25 de março de 2017

Capítulo 1 - Terra de ninguém

LILITH

Lilith acordou tossindo.
Era época das queimadas — sempre era época das queimadas —, e seus pulmões estavam repletos da fumaça e de cinzas do fogo que ardia nas colinas.
O despertador na mesinha de cabeceira indicava meia-noite, mas a luz cinzenta da manhã já entrava pelas cortinas brancas diáfanas. Provavelmente estava sem luz de novo. Ela lembrou-se da prova de biologia que a aguardava no quarto tempo e, logo em seguida, da infelicidade de ter trazido o livro de História Americana por engano para casa. De quem tinha sido a pegadinha cruel de lhe dar dois livros com lombadas de cores idênticas? Agora ela seria obrigada a encarar a prova sem estudar e rezar para tirar um C.
Saiu da cama e pisou em algo quente e macio. Recuou o pé para cima e o cheiro invadiu suas narinas.
— Alastor!
O cachorrinho de pelo aloirado entrou trotando no quarto, achando que Lilith queria brincar. Sua mãe chamava aquele cachorro de gênio por causa dos truques que o irmão, Bruce, lhe ensinara, mas Alastor tinha 4 anos e se recusava a aprender o único truque que realmente importava: fazer as necessidades lá fora.
— Isso é uma falta extrema de educação! — exclamou ela, dando uma bronca no cachorro e saltitando para o banheiro numa perna só. Abriu a torneira do chuveiro.
Nada.
A água só volta às 15h, proclamava o recado que a mãe escrevera numa folha solta e prendera com fita adesiva no espelho do banheiro. As raízes das árvores do quintal estavam se enrolando no encanamento, e naquela tarde sua mãe supostamente teria a grana para pagar o encanador, pois receberia o pagamento de um de seus vários empregos de meio-período.
Lilith procurou desajeitadamente o rolo de papel higiênico, na esperança de pelo menos conseguir limpar o pé, mas só encontrou o tubo de papelão vazio. Ai, ai. Mais uma típica terça-feira. Os detalhes podiam variar, mas todos os dias da vida de Lilith tinham mais ou menos o mesmo nível dantesco.
Arrancou o recado da mãe do espelho e o usou para limpar o pé, depois vestiu uma calça jeans preta e uma camiseta preta fina, sem olhar para seu reflexo no espelho. Tentou se lembrar de algum fiapo das aulas de biologia que pudesse cair na prova.
Quando desceu as escadas, Bruce derramava o resto de uma caixa de cereal diretamente na boca. Lilith sabia que aqueles flocos amanhecidos eram a única comida que ainda restava naquela casa.
— Acabou o leite — informou Bruce.
— E o cereal? — perguntou Lilith.
— Também. Acabou tudo. — Bruce tinha 11 anos e era quase tão alto quanto Lilith, porém bem mais magro. Estava doente. Desde sempre. Nasceu prematuro, e o coração não conseguia acompanhar o ritmo de sua alma, pelo menos era isso que a mãe de Lilith costumava dizer. Os olhos de Bruce eram fundos e a pele tinha um tom meio azulado, pois seus pulmões jamais conseguiam absorver a quantidade necessária de oxigênio. Quando os morros pegavam fogo, ou seja, todos os dias, bastava ele fazer um mínimo esforço e já começava a chiar. Ele passava mais tempo em casa, acamado, que na escola.
Lilith sabia que Bruce precisava mais que ela do café da manhã, mas, ainda assim, seu estômago roncou em protesto. Comida, água, produtos básicos de higiene — tudo era escasso na espelunca que chamavam de lar.
Ela olhou pela janela ensebada da cozinha e viu que o ônibus da escola estava indo embora. Soltou um gemido e apanhou o estojo do violão e a mochila, não sem antes verificar se seu caderninho preto estava ali dentro.
— Até mais, Bruce — despediu-se ela, e se foi.
Buzinas dispararam e pneus guincharam quando Lilith atravessou a rua correndo sem olhar para os lados, como sempre dizia para Bruce não fazer. Apesar de ter uma sorte terrível, ela nunca se preocupara com a possibilidade de morrer. Morrer seria libertar-se daquela rodinha de hamster que era sua vida, e Lilith sabia que não teria essa sorte. Que o Universo, ou Deus, ou sei lá o quê queria que ela continuasse presa naquele martírio.
Observou o ônibus se afastando, depois se pôs a caminhar os 5 quilômetros até a escola, o estojo do violão sacolejando às costas. Caminhou apressada pela rua, passando pelo pequeno centro de compras com a loja de badulaques e pelo restaurante chinês com drive-thru, que volta e meia fechava as portas.
Depois que se afastou alguns quarteirões de seu bairro decrépito, conhecido como O Cortição, as calçadas começaram a ficar mais planas, e as ruas, menos esburacadas. As pessoas que saíam para pegar o jornal na porta de casa usavam ternos, e não os robes atoalhados puídos dos vizinhos de Lilith. Uma mulher bem penteada, que passeava com um dogue alemão, acenou para ela desejando bom dia, mas Lilith não tinha tempo para amabilidades. Enfiou-se no túnel de concreto dos pedestres, que havia embaixo da autoestrada.
A Escola Preparatória Trumbull ficava na esquina da High Meadow Road com a Highway 2 — trecho que Lilith associava basicamente às idas estressantes ao pronto-atendimento quando Bruce adoecia demais. Enquanto disparavam na minivan roxa da mãe, com o irmão arfante junto ao ombro, Lilith ficava olhando pela janela, para as placas verdes na lateral da autoestrada que indicavam a distância dali a outras cidades. Muito embora nunca tivesse visto muito (ou melhor, nada) fora de Crossroads, ela gostava de imaginar o vasto mundo grandioso que existia além. Gostava de imaginar que um dia, se chegasse a se formar, fugiria para algum lugar melhor.
O último sinal estava tocando quando ela emergiu do túnel em frente ao perímetro escolar. Tossia, seus olhos ardiam. As queimadas nas colinas que rodeavam sua cidade haviam envolvido a escola em fumaça. O prédio de estuque marrom, que já era horroroso, parecia ainda pior graças aos cartazes feitos pelos alunos e colados nas paredes. Um deles anunciava o jogo de basquete do dia seguinte, outro informava os detalhes da reunião que aconteceria depois das aulas a fim de organizar a feira de ciências, mas a maioria apenas mostrava fotos de um atleta chamado Dean, devidamente extraídas do anuário e depois ampliadas. O tal Dean queria angariar votos e ser eleito o rei do baile de formatura.
Junto à entrada principal da Trumbull estava o diretor Tarkenton. Ele, que mal chegava a 1,5 metro de altura, trajava um terno de poliéster vinho.
— Atrasada de novo, Srta. Foscor — censurou ele, observando-a com desgosto. — Já não vi seu nome na lista de detenção dos atrasados ontem?
— Essa coisa de detenção é engraçada — comentou Lilith. — Parece que aprendo mais olhando fixamente para uma parede do que jamais aprendi nas aulas.
— Vá já para a sala — disse Tarkenton, dando um passo na direção de Lilith. — E, se você causar um segundo de problema que seja para sua mãe na aula de hoje...
— Minha mãe está aqui? — Lilith engoliu em seco.
A mãe trabalhava como professora substituta na Trumbull alguns dias por mês, única razão pela qual conseguia bancar Lilith naquela escola particular. Lilith nunca sabia quando toparia com a mãe esperando por ela no refeitório, ou retocando o batom no banheiro feminino. Ela jamais revelava a Lilith quando daria o ar da sua graça na Trumbull, e nunca oferecia carona para a filha até a escola.
Era sempre uma surpresa terrível, mas pelo menos Lilith jamais topara com a mãe em alguma de suas aulas.
Até hoje, pelo visto. Gemeu e entrou na escola, sem saber em qual das aulas veria a mãe.
Foi poupada na primeira aula. A Sra. Richards já tinha terminado a chamada e listava furiosamente no quadro-negro maneiras de os alunos ajudarem na campanha inútil que ela criara para tentar inserir o hábito da reciclagem na escola. Quando Lilith entrou, a professora balançou a cabeça em silêncio, como se simplesmente estivesse cansada do costumeiro atraso de Lilith.
Lilith acomodou-se no lugar, colocou o estojo do violão aos seus pés e sacou o livro de biologia que acabara de apanhar em seu armário. Ainda teria dez minutos preciosos naquela primeira aula, que não passava de uma espécie de sessão de avisos, e precisava deles para se sair bem na prova.
— Sra. Richards — disse a garota ao lado de Lilith, olhando feio para ela. — Tem um cheiro horroroso aqui dentro.
Lilith revirou os olhos. Ela e Chloe King eram inimigas desde o ensino fundamental, muito embora Lilith não se lembrasse bem do porquê. Lilith não representava nenhuma ameaça àquela linda garota rica do último ano. Chloe era modelo da Crossroads Apparel e vocalista de uma banda de música pop chamada Desprezos Nítidos. Além disso, também era presidente de no mínimo metade dos clubes extracurriculares da Trumbull.
Depois de mais de uma década enfrentando a nojenta da Chloe, Lilith já estava acostumada com a constante saraivada de ataques. Se estava num dia bom, simplesmente os ignorava. Naquele, concentrava-se nos genomas e fonemas do livro e tentava fingir que Chloe não estava ali. Porém, os outros alunos ao redor de Lilith também começaram a tapar o nariz. O garoto na sua frente fingiu que ia vomitar.
Chloe remexeu-se na cadeira.
— Essa é sua ideia barata de perfume, Lilith, ou você cagou nas calças mesmo?
Lilith lembrou-se do “presente” que Alastor tinha deixado ao lado de sua cama e do banho que não pudera tomar, e sentiu as bochechas ardendo de vergonha. Apanhou suas coisas e saiu apressada da sala, ignorando as advertências da Sra. Richards, entrou então no banheiro.
Lá dentro, sozinha, encostou-se na porta vermelha e fechou os olhos. Queria ficar escondida ali o dia inteiro, mas sabia muito bem que, assim que o sinal tocasse, o banheiro se encheria de meninas.
Obrigou-se a ir até a pia. Abriu a água quente, tirou o sapato, enfiou o pé sujo na pia e bombeou o sabonete cor-de-rosa barato nele. Então olhou para cima, esperando ver seu reflexo infeliz, mas em vez disso viu um cartaz reluzente, pregado no espelho com fita adesiva. Vote em King para Rainha, dizia a chamada abaixo de uma foto profissional de uma Chloe King sorridente.
A formatura seria no fim daquele mês, e todos os alunos da escola, menos ela, pareciam doidos com a expectativa. Lilith já vira centenas daquele tipo de cartaz nos corredores. A caminho das aulas, passara por garotas mostrando umas às outras em seus celulares fotos dos buquês de pulso que sonhavam ganhar de seus acompanhantes. Ouvira gracejos dos garotos comentando o que aconteceria depois da festa. Tudo aquilo fazia Lilith sentir vontade de vomitar. Ainda que tivesse dinheiro para comprar um vestido, e ainda que houvesse algum garoto com quem desejasse ir à festa, ela jamais colocaria os pés na escola sem que isso fosse absolutamente necessário.
Arrancou o cartaz de Chloe do espelho e o utilizou para limpar seu sapato por dentro, depois o atirou na pia e deixou a água correr até o rosto de Chloe não passar de polpa molhada.


Na aula de literatura, o Sr. Davidson estava tão entretido anotando o Soneto 20 de Shakespeare no quadro que nem notou o atraso de Lilith. Ela sentou-se cautelosamente, observando os outros alunos e esperando que alguém torcesse o nariz ou tivesse ânsia de vômito, mas felizmente eles só pareciam notar sua presença quando precisavam que passasse bilhetinhos adiante. Paige, a menina esportista loira sentada à esquerda de Lilith, dava-lhe um cutucão e depois deslizava um papelzinho dobrado sobre sua mesa. Não tinha nome, mas Lilith sabia, claro, que não era para ela: era para Kimi Grace, a meio coreana, meio mexicana descolada que se sentava à sua direita. Lilith já havia passado bilhetinhos suficientes entre as duas para ter noção dos planos de ambas para a festa da formatura — a festa de arromba que haveria depois e a limusine de quinze lugares que iriam alugar com o dinheiro acumulado de várias mesadas. Lilith nunca recebia mesada. Se sobrava algum dinheiro em casa, ia diretamente para as despesas médicas de Bruce.
— Certo, Lilith? — perguntou o Sr. Davidson, fazendo Lilith estremecer de medo. Ela enfiou o bilhetinho por baixo da carteira para que ele não o visse.
— Será que o senhor poderia repetir? — pediu Lilith, que não queria chatear o Sr. Davidson. A aula de literatura era a única da qual gostava, basicamente porque ali ela se dava bem e o Sr. Davidson era o único professor que parecia gostar de verdade do seu trabalho. Inclusive ele havia gostado de algumas das letras de música que Lilith escrevera para as lições de casa. Ela ainda guardava a folha de papel onde o Sr. Davidson havia escrito apenas Uau! abaixo da letra de uma canção à qual ela intitulara “Exílio”.
— Eu disse que espero que você tenha se inscrito para se apresentar no sarau — disse o Sr. Davidson.
— Ah, sim, claro — murmurou Lilith, mas não tinha se inscrito e nem esperava se inscrever. Ela nem sabia quando seria o sarau.
Davidson sorriu, satisfeito e surpreso. Virou-se para o restante da classe e declarou:
— Então todos nós temos motivo para ficar ansiosos!
Assim que Davidson virou-se para escrever no quadro, Kimi Grace cutucou Lilith. Quando ela olhou nos belos olhos negros de Kimi, por um instante ficou sem saber se Kim gostaria de conversar sobre a apresentação, se a ideia de ler seus poemas na frente de uma plateia também a deixava tensa. A única coisa que Kim queria de Lilith, porém, era o bilhetinho que estava em sua mão.
Então suspirou e o entregou a ela.


Lilith tentou matar a aula de educação física a fim de estudar para a prova de biologia, mas, é claro, foi pega com a boca na botija e teve de correr em volta da quadra, usando o uniforme de educação física e os coturnos. A escola não oferecia tênis aos alunos, e sua mãe jamais tivera dinheiro para comprar um par para Lilith, por isso o som dos pés dando voltas ao redor dos outros alunos — que jogavam vôlei na quadra esportiva — era ensurdecedor.
Todo mundo a olhava. Ninguém precisava dizer em voz alta a palavra bizarra, mas ela sabia que era o que estava se passando pela cabeça de todos.
Quando finalmente chegou à aula de biologia, Lilith estava destruída, exausta. E foi lá que encontrou a mãe. Vestida com uma saia verde-limão e com o cabelo preso num coque apertado, ela entregava as folhas da prova aos alunos.
— Ah, que beleza — resmungou Lilith.
— Shhhhhh! — interrompeu uma dúzia de alunos.
A mãe de Lilith era alta e morena, dona de uma beleza angulosa. Já Lilith tinha a pele clara e o cabelo tão ruivo quanto o fogo nas colinas. Seu nariz era menor que o da mãe, seus olhos e boca menos refinados, e as maçãs do rosto eram mais proeminentes.
A mãe dela sorriu.
— Poderia sentar-se, por favor?
Como se não soubesse o nome da própria filha!
A filha, porém, sabia o nome dela.
— Claro, Janet, pode deixar — retrucou Lilith, acomodando-se numa carteira vazia na fileira mais próxima da porta.
Sua mãe olhou feio para ela, depois sorriu e desviou o olhar.
Retribua o mal com a bondade era uma das frases preferidas de sua mãe, pelo menos em público. Em casa, porém, era diferente. A mãe culpava Lilith por tudo que odiava na própria vida, porque, quando Lilith nascera, ela era linda, tinha 19 anos e um futuro maravilhoso à espera. Quando Bruce nasceu, a mãe já estava suficientemente recuperada do trauma de Lilith para se comportar como uma legítima mãe. O fato de o pai deles estar fora da jogada — ninguém sabia para onde havia ido — dava à mãe ainda mais motivo para viver e morrer pelo filho.
A primeira página da prova era uma tabela a ser preenchida com genes dominantes e recessivos. A garota à sua esquerda começou a completar as caixinhas rapidamente. Mas de repente Lilith não conseguia se lembrar de nada que aprendera naquele ano inteiro. A garganta coçava e ela sentia o suor se acumulando na nuca.
A porta da sala estava aberta. Lá fora devia estar mais fresco. Praticamente antes de se dar conta de seu gesto, Lilith já estava no corredor, a mochila em uma das mãos e o estojo do violão na outra.
— Sair da sala sem autorização significa detenção automática! — gritou Janet. — Lilith, ponha esse violão no chão e volte aqui!
A experiência de Lilith com figuras de autoridade lhe ensinara a ouvir com atenção o que lhe diziam... e depois fazer exatamente o contrário.
Ela saiu em disparada pelo corredor e se mandou da escola, ainda correndo.


Lá fora, o ar estava quente e esbranquiçado. Cinzas desciam em espirais do céu e pousavam no cabelo de Lilith e na grama verde-acinzentada e seca. O jeito mais discreto de deixar o perímetro da escola era por uma das saídas localizadas atrás do refeitório, as quais levavam a uma pequena área de chão de cascalho, onde os alunos almoçavam quando o tempo estava bom. A área ficava “protegida” por uma cerca de alambrado que era razoavelmente fácil de se escalar.
Ela pulou a cerca e depois parou. O que estava fazendo? Abandonar uma prova ministrada pela própria mãe era uma péssima ideia. Não haveria como escapar da punição. Agora, entretanto, era tarde demais.
Se continuasse por aquele caminho, terminaria parando no quintal de sua casa enferrujada e caindo aos pedaços. Não, obrigada. Olhou para os poucos carros que passavam pela autoestrada, depois virou-se e atravessou o estacionamento no lado oeste da escola, onde as alfarrobeiras cresciam altas e robustas.
Entrou no bosque e rumou em direção à margem sombreada e escondida do riacho da Cascavel. Enfiou-se por entre dois galhos pesados na margem e soltou um suspiro profundo. Aquilo era um santuário. Bem, de certa forma. Era o que se podia chamar de natureza na minúscula cidadezinha de Crossroads, pelo menos.
Lilith encostou o estojo do violão no lugar de sempre, numa curva de um tronco de árvore, apoiou os pés sobre uma pilha de folhas alaranjadas secas e deixou que o som do riacho correndo sobre o leito de cimento a relaxasse.
Já tinha visto fotos de lugares “lindos” nos livros de escola — as cataratas do Niágara, o monte Everest, as cachoeiras do Havaí —, mas gostava mais do riacho da Cascavel que de qualquer uma daquelas paisagens, porque não conhecia ninguém além de si que achasse aquele bosquezinho de árvores mirradas bonito.
Abriu o estojo e sacou o violão. Era um Martin 000-45 laranja-escuro, com uma rachadura ao longo do corpo. Alguém de sua rua o tinha jogado no lixo, e Lilith não podia se dar ao luxo de ser exigente. Além disso, achava que aquele defeito deixava o som do instrumento mais encorpado. Dedilhou as cordas e, à medida que os acordes foram preenchendo o ar, sentiu como se a mão invisível de alguém a estivesse acalmando. Sempre que tocava, sentia-se rodeada pelos amigos que não possuía.
Como seria conhecer alguém com o mesmo gosto musical que o dela? Alguém que não achasse que os Quatro Cavaleiros cantavam como “cachorros açoitados”, como certa vez uma líder de torcida descrevera a banda preferida de Lilith? O sonho de Lilith era ir a um show deles, mas era impossível sequer imaginar isso. Eles eram famosos demais para tocarem em Crossroads. E, mesmo que um dia tocassem lá, como Lilith poderia bancar o preço do ingresso se sua família mal tinha dinheiro suficiente para comprar comida?
Ela mal percebeu quando começou a criar uma música. Não estava concluída ainda — era só sua tristeza misturada ao som do violão —, mas alguns minutos depois, quando parou de cantar, alguém começou a aplaudir de trás de uma árvore.
— Ei. — Lilith virou-se e ficou cara a cara com um garoto de cabelos escuros, encostado numa árvore ali perto. Ele usava jaqueta de couro preta, e sua calça jeans escura desaparecia dentro dos coturnos velhos.
— Oi — cumprimentou ele, como se a conhecesse.
Lilith não respondeu. Eles não se conheciam. Por que ele estava puxando papo com ela?
Ele a observava intensamente, olhar penetrante.
— Você continua linda — elogiou ele, baixinho.
— E você... é bizarro — retrucou Lilith.
— Não me reconhece? — Ele pareceu decepcionado.
Lilith deu de ombros.
— Não, não assisto ao programa Mais procurados do país.
O garoto olhou para baixo, riu e em seguida apontou para o violão.
— Não tem medo de que isso aí piore?
Ela estremeceu, confusa.
— Isso o quê? Está falando de minha música?
— Sua música foi uma revelação — disse ele, afastando-se da árvore e caminhando até ela. — Estava falando da rachadura em seu violão.
Lilith observou o modo relaxado como ele se movimentava; à vontade, sem pressa, como se ninguém nunca o tivesse deixado inseguro em relação a qualquer coisa. Ele parou bem na frente dela e deslizou do ombro uma mochila de lona. A alça aterrissou sobre o coturno de Lilith, e ela a ficou olhando, como se o garoto a tivesse colocado ali de propósito, só para incomodá-la. Chutou-a para longe.
— Não, não tenho. Eu tomo cuidado. — Aninhou o violão entre os braços. — Nesse momento, a proporção entre rachadura e violão está ideal. Se um dia ele se tornar mais rachadura que violão, então sim, pode piorar.
— Bem, pelo jeito parece que você já pensou em tudo. — O garoto encarou Lilith por tempo o suficiente para incomodá-la. Seus olhos eram de um fascinante tom de verde. Estava na cara que ele não era dali. Lilith não tinha certeza se um dia conhecera alguém que não fosse de Crossroads. Ele era lindo e misterioso, portanto bom demais para ser verdade. Ela o odiou imediatamente.
— Esse lugar aqui é meu. Pode ir dando o fora, vá encontrar o seu — disse ela.
Entretanto, em vez de obedecer, ele sentou-se. Ao lado dela. Pertinho. Como se os dois fossem amigos. Ou algo mais.
— Você costuma tocar com alguma outra pessoa? — perguntou o garoto.
Ele inclinou a cabeça. Lilith viu de relance uma tatuagem em formato de estrela em seu pescoço e se flagrou prendendo a respiração.
— Tocar como? Fazer um som? Tipo numa banda? — Ela balançou a cabeça. — Não. Mas isso não é de sua conta. — Aquele cara estava invadindo seu pedaço, interrompendo o único momento que ela reservara para si. Ela queria que ele fosse embora.
— Que acha de Os Diabretes? — perguntou ele.
— Como assim?
— Como nome de banda.
O instinto de Lilith era levantar e ir embora, mas ninguém jamais conversara com ela sobre música.
— E que tipo de banda é essa?
Ele apanhou uma folha de alfarrobeira do chão e a avaliou, revirando o caule entre os dedos.
— Você é que sabe. A banda é sua.
— Não tenho banda — retrucou ela.
Ele ergueu uma sobrancelha escura.
— Talvez esteja na hora de ter.
Lilith nunca se atrevera a imaginar como seria tocar numa banda de verdade. Transferiu o peso do corpo para o outro lado, a fim de abrir mais espaço entre eles.
— Meu nome é Cam.
— E o meu é Lilith. — Ela não sabia direito por que parecia algo tão monumental revelar o nome para aquele garoto, mas parecia. Desejava que ele não estivesse ali, que não a tivesse ouvido tocar. Ela não dividia suas músicas com ninguém.
— Adoro esse nome — disse Cam. — Combina com você.
Agora realmente estava na hora de dar o fora. Ela não sabia o que aquele cara queria, mas com certeza coisa boa não era. Apanhou o violão e levantou-se.
Cam tentou impedi-la.
— Para onde você vai?
— Por que você está conversando comigo? — quis saber Lilith. Havia alguma coisa nele que fazia seu sangue ferver. Por que estava enchendo o saco dela em seu esconderijo? Quem ele achava que era?
— Você não me conhece. Me deixe em paz.
O jeito direto de Lilith, em geral, incomodava as pessoas, mas não aquele cara. Ele deu uma risada baixinha.
— Estou conversando com você porque você e sua música foram as coisas mais interessantes que encontrei em séculos.
— Então sua vida deve ser um tédio — comentou Lilith, e começou a se afastar. Teve de fazer força para não olhar para trás. Cam não perguntou para onde ela ia nem pareceu surpreso por estar abandonando a conversa pela metade.
— Ei! — chamou ele.
— Ei o quê? — Lilith nem se deu ao trabalho de virar-se. Cam era o tipo de garoto que magoava garotas bobas o bastante para deixá-lo fazer isso. E se tinha uma coisa que ela não precisava, era de mais mágoa em sua vida.
— Eu também toco — disse ele, quando ela começou a sair do bosque. — A gente só precisaria de um baterista.

3 comentários:

  1. Essa Lilith é sortuda ne?
    Não vou nem zoar!!
    A menina já acorda pisando na bosta kkk
    Se eu fosse ela nem desmaiava a ver o Cam *u*

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    1. Como ele pode ama-la?!,se pode amar a mim?!, mas se for faze-lo feliz neh😬😳😍😭

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Boa leitura :)