8 de fevereiro de 2017

Capitulo 54

Will estava amarrado em uma estaca grossa, fixada firmemente na areia grossa da praia.
A estaca tinha sido um dos suportes para a tenda-refeitório, mas os capangas de Ruhl tiveram de arrancá-la e depois replantá-la profundamente na areia, no interior das tendas. As mãos de Will foram puxadas por trás da estaca e amarradas firmemente lá. Seus pés tinham sido amarrados na altura dos tornozelos, e amarrados na parte inferior do poste. Finalmente, a terceira corda circundava seu pescoço e o poste, mantendo-o em pé.
Em volta de seus pés, chegando a seus joelhos, os traficantes de escravos tinham feito uma grande pilha de gravetos. Já eram gravetos secos, mas Ruhl encharcara em óleo para garantir que queimaria instantânea e ferozmente. O cheiro de fechar garganta de óleo queimado chegou às narinas de Will, fazendo-o querer tossir. Ele resistiu à vontade, não querendo dar a Ruhl qualquer satisfação.
Ele estava amarrado fazia várias horas e suas mãos e pés estavam dormentes. De novo e de novo, Will tentara forçar as cordas, tentando esticar as fibras ou fazer os nós cederem. Mas foi um esforço inútil. Ele tentou só mais uma vez. Mas ele não conseguia mais sentir suas mãos. Se as cordas não fossem afrouxadas e a circulação fosse restaurada para suas mãos e pés, pensou, perderia os dedos, ou até mesmo as mãos em si. Então ele deu de ombros. Perder os dedos era a menor de suas preocupações.
Mais abaixo na praia, a cerca de vinte metros de distância, Ruhl e seus homens restantes estavam sentados em volta da fogueira, passando um jarro de cerveja ibérica de mão em mão. Conforme Will observava, o Ladrão tomou um longo gole, depois colocou a jarra de lado.
Ele se levantou, um pouco vacilante, depois parou e pegou um flamejante galho do meio da fogueira. Ziguezagueando um pouco, Ruhl fez o seu caminho pela praia para onde Will estava de pé, preso contra a estava, incapaz de se mover. Will sentiu seu estômago se apertar. Esta seria a terceira vez Ruhl fazia a farsa de acender o fogo ao redor dele.
Nas duas ocasiões anteriores, ele havia insultado Will, colocando a tocha flamejante a poucos centímetros da lenha empilhada, em seguida, puxando-a de volta no último minuto. Então ele repetiria a ação, de modo que Will nunca soubesse quando fosse seus últimos momentos.
Será que chegara o momento em que ele iria em frente com sua ameaça?
Agora Ruhl estava diante de seu prisioneiro, instável em seus pés, com o rosto corado pelo efeito do álcool. Ele se inclinou para frente, espiando o rosto barbudo diante dele, tentando ver algum sinal de medo, algum pedido de misericórdia.
— Bem, Tratado, este é o momento? Você está prestes a encontrar sua adorável esposa mais uma vez? O que você diz?
Ele mergulhou a ponta flamejante da tocha perto da pilha de galhos encharcados com óleo. Will olhava para frente, resistindo à quase irresistível tentação de ver como as chamas tremeluziam a centímetros de distância dos galhos empilhados.
— Que tal isso, Tratado? Você vai implorar por misericórdia para mim? Se você o fizer, eu poderia dar lhe um fim fácil. Apenas um golpe rápido de espada e você não terá que se preocupar com essas chamas.
A tocha balançou na frente do rosto de Will, tão perto que ele podia sentir seu calor contra os olhos, sentir a barba e as sobrancelhas começando a chamuscar.
— Nada a dizer? Você vai fazer muito barulho em um minuto, quando eu soltar esta tocha nos galhos... ops!
Ele deixou a tocha cair, para, desajeitadamente, recuperá-la de novo antes que caísse na lenha empilhada. Will sentiu seu estômago se apertar de medo. Mas não mostrou nenhum sinal dele.
— Foi quase, não foi, Tratado? — Ruhl zombou.
Ele revirou os olhos e acenou com a tocha acima da lenha, mais uma vez, fazendo um ruído zombeteiro cantante.
— Vamos logo com isso, Jory. Mate-o e dê um fim nisso. Pare de insultar o homem.
Um dos traficantes de escravos tinha se virado para longe da fogueira do acampamento para assistir o desempenho do Ruhl. Ele o tinha visto atormentando o arqueiro duas vezes antes, e visto que o barbudo não mostrou nenhum sinal de medo. Sentiu um respeito relutante por ele e, em proporção inversa, uma relação decrescente para o seu líder. Ruhl estava se divertindo demais, pensou. Matar um inimigo era uma coisa, mas continuar a insultar, zombar dele e fingir deixar a tocha cair para, em seguida, puxá-la para trás no último minuto, mostrava um nível de maldade que mesmo um criminoso endurecido não podia tolerar.
Mas Ruhl agora virara em fúria para seu subordinado.
— Você não me diz o que fazer, Anders! — ele gritou, sua voz alcançando um nível agudo pouco abaixo da histeria.
Ele caminhou com raiva até a praia para a fogueira do acampamento, jogando o flamejante ramo para um lado enquanto ia confrontar o homem que o desafiara. Ele estava de pé sobre o homem, gritando insultos contra ele.
Will soltou um suspiro de alívio e se soltou um pouco contra os cruéis laços que o prendiam.
— Ele é meu prisioneiro! — Ruhl gritou. — Quero ouvi-lo gritar! Quero que ele peça por misericórdia! Eu quero ouvi-lo fazer isso e você vai calar a boca. Ou você vai acompanhá-lo. Você... me... entendeu?
O homem recuou. Ele estava em desvantagem, sentado enquanto Ruhl estava de pé sobre ele. Sabia Ruhl era mais do que capaz de cumprir a ameaça que tinha acabado de fazer. Mas ele trabalhava para o Ladrão há alguns meses, e também sabia que se mostrasse fraquezas, poderia ser fatal. Ruhl caçava fraquezas. Além disso, duvidava que seus companheiros apoiariam Ruhl e o amariam à estaca com o arqueiro.
— Isso não vai acontecer, Jory, e é tudo. Eu disse, mate-o e acabe logo com isso...
— Eu vou matá-lo quando eu estiver pronto para isso — Ruhl falou com exagerada precisão e cuidado. — E não quando um batedor de carteiras de terceira como você me dizer. Entendido?
Anders assentiu. Ele tinha mostrado rebeldia suficiente, pensou.
— Se é o que você diz, Jory — ele murmurou.
Ruhl alcançou o garrafão e sentou-se pesadamente, sentado de costas para o prisioneiro amarrado à estaca. Ele não viu que Will cedera com alívio quando sua morte foi adiada mais uma vez.
E não percebeu, também, que um dos afloramentos rochosos disformes que estava cravejado na praia atrás de Will se moveu alguns metros mais perto do arqueiro enquanto ele repreendia seu subordinado.


O coração de Maddie batia contra suas costelas. Ele podia ouvi-lo batendo e se perguntou como os homens da praia não o escutavam.
Ela tinha visto a situação no campo, então rastejara silenciosamente pela trilha da falésia até a praia, perto da entrada da caverna. A partir de lá, havia se movido furtivamente de uma grande rocha para outra, abaixando sob a cobertura quando chegava perto de cada uma. Foi uma benção que a praia estivesse tão cheia de pedras grandes, e que Ruhl tivesse montado a estaca e a fogueira tão longe da praia, e não mais para baixo, onde estava o acampamento. Ela assistiu o ladrão enquanto ele zombava de Will e percebeu como o homem era perigosamente insano.
Mais cedo ou mais tarde, ele cumpriria a ameaça e atearia fogo aos galhos amontoados em volta dos joelhos de Will. E ela sentiu que seria mais cedo. Se ele se virasse para Will de novo, ela acreditaria que o tempo para as ameaças tinha acabado.
Will nunca imploraria, ela sabia. Ela sentiu que se Ruhl deixasse a tocha cair novamente, Will iria morrer.
Ela estava encolhida na praia agora, uma massa disforme sob sua capa, apenas alguns metros atrás de Will. Cautelosamente, ela levantou um canto do capuz. O bando – ou o que restou dele – estava sentado em volta da fogueira. Eles estavam olhando para as chamas, que ela sabia que arruinaria sua visão noturna. Encorajada pela realização, ela rastejou para frente, poucos centímetros de cada vez para evitar ruídos, até que estava exatamente atrás de Will.
Agachando-se, escondida pela pilha de lenha, ela puxou sua faca de caça e cortou rapidamente as cordas em volta de suas pernas.
Ela o sentiu ficar tenso quando a corda caiu e ela se levantou lentamente, permanecendo escondida atrás dele.
— Sou eu. Maddie — ela sussurrou. — Espere um momento e eu vou libertá-lo.
Will gemeu baixinho, tentando suprimir o ruído. Seus braços e pernas haviam sido apertados pelas cordas por horas. enquanto o sangue corria de volta pelas pernas e seus pés dormentes, era pura agonia. Então a faca cortou a corda das mãos e a que estava em volta de sua garganta.
Suas mãos e antebraços também sentiram a dor aguda e insuportável da volta da circulação e ele caiu contra a estaca, incapaz de manter o equilíbrio e deixando escapar um gemido mais alto de agonia. Este último, os homens ao redor da fogueira ouviram. Um deles se levantou.
— O que foi isso?
Ele viu Will oscilar um pouco para longe da estaca, em seguida, seus braços se balançando no ar enquanto ele tentava desesperadamente recuperar o equilíbrio.
— É o arqueiro! Ele está solto!
Pandemônio estourou enquanto eles pegaram suas armas e se esforçavam para levantar. Maddie deixou cair a faca de caça para um lado e apressadamente soltou o estilingue de sua cintura, carregando munição na bolsa de couro.
Inicialmente, cegos pelas chamas brilhantes que estavam fitando, nenhum dos homens de Ruhl notara a forma escura atrás de Will. Mas quando Maddie deu um passo para um lado, o ar balançando suavemente a capa atrás dela, eles a viram e hesitaram.
— Quem é?
— Há alguém com ele!
Só Ruhl reagiu imediatamente. Ele apontou para as duas figuras ao lado da estaca.
— Peguem-nos! Matem-nos!
Mas, quando ele disse as palavras, o primeiro tiro de Maddie chocou-se contra um de seus homens.
Estudando o quadro a partir do topo do penhasco, ela notara que dois deles usavam couraças de couro fervido e ela duvidou que seu arco teria o poder de perfurá-las. Deste modo, optou por usar o estilingue, deixando o arco e a aljava para trás para a descida instável da falésia. Agora, percebeu que tinha feito a escolha certa.
A bola de chumbo, viajando com uma força tremenda, chocou-se contra a couraça de couro logo abaixo do coração do homem, deformando e fendendo o couro, que formou um dente para dentro. A bola não o penetrou, mas o choque do impacto o derrubou. Foi transmitido diretamente e praticamente sem diminuir de intensidade ao corpo do traficante de escravos. Dois reforços cederam e um hematoma enorme começou a se formar imediatamente. Seu coração vacilou, pegou novamente. O homem deu um grito estrangulado e caiu na areia, joelhos para cima, tentando respirar e sentindo a dor do corte em suas costelas enquanto o fazia.
O escravagista ao lado dele mal teve tempo de olhar para o seu companheiro em horror antes do segundo tiro de Maddie acertar-lhe o ombro direito, quebrando os maiores ossos ali, estalando a articulação para além de qualquer possibilidade de cura e o fazendo cambalear. Desmaiando de dor, ele caiu de joelhos, dobrou-se ao meio, depois tombou para o lado, lamentando suavemente.
Os outros três sequestradores pareciam em choque por seus companheiros. Vê-los atingido por uma terrível força, sem verem nada através da escuridão. Eles trocaram um olhar, em seguida, viraram-se e correram, soltando suas armas atrás deles.
Maddie os deixou ir, em busca de Jory Ruhl. Ela tinha mirado nos outros em primeiro lugar, já que estavam armados e, até agora, Ruhl não tinha feito nada além de dar ordens. Agora ela o viu, inclinando-se para recuperar algo perto do fogo. Ele se levantou e ela percebeu que o homem estava segurando um pequeno dardo. Mas ele não estava olhando para ela. Seu olhar estava fixado em Will, que estava recostado contra a estaca, os braços e pernas em agonias terríveis, incapaz de se mover.
O braço direito de Ruhl recuou, em seguida, começou a ir pra frente. Maddie saltou para o lado de Will e empurrou-o para fora do caminho da arma. Ele caiu com um grito assustado para cima da pilha de lenha.
A mão de Maddie foi para a sua bolsa de munição, movendo-se com a precisão automática que vinha com a prática constante. Ela carregava uma bola de chumbo no estilingue quando sentiu um impacto terrível contra seu quadril direito – um impacto que a empurrou alguns passos para trás, seguido por uma explosão de agonia que queimou para baixo em sua coxa.
Ela olhou para baixo e viu que o dardo curto de Ruhl havia acertado sua coxa, logo abaixo do quadril. Sentiu um momento de descrença.
— Eu fui atingida — disse ela, incrédula.
Ela nunca tinha esperado que uma coisa dessas acontecesse. Mas acontecera.
A malévola cabeça farpada estava enterrada no fundo de sua coxa e Maddie sentiu a perna ceder sob ela, incapaz de suportar seu peso. O sangue escorria por sua perna e ela caiu, causando mais agonia enquanto o eixo do dardo batia contra o chão. Rangendo seus dentes contra a dor, ela lutou contra as ondas de náusea que ameaçavam para superá-la. Lágrimas escorriam de seus olhos com a dor e o choque, e ela sentiu-se esvaindo. Ela não conseguia respirar. O trauma terrível da ferida parecia ter paralisado seus pulmões.
Sua visão começou a falhar, até que parecia que ela estava olhando para os eventos através de um túnel longo e estreito, com a escuridão em todos os lados. Ela viu Ruhl inclinando-se para pegar outro dardo do fogo.
Então ele começou a subir a praia em direção a Will. Ela tentou chamá-lo, para ele se orientar, mas nenhum som saiu. Tentou alcançá-lo, e embora ele estivesse a poucos metros, era além do seu alcance.
E então o mundo ficou vermelho e depois preto.
E não havia nada mais.

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