25 de março de 2017

Capítulo 13 - Meu imortal

LILITH
Cinco Dias

— Posso tirar esta coisa? — perguntou Bruce no sábado, puxando a camiseta que Lilith havia amarrado em sua cabeça, como se fosse uma venda.
— Só pode tirar quando eu mandar — respondeu ela.
Do seu assento no ônibus público de Crossroads, ela apertou o botão amarelo para solicitar a parada no ponto seguinte. Tirando o casal de idosos que dividia um chocolate Twix na frente do ônibus, Lilith e Bruce eram os únicos passageiros.
— Tá coçando — reclamou Bruce. — E fedendo.
— Mas vai valer muito a pena. — Lilith cobriu os olhos do irmão com a mão, porque, se fosse o contrário, com certeza ela estaria tentando espiar. — Agora vem.
O estômago de Lilith deu um nó quando o ônibus passou por uma série de buracos no asfalto. Ela estava nervosa. Queria que aquilo fosse especial, algo do qual Bruce pudesse se lembrar. Mal podia esperar para ver o rosto dele quando revelasse a surpresa.
O ônibus parou, e Lilith conduziu Bruce pelos degraus, depois os dois atravessaram a rua e pararam diante de um estabelecimento. Ela tateou seu bolso para ter certeza de que o dinheiro que a mãe lhe dera continuava ali.
Quando Janet descobrira todas as compras na geladeira alguns dias atrás, obviamente pressionara Lilith para saber de onde tinham vindo. Lilith mentiu — não iria contar toda a história com Cam para a mãe — e alegou que estava dando aulas de violão para um garoto da escola por um dinheirinho. A mãe olhou para Lilith com surpresa genuína e depois fez algo sem precedentes: abraçou a filha. Lilith ficou tão espantada que não se desvencilhou do abraço.
Então, na noite anterior, quando voltou do trabalho, Janet bateu na porta do quarto de Lilith, que estava olhando fixamente para seu armário. Ela fechou a porta depressa, escondendo o estranho vestido branco que pendurara ali. Já o havia provado duas vezes desde que voltara do brechó. O vestido lhe dava fome de alguma coisa que ela não conseguia distinguir. Não era nada rock and roll, mas combinava mais com ela que qualquer outra coisa que já usara. Ela não parava de lembrar o olhar de Cam quando ele se virou para ela no provador.
— Oi, mãe — cumprimentou Lilith casualmente, abrindo a porta do quarto.
Sua mãe lhe entregou uma nota de vinte dólares.
— O que é isso?
— Acho que chamam por aí de mesada — respondeu a mãe, com um sorriso. — Sobrou um dinheiro a mais esta semana, já que você cuidou das compras. — Ela fez uma pausa. — Foi muito generoso de sua parte, Lilith.
— Obrigada, mas não foi nada de mais — disse ela.
— Para mim, foi. — A mãe indicou o dinheiro na mão da filha. — Saia para um passeio. Leve Bruce também.
E foi o que ela fez.
— Onde estamos? — reclamou Bruce, coçando a testa onde a camiseta estava presa com mais força.
Lilith segurou a mão do irmão e empurrou as portas com filme escuro do Lanes, o único boliche da cidade. Foi atingida pelo ar-condicionado, pelo cheiro de pizza barata cheia de orégano e de queijo nacho, pelas luzes intensas acima das pistas e pelos gritinhos agudos de uma centena de jovens.
E, por cima disso tudo, o som de uma bola de boliche derrubando dez pinos.
— Striiiike! — berrou Bruce, ainda vendado, erguendo os punhos para o alto.
Lilith tirou a venda.
— Como você adivinhou?
O irmão arregalou os olhos. Deu um passo cambaleante, depois parou, apoiando os cotovelos numa máquina de polir bolas.
— Não adivinhei — disse ele por fim. — Só estava fingindo.
Então ela ficou sem ar quando Bruce a abraçou com toda a força.
— Sempre quis vir aqui, toda a minha vida! — gritou ele. — Implorei todos os dias para mamãe me trazer aqui! E ela sempre dizia que...
— Eu sei — falou Lilith.
— “Se um dia você melhorar, eu levo, filho” — disseram Bruce e Lilith em coro, imitando a voz cansada da mãe.
Desde a última internação de Bruce, a mãe tivera alguns momentos de bom humor, e até mesmo de bondade, como na noite anterior. Esta manhã, porém, quando Lilith a convidara para ir com eles ao boliche, ela perguntou com grosseria se Lilith tinha se esquecido de que ela iria trabalhar um turno na escola noturna.
— E agora que eu melhorei, estamos aqui! — disse Bruce, rindo, como se ainda não conseguisse acreditar. — Obrigado!
— Foi um prazer. Na verdade, o prazer é da mamãe — respondeu Lilith, mostrando o dinheiro para Bruce.
— Que demais!
Lilith piscou para afastar lágrimas de felicidade enquanto olhava seu irmão absorvendo tudo o que estava acontecendo. Ele admirava, maravilhado, uma garota da sua idade segurando uma pesada bola cintilante de boliche, e as crianças comendo pizza, esperando pela vez de jogar. Era muito raro para ele ter a oportunidade de ser um garoto normal.
Ela olhou em torno e ficou surpresa ao avistar Karen Walker, da aula de biologia, jogando numa pista do outro lado do salão. Estava com algumas garotas que Lilith reconhecia da escola, e todas parabenizaram quando Karen marcou um strike.
Karen era tímida, mas jamais fora grosseira com Lilith e iria para o baile de formatura com Luis, o que lhe rendia vários pontinhos com Lilith. Além disso, ela devia ter certo interesse em música, pois concordara em ser a roadie de Chloe King. Lilith nunca pensara que um dia pudesse ser amiga de Karen, mas agora parecia bobagem não cumprimentá-la.
— Vou pegar sapatos para nós — avisou ela.
— Não quero jogar boliche — disse Bruce, balançando a cabeça.
Lilith olhou para ele, espantada.
— Não?
— Dã. — Os olhos dele se iluminaram quando ele apontou para um ambiente fechado e escuro, logo atrás das máquinas de venda de salgadinhos e refrigerantes. Luzes vermelhas, amarelas e verdes piscaram acima da entrada. — Quero jogar fliperama.
Lilith sorriu. Olhou mais uma vez na direção da pista de Karen Walker, mas aquele dia era de Bruce. Ela poderia tentar falar com Karen amanhã.
— Vá na frente — disse ao irmão.
Ela seguiu Bruce até a sala de fliperama e ficou surpresa ao perceber o quanto era aconchegante. Não havia janelas ou luzes intensas. Ninguém encarava as pessoas. Todos ali estavam livres para focar em suas fantasias, fossem elas banhadas em sangue ou marcadas por bandeiradas xadrezes.
Bruce examinou cada um dos jogos e passou um longo tempo diante de um demônio verde assustador, pintado na lateral de um jogo chamado Deathspike. Logo eles estavam diante de uma mesa de air hockey. Bruce apanhou um dos tacos fosforescentes e o brandiu, fazendo sons de espada.
— Vem! — disse para Lilith, deslizando o outro taco para ela. — Vamos jogar.
Ela enfiou moedas de 25 centavos na abertura sob a mesa do jogo. Bruce deu um gritinho quando o ar frio escapou dos buraquinhos.
— Preparada para ser destruída e servida num prato?
— Vou fingir que você não me perguntou isso — respondeu Lilith, apanhando o outro taco e assumindo uma posição atrás do gol. Bruce estava tão animado; e Lilith se deu conta de que aquela animação era contagiosa.
— Não estou mais doente, então nada dessa baboseira de “vou-deixar-Bruce-vencer”, falou?
— Ah! Foi você que pediu! — retrucou Lilith.
Nenhum dos dois tinha jogado air hockey antes, mas parecia haver dois métodos para empurrar o disco de hóquei: reto ou meio inclinado. Se você o acertasse de lado, seu adversário era obrigado a se agitar e a se inclinar como um louco. Se batesse reto, poderia humilhá-lo quando o disco entrasse com tudo no gol.
Bruce preferia as jogadas inclinadas. Tentou três vezes marcar dessa maneira, depois passou a usar táticas mais elaboradas. Manteve o disco no canto por um tempo desconfortavelmente longo, depois apontou para cima do ombro dela e gritou:
— Ei, o que tem ali? — E então atirou o disco.
— Boa tentativa — disse Lilith, com uma jogada reta que entrou direto no gol do irmão.
Ela dominou a primeira metade do jogo, mas Bruce não se abalou em nenhum momento. Parecia estar se divertindo como nunca.
Quando o placar empatou em cinco a cinco, a música Bye bye love, dos Everly Brothers, começou a emanar das caixas de som. Lilith se pôs a acompanhar, sem perceber o que estava fazendo, até Bruce começar a cantar com ela. Os dois não faziam isso há anos. Seu irmão tinha uma voz sensacional, que mantinha o tom mesmo quando ele arremessava o disco de hóquei com toda a força.
Então, da escuridão atrás de Lilith, uma terceira voz começou a harmonizar com as deles. Ela se virou, viu Cam encostado no jogo Ms. Pac-Man, observando os dois, e deixou passar um gol importante.
— U-huuu! — gritou Bruce, comemorando. — Valeu, Cam!
— O que você está fazendo aqui? — perguntou Lilith.
— Não parem de jogar nem de cantar por minha causa — retrucou Cam, que usava um gorro preto e óculos escuros, a jaqueta de couro fechada até em cima. — As vozes de vocês dois combinam mais que queijo com goiabada.
— O que isso quer dizer? — perguntou Bruce.
— Que vocês combinam muito — disse Cam. — Não há música mais bela que a harmonia de dois irmãos.
— Você tem irmãos? — perguntou Lilith. Ele nunca havia falado da família ou do passado. Ela pensou na ida à Dobbs Street e na barraca verde de onde vira Cam saindo. Será que ele morava mesmo ali? Será que morava com alguma outra pessoa? Quanto mais convivia com Cam, mais estranho parecia saber tão pouco a respeito dele.
— A pergunta mais importante é: você quer tentar vencer? — perguntou Bruce, aproveitando-se da distração de Lilith para fazer o último gol.
— Sabia que nunca tive essa honra? — respondeu Cam. E sorriu para Lilith.
Ela entregou o rebatedor a ele.
— Vá em frente.
Cam tirou os óculos escuros e os deixou ao lado do seu celular, numa mesinha. Apanhou o rebatedor da mão de Lilith, e, daquela vez, quando os dedos dos dois se roçaram, foi Lilith quem ficou imóvel para que aquele toque durasse um pouco mais. Cam percebeu — ela notou pelo jeito como ele sorriu para ela ao se colocar em posição de jogo, e pelo jeito como ele não tirou os olhos dela, mesmo estando prestes a começar. Lilith corou ao inserir mais algumas moedas para dar início à partida.
Bruce arrasou Cam na primeira jogada. Cam tentou uma jogada inclinada, mas o disco ficou preso no escanteio de Bruce, que, depois de apanhá-lo, o arremeteu com tudo no gol de Cam.
— U-huuu! — gritou Bruce.
— Objetos terrestres não deveriam se movimentar em velocidades como essa — disse Cam.
Encantada com a seriedade com que ele brincava com seu irmão, Lilith puxou uma banqueta preta de baixo da mesinha e sentou-se.
Cam se movimentava com graça, brandindo o rebatedor daqui e dali. Mas não usava da velocidade necessária — quer porque estivesse deixando o irmão de Lilith vencer de propósito, ou porque realmente era mais lento. Bruce parecia estar ficando melhor a cada gol que marcava.
Era bom ver isso, os dois se dando tão bem. Desde que o pai os abandonara, Bruce não tinha muitos homens como exemplo, mas tinha gostado de Cam logo de cara. Lilith sabia o motivo. Cam era engraçado, imprevisível. Era empolgante estar ao lado dele.
Um clarão chamou a atenção de Lilith, e ela olhou para o telefone de Cam. Uma breve espiada a informou de que ele tinha acabado de receber um e-mail. Olhou com mais afinco e de modo nada inocente, então soube o assunto: “Blues de outro alguém”, de Lilith Foscor.
— Como você conseguiu marcar mais um gol? Eu nem vi o disco! — berrou Cam para Bruce.
Os dedos de Lilith se aproximaram do telefone para acender a tela mais uma vez. Agora ela via o nome de quem enviara: Ike Ligon.
— Mas o que...? — perguntou ela, num sussurro.
Não sentiu orgulho do que fez em seguida.
Olhou novamente para as costas de Cam enquanto ele aparava uma jogada de Bruce. Então seu dedo deslizou pela tela para abrir o e-mail.

Cara Lilith,
Li sua letra. Percebi logo de cara que você foi mordida pelo bicho da composição musical. Você tem talento. Talento de verdade. Sei que a King Media planeja anunciar o vencedor da competição, mas queria já entrar em contato. Você venceu, garota. Arrasou.
Parabéns. Mal posso esperar pra te conhecer e apertar sua mão.

Lilith apagou a tela do telefone.
Ike Ligon tinha gostado de sua música?
Ela contorceu o rosto. Não parecia possível. De todas as pessoas da escola, ela tinha vencido?
Embora tivesse superado a raiva que sentira de Cam por ele ter inscrito sua letra na competição, Lilith não esperava vencer. Achava que quem ganharia seria Chloe King, porque Chloe King sempre vencia tudo e era assim que o mundo funcionava. Então qual era a daquele e-mail?
Devia ser uma piada.
Mas daí ela parou para pensar. Que primeiro instinto deprimente. E se não fosse piada? Por que ela não podia ser feliz como as outras meninas da escola? Por que não podia aceitar que Ike Ligon tinha gostado de sua música, que ele achava que ela possuía talento de verdade, em vez de desconfiar que alguém estivesse pregando uma peça? Por que Lilith desconfiava de todas as coisas boas que apareciam em seu caminho?
Uma lágrima caiu na tela do celular de Cam e a trouxe de volta ao fliperama. Lilith virou a cabeça para o outro lado e fitou o carpete incrustado de chiclete.
Bruce veio ficar ao lado dela.
— Tá tudo bem?
Quando ela levantou a cabeça, Cam a observava.
— O que foi? — perguntou ele.
Ela entregou-lhe seu celular.
— Ike Ligon acabou de te enviar um e-mail.
Ele coçou o queixo. Era um assunto delicado, o de Cam haver inscrito a letra dela, e Lilith percebeu que ele ainda se sentia culpado.
Ela engoliu em seco.
— Ele gostou da música.
— Nunca houve dúvida de que ele gostaria — disse Cam.
— Eu venci. — Ela não sabia mais o que dizer. Antes de Cam, a música fora uma fuga; a paixão, um devaneio; o amor, uma impossibilidade. Desde a chegada dele, estas três coisas pareciam conectadas, como se ela tivesse de usá-las para se transformar numa pessoa diferente. Isso a amedrontava.
Cam atirou uma moeda de 25 centavos para Bruce e apontou para o jogo de fliperama do outro lado da mesa de air hockey. Depois que o garoto saiu, Cam aproximou-se de Lilith.
— Isso é superimportante.
— Eu sei — disse Lilith. — A Batalha de Bandas...
— Maior que a Batalha de Bandas.
— Por favor, não diga que é mais importante que o baile de formatura — disse ela, brincando um pouco.
— Claro que não. Nada é mais importante que o baile de formatura. — Cam riu, mas depois seu rosto ficou sério. — Você pode ter tudo o que quiser na vida. Você sabe disso, não sabe?
Lilith piscou. O que ele queria dizer? Ela era pobre, nada popular. Sim, tinha feito alguns amigos recentemente, e sim, tinha sua música, mas, em geral, sua vida continuava sendo uma bosta.
— Não exatamente — retrucou.
Cam se inclinou para ela.
— Você só precisa desejar com a força necessária.
O coração de Lilith batia acelerado. A temperatura do fliperama parecia atingir mil graus de repente.
— Eu não sei o quê.
Cam pensou por um instante.
— Aventura. Liberdade. — Respirou fundo. — Amor.
— Amor? — perguntou ela.
— É, amor. — Ele sorriu de novo. — É possível, sabia?
— Talvez lá de onde você vem.
— Ou talvez... — Cam deu um tapinha no próprio peito. — Aqui dentro.
Os dois estavam tão próximos agora que seus rostos praticamente se tocavam. Tão próximos que as pontas de seus narizes quase se uniam, que seus lábios quase...
— Do que vocês estão falando? — perguntou Bruce, sem tirar os olhos do jogo de fliperama enquanto disparava mais cem tiros num exército de monstros.
Lilith pigarreou e afastou-se de Cam, constrangida.
— Da Batalha de Bandas — disseram ela e Cam ao mesmo tempo.
Cam segurou a mão de Lilith, e depois a de Bruce.
— Vamos comemorar.
Ele os levou até a lanchonete, no salão principal do boliche. Levantou Bruce e o colocou sentado numa banqueta de couro artificial vermelho, daí chamou uma garçonete com volumoso cabelo loiro.
— Traga uma jarra de seu melhor refrigerante root beer — disse Cam. Era o preferido de Lilith. Será que ela havia lhe contado isso? — E um balde gigantesco de pipoca com manteiga extra para este carinha aqui. — Ele apontou para Bruce com o polegar, e o garoto começou a agitar os punhos no ar.
Cam apanhou o celular e começou a digitar depressa.
— O que você está fazendo? — perguntou Lilith.
— Dando a boa notícia para Luis e Jean. — Segundos depois ele mostrou a mensagem que havia acabado de receber de Jean. Era formada só por emojis: fogos de artifício, buquês de flores, guitarras, claves de sol e, inexplicavelmente, uma espada de samurai.
Lilith sorriu; seu amigo estava verdadeiramente feliz por ela.
— Quem diria? — disse uma voz familiar atrás deles.
Lilith se virou e viu Luis com os magrelos braços abertos, esperando um abraço. Lilith desceu da banqueta e o apertou com força.
— Ei, não vá deixar minha gata com ciúmes — disse Luis, afastando-se para o lado para permitir que Karen Walker e duas amigas entrassem no círculo.
— Luis acabou de nos dar a boa notícia, Lilith — disse Karen, com um sorriso.
— Que sorte ter vindo encontrar Karen e poder comemorar com você — disse Luis.
— É isso o que estamos fazendo? — Lilith riu, corando.
— É claro! — exclamou Luis.
— Você merece — acrescentou uma das amigas de Karen. Lilith nem sequer sabia o nome dela, mas a reconhecia do sarau do Sr. Davidson. Antes, ela teria presumido que a menina a odiava, da mesma forma como imaginava que o restante da escola o fazia. — Sua música é ótima.
— Obrigada — disse Lilith, sob o peso esmagador da felicidade. — Vocês querem um pouco de pipoca?
Cam já tinha servido refrigerante para todos. Ele levantou seu copo e sorriu para Lilith.
— A Lilith — disse. — E ao “Blues de um outro alguém”.
— Vou brindar a isso! — disse Bruce, e bebeu todo seu refrigerante.
Enquanto Lilith bebia o dela, cercada pelos amigos repentinos, seu irmão e Cam, ela também pensava na letra de sua canção. Tinha sido escrita num humor triste e solitário. A letra brotara como uma espécie de expurgo, a única terapia que ela podia bancar. Nunca sonhara que aquelas palavras tristes pudessem trazer algo tão feliz como aquilo.
E aquilo nunca teria acontecido se Cam não tivesse acreditado nela. Aquele momento foi a prova de que Lilith devia acreditar em si.
Pode ser que Cam tivesse sido um pouco ousado demais. Que a irritasse... com frequência. Pode ser que tivesse feito algumas coisas que não devia, mas quem nunca? Ele era diferente de qualquer pessoa que ela já conhecera. Ele a surpreendia. Ele a fazia rir. Gostava do seu irmão. Quando ele estava ao seu lado, ela sentia um frio no estômago — de um jeito bom. E agora ele estava ao lado dela, comemorando. E tudo isso junto deixava Lilith tonta. Ela segurou a banqueta para se equilibrar e percebeu:
Era aquela a sensação de se apaixonar por alguém. Lilith estava se apaixonando por Cam.

Interlúdio - Estranho
TRIBO DE DÃ, NORTE DE CANAÃ
Aproximadamente 1000 A.E.C.

O sol não mais se levantou para Lilith. O luar não mais invadia seus sonhos. Ela vagava pelos dias, ainda trajando o vestido de noiva bordado — agora sujo de terra e suor —, atraindo olhares nervosos dos outros integrantes da tribo.
Sem Cam, seu mundo não tinha sentido.
À luz cinzenta e difusa da aurora, Lilith vagava perto do rio quando a mão de alguém tocou seu ombro. Era Dani. Ela não o via desde o dia em que Cam partira, e doía vê-lo agora, pois ele fazia parte do mundo que ela associava à paixão. Dani não pertencia àquele atual vazio.
— É como me olhar num espelho — disse ele, os olhos cinzentos cheios de preocupação. — Não sabia que poderia doer da mesma maneira para outra pessoa.
Lilith sempre gostara de Dani, mas às vezes ele era vaidoso demais.
— Disseram que você tinha voltado para sua tribo — comentou ela.
Ele assentiu.
— Só estou de passagem.
— Vindo de onde? Você...
Dani franziu a testa.
— Não sei onde ele está, Lilith.
Ela fechou os olhos, incapaz de fingir que não era disso que falava.
— Gostaria de lhe dizer que vai ficar mais fácil — prosseguiu Dani. — Mas quando se ama alguém de verdade, não sei se isso acontece.
Lilith olhou para o rapaz loiro à sua frente, notando a dor em seus olhos. Liat se fora apenas um mês antes de Cam, mas Dani falava como se eles estivessem separados há séculos.
— Adeus, Dani — disse ela. — Eu lhe desejo dias mais felizes.
— Adeus, Lilith.
Ainda com seu vestido, ela mergulhou no rio. A baixa temperatura das águas a lembrou de que ainda continuava viva. Levantou-se, depois boiou de costas e observou dois pardais atravessando o céu.
Sem que se desse conta, a corrente a transportou para uma curva do rio, e Lilith se viu diante de um banco de flores familiar.
Foi ali que ela e Cam se deram as mãos pela primeira vez, foi ali que ela sentiu seu toque pela primeira vez.
Subiu no banco e saiu do rio, torcendo a água dos cabelos e sentindo o vestido encharcado pesar seus passos. Os galhos da alfarrobeira esticavam-se para ela, tão familiares quanto um antigo amante.
Ali fora seu lugar preferido antes de ser o lugar preferido dela e de Cam. Ela pressionou as mãos na casca áspera da árvore e tateou, em busca do recesso onde escondera sua lira. Ainda estava ali. Onde ela a havia deixado.
Ouviu o som de um trovão, e o céu começou a ficar ameaçador. Uma chuva fria e forte se pôs a cair. Ela fechou os olhos e deixou a dor do abandono inflar dentro de si.
— Leva meu amor contigo quando te fores.
Lilith abriu os olhos, espantada com a maneira como a música lhe ocorrera, como se tivesse nascido da chuva.
A canção era crua e atormentada, assim como ela. Cantou a letra em voz alta, modificando algumas notas da melodia. Ouviu aplausos lá de cima. Levantou-se de supetão e viu um rapaz mais ou menos de sua idade sentado num galho.
— Você me assustou — disse ela, levando a mão ao peito.
— Perdão — retrucou o rapaz. Tinha rosto quadrado, cabelo acobreado ondulado e olhos castanhos. Usava um manto de pele de camelo, como a maioria dos homens da tribo de Lilith, mas por baixo ela vislumbrava calças estranhas, ásperas e azuis, ajustadas na altura do tornozelo, e sapatos branquíssimos amarrados de um jeito intrincado por cordas finas e brancas. Provavelmente ele vinha de alguma vila muito distante.
Ele içou-se até um galho mais baixo, observando-a. A chuva fazia seu cabelo brilhar.
— Você escreve músicas? — perguntou ele.
Escondido atrás da lira de Lilith estava o livro de pergaminho que seu pai lhe dera como um presente da colheita. O livro continha todas as canções da garota.
— Eu escrevia, mas não escrevo mais — respondeu Lilith.
— Ah. — O rapaz saltou do galho. — Você está sofrendo.
Lilith não sabia como esse garoto parecia saber o que ela estava sentindo.
— Vejo em seus olhos — continuou ele. — Todos os grandes compositores têm uma coisa em comum: a tristeza. É daí que vem sua inspiração. — Ele inclinou o corpo para a frente. — Talvez um dia você venha a agradecer a Cam pela inspiração.
A pulsação de Lilith acelerou.
— O que sabe sobre Cam?
O rapaz sorriu.
— Sei que você ainda sente falta dele. Estou certo?
A distância, Lilith via as luzes de sua serena vila. Ouvia as vozes das irmãs.
— Acho que minha mágoa é profunda demais — comentou ela. — Espero que não se aprofunde ainda mais, pois não desejaria um sofrimento assim para ninguém.
Lilith fechou os olhos e pensou em Cam. Ele tinha sido tudo para ela. Agora tudo acabara.
— Você merece uma explicação — disse o rapaz, como se pudesse ler sua mente.
— Sim. — Lilith se viu dizendo.
— Você quer vê-lo.
— Mais que qualquer coisa.
— Você quer convencê-lo de que ele foi um idiota, de que cometeu o maior erro do universo, de que jamais vai encontrar um amor como o seu novamente? — Os olhos castanho-claros cintilaram. — Sei onde ele está.
Ela ficou imóvel, ansiosa.
— Onde?
— Posso levá-la até ele, mas antes é preciso avisar: a jornada será longa e perigosa. E tem mais uma coisa. Não vamos retornar.
Ele aguardou um instante até ela entender o significado daquilo. Lilith olhou mais uma vez para a vila e imaginou como seria nunca mais ouvir o farfalhar da colheita dos grãos, o barulho da água do poço, a risada de suas irmãs. Valeria a pena abdicar de tudo para ver Cam mais uma vez?
— Quando podemos partir?
— Posso relatar minha proposta com todas as letras? — perguntou o rapaz.
Lilith ficou confusa.
— Sua proposta?
— Levarei você até Cam. — O rapaz esfregou as mãos. — Se vocês dois se reconciliarem, que fiquem juntos. Mas, se seu verdadeiro amor renegá-la... — Ele deu um passo ameaçador para a frente. — Você ficará comigo.
— Com você?
— Meu mundo bem poderia aproveitar-se de um toque de beleza e inspiração: sua voz, sua poesia, sua alma. — O rapaz enrolou em um dedo a corrente que levava ao pescoço. — Posso lhe mostrar lugares inéditos.
Lilith não estava interessada em ver o mundo. Estava interessada em ver Cam. Queria se reconciliar, reviver o amor dos dois, e então, mais tarde, quando voltasse a fazer sentido, casar-se, constituir família; tal como os dois haviam planejado.
Olhou para o rapaz à sua frente. Ela nem mesmo sabia o nome dele. Algo nele a deixava inquieta. Entretanto, se ele realmente podia levá-la até Cam...
Ela apanhou a lira e o caderno de música no nicho da alfarrobeira. Seria aquela a última vez que guardaria suas coisas em sua árvore preferida, a última vez que olharia para as águas cintilantes daquela curva do rio Jordão? E sua família, e seus amigos?
Se permanecesse ali, contudo, sempre ficaria se perguntando o que poderia ter sido.
Fechou os olhos e disse:
— Estou pronta.
O rapaz segurou sua mão e disse em voz baixa:
— Agora fechamos o que mais tarde será conhecido como um “pacto”.

4 comentários:

  1. Não acredito! Ele fez um pacto com ela tb... tô chocada

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  2. Não acredito! Ele fez um pacto com ela tb... tô chocada

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  3. Naum acredito!
    Poxa ele faz pacto com todo mundo se é loko

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  4. Por isso ela foi pro inferno 😥 a culpa não foi exatamente do Cam , ela fez o pacto por causa dele , mas foi uma escolha dela e não dele 😥

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