25 de março de 2017

Capítulo 11 - Partida

LILITH
Sete Dias

No café da manhã do dia seguinte, Lilith arrancou o cereal amanhecido da mão de Bruce e pousou uma tigela fumegante de mingau de aveia na frente do irmão.
— Aveia à la Lilith — disse ela. — Bon appétit.
Estava orgulhosa de sua criação, que incluía sementes de romã, raspas de coco, nozes e creme de leite fresco, cortesia de Cam.
Quando ela o confrontou sobre a letra da música xerocada, ele fingiu não saber do que ela estava falando. Mas as compras eram indicação clara de sua consciência pesada e de que queria suborná-la para conseguir seu perdão.
— Que cheiro ótimo — elogiou Bruce, levantando a colher. Estava vestido para a escola, com uma camisa social ligeiramente amarrotada e uma calça cáqui, o cabelo limpo e penteado para trás. Lilith ainda não se acostumara a vê-lo sem pijama. — Onde você arrumou essa comida chique?
— Foi Cam — disse ela, servindo uma concha de mingau de aveia numa tigela para a mãe, que secava o cabelo.
— Por que você ficou toda vermelha e envergonhada quando disse o nome dele? — perguntou Bruce, que já tinha limpado a tigela. — Tem mais? E Cam trouxe chocolate também?
— Porque ele é um idiota, e não, não trouxe. — Lilith entregou ao irmão a tigela que estava preparando para a mãe, e começou a servir uma terceira porção. Não havia sentido em racionar aquela comida boa, melhor desfrutar sem reservas, principalmente agora que Bruce se sentia melhor. Ele precisava continuar saudável.
Lilith sentou na cadeira ao lado do irmão e tentou imaginar alguém magoando Bruce do jeito como Cam a machucara.
— Você precisa tomar cuidado com as pessoas. Só podemos confiar de verdade um no outro. Certo?
— Nossa, parece meio solitário — disse ele.
— E é — concordou ela, com um suspiro. — É mesmo.
Mas era melhor que permitir a gente como Cam que arruinasse sua vida.


— Dê o fora — disse Lilith, batendo com força a porta do armário quando Cam a abordou antes de o sinal tocar. Ela ignorou o buquê de íris em sua mão. O perfume suave daquelas flores, que Lilith havia adorado ao encontrar as pétalas na escrivaninha antiga dois dias atrás, agora lhe causava náuseas. Tudo o que Cam tocava a enjoava.
— Para você — disse ele, entregando-lhe o buquê. — Sinto muito.
— Sente muito pelo quê, exatamente? Por ter feito aquelas cópias?
— Não — disse Cam. — Sinto muito por você ter tido um dia horrível ontem. Estou tentando animar você.
— Quer me animar? — perguntou Lilith. — Então morra.
Ela arrancou o buquê da mão dele, atirou-o no chão e saiu, pisando duro.


Cam ficou na dele durante a primeira aula e a aula de poesia, e, depois disso, Lilith teve uma folguinha, pois ele não cursava nenhuma das outras aulas na mesma turma que ela. A nuvem negra sobre sua cabeça chegou até a se dissipar um pouco na aula de biologia, porque ela havia feito o dever de casa, para variar.
— Alguém pode me dizer a diferença entre a mitocôndria e o complexo de Golgi? — perguntou a Sra. Lee, junto ao quadro branco.
Lilith se flagrou espantada diante de sua mão espalmada, erguida acima da cabeça. Não conseguia acreditar que estava levantando a mão espontaneamente na aula de biologia.
A Sra. Lee chegou a bufar (com odor de café) ao ver Lilith na fileira da frente, esperando pacientemente ser chamada.
— Certo, Lilith — disse ela, sem conseguir esconder a surpresa. — Tente.
Lilith só conseguiu responder graças a Luis. No dia anterior, na hora do almoço, ele a abordara na fila.
— Fiquei criando uma nova batida para “Voando de cabeça para baixo” ontem de noite — disse ele, batucando o ritmo sincopado em sua bandeja.
— Que coincidência, eu também estava pensando que a gente poderia acelerar o compasso um pouquinho — disse Lilith.
Luis pagou pelo hambúrguer dele, e Lilith usou um cupom que dava direito a um almoço grátis. No começo, ficou nervosa, achando que ele faria pouco-caso dela por isso, mas ele não disse nem uma palavra a respeito. Aí os dois viram Jean almoçando sozinho, e Luis foi se sentar na frente dele, como se fosse a coisa mais normal do mundo, apesar de Lilith ter a impressão de nunca ter visto os dois almoçando juntos. Jean e Luis olharam para ela, que estava parada, inquieta, perto deles.
— Precisa de um convite formal? — Jean bateu no assento ao seu lado. — Sente aí.
Foi o que ela fez. Lilith percebeu que daquele local vantajoso, sentada entre amigos, o refeitório parecia um lugar completamente diferente. Era aconchegante, iluminado, barulhento e divertido, e, pela primeira vez na vida, o horário de almoço passou depressa demais.
Os três tinham muito o que conversar sobre música, mas o que surpreendeu Lilith foi que tinham muitos outros assuntos também. Por exemplo, o fato de Jean estar nervoso, com medo de os pais de Kim não deixarem que ela voltasse mais tarde na noite da festa.
— Você precisa aparecer por lá, cara — disse Luis. — Precisa sentar no sofá, daquele jeito estranho, com o pai estranho dela, e contar sobre seus planos de cursar faculdade, sei lá. Tipo, aparente confiança, mas seja respeitoso e respeitável. Os pais das garotas adoram essa baboseira.
— Não acredito que estou ouvindo conselhos de um calouro do primeiro ano — brincou Jean, surrupiando uma batata frita do prato de Luis.
Mas o calouro se revelou uma espécie de gênio em biologia. Quando Lilith reclamou do dever de casa, Luis começou a cantar:
— A membrana plasmática é o segurança que deixa a galera sem noção de fora da balada.
— O que é isso? — perguntou Lilith.
— É, tipo, minha versão de Schoolhouse Rock! — respondeu ele, e cantou o restante da música, que era empolgante e tinha um recurso mnemônico para cada parte da célula. Quando ele terminou, Jean começou a aplaudir, e Lilith abraçou Luis sem se dar conta do que estava fazendo.
— Não sei por que nunca pensei em compor músicas pra me ajudar a estudar — disse Lilith.
— Não precisa. — Luis sorriu. — Vou lhe ensinar tudo que eu sei. Ou seja, tipo tudo.
Agora, na aula de biologia, Lilith se lembrava da voz grave de Luis cantando no dia anterior... e, surpreendentemente, deu a resposta certa. Mal podia esperar para contar a ele.


Na hora do almoço, ela o encontrou no refeitório se abastecendo de gelo na seção de refil de refrigerante. Aproximou-se toda saltitante, cantando. Ele se virou e sorriu, depois juntou-se a ela no último verso da canção.
— Você salvou minha vida — disse ela. — Valeu.
— Tem muito mais de onde veio essa — avisou Luis, com um sorriso torto.
— É mesmo? — perguntou Lilith. Ela adoraria que aquilo se tornasse algo frequente. Não tinha dinheiro para contratar um professor de reforço para todas as matérias nas quais ia mal.
— Que aula você vai ter depois do almoço? — perguntou Luis, bebendo a espuma da sua Coca antes que transbordasse.
— História americana — gemeu ela.
— Fiz uma ópera rock impressionante sobre as batalhas da Guerra Civil — disse ele. — É uma de minhas melhores.
— Lilith? — Ela sentiu uma batidinha no ombro e se virou. Cam segurava uma bandeja com o prato favorito dela: lasanha.
— Não estou com fome — comentou ela. — Que parte do “morra” você não entendeu? Preciso falar mais alto?
— Nossa, então eu vou comer essa lasanha — disse Luis.
Jean Rah havia se levantado da mesa.
— O que está acontecendo, gente?
Cam passou a bandeja para Luis enquanto Lilith respondia:
— Cam está fora da banda.
— Que foi que você aprontou dessa vez? — perguntou Jean, balançando a cabeça. Ao lado dele, Luis devorava a lasanha, os olhos arregalados.
— Lilith acredita que tirei cópias da letra dela e as espalhei pela escola — disse Cam, puxando a gola de sua camiseta. — Não sei por que ela acha isso, mas acha.
— Que nada, Lilith — disse Luis, limpando com a mão o molho de tomate da boca. — Sou assistente da biblioteca e eu mesmo tive de fazer as cópias ontem. O trampo foi colocado na frente de todos os outros da fila. Tinha, sei lá, umas mil páginas. — Luis revirou os olhos. — Para mandar imprimir um trabalho desse tamanho você precisa de uma senha especial. Esse trampo veio de um computador externo, de uma conta chamada “King Media”.
Jean franziu a testa.
— Então ou foi Chloe King ou...
— O estagiário — murmurou Cam. — Luc.
— Tanto faz — disse Lilith, estranhamente irritada pelo fato de a história na qual acreditava ter sido desmascarada. — Cam continua fora da banda do mesmo jeito. Jean, Luis, vejo vocês no ensaio depois da aula.


Quando Lilith chegou na sala de música, depois das aulas, entretanto, não eram seus amigos que estavam ali, e sim as meninas da Desprezos Nítidos, preparando-se para ensaiar.
Ou melhor: quem preparava tudo para o ensaio era a nova roadie da banda — uma garota quietinha chamada Karen Walker, que se sentava ao lado de Lilith na aula de biologia. Ela mordia o lábio enquanto afinava a guitarra reluzente de Chloe. Lilith percebeu que Karen não sabia direito o que estava fazendo, mas as integrantes da banda não prestavam muita atenção. Sentadas nas arquibancadas, bebericavam smoothies, entretidas com seus celulares.
— Hã, June, você acabou de me mandar sua estação de rádio de música clássica do Spotify? — perguntou Teresa para a loira à esquerda.
— É Chopin, fico escutando antes de dormir — respondeu June.
— Tonta! — disse Chloe, sem tirar os olhos do celular. — Minha estação da sorte no momento é All Prince All Time. Dean e eu ouvimos isso na última noite de sexta.
Lilian pensou na angelical June deitada na cama ouvindo os concertos de valsa de Chopin e caindo no sono. Certa vez Lilith tentara dormir ouvindo música, mas foi torturante. Ela ficou prestando atenção em cada nota, maravilhada com os arranjos dos acordes, tentando discernir os variados instrumentos.
Talvez a música deixasse as outras pessoas em paz, fazendo com que relaxassem. A música, porém, nunca deixava Lilith em paz.
— Alguém aí tirou o aviso que dizia “Proibida a entrada de gente bizarra”? — perguntou Chloe, quando percebeu Lilith parada à porta. — Veio derramar mais letras horrorosas em cima de vítimas indefesas, é?
Lilith não gostava de Chloe, mas a conhecia o suficiente para saber que ela não estava mentindo: ela realmente achava que Lilith é quem tinha distribuído aquelas cópias pela escola. Isso significava que a culpada não era Chloe.
Entretanto, Luis tinha dito que o trabalho fora enviado de um computador da King Media. Lembrou-se de que Cam sugerira que Luc poderia ter pedido as cópias, mas isso não fazia o menor sentido. Por que o estagiário da Batalha de Bandas desejaria sabotá-la?
— Por acaso você viu Jean e Luis? — perguntou para Chloe. — Vamos ensaiar aqui.
— Não vão mais — respondeu Chloe, com um sorriso venenoso. — A gente chutou aqueles bestas daqui. Agora a sala é nossa.
— Mas...
— Podem usar a laje de concreto ao lado do lixão — sugeriu Chloe, fazendo um gesto para enxotar Lilith. — Vai. Xô. A gente já vai começar o ensaio, e não quero que você roube nossas músicas.
— Beleza — disse Lilith, chocada, enquanto abria a porta da sala. — É bom mesmo, porque eu poderia me sentir tentada a imitar o jeito matador como você exibe seu decote quando toca guitarra.


Lilith encontrou Jean e Luis no estacionamento, sentados no capô do Honda azul-claro de Jean. A temperatura havia aumentado vertiginosamente desde a hora do almoço, e um bafo quente subia do asfalto. O sol era um ponto laranja desbotado atrás de uma nuvem enfumaçada. A testa de Luis estava úmida de suor quando ele ofereceu a Lilith os restos de um pacote gigantesco de Doritos.
— Humm, seria ótimo um pouco de Doritos sabor Molho Ranch agora — disse ela.
— Chloe chutou você de lá também? — perguntou Jean, apoiando os pés no farol do carro.
Ela assentiu.
— E agora, onde a gente vai ensaiar? Na minha casa definitivamente não rola.
— Nem na minha — disse Luis, entre uma mastigada e outra. — Meus pais me matam se descobrirem que estou numa banda. Acham que vou ficar até mais tarde na escola hoje por conta de um curso preparatório para a faculdade.
— Lá em casa também não dá — disse Jean. — Sou o mais velho de cinco irmãos, e vocês nem queiram saber o que é lidar com meus irmãos, principalmente os gêmeos. Eles são malucos.
— Então basicamente estamos ferrados — declarou Lilith. Pensou no riacho da Cascavel, mas eles precisariam de um gerador para os microfones, os amplificadores, o sintetizador. Não daria certo.
— E a casa de Cam? — perguntou Jean. — Alguém sabe onde ele mora?
— Desculpe, mas você está falando do Cam que não está mais na banda? — perguntou Lilith, estreitando os olhos.
— Ele não sabotou você, Lilith — disse Jean. — Eu sei que você está envergonhada, mas não foi Cam. Você devia conversar com ele e amenizar o clima. Precisamos dele.
Lilith não respondeu. Gostava de Jean e de Luis, e não queria estragar a amizade, mas não deixaria que a obrigassem a aceitar Cam de novo na banda. Entretanto, depois da pergunta de Jean, ela ficou curiosa para saber onde Cam morava.
— Assistente de biblioteca ao resgate — disse Luis, rolando a tela do celular. — Tenho acesso à base de dados dos alunos, onde tem o endereço de todo mundo. — Ele inclinou a cabeça para trás, para afastar o cabelo dos olhos. — Pronto. Dobbs Street, número 241. — Enfiou os últimos Doritos na boca e depois meteu o saco amassado numa lata de lixo ali perto. — Vamos nessa.
— Isso não quer dizer que vou deixar Cam voltar para a Vingança — disse Lilith para os garotos, que já estavam entrando no carro. — Vamos só dar uma olhada para saber onde é.
Luis ofereceu o assento da frente para Lilith, que considerou aquele gesto bastante cavalheiresco, e o GPS de Jean os conduziu até a área decadente da cidade. Ele ligou o som, insistindo em apresentar aos dois um de seus novos álbuns favoritos, o qual eles amaram, e passaram pelo pequeno shopping center que ficava no caminho diário de Lilith para a escola. Entraram no bairro de Lilith e rodaram por sua rua.
Ela prendeu a respiração até não conseguir mais enxergar a trilha da entrada de sua casa pelo espelho retrovisor, como se Jean ou Luis pudessem saber que a casa horrenda no fim da rua era o que Lilith chamava de lar. Ela pensou em Bruce ali dentro, assistindo a episódios antigos de Jeopardy!, com Alastor deitado ao seu lado no sofá, e teve a sensação de trair o irmão simplesmente por se envergonhar de suas origens.
Ficou surpresa ao imaginar que Cam moraria naquela região da cidade. Lembrou-se de uma antiga conversa, em que ele lhe contou que dormira na rua na noite anterior. Na época, ela achou que fosse brincadeira. Ele parecia ter bastante dinheiro. Tinha uma moto, e sua jaqueta de couro parecia cara. Ele lhe trouxera compras, servira caviar, tentara lhe presentear com flores naquela manhã.
Jean fez uma curva fechada para a esquerda e brecou.
— Não. Não pode ser.
Lilith achou o mesmo. A Dobbs era uma rua comprida e reta, completamente fechada para o tráfego de veículos. Não havia casas ali. Nem apartamentos. Entre seu carro parado e as colinas ardentes a distância, havia centenas de barracas remendadas e barracos de papelão, montados bem no meio da rua. As pessoas caminhavam por entre as barracas. Não se pareciam nem um pouco com Cam. Eram esfarrapadas, caídas, muitas exauridas pelo uso de drogas.
— Talvez a base de dados tenha cometido um erro — disse Luis, sacando o celular.
— Vamos dar uma olhada — propôs Lilith, e abriu a porta do carro.
Luis e Jean a seguiram até o início da cidade de barracas, pisando sobre as garrafas quebradas e caixas de papelão mofadas espalhadas pelo chão. Era estranhamente frio ali, o vento intenso. Lilith não sabia o que procurava; já não esperava encontrar Cam naquele lugar.
O cheiro era opressor, como um depósito de lixo suarento encharcado de gasolina. Lilith começou a respirar pela boca enquanto tentava compreender o que via. No começo, o local parecia imerso numa confusão total: crianças esquálidas corriam para todos os lados, homens disputavam o conteúdo de carrinhos de supermercado, fogos ardiam dentro de latas de lixo. Mas, quanto mais Lilith analisava a Dobbs Street, mais as coisas começavam a fazer sentido. Era como uma pequena comunidade, com suas próprias regras.
— Eu vi primeiro! — dizia uma mulher da idade da mãe de Lilith para uma moça mais jovem, disputando um par de sapatos de lona.
— Mas eles são do meu tamanho — protestou a segunda, que tinha dreadlocks loiros e usava um top cinza curto. Lilith conseguia ver suas costelas. — Você não ia conseguir enfiar nem o dedão aí dentro.
Lilith olhou para baixo, para seus coturnos esfarrapados, com cadarços que ela precisava unir com um nó sempre que arrebentavam. Era o único par de sapatos que possuía, havia anos. Tentou imaginar como seria sua vida se não tivesse nem mesmo aqueles.
— Talvez seja melhor a gente cair fora — disse Jean, parecendo incomodado. — A gente fala com Cam amanhã, na escola.
— Ali — disse Lilith, apontando para um rapaz com uma bolsa carteiro que saía de uma barraca verde-escuro.
Cam parou por um instante e olhou para o céu, como se conseguisse interpretar alguma coisa alheia aos outros.
Naquele ambiente, à luz do sol poente, Cam parecia alguém totalmente mudado. Parecia mais velho, cansado. Será que a aparência dele sempre fora aquela? Ela sentiu pena dele. Quanta pose ele era obrigado a fazer para aparentar tanta confiança e ar de mistério na escola?
Será que realmente morava ali? Lilith nem sabia que existia gente naquelas condições em Crossroads. Jamais imaginara ninguém numa situação pior que a de sua família.
Ele estava caminhando na direção deles, mas não os vira ainda. Lilith puxou as mangas das camisetas de Jean e Luis para afastá-los do campo de visão de Cam.
Cam cumprimentou com a cabeça dois caras mais velhos. Um deles levantou o punho fechado para saudá-lo; os dois deram um soquinho ligeiro no punho um do outro.
— E aí, irmão.
— Como estão as coisas, August? — Lilith ouviu Cam dizer.
— Não tenho do que reclamar. Só da dor de dente.
— Eu o arranco pra você — ofereceu Cam, com um sorriso. Pôs a mão no ombro do cara e o olhou fundo nos olhos. O homem pareceu relaxar, transfixado pelo olhar de Cam.
Lilith também ficou transfixada. As pessoas dali tinham o mesmo olhar faminto e nervoso, mas Cam, não. Embaixo de seu ar exausto, ele irradiava uma serenidade que sugeria que nada naquele lugar seria capaz de afetá-lo. Talvez nada no mundo. Era uma das coisas mais bonitas que ela já vira. Lilith queria ser assim também: em paz consigo, autônoma, livre.
— Olhe, estou meio que achando que ele vive aqui — disse Jean.
— Se é que se pode chamar isso de vida — emendou Luis, começando a caminhar na direção de Cam. — Ele não precisa ficar aqui. Temos dois quartos extras em casa. Tenho certeza de que meus pais não se incomodariam de emprestar.
— Espere. — Lilith o conteve. — Ele pode ficar constrangido por termos vindo atrás dele aqui. — Ela ficaria com vergonha se fosse com ela. — Vamos falar com ele amanhã.
Observou Cam caminhar até uma lata de lixo onde ardia um fogo e um pai assava dois cachorros-quentes sobre uma grelha de metal para quatro crianças pequenas. Ele dividiu cada sanduíche em dois e os ofereceu a elas, mas, quando Cam parou na frente dele, o homem começou a cortar um dos cachorros-quentes em pedacinhos menores.
— Tá com fome? — perguntou ele, e ofereceu um quarto de cachorro-quente para Cam.
— Não — respondeu Cam. — Valeu. Aliás... — Ele enfiou a mão na bolsa-carteiro e tirou um embrulho em papel-alumínio. — Fiquem com isso.
O homem desembrulhou o pacote e encontrou um sanduíche gigantesco. Piscou para Cam e deu uma grande mordida, depois dividiu o restante entre os filhos. Enquanto eles comiam, abraçavam Cam em gratidão.
Depois que terminaram de comer, o menino mais velho — que parecia ter a idade de Bruce — ofereceu a Cam um violão detonado. Cam bagunçou o cabelo dele e depois se sentou entre a família. Tentou afinar o instrumento, mas Lilith percebeu que era inútil; duas cordas estavam rompidas. Mesmo assim, Cam não desistiu, e logo o violão soava um pouquinho melhor que antes.
— Algum pedido? — perguntou.
— Uma canção de ninar — pediu o menino mais novo, bocejando.
Cam pensou um instante.
— Aprendi esta aqui com uma compositora muito talentosa chamada Lilith — anunciou ele.
Quando ele começou a tocar os primeiros acordes de “Exílio”, Lilith respirou fundo. Cam cantou lindamente sua música, devagar e com grande emoção, fazendo com que alcançasse uma profundidade que ela nunca imaginara ser possível. Ele a cantou duas vezes. Quando terminou, as crianças do grupo estavam quase dormindo. Atrás deles, o pai aplaudiu Cam baixinho.
— Uau — sussurrou Jean.
— É — disse Lilith. Estava trêmula, quase chorando, tão emocionada que não conseguiu dizer mais nada.
— Melhor a gente ir — disse Luis.
Horas antes, Lilith tinha certeza de que havia riscado Cam de sua vida para sempre. Agora seguia os amigos até o carro de Jean, tonta, como se o mundo ao seu redor estivesse mudando a cada passo.
A única coisa de que tinha certeza era do quanto estivera errada em relação a Cam.

4 comentários:

  1. Finalmente! So falta Luc/Lucifer tentar fazer algo. Gente, tenho tanta pena do Cam!

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  2. eu preciso de um cam na minha vida <3 ele a ama tanto <3

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  3. mim diz aonde em consigo um cam na minha vida

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  4. Ain 😍 que lindo! Agora nós podemos ver o verdadeiro Cam , não o anjo ou o demônio, mas o Cam independente de tudo isso ❤

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Boa leitura :)