22 de fevereiro de 2017

Prefácio

“... Oxford, onde o real e o irreal colidem nas ruas; onde a avenida North Parade fica ao sul, e a South Parade, ao norte, onde o Paraíso está perdido sob uma estação de bombeamento1; onde a bruma do rio tem um efeito solvente e vivificante sobre as pedras das antigas edificações, permitindo que as gárgulas desçam à noite e lutem com as que vêm de Wykeham, ou pesquem sob as pontes, ou simplesmente modifiquem suas expressões ao longo da noite; Oxford, onde as janelas se abrem para outros mundos...”
Oscar Baedecker, O litoral de Bohemia

ESTE LIVRO contém uma história e diversas outras coisas. As outras coisas podem ou não estar relacionadas à história, mas podem também estar ligadas a histórias que ainda não apareceram. Não é fácil saber. Mas é fácil imaginar como podem ter aparecido, no entanto. O mundo está cheio de coisas assim: velhos cartões-postais, programas de peças teatrais, folhetos sobre como preparar um porão à prova de bombas, cartões de felicitações, álbuns fotográficos, guias de férias, manuais de instruções para ferramentas mecânicas, mapas, catálogos, horários de ferrovias, cardápios de navios de cruzeiros há muito desaparecidos — todos os tipos de coisas que um dia tiveram uma finalidade real e útil, mas que agora acabaram abandonadas pelas funções e pessoas às quais um dia foram ligadas.
Podem ter vindo de qualquer lugar. Podem ter vindo de outros mundos. Aquele mapa rabiscado, o catálogo de uma certa editora — podem ter sido deixados de lado distraidamente em um outro universo e trazidos pelos ventos do acaso através de uma janela aberta, para encontrarem-se, depois de muitas aventuras, na barraquinha de um mercado de pulgas do nosso mundo.
Todos esses cacos velhos e gastos têm uma história e um significado. O conjunto deles pode ser parecido com os traços deixados por uma partícula ionizada em uma câmera de bolhas: eles traçam a linha do percurso de algo por demais misterioso para ser visto. Esse percurso é uma história, é claro. O que os cientistas fazem ao analisar a linha deixada pelas bolhas na tela é desenvolver a história da partícula que as criou: que tipo de partícula deve ter sido e o que fez com que se movimentasse daquela determinada maneira, e por quanto tempo provavelmente prosseguiria.
Esse tipo de história era familiar para a Dra. Mary Malone, que se deparava com coisas assim ao longo de suas pesquisas em busca da matéria escura. Mas talvez não lhe ocorresse, por exemplo, que, ao enviar um cartão-postal para uma velha amiga logo após chegar a Oxford pela primeira vez, o próprio cartão deixaria o traçado de uma história que ainda não tinha acontecido quando foi escrito. Talvez algumas partículas se movam para trás no tempo; talvez o futuro afete o passado de alguma maneira que não compreendemos, ou talvez o universo simplesmente esteja mais consciente do que nós. Existem muitas coisas que ainda não aprendemos a ler.
A história contada neste livro é, em parte, exatamente sobre este processo.


1 As velhas casas da praça Paradise foram demolidas para a construção de um prédio comercial, na verdade, e não uma estação de bombeamento. Mas Baedecker, com todo o seu charme caprichoso, é, notoriamente, um guia pouco confiável.

2 comentários:

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Boa leitura :)