25 de março de 2017

Capítulo 10 - Mergulho lento

CAM
Oito Dias

No alto do céu, acima de Lilith, Cam abriu as asas e a observou lendo o bilhete que ele havia deixado na escrivaninha antiga. Ele roubara a peça de Chloe King (justamente de quem!), do sótão da casa da garota, na região abastada de Crossroads. Cam teria ido a Versalhes por um presente para Lilith, teria ido a qualquer lugar... mas naquele momento estava preso no Inferno dela, sendo assim, aquilo teria de servir.
Ele observou o modo como ela correu os dedos pelo papel diversas vezes. Observou-a cheirar as íris — sua flor favorita, como ele bem sabia — e depois sacar o caderno da mochila. Quando ela começou a compor uma nova canção, Cam sorriu. Foi justamente por imaginar aquilo que ele lhe deu a escrivaninha.
Foi bom simplesmente observar Lilith por algum tempo. Cam tinha a impressão de que a única coisa que havia feito desde que chegara a Crossroads fora consertar o impacto das intervenções de Lúcifer, todas destinadas a fazer Lilith odiá-lo um pouco mais. Ele não deveria reclamar — afinal, Lilith sofrera muito mais e por muito mais tempo que ele —, mas era difícil se aproximar quando ela raramente demonstrava alguma outra coisa que não fosse ódio por Cam.
Olhou para baixo, por entre as nuvens, e se deu conta de que, mesmo que despejasse presentes e bilhetes de amor em cima de Lilith todas as horas e todos os dias, não seria o suficiente. De vez em quando ele conseguia quebrar-lhe a resistência — naquele dia, por exemplo, o ensaio da banda havia sido ótimo —, e valorizava tais momentos. Entretanto, sabia que não durariam, que, no dia seguinte, Lúcifer encontraria um jeito de minar seu progresso e que o ciclo continuaria assim até o Inferno de Lilith expirar.
Ele havia rasgado o primeiro rascunho daquele bilhete, o qual a convidava para ao baile de formatura. Lilith se retraía rapidamente sempre que Cam a abordava com muita veemência. Ele guardaria o convite para depois — prepararia algo especial e a convidaria pessoalmente. Murmurou as palavras memorizadas da versão definitiva do bilhete, torcendo para que a palavra amor não a houvesse assustado.
Pensou em Daniel e Lucinda. Eles haviam personificado a palavra amor por muito, muito tempo, pelo menos no entendimento dos anjos caídos. Desejou que estivessem ali agora, encenando o papel do casal feliz que oferece conselhos sábios para um amigo em sofrimento.
Lute por ela, diriam eles. Mesmo quando tudo parecer perdido, não desista do amor.
Como Luce e Daniel haviam conseguido sustentar aquilo por tanto tempo? Isso exigia uma força que Cam não tinha certeza de possuir. A dor que sentia quando ela o rejeitava — e até então ela praticamente só o rejeitara o tempo inteiro — era excruciante. Entretanto, ele continuava insistindo.
Por quê?
Para salvá-la. Para ajudá-la. Porque ele a amava. Porque se desistisse...
Ele não podia desistir.


Quando o dia amanheceu, Cam disparou até a Trumbull. De asas abertas, pousou sobre uma alfarrobeira morta e viu o sol nascer por sobre uma nova estrutura gigantesca que havia sido montada no centro do campo de futebol americano. Sacudiu as cinzas que haviam caído em seu cabelo e se acomodou na ponta de um galho longo e resistente, a fim de ter uma visão mais privilegiada.
O anfiteatro semiconstruído fora inspirado no Coliseu romano. Apesar de ter apenas dois andares, possuía as mesmas características arquitetônicas: três fileiras de arcos de arquibancadas estilizadas circundando uma área tão grande quanto o refeitório. Cam entendeu no mesmo instante o que Lúcifer tinha em mente.
— Gostou? — perguntou Lúcifer, aparecendo na pele de Luc no galho atrás de Cam. Estava de óculos escuros para tolerar a luminosidade. Não enxergar os olhos do demônio deixava Cam inquieto.
— Aquilo ali é para o baile? — perguntou Cam.
— A King Media achou que os alunos mereciam um local grandioso para a batalha de gladiadores musicais — disse Luc. — É todo feito de cinzas, mas a aparência é monumental, não é? Nenhum arquiteto mortal seria capaz de projetá-lo. Que pena. Aquele tal de Gehry parecia promissor.
— Você quer ganhar um prêmio? — perguntou Cam.
— Ah, eu não recusaria um — disse Lúcifer. — E elogiar meu trabalho de vez em quando não o mataria. — O diabo tirou um espelhinho quadrado do bolso de trás da calça jeans e o mostrou a Cam.
Cam afastou o espelho. Não precisava olhar o próprio reflexo para saber o que veria. Àquela altura já conseguia sentir os efeitos da maldição que o demônio lançara em seu corpo. Ele estava horroroso, inchado, ridículo. As garotas da Trumbull, que no primeiro dia paravam de conversar só para olhá-lo passar no corredor, agora só percebiam a presença de Cam quando este parava no meio de seu caminho. Ele não estava acostumado a isso. Tal como ocorria a todos os outros anjos, a beleza sempre fora parte do pacote. Agora não mais.
Aquilo o incomodava, embora tentasse não demonstrar. Teria de enfrentar esse desafio e provar, de uma vez por todas, que era mais que apenas um rostinho bonito.
— Oooh. O bonitão está ficando acabado. — Lúcifer soltou uma gargalhada sombria. — Sempre fiquei na dúvida se você tinha alguma profundidade. Sem os músculos, o que as mulheres vão ver em você?
Cam tocou o local onde se acostumara a encontrar uma barriga firme e rija. Agora estava flácida, molenga. Sabia que o cabelo também rareava, que seu rosto estava inchado, e as bochechas, caídas. Nunca se considerara particularmente superficial; sua confiança sempre viera de dentro... mas será que ele seria capaz de atrair Lilith com aquela aparência?
— Lilith não se apaixonou por mim em Canaã por causa de minha beleza — disse Cam ao diabo. — Pode me deixar tão horrendo quanto quiser. Isso não vai impedi-la de se apaixonar por mim novamente. — Por dentro, no entanto, sentia-se mortalmente angustiado, temendo que aquilo não fosse verdade; mas jamais daria a Lúcifer a satisfação de saber que estava conseguindo desestabilizá-lo.
— Tem certeza? — A gargalhada irada do demônio fez um arrepio subir pela espinha de Cam. — Você tem oito dias para abrir o coração dela, e agora nenhum de seus antigos olhares sedutores vai fazer a cabeça de Lilith. Porém, se essa maquiagem amena que arquitetei não for um obstáculo, vai ficar feliz em saber que este não é o único truque que tenho guardado na manga.
— Claro que não é — murmurou Cam. — Seria fácil demais.
— Exato — disse Lúcifer, e semicerrou os olhos. — Ah, lá vem ela.
O diabo apontou por entre as árvores, para o local onde Lilith saltava do ônibus escolar, junto a uma garota que Cam não conhecia.
Lilith estava toda vestida de preto, exceto por uma echarpe colorida que trazia ao pescoço. Aquele dia tinha prendido o cabelo comprido numa trança colada à nuca, em vez de usá-lo solto, cobrindo o rosto. Desde que Cam chegara a Crossroads, jamais a vira tão feliz. Seu passo até estava mais lépido enquanto ela carregava o violão.
De início Cam sorriu, mas então um pensamento sombrio entrou em sua mente. E se ela se tornasse tão feliz aqui a ponto de perder a postura rebelde, o desejo de sair de Crossroads? E se ela acabasse gostando dali?
Saltou da árvore, escondeu as asas e tirou a camiseta de dentro da calça para disfarçar a barriga. Conseguia sentir os olhares dos alunos enquanto atravessava correndo o estacionamento.
— Lilith...
Porém, antes que Lilith escutasse, um Escalade vermelho arremeteu para a frente e Chloe King saiu do banco de trás, com uma mochila de couro de aparência cara pendurada no ombro. Suas colegas de banda tomaram a retaguarda, cada qual com uma mochila e com uma expressão parecidas.
— Oi, Lilith — disse Chloe.
Quando Cam se aproximou das duas, sentiu o perfume de Chloe, que tinha cheiro de bolo de aniversário e se acentuava com o odor de velas acesas que pairava no ar.
— Chloe — respondeu Lilith, com cautela.
— Queria saber se você não está a fim de ser o suporte técnico de minha banda durante a festa — pediu Chloe. — Como rainha da formatura, eu...
— Hã. Chloe... — June pigarreou. — Você ainda não foi escolhida rainha da formatura.
— Tudo bem. — Chloe retesou o maxilar. — Como membro da corte da formatura, terei muitas outras responsabilidades, e por isso preciso de alguém que afine as guitarras de minha banda.
— Não, Lilith não vai... — começou a dizer Cam.
— O que você está fazendo aqui? — Lilith virou-se depressa, ao perceber a presença de Cam.
Cam começou a explicar, mas Chloe o cortou:
— Lilith já me disse que não vai à festa. Imagino que seja porque nenhum cara a convidou e ela tenha medo de parecer ridícula se der as caras sozinha. Estou lhe fazendo um favor. Ela vai conseguir participar de um baile de formatura, mas não precisa parecer uma fracassada.
Cam sentiu o corpo se retesar. Queria esganar aquela menina, mas se conteve por causa de Lilith e ficou observando seu rosto, só esperando o momento em que as palavras de Chloe incitariam uma explosão de fúria. Todos esperavam o mesmo.
— Que tédio — reclamou June, verificando o celular.
Lilith ficou olhando para os pés durante vários segundos. Quando voltou a olhar para Chloe, a expressão era serena e calma.
— Não vai dar — disse Lilith.
Chloe franziu a testa.
— Você não pode ou não quer?
— Eu me inscrevi para a Batalha de Bandas — explicou Lilith. — Minha banda se chama Vingança.
Chloe virou a cabeça para a esquerda, onde estava a amiga Teresa.
— Você estava sabendo disso?
Teresa deu de ombros de leve.
— Eles não são páreo para a gente, relaxe.
— Não me diga pra relaxar! — vociferou Chloe. — Sua função é me manter atualizada sobre tudo que acontece em relação à formatura. — Ela piscou rapidamente e se virou de novo para Lilith. — Bem, enfim, não tem importância. Você vai poder tocar na sua “banda” mesmo assim. Seria só um freela para arrumar uma grana extra. — Ela sorriu e passou o braço pelo ombro de Lilith. — O que me diz?
— Quanto é a grana? — perguntou Lilith, e Cam de repente entendeu por que Lilith estava se dando ao trabalho de ter aquela conversa com Chloe. Sua família precisava de toda e qualquer grana extra que pudessem arranjar, por causa de Bruce.
Chloe pensou por um instante.
— Cem pilas.
— E o que eu teria de fazer? — perguntou Lilith.
— Vir aos nossos ensaios, afinar minha guitarra e checar as cordas, só isso — explicou Chloe. — Hoje tenho aula de pilates, mas amanhã vamos ensaiar lá em casa depois da aula.
Você merece mais que isso, Cam sentiu vontade de dizer. Você é talentosa demais para ser roadie de Chloe.
— Não, obrigada — disse Lilith.
— Você está dizendo não? — perguntou Chloe.
— Você é minha rival na competição — disse Lilith. — Preciso me concentrar em minha música para derrotá-las.
Chloe estreitou os olhos.
— Vou destruir todos os seus preciosos sonhozinhos. — Ela olhou para trás, depois para a direita. — Meninas? Vamos nessa.
Enquanto as integrantes da Desprezos Nítidos seguiam em fila atrás de sua líder, Cam tentava esconder o sorriso. Justamente quando sentia o peso de ter de amenizar os golpes de Lúcifer, Lilith havia se desvencilhado sozinha dos truques do diabo.
— Que foi? — perguntou ela. — Por que está me olhando com esse sorrisinho?
Cam balançou a cabeça.
— Não estou, não.
Ela indicou as portas de entrada da escola.
— Você não vem para a aula?
— Tsc — disse ele, deixando o sorriso escapar livremente. — Estou de muito bom humor para assistir à aula.
— Deve ser legal — comentou Lilith, enfiando uma mecha de cabelo atrás da orelha. — Estou tentando melhorar na escola, chegar no horário e tudo mais.
— Que bom — disse Cam. — Fico feliz.
— O que você vai fazer o dia inteiro?
Cam olhou para o céu, onde a fumaça preta das colinas subia em direção a um sol pálido e cinzento.
— Evitar encrenca.
— Ah, tá. — Lilith se demorou um pouco na frente dele, e Cam desfrutou daquele momento tranquilo, tentando não nutrir esperanças de conseguir mais que isso. Reprimiu a vontade de tocá-la, e, em vez disso, apenas admirou a curva ligeira de seu nariz, o redemoinho que fazia seu cabelo se desviar ligeiramente para a direita.
— Lilith... — começou a dizer.
— Recebi seu bilhete — interrompeu ela. — E as flores. E a escrivaninha. Jamais ganhei uma escrivaninha de presente. Muito original.
Cam deu uma risadinha.
— Mas o bilhete... — começou a dizer Lilith.
— Foi sincero — disse Cam, rapidamente. — Se era isso que você queria perguntar. Não espero nada em troca, mas foi sincero. Cada palavra.
Ela olhou para ele, os olhos azuis arregalados, os lábios entreabertos. Ele já tinha visto aquele olhar. Tinha sido cauterizado em sua memória no dia em que trocaram o primeiro beijo.
Cam fechou os olhos e se viu novamente ali, abraçando-a à margem do rio Jordão, sentindo o calor do seu corpo contra a pele, trazendo os lábios dela para junto dos seus. Ah, aquele beijo. Não houve êxtase maior. Num instante os lábios dela eram macios como uma pena, e, no seguinte, famintos de paixão. Ele não sabia o que esperar, e se deliciava a cada surpresa.
Precisava de mais um beijo. Ele a queria agora, de novo, sempre.
Abriu os olhos. Ela continuava ali, encarando-o, como não tivessem se passado três mil anos. Estaria ela sentindo aquilo também? Como poderia não sentir? Ele se inclinou para perto. Estendeu a mão para segurar-lhe a nuca. Ela abriu a boca...
E o sinal tocou.
Lilith deu um pulo para trás.
— Não posso chegar atrasada. Preciso ir.
— Espere...
Num segundo ela havia desaparecido, nada mais que um clarão de cabelos ruivos sumindo pela porta da escola. E Cam se via novamente sozinho, perguntando-se se um dia sentiria uma vez mais a delícia de seu beijo... ou se morreria de ânsia apenas com as lembranças, solitário por toda a eternidade.


Depois das aulas, Cam foi esperar Lilith na frente da porta de casa, com duas pesadas sacolas de compras. Passara a tarde na minúscula loja de produtos naturais da cidade, escolhendo itens estranhos e interessantes, que julgava serem do agrado dela. Abacate. Romã. Cuscuz marroquino. Alimentos que, imaginava, ela jamais poderia comprar.
Na verdade, ele também não podia comprá-los: roubou tudo quando o dono da loja não estava olhando. Mas qual era a pior coisa que poderia lhe acontecer — ir para o Inferno?
— Oi — gritou ele, quando Lilith veio caminhando pela trilha, de cabeça baixa sob o peso do violão e da mochila.
Ela não olhou para ele. Talvez não tivesse ouvido.
— Lilith! — gritou ele, mais alto. — Luis me disse que você estava vivendo à base de Doritos no café da manhã. Ele acha que é bom como combustível para tocar, mas você precisa de proteína, carboidratos complexos, antioxidantes, e eu vou ajudar.
— Cai fora, Cam — disse Lilith, sem nem olhar para ele enquanto subia os degraus do alpendre de casa. Tirou a chave da mochila e enfiou na fechadura.
— Hã? — balbuciou ele. — O que aconteceu dessa vez?
Ela hesitou, daí se virou para encará-lo. Os olhos estavam vermelhos de raiva.
— Isso. — Lilith abriu a mochila e sacou de lá uma pilha de fotocópias emboladas. Algumas folhas estavam dobradas, outras pisoteadas, e uma tinha um chiclete grudado.
Lilith atirou as páginas na cara de Cam. Ele apanhou uma enquanto ela esvoaçava até o chão e viu a letra da canção que haviam ensaiado no dia anterior, “Voando de cabeça para baixo”.
— É uma música ótima — disse ele. — Já falei isso. Qual é o problema?
— O problema? — repetiu Lilith. — Primeiro você inscreve minha letra na competição sem me pedir. Depois, sei lá como, me convence de que fez isso para o meu bem. Mas você não poderia parar por aí, poderia?
Cam ficou confuso.
— Lilith, o que...
Ela arrancou o papel da mão dele e o amassou numa bolinha.
— Não, claro! Você precisava tirar mil cópias da minha música e espalhá-las pela escola inteira.
De repente, Cam entendeu o que devia ter acontecido. Lúcifer percebeu que ele estava se aproximando dela e interferira.
— Espere, eu nunca... Não sei nem onde fica a máquina de xerox!
Lilith, entretanto, não o ouvia mais.
— Agora a escola inteira não só está crente que sou um monstro narcisista, como também odeia minha música. — Ela reprimiu um soluço. — Você devia ter ouvido as pessoas rindo. Chloe King quase teve um treco de tanto que se divertiu detonando minha letra. Mas você — ela olhou para ele, cheia de ódio —, você faltou à aula, né? Perdeu essa cena fantástica.
— Sim — respondeu Cam. — Mas se me deixar explicar...
— Não se preocupe. Tenho certeza de que vai ter um repeteco amanhã no refeitório, e aí vai poder participar. — Ela colocou a mochila no ombro e abriu a porta. — Já chega, Cam. Me deixe em paz.
Cam sentiu-se tonto, não só porque Lilith estava extremamente zangada com ele, mas também porque sabia o quanto devia ter sido horrível ver sua música pregada em todas as paredes da escola.
— Lilith — começou ele. — Eu nunca...
— O que é? Vai culpar Jean ou Luis? Você era a única outra pessoa que tinha uma cópia. — Quando olhou para Cam, lágrimas cintilavam nos cantos de seus olhos. — Você fez uma coisa hoje que jamais pensei que alguém conseguisse fazer. Você me fez sentir vergonha de minha música.
Cam ficou arrasado.
— Não sinta. Essa canção é muito boa, Lilith.
— Eu achava a mesma coisa. — Lilith enxugou os olhos. — Até você exibi-la para o mundo inteiro, nua e indefesa.
— E por que eu faria isso? — perguntou Cam. — Eu acredito nessa música. Acredito em você.
— O problema, Cam, é que eu não acredito em você. — Lilith entrou em casa e ficou encarando Cam pelo umbral da porta. — Leve essas compras ridículas e dê o fora daqui.
— As compras são para você — disse ele, colocando as sacolas na frente da porta. Faria Lúcifer pagar por isso, de alguma forma. As intervenções do demônio tinham ido longe demais. Estavam destruindo Lilith. — Eu vou embora.
— Espere — disse ela.
— Sim? — perguntou ele, virando-se. Algo na voz dela lhe deu esperanças. — O que foi?
— Você está fora da banda — anunciou Lilith. — De vez.

Interlúdio - Desintegração
TRIBO DE DÃ, NORTE DE CANAÃ
Aproximadamente 1000 A.E.C.

O céu do deserto cintilava estrelado quando Lilith apanhou sua lira. Roland estava sentado ao seu lado, num monte de feno, a flauta nos lábios. Todos os jovens de olhos brilhantes da vila haviam se reunido ao redor, esperando que o show começasse.
A festa tinha sido ideia de Cam, mas o show fora ideia de Lilith, uma prova de seu amor por ele. Mal conseguia esperar para se casarem, o que ocorreria na época da colheita. O namoro tinha sido rápido e apaixonado, e era evidente para todos que os dois tinham sido feitos um para o outro. Botões de íris decoravam o toldo de galhos que Lilith e as irmãs haviam trançado naquela tarde.
Roland tocou primeiro. Os olhos brilhavam enquanto ele enfeitiçava o público com sua flauta misteriosa, entoando uma canção triste e doce que deixou todos em clima de romance. Cam ergueu alto a taça de bronze, encostou-se em Lilith e sentiu o cheiro de sal na pele da garota.
O amor pairava palpavelmente no ar. Dani enlaçou Liat pela cintura, e ela requebrava devagarzinho com os olhos escuros fechados, saboreando a música. Atrás dela, Ariane repousava a cabeça no ombro de uma garota de cabelos cacheados chamada Tess.
Lilith tocou a canção seguinte. Era uma melodia intensa e memorável que improvisara no primeiro encontro com Cam. Quando terminou, e os aplausos arrefeceram, Cam a puxou para si e lhe deu um beijo profundo.
— Você é um milagre — sussurrou ele.
— Você também — respondeu Lilith, beijando-o novamente.
Sempre que os lábios dos dois se tocavam, era como se fosse a primeira vez. Ela estava impressionada com a maneira como sua vida tinha mudado depois que os olhos verdes de Cam brilharam sobre ela. Atrás de Lilith, Roland tinha começado a tocar de novo, e Lilith e Cam transformaram o beijo numa dança, valsando juntos sob as estrelas.
A mão de alguém apertou a de Lilith, e, ao se virar, ela viu que era Liat. As duas até então tinham sido cordiais uma com a outra, mas não exatamente amigas. Agora haviam se unido por causa dos namoros paralelos.
— Ah, você está aí! — disse Lilith, beijando Liat no rosto. Depois virou-se para cumprimentar Dani, mas algo na expressão dele a fez parar. Ele parecia tenso.
— Qual o problema? — quis saber Lilith.
— Nada — respondeu rapidamente, antes de virar-se e erguer sua taça. — Gostaria de propor um brinde — disse ele para a turma empolgada. — A Cam e Lilith!
— A Cam e Lilith! — repetiu a festa em coro, enquanto Cam passava um dos braços em volta da cintura da namorada.
Dani olhou para Liat.
— Vamos todos reservar um minuto para olhar a pessoa que amamos e dizer o quanto ela é especial.
— Pare, Dani — disse Cam, baixinho.
— O que foi? — perguntou Lilith. Até então, a noite fora a mais alegre de sua vida, mas o tom de Cam a deixou apreensiva. Ela olhou para as estrelas pulsando no céu e sentiu algo se modificar, uma energia sombria acumular-se sobre aquela reunião feliz.
Lilith acompanhou o olhar de Cam até Dani.
— Liat Lucinda Bat Chana — recitou Dani. — Digo seu nome para afirmar que você vive, você respira, você é uma maravilha. — Seus olhos se encheram de lágrimas. — Você é minha Lucinda. Você é amor.
— Oh, não — disse Ariane, abrindo caminho pela multidão.
Do outro lado da tenda, Roland começava a rumar até Dani também, afastando uma dúzia de homens do caminho. Eles o xingaram pela grosseria, e dois deles atiraram taças em sua cabeça.
Só que Cam não fez menção de ir até Liat e Dani: em vez disso, afastou Lilith o máximo que conseguiu da aglomeração quando...
Liat aproximou os lábios dos de Dani. Ele deixou escapar um soluço e virou o rosto para o lado.
Algo nele cedeu, como uma montanha caindo no mar.
Então fez-se um clarão: uma coluna de fogo se ergueu no lugar onde antes os amantes haviam estado.
Lilith viu as chamas, sentiu o cheiro da fumaça. O chão estremeceu, e ela caiu.
— Lilith! — Cam a tomou nos braços e saiu correndo em direção ao rio. — Você está salva — assegurou ele. — Tirei você de lá.
Lilith abraçou-o com força, os olhos cheios de lágrimas. Algo terrível havia acontecido com Liat. A única coisa que ela conseguia ouvir eram os gritos de Dani.


Depois que a lua ficou cheia, minguou e ficou cheia novamente, e o choque deu lugar ao luto resignado, a tribo voltou o foco das atenções para o casamento de Lilith, a fim de levantar os ânimos. As irmãs da noiva terminaram de tecer seu vestido especial de casamento. Os irmãos retiraram barris de vinho da caverna da família.
Numa curva escondida do rio Jordão, dois anjos caídos banhavam os corpos cintilantes ao sol, à margem coberta de lilases, depois de um mergulho de última hora.
— Tem certeza de que não quer que eu adie o casamento? — perguntou Cam, sacudindo o cabelo.
— Não, está tudo bem — respondeu Dani, forçando um sorriso. — Ela vai voltar. E, se seu casamento for hoje ou daqui a dois meses, que diferença fará?
Cam retirou seu robe mais refinado dos galhos de uma alfarrobeira e vestiu-se.
— Para ela, faz muita diferença. Ficará arrasada se eu sugerir adiar o casamento.
Dani olhou para o rio por um longo tempo.
— Terminei de redigir sua certidão ontem à noite. A tinta já deve estar seca a essa altura. — Ele se levantou e apanhou o robe. — Vou pegá-la.
Cam, sozinho por um instante, sentou-se e ficou olhando fixamente para o rio. Atirou uma pedrinha sobre as águas e maravilhou-se com o fato de as leis da natureza continuarem válidas mesmo num dia tão mágico quanto aquele.
Jamais sonhara em se casar. Até conhecer Lilith. O amor havia desabrochado tão depressa entre eles que era impressionante pensar no quanto ela ainda não sabia, no quanto Cam ainda teria de revelar...
Alguém abraçou seu pescoço, assustando-o. Mãos macias encontraram seu peito. Ele fechou os olhos.
Lilith começou a cantar baixinho, uma melodia que ele a escutara cantarolar durante semanas. Finalmente ela havia criado uma letra adequada à canção:

Te dou meus braços
Meus olhos
Minhas cicatrizes
E todas as minhas mentiras
E tu, que me darás?

— Essa é a coisa mais encantadora que já ouvi — disse Cam.
— É meu voto de casamento para você. — Ela apoiou a testa em sua nuca. — Gostou mesmo?
— Gosto de vinho, de boas roupas, do beijo gelado deste rio — disse Cam. — Em relação a esse voto não há palavra capaz de expressar como me sinto. — Ele virou a cabeça para afagá-la, e a viu pela primeira vez com seu vestido de noiva feito à mão. — Ou em relação a você. E a este vestido.
— Mais decoro — disse Dani, atrás deles. — Vocês ainda não estão casados. — Ele se ajoelhou diante dos amantes e desenrolou um pergaminho grosso.
— Que lindo — comentou Cam, admirando a escrita elegante de Dani em aramaico e as pinturas diáfanas que ele acrescentara nas margens, retratando Cam e Lilith numa dúzia de abraços.
— Espere um pouco — disse Lilith, franzindo as sobrancelhas. — Está escrito que vamos nos casar aqui, à margem do rio.
— E que lugar melhor? Foi aqui que nos apaixonamos. — Cam tentou manter um tom animado, embora o pavor tivesse tomado conta dele, pois sabia o que ela estava prestes a dizer.
Lilith respirou fundo, sopesando o que diria.
— Você e Dani ignoram as convenções e gosto disso. Mas vamos nos casar, Cam. Vamos entrar numa longa tradição, uma tradição que respeito. Quero me casar no templo.
O templo onde Cam não podia pôr os pés. E sentia muita vergonha em confessar o motivo para Lilith: que não podia pisar em solo consagrado por ser um anjo caído.
Ele devia ter lhe contado a verdade desde o início, mas, se o tivesse feito, teria sido o fim do romance, pois como alguém tão virtuosa quanto Lilith aceitaria Cam pelo que ele era?
— Por favor, Lilith — argumentou ele. — Tente imaginar um belo casamento à margem do rio...
— Eu lhe disse o que quero — retrucou Lilith. — Achei que tivéssemos concordado.
— Eu jamais concordaria em me casar no templo — disse Cam, tentando manter o tom firme para não se denunciar.
— Por que não? — perguntou Lilith, estupefata. — Que segredo você guarda?
Dani recuou um passo, a fim de deixar o casal a sós por um instante. Mesmo agora, Cam era incapaz de confessar que não era humano, que era diferente. Ele a amava tanto que não suportaria cair no conceito de Lilith; e isto iria acontecer caso contasse a verdade.
Virou-se para olhá-la, memorizando cada sarda, cada brilho do sol em seu cabelo, o azul caleidoscópico dos olhos.
— Você é a criatura mais maravilhosa que eu já vi na...
— Precisamos nos casar no templo — reiterou Lilith, enfaticamente. — Ainda mais depois do que aconteceu com Liat. Minha família e minha comunidade não honrarão um casamento realizado de nenhuma outra maneira.
— Não faço parte de sua comunidade.
— Mas eu faço — retrucou Lilith.
A comunidade jamais honraria aquela união caso descobrisse a verdade sobre Cam. Ele não havia pensado no assunto, esse era o problema. Estivera tão apaixonado que não havia ponderado sobre a quantidade de barreiras que existia entre eles.
Olhou com ódio para o templo.
— Ali eu não boto o pé.
Lilith estava à beira das lágrimas.
— Então você não me ama.
— Amo você mais que pensei ser possível — disse ele, com dureza. — Mas isso não muda nada.
— Não entendo — disse ela. — Cam...
— Acabou — declarou ele, de repente sabendo o que deveria fazer. Os dois deveriam seguir cada qual seu caminho, de coração partido. Não havia outro jeito. — Nós, o casamento, tudo.
Cam temperou aquelas palavras com amargura e, quando Lilith abriu a boca, ele ouviu mais ira que a proferida nas palavras. Aquele se tornaria seu lado da história: as palavras que precisava escutar para terminar tudo.
— Você está partindo meu coração — disse ela.
O subtexto que Cam ouviu, porém, foi: Você é um homem mau. Sei o que você é.
— Me esqueça — disse ele. — Encontre alguém melhor.
— Nunca — retrucou ela, sufocando um grito. — Meu coração é seu. Maldito seja você por não saber disso.
Cam sabia, contudo, que o que ela realmente queria dizer era: Espero viver mil anos e ter mil filhas para que sempre haja uma mulher para amaldiçoar seu nome.
— Adeus, Lilith — disse ele, com frieza.
Ela deu um grito de agonia, agarrou a certidão de casamento e a jogou no rio. Depois caiu de joelhos, chorando, o braço estendido em direção às águas, como se desejasse desfazer seus atos. Cam viu a última evidência do amor dos dois sumir junto à correnteza. Agora era Cam quem deveria sumir.


Nos dias e décadas sombrios que seguiram-se, sempre que Cam pensava em Lilith, se lembrava de algum detalhe horrível que nunca havia acontecido naquele dia à margem do rio.
Lilith cuspindo nele.
Lilith prendendo-o furiosamente no chão.
Lilith desistindo do amor dos dois.
Até a verdade — aquela que Cam se recusara a contar para ela — afundar embaixo da lembrança da fúria da garota. Até que, em sua cabeça, Lilith tivesse sido a responsável por abandoná-lo. Até ficar mais fácil viver sem ela.
Ele não se permitia lembrar das lágrimas lhe cortando o rosto, nem do modo como ela tocara na alfarrobeira, como se estivesse se despedindo. Ele aguardou até o sol se pôr e a lua nascer. Então abriu as asas, causando uma ventania que agitou a grama.
O Cam que deixou o rio Jordão naquela noite jamais voltaria novamente.

2 comentários:

  1. Esse Luc tá irritando, deixa o coitado feio e arruma intriga entre eles!
    E eu não consigo imaginar Cam feio. .. kkkkkk. ...

    Flavia

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  2. mano, eu daria uma daquele maluco q matou a mãe pro luc
    MORRE DIABO

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Boa leitura :)