8 de fevereiro de 2017

Capítulo 6

— Passaram-se dezoito meses desde a morte de Alyss — disse Gilan. — Naquela época, algum de vocês se lembra de ver Will rindo, ou ao menos sorrindo?
Infelizmente, os outros balançaram suas cabeças. Trocaram olhares desconfortáveis. E então Pauline disse:
— É de quebrar o coração. Ele sempre foi tão alegre, uma pessoa tão feliz. Sempre sorridente, sempre brincando. Nesses dias, é como se uma luz dentro dele tivesse apagado.
— É claro que não podemos esperar que ele fique bem alguns meses após perder Alyss — Halt disse. —Afinal, ela era sua alma gêmea e perdê-la foi um choque terrível.


A morte de Alyss foi o resultado de um terrível desastre. Ela estava voltando, com uma pequena escolta, da corte Celta, onde estava supervisionando a renovação do acordo de defesa entre Araluen e Céltica. Era uma viagem e missão de rotina. Mas no caminho de volta, ela ficou presa numa situação em Anselm, um dos feudos do sul. Por alguns meses, uma gangue de criminosos, liderados por um mercenário chamado Jory Ruhl, vinha roubando vilas em Anselm e seus feudos vizinhos. Já que os moradores das vilas não eram ricos, normalmente a vila inteira era forçada a contribuir para o resgate. A polícia local havia recebido a informação de que Ruhl e sua gangue se encontrariam uma noite numa pousada chamada The Wyvern. Coincidentemente, esta pousada era onde Alyss havia escolhido ficar. A polícia havia organizado uma legião de voluntários que foi à pousada.
Infelizmente, a tentativa de prisão foi má sucedida. Ruhl foi avisado de que a legião se aproximava e ele e sua gangue estavam escapando quando a polícia e seu reforço chegou ao local. Ocorreu uma briga e um dos voluntários foi morto. Procurando criar uma distração enquanto escapavam, Ruhl e um de seus homens atearam fogo na pousada. O teto logo estava em chamas e a fumaça cobria o pequeno jardim. Hóspedes da pousada começaram a gritar, procurando segurança, e logo toda a fumaça e as pessoas gritando assustadas deixaram a polícia sem saber quem era quem. Na confusão, Ruhl e seus quatro capangas escaparam pela floresta.
Alyss e seus três guardas armados estavam entre os hóspedes que escaparam do prédio em chamas. Mas assim que parou no jardim, a diplomata loira tinha olhado para cima e visto um rosto na janela. Era uma garota de cinco anos de idade, lutando desesperadamente para abrir a janela emperrada. Conforme seu medo cresceu, a fumaça tomou conta do cômodo e ela começou a tossir e seus olhos a fechar.
Cega pela fumaça e desorientada, ela se afastou da janela e não pôde mais ser vista. Sem hesitar, Alyss entrou novamente na pousada em chamas, ignorando os avisos de seus guardas. Ela lutou para subir as escadas, já em chamas, e foi para a entrada da pousada com os olhos fechados e seu rosto protegido do calor por seu antebraço. Ela se moveu, seguindo seu caminho pela parede, tocando-a com sua outra mão. Achou a trava da porta, a forçou a abrir e entrou cambaleando no quarto em que a garotinha estava. Alyss caiu de joelhos onde havia um pouco de ar puro e engatinhou em direção à janela.
Apenas um vago quadrado de luz contra o preto da fumaça era visível. No chão abaixo da janela, ela conseguiu distinguir fracamente a forma da menina. Alyss foi rapidamente à garota, vendo que seu peito subia e descia conforme respirava, procurando desesperadamente por um pouco de ar puro. Alyss se levantou e pegou sua adaga. Colocou-a no pequeno espaço entre a janela e sua moldura e a balançou com toda sua força. Com uma pequena rachadura, a janela abriu, batendo contra a parede de fora. Alyss se abaixou e pegou a garota em seus braços colocando-a na moldura. No jardim, seus guardas observavam horrorizados. Eles podiam ver quão em chamas a pousada estava. O local em que Alyss estava era um dos poucos ainda não atingidos pelo fogo.
— Pegue-a! — Alyss gritou e escorregou a garota inconsciente ao jardim através da ladeira de palha.
Conforme a garota chegou à ponta, os três guardas se aproximaram para pegá-la. O peso de seu corpo escorregando mandou pó em um dos guardas e os outros dois cambalearam. Mas conseguiram segurar a garota. Então olharam para a janela, de onde Alyss saía.
Uma parede de chamas se espalhou pela palha, entre Alyss e o topo do telhado. A madeira e as vigas abaixo daquele ponto do telhado haviam queimado, invisíveis por alguns minutos, e o fogo de repente queimou através delas. Alyss estava fora de vista. Então, com um terrível estrondo, o telhado acima e em volta de onde ela estava caiu em meio a fumaça e chamas. Em uma fração de segundos, não havia nada a não ser um vazio repleto de fumaça em frente à pousada. Então mais madeira queimou e toda a frente do lugar caiu. Alyss não teve chance.


— Eu sei — Gilan disse, quebrando o longo silêncio que se seguiu ao que Halt disse. — Não é algo fácil a superar.
Todos haviam voltado ao terrível dia em que ouviram sobre a morte de Alyss, vendo o desastre em suas cabeças conforme era descrito pelos seus guardas.
— Era tão típico de Alyss — Cassandra disse baixo — desistir de sua própria vida desse jeito. Seus guardas disseram que ela nunca hesitou – apenas correu ao incêndio para salvar a garota.
— Talvez não tivesse sido tão ruim para Will se tivéssemos conseguido enterrar seu corpo — Pauline disse.
O fogo havia sido tão intenso que o corpo de Alyss nunca fora recuperado.
— Funerais podem ser terrivelmente tristes, mas ao menos dá às pessoas uma sensação de finalidade às deixadas para trás. Eu sei que me sinto como se houvesse um vazio que não foi preenchido. Deve ser bem pior para Will — Gilan esperou alguns segundos e continuou: — Eu consigo entender seu sofrimento e sentimento de perda. Isso é algo que ele terá que enfrentar eventualmente. E tenho certeza de que ele vai. Mas tem algo a mais.
Os outros o olharam curiosos. Mas Halt sentiu que ele sabia do que o jovem Comandante falava.
— Jory Ruhl e sua gangue — Halt sussurrou.
Gilan assentiu.
— Ele se tornou amargurado sobre eles terem escapado. Se colocou na tarefa de pegá-los. Ele está em uma missão pessoal de vingança e a obsessão está alimentando o mal em sua cabeça e alma, até que ele não pense em mais nada.
Cassandra deu um pequeno soluço e levou a mão à garganta. O pensamento de Will, seu companheiro de muito tempo – quase um irmão substituto – sendo levado e dominado por uma paixão escura trouxe lágrimas a seus olhos. Ela lembrou-se de seus dias juntos na ilha de Skorghijl há muito tempo, quando ele a havia protegido e cuidado dela, mantido seus espíritos bem através dos momentos mais difíceis. Lembrou-se dele em Arrida, vindo resgatá-los no último momento, assim como Halt sabia que ele o faria.
Você não conseguia pensar em Will sem ver seu cabelo castanho e aquele largo sorriso no rosto. Will sempre teve uma energia interior. Era entusiasmado e curioso, sempre procurando algo novo e interessante na vida. Era essa característica que tinha levado as pessoas de Nihon-Ja a batizá-lo de chocho ou borboleta. Ele parecia voar alegremente de uma ideia à outra, de um evento ao outro.
Cassandra viu Will várias vezes desde a morte de Alyss, mesmo que ele evitasse seus amigos. Ele vinha sendo uma figura de rosto sério e barba grisalha nos últimos dias. Não havia sinal do velho Will. Pauline estava certa. Era como se uma luz dentro dele tivesse apagado.
— Ele precisa de algo para tirar de sua cabeça a ideia de vingança — Halt disse. — Você não pode designá-lo a uma missão – dar-lhe algo para ocupar seus pensamentos?
— Eu tentei — Gilan respondeu com um olhar severo. Parou antes de continuar. — Ele recusou nas duas ocasiões.
Halt ficou chocado com essas palavras.
— Recusou? Ele não pode fazer isso!
Gilan fez um gesto sem esperança.
— Eu sei, Halt. Assim como Will. Se acontecer de novamente, terei qe suspendê-lo do Corpo.
— Isso o mataria — Horace disse.
Gilan olhou para ele.
— E ele está ciente disso. Mas não liga. O que significa que não posso lhe passar outra tarefa. Ele se recusará e eu terei que fazer algo. Ao mesmo tempo, não posso ter meu arqueiro mais efetivo sentado nas mãos, pensando sobre Jory Ruhl e sua gangue e planejando como pegá-los. Mas colocando tudo isso de lado, ele é meu amigo e odeio vê-lo desviado de seu caminho.
— Pensei que ele já houvesse pegado algum deles — Horace observou.
— Três dos cinco. Ele pegou um apenas duas semanas atrás. Seu nome é Henry Wheeler. Will o confrontou e Wheeler tentou escapar.
— O que aconteceu? — Halt perguntou, mesmo que temesse a resposta.
As pessoas simplesmente não escapam de alguém tão habilidoso e mortal quanto seu antigo aprendiz, e ele não queria ouvir que Will tinha sangue em suas mãos.
Gilan pareceu sentir seus pensamentos. Ele balançou a cabeça brutamente:
— Wheeler está morto. Mas não foi Will que o matou. Ele tentou atacar Will e caiu sobre sua faca.
Halt soltou um silencioso suspiro de alívio.
— E os outros dois? — ele perguntou.
— Will capturou os dois e os trouxe para julgamento e condenação. Mesmo que tenha me dito que esperava que eles tentassem escapar. Sinto que ele até mesmo lhes deu várias oportunidades para fazê-lo. Mas eles não eram estúpidos o suficiente para tentar — houve um breve silêncio enquanto eles pensavam em seu velho amigo.
— E Ruhl? — Horace perguntou.
— Will quase o pegou numa ocasião — Gilan respondeu.
Halt olhou para cima rapidamente.
— Eu não sabia disso.
Gilan assentiu.
— Não foi muito depois de começar a caçá-los. Ele ficou a cinco metros dele. Ruhl estava num barco de fundo chato, atravessando um rio. Will apenas chegou tarde demais, depois do barco partir da margem. Eles estavam cara a cara por alguns segundos. Mas quando Will pegou seu arco, Ruhl havia se escondido atrás de fardos de lã. Will tentou segui-lo, escalando o cabo superior que segurava o barco contra a corrente. Mas quando Ruhl se afastou da margem, cortou o cabo e derrubou Will no rio. Ele chegou perto de se afogar.
— Tão perto — Halt lamentou — imagino que o tenha deixado ainda pior.
Gilan assentiu.
— Então, Gil — Pauline disse, sempre a certa para ação prática — o que você sugere que façamos – além de simplesmente falar sobre isso e torcer nossas mãos?
Gilan hesitou. Ele estava indo em direção a terreno incerto, mas seu instinto lhe disse que a chave para a salvação de Will estava com as pessoas daquele cômodo – aqueles mais próximos a ele.
— Olhem — ele falou lentamente — nós somos aqueles que ele ama acima todos. E aqueles que o amam. Talvez se todos nós falássemos com ele juntos, se o colocarmos em um lugar e dizer-lhe como estamos preocupados com ele, como podemos ver o dano que essa vingança está fazendo lhe causando, bom, talvez o fato de que todos estamos dizendo entre em sua cabeça. Talvez ele vá... Eu não sei... Sair dessa? — Ele terminou de falar com uma pergunta, olhando para os outros implorando por uma resposta.
Para dizer a verdade, ele não estava certo do que resultaria. Mas sentia que este grupo de pessoas era a chave para solucionar o problema de Will. Talvez a força do amor destes por ele pudesse quebrar a fumaça preta que estava tampando sua mente, abrir a cortina que o separava de tudo a não ser de um pensamento – a vingança pela morte de Alyss.
— Eu não acho que apenas conversar vá resolver — Horace disse pensativo.
Cassandra o interrompeu.
— Mas, certamente, se todos conversássemos com ele, todos de uma vez, poderíamos convencê-lo?
Horace franziu os lábios.
— Eu não sei. Você sabe como Will é. Ele é teimoso. Sempre foi — ele olhou para Halt procurando confirmação, e o velho arqueiro o fez. — As chances são — Horace continuou — que se apenas conversarmos com ele, ele vá balançar a cabeça e fingir concordar conosco. E então, quando tivermos terminado, ele vai simplesmente continuar como tem sido — ele parou, seu rosto se tornou numa carranca pensativa. Ele se sentiu próximo a uma ideia, mas não podia compreendê-la. — Nós precisamos de um novo foco para ele. Algo que vá acabar com sua obsessão com Jory Ruhl e seu cúmplice restante. Algo que vá ocupar sua cabeça tão plenamente que não deixe espaço para pensar sobre vingança.
Gilan balançou suas mãos, derrotado.
— Bom, como eu disse, tentei mandá-lo em duas missões e ele...
— Precisa ser algo mais chamativo, mais pessoal que apenas uma missão — Pauline disse, percebendo o que Horace queria dizer. Como ele, ela sentiu que havia uma ideia fora de alcance.
Foi Halt quem entendeu.
— Ele precisa treinar um aprendiz.
Todos se viraram para ele. A ideia, uma vez dita, parecia muito óbvia. Tanto Horace quanto Pauline assentiram. Era onde eles estavam chegando, sem perceber.
Gilan olhou esperançosamente por alguns segundos, então balançou a cabeça frustradamente.
— O problema é que não temos nenhum candidato no momento. E não podemos oferecer-lhe alguém sem qualificação. Ele vai simplesmente recusar pegar alguém que não está apto a se colocar em risco, e ele estará certo. Não vou poder culpá-lo por isso.
— Eu não estou pensando em qualquer aprendiz — Halt disse. — Precisa ser alguém com quem ele já tem uma ligação pessoal. Alguém com quem ele se importa, para que não possa recusar. Precisa ser alguém que vá envolvê-lo emocionalmente – assim como física e intelectualmente — ele olhou para sua esposa. — Lembra-se de anos atrás, quando mandei Will para Céltica com Gilan e comecei a agir um pouco erroneamente?
— Você começou a jogar nobres pelas janelas do castelo, se me lembro bem — seus lábios se contorceram para segurar um sorriso.
Halt fez um gesto que indicava que ele não queria entrar em detalhes sobre aquela época de sua vida.
— Que seja. Você percebeu que eu precisava de uma nova influência em minha vida para tirar minha cabeça das coisas que me perturbavam.
— Se bem me lembro, você foi designado para acompanhar Alyss em uma missão — ela disse.
— E isso resolveu. Sua juventude e alegria me tiraram do meu mau humor.
Lady Pauline levantou uma sobrancelha.
— Isso não o impediu de jogar pessoas em fossos.
— Talvez não. Mas ele mereceu — Halt respondeu, mostrando um raro sorriso. E então ficou sério novamente. — De qualquer maneira, o que estou pensando é que, se colocarmos alguém como descrevi sob a responsabilidade de Will, isso talvez tire sua cabeça da vingança. E se conseguirmos fazer isso, estaremos no caminho certo em ajudá-lo a aceitar e a viver com a perda de Alyss.
— É claro que você nunca supera completamente a perda de um ente querido — Cassandra apontou.
Halt concordou com ela.
— Não. Mas você pode aprender a viver com isso e aceitar. E, ao poucos, a dor vai se tornar mais suportável. Não vai embora, mas fica mais suportável.
Gilan estava observando seu antigo mentor enquanto ele falava. O jovem Comandante conhecia Halt, provavelmente melhor que ninguém naquele cômodo.
— Imagino que você tenha alguém específico em mente para ser o aprendiz de Will? — ele perguntou.
Halt olhou para ele.
— Eu estava pensando em Madelyn.

6 comentários:

  1. Isso não é um livro. Esse negócio de matar personagens queridos no final, sem aviso, isso é Satanás semeando a discórdia entre autores e leitores.

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    1. Concordo contigo!! Morte pode ter mais não no ultimo!! @-@Isso vai nos matar!!
      Como o autor espera que superemos isso?!? Ainda mais Alyss! Demorei mo cota pra aceita-la!! Por isso mesmo não podia perde-la!!!

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    2. Concordo demais eu comecei a odiar ela depois do início do relacionamento do Will com a Evanlyn e depois de um tempo eu aceitei ela e passei a amar ela.... Então ela morre

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  2. Morri de ri com o comentário, mais concordo. Matar pessoas no livro é muito chato e logo a Alyss!
    Ass: Bina.

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  3. Isso não é justo
    Você ficá lá feliz pelo casamento de Wil
    Aí vem o autor matar o líder dos arqueiros o rei fica preso em uma cama e ainda por cima mata Alyss como vou conseguir reler a série?

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  4. Eu não conseguiria reler. Justo a Alyss. Confesso que não superei. Toda vez que leio o nome Will e Alyss eu choro rios.
    Ass: Lua

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Boa leitura :)