22 de fevereiro de 2017

Lyra e os pássaros


ULTIMAMENTE, Lyra nem sempre saía pela janela do seu quarto para escalar o prédio.
Ela tinha uma maneira melhor de chegar ao telhado da Faculdade Jordan: o Porteiro dera-lhe uma chave que a permitia chegar ao telhado pela Torre da Portaria. Ele deixou que ela ficasse com a chave porque estava muito velho para subir os degraus e inspecionar a cantaria e o revestimento de chumbo do telhado quatro vezes por ano, como era sua obrigação. Assim, ela fazia um relatório completo, que ele transmitia ao Tesoureiro e, em troca, ela podia subir para o telhado sempre que quisesse.
Quando se deitava sobre o chumbo, não podia ser vista de nenhum outro lugar, a não ser do céu. Um estreito parapeito cercava o telhado quadrado, e Pantalaimon muitas vezes se enroscava em sua forma de marta contra as falsas ameias do canto, voltadas para o sul, e cochilava enquanto Lyra ficava sentada mais abaixo, as costas contra as pedras tomadas pelo sol, estudando os livros que levara consigo. Algumas vezes, ficavam parados observando as cegonhas que tinham feito ninhos na Torre St. Michael, logo do outro lado da Rua Turl. Lyra tinha um plano para atraí-las para a Jordan, e até mesmo tinha arrastado várias tábuas telhado acima e tivera o trabalho de pregá-las para fazer uma plataforma, exatamente como haviam feito em St. Michael; mas não funcionou. As cegonhas eram leais a St. Michael e ponto final.
— Elas não ficariam mesmo por muito tempo se continuássemos a vir aqui — disse Pantalaimon.
— Nós poderíamos domesticá-las. Aposto que conseguiríamos. O que elas comem?
— Peixe — ele chutou. — Sapos.
Ele estava deitado sobre o parapeito de pedra, alisando preguiçosamente seu pelo dourado.
Lyra se levantou para se inclinar sobre a pedra ao lado dele, os membros tomados pelo calor, e olhou para o sudeste distante, onde uma enevoada linha verde de árvores subia acima das torres e telhados, em meio ao ar matinal.
Ela esperava pelos estorninhos. Naquele ano, um número extraordinário deles tinha vindo se empoleirar no Jardim Botânico e, todas as manhãs, levantavam voo das árvores e subiam como fumaça, rodopiando, girando e disparando pelo céu acima da cidade, aos milhares.


— Milhões — disse Pan.
— Talvez, facilmente. Não sei como alguém poderia contá-los. Lá vão eles!
Não se pareciam com passarinhos separados, ou mesmo pontos pretos únicos contra o azul; o bando inteiro, por si só, era um indivíduo. Era como uma única peça de tecido, cortada de maneira muito complexa, de forma a balançar-se através de si mesma, dobrando-se e esticando em três dimensões, sem nunca ficar embolada, virando do avesso e oscilando e cruzando e caindo  e subindo e caindo de novo, elegantemente.
— Se estivessem dizendo alguma coisa... — Lyra disse.
— Como uma sinalização.
— Mas, ninguém ia saber. Ninguém jamais saberia o que significa.
— Talvez não signifique nada. Apenas é assim mesmo.
— Tudo tem algum significado — Lyra respondeu severamente. — Apenas temos que descobrir como ler.
Pantalaimon saltou sobre um intervalo no parapeito até a pedra do canto e ficou em pé sobre as patas traseiras, balançando seu rabo e fitando mais intensamente o enorme bando rodopiante nos limites mais distantes da cidade.
— Qual é o significado, então? — ele perguntou. Ela sabia exatamente a que ele se referia.
Ela também observava. Alguma coisa perturbava ou se intrometia no movimento incessante dos estorninhos, semelhante à fumaça ou a uma bandeira, como se aquele miraculoso tecido multidimensional não conseguisse se livrar de um nó.
— Eles estão atacando alguma coisa — Lyra disse, fazendo sombra nos olhos com as mãos.


E se aproximavam. Lyra agora também já conseguia escutá-los: um som agudo, intenso, raivoso e descontrolado. O pássaro, no centro do redemoinho enfurecido, disparava para a direita e para a esquerda, um minuto voando para cima e depois mergulhando e quase chegando aos telhados, e, ao chegar próximo à torre da Igreja da Universidade, antes mesmo que pudessem identificar que tipo de pássaro era, Lyra e Pan foram abalados pela surpresa. Pois não era um pássaro, ainda que tivesse a forma de um; era um dimon. O dimon de uma feiticeira.
— Alguém mais viu? Tem alguém olhando? — Lyra perguntou.
Os olhos pretos de Pan varreram todos os telhados e janelas à vista, enquanto Lyra se inclinava para fora e olhava de um lado para outro da rua e depois para as outras três direções, para o largo quadrado diante da Faculdade Jordan e percorrendo também o telhado. Os cidadãos de Oxford seguiam suas rotinas cotidianas, e o barulho dos pássaros no céu não interessava o suficiente para incomodá-los. Melhor assim: pois um dimon era reconhecido instantaneamente pelo que era, e ver um deles sem seu humano causaria uma comoção, se não chegasse a provocar um tumulto de medo e horror.
— Ah! Por aqui, por aqui! — Lyra falava com alarme, sem querer gritar, mas pulando e abanando as duas mãos; Pan também tentava atrair a atenção do dimon, pulando de uma pedra para outra, movendo-se agilmente sobre os espaços entre as pedras, girando e pulando de volta.
Os pássaros agora estavam mais próximos, e Lyra podia ver o dimon nitidamente: um pássaro escuro do tamanho de um melro, mas com longas asas arqueadas e um rabo bifurcado. O que quer que tivesse feito para enfurecer os estorninhos, eles estavam possessos de medo e fúria, lançando-se sobre ele, golpeando, lacerando, tentando derrubá-lo.
— Por aqui! Aqui, aqui! — Pan gritava, e Lyra escancarou o alçapão para abrir um caminho de fuga para o dimon.
O barulho, agora que os estorninhos estavam praticamente acima deles, era ensurdecedor, e Lyra achou que as pessoas lá embaixo estariam olhando para cima, para ver essa guerra no céu.
E eram tantos pássaros, densos como flocos em uma tempestade de neve negra, que Lyra, com o braço sobre a cabeça, perdeu o dimon de vista no meio deles.
Mas Pan o pegou. Assim que o dimon-pássaro mergulhou em direção à torre, Pan ficou sobre as patas de trás e pulou para segurar o dimon pelas garras, rolando com ele várias vezes, em direção ao alçapão, por onde caíram atrapalhadamente enquanto Lyra lutava com os punhos para a direita e esquerda, despencando depois atrás dos dois dimons e arrastando a tampa do alçapão para fechá-la atrás de si.
Ela se agachou nos degraus logo abaixo da tampa, ouvindo os guinchos e gritos do lado de fora rapidamente perdendo o tom de urgência. Com a provocação fora de vista, os estorninhos logo esqueceram o que os perturbara.
— E agora? — Pan sussurrou, logo abaixo dela.
Os degraus de madeira levavam a um estreito patamar, e mais embaixo, no fim da escadaria, havia uma porta fechada. Outra porta no patamar levava aos aposentos do jovem Dr. Polstead, um dos poucos Catedráticos em condições de subir para a torre várias vezes por dia. Sendo jovem, todas as suas faculdades estavam em perfeita ordem, e Lyra tinha certeza de que ele ouvira o tombo e a batida da porta do alçapão sendo fechada.
Ela colocou o dedo nos lábios. Pantalaimon, olhando para cima na semiescuridão, viu seu gesto e virou a cabeça para ouvir. Havia uma mancha de cor mais clara no degrau depois do dele, e, quando os olhos de Lyra se ajustaram, ela distinguiu a forma do dimon e as penas brancas em V de sua cauda.
Silêncio. Lyra sussurrou para baixo:
— Senhor, precisamos mantê-lo escondido. Eu tenho uma bolsa de lona e, se o senhor não se incomodar, posso levá-lo até o nosso quarto...
— Sim — veio um sussurro em resposta.
Lyra pressionou o ouvido contra o alçapão e, sem ouvir mais tumultos, abriu a porta cuidadosamente e correu para recuperar sua bolsa e os livros que estivera estudando. Os estorninhos deixaram os rastros de suas últimas refeições nas capas dos dois livros, e Lyra fez uma careta ao pensar sobre como explicaria isso para o Bibliotecário de Santa Sophia. Ela pegou os livros cuidadosamente e os levou junto com a bolsa pela porta do alçapão, enquanto Pan sussurrava:
— Shhh...
Vozes vinham da porta mais baixa: dois homens saindo do quarto do Dr. Polstead. Visitantes — o ano letivo da universidade ainda não tinha começado, portanto, não deviam ser alunos.
Lyra manteve a bolsa aberta. O estranho dimon hesitou. Ele era o dimon de uma feiticeira, acostumado à amplidão dos céus do Ártico. A escuridão fechada da lona era assustadora para ele.
— Senhor, será por apenas cinco minutos — ela sussurrou. — Não podemos deixar que mais ninguém o veja.
— Você é Lyra da Língua Mágica?
— Sim, sou eu.
— Muito bem — disse, e delicadamente entrou na bolsa que Lyra mantinha aberta para ele.
Ela a levantou com cuidado, esperando as vozes dos visitantes sumirem escada abaixo. Quando se foram, ela passou na frente de Pan e abriu a porta delicadamente. Pan deslizou como água escura, e Lyra colocou devagarinho a bolsa sobre o ombro e o seguiu, fechando a porta atrás de si.
— Lyra? O que está havendo?
A voz vinda de trás dela fez seu coração disparar. Pan, um passo à frente, chiou baixinho.
— Dr. Polstead — ela disse, virando-se. — O senhor ouviu os pássaros?
— Então foi isso? Eu ouvi várias batidas — ele disse.
Ele era robusto, com os cabelos ruivos, afável; mais inclinado a ser amistoso com Lyra do que ela se sentia em relação a retribuir o sentimento. Mas ela era sempre educada.
— Não sei qual era o problema com eles. Estorninhos, vieram de Magdalen. Estavam enlouquecidos. Veja!
Ela mostrou seus livros salpicados. Ele fez uma careta.
— Melhor tratar de limpá-los — ele disse.
— Bem, isso mesmo — ela respondeu. — Era o que eu estava indo fazer.
O dimon dele era um gato, ruivo como ele, e ronronou, cumprimentando da porta. Pan respondeu educadamente e se afastou.
Lyra morava na Faculdade Santa Sophia durante o período letivo, mas seu quarto no quadrilátero dos fundos da Jordan estava sempre ali quando ela queria usá-lo. O relógio batia seis e meia quando ela correu para lá com sua carga viva, que era muito mais leve do que seu próprio dimon, algo para contar ao Pantalaimon mais tarde.
Assim que a porta se fechou atrás deles, ela colocou a bolsa sobre a mesa e deixou o dimon sair. Ele estava assustado, não apenas pelo escuro.
— Eu tinha que escondê-lo — ela começou.
— Entendo. Lyra da Língua Mágica, você precisa me guiar até uma casa nesta cidade, não consigo encontrar a casa, não conheço cidades...
— Pare — ela disse —, mais devagar, espere. Qual é o seu nome e o nome de sua feiticeira?
— Eu sou Ragi. Ela é Yelena Pazhets. Ela me enviou... Preciso encontrar um homem que...
— Por favor — Lyra disse —, por favor, não fale muito alto. Estou segura aqui, esta é minha casa, mas as pessoas são curiosas... Se ouvirem a voz de um outro dimon aqui, será difícil explicar, e o senhor estará em perigo.
O dimon esvoaçou ansiosamente até o peitoril da janela, voltou para o encosto da cadeira de Lyra e depois para a mesa.


— Sim — ele disse. — Preciso encontrar um homem nesta cidade. Seu nome, Lyra, é conhecido de nós, soubemos que você poderia ajudar. Estou desesperado, muito ao sul, e sob um telhado.
— Eu ajudarei se puder. Quem é esse homem? O senhor sabe onde ele mora?
— Seu nome é Sebastian Fazpaz. Ele mora em Jericó.
— Apenas Jericó? É tudo o que o senhor sabe do endereço?
O dimon parecia confuso. Lyra não o pressionou; para uma feiticeira do extremo norte, um assentamento de quatro ou cinco famílias já era algo inconcebivelmente vasto e populoso.
— Está bem — ela disse —, vou tentar encontrá-lo. Mas...
— Agora! É urgente!
— Não. Agora não. Hoje à noite, depois que escurecer. O senhor pode ficar aqui confortavelmente? Ou gostaria de vir com a gente até minha escola, que é onde eu deveria estar agora?
Ele voou da mesa para a janela aberta e se empoleirou no parapeito por um instante, depois, voou para fora de uma só vez e fez um círculo acima do pátio quadrangular. Pantalaimon saltou para o peitoril da janela para observá-lo, enquanto Lyra vasculhava as prateleiras bagunçadas em busca de um mapa da cidade.
— Ele se foi? — ela perguntou por cima do ombro.
— Está voltando.
O dimon entrou voando e bateu suas asas para dentro, para desacelerar e pousar no encosto da cadeira.
— Perigo lá fora e sufocamento aqui dentro — ele disse com ar infeliz.
Lyra encontrou o mapa e se virou.

Mapa em inglês

Mapa em português





— Senhor — ela disse —, quem lhe disse o meu nome?
— Uma feiticeira do lago Enara. Ela disse que o clã de Serafina Pekkala tinha uma boa amiga em Oxford. Nosso clã é aliado ao dela, pelo juramento da bétula.
— E onde está Yelena Pazhets, sua feiticeira?
— Deitada em uma cama, doente, além dos Urais, em nosso lar.
Lyra sentia Pan fervilhando de perguntas e semicerrou os olhos, piscando rapidamente, sabendo que ele veria: “Não. Espere. Quieto.”
— Seria muito doloroso para o senhor se esconder em minha bolsa até de noite — ela disse —, então faremos o seguinte: vou deixar esta janela aberta para o senhor, para que possa se abrigar aqui dentro e sair quando precisar. Estarei de volta às... O senhor sabe ver as horas do nosso jeito?
— Sim. Aprendemos em Trollesund.
— O senhor pode ver o relógio do corredor daqui. Às oito e meia, estarei na rua, diante da torre onde o senhor nos encontrou. Desça voando, nos encontre ali e o levaremos até o Sr. Fazpaz.
— Sim, sim. Obrigado.
Eles fecharam a porta e desceram às pressas. O que ela dissera um minuto antes era verdade: ela deveria estar na escola, pois o jantar às sete era obrigatório para todos os alunos, e faltavam apenas vinte minutos.
Mas, ao passar pela portaria, um pensamento súbito lhe ocorreu e ela foi perguntar ao Porteiro:
— Sr. Shuter, o senhor tem um catálogo de Oxford?
— Comercial ou residencial, senhorita Lyra?
— Não sei. Ambos. Algum que inclua Jericó.
— O que você está procurando? — perguntou o velho, entregando-lhe um par de surrados livros de consulta.
O Porteiro era um amigo, não estava sendo intrometido.
— Alguém chamado Fazpaz — ela respondeu, abrindo o catálogo residencial na seção de Jericó. — Existe alguma empresa ou loja chamada Fazpaz que o senhor conheça?
— Não que eu saiba — ele respondeu.
O Porteiro ficava em sua saleta, lidando com visitantes, pedidos de informações e alunos através da janela que dava para a portaria. Atrás dele, fora de vista, havia uma prateleira com escaninhos para os Catedráticos, e também para Lyra, e, enquanto passava o dedo rapidamente pela lista de moradores de Jericó, ouviu uma voz alegre lá de dentro.
— Está atrás do alquimista, Lyra?
E o rosto ruivo do Dr. Polstead inclinou-se para fora da janela do Porteiro, fitando-a curiosamente.
— O alquimista? — ela perguntou.
— O único Fazpaz de que já ouvi falar é um sujeito chamado Sebastian — ele disse, atrapalhando-se com uma papelada. — Foi Catedrático de Merton por um tempo, até ficar maluco. Não sei como conseguiram descobrir isso, naquele lugar. Ele se dedicava à alquimia. Nos dias de hoje! Passa o tempo transformando chumbo em ouro, ou tentando. Às vezes, aparece na biblioteca Bodley. Fala sozinho; eles têm que botá-lo para fora, mas ele obedece docilmente. Seu dimon é um gato preto. Por que você o está procurando?
Lyra encontrou o nome: uma casa na rua Juxon.
— A senhorita Parker estava nos contando de quando era criança — ela disse, com uma candura franca e luminosa —, e comentou que tinha um William Fazpaz que preparava uma bala puxa-puxa melhor do que a de qualquer outro, e eu fiquei pensando se ele ainda estava por aí, para eu comprar uma para ela. Acho que a Srta. Parker é a melhor professora que eu já tive — Lyra prosseguiu seriamente —, e também é bonita e nem é chata como a maioria dos professores. Talvez, eu mesma prepare uma bala puxa-puxa para ela...
Não existia nenhuma Srta. Parker, e o próprio Dr. Polstead fora um relutante professor de Lyra ao longo de difíceis seis semanas, há dois ou três anos.
— Mas que ótima ideia — ele disse. — Balas puxa-puxa. Mmm.
— Obrigada, Sr. Shuter — Lyra agradeceu e deixou os livros na prateleira antes de sair em disparada pela rua Turl, com Pan no calcanhar, correndo para os Parques e a Faculdade de Santa Sophia. Quinze minutos depois, sem fôlego, ela sentou no salão para jantar, tentando manter suas mãos imundas fora de vista. O costume daquela faculdade era não usar a mesa sobre o tablado todos os dias; em vez disso, os Catedráticos eram estimulados a se sentar entre os estudantes, e os professores e alunos mais velhos da escola, entre os quais Lyra estava incluída, faziam o mesmo.
Era uma questão de boas maneiras não se sentar com a mesma panelinha de amigos todas as vezes, o que significava que a conversa no jantar tinha que ser sem restrições, sobre temas gerais; nada de assuntos muito específicos e fofocas.
Nesta noite, Lyra estava sentada entre uma velha Catedrática, uma historiadora chamada Srta. Greenwood, e uma garota do último ano, quatro anos mais velha do que ela. Enquanto comiam o guisado de cordeiro com batata cozida, Lyra perguntou:
— Srta. Greenwood, quando foi que eles pararam com a alquimia?
— Eles? Eles quem, Lyra?
— As pessoas que... acho que eram as pessoas que pensavam sobre as coisas. Era parte da teologia experimental, não era?
— Isso mesmo. E, de fato, os alquimistas fizeram diversas descobertas, sobre a ação dos ácidos e coisas assim. Mas eles tinham uma ideia fundamental sobre o universo que não se sustentava, e quando uma ideia melhor apareceu, a estrutura que mantinha seus conceitos no lugar simplesmente ruiu. As pessoas que pensavam sobre as coisas, como você as chama, descobriram que a química tinha uma base conceituai muito mais forte e coerente. Explicava melhor as coisas, de maneira mais ampla, com mais precisão.
— Mas, quando?
— Não acho que tenha existido algum alquimista para valer nos últimos 250 anos. A não ser por aquele famoso alquimista de Oxford.
— Quem era ele?
— Esqueci seu nome. Ironia. Por que eu digo isso? ... Ainda está vivo... um excêntrico ex-Catedrático. É comum encontrar gente assim às margens da academia, algumas vezes, verdadeiramente brilhantes, mas pirados, tomados por alguma ideia louca, sem qualquer base na realidade, mas que, para eles, parece conter a chave para a compreensão de todo o cosmo. Eu já vi isso mais de uma vez. É trágico, de verdade.
O dimon da Srta. Greenwood, um sagui, disse do encosto da cadeira dela:
— Fazpaz. Era o nome dele.
— É claro! Eu sabia que tinha a ver com ironia.
— Por quê? — Lyra perguntou.
— Porque dizem que ele é muito violento. Houve um processo judicial, por assassinato, eu acho. Ele se safou, pelo que eu me lembro. Anos atrás. Mas, não devo fazer fofoca.
— Lyra — disse a moça à sua esquerda —, você gostaria de ir à Sociedade Musical esta noite? Michael Coke fará um recital, aquele flautista, sabe?
Lyra não sabia quem era.
— Ah, Ruth, bem que eu gostaria de ir — ela respondeu. — Mas estou muito atrasada com o latim, preciso realmente estudar um pouco.
A garota mais velha assentiu, triste. Expectativa de pouco público, pensou Lyra, e lamentou; mas não havia o que fazer.
Às oito e meia, ela e Pan saíram das sombras da grande cúpula da Radcliffe Camera e enfiaram-se pela estreita viela, totalmente coberta por castanheiras, que separava a faculdade Jordan de Brasenose. Não era difícil escapar de Santa Sophia, mas quando as garotas eram descobertas, sofriam punições severas, e Lyra não tinha a menor intenção de seguir o exemplo.
Mas ela vestia roupas escuras e podia correr bem rápido, além disso, ela e Pan, com o poder de separação semelhante ao das feiticeiras, já tinham conseguido enganar os perseguidores antes.
Eles olharam para a direita e para a esquerda onde a viela desembocava na Rua Turl, mas havia apenas umas três ou quatro pessoas à vista. Antes que pudessem entrar sob a iluminação a gás, ouviram um farfalhar de asas e o dimon-pássaro voou para se empoleirar no alto poste de madeira que fechava a rua para o trânsito.


— Bem — Lyra disse —, eu posso levá-lo até a casa, mas depois preciso voltar imediatamente. Levará uns 15 minutos. Vou na frente, o senhor observa e voa atrás de mim.
Ela começou a seguir em frente, mas o pássaro esvoaçou de um lado para outro e falou com grande agitação:
— Não, não, você precisa ter certeza de que é ele. Por favor, espere e olhe para ele, tenha certeza!
— Bem, podemos bater na porta, eu acho — Lyra respondeu.
— Não, você precisa entrar na casa comigo e ter certeza, é importante!
Ela sentiu um leve estremecimento de Pan e passou a mão nele: “quieto”. Eles viraram na Rua Broad, depois subiram e passaram pelo pequeno oratório de Santa Ana Madalena, onde a Rua Cornmarket juntava-se à ampla avenida São Giles, ladeada por árvores. Essa era a parte mais movimentada e iluminada do trajeto, e Lyra teria preferido virar à esquerda, no labirinto de ruelas que percorria todo o caminho até a casa do alquimista; mas ela e Pan concordaram silenciosamente que seria melhor permanecer na São Giles, onde o dimon-pássaro teria que manter alguma distância deles. Assim, poderiam conversar em voz baixa, sem que ele os ouvisse.
— Não podemos ter certeza de que é ele, pois não o conhecemos — Pan falou.
— Eu pensei que talvez eles tenham sido amantes, ele e a feiticeira. Mas não sei o que uma feiticeira poderia ver em um velho alquimista cheirando a mofo. A não ser, quem sabe, se ele tiver sido um assassino.
— E eu também nunca ouvi falar desse juramento da bétula.
— O que não significa que não exista. Tem um monte de coisa das feiticeiras que nós nunca vamos saber.
Eles estavam passando pelo oratório de Grey Friars e, da janela, vinha o som de um coro cantando o responsório do rito noturno.
Lyra disse baixinho:
— Onde ele está agora?
— Em uma das árvores lá atrás. Não está próximo.
— Pan, não sei se deveríamos...
Ouviram um bater de asas apressado e o dimon-pássaro fez um rasante sobre eles, pousando em um ramo baixo de um plátano, logo à frente. Alguém vindo de uma pequena travessa à esquerda soltou uma exclamação e seguiu em frente.
Lyra diminuiu o passo e olhou pela janela da livraria na esquina. Pan saltou para o ombro dela e sussurrou:
— Por que estamos desconfiados?
— Não sei. Mas estamos.
— É a alquimia.
— Estaríamos menos desconfiados se ele fosse um Catedrático comum?
— Sim. A alquimia não faz sentido.
— Mas esse é um problema para as feiticeiras, não para nós...
Atrás deles, o dimon na árvore soltou uma espécie de grito baixo matraqueado, seguido de um “Uiii-tcha!” bem baixinho. O tipo de pássaro que ele era, o verdadeiro pássaro, soltaria um grito como aquele. Soou como um aviso. Lyra e Pan compreenderam: significava que era para irem andando, que precisavam se apressar, que não podiam ficar por ali. Mas o efeito foi acordar alguns pombos aninhados no topo das árvores. Eles despertaram ao mesmo tempo e voaram para baixo com estardalhaço, furiosos, expulsando o dimon, que disparou pelo amplo espaço da avenida São Giles e subiu como um raio para o céu noturno. Os pombos foram atrás, mas não por muito tempo; eram menos agressivos do que os estorninhos, ou talvez simplesmente estivessem com mais sono. Resmungando irritados, bateram as asas de volta para o ninho e foram dormir.


— Para onde ele foi? — Lyra perguntou, percorrendo com os olhos o céu acima da Faculdade de St. John.
— Está ali...
Um ponto mais escuro do que o céu voejava incerto, de um lado para outro, e ao ver os dois deu um rasante para pousar no peitoril de uma janela, protegida por uma grade de ferro.
Lyra foi casualmente em sua direção, e, quando estavam suficientemente perto de forma a não assustar o dimon-pássaro, Pan saltou para a grade ao lado dele. Lyra adorava o jeito dele de fazer isso: um movimento fluido, sem qualquer ruído, em perfeito equilíbrio.
— Ainda estamos longe? — o dimon perguntou abalado.
— Não muito — Pantalaimon respondeu. — Mas o senhor não nos contou toda a verdade. Do que tem medo?
O dimon-pássaro tentou fugir, mas logo descobriu que Pan segurava sua cauda com firmeza, com a pata forte bem cerrada. Batendo as asas maneira vigorosa, o dimon caiu desajeitadamente contra as grades e soltou aquele estranho som matraqueado que despertara a fúria dos pombos, mergulhando imediatamente no silêncio, para o caso de ouvirem e o atacarem de novo. Ele se esforçou para se ajeitar outra vez.
Lyra estava o mais próximo possível.
— Se o senhor não nos disser a verdade, podemos criar problemas — ela disse. — Dá para ver que isso é perigoso, seja o que for. Sua feiticeira precisa saber disso. Se ela estivesse aqui, ela o obrigaria a nos dizer a verdade, ou ela mesma diria. Por que vocês estão atrás desse homem?
— Preciso pedir uma coisa para ele — o dimon respondeu com ar infeliz, um tremor de revolta na voz.
— O quê? O senhor precisa nos contar.
— Um remédio para minha feiticeira. Esse homem sabe preparar um elixir...
— Como ela sabe disso?
— O Dr. Lanselius o visitou. Ele sabe. Ele pode confirmar isso.
O Dr. Lanselius era o cônsul de todos os clãs de feiticeiras em Trollesund, no extremo norte. Lyra se lembrava da visita à casa dele e do segredo que ouviu por acaso, o segredo que tivera consequências tão extremas. Ela confiava no Dr. Lanselius, mas será que poderia confiar no que outra pessoa dizia em nome dele? E, quanto a um elixir...
— Por que sua feiticeira precisa de um remédio humano? As feiticeiras não têm todos os tipos de remédios de que precisam?
— Não para esta doença. É de um tipo novo. Apenas o elixir dourado pode curá-la.
— Se ela está doente — Pan perguntou — como o senhor está saudável?
O pássaro recuou de volta para as sombras. Um casal de meia-idade estava passando, de braços dados, seus dimons, um camundongo e um esquilo, olhando para trás com curiosidade.
— Essa é a doença — explicou a voz trêmula vinda da sombra. — É uma coisa nova, vinda do sul. As feiticeiras enfraquecem e morrem, e nós, dimons, não morremos com elas. Já vi três irmãs de nosso clã adoecerem assim, e seus dimons ainda vivem, sozinhos e frios...
Pantalaimon soltou um leve gemido de sofrimento e deslizou para o ombro de Lyra. Ela levou a mão até ele e o segurou firmemente.
— Por que não disse? — ela perguntou.
— Estava envergonhado. Achei que vocês se afastariam de mim. Os pássaros podem sentir isso, eles sabem que eu trago a doença. É por isso que me atacam. Tive que evitar bandos de pássaros ao longo de todo o caminho, afastando-me por quilômetros da rota.
O pobre coitado parecia tão arrasado, encolhido ali na sombra fria, e a imagem de sua feiticeira, aguardando no norte com a esperança tênue de que ele levaria algo de volta para curá-la, fez com que os olhos de Lyra se enchessem de lágrimas. Pan já lhe dissera que ela era muito sensível e de coração mole, mas não valia a pena lembrá-la disso. Desde que ela e Will haviam se separado, há dois anos, as menores coisas tinham a capacidade de deixá-la com pena e triste; parecia que seu coração estava ferido para sempre.
— Então, vamos lá — ela disse. — Vamos para a Rua Juxon. Não está longe agora.
Ela avançou rapidamente, com Pan saltando na frente. Dezenas de pensamentos perturbadores atravessavam sua mente como a sombra das nuvens deslizando rapidamente sobre um milharal em um dia de vento, mas não havia tempo para se deter neles e analisá-los, pois já estavam virando na Rua Clarendon Pequeno, com aquela fila de lojas de roupas elegantes e cafés chiques, onde os jovens abastados da Oxford de Lyra passavam o tempo, e depois à direita, na Rua Walton, com o maciço prédio clássico da gráfica Fell à esquerda. Já estavam em Jericó.
A Rua Juxon era uma das pequenas ruas de casas de tijolo geminadas que terminavam no canal: os lares de trabalhadores, empregados da gráfica ou da Fundição Eagle, que ficava atrás da rua, de barqueiros e de suas famílias. Além do canal, a amplidão dos campos de Port Meadow se estendia até as distantes montanhas e florestas de White Ham, e lá do rio distante Lyra ouvia o pio de algum pássaro noturno.
Na esquina da rua, Pantalaimon esperou Lyra se aproximar e saltou de volta para o seu ombro.

Rua Juxon – JERICÓ – 12
seja, nas palavras do poeta Oscar Baedecker, talvez não muito bem informado geograficamente, ‘o litoral que Oxford divide com a Boêmia’.
A rua Juxon começa da extremidade norte da rua Walton, seguindo para oeste, na direção do canal. Ela consiste, principalmente, em uma série de pequenas casas de tijolo geminadas, bem preservadas e respeitáveis. Existem moradias há pelo menos mil anos neste local, e foi em uma das casas dessa rua que Randolph Lucy, em 1668, montou seu laboratório de alquimia.
Lucy e seu dimon-águia eram vistos frequentemente nas estreitas vielas que desciam para o rio no final do século XVII. Havia muitas histórias de sons e odores estranhos emanando do porão dentro do qual ele tentava, inutilmente, transformar chumbo em ouro. Dizia-se que ele mantinha uma dúzia ou mais de espíritos em garrafas de vidro e que, em noites silenciosas, os vizinhos ouviam seus fracos gemidos.
Lucy morreu em 1702, vítima, segundo dizem, de um feitiço lançado por uma feiticeira, cujo amor ele desprezou. Seu corpo foi encontrado distendido diante da fornalha, cercado pelos estilhaços de diversos recipientes de vidro. Na noite de sua morte, todos os pássaros de Oxford gritaram sem parar, por horas, ‘com um tumulto e frenesi diferentes do que qualquer homem já tivesse ouvido antes’.
A localização exata da casa e do laboratório de Lucy é desconhecida. A Fundição Eagle, que agora fica atrás da Rua Juxon, margeando o canal, não tem qualquer ligação, tanto quanto o presente autor saiba, com as experiências metalúrgicas deste sinistro boêmio de séculos atrás. A empresa foi fundada pelo famoso ferreiro Walter Thrupp, em 1812, em parte para fundir o novo canhão ‘Trovejante’, concebido para ser usado nas Guerras Bálticas, pela marinha de Sua Majestade. Os campos de Port Meadow (ver págs. 17-19), do outro lado do canal de Oxford, foram requisitados para os testes da arma aterradora, o que causou um forte incômodo e não pouco sofrimento entre os horticultores de Oseney.
No entanto, há vários anos, a fundição Eagle atende às artes pacíficas. Tampas de bueiros, trilhos ferroviários, postes de luz e similares são fundidos às centenas de milhares e levados para todo o reino pelos estreitos e festivamente pintados barcos que descarregam o minério de ferro e o carvão e carregam os produtos acabados, nos movimentados embarcadouros atrás das forjas.
Uma excursão pela Fundição, com uma apresentação histórica, pode ser marcada com antecedência. Os visitantes também podem conhecer o pequeno museu, que contém um dos canhões ‘Trovejantes’ originais, sobre os quais a empresa ergueu sua fortuna.
O canal de Oxford liga a cidade de Oxford à grande rede de canais que se estende da fortaleza dos gípcios da Anglia oriental às minas de carvão das Midlands ocidentais. Por centenas de anos, o canal e os que viviam e trabalhavam nele eram vistos com suspeita pelos cidadãos respeitáveis de Oxford, que, ainda assim, dependiam de seus estreitos barcos de canal para os bens e matérias-primas que entregavam nas lojas, mercados e fábricas da cidade.
O próprio canal tem uma construção muito antiga, remontando à era romana. De fato, um barco romano foi descoberto profundamente enterrado no lodo, na barragem do Isis, e retirado por arqueólogos, que acreditavam ter sido afundado deliberadamente como um sacrifício a Fruvius, o deus das águas. Cinco esqueletos de crianças foram encontrados no porão. O barco e todo seu conteúdo pode ser visto no Museu Municipal, na avenida São Aldates (pág. 28).

13 – JERICÓ – Museu Municipal
Nas Eras Frias, o canal caiu em decadência e sua superfície congelada foi usada como estrada para os esquis das hordas de bárbaros do norte. Em 1005, houve a grande batalha de Wolvercote (então conhecida como Ulfgarcote), na fronteira norte de Port Meadow, entre uma horda de bárbaros do reino viking de Jorvik e um bando de bravos cidadãos de Oxford, ao lado de seus valorosos aliados gípcios, em que os invasores foram rechaçados e seu poderio derrotado para sempre. Este acontecimento marcou a primeira aliança entre Oxford e os gípcios. A união se mantém há cerca de mil anos de comércio ininterrupto e de uma amizade com uma boa dose de desconfiança. O grande evento do calendário gípcio é a Exposição Anual de Cavalos, na segunda semana de julho, quando Port Meadow fica tomado de bandeiras, cartazes, tendas e pavilhões, e pelas sedas e rosetas dos cavalos em exposição para serem negociados, enquanto que o próprio canal fica tomado desde a ponte Folly a Wolvercote pelos barcos estreitos que vêm de todos os cantos do reino. Dizem que mais objetos desaparecem dos parapeitos desprotegidos de janela na semana da Exposição do que nas demais épocas do ano; e é de se observar que mais crianças nasçam em Oxford no mês de abril do que nos outros meses.
_________
Jericó é também a sede da famosa editora Gráfica Fell, em seu grande prédio neoclássico da Rua Grande Clarendon. Ela remonta aos verdadeiros primórdios da impressão em Oxford, quando Joachim Fell, um refugiado das perseguições religiosas da Mogúncia, chegou à cidade trazendo alguns tipos da famosa gráfica de Gutenberg. Toda a história de Oxford como um centro gráfico e editorial é muito bem contada em Cinco séculos de impressão em Oxford, de R. Heapy (Gráfica Fell, 20 guinéus).
Consta que os prédios da gráfica foram erigidos sobre as fundações de um templo romano do deus Mithras, e que os primeiros gráficos eram profundamente perturbados por criaturas noturnas. No início do século XVII, uma certa Lolly Parsons, uma mulher notória por sua vida fácil, comandava uma taverna dentro da própria gráfica, nas horas noturnas, sem o conhecimento de seus piedosos proprietários. Dizia-se que era muito popular entre os Catedráticos de Worcester e os barqueiros gípcios. Uma cova comum para as vítimas da praga foi acidentalmente aberta na parte sul do prédio principal, durante alguns reparos e ampliações no século XVIII, e as emanações nocivas tornaram todo o distrito inabitável por várias semanas.
O relacionamento entre a Gráfica Fell e a universidade é próximo, ainda que tumultuado. Em certo momento, sugeriu-se que a editora fosse incorporada como uma faculdade, e dizem que alguns editores mais velhos e impressionáveis jamais se recuperaram do desapontamento ao saber que isso era proibido por um antigo estatuto. Atualmente a Gráfica Fell é uma ativa editora comercial e Catedrática, um ornamento para Jericó e para a cidade como um todo.
A igreja de São Barnabás, o Alquimista, construída por Sir Arthur Blomfield, ergue-se nos fundos de Jericó e é um monumento familiar, visível de lugares tão distantes quanto as florestas de White Ham. Uma construção impressionante, foi projetada em estilo veneziano e dedicada a São Barnabás, um santo de menor importância e pouco celebrado.
Consta que São Barnabás foi um dos primeiros teólogos experimentais, tendo vivido em Palmyra no final do século III. Ele inventou um aparelho para a purificação de algumas essências raras e óleos perfumados, e tornou-se o principal perfumista da rainha Zenóbia. Foi decapitado

— Onde ele está? — ela sussurrou.
— No olmo, logo ali atrás. Está olhando. A que distância estamos da casa?
Lyra examinou os números nas portas das casas mais próximas.
— Deve ser na outra ponta — disse. — Perto do canal...
A outra extremidade da rua, eles perceberam ao se aproximar, estava completamente às escuras. O poste de luz mais próximo ficara um pouco para trás; uma luminosidade fraca vinha das janelas fechadas com cortinas, e a lua crescente brilhava o suficiente para lançar sombras sobre o pavimento.
Não havia árvores na rua, e Lyra esperava que o dimon-pássaro conseguisse encontrar escuridão suficiente para se esconder entre os telhados. Pan sussurrou:
— Ele está andando pela beira dos telhados, junto à calha.
— Olha — Lyra disse —, é a casa do alquimista.
Eles estavam quase lá, uma porta da frente igual a todas as outras, dando para um minúsculo pátio de grama suja atrás de um muro baixo, e ao lado da porta uma janela escura, fechada por uma cortina, com duas outras no andar de cima; mas esta casa tinha um porão. Ao pé da parede da frente da casa, uma luz fraca escorria sobre o pequeno jardim crescido e descuidado, e mesmo com o vidro imundo, Lyra e Pan viam o brilho avermelhado de um fogo aberto.
Pan saltou para o chão e foi espiar pelo vidro, ficando de lado, de forma a se esconder o máximo possível. O dimon-pássaro, naquele momento, estava exatamente acima, sobre o telhado, e não tinha como ver o chão. Assim, não percebeu quando Pan virou, pulou de volta para o ombro de Lyra e cochichou rapidamente:
— Tem uma feiticeira lá dentro! Uma fornalha e vários instrumentos, e acho que tem um homem deitado, talvez morto, e tem uma feiticeira...
Havia algo errado. Todas as suspeitas de Lyra dispararam como uma lâmpada de nafta borrifada com vinho.
O que deviam fazer?
Sem se apressar ou hesitar, Lyra desceu da calçada e atravessou a rua, indo em direção à última casa, do outro lado, como se aquele fosse seu destino desde o começo.
O dimon-pássaro no telhado atrás dela soltou aquele matraquear baixo, um pouco mais alto desta vez, e lançou-se para baixo, em direção à cabeça de Lyra. Ela ouviu e virou, e ele voou ao seu redor agitado, dizendo:
— Aonde? Para onde vocês vão? Por que estão atravessando a rua?
Ela agachou, obrigando-o a voar mais baixo, depois deixou que Pantalaimon saltasse de seu ombro quando ela se levantou novamente, com rapidez, aproveitando o impulso do movimento dela e deixando um arranhão profundo na pele de seu ombro ao saltar; mas a mira dos dois era boa, e ele agarrou o dimon-pássaro no ar e o levou para o chão, em meio a uma confusão de grasnidos, gritos e arranhões enraivecidos — e de dentro da casa veio um forte e selvagem grito: a voz de uma feiticeira.
Lyra girou para encará-la. Pan tinha a vantagem de peso e força sobre o outro dimon, mas seria bem diferente com a própria feiticeira, uma adulta diante da juventude de Lyra, e alguém acostumada a lutar e pronta para matar, além disso. O que significava aquilo? A mente de Lyra rodopiava. Eles tinham quase caído em uma armadilha, e agora Lyra, desarmada, teria que lutar para se manter viva. Ela pensou: “Will, Will, seja como Will.”
Tudo acontecia rápido demais. A feiticeira saiu pela porta, quase caindo, tropeçando, uma faca na mão, o rosto contorcido, os olhos saltados e fixos em Lyra. Os dois dimons ainda lutavam rosnando, batendo, mordendo, arranhando, e seus dois humanos sentiam cada golpe e arranhão.
Lyra foi para o meio da pequena rua e recuou em direção à beira do canal, pensando que, se ela conseguisse que a feiticeira se atirasse em sua direção...
O rosto da feiticeira praticamente perdera os traços humanos: era uma máscara de loucura e ódio, tão intensa que Lyra vacilou ao olhar para ela. Mas manteve a imagem de Will firme em sua mente: o que ele faria? Ele ficaria parado, aguardando por uma abertura, se firmaria em sua base, em perfeito equilíbrio; e ela estava pronta, enquanto a feiticeira disparava em sua direção, para resistir à força dela com toda a coragem que conseguiu reunir.
Porém, a coisa mais estranha aconteceu, em um segundo ou menos. Lyra sentiu um impacto estonteante na cabeça e cambaleou para o lado enquanto um enorme vulto branco passava à sua frente, vindo de trás, direto sobre a feiticeira. O ar estava tomado pelo monstruoso estalar do bater de asas gigantes — e antes que ela conseguisse recuperar o equilíbrio, a feiticeira era golpeada para trás e derrubada contra a rua pelo peso de um cisne, voando a toda velocidade.


Pan gritou, pois o dimon-pássaro estava quase solto e se contorcendo entre suas garras. A feiticeira, com apenas um sopro de vida, arrastava-se em direção a Lyra, rastejando como um lagarto ferido, e havia fagulhas ao seu redor — fagulhas reais — de sua faca passando na pedra. Atrás dela, o cisne estava caído, atordoado, as grandes asas abertas em desamparo. Lyra se sentia muito mal e tonta pelo golpe para fazer mais do que se levantar um pouco e organizar seus pensamentos, quando Pan disse, trêmulo:
— Ele está morto. Estão mortos, Lyra.
Os olhos da feiticeira ainda estavam saltados e fixos em Lyra, e os músculos de seus braços ainda a mantinham semirrígida para cima; mas sua coluna estava quebrada e sua expressão não continha mais vida. De repente, os músculos cederam e ela despencou no chão, como um trapo.
O cisne se mexia, se arrastando pelo chão, incapaz de se erguer; e, exatamente acima dela, Lyra voltou a ouvir aquele forte ruído e sentiu o movimento do ar quando três outros cisnes atravessaram o canal e voaram em rasante ao longo da rua, sobre seu irmão ferido. As pessoas nas casas próximas deviam ter ouvido tudo, devia haver olhos nas janelas, portas se abrindo, mas Lyra não podia se preocupar com isso. Ela se forçou a ficar em pé e correu em direção ao cisne caído, que batia suas asas desajeitadamente e lutava para ficar em pé no chão liso da rua.
Ignorando o medo do bico ameaçador, ela se ajoelhou, passou os braços sob o corpo volumoso do cisne e tentou erguê-lo. Ah, era tão desajeitado, e além disso estava tomado de medo, batendo e lutando, mas, quando ela achou a melhor posição, ele se acomodou facilmente nos braços dela. Tropeçando, desajeitada, lenta, tentando não pisar nas asas soltas que se arrastavam, ela carregou o cisne até o fim da rua, onde as águas negras do canal brilhavam além da calçada.
Sobre sua cabeça, voando de volta, os outros cisnes passaram tão baixo que Lyra sentiu o toque de suas penas em seu cabelo e sentiu o som deles vibrar em cada osso de seu corpo. Ao chegar na beira d’água ela se inclinou, trêmula com o peso da ave, que escorregou pesadamente de seus braços, caindo na água escura e levantando uns respingos. Pouco depois, o cisne aprumou-se e sacudiu as asas, erguendo-se na água para batê-las com força e abrindo-as, para depois mergulhar novamente e nadar para longe. Mais à frente, no canal, os outros cisnes pousaram elegantemente na água, um após o outro, e nadaram em direção a ele, pálidas manchas brancas no escuro.


Lyra sentiu uma mão em seu ombro. Ela estava abalada demais para se assustar de novo, e simplesmente se virou para ver um homem de uns 60 anos, com uma expressão atônita e desolada, e mãos marcadas e sujas de fuligem. Seu dimon, um gato preto, estava próximo, conversando com Pan, aos pés dele.
— Por aqui — ele disse em voz baixa —, e você não será objeto da curiosidade de ninguém. Agora que ela está morta, a rua vai começar a despertar.
Ele seguiu na frente, pelo caminho à direita do canal, em direção à fundição, e passou por um estreito portão no muro. O luar fraco era suficiente para Lyra ver a passagem entre o muro e a alta parede de tijolos do prédio. Pan em seu ombro, sussurrava:
— É seguro, estamos seguros com ele.
E ela seguiu o homem pelo caminho, virando em uma esquina e entrando em um pequeno quintal escuro, onde ele abriu a porta de um alçapão.
— Por aqui chegamos ao meu porão, e depois tem um caminho para fora mais à frente. Quando encontrarem o corpo dela, vai ser uma grande confusão. Você não precisa ser envolvida nisso.
Ela desceu pelos degraus de madeira até uma sala quente e abafada, cheirando a enxofre, iluminada apenas pelas chamas da grande fornalha de ferro no canto. Os bancos ao longo da parede estavam repletos de tubos de ensaio e retortas, com cadinhos e balanças, e todo o tipo de aparatos para destilar, condensar e purificar. Tudo estava coberto por uma camada grossa de poeira, e o teto era completamente escuro por anos de fuligem.
— O senhor é o Sr. Fazpaz — Lyra disse.
— E você é Lyra da Língua Mágica.
Ele fechou a porta. Pan circulava curiosamente por aqui e por ali, tocando nos objetos delicadamente com o focinho ou com uma pata, e o gato preto saltou com deliberação para uma cadeira, para lamber as patas.
— Ela estava mentindo — Lyra disse. — O dimon dela mentiu para nós. Por quê?
— Porque ela queria matar você. Ela queria te enganar, para trazê-la até aqui, matar você e colocar a culpa em mim.
— Eu achava que podia confiar nas feiticeiras — Lyra disse, e havia um tremor em sua voz que ela não conseguia evitar. — Achei que...
— Eu sei. Mas as feiticeiras têm suas próprias causas e alianças. E algumas são confiáveis, outras não. Por que seriam diferentes de nós?
— Sim. Eu devia saber disso. Mas, por que ela queria me matar?
— Vou lhe dizer. Para começar, nós fomos amantes, ela e eu, há muitos e muitos anos...
— Desconfiei — Lyra disse.
— Nós tivemos um filho, e você sabe como são as coisas com as feiticeiras. Passada a infância dele, ele teve que deixar o norte e veio morar comigo. Bem, ele cresceu, tornou-se um soldado e morreu lutando pela causa de Lorde Asriel na última guerra.
Os olhos de Lyra se arregalaram.
— A mãe dele me culpou — Fazpaz prosseguiu. Ele estava doente, ou talvez tivesse sido drogado, pois teve que se apoiar no banco para se manter em pé, e sua voz profunda era rouca e baixa. — Pois é, o clã dela estava entre os que lutavam contra Asriel, e ela achou que, na confusão da batalha, ela talvez tenha matado o próprio filho, pois encontrou o corpo dele com uma de suas próprias flechas no coração. Ela culpou a mim por tê-lo levado a acreditar nas coisas pelas quais Asriel lutava e culpou você, pois, entre as feiticeiras, dizem que a guerra foi travada por sua causa.
Lyra balançou a cabeça. Isso era horrível.
— Não, não, não — ela disse —, não teve nada a ver comigo...
— Ora, foi por algo relacionado a você, mas a culpa não foi sua. Yelena, a feiticeira, não era a única a pensar assim. Ela mesma poderia ter te matado, mas ela queria fazer parecer como se eu tivesse feito isso, e assim me punir ao mesmo tempo.
Ele parou para se sentar. Seu rosto estava cinzento, e ele respirava com dificuldade. Lyra viu um copo e um cantil de água e serviu um pouco para ele, que aceitou com um gesto de agradecimento e deu um gole antes de prosseguir.
— O plano dela era enganar você para vir até aqui, dar um jeito de me encontrarem drogado junto ao seu corpo, assim você estaria morta e eu seria acusado de homicídio, e desgraçado. Ela certamente tratou de induzi-la a deixar um rastro. As pessoas teriam como encontrar você aqui?
Lyra percebeu, com um leve abalo em seu orgulho, como tinha sido ingênua. A Srta. Greenwood e o Dr. Polstead não eram idiotas; assim que dessem falta dela, rapidamente fariam a conexão com o famoso alquimista de Oxford, e o Sr. Shuter lembraria de Jericó e do catálogo.
Ah, como ela podia ser estúpida quando estava sendo esperta! Ela concordou, com um ar infeliz.
— Não se culpe — disse Fazpaz. — Ela tinha uma vantagem de seiscentos anos sobre você. Quanto a mim, ela deu azar: anos inalando gases nesse porão me deram alguma imunidade à droga que ela colocou em meu vinho, o que me permitiu acordar a tempo.
— Nós quase caímos na armadilha dela — Lyra disse. — Mas o cisne? De onde veio aquele cisne?
— O cisne é um mistério para mim.
— Todos os pássaros — Pantalaimon disse, pulando para o ombro dela. — Desde o começo! Os estorninhos, depois os pombos e finalmente o cisne, todos estavam atacando o dimon, Lyra...
— E nós tentamos salvá-lo deles — ela disse.
— Eles estavam nos protegendo! — Pan disse.
Lyra olhou para o alquimista. Ele concordou.
— Mas nós pensamos que era apenas, sei lá, maldade — ela disse. — Não achamos que tivesse um significado.
— Tudo tem um significado, se soubermos ler — ele disse.
Uma vez que isso era exatamente o que ela dissera a Pan há apenas algumas horas, ela dificilmente poderia negar agora.
— Então, o que você acha que significa? — ela perguntou, perplexa.
— Significa algo sobre você e algo sobre a cidade. Você encontrará o significado, se for atrás dele. Agora, é melhor você ir andando.
Ele se levantou dolorosamente e olhou para cima, pela pequena janela. Lyra ouvia as vozes agitadas na rua, gritos de alarme. Alguém tinha encontrado o corpo da feiticeira.
— Ninguém vai notar se vocês saírem pelo quintal nos fundos desta casa — disse Sebastian Fazpaz — e seguirem pelo caminho junto à fundição. Não vão ver vocês.
— Obrigada — ela disse. — Sr. Fazpaz, o senhor realmente transforma chumbo em ouro?
— Não, é claro que não. Ninguém pode fazer isso. Mas, se as pessoas acharem que você é bastante idiota para tentar, não vão se preocupar com o que você está realmente fazendo e te deixam em paz.
— E o que o senhor está realmente fazendo?
— Agora não. Talvez em uma outra hora. Você precisa ir.
Ele a acompanhou até a porta e explicou como soltar o portão entre a fundição e o caminho junto ao canal e depois fechá-lo novamente pelo lado de fora. Seguindo por ali, poderiam chegar até a Rua Walton Well e de lá eram apenas dez minutos a pé de volta para a escola, para a janela aberta da despensa e o livro de latim.
— Obrigada — ela disse ao Sr. Fazpaz. — Espero que o senhor melhore logo.
— Boa-noite, Lyra — ele disse.
Cinco minutos depois, no Parque da Universidade, Pan disse:
— Ouça.


Eles pararam. Em algum lugar nas árvores escuras, um pássaro cantava.
— Um rouxinol? — Lyra tentou adivinhar, mas não tinha certeza.
— Talvez — disse Pan. — O significado, você sabe...
— Isso... como se os pássaros, como se toda a cidade...
— Estivesse nos protegendo? Será?
Eles ficaram imóveis. A cidade deles espalhava-se silenciosa ao redor, e a única voz era a do pássaro, e eles não eram capazes de compreender o que dizia.
— As coisas não significam coisas tão simples assim — Lyra disse, sem muita certeza. — Certo? Não da mesma forma que mensa significa altar em latim. Significam todo o tipo de coisa, tudo misturado.
— Mas parece que é isso — disse Pan. — Parece que a cidade inteira toma conta de nós. Então, o que sentimos faz parte do significado, não é?
— Sim! Isso mesmo. Tem que ser. Não integralmente, e tem muito mais coisas que não sabemos por aí, provavelmente. Como todos aqueles significados no aletiômetro, aqueles que precisamos ir bem fundo para descobrir. Coisas de que nunca suspeitamos. Mas que fazem parte disso, sem dúvida.
A cidade, a sua cidade. Pertencer era um dos significados daquilo, assim como proteção, lar.
Pouco depois, ao subirem pela janela destrancada da despensa, eles encontraram os restos de uma torta de maçã sobre a bancada de mármore.
— Devemos ter sorte, Pan — disse Lyra, levando a torta escada acima. — Veja, isso é outro significado.
E antes de irem para a cama, colocaram as migalhas no peitoril da janela, para os pássaros.







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