou mais perto de Cam, até os dois estarem a poucos centímetros de distância. Cam podia sentir o cheiro da podridão do hálito de Lúcifer, o fedor que emanava de sua pele.
— Quando o dia terminar amanhã — disse Lúcifer —, você vai ser meu. Para sempre.

Nota:
* Verso de “Kind Hearted Woman Blues”, de Robert Johnson. Em tradução livre: “Ela é uma mulher de bom coração, estuda o mal o tempo inteiro.” (N. da T.)

Interlúdio - Sacrifício
ILHA DE LESBOS, GRÉCIA
Aproximadamente 1000 A.E.C.

Cam estava sentado no deque de um barco de madeira ancorado numa pequena marina.
Sem camisa, de tornozelos cruzados, observava a lua baixa. Ao longo das duas últimas horas, tentara tocar a lira que roubara de um vendedor de açafrão no mercado. Certamente, se conseguisse dominar o instrumento de Lilith, conseguiria dominar o buraco que ela deixara em seu peito.
Até então, as coisas não iam bem.
— Cam — ronronou uma voz sedutora. — Deixe esse negócio e venha para cá.
Ele se virou para a jovem de pele morena atrás dele. Deitada, apoiada num cotovelo, as longas pernas dobradas sob o corpo, ela olhava para ele. O cabelo dourado ondulava na brisa.
— Daqui a pouco eu vou — disse Cam.
Desde que abandonara Lilith, Cam se cercara de garotas, esperando em vão que distraíssem seu coração partido.
Depois que fugira de Canaã no dia de seu casamento, procurou Lúcifer nas nuvens. Desde a Queda, Cam tivera pouca conversa com o diabo. A cada século, mais ou menos, Lúcifer propunha um acordo — a fidelidade de Cam em troca de um posto de domínio no mundo das trevas —, mas Cam nunca se interessara.
Daquela vez, porém, quando Cam apareceu na sua frente, Lúcifer sorriu, consciente, e disse:
— Estava mesmo esperando por você.
Agora, uma segunda garota de cabelos dourados interrompia as lembranças de Cam, caminhando da prancha da marina para o barco.
— Achei que fosse mesmo encontrá-lo aqui — gritou ela, de longe.
— O que você está fazendo aqui, Xenia? — inquiriu a primeira garota. Olhou para Cam. — Você a convidou?
— Korinna? — exclamou Xenia. — Por que você está no navio de Cam?
Cam abaixou a lira, contente com aquela distração.
— Pelo jeito, as apresentações estão dispensadas.
Com as mãos nos quadris, as duas garotas olharam feio para ele e, em seguida, se entreolharam. Ele respirou fundo e deu um sorriso forçado.
— Vocês são duas belas mulheres numa bela noite de lua. A menos que prefiram brigar, por que não nos divertimos um pouco?
Ele mergulhou no mar. Quando veio à tona, se pôs a boiar de costas, olhando para o barco. Talvez elas se juntassem a ele. Talvez não.
Ele não dava a mínima.


— Ainda quer continuar? — perguntou o garoto da proa de um barco a remo, feito de cedro, ancorado na orla da marina. Lilith descobrira que seu nome era Luc, mas fora isso, sabia muito pouco a seu respeito.
Ela ouviu mergulhos e risadas perto do barco de Cam. Engoliu em seco, com um nó na garganta.
Viera de muito longe só para encontrá-lo. Não lhe ocorrera que ele já pudesse estar com outra garota, e mais outra. Apesar da dor, contudo, não deixaria Lesbos sem tentar saber mais uma vez o que lhe passava no coração.
Logo Lilith avistou Cam cruzando a marina, caminhando ao longo da praia. Seu cabelo molhado brilhava à luz das estrelas.
— É sua chance — disse Luc. — Aproveite.
Lilith mergulhou no mar e nadou em direção a Cam, o vestido branco ondulando ao redor do corpo enquanto batia as pernas.
Atrás dela, Luc observava tudo de seu barco, com um sorriso.


Perto da meia-noite, Cam subia uma ladeira íngreme, segurando a lira, em busca de distração. Uma voz soou a distância, acompanhada das notas intensas de uma lira. Ele viu um arbusto seco do deserto demarcando a entrada de uma caverna, e rumou até lá.
Dentro da caverna, num espaço estreito entre duas rochas altas, um velho tocava uma música complexa. Sua barba ia até o umbigo, e o cabelo embaraçava-se em mechas imundas. Seus olhos estavam fechados, e uma jarra de vinho jazia a seus pés. Ele parecia não perceber a presença de Cam.
— Você é muito bom — disse Cam, quando a canção do homem terminou. — Me ensinaria a tocar?
O homem abriu os olhos devagar.
— Não.
Cam inclinou a cabeça. Desde que se alinhara a Lúcifer, descobrira uma nova camada de persuasão em sua voz. Estava aprendendo a usá-la em vantagem própria.
— Se você me ensinar, eu o levo até o céu, para voar muito acima das nuvens. Você pode trazer seu vinho e beber entre as estrelas.
O homem arregalou os olhos; estava claramente tentado.
— Comece — disse ele, e dedilhou um acorde.
Cam rapidamente preparou-se para tocar sua lira.
O sujeito jogou o instrumento no chão.
— Pedaço de madeira de merda — disse ele. — Cante.
Despreparado para improvisar, Cam descobriu a música de Lilith, a primeira que ele a ouvira cantar, subindo-lhe aos lábios. Já que ela roubara seu coração, raciocinou, ele roubaria sua canção.

É o amor que incita
Pra onde levo minhas rimas
Minhas rimas, minhas rimas

O homem olhou para Cam, impressionado. A melodia tocada em sua lira complementava a letra de Lilith perfeitamente. Ele ofereceu a jarra de vinho para Cam.
— Vou ensiná-lo, mas você fica comigo. — Ele passou o braço em volta dos ombros de Cam. — Agora me diga — disse, levando Cam em direção à entrada de sua caverna. — Realmente consegue voar?
Cam saiu da caverna para a noite. Estava prestes a libertar suas asas quando uma sombra se moveu por trás do arbusto seco.
Seria Lilith? Estaria ele sonhando?
Ela ainda usava o vestido de casamento. Àquela altura, estava imundo, verde de musgo e pingando de água do mar, colado firmemente ao seu corpo. Seu cabelo, desgrenhado e molhado, descia até o meio das costas, e sua pele parecia pálida e brilhante sob o luar. Ela olhou nos olhos dele, em seguida, para seu peito nu, depois para as mãos, como se pudesse ver o quanto elas ansiavam de vontade de abraçá-la.
Mas Cam e Lilith não se abraçaram. Encararam-se como desconhecidos.
— Olá, Cam — disse ela.
Cam se encolheu.
— O que está fazendo aqui?
Lilith fez uma careta diante da pergunta. Respirou fundo e tentou formar as palavras que tinha vindo de tão longe para dizer. Quando falou, olhou para o céu, para que não tivesse de ver como os olhos dele se turvavam ao vê-la.
— Na noite em que você se foi, sonhei que ensinava uma canção de amor para um bando de rouxinóis, para que eles pudessem encontrá-lo e cantar, pedindo que você voltasse para mim. Agora eu sou o rouxinol, que viajou somente para isso. Eu ainda o amo, Cam. Volte para mim.
— Não.
Ela encarou os olhos dele.
— Você alguma vez me amou, ou era algo passageiro?
— Você me rejeitou.
— O quê?
— Você se recusou a casar comigo!
— Eu me recusei a casar no rio — insistiu Lilith. — Nunca me recusei a casar com você!
Desde que vira Lilith pela última vez, Cam se juntara às fileiras de Lúcifer. Se ele já tinha medo de mostrar seu verdadeiro eu para Lilith antes, agora era impossível fazê-lo. Não. Não havia nenhum passado. Não havia Lilith.
Havia apenas seu futuro, sozinho.
— Você destruiu nosso amor — disse Cam. — Agora só me resta viver de suas ruínas.
Havia um senso de urgência nos olhos de Lilith, o qual Cam não entendia. Ela estava tensa, tremendo.
— Cam, por favor...
As escápulas de Cam ardiam, coçando de vontade de libertar suas asas. Durante semanas ele as escondera de Lilith. Para protegê-la, dissera a si.
Ele não conseguia olhar para ela, ver o quanto ela estava sofrendo. Ele era um demônio. Ele era perigoso para Lilith. Qualquer bondade que ele demonstrasse para com ela serviria apenas para atraí-la ainda mais profundamente para a escuridão.
— Esta é a última vez que me verá — disse ele. — Você jamais vai saber quem eu sou de verdade.
— Eu sei quem você é — gritou ela. — Você é a pessoa que amo.
— Está enganada.
— Você ainda me ama?
— Adeus, Lilith.
— Não! — implorou ela, os soluços sufocando a voz. — Ainda te amo. Se você se for...
— Eu já fui — disse Cam, depois deu as costas e saiu correndo montanha abaixo, até sumir de vista.
Atirou a cabeça para trás e abriu as ofuscantes asas douradas. Viu a luz cintilante que emitiam em torno dele. Ele iria voar até seu coração parar de doer. Voaria para sempre se fosse preciso.
Ele voou depressa, sem olhar para trás nem uma única vez, e, portanto, não chegou a ver Lúcifer sair das sombras e segurar a mão de Lilith.
Lilith olhou para a mão branca e sardenta sobre a dela, respirando com dificuldade.
— Ele se foi — disse ela, com voz embargada. — Deixei tudo para trás. Por nada.
— Venha — disse o diabo. — Cumpri minha parte no trato. Chegou a hora de você cumprir a sua.

6 comentários:

  1. Deu uma dor no coração
    Coitada da Lilith

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  2. Eu não entendo pq ele n falou logo pra ela q era anjo vei... Coitada dela :( eles merecem ficar juntos!!

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  3. O Cam foi muito burro kkkkkk quem que descobre que tá namorando um anjo e para de gostar dele só por isso ? Eu iria era gostar mais dele kkkkk osh

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    1. Kkkkkkk bem, aí depende, né... Se você for pensar, anjos caem por alguma razão...

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  4. Nossa, ele magoou ela demais,foi muito cruel!!

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Boa leitura :)