25 de março de 2017

Capítulo 12 - Enfeitiçado

CAM
Seis Dias

Cam acordou numa barraca verde na Dobbs Street, as costas doloridas e um cachorro vira-lata aos seus pés. Havia dormido ali duas vezes desde que chegara a Crossroads. Era menos solitário que o teto do ginásio da Trumbull.
Ele afastou o cachorro e espiou a aurora rosa-claro pela abertura da tenda. O dia começava cedo ali. Todo mundo sentia fome, cansaço depois de uma noite difícil. O restaurante comunitário abria às 7h, e Cam tinha se oferecido para trabalhar como voluntário no turno da manhã, antes de ir para a escola.
Caminhou pela rua, passando por famílias que se preparavam para o dia, fechando o zíper de suas barracas, espreguiçando-se, ninando bebês inquietos. Ele abriu a porta de vidro do prédio de escritórios abandonado que agora fazia as vezes de restaurante comunitário.
— Bom dia. — Um homem esquelético mais velho, chamado Jax, cumprimentou Cam. — Pode começar por aqui. — Ele indicou a bancada amassada de aço onde havia uma caixa gigantesca de massa pronta para panquecas ao lado de uma tigela.
Não houve muito papo... o que para Cam estava ótimo. Ele acrescentou leite e ovos à mistura e começou a preparar as panquecas, sabendo que os filhos dos Ballard, que adoravam ouvi-lo tocar, estariam entre os primeiros da fila. Meio cachorro-quente e algumas mordidas num sanduíche não era um jantar decente para uma criança em fase de crescimento. Em pouco tempo, Cam passara a se importar com as famílias que moravam na Dobbs Street. Era viciado em vidas mortais; não apenas na de Lilith. Os seres humanos o fascinavam: todas aquelas pequenas chamas, eternamente se acendendo e se apagando.
— Tudo beleza por aí, Cam? — perguntou Jax do fogão industrial, onde grelhava fatias de apresuntado. — Você não parece muito bem.
Cam pousou a tigela de massa de panqueca e foi até a janela coberta com filme escuro para olhar o próprio reflexo. Os olhos verdes estavam fundos atrás de olheiras arroxeadas e escuras. Desde quando ele tinha papada? Agora até mesmo suas mãos pareciam anciãs, manchadas e enrugadas.
— Está tudo bem — disse ele, mas a voz falhou. Ele parecia, e se sentia, péssimo.
— Tome um bom café da manhã antes de ir para a escola — disse Jax, com simpatia, dando uma palmadinha nas costas de Cam, como se um prato de panquecas pudesse fazer todos os problemas que o diabo vinha armando para ele simplesmente desaparecerem.


— Cam...
Lilith foi encontrá-lo na frente do armário dele, antes da primeira aula. Ele voara de Dobbs Street para a escola a fim de conseguir tomar uma chuveirada antes de o vestiário ficar lotado de alunos do time de corrida. Imaginava que um banho faria com que sua aparência melhorasse um pouco, mas, ao se vestir, o espelho do vestiário foi tão inclemente quanto a janela da cozinha do restaurante comunitário.
Até seus pés estavam mudando agora, ficando enegrecidos e rígidos, como os pés dos condenados à danação. Já não cabiam mais dentro de suas botas. Ele foi obrigado a roubar um par de uma loja de motociclismo no centro da cidade.
— Oi. — Cam ficou encarando o rosto lindo de Lilith, sem conseguir se conter.
— Como vai? — perguntou ela, com doçura.
— Já estive melhor. — Não era o tipo de coisa que desejava admitir, mas a verdade escapou de sua boca antes que pudesse censurá-la.
Gente passava por eles pelo corredor. O assunto era um só: a formatura. Alguém chutou uma bola de futebol na cabeça de Cam, que se desviou bem a tempo.
— Posso fazer alguma coisa para ajudar? — perguntou Lilith, encostando-se no armário dele e sorrindo de leve. Usava uma camiseta dos Quatro Cavaleiros amarrada num nó na altura da cintura delgada, o cabelo ainda úmido do banho, cheirando a frésias. Ele se aproximou, sem conseguir resistir.
Lembre-se de mim, sentiu vontade de dizer, porque, se ela conseguisse se lembrar de Cam como ele era quando se apaixonaram, não veria apenas a casca murcha que agora era seu corpo.
— Achei que estivesse com raiva de mim — disse ele.
Para surpresa de Cam, Lilith segurou sua mão. Os dedos eram frios e fortes, com calos nas pontas, por causa do violão.
— Existem coisas mais importantes com que se preocupar — disse ela.
Cam aproveitou a oportunidade e se aproximou ainda mais, tentado a passar as mãos no cabelo de Lilith. Sabia como seria a sensação: molhada e gloriosamente macia, exatamente como em Canaã, quando ela se deitava em seus braços na margem do rio depois de um mergulho, deixando o cabelo espalhar-se por seu peito nu.
— O que poderia ser mais importante que sua confiança? — perguntou ele.
Lilith inclinou a cabeça em direção a Cam. Tinha um olhar sonhador agora, substituindo a desconfiança com a qual ele havia começado a se acostumar naquele Inferno. Os lábios dela se entreabriram. Cam prendeu a respiração...
— E aí, gente...? — Jean Rah apareceu na frente dos dois e levantou os óculos escuros esverdeados de plástico. — Temos uma banda ou não?
Lilith deu um passo para trás e puxou a barra do short para baixo. Parecia envergonhada, como alguém despertando de um estado hipnótico, incapaz de se lembrar do que havia acontecido um minuto antes.
Cam sabia que a intenção de Jean era boa, mas, naquele momento, tinha vontade de socar o amigo.
— Acho que já que vocês dois estão conversando, fizeram as pazes, a gente pode voltar... — continuou Jean, olhando nos olhos de Cam.
— Ainda estamos trabalhando nisso — disse Lilith.
— Então sejam rápidos — pediu Jean, e estalou os dedos. — Temos um assunto importante para discutir em relação à formatura. — Cutucou Lilith. — Já convidou Cam?
— Convidar para quê? — perguntou Cam.
— Para ir à formatura — disse Jean.
O rosto de Lilith começou a se tingir de vários tons de vermelho, e Cam ergueu as sobrancelhas. Ansiava por um momento bem mais romântico que aquele para convidá-la a ir com ele. Seria possível que ela estivesse planejando chamá-lo?
— Claro — disse Cam de repente. — Seria um prazer.
Jean estremeceu.
— Não, cara, foi mal. Era só uma brincadeira. Achei que vocês dariam risada... Que os dois achariam engraçado...
Cam engoliu em seco.
— Hilário.
— Não preciso de homem nenhum para ir à festa tocar com minha banda — argumentou Lilith. — Por isso, galera, relaxem.
— É, Rei da Formatura. Relaxa — disse Jean, rindo.
Cam o empurrou para cima de um armário.
— Valeu, amigão.
— Mas eu andei pensando, Cam... — disse Lilith, enrolando um cacho de seu cabelo ruivo no dedo. — Será que você gostaria de participar da banda de novo? — Olhou para Jean e disse: — Pronto. Falei. Tá contente?
— Sim — respondeu Cam, sabendo que era melhor não perguntar o que a fizera mudar de ideia. — Claro, adoraria.
Jean passou um braço no ombro de Cam e outro no de Lilith.
— Agora que isso está resolvido, podemos tratar de negócios — disse ele. — Me encontrem no estacionamento logo depois da aula. Vamos fazer uma excursão.
— Para onde? — quis saber Cam, gostando da ideia de sair da escola com Lilith, não importando o que Jean tivesse em mente.
— Fazer compras para a formatura, para a Batalha de Bandas, vulgo nosso primeiro show. — Jean deu um tapinha em seu relógio de pulso. — Vai ser daqui a seis dias e não temos figurino.
— Jean, eu me sento ao lado de Kimi na aula de poesia — disse Lilith. — Já sei da faixa de smoking vermelho-cereja que você encomendou especialmente para combinar com o vestido dela na festa.
Cam caiu na gargalhada.
— Você: cale a boca, e você: cale a boca — exigiu Jean, apontando para um e para o outro. — Pois é, vou usar uma faixa de cetim vermelho-cereja durante uma parte da festa. — Ele balançou a cabeça, melancolicamente. — Mas não quando a Vingança se apresentar. Nesse momento, precisamos parar o trânsito.
Lilith olhou para seus shorts jeans.
— Eu ia usar só um...
— Não dá para a gente usar nossas roupas de todo dia no palco! — protestou Jean. Cam nunca o vira tão sério. — Não queremos que a plateia nos veja como faz agora.
Cam pigarreou e olhou para suas botas. Jean estava mesmo sugerindo que ele não as usasse no palco?
Infelizmente, ele não tinha muita escolha. Olhou ao redor, para as pessoas que seguiam, apressadas, pelo corredor até suas respectivas salas de aula.
— Acho que elas nem enxergam a gente, se quer saber.
Jean revirou os olhos.
— Você entendeu o que eu quis dizer. Você não vai querer que aquele tal Luc olhe para você no palco e se lembre de sua imagem na sala de detenção, vai?
— Provavelmente não — confessou Cam, embora soubesse que figurino nenhum conseguiria escondê-lo de Lúcifer.
— Ele precisa pensar que você é de outro mundo — continuou Jean.
— A gente vai tocar só uma música — disse Lilith. — Parece um desperdício... alienígenas virem do espaço sideral para tocar uma única música.
— Rock é desperdício — argumentou Jean. — Desperdício de tempo, de juventude, de talento, de dinheiro.
Cam perguntou-se qual seria o motivo para a resistência de Lilith quanto ao novo visual da banda; mas depois percebeu: provavelmente ela não tinha dinheiro para comprar roupas. Isso, porém, não deveria ser impedimento para ela encontrar algo especial para usar. Ele daria um jeito de ajudar.
— Jean tem razão — disse Cam para Lilith. — Precisamos de um visual unificado. Mas não pode ser nada caro; não tenho muita grana no momento.
— Sem crise — disse Jean, e Cam viu que Lilith soltou um suspiro de alívio. — Posso pensar em algo de orçamento reduzido. Vamos nos encontrar às quinze para as quatro e ir direto para o Exército da Salvação.
Cam coçou a cabeça. Sua jaqueta de couro tinha sido feita à mão em 1509, em Florença, por Bartolomeu em pessoa. Seu último par de botas tinha sido apanhado de um soldado americano da infantaria morto num campo de batalha na Renânia, em 1945. A calça jeans era da primeira leva, feita em 1873 por Levi Strauss, e ele a levara até a Savile Row, em Londres, para ser customizada. Ah, como os tempos tinham mudado.
— Estou dentro — disse Lilith, pouco antes de o sinal tocar. — Encontro vocês depois da aula. Falando nisso, Cam, gostei das botas novas.


— Você: venha comigo, agora. — Tarkenton convocou Cam na hora do almoço, quando ele esperava escapar para o riacho da Cascavel. Havia conseguido afanar uma alça de guitarra de cetim preto numa loja de música no dia anterior, e queria deixá-la na margem do riacho, de presente para Lilith.
— Qual é a acusação contra mim? — perguntou Cam, enquanto Tarkenton o arrastava de volta ao refeitório.
— Descumprimento de suas obrigações como membro da corte da formatura. A Srta. King me informou que você já faltou a cinco reuniões, e não vai faltar a mais nenhuma enquanto eu estiver de olho.
Cam gemeu.
— Não posso recusar participar dessa corte? Deve ter algum outro cara que queira ficar no meu lugar.
Tarkenton levou Cam até uma mesa no centro do refeitório, onde Chloe King estava sentada com as outras garotas de sua banda e três caras que Cam, até então, conseguira evitar. Comiam uma pizza, as cabeças unidas, sussurrando. Todos pararam de falar assim que viram Cam.
— Sente aí — ordenou Tarkenton. — Comporte-se e comece a pensar em combinações de cores para o banner de balões, como um adolescente normal. — O diretor fez um gesto para que Cam ocupasse a última cadeira vazia.
— Se eu me sentar, o senhor vai embora? — murmurou Cam, enquanto Tarkenton finalmente desaparecia. No mesmo instante, Chloe empurrou a caixa de pizza para o meio da mesa, longe do alcance de Cam.
— Não me olhe desse jeito — disse ela. — Estou só ajudando. Tenho certeza de que você está a fim de perder uns quilinhos até a festa. Confie em mim, você não precisa comer esta pizza.
— Que malvadeza, Chloe — brincou um garoto de rosto quadrado, chamado Dean. — Deixa o gorducho comer.
Toda a mesa desatou a rir. Cam não ligava a mínima para o que aquela gente pensava dele, a única coisa que o incomodava era o tempo que perdia ali. Ele deveria estar com Lilith, ou fazendo algo especial para ela.
Naquele momento, um papelzinho dobrado caiu na mesa, na frente dele. Cam olhou para cima e viu Lilith passando por ali, carregando a bandeja com seu almoço. Ela fez um sinal para o bilhete. O nome de Cam estava escrito por cima, com caneta preta. Ele abriu o papel.

AGUENTE FIRME... FALTAM SÓ TRÊS HORAS PARA NOSSA EXCURSÃO.

Inundado de felicidade, ele se virou para espiar Lilith, que tinha sentado no outro extremo do refeitório, ao lado de Jean e Luis. Ela estava comendo uma maçã muito vermelha e rindo. Pareceu sentir o olhar de Cam e o fitou, oferecendo-lhe um sorriso compreensivo e extasiante.
Chloe podia pegar aquela pizza e enfiá-la inteira goela abaixo. O sorriso de Lilith era todo o alimento do qual Cam necessitava.


Depois das aulas, o Honda de Jean entrou cantando pneu no estacionamento do Exército da Salvação e brecou com tudo, ocupando duas vagas. Os dedos de Cam tocaram os de Lilith quando ele saía do banco de trás. Ao olhar para cima, o garoto viu que ela sorria. Era o mesmo sorriso que ela lhe dera no refeitório, o sorriso que ajudara Cam a suportar os 35 minutos da reunião de planejamento do baile de formatura.
Cam não tinha a menor opinião sobre onde deveriam deixar a cabine de fotos durante a festa, nem se o DJ deveria usar smoking ou algo mais casual, nem se seria necessário decorar com flores a mesa onde colocariam os livros de recordações para as pessoas assinarem.
Mas tinha uma opinião forte quanto a convidar Lilith para ir à festa com ele.
As coisas estavam indo bem naquele dia, e não havia sinal de novas interferências de Luc, portanto Cam se sentia otimista. Entretanto, ainda havia muito a fazer. Ele precisava que a visita ao Exército da Salvação parecesse tão romântica quanto um passeio até o topo da Torre Eiffel.
— Dividir para conquistar — disse Jean, chamando todos a entrarem no brechó. O lugar cheirava a naftalina misturada a xixi de gato, com um leve toque de perfume de baunilha. — Experimentem. Divirtam-se.
— Mas não se esqueçam — acrescentou Luiz, segurando a porta aberta para Lilith — de que estamos procurando roupas que elevem nossa presença de palco.
Cam olhou para o rapaz e riu.
— Uau. O que deu em você?
— Arrumei alguém para ir à festa comigo — disse Luis, fazendo uma dancinha. — Nada de mais.
— Ah! Quer dizer que finalmente você a convidou? — perguntou Jean, e em seguida sorriu para Cam. — Ele passou o semestre inteiro babando por Karen Walker.
— Mandou bem, Luis — disse Lilith, e fez um “toca aqui”. Porém, enquanto ela descia por um corredor repleto de chapéus, Cam estava em dúvida se tinha ouvido um leve toque de inveja em sua voz. Agora, até mesmo Luis tinha alguém com quem ir à festa.
Cam seguiu Lilith até uma parede alta cheia de prateleiras verde-limão, impressionado com a rapidez com a qual ela identificara a seção mais descolada da loja. Cam havia feito compras, doado roupas e até mesmo trabalhado em pelo menos cem brechós ao longo dos anos. Era capaz de entrar em qualquer um e saber onde ficavam os sapatos e acessórios, e como encontrar os ternos antigos realmente bacanas.
Lilith parecia ter o mesmo dom. Ela se pôs na ponta dos pés para puxar um terno de três peças, azul-marinho e com risca de giz, de uma das prateleiras. Entregou as calças para Cam e fez um sinal de aprovação.
— O que acha?
— Demais. — Ele apanhou o terno, depois deu uma olhada em outros, parando diante de um xadrez verde que era menor que os demais e parecia não ter manchas. Cam sabia que o paletó ficaria sedutoramente colado no corpo de Lilith, e que as calças abraçariam suas pernas da forma ideal.
— Nossa, adorei este — disse Lilith, quando ele o entregou a ela. — Acha que vou ficar bem nele?
— Acho que esta cidade não vai conseguir dar conta do quanto você vai ficar linda com este terno — respondeu ele.
— Sério? — Ela o examinou, procurando manchas. — Vou experimentar.
Cam chamou uma moça alta com um crachá onde se lia o nome.
— Poderia por gentileza nos dizer onde ficam os provadores?
— Nos fundos — respondeu a mulher, levando Cam e Lilith até um cantinho da loja, separado por uma cortina de flanela amarela.
— Entre, garota — disse Cam.
O provador era uma bagunça, cheio de vestidos velhos, ponchos, chapéus fedora e pijamas em cabides e prendedores nas paredes. Dava a impressão de que tudo que as pessoas haviam provado e reprovado ao longo da última década continuara largado ali.
— Entre comigo — disse Lilith, fechando a cortina em torno dos dois.
Lá dentro, a luz era diferente; as lâmpadas incandescentes se suavizavam numa iluminação mais suave, quase romântica, em meio às sombras poeirentas.
— Vire para eu provar isto aqui — disse ela.
— Não prefere que eu espere você lá fora? — perguntou Cam.
— Eu já disse o que prefiro — disse ela. — Vire.
Cam obedeceu. Ouviu os sons dela se mexendo, a respiração suave, o barulho de sua mochila caindo no chão, o estalo do elástico quando ela prendeu o cabelo num rabo de cavalo. Algo roçou o ombro de Cam, e ele percebeu que Lilith estava tirando a roupa. Com todas aquelas peças de roupa empilhadas ali, não havia muito espaço para se mexer no provador, portanto, ao tirar a calça jeans, Lilith sem querer esbarrou o quadril nu no garoto. Suas asas arderam com vontade de se libertar.
— Vai provar suas roupas ou não? — perguntou ela.
Era uma sensação maravilhosa saber que havia algo perigosamente sexy acontecendo ali, mas não poder espiar. Cam sentiu como se ele e Lilith estivessem compartilhando um segredo, um momento só deles.
— Certo. — Ele tirou a jaqueta.
Logo os dois estavam nus de costas um para o outro. O toque da pele de Lilith contra a dele naquele espaço silencioso, delimitado por uma cortina, era enlevante. Sentia como se estivessem de novo no rio Jordão. O corpo dele conseguia reconhecer cada curva não vista do dela.
Será que Lilith reconhecia o dele também? Graças a Lúcifer, o corpo de Cam estava bem diferente do que fora em Canaã, mas, mesmo assim, ele desejava saber se aquela proximidade por acaso acendia lembranças na garota.
— E aí! — gritou Jean, lá de fora. — Quero ouvir a opinião de vocês dois.
— Só um minuto! — gritou Lilith, enquanto ela e Cam se apressavam para acabar de vestir suas roupas.
Cam subiu o zíper da calça risca de giz e, um instante depois, sentiu a ponta dos dedos dela em seus ombros, girando-o para encará-la.
Só que Lilith não estava usando o terno xadrez verde: tinha provado um vestido azul-claro de corte simples. Era decotado, mas não muito. A barra da saia batia na metade da coxa. Ela provavelmente o encontrara no meio da pilha de roupas emboladas dentro do provador, mas parecia ter sido feito sob medida para ela.
— Você está linda — disse ele.
— Obrigada — respondeu Lilith. Olhou para o terno dele, que parecia sob medida para o antigo Cam, não para seu corpo atual. — Que pena, parecia promissor na arara — disse ela, com educação. — Mas meio que te deixa com cara de vendedor de carros usados.
— Então está perfeito — disse ele. — Porque você está parecendo uma dona de casa sexy dos anos 1950 a fim de comprar um Cadillac de segunda mão.
— Eca — guinchou Lilith, mas estava rindo. — Tire logo isso, antes que essa velharia fique grudada em você para sempre.
— E o que eu deveria usar? — perguntou Cam, rindo também.
— Qualquer outra coisa! — Lilith apanhou num cabide nos fundos do provador um poncho de lã cinza com flores alaranjadas. Parecia ter pertencido a um criminoso mexicano. — Isto aqui!
Cam enfiou a mão atrás de um robe de banho verde volumoso e sacou um vestido de havaiana de cetim cor-de-rosa.
— Só se você usar isto.
— Topo o desafio — disse Lilith, divertida, e apanhou o vestido. Fez um gesto com o indicador para que Cam se virasse.
Agora estavam novamente de costas um para o outro, e Cam ficava imóvel sempre que a pele de Lilith roçava a dele. Fechou os olhos e imaginou o vestido de havaiana deslizando pela curva dos quadris da garota.
Quando se virou, Cam ficou deliciado ao descobrir que ela havia enfeitado o cabelo com uma orquídea de seda branca que encontrara na pilha de plantas de plástico no canto do provador. A flor agora estava atrás de sua orelha.
— Aloha — cumprimentou Lilith, piscando os olhos sedutoramente.
— Aloha para você também — ecoou Cam.
— Nossa, o garoto sabe como usar um poncho — disse ela, olhando para ele de cima a baixo, aprovando o que via.
Cam fez sua melhor imitação de sotaque da Cidade do México e segurou a mão de Lilith.
— Sei que somos de mundos diferentes, señorita, mas agora que pousei os olhos em você, preciso te levar para meu rancho.
— Mas meu pai jamais irá permitir — retrucou Lilith, com um sotaque surpreendentemente convincente de sacerdotisa havaiana. — Ele vai matá-lo se quiser me levar embora!
Cam lhe beijou a mão.
— Por você, eu enfrentaria qualquer coisa, até mesmo as chamas ardentes do Inferno.
— Alôôô! — berrou Luis de fora da cortina. — O que está acontecendo aí dentro? Já encontraram uma roupa decente?
Lilith deu uma risada e abriu a cortina, fazendo uma dancinha de hula-hula.
Encontraram Jean com um chapéu fedora preto e um trench coat bege. Luis havia arrumado um uniforme completo de jogador de futebol americano, com direito a ombreiras e tudo, e dera um jeito de vesti-lo por cima da roupa.
— Se metam comigo agora, galera! Quero ver! — gritou ele para o teto.
— Que ótimo. — Jean olhou para cada um, balançando a cabeça. — Vamos parecer o Village People.
— Ainda não terminamos, cara — disse Luis. — Acabamos de chegar!
— Bem, até agora estamos ridículos — comentou Jean. — Menos você, Lilith. Agora vamos, galera, se empenhem mais.
— Olhe quem está falando, o cara que escolheu um chapéu fedora — retrucou Luis, enquanto os dois sumiam no meio de um mar de veludo cotelê.
— E agora? — perguntou Cam, quando ele e Lilith voltaram ao provador. — Podemos arrumar encrenca com Jean se continuarmos zoando assim.
— Oooh, que perigo — brincou Lilith. Olhou ao redor, vasculhando por entre os cabides. — Vamos surpreender um ao outro.
Os dois se viraram de costas novamente. Outra vez Cam sentiu o vestido deslizar por cima da cabeça de Lilith e cair no chão, aos pés dele. Estremeceu mais uma vez com aquele desejo que mal conseguia conter.
Olhou para a arara à sua frente e escolheu um cafetã indiano bege e comprido. Vestiu-o e amarrou-o ao pescoço.
— Que acha deste aqui? — perguntou Lilith, alguns instantes mais tarde.
Ele se virou para olhar. Lilith usava um longo vestido branco, de tecido leve, bordado com folhas verde-escuras.
— Não tive como não notar sua presença no poço da vila dia desses... — disse ela, com uma voz sedutora e lenta.
Ela ainda estava brincando, mas Cam mal conseguia respirar. Não via aquele vestido desde...
— Onde você encontrou isso?
Lilith indicou a pilha de roupas encostada na parede dos fundos, mas Cam não conseguiu tirar os olhos dela. Piscou e viu sua futura esposa, o sol sobre seus ombros, parada ao lado dele na margem do rio Jordão, três mil anos atrás. Lembrava-se exatamente do tato daquele tecido finíssimo entre os dedos quando a abraçara. Lembrava-se de como a cauda do vestido se arrastava pelo chão quando ela o abandonara.
Não podia ser. O tecido teria se deteriorado há muito tempo. Mas, naquele vestido, Lilith estava exatamente igual à garota que ele havia perdido.
Cam encostou-se na arara de roupas, sentindo-se tonto.
— O que foi? — perguntou Lilith.
— O que foi o quê? — perguntou Cam.
— Fiquei feia com o vestido, está na cara.
— Eu não disse isso.
— Mas pensou.
— Se você pudesse ler minha mente, pediria desculpas por esse comentário.
Lilith olhou para o próprio vestido.
— Era para ser uma brincadeira. — Ela fez uma pausa. — Eu sei que é ridículo, mas por algum motivo eu... gostaria que você gostasse de mim com este vestido.
Ela saiu do provador e foi se olhar no espelho lá fora. Cam a acompanhou, observando-a tocar no bordado na cintura. Viu a saia rodar de leve quando ela balançou ligeiramente o quadril. A expressão dela mudou. Seus olhos voltaram a adquirir um ar sonhador. Ele se aproximou um pouco. Seria possível? Estaria ela se lembrando de alguma coisa do passado de ambos?
— Você é a criatura mais maravilhosa que já vi... — disse ele, antes mesmo de se dar conta do que estava fazendo.
— Precisamos nos casar no templo — disse ela, com dureza.
— O quê? — Cam piscou, mas então ele entendeu. Eles tinham dito aquelas mesmas palavras um para o outro antes, nas margens do Jordão, da última vez em que ela usou aquele vestido.
Os olhos de Lilith se encontraram com os dele no espelho. De repente, seu olhar se encheu de raiva, deformando seu rosto. Ela virou-se para olhá-lo, tomada de fúria. O passado que ela não conseguia recordar chegava ao presente. Ele percebeu que aquela Lilith não sabia por que sentia tanta raiva, mas tinha absoluta certeza de que era por causa de Cam.
— Lilith — disse ele. Queria lhe dizer a verdade. Destruía-o por dentro ser capaz de entender melhor do que ela própria o que Lilith sentia.
Entretanto, antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa, Lilith desatou a rir. O som era forçado, não sua risada melódica natural.
— O que foi aquilo, hein? Desculpe, eu me sinto uma retardada.
Cam fingiu rir.
— Era brincadeira?
— Talvez. — Lilith puxou os botões à nuca do vestido como se estivesse se sentindo sufocada. — Mas minha raiva parece tão real, como se eu quisesse arrancar seu rosto do crânio com as unhas.
— Nossa. — Foi a única coisa que Cam conseguiu dizer.
— Só que a parte mais estranha de tudo isso — continuou Lilith, observando-o com atenção — é que você está agindo como se merecesse. Estou furiosa com você e não faço a menor ideia do motivo, mas é quase como se você soubesse. — Ela pressionou os dedos nas têmporas. — Será que estou ficando maluca?
Ele olhou para a videira bordada que subia pelo torso do vestido. Precisava fazer Lilith tirar aquilo.
— Eu gostei mais do outro — mentiu ele, voltando ao provador e apanhando o vestido azul-claro do chão. Parecia barato e comum ao lado do vestido de noiva de Lilith. — Aqui, deixe eu ajudá-la a tirar essa velharia com cheiro de naftalina.
Mas Lilith afastou a mão de Cam dos botões da gola do vestido.
— Eu devia comprar este. — A voz dela parecia distante. — Faz com que eu me sinta mais... eu mesma. — Ela gritou para a vendedora: — Quanto é este vestido?
— Nunca o vi antes! — Foi a resposta da mulher, pouco tempo depois. — Ou acabou de chegar ou estava na pilha do provador há séculos.
Cam sabia que era a primeira opção... e também sabia quem havia trazido o vestido.
— Qual sua melhor oferta? — perguntou Lilith, e Cam a ouviu abrir o zíper da mochila e remexer dentro da carteira. — Tenho... dois dólares e cinquenta e... três centavos.
Cam foi atrás dela.
— Acho melhor você não...
— Bem — disse a vendedora. — Todos os vestidos têm desconto de cinquenta por cento às sextas-feiras, e a maioria das pessoas que vêm aqui tem um estilo diferente desse aí... seja lá qual seja. Aceito seus dois dólares e cinquenta e três centavos.
— Espere... — Cam começou a dizer.
— Ótimo — disse Lilith, afastando-se dele e caminhando pelo corredor, ainda usando o vestido.
Enquanto Cam colocava as próprias roupas, avistou uma pequenina gárgula de madeira sobre uma prateleira de badulaques, olhando para o provador. Cam e Lilith estavam finalmente se dando bem, mas Lúcifer não podia aceitar isso. Para vencer a aposta, precisava que Lilith continuasse presa — até mesmo vestida — em sua ira. E ela nunca ficara tão irada com Cam quanto no dia em que usara aquele vestido.
Agora, três milênios depois, ela o usaria de novo e sentiria aquela fúria mais uma vez; na noite da formatura, justamente quando Cam mais precisaria de seu perdão.

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